Samara Martins, a única mulher na corrida presidencial, defende aumento em 100% do salário mínimo e congelamento do preço dos alimentos

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Samara Martins, a única mulher na corrida presidencial, defende aumento em 100% do salário mínimo e congelamento do preço dos alimentos
Foto: Divulgação/UP

“Mesmo com toda a desigualdade, nós podemos vencer”: Única mulher a apresentar pré-candidatura à Presidência da República em 2026, Samara Martins (UP) afirma colocar a soberania alimentar e a valorização do trabalhador no centro de seu programa econômico. 

Em entrevista ao Mundo Negro, a vice-presidente nacional da Unidade Popular defende medidas radicais para conter o endividamento que atinge mais de 80% das famílias brasileiras, propondo o aumento de 100% do salário mínimo nacional e o congelamento do preço dos alimentos atrelado a uma profunda reforma agrária. Mulher negra e mãe de dois filhos, ela afirma que sua chapa é a única que não busca reformar o capitalismo, mas sim construir o socialismo a partir das demandas da maioria da população.

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No levantamento mais recente do Datafolha, divulgado na última sexta-feira (22), Samara pontuou com 3% das intenções de voto no primeiro turno, consolidando um empate técnico, dentro da margem de erro, com nomes como os governadores Romeu Zema (Novo, 3%) e Ronaldo Caiado (PSD, 4%). O cenário eleitoral segue liderado pelo presidente Lula (PT), com 40%, seguido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), com 31%. “Tentam nos esconder, mas a gente tem tentado quebrar esse bloqueio. A gente pode ir muito longe esse ano”, afirma Samara ao falar sobre as suas expectativas.

Além da reestruturação econômica, Samara traz para o debate sua experiência prática como dentista no SUS (Sistema Único de Saúde), dentro do sistema prisional. Na entrevista, ela denuncia a exclusão na saúde bucal — destacando que 37% dos estudantes de escolas públicas nunca foram ao dentista — e defende o fortalecimento do SUS por meio da suspensão e auditoria da dívida pública, além de propor a obrigatoriedade de que todos os políticos utilizem os serviços públicos de saúde e educação.

Nas eleições de 2022, Samara foi candidata a vice-presidente ao lado de Leonardo Péricles, compondo a única chapa presidencial formada inteiramente por pessoas negras naquele pleito.

Foto: Divulgação/UP

Leia a entrevista completa abaixo:

1) Você é, até agora, a única mulher pré-candidata à Presidência em 2026. Sendo ainda uma mulher negra, como você avalia a importância da sua candidatura e a luta para enfrentar a invisibilidade para participar dos debates eleitorais?

A nossa pré-candidatura cumpre um papel importante na conjuntura política do nosso país, porque somos a representação da maioria da população brasileira, que é justamente de mulheres negras e trabalhadoras, não apenas pela minha figura pessoal, mas principalmente pelo programa de transformações profundas da Unidade Popular, a UP, que é o programa do socialismo no Brasil. Há de fato uma tentativa enorme de invisibilizar a nossa pré-candidatura, mas temos conseguido, por meio do trabalho de base, mesmo nas ruas e nas redes digitais, romper o bloqueio das grandes mídias, dos institutos de pesquisa e fazer nossas propostas chegarem nas pessoas. E mesmo já tendo pontuado nas pesquisas, em pesquisas relevantes como o Datafolha, a Quaest, a Atlas, a Intel, ainda tentam esconder, fingir que a minha pré-candidatura simplesmente não existe. Mesmo assim, na pesquisa do Datafolha, eu estou em terceiro lugar, no empate técnico com gente que tem muito mais espaço na mídia, que conta com um poder de dinheiro, de fundos partidários enormes e também de dinheiro dos grandes empresários. O fundamental, então, é nas ruas para nós da UP, né? E nas ruas a UP tem crescido. Em todo o Brasil eu tenho recebido apoio da classe trabalhadora, de pessoas já conhecendo a nossa pré-candidatura, e isso dá muita força pra gente seguir no que a gente tem chamado de guerra eleitoral, porque é um processo extremamente desigual.

Foto: Divulgação/UP

2) Entre muitas demandas relacionadas ao atendimento de saúde no Brasil, está o menor acesso a serviços odontológicos para pessoas negras e de baixa renda. Como uma dentista que atua no SUS, você tem estudado propostas a respeito? Como a sua própria vivência tem lhe ajudado a propor melhorias na saúde?

Com certeza as políticas de saúde pública estão entre as prioridades do nosso programa. Eu, como dentista e trabalhadora do SUS, na Estratégia Saúde da Família, tenho a atenção primária na saúde bucal como uma das minhas prioridades. É o que eu mais estudo, é no que eu me especializei: na saúde pública. Eu faço hoje atendimento num presídio no Rio Grande do Norte, onde atendo uma grande população, que são os jovens negros que hoje estão encarcerados por essa lógica de negação de direitos, de acesso aos serviços e de encarceramento em massa. Realmente, em sua maioria estão já presos, mas sem julgamentos. Então, eu sempre digo que são privados de liberdade, mas também são privados de sorrir, nesse meu papel na saúde bucal dentro do presídio. E a saúde bucal, além da saúde geral, traz dignidade pras pessoas. Esse tem sido o meu esforço profissional.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar mostrou que 37% dos estudantes de escolas públicas que estão entre 13 e 17 anos nunca foram ao dentista na vida. Isso me alarmou bastante. São adolescentes que passaram 13, 17 anos da vida sem nunca ter ido ao dentista. E além disso, a cobertura odontológica na atenção básica no Brasil é estimada em apenas cerca de 45% da população. Então, nem todo mundo tem acesso à saúde bucal. E ainda há uma desigualdade regional grande, onde os centros urbanos, as capitais, principalmente do Sudeste, têm acesso a serviços odontológicos, enquanto as regiões Nordeste e Norte acabam tendo menos atenção. Na atenção especializada a situação é bem semelhante, mas o nosso povo merece sorrir, né? E é preciso ampliar o entendimento de que a saúde bucal faz parte da saúde integral das pessoas e que a odontologia deve ser exercida na prevenção, e não só na intervenção, que ainda é mutiladora no Brasil. A gente precisa acabar com a lógica de que o Brasil é o país dos desdentados. Para isso, é preciso aumentar os recursos da saúde num geral, o que passa pela divisão do orçamento e, nesse sentido, auditar e suspender o pagamento da dívida pública. Uma das nossas propostas é a necessidade de investir no SUS e em outras áreas sociais. Então, é necessário garantir que isso aconteça. Além disso, garantir a valorização dos cirurgiões-dentistas e técnicos em saúde bucal.

Nós estamos inclusive na luta nacional pela aprovação do piso salarial dos dentistas para incentivar essa abertura maciça de concursos, para que os profissionais atuem na saúde pública mais felizes, mais valorizados. A saúde bucal deve ser um direito de todos, e não só para quem pode pagar por procedimentos estéticos caríssimos, que é o que está mais aí na moda e o que tem sido falado.

Quero lembrar também que nós temos feito a defesa de que todos os políticos sejam obrigados a usar o SUS e a educação pública, do presidente da República ao vereador. Isso é básico, na minha opinião, para que os investimentos na saúde aumentem e que as pessoas sejam atendidas integralmente em sua saúde.

Foto: Reprodução/Instagram

3) Em um cenário em que mulheres ainda são cobradas a conciliar tudo ao mesmo tempo, o que a experiência de ser mãe muda na forma como você pensa o trabalho, cuidado, Estado e direitos sociais?

Sim, a sobrecarga de nós, mulheres trabalhadoras, mães, a dupla, tripla jornada imposta a nós, é na maioria das vezes um grande empecilho para as mulheres não se colocarem nos espaços de poder e de decisão política. Nós, mulheres, somos convencidas de que temos que dar conta de tudo sozinhas: da casa, do cuidado com os filhos, da comida, da roupa, da escola, da saúde, e ainda ser uma trabalhadora formal ou informal ganhando muito pouco e administrando as finanças da casa para que a família viva bem. 

Além do peso físico, a sobrecarga mental é muito grande. Quando nos tornamos mães, o nosso objetivo é garantir que a vida dos nossos filhos seja a melhor possível, e no sistema capitalista isso é impossível porque o bem-estar das pessoas não está em primeiro lugar; é tudo pensado para o lucro, e os direitos e serviços essenciais viram mercadoria. Então a moradia, o transporte, a alimentação, tudo vira uma mercadoria. E na lógica do Estado, ou se privilegia o bem-estar das pessoas e suas necessidades fundamentais, ou se prioriza o lucro da classe dominante. Os grandes empresários, o agronegócio, os banqueiros, os especuladores… não dá para atender os dois lados e achar que vai dar para conciliar essas classes.

Nós, da Unidade Popular, defendemos que a vida está em primeiro lugar e que a lógica capitalista, que tem o capital, o lucro como principal, deve ser destruída e construída em seu lugar uma sociedade socialista em que o social esteja no centro. Que um país que tanto produz beneficie o seu povo, e não a exportação com alto custo, que é a destruição do meio ambiente e dos nossos territórios.

É importante lembrar também que, no socialismo, as mulheres sempre foram prioridade. O Estado deve servir para nos libertar do trabalho doméstico, das jornadas extras, e garantir que nós, mulheres, possamos ser livres para viver. Isso sim é ser radical, é ser revolucionário, ou seja, resolver o mal pela raiz de fato.

Foto: Reprodução/Instagram

4) Uma das principais queixas da população brasileira hoje é o preço dos alimentos, levando muitos ao endividamento com parcelamentos feitos nos mercados. Na sua opinião, como a Unidade Popular se diferencia das outras candidaturas para pensar a economia, emprego e renda?

A diferença é que o nosso programa não se propõe a reformar o capitalismo, mas a construir o socialismo. A minha pré-candidatura apresenta a proposta de aumentar em 100% o salário mínimo, congelar o preço dos alimentos, vinculado ao controle de toda a cadeia produtiva de alimentos — a produção, a distribuição, o estoque —, com o início de uma profunda reforma agrária. Hoje as famílias brasileiras se endividam até para fazer as compras do mês. Quase 81% das famílias possuem algum tipo de dívida, e isso significa quase 82 milhões de pessoas inadimplentes. É metade da população adulta. As pessoas estão endividadas com cartão de crédito, com crediário, com empréstimos pessoais. Essas são as principais formas de endividamento, e isso se deve justamente ao desemprego, aos baixos salários, aos preços dos alimentos, aos aluguéis cada vez mais caros. Então, a solução não é distribuir mais crédito, garantir mais crédito, inclusive vinculado ao uso do FGTS das pessoas, etc. É necessário priorizar a soberania alimentar do povo, planificar a economia e acabar com a anarquia que é a produção, bem como revogar o arcabouço fiscal que limita o índice de reajuste salarial. Isso é determinante.

Foto: Reprodução/Instagram

5) A violência contra meninas e mulheres tem sido um grande foco de debate com o grande aumento das ocorrências neste ano. Quais medidas você tem estudado para prevenir as vítimas?

São quatro mulheres vítimas de feminicídio por dia. A cada 6 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil; aumenta a violência de todos os tipos contra as mulheres. E é uma realidade alarmante num Brasil que ainda inferioriza mulheres e as retira dos espaços de poder. Por isso, nossa pré-candidatura propõe garantir um programa de formação sobre violência de gênero desde o ciclo básico nas escolas. É preciso educar as crianças, os adolescentes, os jovens, fomentar uma educação não sexista, que não inferiorize as mulheres.

Além disso, criar casas de referência para as mulheres em situação de violência, mas também de prevenção à violência para apoio psicológico, jurídico, político, a exemplo das casas de ocupações que o movimento de mulheres tem realizado, que é o movimento do qual eu faço parte, o Movimento de Mulheres Olga Benário; assim como garantir mais casas-abrigo e delegacias 24 horas, que são pouquíssimas nas cidades e nos estados, preparadas para atender as mulheres, para que não violentem novamente essas mulheres.

Porque diante dos fatos de violência, de feminicídio, é preciso endurecer as punições, as penas para práticas de violência contra as mulheres, os crimes de feminicídio, mas a misoginia também deve ser punida. Garantia de igualdade salarial, garantia de emprego, para que nenhuma mulher tenha que se manter numa relação abusiva e violenta devido a uma dependência financeira. É inadmissível que isso ainda aconteça, reforçando que uma parte das demissões acontece por conta da maternidade, e isso é uma forma de misoginia estrutural.

Muitas mulheres são demitidas até 2 anos após terem seus bebês em consequência da maternidade, ou sofrem outras punições no local de trabalho no retorno das licenças. Mas é importante lembrar que a opressão às mulheres também é fruto do capitalismo, que precisa desse mecanismo de violência para justificar a exploração de um ser humano por outro, que precisa diminuir, que precisa inferiorizar, que precisa oprimir para explorar ainda mais as mulheres.

No socialismo, as relações entre as pessoas serão diferentes, porque as relações econômicas também serão outras, serão relações de cooperação, não de exploração. O capitalismo precisa da opressão de gênero, da opressão de raça, da LGBTfobia, do capacitismo, da xenofobia para existir e para explorar esses que são considerados menores por esse sistema.

Por isso, ser contra o patriarcado, ser contra o machismo, contra a misoginia ou qualquer tipo de opressão é necessariamente ser contra o sistema capitalista.

Foto: Wildally Souza

6) Considerações finais

Para finalizar, eu queria pedir a todas as pessoas que têm gostado das nossas propostas que possam nos seguir nas mídias digitais, compartilhar os nossos conteúdos com os familiares, com os amigos, participar da nossa vaquinha pela internet — e, se puderem, divulgar o link no final da entrevista — nos ajudar a sermos mais conhecidos. Tentam nos esconder, mas a gente tem tentado quebrar esse bloqueio. A gente pode ir muito longe esse ano. Nós estamos na disputa e, mesmo com toda a desigualdade, nós podemos vencer, porque se o nosso povo estiver convencido, estiver consciente, pode tudo, inclusive mudar as figuras que estão no poder, que exercem o poder no nosso país.

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