Nunca sabemos quando o racismo dará as caras. No caso de Carlos Ribeiro, de São Paulo, ele apareceu quando ele saiu para tomar sorvete na balada sorveteria Bacio di Latte, no bairro de Moema,Zona Sul de São Paulo.
“Na frente de meu grupo de amigos, todos brancos, independentemente de suas profissões, ou cargos, ou condição social, fui convidado a me retirar da loja, confundido com não sei o que, porque sou negro, segundo palavras do próprio segurança mal treinado que pediu que eu me retirasse da loja”, descreve Ribeiro em seu perfil no Facebook, e ainda acrescenta:
“Uma empresa como a mencionada investe, seguramente, em seus produtos e em sua marca, mas deve investir zero ou muito mal no treinamento de seus colaboradores, daqueles que estão na linha de frente de suas lojas, representando a tal marca que recebe vultosos investimentos. Racismo é crime! “
Carlos enviou e-mails a empresa relatando o ocorrido, mas três dias após a denúncia, ele ainda não tinha obtido resposta.
O dono da Bacio di Latte, apareceu no perfil de Cláudio com aquela conversa de sempre de não admitir racismo, pedir desculpas e estudar providências. Muito diferente do que acontece na StarBucks que usou o caso de racismo para rever toda a política de treinamento de funcionários. E nesse caso específico, o crime foi de racismo mesmo, não injúria, já que Cláudio, ao contrário dos amigos brancos, foi expulso do local somente por ser negro.
Racismo não é confusão ou mal entendido. Expulsar alguém por conta da cor da pele, não é falta de educação, é crime de racismo previsto na lei 7.716/1989, que diz que recusar acesso a estabelecimento comercial ou elevador social por conta da etnia é crime inafiançável e imprescritível. A pena também vai de um a três anos e multa.
O congolês Felix Kaputu completou um ano de residência no Brasil como primeiro escritor refugiado acolhido pelo país, por meio da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Nesta quarta-feira (15), ele é o convidado do ciclo de debates internacional, que acontece no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro.
O ciclo “A palavra fora do lugar: escritores refugiados e em risco” discute temas como: efeito do bilinguismo na escrita de autores levados ao afastamento compulsório do país natal; diálogo entre tradições literárias; confronto, no processo criativo, entre territórios físicos, culturais e linguísticos; conexão com a condição humana, em sua solidão; engajamento político.
Kaputu vem mediante acordo com o ICORN (órgão internacional criado por Salman Rushdie, do “Versos Satânicos” e outros), para proteger escritores em risco), em convênio com Casas Brasileiras (Cabra). Ele passou 12 anos de exilado de sua terra natal, a República Democrática do Congo, onde esteve preso. A ideia é que a vinda dele desperte o interesse de outras instituições em acolher artistas em risco, são cerca de 1000 cadastrados.
Felix é pesquisador sobre África, em particular no campo da opressão em relação às mulheres, HIV e religião comparada. Foi detido ilegalmente, sendo solto após pressão da Anistia Internacional, da comunidade acadêmica internacional e da imprensa, decidiu deixar o país em 2006. É também professor universitário, escritor, doutor em Literatura Inglesa e Literatura Comparada, e atualmente encontra-se como residente na UFMG, devido ao acordo da universidade com a International Cities of Refuge Network (Icorn), uma rede de cidades e regiões que acolhe escritores e artistas refugiados que sofrem com a falta de liberdade de expressão em seus países de origem.
Escritor de livros acadêmicos e de ficção, já publicou Power: exquisite meat! (Xlibris, 2011), Jo-Mary: black free Slave (Xlibris, 2010) e K-Triangle de la mort: descente aux enfers (Presses Universitaires du Nouveau Monde, 2013). Além de falar onze línguas, o congolês já esteve em diversos países e universidades. Lecionou na New York State University, ao pesquisar aids e gênero, e em Tóquio e Kioto atuou em estudos de xamanismo e religiões africanas e japonesas, enquanto no Massachusetss College of Artsand Design ministrou aulas de literatura, filosofia africanas e arte.
Ações afirmativas da era Lula ou programa de diversidade nas grandes empresas? Não há resposta precisa, mas o fato é que negros e pardos avançaram 5,4% na pirâmide social. Ainda estamos muito atrás dos brancos em termos quantitativos, mas é um progresso a ser comemorado.
Essa novidade foi matéria do jornal A Folha de S. Paulo que entrevistou pessoas negras que fazem parte desse grupo que avançou economicamente. Uma das fontes foi Rachel Maia, ex- Pandora que pertence a classe AA, o grupo minoritário composto pelos brasileiros mais ricos.
Os números da pesquisa são do Pnad Contínua Anual, uma pesquisa feito pelo IBGE. Famílias de classe A são aquelas que ganham acima de R$ 14.200 e as classes B, ganham R$4.000 em média mensalmente.
Uma terceira hipótese além da era PT ou ações afirmativas, de acordo com a reportagem, é auto-declaração. Não teríamos mais negros e sim mais pessoas que se identificam como negras.
A verdade é, vemos mais pessoas negras em carros caros, em bons hotéis, restaurantes, com produtos da Apple (um símbolo de ascensão social para muitos), além claro, de mais rostos negros ocupando, mesmo que lentamente, espaços em grandes empresas.
A Rede de Profissionais Negros de São Paulo é um exemplo desse avanço profissional da comunidade negra. Mensalmente eles se encontram para fazer network em espaços sofisticados da capital paulistana. Entre os membros do coletivo, estão homens e mulheres negras em cargos de liderança em multinacionais.
Encontro da Rede de Profissionais Negros (Reprodução Facebook)
O acesso a educação é fator fundamental nessa cenário que tem tudo para crescer ainda mais, ao passo que grandes empresas reconheçam o racismo institucional e ofereçam oportunidades para que profissionais negros capacitados ocupem cargo de lideranças e portanto ganhem melhores salários.
O futuro ainda é mais promissor se pensarmos nos descendentes desse grupo. Se hoje muitos negros de classe A e B ainda têm usar parte da sua renda para ajudar a família, esse provavelmente não será um problema para os seus filhos, que já nascerão em um lar mais próspero. Temos números para sermos otimistas. Sejamos então.
A Faculdade Santa Marcelina, por meio do curso de pós-graduação em Fashion Law, convidou Sonia Maria D´Elboux, advogada, parecerista, perita judicial e assistente técnica nas áreas de propriedade intelectual, direitos da personalidade e direito do entretenimento e da comunicação social, para realizar a palestra “Expressões Culturais Tradicionais e Moda”, que trata sobre Apropriação Cultural. O evento ocorrerá no dia 16 de agosto, às 20h, na Rua Dr. Emílio Ribas, n°89, na unidade de Perdizes da instituição.
A proposta do curso é responder questões como, “Quais são os riscos envolvendo o uso não autorizado de expressões estéticas das comunidades de tradição oral (indígena, afrodescendentes entre outros)?”. Por ser um tema de bastante discussão nos meios acadêmicos, existem muitos questionamentos a cerca de como a lei atua para identificar os limites do que é ou não apropriação cultural.
A área da Moda é parte fundamental nessa discussão, por isso é importante entender qual o papel dos profissionais desse setor. Em sua palestra, Sonia, conhecida pelos seus trabalhos acadêmicos sobre a questão, explicará as diretrizes do direito da Moda em relação ao assunto.
O curso é destinado aos alunos de Moda, Direito e áreas correlatas, além de advogados e gestores políticos, a palestra é gratuita e aberta ao público externo. Para se inscrever é preciso enviar e-mail para eventos.fasmper@santamarcelina.edu.br, informando nome completo, RG e CPF. Mais informações: (11) 2898-7498.
Tão desonesto quanto culpar a saia curta da vítima pelo seu estupro, é desviar a responsabilidade do racismo, dos racistas para os próprios negros. Assim como a novela da filha do Silvia Santos, Iris Abravanel. “As aventuras de Poliana” mostrou em uma cena que gerou um bafafá nas redes sociais, muitas pessoas negras reproduzem esse discurso (criado por brancos), jogando a batata quente de um negro para outro e isentando pessoas brancas racistas, dos seus erros.
Na cena, a aluna negra Kessya ( a talentosa Duda Pimenta) é chamada pela coordenadora da escola Helô (Eliana de Souza) após encontrarem o nariz de uma escultura vandalizada por outros alunos em sua mochila. A acusação era de que Kessya teria quebrado a escultura e guardado parte da peça com ela mesma. A aluna negra acha que a falsa acusação foi racismo, mas a coordenadora diz, docemente, que é coisa da cabeça dela.
Vídeo da cena em que a coordenadora negra ensina a menina que o racismo é culpa dos negros. A branquitude se aproveitando da nossa imagem para reproduzir e propagar o seu discurso racista, fugindo da responsabilidade pelos seus atos.Com todo respeito ao trabalho das atrizes Duda Pimenta, que interpreta a menina Késsya, e Elina de Souza, representando a coordenadora Helô, essa cena é apropriação da nossa imagem negra para reprodução de um discurso racista branco, que vem da escritora da novela Iris Abravanel, da sua equipe de roteiristas, da direção e produção desta novela que não questionaram a violência sombólica e psicológica desse tipo de cena. Deslegitimar a percepção de uma menina negra da situação de racismo que ela viveu e ainda, "ensinar" a essa criança que o racismo é culpa dos negros que se enxergam diferente dos outros e que não se valorizam a partir da voz de uma mulher negra é mais uma vez violentar a nossa subjetividade e nos colocar como responsáveis por um sistema de exclusão criado e mantido para garantir o provilégio branco. Por ser uma novela voltada para o público infantil, essa cena se torna ainda mais problemática, porque ofende as crianças negras que assistem e as induz a adotar uma postura passiva diante do racismo na escola. Quem propaga o racismo, diferente do que foi falado na cena, são os próprios racistas, que ocupam os espaços de poder, escrevem novelas e utilizam nossa imagem negra para legitimar seus discursos de ódio.
A filosofia do pior racista é o próprio negro tem algumas vertentes a serem analisadas. A primeira é de que negros veem racismo em tudo, como se os índices sociais que mostram que a comunidade negra é a base da pirâmide social, a maioria dos desempregados, analfabetos, e as maiores vítimas de violência (homicídio e feminicídio) fossem frutos da nossa imaginação.
Avançamos sim, mas se na pirâmide social, um homem branco ganha mais que o dobro que a mulher negra que está na base, convenhamos que a igualdade é distante. Para ser exato, de acordo com o Instituto Ethos, ela não chega em menos de 150 anos.
A segunda vertente é de que negros brigam entre si, se prejudicam entre si, são racistas entre eles. Uma teoria que parece muito com as premissas da Carta de Lynch, que era basicamente um plano maldito para que negros escravizados não se entendessem. Acontece que nem todos os brancos se entendem, nem todas as mulheres, nem todos os Corintianos e obviamente, nem todas as pessoas negras. Porém na tentativa de desmoralizar o nosso direito à um debate intrarracial, há quem diga que brigamos por sermos racistas com nós mesmos. Isso é uma técnica que a branquitude usa para silenciar nossos debates.
A terceira vertente, usada pela coordenadora da escola da novela é que para nos vermos como iguais aos outros, precisamos fechar os olhos para o racismo. Se não falamos sobre ele, ele não existe, certo? Errado. Pessoas brancas racistas precisam ser confrontadas e punidas pelos seus atos, porque é assim que o mundo melhora.
Na cena da novela infantil do SBT, que chega ser horripilante, Kessya, tem uma visão muito lúcida, que sua cor gera suspeitas, mas seus protesto foi silenciado, se tornou paranoia, coisa da cabeça da criança. Isso é um perigo.
Mais uma vez a falta de um toque negro no roteiro, resultou em uma cena que pode ter gerado um estrago na cabeça de crianças negras e brancas, e até mesmo nos adultos desinformados.
Racismo não é ficção, nem paranoia. Quisera estivesse somente em nossa mente, como um pesadelo que cessa assim que abrimos os olhos. Não funciona assim e a Kessia está correta, a culpa é sempre dos racistas.
Vivemos um momento histórico no Brasil onde a comunidade negra está assumindo sua negritude, sem perder o foco em seu desenvolvimento profissional. Temos novas narrativas para além da história das vítimas de preconceito, ou áreas onde já somos mestres, como música e esporte, porém ainda somos raros em cargos de liderança.
Com o objetivo de mostrar na prática, como os negros no Brasil estão avançando profissionalmente, a nova campanha do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR) chamada “Você me Conhece” discute a falta de diversidade em altos cargos. Segundo pesquisa do Instituto Ethos, 1% é o percentual de mulheres negras e 5% de homens negros em cargos executivos.
Participaram da ação de lançamento da campanha a jornalista Glória Maria, a médica Katleen Conceição, o diretor executivo da AEGEA Josélio Raymundo, o rapper Jota Jr., a advogada Ana Carolina Lima, o dramaturgo Elísio Lopes e a diretora executiva do ID_BR, Luana Génot.
“Queremos mostrar que os profissionais negros precisam de mais visibilidade e oportunidades para potencializar suas carreiras e que as empresas têm um papel fundamental para mudar esse cenário”, explicou Luana Génot, diretora executiva do ID_BR.
Luana acredita que as empresas mais alinhadas com a realidade do Brasil, onde 54% da população é negra (IBGE), estão a frente no mercado. “O protagonismo na mudança desse cenário também se traduz em valor de mercado. Uma empresa com mais diversidade racial tem uma vantagem competitiva comparada as que ainda não priorizam a pauta ”.Os são de uma pesquisa da McKinsey & Company que revelam que empresas com índices altos de diversidade de raça têm 35% mais probabilidade de obter resultados acima da média.
Campanha quer te conhecer também
“Não conhecemos bons profissionais negros”. Para que essa afirmação não seja mais uma desculpa racista, para que população negra não ocupe cargos de liderança, o ID_BR convida á todos e todas para gravar um vídeo para a campanha “Você me conhece”. Basta seguir o roteiro abaixo e compartilhar usando a hashtag #vocemeconhece e #simaigualdaderacial
A edição histórica da Vogue com a Beyoncé é linda pelas fotos, mas a beleza mesmo está no depoimento da cantora, que revelou informações inéditas sobre suas dificuldades como parto e questões com o próprio corpo.
Todos esses aspectos do texto escrito pela própria cantora foram repercutidos em vários veículos, mas o que me chamou a atenção é o destaque que ela dá ao empoderamento negro e a importância da referência negra para os seus filhos.
Ela mesma tem sido uma criadora de referências para nós comunidade negra, com suas canções feministas no passado e mais recentemente, com seus últimos álbuns Lemonade e Everything is Love, projetos carregados de amor negro e provocações políticas, mas ela quer mais.
A filosofia “Black Bill Gate in the making” (Formation), se aplica na vida particular de Beyoncé que valoriza as influências negras fora do mundo artístico para seus herdeiros para que eles sonhem alto.
“Minha mãe me ensinou a importância não apenas de ser vista, mas de me ver. Como mãe de duas meninas, é importante para mim que elas também se vejam – em livros, filmes… É importante para mim que elas se vejam como CEOs, como chefes, e que elas saibam que podem escrever o roteiro de suas próprias vidas – que podem falar o que pensam”, escreve a cantora em seu texto em primeira pessoa.
Ela também não esqueceu do seu filho, Sir Carter. “Eu espero ensinar meu filho a não ser vítima do que a internet diz que ele deveria ser ou como ele deveria amar. Eu quero criar melhores representações para ele, de modo que ele possa atingir seu pleno potencial como homem, e ensiná-lo que a verdadeira magia que ele possui no mundo é o poder de afirmar sua própria existência”.
Para nós negros, não importa a classe social, precisamos de referência e também de lembrar dos que vieram antes de nós e abriram portas, afinal estamos sendo finalmente os contadores da nossa própria história e personagens vencedores dela também.
Com o objetivo de denunciar uma série de violências cometidas contra a religiosidade negra, mantendo o foco no julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 494601 do Ministério Público do Rio Grande do Sul, que será votado pelo Superior Tribunal Federal, na quinta-feira (9), para contestar a legitimidade da lei gaúcha que, em 2004, declarou legal e constitucional o abate religioso, nas religiões afro-brasileiras, será realizada a Marcha das Religiões Afro-brasileiras pela Liberdade Religiosa, na quarta-feira (8), com concentração marcada para às 18h, no Vão do Museu de Arte de São Paulo (MASP).
A marcha, convocada por adeptos do candomblé e outras tradições de matriz africana tomará a Avenida Paulista no dia dedicado a Xangô, Orixá da justiça. Em São Paulo, são esperadas cerca de 3 mil pessoas, entre religiosos e ativistas dos direitos humanos. Cidades como, Rio de Janeiro, Salvador e Londrina confirmaram apoio e marcha em repúdio ao RE 494601 e ao racismo religioso.
De acordo com a organização da Marcha, “o Recurso representa um atentado direto à laicidade e ao Estado Democrático de Direito e ainda afirmam que se trata de racismo, pois o objetivo do RE não é o fim do abate religioso, uma vez que o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de carne sacralizada das Américas e legitima o abate destinado aos rituais religiosos muçulmanos“.
Sensibilizando o STF
Na última quinta feira (2), os advogados Hédio Silva Junior, Antônio Basílio Filho, Jáder Freire de Macedo, Demétrius Barreto Teixeira e Júlio Romário da Silva, representantes das religiões afro-brasileiras, entregaram, nos gabinetes de todos os ministros do Supremo Tribunal Federal, um parecer jurídico sustentando a legitimidade, legalidade e constitucionalidade do abate religioso de animais.
Em vídeo, o Ex-Secretário de Justiça do Estado de São Paulo, Dr. Hédio Silva Junior, explica o histórico da ação
“Essa luta é de todo aquele que luta por igualdade de direitos, e por um estado laico de verdade, e por isso é importante que todos e todas somem esforços e repudiem o que pode ser mais um página de retrocesso na história da democracia brasileira”, alertam os organizadores e reforçam o chamado.
Na novela, As Aventuras de Poliana, a atriz Maria Gal interpreta a Gleice, uma mãe negra, trabalhadora, honesta e que sonha com um futuro grandioso para os seus filhos. Sim, ela faz parte do núcleo mais pobre da novela do SBT, trabalha como doméstica, mas sua personagem é rara por interpretar a matriarca de uma família completa, com pai presente e filhos, filhos estes que estudam em um ótimo colégio e têm um bom destaque na trama, assim como a Gleice. “Muitas têm deixando mensagens na página do Facebook da emissora falando como gostam das personagens do núcleo”, detalha a atriz.
Conversamos a atriz sobre famílias negras na TV, logo após a polêmica campanha do dia dos pais da marca O Boticário.
Mundo Negro: Você se lembra de alguma família negra na teledramaturgia que tenha te tocado?
Maria Gal: Família negra, pensando em novela em confesso que eu não lembro de alguma que tenha me tocado. Lembro de outros tipos de produções, mas não uma novela.
Por que você acha que não somos retratados como uma família normal e harmoniosa?
Essa questão está muito associada a um determinado padrão de pensamento inconsciente. É como se o negro não tivesse o lugar do afeto. Até no cinema, não temos comédias românticas protagonizadas por casais negros. É como esse lugar do afeto não fosse permitido para o negro. Os temas que estão alinhas à questão racial são sexo, violência, samba, mas afeto não.
E por que essa dissociação com negros e afetividade acontece?
Acho que tudo isso está muito no inconsciente coletivo porque infelizmente a gente viveu o mito da democracia racial por muito tempo. Questões tão urgentes que a gente está discutindo, falando e expressando agora, como a questão do empoderamento negro, feminino, colorismo, eram pare ter sido a discutidas há anos atrás, e falamos disso agora, em 2018.
A novela As Aventuras de Poliana, passa durante a semana no SBT às 20h45.
O 20º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte (FESTCURTASBH) traz como tema principal o Cinema Negro. O evento, organizado pela Fundação Clóvis Salgado, será realizado de 10 a 19 de agosto, no Cine Humberto Mauro, na Sala Juvenal Dias e no jardim interno do Palácio das Artes, em Belo Horizonte (MG). A entrada é gratuita, com distribuição de ingressos 30 minutos antes de cada sessão.
A programação do Festival contará com sessões de cinema, seminário, oficinas e show. Ao longo de dez dias, o público terá acesso a uma amostra representativa da atual produção cinematográfica nacional e internacional em curta-metragem.
Este ano, o Festival exibirá 138 filmes, de 70 países e doze estados brasileiros, distribuídos ao longo de mais de 65 sessões. A 20ª edição do FESTCURTASBH recebeu 2.518 inscrições, sendo 405 brasileiras e 2.113 estrangeiras.
O Festival visa valorizar a produção curta-metragista em seus diversos contextos e abordagens, possibilitando reflexões sobre a contemporaneidade, permitindo ao público acompanhar como as produções têm expressado de forma inquieta e inventiva os processos históricos, urgentes e emergentes.
A coordenadora de Programação e Curadoria do Festival, Ana Siqueira, comenta a importância da temática e como ela será tratada no evento. “Com a fundamental participação do curador e crítico Heitor Augusto, o FESTCURTASBH volta seu olhar tanto para a pujante produção recente de cineastas negras e negros, quanto para a história dessa produção, largamente desconhecida e vítima da invisibilização que tem tradicionalmente acometido as diversas expressões artísticas e culturais da população negra no Brasil”.
Ana ainda aponta quais reflexões a organização espera provocar no público a partir dos filmes exibidos nessa edição. “Desejamos que o público tenha acesso a essa filmografia, e às discussões em torno dela, nas sessões, seminário e debates, permitindo o engajamento em torno do cinema negro de forma mais complexa. Dessa forma, buscamos contribuir para se pensar como esses trabalhos são realizados estética e politicamente, trazendo uma série de implicações para nosso olhar, nossa forma de perceber os filmes, além dos necessários questionamentos de como a história do cinema é construída, nunca de forma neutra, sempre atravessada pelos diversos processos políticos e sociais em curso”.
MOSTRAS ESPECIAIS
O FESTCURTASBH apresenta em 2018 três mostras especiais que se dedicam ao Cinema Negro. A primeira, voltada para a produção brasileira, com curadoria do pesquisador e crítico paulista Heitor Augusto, é “Cinema Negro: Capítulos de uma História Fragmentada”. A seleção, que está dividida em cinco programas (Família, Genocídio, Raízes, Diáspora e Corpo), reunirá 25 curtas realizados entre 1973 e 2018, a fim de esboçar uma possível árvore genealógica do cinema negro no Brasil.
INÉDITOS
As duas outras mostras especiais do 20º FESTCURTASBH permitirão ao público conhecer a obra de duas cineastas negras de diferentes países e gerações, cujos trabalhos serão exibidos pela primeira vez no Brasil.
A Mostra “Akosua Adoma Owusu” apresenta nove filmes da premiada cineasta e produtora ganesa-americana, cujo trabalho circula em festivais de cinema, museus, galerias, universidades em todo o mundo desde 2005. Seus filmes abordam questões relacionadas à cultura negra, atravessadas por outros temas como feminismo, queerness e imigração.
Já a Mostra “Tributo a Safi Faye” será dedicada à diretora de cinema e etnóloga senegalesa, que foi a primeira realizadora negra africana a dirigir filmes e lançá-los comercialmente. Serão duas sessões especiais apresentando curtas raramente exibidos e que expressam a força do trabalho dessa pioneira, atuante desde os anos 1970. Ao longo de sua carreira, Safi Faye dirigiu vários documentários e filmes de ficção com foco na vida rural no Senegal.
Akosua Adoma Owusu estará presente para comentar a sessão e debater com o público, Já as sessões do Tributo a Safi Faye contarão com o comentário da pesquisadora e curadora Janaína Oliveira, que tem desenvolvido um importante trabalho de discussão e difusão do cinema negro no Brasil, além de ser fundadora coordenadora do Fórum Itinerante de Cinema Negro (FICINE).
MOSTRAS COMPETITIVAS E PARALELAS
As já Mostras “Competitivas Minas, Brasileira e Internacional“, que trazem produções recentes nacionais e estrangeiras, premiarão os melhores curtas com prêmios em dinheiro e o Troféu Capivara. Os resultados serão anunciados no dia 19 de agosto, com a exibição dos curtas-metragens premiados no festival.
Numa seleção que propõe outras formas de articular debates em torno dos filmes contemporâneos, as mostras paralelas Atravessamentos – memória da matéria, acessos alterados; Extravasamentos – torções do artifício, maneiras de saltar e Mulher – Corpo Político abordam e friccionam temas que incidem fortemente no presente, mesmo quando recorrendo à memória: à guerra, à diáspora, à política dos corpos, às torções do artifício ou à necessidade de reparação histórica.
O público poderá conferir ainda as já aguardadas mostras Juventudes, Animação e Infantil, com curtas voltados para o público infanto-juvenil e Maldita, com filmes que exploram o horror, o terror e o humor negro e abordam de forma diferenciada diversos temas.
CABINES DE EXIBIÇÃO
Todos os filmes exibidos no FESTCURTASBH (exceto das Mostras Especiais) serão disponibilizados também em cabines individuais durante todo o evento. As cabines serão instaladas na antiga livraria do Palácio das Artes e sua utilização é gratuita.
OFICINAS E SEMINÁRIO
No festival também acontecerá algumas atividades formativas. “Filme como arte colaborativa – Oficina híbrida de mídia e performance” será ministrada pela realizadora norte-americana Lynne Sachs. A “Oficina de Crítica de Cinema – Por um deslocamento do olhar”, será realizada pela pesquisadora e crítica de cinema pernambucana Carol Almeida. E o Seminário “O negro e o cinema brasileiro: Representação e Representatividade, Presenças e Ausências”, terá como ministrante o crítico de cinema Heitor Augusto.
ABERTURA E PROGRAMAÇÃO ARTÍSTICA
A abertura acontece na próxima sexta-feira, dia 10 de agosto, contará com uma sessão dos filmes no Cine Humberto Mauro às 20 horas. Dialogando com a temática central do evento, a atração musical será o Bala da Palavra. A apresentação será às 22h30, no Jardim Interno do Palácio das Artes. Entre o fim do filme e o show, haverá discotecagem. Os ingressos tanto para a sessão de cinema quanto para o show poderão ser retirados a partir das 19h30, na bilheteria do Cine Humberto Mauro, mas sujeito a lotação dos espaços.
Unindo tambores melodias e rimas, o projeto Bala da Palavra propõe um mergulho na alma da música popular brasileira. O show traz releituras de grandes mestres da MPB como João Bosco, Chico Buarque, Milton Nascimento, Clementina de Jesus, Caetano Veloso, Marku Ribas, entre outros. Entre o rap, o baião, o ijexá, o reggae, o maracatu e o jongo, a magia das canções se desenrola tocando forte no público.
As informações sobre os filmes e programação completa estão disponíveis no site oficial: http://festivaldecurtasbh.com.br.
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