O Brasil é um país sem memória e triste é constatar que isso acontece até com alguns veículos grandes de imprensa como o canal CNN Brasil. Esquecimento é a única explicação razoável para colocar o jornalista William Waack para comentar a onda de protestos nos EUA desde o assassinato de George Floyd.
Para quem não se lembra, em 2018, quando era âncora do Jornal da Globo, Waack, usou a expressão “coisa de preto”, ao se referir a um motorista que buzinava enquanto ele estava prestes a entrar ao vivo, durante a cobertura das eleições americanas em 2016, em Washington.
O ator Rafael Zulu foi um, entre as centenas de pessoas que se manifestaram sobre a desagradável sensação de ver um jornalista demitido por questões raciais, opinião sobre questões raciais.
“Ahhhhhhh @cnnbrasil , VOCÊS SÓ PODEM ESTAR DE BRINCADEIRA COM A NOSSA CARA!!!! Esse Sr Willian Waack que tá analisando os protestos antirracistas, é o mesmo que saiu da Rede Globo por conta de um comentário Racista!!! VOCÊS NÃO CANSAM DE BRINCAR COM A NOSSA HISTÓRIA NÃO??? Lembro que vim aqui bem surpreso quando soube que vcs tinham admitido esse cara que até onde eu sei não se arrependeu do que falou, mas por essa realmente eu não esperava!!! @cnnbrasil vc é uma piada!!!”, disse o artista em sua conta no Instagram.
O âncora Cassius Zeilmann chorou ao vivo no programa Visão CNN, da CNN Brasil, no momento em que ele e os colegas jornalistas Luciana Barreto e Diego Sarza conversavam sobre racismo com o cantor Toni Garrido.
O assunto do programa era a morte George Floyd, homem negro assassinado por um policial branco nos Estados Unidos. Nascido no Rio Grande do Sul, Zeilmann ouviu o relato de Toni e em seguida pediu a palavra. Ele relembrou alguns momentos que presenciou na sua juventude em seu estado.
“Toni, mais do que uma pergunta, eu gostaria de te fazer na verdade um testemunho aqui, até porque acho que a Lu, o Diego e você têm muito mais autoridade. Como eu vim de um estado muito, mas muito preconceituoso, que é o Rio Grande do Sul, eu acho que, como testemunha, eu presenciei muitas cenas de racismo”, começou.
“Quando eu ia no mercado os seguranças sempre observavam o menino negro, quando eu ia num lugar público, num shopping, eu via que sempre monitoravam, seguiam o menino negro. Eu nunca senti na pele, me desculpe que eu fico muito emocionado [choro], mas por isso que eu aprendo todo dia com a Lu, com o Diego, que eu não sei o que é isso, e estou aprendendo muito com você”, disse.
A âncora Luciana tomou a palavra e começou a conversar com Toni em seguida. A câmera também saiu do foco de Zeilmann até que ele se recuperasse.
Danielle Geathers e seu companheiro de chapa Yu Jing Chen venceram a eleição do governo estudantil no início deste mês. Geathers acabou de terminar seu segundo ano no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e está se formando em engenharia mecânica. Ela atuou como diretora de diversidade no ano passado.
“Em termos de vir desse espaço de diversidade e se concentrar na promoção da eqüidade no MIT, seria meio importante ter alguém no papel do presidente que se concentrasse nisso”, disse ela.
Ela disse que planeja usar sua plataforma para tornar a escola o mais inclusiva possível.
“Embora algumas pessoas pensem que é apenas um papel de governante, elas podem ser importantes em termos de pessoas se verem em termos de representação. Ver-se em uma faculdade é uma parte importante do processo de admissão”.
Cerca de seis por cento dos estudantes de graduação do MIT são negros e 47 por cento são mulheres.
Os alunos do MIT tiveram que deixar o campus em março por causa da pandemia de coronavírus, então Geathers fez campanha online e através das mídias sociais de sua casa em Miami, Flórida. Os alunos votaram online.
A Ocupretar surgiu como projeto artístico em 19 de maio de 2017. De início, se resumia à #Ocupretar em que o objetivo era com os adesivos do projeto ocupar as ruas e com essa hashtag concentrar todos os locais dentro das redes sociais.
Em setembro de 2019, os números de alcance do projeto levaram o criador Rawier Queiroga a virar a chave de projeto para micro empresa impulsionadora e geradora de cultura negra e empresa criativa. O que os números mostravam era que o projeto criado para ocupar uma cidade de 22 mil habitantes havia chegado ao Estados Unidos, Canadá, Itália, além de 7 estados brasileiros.
Hoje, além do lançamento da revista digital, que por enquanto está sendo enviada com exclusividade para aqueles que acompanham o corre em suas redes (uma dica, segue eles no Instagram @ocupretar e deixe o seu e-mail pra receber a revista totalmente gratuita), com a pandemia, quarentena e todos em casa, a Ocupretar também lançou uma série de entrevistas.
“Queremos direcionar a atenção para mulheres que estão por trás dos corres que estão acontecendo nas produções artísticas. Muitas das vezes não são reconhecidas pelo o público, que raramente lê ficha técnica, onde esses nomes se encontram. Queremos transformar através de lives, onde podemos criar uma proximidade com o público, já que o intuito é apresentar um pouco da vida das convidadas, abordando assuntos como sua rotina”.
A repórter Afro Futurista Aniké Pellegrini é quem comanda o programa/Live “Mina do Corre”, toda segunda-feira as 21h, no instagram da ocupretar, ela entrevista uma “mina” que está nesse mundão fazendo o seu corre e seus sonhos acontecerem. Todas as lives do Mina do Corre estão disponíveis em versão podcast; Confira:
É mais comum do que a gente imagina, o caso de Ndeye Fatou Ndiaye, que foi vítima de agressões racistas, feitas pelos alunos do Colégio Franco-Brasileiro, onde estuda, não foi o primeiro que tive notícia e, infelizmente, acredito que não será o último. Em todos eles há a semelhanças nas práticas: alunos de uma determinada escola criam grupos de conversa dentro de aplicativos de mensagens e iniciam, à partir dali, diversas agressões racistas contra alunos negros que não fazem parte do grupo.
Essa prática tem um componente muito particular que é a sensação de privacidade que as crianças adquirem dentro desses espaços. Ali dentro, eles se expressam da forma mais perversa possível porque acreditam que nunca serão descobertos.
As práticas, muitas vezes extrapolam o que acontece dentro do grupo e vão para o cotidiano. Como também, atividades do cotidiano alimentam as conversas dentro do grupo, fazendo crescer as ações e conversas via mensagens. Eu acredito que o mais triste dentro dessa dinâmica é a cumplicidade entre os jovens, é comum que todos participem e contribuam com os comentários, e quando não o fazem, colaboram rindo, para que aquele processo de agressão racista continue.
Desastres desses processos
A criança negra, em alguns casos desconfia que está sendo alvo de racismo pelos colegas e comunica aos professores, coordenadores e diretores; mas como não tem provas, a crianças é desacreditada. Aqui começa o meu alerta para as escolas: não minimizem uma denúncia de racismo vinda de uma criança negra. Se ela está verbalizando um incômodo, ela precisou passar por várias camadas de constrangimento para expor a situação.
O caso, muitas vezes vem à tona quando uma das crianças do grupo, começa a ficar incomodada com a proporção que a “brincadeira” tem tomado e resolve parar de participar daquilo. Os principais agressores vão coagi-lo para continuar, mas ao tomar consciência de que aquilo está errado, e em uma tentativa desesperada de não levar a culpa, essa criança pode ter algumas atitudes:
Relatar aos pais o ocorrido;
Relatar à escola o que está acontecendo;
Mas, na maioria das vezes, a criança envia por meio do mesmo aplicativo de mensagem TODAS as agressões para a vítima, prevendo uma possibilidade de se desculpar e se livrar daquilo.
Agora, imaginem como fica a vítima, a criança – que esse tempo todo estava desconfiada das agressões – ao receber TODOS os comentários, fotos, vídeos, áudios, desenhos. É devastador.
Desdobramentos
Como o racismo se trata de crime, todo mundo passa a querer se livrar das acusações. Os alunos dizem que só riram no grupo e não agrediram. Os que produziram o conteúdo, dizem que não sabiam que era grave. Os pais das crianças dizem que foi só brincadeira de crianças. Os professores dizem que não ocorreu na aula deles e a escola, por sua vez, diz que não foi algo de responsabilidade da escola, já que aconteceu no aplicativo de mensagens, que ela não tem controle, ou seja, não foi dentro das dependências da escola, a escola não tem controle sobre isso…
Em todas essas omissões, NINGUÉM PENSA NA VÍTIMA, todos agem para se livrarem da culpa.
Isso tudo o que eu estou relatando, eu não imaginei, aconteceu, eu vivenciei com uma de minhas crianças pretas, e não foi só uma vez.
Para os pais pretos
A maior parte da comunicação que eu faço para pais pretos é para que quando cheguem nesse momento eles tenham forças para agir, porque, tudo isso é muito desgastante e você vai ter vontade de chorar muito, com medo de tudo que está por vir, e essa dor é por saber que nada será feito de efetivo para curar aquela ferida imensa que abriram no coração da sua criança preta. Esse conteúdo, (clique aqui) pode ajudar nas ações para evitar que esse tipo de situação aconteça.
Vamos lá, respira fundo. Primeiro, se isso acontecer com as crianças, saiba que estou de braços abertos para você. Conte comigo. Segundo, você vai ter que se indispor com muita gente. Acredite, todo mundo que quer se omitir tem culpa.
As crianças que cometeram as agressões são AGRESSORES, são criminosos, cometeram um crime.
Os pais são cumplices, pois não ensinaram educação antirracista para as crianças. Por isso, o meu esforço para incentivar os pais brancos a terem consciência e promoverem ações.
A escola tem total culpa, pois permitiu que isso acontecesse, não promoveu ações de conscientização sobre o racismo, já que esse é um problema social e que pode vir a acontecer dentro da escola. Além de não ter um protocola para tratativa desses casos.
Os pais da vítima precisarão, fazer boletim de ocorrência culpabilizando as crianças e os pais. Denunciar o ocorrido ao conselho tutelar e a diretoria de ensino do município ou região. Caso o emocional da criança permita, escancarar isso na mídia e cobrar punições para os criminosos.
Quando isso acontece, fica insustentável que a vítima continue convivendo com os agressores. Qualquer risada em sala de aula, ela vai achar que é com ela. É preciso cobrar da escola ações eficazes de educação, conscientização que envolve toda a escola, não só o grupo envolvido, ou a sala. Todos professores, coordenadores, diretores, funcionários e pais precisam agir para erradicar o problema.
A criança preta precisa entender que ela é a vítima e que todas os desdobramentos do caso, não são culpa dela. Ela precisa enxergar que foi feito justiça, que houve consequência, para que ela não naturalize essas agressões.
Para os demais
Pais brancos, se unam à essa família para poder dar encaminhamento à questão, cobrar ações e punir os envolvidos.
Escola, se responsabilize, crie ações de conscientização, de preferência, antes do problema acontecer. Puna os responsáveis. No caso do Colégio Franco-Brasileiro, os alunos foram afastados.
Autoridades responsáveis, cobrem ações das escolas.
As sequelas que ficam desse tipo de trauma são inimagináveis para quem os viveu. Trabalhem para que isso não aconteça.
A Fundação Palmares, presidida por Sérgio Camargo terá que remover todo o conteúdo dos seus canais de comunicação relativos à Zumbi doa Palmares. Essa foi uma decisão judicial publicada nessa sexta-feira, 29.
De acordo com a coluna da jornalista Mônica Bergamo, a juíza Maria Cândida Carvalho Monteiro de Almeida, da 9ª Vara Federal Cível da SJDF, determinou que os artigos “Zumbi e a Consciência Negra – Existem de Verdade?”, de Luiz Gustavo dos Santos Chrispino, e “A Narrativa Mística de Zumbi dos Palmares”, de Mayalu Felix, devem ser retirados dos canais de comunicação da instituição, sob pena de multa diária no valor de R$ 1 mil.
A juíza deferiu pedido de liminar apresentador pelos deputados Túlio Gadêlha (PDT-PE), Benedita da Silva (PT-RJ), Áurea Carolina (PSOL-MG) e Bira do Pindaré (PSB-MA).
“Concluo, com base nessas considerações, que a permanência dos artigos questionados no sítio institucional da Fundação Cultural Palmares ameaça o patrimônio histórico-cultural brasileiro e viola o direito à identidade, ação e memória da comunidade negra e a sua garantia a condições adequadas para a preservação, expressão e desenvolvimento de sua identidade”, diz a decisão.
No Twitter Camargo protestou dizendo que a “Fundação Cultural Palmares está sob censura”.
Naomi Osaka acaba de se tornar a atleta mais bem paga na história, segundo a Forbes. Naomi, de apenas 22 anos, faturou US $ 37,4 milhões (mais de R$ 200 milhões) nos últimos 12 meses com prêmios.
Com esse número, Osaka estabeleceu um recorde de todos os tempos para o que uma atleta feminina ganhou em um único ano. Maria Sharapova anteriormente detinha o recorde quando faturou US $ 29,7 milhões em 2015.
A Forbes também relata que é a primeira vez desde 2016 que duas mulheres estão entre os atletas mais bem pagas. Em 2 de setembro de 2018, Osaka venceu Serena Williams em uma emocionante final feminina nos Estados Unidos. Em seu Instagram a atleta, chama carinhosamente Williams de “minha mãe”.
Naomi Osaka começou a jogar tênis aos 3 anos de idade. Ela cresceu nos Estados Unidos, mas tem cidadania japonesa e representa o Japão na quadra, a mãe é do Japão, o pai do Haiti. Ela foi a primeira jogadora japonesa a ganhar um título de Grand Slam e se tornou a primeira tenista asiática a ocupar a primeira posição no mundo.
O continente africano é repleto de cultura que, por vezes, desconhecemos. Pensando nisso, o sociólogo, cientista social, pesquisador e escritor Rhuann Fernandes escreveu o livro* “Casamento tradicional Bantu: o Lobolo no sul de Moçambique”, o primeiro livro com essa temática no Brasil. O jovem de 23 anos é original da cidade de São Gonçalo, situada na região metropolitana do Rio de Janeiro. De origem humilde, veio do bairro periférico Jardim Catarina e lá fundou a Organização Comunitária “Nós Por Nós”, voltado para a desigualdade social e educação. Rhuann se formou em Ciências Sociais pela UERJ com ênfase em sociologia e cursa o mestrado em Ciências Sociais da mesma universidade estadual.
Entrevistamos o sociólogo para entender melhor sobre a escolha de Moçambique como intercâmbio, seu TCC e o ritual do casamento Bantu, o lobolo e falarmos sobre o livro. Confira!
“Fui afetado pela riqueza de signos presentes nesta cerimônia”
MUNDO NEGRO: Ao escolher seu intercâmbio, por que fugiu do padrão europeu – estadunidense?
RHUANN FERNANDES: Bem, confesso que a escolha por Moçambique foi um ato político, uma vez que tive a oportunidade de optar por países europeus, uma tendência comum quando se resolve estudar fora. Entretanto, havia uma necessidade afetiva de confrontar as escolhas comuns pelas epistemologias do Norte, de um conhecimento produzido na Europa, nos EUA e no Canadá e reproduzido por autores do Sul. O fato de ser um estudante negro profundamente influenciado pela cultura africana e afro-brasileira também me orientou na decisão.
Como há alguns anos o movimento negro vem evidenciando: nós vivemos uma violência de natureza epistemológica profunda. Justamente por esse aspecto, resolvi escutar outras vozes. Afinal, há diferentes maneiras de produzir conhecimento que podem ser encontradas longe das universidades europeias, canadenses ou estadunidenses, o que chamo de mundo euroamericano.
MUNDO NEGRO: Por que Moçambique?
RHUANN FERNANDES: Tive a oportunidade de submeter candidatura para dois países africanos: Moçambique e Angola. Neles, havia instituições que a UERJ era parceira. Tive contato com muitas pessoas pretas que haviam realizado intercâmbio em Moçambique, (…) a conversa com elas foi preponderante para minha decisão. Além disso, economicamente Moçambique estava mais barato que Angola. Então, esses entre outros fatores contribuíram para minha decisão. É importante salientar: no dia 28 de agosto de 2018, embarquei para Maputo, em Moçambique, com o propósito de realizar um intercâmbio de graduação na Universidade Pedagógica (UP) por meio da Diretoria de Cooperação Internacional da UERJ (DCI), durante sete meses. Antes de sair do país, meu objetivo estava traçado: cursar disciplinas que pudessem expandir meu arcabouço teórico sobre uma pesquisa para monografia que estava realizando desde o terceiro período da graduação, intitulada “Contribuições da teoria pós-colonial para o campo sociológico”. Além disso, meus interesses estavam concentrados em áreas como filosofia africana e sociologia africana. Ou seja, não esperava ou não fui com intenções de investigar o casamento bantu. Por isso, costumo dizer que a minha pesquisa, sem arrogância, foi um sucesso. Essa é a magia das ciências sociais: deixar que uma cultura diferente da sua te afete e que isso, em alguma medida, te provoque reflexões profundas em paralelo com a bagagem intelectual e com sua trajetória.
MUNDO NEGRO: Desfrutando da experiência de Moçambique o que o motivou a escolher o ritual Lobolo? Como ouviu falar dele?
RHUANN FERNANDES: Bem, em Moçambique, tive muitos conflitos raciais com brancos brasileiros. Fiquei muito incomodado pela maneira a qual eles observavam os costumes tradicionais, eram muito etnocêntricos, demonstravam um ar de superioridade e pouco se relacionavam com os moçambicanos. Mas algumas dessas pessoas falavam negativamente do lobolo, interpretando-o a partir de teorias eurocêntricas, extremamente localizadas, sem considerar o contexto histórico, cultural e político do país, como por exemplo, o feminismo, como algumas das mulheres brancas que tive contato intitulavam-se. Dessas implicações e conflitos surgiu minha curiosidade, mas não o desejo de investigar o casamento entre as pessoas do Sul do país.
Uma semana após chegar à instituição, encontrei duas amigas brasileiras (negras) que estavam indo à secretaria de humanidades e pedi orientações. Por sorte, elas disseram que deveria pegar uma disciplina que havia descartado: Antropologia Cultural de Moçambique. A disciplina na qual não iria me inscrever foi a que mais me chamou atenção e a que me fez mudar o tema da monografia.
O tema das primeiras aulas versou sobre as relações de parentesco no Sul de Moçambique, caracterizado pela patrilinearidade. Na quarta aula, tive contato com o tema do casamento bantu no sul de Moçambique, conhecido como lobolo. Nesse momento, fui afetado pela riqueza de signos presentes nesta cerimônia. Pude compreender as razões pelas quais a antropologia desenvolvida no Sul de Moçambique e os principais debates teóricos giravam em torno desse casamento. O mais interessante foi o fato de o professor, durante quase dois meses, discutir as distintas interpretações desse fenômeno na história do país. À medida que frequentava a disciplina e debatia os textos, tornava-me cada vez mais próximo do tema. Então, decidi selecioná-lo para discussão em minha monografia, efetuando uma troca. Na realidade, correlacionei os dois temas e julguei que iria discutir o “lobolo pós-colonial”.
MUNDO NEGRO: Você teve contato direto com o ritual?
RHUANN FERNANDES: Sim, acredito que esta é a parte mais importante do meu trabalho. O meu trabalho de campo foi muito conflitante, sobretudo pelo fato das cerimônias que participei serem realizadas na língua changana (uma das línguas locais que resistiu ao avanço do colonialismo). Minha primeira oportunidade de trabalho de campo apareceu quase dois meses após minha chegada a Moçambique. Nessa primeira experiência, pude ver como os atores sociais no contexto urbano mobilizam aspectos da religião tradicional africana, do cristianismo e do islamismo em seus discursos para conversar com os mortos por intermédio do lobolo, inclusive com objetivo de evitar acontecimentos indesejáveis no futuro. Por outro lado, observei as negociações entre os noivos e as famílias que ocasionaram mudanças significativas em algumas etapas da cerimônia, o que me gerou impasses, mas, ao mesmo tempo, mostrou-me evidências de continuidades e descontinuidades do ritual que só foram compreendidas após o intenso contato e sucessivas conversas com o casal e seus familiares.
Depois do casamento, lembro-me que regressei à residência da universidade e lá encontrei com Abel Henriques, um companheiro moçambicano. Ele disse estar feliz por mim, mas que eu não conheceria o lobolo enquanto não frequentasse o “Moçambique Real”, pois apenas nesse contexto conseguiria observar a natureza do matrimônio tradicional. Para ele, eu deveria sair do meio urbano, pois a maioria dos pesquisadores ocidentais realizam suas pesquisas apenas em Maputo, capital do país. Entretanto, era difícil verificar investigações no interior ou zonas rurais, onde se concentrava a maior parte da população.
Articulei minhas dúvidas e apresentei para meu professor orientador Miambo. De imediato, fitou-me e exclamou: “É, você tem um interlocutor, ele disse que você precisa sentir esta experiência, então, tente vivê-la”. A bela ironia do destino trouxe, por meio de Abel, um convite para um lobolo de seus tios Candido Afonso Tune e Fátima Tune, em Madendere, no interior da província de Gaza.
Ao realizar essa viagem, deparei-me com uma situação contrária à que esperava. Não se tratava de um lobolo, mas sim do cumprimento de duas etapas “pendentes” após dez anos de sua realização: um casamento civil e um casamento canônico numa igreja cristã. Por outro lado, fui paciente e aguardei meu encontro com essas circunstâncias que o campo ofereceu. Foi nesse contexto que pude conhecer com mais profundidade, a partir dos meus interlocutores, a espiritualidade e a função dos vanyamusoro (curandeiros) no lobolo; tomar conhecimento de outros rituais de povos bantu, bem como a relação de sincretismo que perpassou a história de Moçambique antes mesmo da colonização. Além de ser incitado pelo discurso de meus interlocutores com relação à dicotomia rural versus urbano.
Desta maneira, refleti sobre os vínculos espirituais no contexto rural e as situações urbanas por intermédio da rede de contatos na qual fui inserido, bem como as distintas percepções de líderes religiosos sobre o lobolo. Notei também a importância que davam a concretizar, antes de tudo, o lobolo para, posteriormente, englobar outras formas de casamento em respeito aos ancestrais.
Ritual lobolo
MUNDO NEGRO: Como o ritual é realizado?
RHUANN FERNANDES: Bem, em resumo, trata-se de um casamento costumeiro e recorrente, em que a prática fundamental consiste em dar bens à família da noiva para realizar uma união reconhecida entre os parentes do noivo e os da noiva, num processo que pode demorar anos. Procura-se, por intermédio do lobolo, uma harmonia social: a comunicação entre os vivos e os seus antepassados, na qual é estabelecida uma garantia material do vínculo espiritual.
Apesar das modificações atribuídas ao lobolo durante a sua prática, há algumas fases básicas tradicionais para sua realização, em síntese: a primeira etapa está associada à intenção do noivo estabelecer um vínculo com a mulher desejada, para tal, parentes e amigos próximos aparecem na casa da mulher num encontro denominado hikombela-mati (pedir água). Neste caso, seus representantes levam alguns presentes específicos e abrem o diálogo para futura cerimônia de lobolo, identificando a mulher designada pelo noivo. Este encontro estabelece o primeiro laço com a mulher e familiares dela por parte do noivo e de sua família, e os presentes servem como mão de entrada. Nesta ocasião, os familiares da noiva aproveitam para entregar a lista de exigências (carta de lobolo) para realização da cerimônia. Após alguns meses ou anos, dependendo da capacidade do noivo para adquirir os presentes, o lobolo é realizado.
Em geral, bem antes da cerimônia de lobolo ocorre o kuphalha, um culto realizado para os antepassados, para sua invocação e, posteriormente, o diálogo com os mesmos para que o lobolo ocorra bem. Durante o lobolo, de acordo com os pedidos, os parentes do noivo atribuem presentes à família da noiva e as negociações entre eles se iniciam. Todos os itens são verificados, além de situações lúdicas que são criadas. O noivo fica ausente neste momento. E a noiva, apesar de não estar presente nas negociações iniciais, por outro lado, é chamada para avaliar os presentes e ouvir o pedido de casamento. Após o lobolo, o noivo se torna mukon’wana (genro) e, por fim, há o último processo: xigiyane, em que os pertences da noiva são levados por seus familiares para sua casa nova.
Cerimonia de casamento lobolo
MUNDO NEGRO: Qual o grande diferencial do ritual Lobolo para os casamentos que costumamos assistir?
RHUANN FERNANDES: Esta é uma ótima pergunta. Bem, como descrito acima, a questão principal do lobolo é a espiritualidade e os laços de parentesco, caracterizado pela patrilinearidade. Então, diria que a diferença central é a característica espiritual. O lobolo representa hoje modos de solidariedade que contestam o puro liberalismo capitalista. Para além de cerimônia nupcial com distribuição de dinheiro e presentes, o lobolo aparece aqui como uma potente afirmação de outros modos de viver a economia. É uma continuidade de uma tradição que prova que toda troca econômica é um ato moral.
Em minhas experiências, percebi que o lobolo pode ser compreendido como um rito que une conjugalmente um homem e uma mulher e que os conecta a uma comunidade de vivos e uma construção histórica feita pelos antepassados que é respeitada no ato da cerimônia. A instituição dos laços e conexões entre os vivos e os mortos faz com que a prática continue sendo efetuada. No sul de Moçambique, esse rito consagra diretamente o matrimônio, sendo substancialmente mais importante que casamentos de outra ordem. A transcendentalidade do lobolo sobre o amor é algo assumido, evidenciando a relação com o mundo dos antepassados do noivo e da noiva, em um contato direto entre vivos e mortos. A harmonia social entre noivos e famílias ocorre por meio da ligação com os espíritos antepassados e com o cumprimento de suas exigências. Se tudo ocorre de acordo esses vínculos e exigências, haverá bênçãos e garantia de prosperidade à nova família que se formou.
Ou seja, o lobolo transcende o amor, uma vez que é feito para os antepassados.
Não há uma ideia de amor romântico, tal como no modelo monogâmico que nós tanto cultuamos. Em contato com a espiritualidade, diria que presenciei a noção de um casamento integrado entre os espíritos e os vivos, passado e presente, a vida é observada de trás para frente. Assim, o casamento não significa pensar apenas no futuro, não é uma busca incessante por ele. Não é algo que vai apenas organizar e gerar estabilidade.
É, inicialmente, pensado a partir do passado, representa a pulsação de vidas que vieram antes e os antepassados estarão com o casal interminavelmente, se isso for respeitado. O papel do lobolo é basicamente conversar com os antepassados para identificar os perigos da vida e, ao mesmo tempo, encontrar respostas para promover o bem-estar social do casal.
MUNDO NEGRO: É viável adaptar o ritual para o Brasil?
RHUANN FERNANDES: Esta pergunta que você me fez é muito importante, pois penso que muitos ainda não estão preparados para discutir outras formas de relacionamento e conjugalidade. Sendo assim, temos que nos perguntar: a monogamia, o sonho de casamento com vestido branco entrando numa igreja cristã, é natural ou socialmente construído? Quando aprendi ser monogâmico? (…) Quer dizer, quero ressaltar que nossos sentimentos são construções culturais com reflexos sociais e políticos, não são naturais ou espontâneos. Com isso, precisamos desconstruir alguns hábitos, precisamos nos reeducar e conhecer outras formas (…) Com este movimento, acredito que seja possível sim praticar o lobolo e outras formas de casamento ainda não conhecida por nós. Acredito que as ciências sociais têm um papel fundamental nisso.
Parte da cerimonia tradicional bantu: lobolo
MUNDO NEGRO: Em que momento a escolha do TCC se tornou um livro?
RHUANN FERNANDES: Foi um processo mais rápido que esperava. Assim que defendi a monografia com êxito e ganhei duas premiações com a pesquisa, conversei com a editora e fechamos o contrato. Não vou mentir que tinha um objetivo de publicar a monografia como livro e, por isso, me dediquei tanto. Antes de chegar ao Brasil, já havia notado que não tinha nenhum livro sobre o tema no Brasil e, a partir daí, fiz minhas projeções e sustentei minha ambição. Pelo visto funcionou, né? (risos).
MUNDO NEGRO: Qual experiência teremos ao ler o livro?
RHUANN FERNANDES: Olha, o que mais me agrada nesta obra é que não se trata de um debate puramente acadêmico, mas de histórias de dois casamentos incríveis, que descrevo com muita preciosidade, para fazer o leitor se sentir lá, na cerimônia de lobolo. Então, posso dizer que a experiência que o leitor terá é sentir o Sul de Moçambique na pele, perpassando pela história política do país, as principais contribuições civilizatórias dos povos bantu daquela região e conhecerá outras formas de matrimônio possíveis para o nosso contexto. Enfim, parafraseando a querida Pauline Chiziane, diria que contei uma história para levar as mentes no voo da imaginação e trazê-las de volta ao mundo da reflexão.
MUNDO NEGRO: Um conselho para outros jovens negros, é…?
RHUANN FERNANDES: Para o povo negro desejo unidade política para transformação da calamidade, da situação de holocausto racial que vivemos há mais de 500 anos. Para os mais jovens, que perdem o direito de viver tão cedo, meu conselho é que escutem os mais velhos, principalmente os nossos pais, para progredirmos, para termos base e não deixarmos de tentar… jamais.
O sociólogo Rhuann Fernandes, autor do livro “Casamento tradicional Bantu: o lobolo no sul de Moçambique”
*Para informações acerca da venda do livro: @rhuannfernandes
Na terça-feira (26), as notícias da morte de Floyd, acompanhadas pelo terrível vídeo que detalha seu assassinato, provocaram indignação nas mídias sociais, que se estenderam por toda cidade do norte dos EUA. Várias personalidades negras demonstraram revolta com o caso e como disse Naomi Campbell: estamos cansados de “ficar triste por nosso povo morrer desnecessariamente”.
Em seu Instagram, a apresentadora Oprah Winfrey demonstrou o quanto um caso como o de George Floyd abala o psicológico do povo preto: “Não consegui tirar a imagem do joelho no pescoço dele da minha cabeça. Está lá todas as manhãs quando eu me levanto e quando cumpro os deveres comuns do dia. Enquanto servia café, amarrava meus sapatos e respirava, eu penso: ele não consegue fazer isso”.
Nesta sexta-feira (29), foi divulgado um novo vídeo do caso. Por outro ângulo, o exibe que não foi apenas um, mas três policiais a dominarem o americano pouco antes de ele morrer por asfixia. “E agora o vídeo do outro ângulo de dois outros oficiais o prendendo. Meu coração afunda ainda mais”.
“Sua família e amigos dizem que ele era um gigante gentil. Sua morte agora nos mostrou que ele tinha uma alma gigante. Se a grandeza de uma alma é determinada por sua esfera de influência, George Floyd é uma alma poderosa.
#GeorgeFloyd: Nós falamos seu nome. Mas desta vez não deixaremos seu nome ser apenas uma hashtag. Seu espírito é elevado pelos gritos de todos nós que clamamos por justiça em seu nome!”. Finalizou Oprah.
Um herói. O ator vencedor do Oscar, Denzel Washington estava dirigindo em Los Angeles no dia 21 de maio, quando viu um homem negro aparentemente sem-teto andando no meio do trânsito. O ator parou seu carro e levou o homem até a calçada para evitar um atropelamento.
O incidente, registrado em vídeo, mostra Washington, que está usando uma máscara facial, ajudando o homem, que vestia um capuz azul claro. No vídeo completo, Washington é visto conversando com o homem e colocando a mão em seu ombro de maneira segura.
De acordo com USA Today, uma testemunha ao ver a situação chamou a polícia.
Denzel ficou ao lado do homem durante a abordagem policial, se posicionando entre eles.
O homem acabou sendo detido e levado à delegacia, mas de forma segura e não violenta sob os olhares do herói Denzel.
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