Home Blog Page 7

Presença de pessoas negras sofre retrocesso histórico em campanhas de grandes marcas nas redes sociais

0
Redes sociais
Foto: IA

A diversidade na comunicação das marcas atingiu seu pior nível no Brasil desde 2018, ano em que foi lançada a primeira edição do levantamento “Diversidade na Comunicação de Marcas em Redes Sociais”. A conclusão é do 8º ciclo da pesquisa realizada pelo Buzzmonitor em parceria com a SA365 e a Elife, que analisou 10.299 postagens publicadas por 261 perfis dos 20 maiores anunciantes do país. Os dados revelam um retrocesso histórico na representatividade e expõem o avanço do branqueamento nas peças publicitárias digitais.

Segundo o estudo, conteúdos que retratam recortes diversos registram, em mídia orgânica, um engajamento médio quase 30% superior em relação àqueles que exibem exclusivamente grupos hegemônicos. Mesmo com a resposta positiva do público, o levantamento aponta uma distância gritante entre o desempenho observado nas plataformas e as escolhas de representação feitas pelas marcas.

No âmbito racial, a disparidade é alarmante. Pessoas brancas figuraram em 63,8% das publicações analisadas, subindo de posição em relação ao ciclo anterior. Já a participação de pessoas negras caiu para 32,5%, registrando índice inferior ao de 2025 e ficando muito aquém da composição populacional do país, onde pretos e pardos somam 55,5% dos habitantes, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Outros grupos étnico-raciais mantêm dinâmicas distintas: a presença asiática subiu para 12,1%, impulsionada por conteúdos de entretenimento importado como K-dramas e doramas, enquanto indígenas permanecem invisibilizados, presentes em apenas 0,2% das postagens e retratados quase que obrigatoriamente sob estereótipos.

A pesquisa também expõe a baixa autonomia e o isolamento dos grupos minoritários nas peças. Pessoas brancas aparecem exclusivamente entre si em 70,3% das imagens em que estão presentes. Quando pessoas negras figuram nos anúncios, em 49,5% das vezes surgem acompanhadas por pessoas brancas, sinalizando uma constante necessidade de validação por parte dos grupos hegemônicos.

Além disso, a análise qualitativa revela a repetição de papéis limitantes para a população negra: homens negros são frequentemente confinados ao universo esportivo ou a anúncios de telecomunicações, enquanto mulheres negras aparecem predominantemente associadas a programas sociais de jovem aprendiz ou a produtos específicos de beleza.

Esse encolhimento da representatividade ignora o impacto da economia no país. A população negra brasileira movimenta cerca de R$ 1,9 trilhão por ano em bens e serviços, contudo 32% desses consumidores declaram não se sentir representados pela publicidade. Os desdobramentos comerciais desse desalinhamento são diretos: 59% dos negros afirmam já ter deixado de comprar produtos por conta de anúncios inadequados, 46% apontam que boicotariam marcas desrespeitosas à causa e 60% declaram disposição para pagar mais por marcas que apoiem a equidade racial.

A retração observada nas campanhas corporativas repercute diretamente na visibilidade do mercado digital. Em uma divulgação recente que mapeou os 20 criadores de conteúdo brasileiros com o maior engajamento acumulado no Instagram em 2026, a Tia Milena figura como a única pessoa negra na lista, ocupando a última posição da sequência.

O cenário digital reforça que, mesmo em um ecossistema impulsionado pelo consumo e engajamento popular, as barreiras do mercado publicitário continuam a privar influenciadores e profissionais negros do devido reconhecimento e dos investimentos centrais da comunicação brasileira.

ONU lança portal em português sobre escravidão e tráfico transatlântico 

0
Portal da ONU reúne conteúdos sobre escravidão e memória
Foto: Reprodução

A nova página contém uma gama de materiais educativos sobre o comércio transatlântico de pessoas escravizadas, resistência, memória e as marcas do racismo. 

As Nações Unidas lançaram uma página em português dedicada à história do comércio transatlântico de pessoas escravizadas. O novo portal integra o Programa de Divulgação sobre o Comércio Transatlântico de Escravos e a Escravidão, iniciativa criada pela ONU para popularizar o acesso à informação, promover a educação histórica e fortalecer ações de combate ao racismo.

A página reúne materiais educativos, recursos multimídia e conteúdos produzidos no âmbito das iniciativas das Nações Unidas relacionadas à igualdade racial, aos direitos humanos, à memória e à justiça histórica. O conteúdo também aborda a resistência das pessoas escravizadas e as contribuições históricas, culturais e sociais das populações africanas e afrodescendentes.

Brasil foi principal destino nas Américas

Segundo dados citados pela ONU com base na UNESCO, cerca de 12,5 milhões de africanos e africanas foram deportados à força pelo comércio transatlântico de pessoas escravizadas entre os séculos XVI e XIX. Aproximadamente 5 milhões foram levados para o Brasil, que recebeu o maior número de pessoas escravizadas entre os territórios das Américas.

A dimensão desse processo ajuda a compreender a formação histórica do Brasil e os impactos que o comércio transatlântico e a escravidão tiveram sobre sociedades afrodescendentes.

Memória também passa pela resistência

O programa das Nações Unidas não se limita ao registro da violência provocada pelo comércio transatlântico. Diversas histórias de resistência, liberdade e atuação de pessoas escravizadas e de seus descendentes também se encontram entre os conteúdos disponibilizados.

Essa perspectiva aparece na programação internacional da ONU, que trata a memória como parte do enfrentamento das desigualdades raciais e da construção de políticas de justiça e reparação. Em 2026, o tema do Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Pessoas Escravizadas foi “Justiça em Ação: Confrontando a História, Promovendo a Dignidade, Fortalecendo o Futuro”.

Arca do Retorno integra iniciativa de memória

Entre os projetos ligados ao programa está a Arca do Retorno, memorial permanente instalado na sede da ONU, em Nova York. Inaugurado em 25 de março de 2015, o monumento foi criado pelo arquiteto haitiano-americano Rodney Leon e convida os visitantes a refletir sobre a dimensão do comércio transatlântico e seus efeitos no presente.

O memorial é composto por três elementos: um mapa que representa a dimensão global do comércio transatlântico, uma representação das condições enfrentadas durante a travessia e um espaço destinado à memória das pessoas que perderam suas vidas nesse processo.

A nova página em português amplia o acesso a esse conjunto de conteúdos para milhões de pessoas que têm o idioma como língua, aproximando materiais de pesquisa, memória e educação de públicos de diferentes países.

O portal pode ser acessado em un.org/pt/rememberslavery.

Celebrando o legado de Clodd Dias: 10 atrizes negras trans e travestis que o Brasil precisa reconhecer agora

0
Clodd Dias
Clodd Dias (Foto: Fabio Audi)

Por: Luh Maza

Clodd Dias morreu em 6 de agosto de 2026, aos 49 anos. Sua carreira incluía “Manhãs de Setembro” e “As Five”, entre outros trabalhos de muito prestígio.

A partida da atriz, cantora, poeta e dubladora causou comoção e também revolta na última semana. Apesar de décadas dedicadas ao teatro e de inúmeras participações no audiovisual, ela vinha enfrentando desafios financeiros de sobrevivência.

Como celebração de sua vida, reúno na minha coluna do Mundo Negro dez atrizes negras trans e travestis que estão transformando o teatro, o cinema e a televisão e que o Brasil precisa (re)conhecer, seguir e prestigiar agora!

Alitta 

Foto: Reprodução/Instagram

@alittadeleon
Hamlet •  Chega de Saudade  •  A Noiva e o Boa Noite Cinderela

Ayla Gabriela 

Foto: Paris Filmes

@aylagabrielaa
A Corpa Fala Pássaro Memória Geni e o Zepelim

Aretha Sadick 

Foto: Globoplay

@arethasadick
Reencarne Cidade de Deus: A Luta Não Para Lady Macbeth  

Danny Barbosa 

Foto: Reprodução/Instagram

@cocada_da_rainha_preta
Pedra Polida Mais Pesado É o Céu Bacurau

Gabriela Loran

Foto: Divulgação/TV Globo

@gabrielaloran
Malhação Arcanjo Renegado Três Graças

Ísis Broken

Foto: Globo/Fábio Rocha

@isisbroken
No Rancho Fundo Apolo A Margem do Rio

Jade de Axé

Foto: Universal TV

@jadedeaxe
Quarto de Empregada No Jogo (In)Vulneráveis

Kiara Felippe 

Foto: Divulgação/HBO Max

@kiarafelippe
Notícias Populares Beleza Fatal Picumã

Kika Sena 

Foto: Divulgação

@sereiavulcanica
Paloma Noites Alienígenas Histórias (Im)possíveis

Nata da Sociedade

Foto: Noedir

@nataofsociety
Quem é Juão – Um Musical No Jogo Liberdade, Liberdade  

Luh Maza é cineasta e dramaturga. Dirigiu e escreveu audiovisuais como a série Da Ponte Pra Lá e o filme Insubmissas, peças como Carne Viva e Kiwi e performances como Modo de Preparo e Transepreto – esta com Clodd Dias no elenco, em 2019. 

Caso Tupac: Julgamento do acusado pelo assassinato do rapper começa após quase 30 anos do crime

0
Foto de Tupac Shakur e imagem do acusado Duane Keffe D
Fotos: Getty Images

Três décadas após a perda de um dos maiores artistas da história do hip-hop, o processo judicial sobre a morte de Tupac Shakur entra em sua fase decisiva. O julgamento de Duane “Keffe D” Davis, ex-líder da gangue South Side Compton Crips acusado de orquestrar o assassinato do rapper, começa nesta segunda-feira (10), em Las Vegas, com a seleção do júri.

Aos 63 anos, Davis responde pela acusação de ter determinado a execução de Shakur e fornecido a arma utilizada no crime. Se condenado, ele pode cumprir prisão perpétua sem direito à liberdade condicional. Embora os argumentos da promotoria não devam determinar com precisão quem puxou o gatilho na noite de 7 de setembro de 1996, o Ministério Público busca provar que a ordem e a logística do ataque partiram dele.

O julgamento deve revisitar a intensa rivalidade entre as cenas do rap da Costa Oeste e da Costa Leste dos Estados Unidos na década de 1990. De um lado, a Death Row Records contava com a proteção da gangue Mob Piru, da qual o fundador Suge Knight era membro. Do outro, a Bad Boy Records — fundada em Nova York por P. Diddy e que tinha como principal estrela The Notorious B.I.G., morto seis meses após Shakur — contratou os South Side Compton Crips para a segurança local.

Segundo os autos do processo, o estopim para a emboscada em Las Vegas ocorreu após uma luta de boxe de Mike Tyson no cassino MGM Grand. Na ocasião, Suge Knight e Tupac agrediram Orlando “Baby Lane” Anderson, sobrinho de Davis, por conta de uma disputa envolvendo um colar da Death Row Records. A acusação sustenta que Davis organizou o ataque a tiros como retaliação direta ao episódio.

O caso permaneceu sem respostas por décadas devido à falta de provas conclusivas, até ser reaberto a partir de declarações do próprio acusado. Em suas memórias publicadas em 2019, Davis relatou que estava no banco dianteiro do Cadillac branco de onde partiram os disparos e que repassou a arma para o banco traseiro. Como os demais ocupantes do veículo já faleceram, as declarações públicas de Davis se tornaram a peça central que levou à sua prisão, em setembro de 2023.

Apesar das confissões feitas em livro e em entrevistas anteriores, o ex-líder de gangue agora nega o envolvimento e se declara inocente. “Sou inocente. Nunca matei ninguém. Eles não têm nenhuma prova contra mim”, declarou Davis em entrevista concedida da prisão à ABC News, em março de 2025.

O assassinato de Tupac, ocorrido quando o artista tinha apenas 25 anos, permanece como um dos episódios mais dolorosos da história da música negra norte-americana. Filho de Afeni Shakur, integrante do Partido dos Panteras Negras, Tupac transformou a poesia urbana e a denúncia do racismo estrutural em clássicos como “California Love” e “All Eyez on Me”.

O sistema lucra com a sua falta de reserva financeira

0
Homem negro analisando finanças e planejamento de reserva de emergência
Foto: Magnific

Por: Rachel Maia

Tenho observado que o assunto finanças ainda é limitado para a maioria dos brasileiros. A falta de acesso à educação financeira também é um divisor de oportunidades. Muitas pessoas acreditam que a falta de dinheiro é consequência exclusiva de salários baixos ou de gastos excessivos, mas posso afirmar que, embora esses fatores sejam relevantes, existe uma realidade que atravessa boa parte da sociedade: a falta de informação e a cultura do imediatismo.

Quando uma pessoa não possui recursos para enfrentar um imprevisto, ela se torna mais vulnerável. Um problema de saúde, a perda do emprego, o conserto do carro ou um eletrodoméstico que quebra pode transformar uma dificuldade pontual em uma sequência de dívidas. É nesse momento que entram o crédito emergencial, o cheque especial, o rotativo do cartão e os empréstimos de curto prazo, geralmente acompanhados de juros elevados.

Segundo pesquisas sobre o comportamento financeiro dos brasileiros, milhões de famílias convivem com algum nível de endividamento, e uma parcela significativa não conseguiria arcar com despesas inesperadas sem recorrer ao crédito. Isso demonstra que a ausência de uma reserva não é apenas um problema individual, mas uma questão estrutural que afeta a estabilidade econômica das famílias.

O custo da urgência é um dos negócios mais lucrativos do mercado financeiro. É preciso compreender que o sistema financeiro e o modelo de consumo se beneficiam da ausência de uma reserva financeira. Na prática, quem não tem reserva fica preso em um círculo vicioso, pagando altas taxas e juros que, consequentemente, limitam a capacidade de investir e de alcançar uma maior estabilidade financeira no futuro.

Educação financeira

A necessidade de ampliar a educação financeira no Brasil ganha ainda mais força diante do avanço das discussões sobre sua presença obrigatória nas escolas públicas. Em julho de 2026, o Senado aprovou o Projeto de Lei nº 2.979/2023, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) para incluir a educação financeira como tema transversal nos currículos da educação básica. O texto busca garantir que crianças e adolescentes desenvolvam, desde cedo, competências relacionadas ao planejamento financeiro, ao consumo consciente, à formação de patrimônio e à tomada de decisões econômicas responsáveis. O projeto ainda depende da conclusão do processo legislativo para entrar em vigor.

A medida representa um avanço importante porque reconhece que a educação financeira não deve ser tratada apenas como um conhecimento técnico, mas como uma ferramenta de cidadania. Esse aprendizado também contribui para reduzir desigualdades. Jovens que compreendem o funcionamento do sistema financeiro tendem a fazer escolhas mais conscientes ao longo da vida, evitando armadilhas do crédito fácil e construindo patrimônio de forma gradual.

Ter uma reserva de emergência significa comprar liberdade de decisão. Quem possui recursos guardados pode negociar melhor, evitar empréstimos caros, aproveitar oportunidades de investimento e enfrentar períodos de instabilidade com mais tranquilidade.

Construir esse patrimônio não depende apenas de grandes salários. Depende, principalmente, de consistência. Reservar pequenas quantias de forma recorrente pode parecer pouco no início, mas cria um hábito capaz de transformar a relação com o dinheiro ao longo dos anos. O primeiro objetivo não é enriquecer, e sim diminuir a dependência do crédito em momentos de dificuldade.

Não há como ignorar as desigualdades sociais e a perda do poder de compra que atingem milhões de brasileiros. Há famílias cuja renda mal cobre as despesas essenciais, tornando o ato de poupar um desafio real. Ainda assim, ampliar o acesso à educação financeira, incentivar o planejamento e criar condições para a formação de patrimônio são medidas que fortalecem a autonomia econômica da população.

O sistema financeiro continuará oferecendo crédito porque ele é parte essencial da economia. No entanto, consumidores financeiramente preparados deixam de ser reféns da necessidade e passam a utilizar o crédito como uma ferramenta, e não como uma solução permanente. Quanto mais cedo a educação financeira fizer parte da formação dos brasileiros, menor será a dependência de soluções caras oferecidas em momentos de urgência.

“A Casa do Dragão”: o que esperar de Corlys e seus filhos no episódio final da 3ª temporada

0
Personagens negros da série A Casa do Dragão
Fotos: HBO

Contém spoilers!

A família de Corlyn Velaryon (Steve Toussaint) chega ao episódio final da terceira temporada de “A Casa do Dragão” no centro de uma disputa que pode definir os rumos da guerra civil Targaryen. Após ser capturado pelas forças dos Verdes, Velaryon tornou-se um prisioneiro estratégico, enquanto seus filhos, Alyn (Abubakar Salim) e Addam de Hull (Clinton Liberty), ocupam posições cada vez mais importantes entre os aliados de Rhaenyra.

Ormund Hightower tenta usar a captura da Serpente do Mar para enfraquecer a posição de Rhaenyra Targaryen. No sétimo episódio, lançado na semana passada, Alyn recebeu um dedo acompanhado do anel do lorde Velaryon. O gesto funciona confirma a ameaça e que Corlys está sob o controle dos inimigos.

O oitavo e último episódio da temporada será lançado neste domingo (9), às 22h, na HBO Max. A prévia divulgada pela plataforma mostra Rhaenyra fazendo um discurso antes de novas cenas de combate, com destaque para um confronto que pode representar uma virada decisiva na Dança dos Dragões.

Alyn, Addam e Baela

Enquanto Corlys permanece nas mãos dos inimigos, a série desenvolve uma nova frente dramática envolvendo seus dois filhos e Baela Targaryen (Bethany Antonia). Após perder Jacaerys Velaryon na Batalha da Goela, Baela passou a se aproximar de Alyn e Addam. Inicialmente, a produção sugeriu uma possível conexão entre Baela e Addam, levando parte do público a imaginar que a série poderia criar um romance entre os dois — possibilidade que não existe dessa forma em “Fogo & Sangue”, livro de George R. R. Martin.

No entanto, Baela e Alyn se beijaram e têm demonstrado cada vez mais afinidade. A relação entre os dois também possui importância política. Nos livros, eles se casam após a guerra civil Targaryen, e Alyn se torna senhor de Derivamarca. A série, contudo, já promoveu mudanças significativas na trajetória dos personagens, o que mantém em aberto a possibilidade de o romance seguir — ou não — o mesmo caminho da obra original.

O destino de Corlys

O episódio final deve responder se Corlys conseguirá escapar dos Verdes e sobreviver ao cativeiro. Em “Fogo & Sangue”, essa captura não acontece: o lorde Velaryon permanece ativo durante boa parte da Dança dos Dragões, atua como conselheiro de Rhaenyra e sobrevive à guerra civil.

Corlys está entre as principais figuras políticas do conflito que chegam vivas ao seu desfecho. Depois da guerra, ele ainda exerce a função de regente antes de morrer anos mais tarde, já em idade avançada. Ao alterar esse percurso e colocá-lo nas mãos dos inimigos, a série cria um destino que os leitores do livro não conseguem prever.

Dia dos Pais: A maior revolução de um homem negro é oferecer aquilo que lhe disseram que não era para ele

0
Rodrigo França com roupa de colação de grau junto ao pai
Rodrigo França e o pai (Foto: Arquivo pessoal)

Por: Rodrigo França

Há um aspecto do Dia dos Pais que costuma passar despercebido. A data mobiliza homenagens, fotografias e lembranças afetivas, mas raramente provoca uma pergunta mais difícil: o que um homem escolhe herdar daqueles que vieram antes dele? Porque toda herança carrega duas dimensões. Existe aquilo que recebemos como conquista e existe aquilo que recebemos como ferida. Crescer é aprender a distinguir uma da outra. Amadurecer é decidir o que merece continuar vivendo através de nós.

Para muitos homens negros, essa escolha nunca foi simples. Nossos pais, avôs e bisavôs aprenderam a existir em um país que lhes negava humanidade todos os dias. Foram educados para suportar humilhações, esconder o medo, trabalhar até a exaustão e acreditar que a dureza era uma forma de proteção. Em muitas famílias, o carinho foi substituído pela disciplina violenta, rígida. O diálogo deu lugar ao grito. O afeto foi confundido com fraqueza. Não porque a violência fosse uma característica das famílias negras, mas porque o racismo produziu uma sociedade onde sobreviver parecia exigir o endurecimento permanente. Sabe o rigor da educação que exige que você seja dez vezes melhor para ocupar o mesmo espaço? Ele tem um preço.

É injusto olhar para essas gerações sem reconhecer o contexto em que viveram. Muitos homens negros conseguiram manter suas famílias de pé enfrentando um mundo que lhes oferecia os trabalhos mais precários, os menores salários e a permanente suspeita sobre sua existência. Houve amor em gestos que nem sempre souberam ser delicados. Houve proteção em homens que jamais aprenderam a dizer “eu te amo”. É preciso reconhecer esse esforço sem transformar suas limitações em modelo para o futuro.

A maior revolução de um homem negro hoje é subverter aquilo que esperam dele.

Esperam que ele seja forte o tempo inteiro. Que suporte tudo sem demonstrar cansaço. Que transforme qualquer emoção em silêncio. Esperam um homem eficiente, produtivo e resistente. Pouco se espera da ternura. Pouco se espera do cuidado cotidiano. Pouco se espera da delicadeza como expressão de potência. Cada vez que um homem negro escolhe abraçar um filho, ouvir uma criança antes de corrigi-la, pedir desculpas quando erra ou construir sua autoridade sem recorrer ao medo, ele rompe um roteiro escrito muito antes do seu nascimento.

Essa ruptura também é uma forma de ascensão.

Durante décadas, nossas famílias lutaram para que os filhos estudassem, ocupassem universidades, conquistassem estabilidade financeira e atravessassem portas antes fechadas à população negra. Essa caminhada precisa ser celebrada. Mas ela permanece incompleta quando termina na renda, no cargo ou no endereço. Ascender não pode significar apenas consumir mais ou frequentar espaços que antes nos eram negados. A verdadeira transformação acontece quando levamos essa conquista para dentro de casa e fazemos dela uma experiência coletiva.

Pouco adianta um homem negro alcançar posições de prestígio se continua reproduzindo com sua família a mesma lógica de autoritarismo que marcou sua infância. O sucesso perde parte de sua grandeza quando chega acompanhado dos mesmos silêncios, dos mesmos medos e da mesma incapacidade de demonstrar afeto. O racismo nos roubou demais para que entreguemos, voluntariamente, às próximas gerações aquilo que ele plantou dentro de nós.

Talvez por isso a figura paterna, entre famílias negras, nunca tenha sido restrita ao pai biológico. Muitos de nós fomos educados por avôs, tios, padrinhos, vizinhos, professores, líderes religiosos e amigos que ocuparam esse lugar de referência. A experiência negra sempre produziu redes de cuidado porque, muitas vezes, foi a única maneira de enfrentar um mundo organizado para desmontar nossas famílias. O Dia dos Pais também pertence a esses homens que decidiram cuidar quando não havia obrigação legal nem laço de sangue que os exigisse.

A presença masculina negra pode deixar de ser lembrada apenas pela força e passar a ser reconhecida pela capacidade de cultivar vínculos. Existe coragem em quem protege. Existe ainda mais coragem em quem aprende a demonstrar afeto depois de uma vida inteira ouvindo que isso diminuiria sua masculinidade. A delicadeza não enfraquece um homem. Ela revela que sua força deixou de servir apenas para resistir ao mundo e passou a servir para transformar a vida de quem está ao seu redor.

Cada geração recebe uma oportunidade rara: agradecer aos que vieram antes sem reproduzir tudo o que eles fizeram. Honrar nossos pais não significa imitá-los em cada gesto. Significa compreender o tempo que viveram e oferecer aos nossos filhos um tempo melhor. Eles abriram caminhos para que pudéssemos chegar até aqui. Cabe a nós impedir que as violências que atravessaram suas vidas continuem atravessando as nossas famílias.

O maior patrimônio que um homem negro pode construir não é um imóvel, um cargo ou uma conta bancária. Tudo isso importa. Nossa população conhece como poucas o valor da ascensão econômica. Mas existe uma riqueza ainda mais difícil de conquistar. A capacidade de criar filhos, netos, sobrinhos e afilhados que conheçam sua autoridade sem conhecer seu medo. Que recordem sua presença pelo acolhimento, não pela ameaça. Que encontrem, na memória de suas figuras masculinas, um lugar seguro para existir.

Hoje, meu pai, Nelson França, está no Orum. Mas a distância entre nós não apagou sua presença. Toda vez que penso nele, renovo um compromisso: seguir vivendo de um jeito que faça seu olhar atravessar o tempo e encontrar em mim algum motivo para orgulho. Gosto de acreditar que ele continua me guiando, não mais pela mão, mas pela memória, pelos ensinamentos e por tudo aquilo que deixou em mim.

Essa é a herança que transforma uma família. E nenhuma sociedade muda antes que alguém tenha coragem de mudar a forma como ama.

Em parceria com a Powerlist Mundo Negro, “Imagine e Desenhe” transforma identidade das premiadas em troféus

0
Bruna Bandeira e a premiada Cida Bento na Powerlist Mundo Negro 2025
Bruna Bandeira e a premiada Cida Bento na Powerlist Mundo Negro 2025 (Foto: Reprodução/Instagram)

Desde a primeira edição da Powerlist Mundo Negro, em 2022, a Imagine & Desenhe — empresa criada pela artista visual e pedagoga Bruna Bandeira, em parceria com o marido, o designer Igor — cria os troféus para as homenageadas, com a identidade de cada uma. A premiação anual reconhece mulheres negras de destaque em diferentes áreas.

A parceria nasceu a partir de uma ideia inicialmente pensada para um quadro com ilustração. “Esse trabalho foi bem autoral, porque eu achei sensacional, mas imaginei que um quadro não teria cara de troféu, de prêmio”, conta Bruna.

A partir daí, a artista buscou uma fornecedora para desenvolver um protótipo que pudesse materializar sua proposta. “Consegui unir a ilustração da premiada, a frase, os logos, tudo o que remete a um troféu, com o troféu acrílico confeccionado. Foi uma junção perfeita e também uma descoberta de um nicho”, explica.

Para Bruna, o projeto dialoga diretamente com os princípios da Imagine e Desenhe e com a proposta de representatividade da Powerlist Mundo Negro. 

A artista destaca ainda a reação das homenageadas ao receberem uma representação visual de si mesmas. “Todo mundo tem vontade de ser desenhado, de ser celebrado. Então, acho que casou muito”, diz. A partir da experiência com a Powerlist, a Imagine e Desenhe também passou a oferecer troféus personalizados para outras empresas.

Na 5º edição da premiação realizada no dia 31 de julho, na sede da L’Oréal Brasil, no Rio de Janeiro, foram homenageadas com um troféu: Val Benvindo (Diversidade e Impacto Social), Eduarda Vieira (Liderança Corporativa), Cicih Lima (Criadora Digital), Letícia Maria (Profissional da Beleza), Saint Clair Cezar (Destaque em Gastronomia), Madá Negrif (Profissional da Moda), Urias (Cultura, Artes e Entretenimento) e Conceição Evaristo (Trajetória Transformadora). Veja as ilustrações abaixo:

Celebrar para ser vista

Na criação dos troféus da Powerlist Mundo Negro, o processo começa antes da ilustração. Bruna analisa as fotografias e as frases escolhidas pelas homenageadas para garantir que a representação preserve suas características. A preocupação é utilizar imagens que permitam manter a identidade, a cor e os traços de cada mulher. “Então, é trazer essa conexão, exaltar e celebrar”, resume.

“O impacto disso é realmente as pessoas se verem no troféu e se celebrarem ali, na grandeza de como é se celebrar literalmente, de estar se prestigiando com aquele troféu”, afirma Bruna.

Arte como ferramenta de transformação

Fundada em 2013, a Imagine & Desenhe surgiu como uma forma de Bruna expressar suas próprias vivências, inquietações e referências. No início, a artista buscava traduzir em imagens as emoções provocadas por músicas de rap e por temas que considerava importantes. “Sempre usei a Imagine como a ferramenta da minha voz em forma de ilustração”, relata.

Com o tempo, o trabalho passou a alcançar outras pessoas, que se identificavam com os personagens, os cabelos e as narrativas presentes nas ilustrações. Bruna começou a construir uma linguagem própria, marcada por personagens diversos e frases de impacto que propõem reflexões, informações e diálogos.

“Eu gostava de ter aquele desenho fofo e uma frase de impacto que trouxesse uma utilidade pública, uma informação, uma reflexão e uma conexão”, explica.

A trajetória da marca também acompanhou o amadurecimento técnico e profissional da artista. Bruna começou desenhando no papel, passou pela aquarela e, posteriormente, entrou no universo digital. Também estudou anatomia e fez cursos de quadrinhos para aperfeiçoar o traço e ampliar as possibilidades de trabalho.

“Eu nunca apaguei os processos da Imagine, porque faz parte do crescimento: entrar no digital, fazer outras coisas, entender outras formas, estudar anatomia, fazer cursos de quadrinhos para melhorar o traço”, afirma.

Pedagoga com experiência em educação especial, Bruna encontrou na ilustração uma maneira de abordar assuntos complexos de forma acessível. Além da produção artística, a Imagine e Desenhe também realiza oficinas e workshops de narrativas visuais, voltados ao estímulo da criatividade e do pensamento crítico. A apresentação da marca destaca trabalhos para instituições como TV Globo, Sesc, Google e Instituto Avon, além de projetos editoriais e educativos.

“Levar isso de uma forma lúdica, com ilustrações — e as minhas são fofinhas — fazia com que a galera mastigasse melhor alguma informação, algum aconselhamento, alguma reflexão”, conta.

Uma identidade reconhecível

A Imagine e Desenhe atua em diferentes frentes, que incluem livros infantis, guias educativos, quadrinhos, produtos, campanhas internas, eventos corporativos, muralismo e criação de conteúdo. Mesmo com essa variedade, Bruna afirma que a identidade da marca permanece presente em cada projeto.

“Os clientes que vêm até mim já sabem como é a estrutura da Imagine”, explica. Para ela, a diversidade não é um elemento acrescentado posteriormente às ilustrações, mas parte fundamental do trabalho desenvolvido pela marca.

Na organização das demandas, Igor assume funções relacionadas à produção e à diagramação de produtos, como canecas e outros materiais. Bruna concentra-se no atendimento, na criação e no diálogo com os clientes. “Acredito que o atendimento é a base da Imagine”, afirma.

Outro elemento que contribui para o reconhecimento do trabalho é o estilo dos personagens, que tradicionalmente aparecem sem nariz, com os olhos fechados e um sorriso marcante. Ao longo dos anos, Bruna passou a explorar novas expressões e emoções, sem abandonar a característica que se tornou uma assinatura visual.

“Ele já tem uma identidade muito forte, e eu só tento melhorar as técnicas, estudar um pouco sobre luz e sombra e fazer mais coisas”, diz.

Para a artista, o desenvolvimento do traço está relacionado à prática e ao estudo, e não a uma ideia fixa de talento inato. “Sou meio contra falar que desenhar é dom, porque o meu desenho do início e o de agora são totalmente diferentes”, afirma.

Em um cenário em que a arte ainda enfrenta dificuldades de acesso e valorização, a artista mantém o compromisso de tornar seu trabalho próximo de diferentes públicos. Parte das ilustrações é compartilhada gratuitamente nas redes sociais, enquanto a marca também reserva espaço para ações sociais.

“Eu queria que a minha arte não fosse algo só elitizado. Queria que fosse acessível, conversasse com todos”, diz. “Sempre vou trabalhar, celebrar e trazer a diversidade nas minhas ilustrações, em todas as frentes, tanto nas empresas quanto no social, porque isso é a essência. Sou eu”, conclui Bruna.

“Cidade de Deus: A Luta Não Para” ganha primeiro teaser da 2ª temporada 

0
Jerusa (Andreia Hortá), Buscapé (Alexandre Rodrigues) e Berenice (Roberta Rodrigues) em "Cidade de Deus: A Luta não para".
Foto: Divulgação/ HBO Max

A segunda temporada de Cidade de Deus: A Luta Não Para” ganhou novas imagens e tem retorno previsto para novembro de 2026 na HBO Max. A produção dá continuidade à história apresentada no longa “Cidade de Deus”, dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund, lançado em 2002.

A trama da série se passa no início dos anos 2000 e acompanha novamente Buscapé, interpretado por Alexandre Rodrigues, que retorna à Cidade de Deus enquanto registra as transformações e os conflitos vividos pela comunidade.

Na nova temporada, a disputa pelo controle do território continua entre diferentes grupos, ao mesmo tempo em que a narrativa amplia o espaço para personagens e conflitos que fazem parte da rotina da comunidade.

Matheus Nachtergaele retorna como Cenoura

Um dos retornos mais aguardados é o de Matheus Nachtergaele, que volta a interpretar Cenoura, personagem que viveu no filme original.

No novo capítulo da história, o personagem retorna à Cidade de Deus após conquistar a liberdade, e se vê novamente envolvido nas disputas de poder e assume uma posição de liderança no tráfico, apesar de desejar se afastar dessa dinâmica.

O personagem é uma conexão direta entre o longa de 2002 e a série, que recupera elementos da obra original ao mesmo tempo em que desenvolve uma narrativa própria sobre a comunidade duas décadas depois.

Uma Cidade de Deus em transformação

A segunda temporada parte dos acontecimentos apresentados no primeiro ano da série e amplia a discussão sobre as relações de poder presentes na Cidade de Deus.

A produção aborda as disputas entre grupos ligados ao tráfico, a presença da milícia, a atuação política e as formas de organização da própria comunidade. A cultura também ocupa espaço importante na narrativa, com o funk aparecendo como uma das ferramentas de expressão e mobilização dos moradores.

Entre os demais personagens que retornam estão Roberta Rodrigues, como Berenice, Alexandre Rodrigues, como Buscapé, e outros nomes do elenco original. A nova temporada também conta com Andréia Horta.

A HBO Max havia anunciado a segunda temporada ainda em 2024 e, posteriormente, confirmou que os novos episódios chegariam em 2026. A plataforma apresentou as primeiras imagens da produção em novembro de 2025.

A primeira temporada de “Cidade de Deus: A Luta Não Para” está disponível na HBO Max.

A preta venceu: como a ascensão da pessoa preta pode vir acompanhada de um luto identitário

0

Quem vem de uma realidade pobre, periférica provavelmente já ouviu ou reproduziu a seguinte frase: “agora que ficou rico, não fala mais com pobre”. A ironia do próprio título mora aí: comemora-se a conquista mas existe a cobrança do pertencimento. Em uma passagem do livro Um Defeito de Cor” em um momento que a personagem central do livro depois de ter vivido duros anos de escravidão, contrói e conquista uma realidade mais próspera e ela diz “minha vida seguiu um caminho e fui me deixando levar para muito longe do que tinha imaginado. E isso foi bom para mim, que tinha conseguido coisas com as quais os pretos nem sonhavam, não porque sonhassem pequeno, mas porque não sabiam que tais sonhos eram possíveis”.


E esse é um momento em que se nota um outro olhar sobre a personagem, a mediadora de um clube do livro do qual faço parte diz que é aí que vai se instaurando um “ranço” da kehinde. Esse incômodo de Kehinde surge porque para prosperar após a violência do cativeiro, Kehinde precisou adotar novos hábitos, ser pragmática e ter certa distância da vulnerabilidade que a cercava. Isso pode até ser lido como soberba, mas foi também uma estratégia de sobrevivência. O que leva diretamente para a seguinte questão: como se passa por mudanças significativas na própria vida, mudanças essas que são consequência de um misto de atitudes que foram tomadas justamente para alcançar determinados objetivos, sem permitir também ser transformado? A verdade é que não se passa ileso, a transformação é o preço da entrada. Em ‘Ensinando a transgredir Bell Hooks aborda esse assunto e nos explica que: ‘a educação vem como uma prática da liberdade’, a intelectual aborda toda a complexidade sobre quem vem de lugares de vulnerabilidade social e finalmente ocupa novos espaços, geralmente essas pessoas se encontram na situação que a autora pontua quando diz que “o preço da entrada costuma ser o abandono da nossa linguagem e costumes originais”, escancarando que a travessia altera inevitavelmente o sujeito.
Logo, como manter uma “essência” que era resultado de uma outra realidade?


A gente cresce tentando sobreviver, depois tenta conquistar para em algum momento conseguir de fato, viver. E nesse caminho vamos pelos recursos disponíveis, seja através do estudo, trabalho, empreendedorismo, arte, comunicação, qualquer habilidade que possa abrir uma porta que sempre esteve fechada vai ser usada como arma para esse corpo com sede de mudança. Mas existem algumas nuances que precisam ser levadas em consideração, cada passo dado, é uma nova experiência, cada caminho vai exigir algo de você e as pequenas transformações vão acontecendo, até se tornarem grandes demais para quem não te acompanhou no processo, estranhar.
No caminho para a conquista,é comum que alguns lugares deixem de fazer sentido, pode ser que algumas conversas já não te despertam tanto interesse e até velhos hábitos acabam ficando incompatíveis com a rotina, e você os deixa para trás. No caminho a gente vai fazendo outras descobertas, e até o que era visto como a meta pode acabar ficando pequeno e as mudanças de estratégias vão acontecendo simultaneamente pois agora você tem acesso a outras informações e entendeu que coisas ainda maiores também são possíveis.


E, inevitavelmente, algumas pessoas ficam para trás. Se você é uma pessoa que está vivendo constante transformação, como faz para manter na sua vida pessoas ou hábitos que já não tem nada em comum com a pessoa que você se tornou? Já que estão vivendo momentos e experiências completamente diferentes? Como se divide em 2 e mantém o melhor dos dois mundos, como não se perder no caminho, manter a admiração de pessoas próximas que foram importantes em outros momentos e também sem decepcionar pessoas que estão presentes e sendo importantes agora? O mais importante é entender que o afeto e a gratidão continuam ali, independente de quem você se tornou ou está se tornando, mas o dia a dia exige um assunto e um ritmo em comum que a mudança de vida acaba afastando. E a grande ironia do “a preta venceu” é essa: se você tentar se desdobrar em duas para agradar todo mundo, acaba não sendo inteira em lugar nenhum.
A realidade da vida de pessoas pobres no Brasil às vezes tenta encaixar todos em uma mesma caixinha, existe a romantização da ideia do crescer junto, e essa é a intenção, mas a realidade ainda é muito dura. Nem todo mundo quer o mesmo futuro, nem todo mundo pensa em viver de outra forma, nem todo mundo está insatisfeito com a própria realidade, ainda que seja uma realidade mais simples e nem todo mundo enxerga oportunidade onde você enxerga. E no meio dessa busca existem também muitos códigos que pessoas pretas precisam aprender para conseguir ocupar alguns espaços, frequentar novos lugares, construir novas redes e novos hábitos e fazer constantes adaptações de vida. E ainda assim pode ser que aos poucos, você entenda que não pertence completamente ao lugar de onde veio, mas também nunca pertence totalmente ao lugar onde chegou.


A pessoa negra buscando ascensão possivelmente vive entre mundos. E pode parecer uma piada “tadinha, está enfrentando dificuldades porque agora tem alguns acessos e um pouco mais de dinheiro”, mas é basicamente isso, esse não lugar, o “entre mundos” pode sim ser solitário e prejudicial para uma pessoa que provavelmente cresceu em vínculos expansivos, longos e acolhedores. O que você tem agora? Com quem se identifica? Como os “seus” te olham, o que mudou? Você quer provar que pertence aos dois mundos, mas para qual mundo você mais precisa provar coisas? A escritora Chimamanda Ngozi Adichie, em ‘O perigo de uma história única’, conta que, mesmo sendo de classe média e filha de professores universitários, sua colega de quarto na faculdade nos Estados Unidos sentia uma pena antes mesmo de conhecê-la, ‘‘Sua postura preestabelecida em relação a mim, como africana, era uma espécie de pena condescendente e bem-intencionada” ficando chocada só de ver que ela falava inglês bem.


Na prática, quando a pessoa preta ocupa um novo ambiente, ela sente essa pressão de precisar romper com o estereótipo e provar que a sua capacidade é real. É aí que a ascensão exige uma virada de chave: você precisa assimilar novos códigos e linguagens para garantir seu espaço. Só que a ironia é dupla: de um lado, você precisa provar para o novo mundo que merece estar ali; de outro, precisa provar para o seu mundo de origem que o seu letramento não virou soberba.


E, no meio dessa maratona para provar algo para todo mundo, acontece uma limitação.
Talvez por não ter medido esforços para mudar a própria realidade não tenha sobrado muito tempo para olhar para a própria realidade que te construiu com os olhos de quem você era, e acaba caindo no erro de olhar para esse lugar com as lentes das limitações que você teve.
Você esquece que aquilo também construiu você, você esquece que o repertório, a linguagem, a criatividade, a forma de existir e até a força para chegar tão longe nasceram justamente daquele lugar. E a ascensão não tem o direito de apagar essas memórias e sim reverenciá-las. Que ninguém continua o mesmo depois de transformações sequenciais, já é um fato, mas agora é entender que existe um desafio, e o desafio não é continuar “o mesmo de antes” e sim continuar reconhecendo a potência do lugar que você saiu sem tentar modificá-lo ou diminuí-lo. Porque esse lugar também é igualmente importante, essa antiga realidade foi o que te impulsionou, isso não diminui a sua trajetória, na verdade, conta a sua história, o que torna igualmente importante. É realmente uma contradição.


Também não se sobrecarregue achando que o seu dever é carregar todo mundo nas costas, isso pode te adoecer. Recentemente ouvi a frase “se a porta tá querendo fechar e eu passei, vou ficar entre ela, deixando meio aberta até todo mundo chegar”. Crie também movimentos que geram mais oportunidades, já que você agora tem alguns acessos facilitadores. Indique um nome, compartilhe conhecimento, capine o caminho assim como capinaram um pouco antes o seu, assim outras pessoas não precisarão começar exatamente do mesmo ponto em que você começou.


Já que agora você tem um repertório incrível, de coletividade, criatividade, sagacidade e ginga, você pode viver na ponte, justamente sendo um agente que facilita os trajetos, quem sabe? Talvez o “a preta venceu” seja conseguir sempre voltar com dignidade e ser bem recebido sem precisar deixar de ir também.


Porque muitas vezes a solidão da pessoa preta em ascensão nasce justamente dessa raridade, não é o “lugar comum”, pode ser que você também se encontre perdido nesse espaço e buscando uma identificação e como ainda existem poucas pessoas negras ocupando determinados espaços de poder, quem chega lá frequentemente deixa de ter pares. E é uma solidão política.

por: gaby ferraz e victoria moura

error: Content is protected !!