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OMS mantém status de emergência global para mpox

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Foto: REUTERS/Jean Bizimana

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, anunciou nesta sexta-feira (22) que a mpox segue figurando como emergência em saúde pública de importância internacional. Em seu perfil na rede social X, ele destacou que a decisão foi tomada após reunião do comitê de emergência convocada para esta sexta-feira (22).

“Minha decisão baseia-se no número crescente e na contínua dispersão geográfica dos casos, nos desafios operacionais e na necessidade de montar e sustentar uma resposta coesa entre países e parceiros”, escreveu.

“Apelo aos países afetados para que intensifiquem suas respostas e para que a solidariedade da comunidade internacional nos ajude a acabar com os surtos”, concluiu Tedros.

Entenda

Em agosto, a OMS decretou que o cenário de mpox no continente africano constituía emergência em saúde pública de importância internacional em razão do risco de disseminação global e de uma potencial nova pandemia. Este é o mais alto nível de alerta da entidade.

Em coletiva de imprensa em Genebra à época, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, destacou que surtos de mpox vêm sendo reportados na República Democrática do Congo há mais de uma década e que as infecções têm aumentado ao longo dos últimos anos.

Em julho de 2022, a entidade havia decretado status de emergência global para a mpox em razão do surto da doença em diversos países.

A doença

A mpox é uma doença zoonótica viral. A transmissão para humanos pode ocorrer por meio do contato com animais silvestres infectados, pessoas infectadas pelo vírus e materiais contaminados. Os sintomas, em geral, incluem erupções cutâneas ou lesões de pele, linfonodos inchados (ínguas), febre, dores no corpo, dor de cabeça, calafrio e fraqueza.

As lesões podem ser planas ou levemente elevadas, preenchidas com líquido claro ou amarelado, podendo formar crostas que secam e caem. O número de lesões pode variar de algumas a milhares. As erupções tendem a se concentrar no rosto, na palma das mãos e na planta dos pés, mas podem ocorrer em qualquer parte do corpo, inclusive na boca, nos olhos, nos órgãos genitais e no ânus.

Texto: Paula Laboissière/Agência Brasil*

Prefeitura de São Paulo cria ferramenta de atendimento on-line para denúncias contra homofobia e combate ao racismo

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A Secretaria de Participação e Parceria (SMPP), a Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual (Cads) e a Coordenação dos Assuntos da População Negra (CONE), em parceria com a Coordenadoria de Inclusão Digital (CID) disponibilizam a partir do dia 08 de novembro uma ferramenta de serviço à sociedade para o registro on-line de denúncias de combate à homofobia e crimes de racismo.

Como denúncias deverão ser feitos através do preenchimento do formulário disponível no site da SMPP (www.prefeitura.sp.gov.br/smpp). O acesso a essa ferramenta pode ser feito em todas as unidades de Telecentros de São Paulo.

A nova ferramenta visa facilitar o atendimento a esse público, para que assim o Poder Público possa agir coibindo atos discriminatórios contra a população negra e a população LGBT e também elaborar políticas públicas de proteção a esses grupos.

Ao fazer a denúncia, é preciso que especifique detalhes dos fatos ocorridos como: local, horário, pessoas envolvidas, o tipo de discriminação que ausidade e outras informações que julgaram relevantes. Todas as informações encaminhadas são sigilosas, nos termos da lei.

Atualmente, a SMPP disponibiliza esses serviços no Centro de Referência em Direitos Humanos de Prevenção e Combate à Homofobia, localizado no Pateo do Colégio, 5 – 1º andar e no Centro de Referência em Direitos Humanos de Prevenção e Combate ao Racismo, também, localizado no Pateo do Colégio, 5 – 2º andar.

Para a utilização dos Telecentros é necessário agendar um horário via telefone ou pessoalmente. Acesse o site do Telecentro e escolha uma unidade mais próxima de você.

Receitas juninas que contam histórias e preservam memórias

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Curau de Milho
Foto: Magnific

As festas juninas ocupam um lugar especial na memória afetiva de muitas famílias brasileiras. Esse período também é um encontro com sabores que atravessam gerações e ajudam a preservar histórias, territórios e identidades.

Preparações à base de milho, mandioca e coco presentes em diferentes regiões do país,  guardam lembranças de infância,  ensinamentos transmitidos por pais e avós e resistem como formas de celebrar a cultura popular ao longo do tempo.

Para marcar o período junino, o Mundo Negro convidou os chefs Gerson Fernandes, Bianca Oliveira e Ronaldo Assis para compartilhar receitas juninas que ocupam um lugar especial em suas vidas e os fazem relembrar de momentos especiais celebrando a tradição e o afeto em família. Entre curau, lelê e pamonha, os relatos revelam como cozinhar também é uma forma de preservar memórias e fortalecer vínculos.

Curau de milho: uma colherada de tradição

Para o chef Gerson Fernandes, o curau de milho representa a essência da cozinha brasileira.

“O curau de milho vai muito além de uma simples sobremesa. Ele representa a essência da cozinha brasileira, aquela que nasce da terra, das colheitas, das festas populares e das receitas passadas de geração em geração.”

Segundo ele, o milho ocupa um papel central na cultura alimentar do país e, especialmente durante as celebrações juninas, se transforma em símbolo de encontro e partilha.

“O milho sempre teve um papel fundamental na nossa cultura alimentar. Seu aroma, sua textura cremosa e seu sabor marcante têm o poder de nos transportar para momentos de união, simplicidade e alegria.”

Para o chef, manter receitas como essa vivas é também uma forma de preservar a identidade da gastronomia brasileira.

“Cada colherada carrega história, tradição e o respeito pelos ingredientes que fazem parte da formação da gastronomia brasileira.”

Receita

Ingredientes

  • 4 espigas de milho
  • 500 ml de leite
  • 250 g de açúcar
  • 60 g de manteiga
  • 1 pitada de sal
  • 200 ml de leite de coco
  • Leite condensado a gosto
  • Canela em pó a gosto

Modo de preparo

1. Retire os grãos das espigas de milho e coloque-os no liquidificador com o leite.

2. Bata por 3 a 5 minutos até obter uma mistura homogênea.

3. Passe por uma peneira fina ou voal, pressionando bem para extrair o líquido.

4. Leve o líquido ao fogo médio com açúcar, manteiga, sal e leite de coco.

5. Mexa constantemente por cerca de 20 a 30 minutos, até engrossar.

6. Desligue o fogo e acrescente o leite condensado a gosto.

7. Distribua em travessas ou porções individuais.

8. Deixe esfriar e leve à geladeira por pelo menos duas horas.

9. Finalize com canela em pó.

 Pamonha de carimã: o sabor marcante do lar 

Quando pensa em São João, o chef Ronaldo Assis pensa imediatamente em Conceição do Jacuípe, conhecida popularmente como Berimbau, cidade que guarda parte importante de suas lembranças afetivas.

“Quando penso em São João, penso em Conceição do Jacuípe, minha amada Berimbau. Minha terra do coração.”

Para ele, a pamonha de carimã é capaz de reunir em um único sabor as sensações que acompanham o período junino, e o conecta com as memórias da avó e aos momentos compartilhados na cozinha.

“Quando como pamonha de carimã, penso no engarrafamento na BR, no reencontro com os familiares, no cheiro da folha de bananeira e naquela sensação boa de que chegou a melhor época do ano.”

Para Ronaldo, algumas receitas permanecem especiais justamente porque carregam a presença de quem veio antes.

“Toda vez que abro uma folha ainda morna e sinto aquele perfume escapar, volto para a cozinha da minha avó, para Berimbau e para a certeza de que o São João chegou.”

Receita

Ingredientes

  • 500 g de carimã (puba) peneirada
  • 250 ml de leite de coco fresco
  • 100 g de açúcar
  • 70 g de manteiga derretida
  • 5 ml de água de flor de laranjeira
  • 80 g de coco seco em cubos
  • 1 pitada de sal
  • Folhas de bananeira

Modo de preparo

1. Misture metade do leite de coco com a água de flor de laranjeira, açúcar e sal.

2. Acrescente o carimã aos poucos.

3. Adicione o restante do leite de coco gradualmente.

4. Incorpore o coco em cubos.

5. Acrescente a manteiga derretida e misture bem.

6. Deixe descansar por cerca de 20 minutos.

7. Passe as folhas de bananeira pelo fogo.

8. Modele os cilindros com as folhas e recheie com a massa.

9. Feche bem as extremidades.

10. Cozinhe em água fervente por aproximadamente 30 minutos.

Lelê: a receita ancestral que atravessa gerações

Para a chef Bianca Oliveira, o lelê de milho quebradinho representa uma herança familiar. A receita foi transmitida por seu pai, Sr. Natalício Borges, e segue ocupando um lugar especial nas celebrações da família.

Preparado com milho branco quebradinho, coco e canela, o doce é uma das receitas tradicionais presentes em diferentes comunidades afro-brasileiras, especialmente durante os festejos juninos.

Receita: Lelê de Milho Quebradinho

Ingredientes

  •  500 g de milho branco quebradinho
  •  1 litro de leite de coco
  •  100 g de coco em lascas
  •  100 g de coco ralado
  •  150 a 200 g de açúcar
  •  1 pau de canela
  •  1 colher de sopa de manteiga

Modo de preparo

1. Lave o milho e deixe de molho de um dia para o outro.

2. Escorra a água e coloque o milho em uma panela.

3. Adicione gradualmente o leite de coco, o coco em lascas, o coco ralado, o açúcar e a canela.

4. Cozinhe em fogo médio, mexendo regularmente.

5. Acrescente mais leite de coco conforme necessário.

6. Cozinhe até o milho ficar completamente macio.

7. Quando atingir uma consistência firme, acrescente a manteiga.

8. Misture bem e desligue o fogo.

9. Transfira para uma travessa e deixe esfriar.

10. Corte em quadrados antes de servir.

As histórias compartilhadas pelos chefs mostram que a culinária junina também é uma forma de preservar e fortalecer laços afetivos e familiares. Afinal, algumas comidas não alimentam apenas o corpo: elas mantêm vivas as memórias de quem somos e de onde viemos.

Morre Dana David, cantora do Filosofia Reggae

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Foto: Bruno Churuska

Faleceu nesta quinta-feira (11) a cantora Danusa de Paula David, mais conhecida como Dana David. Uma das vozes mais potentes do reggae nacional, Dana era integrante do grupo Filosofia Reggae, onde começou sua trajetória artística com 18 anos.

A notícia da sua partida foi confirmada pelo perfil oficial do grupo nas redes sociais na manhã de hoje (12), que expressou o profundo sentimento de perda da comunidade musical: “É com muito pesar e dor em nossos corações que comunicamos o falecimento da nossa amada irmã e parceira de estrada, Danusa de Paula David, a Dana David. Pedimos que compreendam e respeitem esse momento de dor até que tenhamos todos os detalhes para a sua despedida.” A causa da morte não foi revelada.

Em outro comunicado emitido nesta tarde, as integrantes do grupo informaram que, devido aos trâmites de tempo e horário do falecimento, a cerimônia de despedida será curta e realizada em sua cidade natal, São Caetano do Sul (SP).

“Ficaremos gratas por todos aqueles que puderem dispor do seu tempo para prestar essa última homenagem para Dana!”, concluiu a banda na publicação.

Confira os detalhes para quem puder prestar as últimas homenagens:

  • Velório: Sexta-feira, 12/06, às 15h
    • Endereço: Hospital São Caetano – Rua Rio Grande do Sul, 790, São Caetano do Sul – SP
  • Sepultamento: Sexta-feira, 12/06, às 16h30
    • Endereço: Cemitério Municipal da Saudade – Av. Eng. Armando de Arruda Pereira, s/n, São Caetano do Sul – SP

Com músicas de sucesso como “Sentimento bom” e “Se o dia não terminar”, o grupo Filosofia Reggae surgiu nos anos 2000, formado pelas irmãs Dana David, Domênica de Paula David (Dodo) e Daiane de Paula David (Nina Roots).

Por que as mulheres negras estão voltando a alisar os cabelos? Liberdade de escolha ou retrocesso estético?

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Mulheres negras com diferentes texturas de cabelo e itens de alisamento
Créditos: Divulgação

Por: Nossa Pele Negra (Gleidistone Silva e Alessandra Silva) e Site Mundo Negro (Silvia Nascimento e Halitane Rocha)

Você está rolando a tela e, aos poucos, começa a notar um movimento. Nos vídeos do TikTok e nos Reels do Instagram, o mesmo tipo de conteúdo se repete: mulheres crespas e cacheadas voltando a alisar o cabelo. Algumas interromperam a transição, outras já tinham passado por ela há anos, mas agora parecem compartilhar algo em comum: a preferência pelos fios lisos. O que parecia ter ficado no passado, após o movimento de transição capilar que ganhou força na última década, ressurge agora.

Os dados ajudam a ampliar essa percepção. No Google Trends, o interesse por termos como “alisamento de cabelo crespo” e “alisamento de cabelo cacheado” nunca desaparece, ele oscila. Esse cenário também dialoga com o retorno de estéticas dos anos 2000, com referências de cabelo liso voltando à cena.

Mas afinal, estamos diante de uma nova mudança estética ou de um ciclo que já conhecemos?

Influenciadora Preta Araujo (Foto: Divulgação)

Do “black is beautiful” à estética livre: uma breve linha do tempo

A relação entre a mulher negra e seu cabelo é atravessada por séculos de resistência e imposições. Para entender onde estamos, é preciso olhar para trás:

  • 1858 | O despertar do “black is beautiful”: Em Boston, o abolicionista americano John Swett Rock proferiu um dos primeiros discursos registrados exaltando as características físicas negras. Este marco é considerado a base intelectual para a expressão que, décadas depois, se tornaria um hino de orgulho racial.
  • 1870 – 1920 | A era do pente quente: O uso de técnicas de alisamento por calor, como o hot comb (pente quente), consolida-se como prática comum, sendo amplamente adotado por mulheres negras nos EUA durante o início do século XX como forma de conformação aos padrões vigentes.
  • 1930 – 1950 | O alisamento como padrão: O alisamento ganha força sistêmica nos Estados Unidos. Tanto por métodos térmicos quanto pela introdução de relaxantes químicos, a manipulação do cabelo crespo torna-se o padrão estético praticamente obrigatório em diversos contextos sociais.
  • 1930 | A resistência rastafári: Paralelamente às pressões de alisamento, surge o movimento Rastafári. Mais que um dogma religioso, o movimento utiliza a estética — especialmente as roupas coloridas e os dreadlocks — como símbolo de resistência ao colonialismo e rejeição direta aos padrões eurocêntricos, popularizados globalmente pela figura de Bob Marley.
  • 1960 – 1970 | Black Power e orgulho negro: Em 1966, durante a luta pelos direitos civis nos EUA, o movimento Black Power transforma o cabelo afro em símbolo central de identidade e resistência, com figuras icônicas como Angela Davis e Elaine Brown à frente. No Brasil, esse reflexo fortalece o surgimento dos “salões étnicos”, espaços dedicados a valorizar o crespo.
  • 1980 – 1990 | O reinado da química: O alisamento reafirma-se como a norma estética dominante, consolidando produtos químicos nas prateleiras e nos salões como o caminho para o “cabelo aceitável”.
  • Anos 2000 | A conexão digital: O surgimento dos primeiros fóruns de internet permite que mulheres negras comecem a trocar informações sobre cuidados, quebrando o isolamento e iniciando discussões sobre a valorização do natural.
  • 2010 – 2015 | O boom da transição capilar: O movimento ganha escala global. A transição capilar deixa de ser uma escolha isolada para se tornar um fenômeno cultural de retorno à textura natural.
  • 2016 – 2019 | Identidade política e representatividade: O cabelo natural consolida-se como símbolo de identidade racial e autoestima. Práticas como o Big Chop, uso de tranças, twists e dreads ganham força, enquanto a cultura pop, com o filme Pantera Negra, projeta a estética afro globalmente, validando-a em espaços de prestígio.
  • 2023 – 2026 | A era da estética livre: Vivemos um momento onde as fronteiras entre o natural e o alisado se tornam fluidas. Embora a diversidade de estilos seja maior, o cenário é marcado por uma tensão constante entre a liberdade individual de escolha e a persistência de pressões sociais que ainda tentam ditar a estética da mulher negra.
Influenciadora Mannu Viana (Foto: Divulgação)

A complexidade em torno do cabelo crespo e cacheado não é apenas uma percepção individual, mas um fenômeno mapeado por estudos recentes que expõem as tensões sociais vivenciadas pela mulher negra brasileira. Os dados confirmam essa percepção. 

A marca Seda, em parceria com o Instituto Sumaúma e a agência Pretas, conduziu o estudo “Cabelos Sem Limites, Como Nós” para explorar o papel fundamental dos fios naturais na vida dessas mulheres. Os dados, coletados com 1.001 mulheres pretas e pardas de 18 a 50 anos nas capitais Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, revelam um cenário de dualidade:

  • Oito em cada dez mulheres entrevistadas consideram seus cabelos crespos e cacheados como uma ferramenta essencial de expressão pessoal.
  • Para 55% das participantes, os fios possuem uma importância extrema em relação à sua própria identidade.
  • Apesar desse protagonismo, o estudo destaca que quase 70% dessas mulheres ainda sentem uma forte pressão social para alisar os cabelos.

Esse contraponto entre o orgulho de se expressar e a imposição de padrões estéticos reforça que, para a mulher negra, o cabelo nunca é “apenas cabelo”. A busca por uma mudança na sociedade passa, justamente, por compreender que a escolha capilar é um terreno de resistência, onde a autoexpressão enfrenta, diariamente, desafios sociais persistentes.

Influenciadora Preta Araujo (Foto: Divulgação)

Para a influenciadora Preta Araujo, o movimento não é necessariamente uma “tendência” inovadora, mas um possível retrocesso. “Muitas mulheres negras voltarem a alisar permanentemente os cabelos esteja ligado a um conjunto de pressões estéticas que vêm ganhando força novamente, como o padrão de magreza e a estética ‘clean girl'”. 

“Claro que, se uma mulher negra decide alisar o cabelo simplesmente por gosto estético, acho totalmente válido. Nosso cabelo é extremamente versátil, e mulheres negras devem ter liberdade para fazer o que quiserem com a própria aparência. Mas também entendo que, em muitos casos, essa escolha acaba atravessada por questões mais profundas do que apenas estética ou praticidade”, completa a criadora de conteúdo. 

Para a também influenciadora Mannu Viana, a discussão sobre o alisamento transcende o aspecto meramente capilar, envolvendo uma jornada profunda de autoconhecimento e construção de identidade. Até os 16 anos, sua relação com o cabelo era pautada por uma tentativa de adequação ao que era socialmente aceito, marcada pelo esforço em reduzir o volume, que ela percebia como uma forma de evitar o racismo e buscar aceitação.

A mudança de perspectiva de Mannu veio após explorar seu cabelo natural em diversas formas: tranças, penteados, cores e texturas variadas, e se sentir linda em cada uma delas. 

“Explorar essas possibilidades capilares foi o meu primeiro contato com a sensação de liberdade, de sustentar minhas escolhas e sem dúvidas, foi muito importante pra construção da minha autoestima, e hoje, minha decisão sobre alisar o cabelo é justamente sobre liberdade.”

Influenciadora Mannu Viana (Foto: Divulgação)

Para ela, a escolha de alisar o cabelo hoje é um ato de autonomia, pois ela ressignificou o processo e enxerga o alisamento apenas como uma das muitas possibilidades de estilo que pode adotar, sem que isso apague sua identidade: “A Mannu de 16 anos só via o liso como possibilidade, a de 25 entende que é o crespo quem sustenta isso tudo e vai voltar pra ele sempre que ela quiser e vai se enxergar linda, sabe? Eu decidi fazer como eu quero porque é isso que me importa. Voltar a alisar o cabelo é uma forma de dizer pra mim mesma que hoje eu tomo minhas decisões com base nas minhas próprias vontades e só, entendendo principalmente que elas podem ser momentâneas.”

Mannu critica a existência de uma “ditadura” que impõe o que é certo ou errado na estética negra, argumentando que isso enfraquece o debate e impede que o foco seja o fortalecimento da autoimagem da mulher negra. Ela enfatiza que a identidade não deve ser resumida apenas ao cabelo ou à aparência, questionando: “nossa identidade está somente no nosso cabelo? Continuamos sendo resumidas somente pela nossa aparência?”. 

Preta Araujo ainda reforça o impacto do processo de alisamento na autoestima das mulheres: “Acredito que isso pode impactar negativamente a autoestima de mulheres negras que ainda sentem que só são bonitas com os cabelos alisados. Sinceramente, eu imaginava que já tivéssemos avançado mais nesse debate, mas diante de tantos retrocessos sociais recentes, as mulheres negras também acabam sendo afetadas por esse e outros cenários”, conclui.

Por fim, Mannu reforça a importância da honestidade consigo mesma ao considerar qualquer mudança, aconselhando que a motivação venha de um desejo genuíno de explorar novas versões de si, em vez de pressões externas: “Toda vez que um debate se torna uma ditadura, ele perde força e a oportunidade de aprofundar coisas importantes. Nesse caso, estamos perdendo a oportunidade de debater sobre quais sãos os fatores que interferem que uma mulher negra reconheça a sua beleza e a de seus iguais, e a partir disso, trazer perspectivas positivas e maximizar possibilidades, era  pra ser um fortalecimento, não um detrimento ou retrocesso”, conclui.

O alerta das especialistas: a saúde do fio em primeiro lugar

Lívia Rodrigues, coordenadora de Valorização Científica em Pesquisa e Inovação da L’Oréal Brasil (Foto: Divulgação)

Independentemente da motivação, a saúde do cabelo não pode ser negligenciada. O cabelo crespo, por possuir uma estrutura elíptica e mais pontos de torção, é naturalmente mais propenso à quebra e ao ressecamento. Além disso, o uso de químicas exige cautela extrema. Especialistas reforçam o perigo das incompatibilidades, como a mistura de guanidina com tioglicolato, que pode resultar em corte químico.

Lívia Rodrigues, coordenadora de Valorização Científica em Pesquisa e Inovação da L’Oréal Brasil, alerta para o cuidado com a estrutura dos fios: “O cabelo crespo tem uma estrutura com formato elíptico e mais pontos de torção, o que o torna mais frágil e mais propenso à quebra. Por ser um cabelo que também têm maior tendência ao ressecamento, é essencial o uso de formulações que já tragam agentes condicionantes e hidratantes desde a primeira etapa, afirma Lívia Rodrigues. Segundo a especialista, o cuidado no pós também é essencial, para isso é importante utilizar produtos que ajudem a reparar a estrutura interna dos fios, garantindo mais força e vitalidade. 

Já Franciele Rodrigues, Gerente de Estratégia da Salon Line, reforça como é fundamental intensificar os cuidados após o processos químicos: “Os cabelos crespos e cacheados possuem uma tendência natural maior ao ressecamento devido à sua estrutura em curvas, que dificulta a distribuição da oleosidade ao longo dos fios. Após processos químicos, como alisamentos e relaxamentos, essa necessidade de cuidado se intensifica, já que há uma alteração da fibra capilar, tornando-a mais suscetível à perda de hidratação e ao enfraquecimento”, explica. Especialistas da marca ainda orienta que o pós-química deve priorizar a reposição de água, nutrientes e proteínas por meio de produtos hidratantes. Já na etapa de reconstrução deve-se intensificar os tratamentos que atuam no processo de restauração extrema, devolvendo vida para os fios.

Franciele Rodrigues, Gerente de Estratégia da Salon Line (Foto: Divulgação)

O debate sobre o alisamento entre mulheres negras revela que, embora 8 em cada 10 entrevistadas considerem seus cabelos uma ferramenta essencial de expressão pessoal , a decisão de alisar, ou não, ainda é um campo de batalha entre o desejo genuíno e o que a sociedade espera de nós.

A provocação que fica é: ao decidir mudar o visual, você está ouvindo sua própria voz ou atendendo a um eco externo que insiste em limitar sua beleza? A liberdade de escolha é um direito fundamental, mas ela só é plena quando exercida com a consciência de que a sua identidade é muito maior do que a forma que o seu cabelo toma. Antes de buscar a química, pergunte a si mesma: por que estou fazendo isso, e para quem estou me tornando essa versão?.

Artista visual Íldima Lima assina sacola da Tok&Stok e resgata o azul como herança africana

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Foto: divulgação

Artista visual baiana apresenta sacola reutilizável inspirada em Mami Wata e na azulejaria afro-atlântica, desfazendo no objeto de decoração um equívoco histórico sobre a origem da cor e da cerâmica

A artista visual @ildima_lima assina a nova sacola reutilizável da Tok&Stok dentro de uma iniciativa anual da marca que convida artistas selecionados por curadoria a desenvolver peças exclusivas para a linha. A peça parte de uma pesquisa que ela vem conduzindo sobre dois eixos: a origem africana da cor azul como pigmento sagrado e a ancestralidade da cerâmica como tecnologia visual que antecede, em milênios, o que o imaginário popular associa à azulejaria portuguesa. O projeto ancora sua estética na mitologia de Mami Wata, entidade das águas presente em diversas tradições africanas e da diáspora, e incorpora símbolos Adinkra para estruturar um vocabulário visual decolonial dentro de um produto de grande circulação comercial.

A curadoria que levou Íldima à parceria foi conduzida por Edson Coutinho, que a conheceu justamente desenvolvendo esse trabalho. A proposta que ela apresentou à Tok&Stok foi recebida e aprovada sem alterações conceituais, o que permitiu que o projeto mantivesse intacta sua camada de pesquisa e posicionamento. A sacola integra a coleção atual da marca e já está disponível nas lojas.

O trabalho de Íldima Lima transita entre pintura, cerâmica e estamparia, e a parceria com a Tok&Stok não é um projeto isolado: a artista segue desenvolvendo uma nova série dentro do mesmo universo temático, ainda em andamento. Conversamos com ela sobre o conceito por trás da sacola, sobre o equívoco histórico que seu trabalho questiona e sobre o que Mami Wata representa dentro dessa pesquisa.

O azul que não nasceu em Portugal

A pesquisa que sustenta a criação parte de um dado histórico que o processo de colonização tratou de obscurecer: o primeiro pigmento sintético azul da história foi produzido no Egito Antigo, e o uso do azul como representação do sagrado, da realeza e da força vital das águas já estava presente em territórios africanos muito antes de se tornar símbolo da azulejaria portuguesa. Íldima trabalha diretamente sobre esse equívoco, e a reação do público diante de suas peças ilustra com precisão o que ela quer questionar. “As pessoas se aproximam e falam: ‘Ah, os azulejos portugueses’. E eu falo: ‘Não, amor, a cerâmica africana’, que é milenar”, contou durante a entrevista.

O formato modular do azulejo aparece no trabalho não como referência à tradição ibérica, mas como campo simbólico de memória afro-atlântica, uma linguagem reapropriada que devolve ao continente africano a autoria de uma tecnologia visual que lhe pertence. Povos africanos produziram painéis cerâmicos, utensílios e arte com pigmento azul e simbologia própria muito antes da colonização, e é sobre essa linha do tempo que Íldima constrói sua estética. “O trabalho vem muito nesse lugar de reposicionar, de conversar e dialogar com essas informações que foram deturpadas durante muito tempo”, afirmou.

Mami Wata e o universo das águas

O segundo eixo da pesquisa é a mitologia de Mami Wata, entidade que Íldima descreve como síntese de tudo que se relaciona às águas: elementos religiosos, folclóricos e naturais de diversas tradições africanas e da diáspora. Representada como uma mulher que carrega uma serpente e habita a fronteira entre o mar e a terra, Mami Wata condensa em sua figura a dualidade entre mundos e a força do que não se deixa fixar em uma única forma. “Ela sintetiza essa energia, e ela é representada por uma sereia, uma mulher que carrega uma serpente, e ela tem essa dualidade de ser peixe, serpente, mar e terra”, explicou a artista.

Esse universo se traduz no vocabulário visual da sacola por meio de imagens que carregam sentidos de proteção, travessia e poder ancestral: sereia, peixe, concha, búzio, sol, lua, estrela, serpente, vela e espelho compõem o repertório simbólico que organiza a estética da sacola. Nas bordas, símbolos Adinkra ancoram os valores que estruturam o trabalho: Aya, que representa força; Sankofa, que trata da memória; Duafe, do autocuidado; Eban, da proteção; e Nkyinkyim, da transformação.

Um produto de massa com pesquisa dentro

A iniciativa da Tok&Stok que originou a parceria funciona como uma vitrine anual para novos artistas, com a sacola reutilizável como suporte. Para Íldima, o formato representa uma oportunidade de colocar uma pesquisa densa e politicamente posicionada dentro de um objeto de grande circulação, acessível a um público que talvez nunca tivesse contato com as questões que o trabalho levanta. A estética decolonial que ela propõe não se fecha em si mesma: ela está disponível nas prateleiras de uma das maiores redes de decoração do Brasil, carregando dentro de cada sacola a pergunta sobre quem, afinal, inventou o azul.

A nova série que Íldima Lima desenvolve dentro do mesmo universo temático ainda não tem data de lançamento confirmada. Atualizações sobre o trabalho e a sacola em parceria com a Tok&Stok podem ser acompanhadas pelo perfil @ildima_lima no Instagram.

Elisa Lucinda celebra 40 anos de carreira: “Somos os mais jovens velhos que a humanidade já teve”

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Foto: Jonathan Estrella / Divulgação

Aos 40 anos de carreira, Elisa Lucinda retoma nos palcos o formato que a revelou nos anos 1980 e leva pelo Brasil o espetáculo “Ensaio para uma Ideia”

Elisa Lucinda estreou no Manouche, casa de shows da Zona Sul carioca, o espetáculo “Ensaio para uma Ideia”, construído sobre os mesmos pilares que definiram seu trabalho quando chegou de Vitória, no Espírito Santo, ao Rio de Janeiro, há exatamente quatro décadas: poesia declamada ao vivo, música instrumental, conversa direta com o público e improviso sem roteiro fechado. Após a primeira temporada na casa carioca, o espetáculo segue em turnê pelo Brasil, com passagens previstas por Vitória, Goiânia, Brasília, Salvador, São Paulo e Porto Alegre. A produção marca também os 40 anos de uma carreira que acumula 24 livros publicados, 27 produções teatrais, 26 trabalhos em televisão, 27 participações no cinema e cinco prêmios, entre eles o Kikito pelo conjunto da obra artística, concedido pelo Festival de Cinema de Gramado.

No palco do Manouche, Elisa dividiu o espaço com o Duo Cafuzo, formado pelo saxofonista Glaucus Linx e pelo percussionista Sandro Lustosa, ambos com carreiras consolidadas nos cenários nacional e internacional. O espetáculo inclui uma caixinha de onde o público sorteia poemas, garantindo que cada apresentação tenha repertório parcialmente definido pela plateia, o que torna cada sessão única. A mesma dinâmica segue na turnê nacional, cujas datas serão anunciadas nos próximos meses.

Foto:  Dalton Valério/ Divulgação

A produção retoma um formato que Elisa praticou ao longo dos anos 1980 e 1990 nos bares do Rio ao lado de músicos como o percussionista Foguete Grande, Nestor Capoeira e Mestre Caboquinho, entre outros, num circuito de shows-poema que custava couvert baixo e reunia público escasso no começo, mas funcionou como base de tudo que construiu depois. Conversamos com Elisa Lucinda sobre os 40 anos que separam aquela jovem que chegou da capital capixaba da artista que hoje leva para o Brasil inteiro a mesma mistura de verso, voz e presença, sobre o papel das vozes negras na cultura brasileira e sobre o que a inteligência artificial jamais conseguirá fazer com um poema.

“A bola está nas mãos e nos pés sexagenários”

Elisa Lucinda chegou ao Rio de Janeiro no final dos anos 1980 carregando um repertório que havia desenvolvido em Vitória e que, segundo ela, ainda não sabia o efeito que causaria. “Eu exibia a arte da declamação que havia trazido da minha cidade e ainda não sabia, até chegar nos bares, que meu jeito de dizer poesia iria encantar os pensadores da cidade maravilhosa”, contou durante a entrevista. Essa abertura de caminho no circuito alternativo carioca produziu vínculos que marcariam toda a trajetória seguinte. Manoel Carlos, Beth Carvalho, Kizuca Iamasaqui, Antonio Pitanga, Martinho da Vila, Zezé Polessa e Zezé Mota são alguns dos nomes que ela associa àquele período de shows nos bares, numa rede de encontros que se formou antes de qualquer visibilidade maior.

Quatro décadas depois, a artista descreve a relação com o palco de forma distinta da que tinha nos anos 1980. Quando jovem, havia a necessidade de provar algo, de mostrar que aquele jeito de dizer poesia tinha sustentação. Agora, ela avalia que o risco continua presente, mas apoiado sobre outro chão: “Hoje, 40 anos depois, eu não tenho mais que provar nada e, como sou respeitada, é como se meu risco fosse mais seguro. Meus improvisos acontecem em cima de uma dama chamada experiência.” O ator e comediante Gregório Duvivier, que em seu espetáculo “O Céu da Língua” declara abertamente o amor pela palavra falada, disse a Elisa que ela foi para ele uma referência desse caminho, chamando-a de “princesa da palavra falada”.

Foto: Jonathan Estrella/ Divulgação

Elisa também faz questão de situar essa geração de artistas em que ela e os músicos do Duo Cafuzo se inserem. Glaucus Linx e Sandro Lustosa, assim como ela, pertencem à faixa dos 60 anos, e é sobre essa condição que ela fala com precisão: “Nós somos da turma dos 60 mais e também somos os mais jovens velhos que a humanidade já teve. Namoram, se divertem, viajam, malham, se medicam com canabidiol, dançam, e estão extremamente produtivos, alinhados na expertise que o tempo de trabalho trouxe.” O espetáculo também responde ao que ela identifica como carência da cidade. O Rio de Janeiro perdeu ao longo dos últimos anos boa parte das casas que comportavam aquele formato de palco pequeno, sem telão, com artista caminhando entre a plateia. “O Rio de Janeiro está carente de lugares charmosos como o Manouche e o Rival, e aquela apresentação nos bares não existe mais”, observou.

A temporada carioca produziu um episódio que ela citou como síntese do que espera da turnê: um pai que veio de Três Rios, interior do Rio, assistiu ao show com o filho de 16 anos e, ao final, o adolescente pediu ao pai que comprasse um saxofone para ele. O pai informou à artista que o filho nunca havia visto um saxofonista negro tocar antes.

Griô, necropolítica e o que a inteligência artificial não sabe fazer

A entrevista com Elisa Lucinda percorreu territórios que vão além do espetáculo no Manouche. A escritora, que ocupa na cultura brasileira um lugar específico como voz que atravessa décadas articulando raça, corpo e linguagem, falou sobre a função do griô na diáspora negra brasileira e sobre os limites da inteligência artificial generativa diante da poesia humana.

Sobre o papel de griô, Elisa o define a partir de um eixo político e estético ao mesmo tempo. Para ela, a griô é uma pensadora que usa a arte para traduzir um olhar sobre a realidade, capaz de nomear o que a sociedade prefere não ver. “Uma griô é uma pensadora e usa da arte para traduzir o seu olhar privilegiado. Seu papel principal é retratar a realidade, adversa e não adversa, e exibi-la à sociedade como contribuição reflexiva do que vivemos”, disse. Ela contextualiza esse papel dentro de uma história de apagamento sistemático: o Brasil, avalia, foi pouco narrado pelas vozes negras porque o povo negro gastou energia demais tentando sobreviver numa sociedade construída para não reconhecê-lo. “O Brasil foi pouco contado pelas vozes negras. Em geral, o povo negro gasta muita energia tentando sobreviver numa sociedade que foi educada a apagá-lo.”

Foto: Guga Melgar/ Divulgação

Quando a conversa chegou à inteligência artificial generativa, Elisa foi precisa na distinção que faz entre aquilo que a tecnologia replica e aquilo que a poesia humana pressupõe. Para ela, a poesia da IA é, no máximo, um arremedo distante de almas que um dia pensaram os dados que a máquina retém. O ponto central de sua argumentação está no erro: muitos poemas nascem do ilógico, do incompreensível, do que não segue caminho previsto. “O que ela não sabe é que muitos poemas nascem do erro, do ilógico e até da não compreensão. A máquina não conhece a glória do erro”, afirmou. A inexatidão do ser humano, para Elisa, não é defeito a ser corrigido pela tecnologia, mas condição da qual a poesia real se alimenta.

Televisão e os próximos destinos

Enquanto a turnê nacional do “Ensaio para uma Ideia” toma forma, Elisa Lucinda segue com presença constante na televisão. Atualmente integra o elenco de “Coração Acelerado” e, nos últimos anos, participou também de “Dona Beja” e “Vai na Fé”. A carreira na TV, que soma 26 produções, corre em paralelo com a produção literária e teatral que a sustenta desde os anos 1980, quando os shows nos bares cariocas ainda eram a única plataforma disponível.

A turnê nacional do espetáculo, com passagens previstas por Vitória, Goiânia, Brasília, Salvador, São Paulo e Porto Alegre, tem datas a serem confirmadas. Informações sobre agenda e novidades do espetáculo são publicadas nos perfis do Duo Cafuzo: Glaucus Linx (@glaucuslinx) e Sandro Lustosa (@sandrolustosa).

Amores negros e o não lugar do amor

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Casal negro abraçado com ternura sentados no sofá de uma sala.
Foto: IA

Por: Suzana Coelho

Para diversas pessoas negras, a luta pelo reconhecimento da própria humanidade antecedeu a possibilidade de ocupar plenamente o lugar do afeto. 

Quando falamos sobre racismo, normalmente pensamos em violência, exclusão, desigualdade, discriminação e acesso a direitos. Mas, raramente falamos sobre amor. Pouco se discute como o racismo também moldou nossos afetos, nossos desejos, nossas escolhas amorosas e até mesmo a capacidade de nos reconhecermos como dignos(as) de amar e ser amados(as). 

Porque o racismo não organizou apenas a economia, a política e as oportunidades sociais. Ele também organizou a afetividade. Organizou a forma como aprendemos a enxergar a nós mesmos, os outros e o nosso lugar no mundo. Organizou quem seria associado à beleza, ao desejo, à delicadeza, ao cuidado e ao amor. 

O racismo produziu hierarquias de humanidade, mas também de afeto. A branquitude foi frequentemente associada à beleza, à pureza, à delicadeza e à idealização romântica. Já a negritude foi associada à força, à resistência, ao trabalho e, muitas vezes, à hipersexualização de seus corpos. 

Nesse contexto, pessoas negras foram historicamente afastadas dos lugares simbólicos de cuidado, proteção e idealização afetiva que ajudaram a construir os modelos socialmente reconhecidos de amor. 

Então, o que aprendemos sobre o amor e sobre as relações amorosas? Crescemos cercados(as) por histórias de amor. Nos livros, nas novelas, nos filmes e nos contos de fadas. Mas quem eram as pessoas escolhidas para viver essas histórias? 

O amor também é uma narrativa social. E as narrativas importam. Não foi apenas a humanidade das pessoas negras que foi negada ao longo da história. Foi também sua possibilidade de ocupar plenamente o lugar do afeto. 

O racismo não ensinou apenas quem deveria ser amado. Também ensinou quem deveria aprender a viver sem amor. 

Suzana Coelho (Foto: RobertoAbreu_@betofoto)

É nesse ponto que o letramento racial se torna fundamental. Ele nos permite perceber que muitas das nossas escolhas afetivas não nasceram apenas das preferências individuais. Elas também foram construídas dentro de uma sociedade racializada, marcada por hierarquias, padrões estéticos, relações de poder e modelos específicos de pertencimento. 

E então os relacionamentos interraciais aparecem. Não os vejo como um problema. Relações interraciais podem, sim, reproduzir desigualdades. 

Mas também podem se tornar espaços de escuta, aprendizado, transformação e reconhecimento das diferenças que atravessam a experiência de cada pessoa no mundo, uma possibilidade de revisitar referências, questionar padrões e construir novas formas de relação. Isso reforça a importância do letramento racial e do desenvolvimento de uma consciência racial que nos permita reconhecer como o racismo também atravessa nossos afetos, escolhas e formas de nos relacionar.

Isso exige compreender que o amor, sozinho, não elimina os efeitos do racismo. É preciso disposição para reconhecer privilégios e compreender que o racismo continua produzindo impactos concretos na forma como as pessoas vivem, sentem e se relacionam. Porque, no final das contas, não é sobre pessoas. É sobre estrutura. 

Para muitas pessoas negras, o amor-próprio não foi um ponto de partida.  Foi e está sendo um processo de (re)construção. 

Falar de afeto também é falar de humanidade. 

E talvez uma das maiores contribuições do letramento racial seja nos ajudar a compreender que o enfrentamento ao racismo não acontece apenas nas leis, nas instituições ou nas políticas públicas. Ele também acontece quando revemos aquilo que aprendemos sobre o amor. Quando ampliamos nossa capacidade de reconhecer humanidade, dignidade e afeto em nós e nos outros. 

Afinal, ninguém deveria precisar provar que merece amor. Mas, talvez uma das marcas mais profundas do racismo tenha sido justamente essa: ensinar quem deveria ser amado e quem deveria aprender a viver sem amor.

Suzana Coelho é assistente social, consultora em direitos humanos, diversidade, equidade e inclusão, além de fundadora e CEO do Instituto Afetto. Com mais de uma década de atuação, desenvolve estratégias de impacto social, fortalecimento institucional e desenvolvimento humano para empresas, governos e organizações da sociedade civil. Sua trajetória é marcada pela promoção da justiça social, da equidade e da construção de ambientes mais inclusivos e sustentáveis. 

L’Oréal é finalista em Cannes com Código do Consumidor Negro

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Código de Inclusão do Consumidor Negro
Foto: Lázaro Ramos/Linkedin

A L’Oréal Luxo é uma das representantes brasileiras entre os finalistas da categoria Glass do Cannes Lions 2026 com o Código de Defesa e Inclusão do Consumidor Negro, iniciativa da butique criativa Beta Collective, comandada por Bernardo Tavares, desenvolvida em parceria com o Movimento pela Equidade Racial (MOVER) e a Black Sisters in Law.

A indicação leva ao principal festival internacional de criatividade uma discussão ainda pouco abordada pelo mercado: as experiências da população negra nas relações de consumo e os impactos do racismo, inclusive em suas manifestações mais sutis, nos ambientes comerciais.

Lançado como parte do Afroluxo, o Código reúne dez propostas voltadas à promoção de práticas mais inclusivas no atendimento ao consumidor. O documento foi elaborado a partir de reflexões sobre os direitos da população negra nos espaços de consumo e propõe mudanças que podem ser adotadas por empresas como forma de enfrentamento ao racismo institucional.

A categoria Glass reconhece trabalhos que contribuem para mudanças sociais e para a redução de barreiras estruturais relacionadas a temas como raça, gênero, deficiência, sexualidade e desigualdade social. A presença do Código entre os finalistas posiciona a equidade racial como destaque em uma das principais premiações globais da indústria criativa.

Djavan, Alcione e Gaby Amarantos estão entre os vencedores do 33º Prêmio da Música Brasileira

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Foto: Leo RT Fotografia

A 33ª edição do Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira teve artistas negros como maioria dos vencedores. Veja a lista completa da noite no Theatro Municipal do Rio.

O Theatro Municipal do Rio de Janeiro recebeu na última quarta-feira (10) a 33ª edição do Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira, e a noite foi dos artistas negros. De 30 prêmios distribuídos em 18 categorias, a maioria foi para nomes negros da música brasileira: Luedji Luna, João Gomes, Djavan, Alcione, BK’, Black Pantera, Olodum, Deize Tigrona, Péricles, Hamilton de Holanda, Bia Ferreira e Gaby Amarantos estiveram entre os grandes vencedores, reafirmando o que já se sabe: é a música negra que sustenta e define a produção musical do país.

Luedji Luna foi a maior vencedora individual, levando dois troféus em uma só noite: Melhor Artista de Pop e Melhor Lançamento de Pop com “Antes Que A Terra Acabe”. João Gomes acumulou três prêmios, o maior número entre todos os artistas da edição, vencendo Melhor Artista e Melhor Lançamento de Canção Popular com “Pé de Serrita” e ainda Melhor Lançamento em Projeto Especial com “Dominguinho”, gravado ao lado de Mestrinho e Jota.Pê. Na MPB, Djavan levou os dois troféus da categoria com “Improviso”. No samba, Alcione foi eleita Melhor Artista e Péricles levou Melhor Lançamento com “Pagode do Pericão”. No axé, o Olodum conquistou Melhor Artista. No rap e trap, BK’ foi eleito Melhor Artista e Don L venceu com “CARO Vapor II”. No rock, Black Pantera levou Melhor Artista. No funk, Deize Tigrona foi eleita Melhor Artista. No reggae, Bia Ferreira venceu em Melhor Lançamento com “O Seu Silêncio”. Hamilton de Holanda levou Melhor Artista de Música Instrumental e Gaby Amarantos conquistou Melhor Projeto Audiovisual com “Rock Doido”.

A cerimônia foi apresentada por Débora Bloch e Alice Wegmann, com direção musical de Pretinho da Serrinha e direção geral de José Maurício Machline e Giovanna Machline. Cazuza foi o grande homenageado da noite, com tributo que reuniu no palco Seu Jorge, Ludmilla, Ney Matogrosso, Marina Sena, Luísa Sonza e Maneva, cada um interpretando clássicos do cantor em performances criadas especialmente para o evento.

Confira abaixo os vencedores de cada categoria:

  • Axé — Melhor Artista: Olodum
  • Projeto Especial — Melhor Lançamento: João Gomes, Mestrinho, Jota.Pê — Dominguinho
  • Eletrônico — Melhor Lançamento: Africanoise — CABAÇA
  • Erudito — Melhor Lançamento: Gabriele Leite — Gunûncho
  • Funk — Melhor Artista: Deize Tigrona
  • Funk — Melhor Lançamento: Totonho e os Cabra — Aí Dentu: Funk de Embolada e Hip Hop do Mato
  • Instrumental — Melhor Artista: Hamilton de Holanda
  • MPB — Melhor Artista: Djavan
  • MPB — Melhor Lançamento: Djavan — Improviso
  • Pop — Melhor Artista: Luedji Luna
  • Pop — Melhor Lançamento: Luedji Luna — Antes Que A Terra Acabe
  • Raízes — Melhor Artista: Mestrinho
  • Rap/Trap — Melhor Artista: BK’
  • Reggae — Melhor Lançamento: Bia Ferreira, Little Lion Sound — O Seu Silêncio
  • Rock — Melhor Artista: Black Pantera
  • Samba — Melhor Artista: Alcione
  • Samba — Melhor Lançamento: Péricles — Pagode do Pericão (Ao Vivo Em São Paulo)
  • Melhor Projeto Audiovisual: Gaby Amarantos — Rock Doido

De volta após 16 anos, África do Sul estreia na abertura da Copa do Mundo hoje

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Foto: Divulgação/África do Sul

A África do Sul retorna à Copa do Mundo 2026 após 16 anos e estreia contra o México na cerimônia de abertura do torneio, nesta quinta (11).


A Copa do Mundo de 2026 começa nesta quinta-feira (11) com a cerimônia de abertura no Estádio Azteca, na Cidade do México, às 14h30 (horário de Brasília), cerca de uma hora e meia antes da primeira partida do torneio. O jogo inaugural coloca frente a frente México e África do Sul, às 16h, no mesmo estádio, e marca o retorno dos sul-africanos ao futebol mundial depois de 16 anos fora do Mundial.

A festividade terá apresentações de Shakira e do cantor nigeriano Burna Boy, responsáveis pelo hit oficial do torneio, “Dai Dai”. Conforme o ge, da Globo, o espetáculo reunirá ainda J Balvin, Maná, Tyla e outros artistas. A TV Globo inicia a transmissão às 14h20, enquanto SporTV, Globoplay, ge tv, SBT, N Sports e CazéTV também cobrem o evento ao vivo.

Esta é a quarta participação da África do Sul em Copas do Mundo, depois das edições de 1998, 2002 e 2010, e a equipe nunca passou da fase de grupos em nenhuma delas. O retrospecto soma 9 jogos, 2 vitórias, 4 empates, 3 derrotas, 11 gols marcados e 16 sofridos, segundo o NSC Total.

Em 2010, como anfitriã, a seleção empatou com o México, perdeu para o Uruguai e venceu a França por 2 a 1 na última rodada, mas foi eliminada assim mesmo, tornando-se, conforme a Rádio Itatiaia, a primeira anfitriã da história a cair ainda na fase de grupos. Agora, sob o comando do técnico belga Hugo Broos, os sul-africanos integram o Grupo A ao lado de México, Coreia do Sul e Tchéquia com uma meta inédita: chegar às oitavas de final pela primeira vez.

Saúde dos homens negros será tema do evento Entre Vinhos & Afetos

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Luís Eduardo Batista participa do encontro Entre Vinhos & Afetos
Foto: Reprodução/ Redes Sociais

Sociólogo e pesquisador referência em equidade racial em saúde, Luís Eduardo Batista participa do Entre Vinhos & Afetos para discutir os desafios e as barreiras que impactam o acesso dos homens negros aos serviços de saúde.

Quais barreiras dificultam o acesso dos homens negros aos serviços de saúde?

Essa será a pergunta que guiará a próxima edição do encontro Entre Vinhos & Afetos, marcada para o dia 20 de junho, com a participação do sociólogo e pesquisador Luís Eduardo Batista, uma das principais referências brasileiras nos estudos sobre saúde da população negra e equidade racial em saúde.

Com trajetória dedicada à formulação, implementação e monitoramento de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades raciais em saúde, Batista tem contribuído para o debate sobre os impactos do racismo estrutural no acesso a direitos e serviços de saúde no Brasil.

Ao longo de sua trajetória acadêmica e institucional, como mestre e doutor em Sociologia pela UNESP e pós-doutor pela Escola de Enfermagem da USP, seus estudos têm abordado temas como racismo e saúde, gênero, classe, envelhecimento, saúde mental e os efeitos das desigualdades estruturais sobre a qualidade de vida da população negra.

Durante o encontro, o convidado compartilhará reflexões sobre os desafios enfrentados por homens negros no acesso aos serviços de saúde, discutindo caminhos para fortalecer práticas de autocuidado, prevenção, promoção da saúde e garantia de direitos.

A iniciativa busca ampliar o diálogo sobre saúde da população negra entre a comunidade masculina. Para mais informações sobre o evento, acesse o canal oficial do projeto no Instagram: @entre_vinhoseafetos.

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