Rosana Paulino: a artista negra brasileira destaque na Bienal de Veneza

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Rosana Paulino: a artista negra brasileira destaque na Bienal de Veneza
Foto: Divulgação

Rosana Paulino comanda o pavilhão do Brasil na 61ª edição da Bienal de Veneza, que ocorre de maio a 22 de novembro de 2026, ao lado de Adriana Varejão. Neste ano, o pavilhão brasileiro é composto apenas por mulheres, sob curadoria de Diane Lima, primeira mulher negra a assumir o cargo na mostra.

A exposição intitulada “Comigo Ninguém Pode”, em referência à planta popularmente associada à proteção, reúne obras das artistas que há mais de três décadas pesquisam, por diferentes linguagens, as marcas deixadas pelo imperialismo e pela discriminação racial na formação do Brasil.

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Entre os destaques apresentados por Paulino está a obra “Arácnis”, instalação em que estruturas de ferro semelhantes a teias carregam rostos de pessoas escravizadas, além de trabalhos inéditos produzidos especialmente para a Bienal.

“É uma oportunidade de discutir a formação do país de uma maneira sofisticada, apresentando para o mundo, junto com a Varejão, um Brasil diferente, que muita gente não sabe que existe e que é fortemente marcado pela questão negra e pela relação com a natureza”, afirmou Paulino à imprensa.

A artista fruto do relacionamento entre um pintor de paredes e de uma faxineira, consolidou sua presença internacional com exposições em cidades como Buenos Aires, Bruxelas e Nova York, além de ter obras incorporadas aos acervos da Tate Modern, em Londres, e do Museum of Modern Art, em Nova York. Paulino também recebeu reconhecimentos como o Munch Award, que a destacou como uma das principais vozes do feminismo negro contemporâneo.

Natural da Freguesia do Ó, na Zona Norte de São Paulo, Paulino cresceu em um bairro que, na época, ainda preservava características rurais. A mãe criava galinhas e mantinha uma horta, enquanto o pai descarregava caminhões de açúcar até aprender o ofício de pintor. Já a mãe trabalhou grande parte da vida como faxineira e complementava a renda da família com bordados.

A infância foi marcada por brincadeiras na rua e contato com a natureza, experiências que refletiram em sua obra décadas depois. Apaixonada por biologia, a artista juntava dinheiro para assinar revistas científicas ainda adolescente, ao mesmo tempo em que descobria no desenho e na criação manual outra forma de interpretar o mundo.

Aos 15 anos, incentivada pela mãe, Rosana Paulino ingressou em um curso de desenho no Liceu de Artes e Ofícios. Anos depois, escolheu artes visuais na Universidade de São Paulo após ser aprovada também em biologia na Universidade Estadual de Campinas. A artista seguiu a trajetória acadêmica até o doutorado na USP e posteriormente se especializou em gravura no London Print Studio, em Londres, com bolsa da Capes.

A presença de Paulino na Bienal de Veneza não é inédita. Em 2022, ela participou da mostra principal a convite da curadoria internacional. Desde então, seu reconhecimento fora do Brasil cresceu exponencialmente, gerando convites de universidades e instituições estrangeiras para lecionar fora do país. Ainda assim, a artista escolheu permanecer na Zona Norte paulistana.

Seu ateliê funciona em Pirituba, em uma casa de três andares cercada por árvores, luz natural e uma praça frequentada diariamente pela população local. Foi ali também que a artista decidiu construir outro projeto: transformar uma casa em frente ao ateliê em um centro de pesquisas voltado para estudantes e jovens artistas.

O espaço deve reunir uma biblioteca especializada em arte, diáspora africana, questões afro-brasileiras e produções intelectuais da América Latina, Ásia e Oriente Médio, visando romper com formações artísticas eurocêntricas e norte-americanas.

“Não acredito em fazer dinheiro e sair do país, ou em fazer dinheiro e sumir da minha região”, declarou à imprensa.

A história de vida e a trajetória de Rosana Paulino no cenário internacional são um espelho do potencial social e educacional da arte brasileira contemporânea. A curiosidade estrangeira representa uma consequência da dimensão de sua produção artística. Sua presença no pavilhão brasileiro em Veneza evidencia um país que olha para o próprio legado ancestral.

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