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Turistas simulam chicotadas em monumento onde escravizados eram açoitados em Mariana (MG)

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Foto: Reprodução/Redes Sociais/G1

Um novo vídeo que circula nas redes sociais expõe um grupo de turistas no Pelourinho de Mariana, na Região Central de Minas Gerais, simulando uma cena de tortura no monumento histórico.

No período colonial, a estrutura de pedra, localizada na Praça Minas Gerais, era utilizada para açoitar e humilhar pessoas negras escravizadas como forma de punição pública.

No registro, é possível ver um grupo de mulheres diante do monumento. Em um momento de absoluto desrespeito, uma delas se pendura nas argolas de ferro e grita: “me bate”. Ao redor, outras pessoas observam a cena.

O caso foi criticado pelo vereador Pedro Sousa (PV). “Quem nasceu em Mariana já presenciou turistas que se sentem à vontade para ir até a Praça Minas Gerais e gravar vídeos ou tirar fotos imitando pessoas pretas escravizadas no Brasil e em nossa própria cidade”, escreveu nas redes sociais.

Para o vereador, a atitude é uma forma de violência simbólica que fere a dignidade da população negra. “Esse tipo de atitude, carregada de estereótipos, dor e desrespeito, fere a dignidade do povo preto, que foi sequestrado da África e, mesmo após tantas marcas da história, ainda precisa lidar com esse tipo de teatro barato. É preciso lembrar que a escravidão foi um dos maiores crimes contra a humanidade, e que Mariana foi construída com o sangue de pessoas negras”, reforçou.

O parlamentar reiterou que a postura dos visitantes é inaceitável. “Turistas que tratam esse sofrimento como entretenimento mostram que ainda precisam aprender muito sobre a história. Para mim, esse tipo de postura não é bem-vinda na nossa cidade.”

Idosa é presa em Salvador após dizer que era “superior” ao PM negro “em razão de sua raça”

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Uma idosa de 74 anos foi presa em flagrante, nesta terça-feira (21), após proferir ofensas racistas contra um policial militar no Largo de Santana, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. A mulher, cuja identidade não foi revelada, disse ao agente que seria “superior em razão de sua raça”.

O caso ocorreu enquanto a equipe da Polícia Militar realizava patrulhamento de rotina na região, um dos polos culturais e boêmios mais movimentados da capital baiana. Segundo informações da Polícia Civil, a mulher abordou os agentes questionando a atuação policial no local. Mesmo após receber os esclarecimentos necessários, a idosa elevou o tom e atacou um dos policiais, de 23 anos, com falas racistas.

Diante da gravidade da ofensa, a mulher foi conduzida à delegacia, onde foi autuada em flagrante. Ela segue sob custódia e à disposição da Justiça. O caso está sendo conduzido pela Delegacia Especial de Atendimento ao Idoso, que realiza oitivas e diligências para dar continuidade às investigações.

No vídeo divulgado pela Polícia Militar no momento da prisão, é possível notar que a mulher resistiu à detenção e tentou minimizar o crime. “Meu avô também era preto. Como é que eu posso ser racista?”, questionou aos agentes.

“O cara me acusou porque eu falei que lá em Brasília só tem branco e não tem ninguém armado desse jeito, entendeu?”, alegou a idosa. Ela ainda tentou comparar as normas de segurança para justificar seu incômodo. “Em Brasília, ninguém pode andar com uma arma dessa na rua, que é área de segurança nacional. Quando eu vejo uma arma dessa, me sinto muito mal, porque eu acho que vai acontecer uma coisa terrível”, afirmou.

Visivelmente exaltada, a idosa ainda tentou intimidar os policiais mencionando que a filha trabalha no Banco do Brasil. “Eu sou uma senhora que eu tenho 74 anos, tenho família, cara. Não sou uma coitada”.

Segundo a Lei 7.716/1989, a pena para o crime de injúria racial pode chegar a cinco anos de reclusão, além do pagamento de multa.

Condenado pelo assassinato de Mãe Bernadete que estava foragido morre em confronto com a polícia na Bahia

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Foto: Divulgação/SSP-BA

Apontado como o mandante do assassinato da ialorixá e líder quilombola Mãe Bernadete, Marílio dos Santos, conhecido como “Maquinista”, morreu na madrugada desta quinta-feira (16) após um confronto com a Polícia Militar na zona rural de Catu, na Região Metropolitana de Salvador. O caso ocorreu durante uma tentativa de cumprimento de mandado de prisão pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), dois dias após ele ter sido condenado pela Justiça a 29 anos e 9 meses de reclusão.

Apontado como liderança do tráfico de drogas na região, Marílio foi julgado à revelia pelo Tribunal do Júri na última terça-feira (14), no Fórum Criminal Ruy Barbosa. A investigação concluiu que ele ordenou a execução de Mãe Bernadete em razão da oposição que a líder quilombola exercia contra as atividades criminosas no território.

Além dele, Arielson da Conceição dos Santos, identificado como executor do crime, também foi condenado à mesma pena pelos crimes de homicídio qualificado — por motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima — e roubo.

Mãe Bernadete foi morta em agosto de 2023, dentro de sua casa no Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho. Na ocasião, homens armados invadiram o imóvel e efetuaram 25 disparos contra a liderança religiosa na presença de seus netos. Maquinista figurava no “Baralho do Crime” da SSP-BA como o “Ás de Ouros”, sendo considerado um dos foragidos mais perigosos do estado antes de ser localizado pelas autoridades.

HHWC completa um ano e reforça que cuidado também é direito das mulheres negras

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Foto: Divulgação

Se você fechar os olhos e pensar em um treino, provavelmente virá à mente aquela imagem fria de academia, espelhos e um silêncio que nem sempre nos convida a entrar. Mas o Hip Hop Workout Collective (HHWC) virou essa mesa. Quem chega em um encontro do HHWC é imediatamente atingido por uma dose massiva de vitalidade. Não se trata apenas de uma aula de funcional ou de uma playlist bem curada; é sobre a visão de dezenas de mulheres negras, de todas as idades e tons, ocupando o espaço com o que têm de mais belo. É um ambiente onde a estética e a saúde caminham juntas, provando que o autocuidado para nós nunca foi apenas sobre vaidade, mas sobre a manutenção da nossa própria alegria.

Celebrar um ano de trajetória é confirmar que o movimento do corpo, para o povo negro, continua sendo uma linguagem sagrada. Se no Bronx o Hip Hop nasceu para substituir a violência pela arte, em São Paulo o HHWC utiliza essa mesma cultura para retomar um território que muitas vezes nos é negado: o direito de sermos cuidadas. Em um contexto onde mulheres negras são historicamente colocadas no papel daquelas que servem, que limpam e que sustentam o mundo ao redor, ter um lugar onde o foco é o nosso próprio bem estar é revolucionário.

Para Caroline Araujo, a força desse encontro geracional é o que move a engrenagem do coletivo.

“Ver tantas mulheres cantando juntas, treinando e cuidando de si mesmas, algumas pela primeira vez com essa dedicação. Encontrar gerações diferentes no mesmo evento, desde filhas às avós, é realmente algo que emociona não apenas pela quantidade, mas exatamente por entendermos que podemos e merecemos esse cuidado. Tudo que propomos no HHWC é com muito carinho, desde as frutas, a elaboração de cada sacolinha, e fazer isso com um time de mulheres por trás, todas dedicadas e empenhadas em fazer acontecer. Sou grata a quem acredita e confia no nosso trabalho desde a primeira edição. E não poderia deixar de agradecer às minhas amigas e sócias por tornarem isso tudo mais leve, divertido e também possível”

Essa leveza mencionada por Caroline é o diferencial que faz as mulheres voltarem. O coletivo entende que o acesso à saúde é uma das nossas maiores vulnerabilidades estruturais e, por isso, transforma o treino em uma experiência de pertencimento. Juliana Oliveira reforça que o exercício físico, quando aliado ao propósito de vida, tem o poder de transformar realidades e fortalecer os laços entre mulheres que compartilham as mesmas vivências.

Foto: divulgação

“1 ano de HHWC e parece que foi ontem que iniciamos, passou muito rápido e ver onde chegamos me emociona. O exercício físico mudou a minha vida quando mais nova e hoje faço disso, um propósito de vida e o HHWC se tornou um dos meus propósitos! Trabalhar com mulheres como minhas sócias, faz tudo ser mais leve, duas mulheres extremamente inteligentes e capazes de fazer qualquer ideia funcionar. Sou grata por ser do HHWC”

O crescimento do projeto é nítido e a emoção de quem esteve lá desde a primeira aula, quando tudo ainda era um rascunho entre amigas, transborda em cada nova edição. Juliane Daianny, ao olhar para trás, enxerga não apenas um ano de aulas, mas um ano de construção de uma rede que agora se prepara para novos voos, incluindo a expansão para o Rio de Janeiro e novos formatos de experiência.

Foto: divulgação

“Uma das edições mais emocionantes que já tivemos! Me emocionei no palco ao lembrar da primeira aula que fizemos há 1 ano atrás. E ver o quanto crescemos, traz uma sensação de gratidão e recompensa.”

O Hip Hop Workout nunca faz o básico e a próxima fase promete elevar o nível da experiência. Em São Paulo, no dia 18 de abril, o coletivo prepara uma aula temática especial em homenagem ao lançamento do filme de Michael Jackson. O evento acontece em um formato inédito: uma versão pocket, com vagas limitadas e clima intimista dentro da academia The Yard, unindo o treino funcional ritmado à intensidade que já é marca registrada do grupo.

Além das novas edições em solo paulista e carioca, o projeto celebra uma novidade institucional: o HHWC agora é parceiro de mídia do Mundo Negro. As fundadoras passarão a assinar conteúdos sobre atividade física e saúde, trazendo a expertise de quem entende que o movimento do corpo negro é, acima de tudo, um ato de preservação da nossa história.


AGENDA HHWC

São Paulo — Especial Michael Jackson

  • Data: 18 de abril
  • Local: The Yard SP
  • Horários: 08h30 e 10h00
  • Vagas: Super Limitadas

Rio de Janeiro

  • Data: 02 de maio
  • Ingressos e informações: linktr.ee/hhwc.br

Executor e mandante do assassinato de Mãe Bernadete são condenados a 40 e 29 anos de prisão

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Foto: Henrique Duarte

Executor e mandante do assassinato de Mãe Bernadete são condenados a 40 e 29 anos de prisão

O Tribunal do Júri da Comarca de Salvador condenou na noite desta terça-feira (14) os dois réus pelo assassinato da ialorixá e líder quilombola Maria Bernadete Pacífico Moreira, a Mãe Bernadete. Arielson da Conceição dos Santos foi sentenciado a 40 anos, 5 meses e 22 dias de prisão. Marílio dos Santos, apontado como mandante, recebeu pena de 29 anos e 9 meses. Ambos cumprirão pena em regime fechado.

Mãe Bernadete foi assassinada em 17 de agosto de 2023 com 25 tiros na sede da associação do Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador. Ela estava com seus três netos quando foi atingida. Tinha 72 anos e era uma das principais lideranças da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).

O crime e a motivação

As investigações apontaram que o crime foi motivado pela oposição firme de Mãe Bernadete às atividades ilícitas na comunidade, especialmente à instalação de pontos de venda de drogas e à ocupação irregular de áreas por integrantes do Bonde do Maluco (BDM). Marílio, conhecido como “Maquinista”, mantinha uma barraca usada para o comércio de drogas dentro do quilombo, e Mãe Bernadete exigia a retirada.

Antes de morrer, a liderança quilombola havia denunciado publicamente as ameaças que sofria e chegou a ser incluída em um programa de proteção a defensores de direitos humanos. A proteção não foi suficiente.

O julgamento

A sessão começou na manhã de segunda-feira (13) no Fórum Ruy Barbosa e terminou na noite desta terça. Os sete jurados acolheram a tese da acusação e condenaram a dupla por homicídio qualificado, por motivo torpe, meio cruel, com impossibilidade de defesa da vítima e utilização de arma de uso restrito.

Réu confesso, Arielson optou por responder apenas perguntas da defesa durante o interrogatório. Marílio, foragido, foi julgado na presença de advogados que o representaram. Além da condenação pelo homicídio, Arielson também foi sentenciado pelo roubo de cinco aparelhos celulares durante o crime.

O advogado da família, Hédio Silva Jr., que atuou na acusação ao lado do Ministério Público, havia declarado antes do veredicto que as provas eram irrefutáveis: grampos telefônicos, perícias e testemunhos. “Temos um conjunto de provas irrefutáveis. Nossa expectativa é que os jurados não tenham nenhuma dúvida e condenem à pena máxima”, afirmou. O resultado confirmou a tese da acusação em todos os crimes imputados aos réus.

Para o filho de Mãe Bernadete, Jurandir Pacífico, o veredito representa um primeiro passo. “Sensação de justiça sendo feita. Foram dois dias de martírio total”, disse ele, acrescentando que espera pena máxima para os demais envolvidos.

Ainda há réus a julgar

Outros três denunciados pelo Ministério Público, Sérgio Ferreira de Jesus, Josevan Dionísio dos Santos e Ydney Carlos dos Santos de Jesus — ainda serão submetidos a julgamento, sem data definida.

A Anistia Internacional, que acompanhou o caso, reconheceu a condenação como um avanço, mas alertou que a justiça só será completa com a responsabilização de toda a cadeia envolvida no crime e com mudanças estruturais no programa de proteção a defensores de direitos humanos.

“Expectativa é de condenação à pena máxima”, diz advogado da família de Mãe Bernadete; julgamento recomeça nesta terça

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Fotos: Divulgação

O Fórum de Salvador recebe, nesta terça-feira (14), o segundo dia de julgamento dos acusados pelo assassinato de Mãe Bernadete Pacífico, Arielson da Conceição Santos e Marílio dos Santos. O caso, que se tornou um símbolo internacional da resistência contra o racismo religioso e a violência no campo, entra em uma fase decisiva com a expectativa de que o veredito honre o legado da liderança quilombola.

O advogado Hédio Silva Jr., que atua na acusação em nome da família da ialorixá, reforçou a contundência das provas colhidas durante a investigação. Segundo ele, o conjunto probatório é sólido o suficiente para garantir o desfecho esperado por toda a comunidade negra.

“Uma investigação histórica na história da Polícia Civil da Bahia. Temos provas muito robustas, grampo telefônico, materiais, perícias, testemunhas… então, temos um conjunto de provas irrefutáveis. Hoje, com o que nós temos aqui, nossa expectativa é que os jurados não tenham nenhuma dúvida e condenem à pena máxima”, declarou.

Ainda segundo o advogado, a condução do caso ao longo das investigações reforça a confiança no trabalho realizado e na decisão do júri popular. “Confio no discernimento dos jurados e hoje aqui só há um resultado possível: a condenação em pena máxima”, completou.

O julgamento ocorre sob forte atenção de movimentos sociais, entidades do movimento negro e representantes da sociedade civil, que acompanham o desfecho do caso de Mãe Bernadete como um marco na luta por justiça e no combate à violência racial e religiosa no país. A previsão é que o júri seja concluído após a fase de debates entre acusação e defesa, seguida da votação dos jurados, que definirá o destino dos acusados.

Mãe Bernadete, matriarca do Quilombo Pitanga dos Palmares, foi executada com 25 tiros em agosto de 2023, em Simões Filho.

“A face do feminicídio”: Ilê Aiyê repudia assassinato de Karielle, candidata à Deusa do Ébano, e de seu filho de 6 anos

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Foto: Reprodução

A trancista e capoeirista Karielle Lima Marques de Souza, de 23 anos, e seu filho, de apenas seis anos, foram brutalmente assassinados a facadas no último domingo (5), em Ibirapitanga, no sul da Bahia. Karielle, fez história recentemente ao ser a primeira moradora de sua cidade a desfilar na Senzala do Barro Preto como candidata ao título de Deusa do Ébano do Ilê Aiyê, em Salvador.

Em nota oficial publicada nas redes sociais, o bloco manifestou profunda indignação com mais um caso de feminicídio, destacando que Karielle não era apenas uma candidata, mas um “símbolo de beleza negra, potência, futuro e representatividade”.

“Este não é um caso isolado. É reflexo de uma estrutura que insiste em violentar, silenciar e interromper vidas negras. É urgente que a sociedade, o poder público e todas as instituições assumam seu papel no enfrentamento dessa realidade, com políticas efetivas, proteção às mulheres e responsabilização rigorosa dos agressores”, diz trecho da nota do Ilê Aiyê publicada nesta segunda-feira (6). “Seguiremos em pé pela vida das mulheres negras e pela justiça”, completou.

Segundo informações da Polícia Militar da Bahia, o principal suspeito é Rolemberg Santos de Pina, de 32 anos. As investigações apontam que o homem nutria um interesse não correspondido por Karielle, que já estava em outro relacionamento. A suspeita é de que o agressor tenha monitorado a residência da vítima e esperado o companheiro de Karielle sair para invadir o imóvel, caracterizando a premeditação do ataque.

Após o crime, equipes da 61ª CIPM foram acionadas, mas mãe e filho não resistiram aos ferimentos. O corpo do agressor foi encontrado posteriormente em uma zona rural de Maraú, com indícios de que ele teria tirado a própria vida após o duplo homicídio.

Trajetória de Resistência

Karielle era uma figura central na cultura de Ibirapitanga. Ao representar sua cidade no concurso da Noite da Beleza Negra de 2025, em Salvador, ela celebrou o momento como uma vitória coletiva. “É uma honra imensa poder carregar o nome da minha cidade neste evento tão relevante à cultura negra, com toda nossa ancestralidade”, declarou ela na época.

“Karielle foi uma jovem alegre e talentosa, que por diversas vezes representou com orgulho o nosso município em apresentações culturais, deixando sua marca e contribuindo com a valorização da nossa cultura. Neste momento de dor, nos solidarizamos com seus familiares e amigos, rogando a Deus que conceda força e conforto a todos”, escreveu a prefeitura de Ibirapitanga.

Leia a nota do Ilê Ayiê na íntegra:

O Ilê Aiyê vem a público manifestar seu mais profundo pesar e indignação diante do assassinato de Karielle Lima Marques Souza, de 23 anos, e de seu filho, uma criança de seis anos, vítimas de uma violência que escancara, mais uma vez, a face do feminicídio em nosso país.

Karielle não foi apenas uma candidata ao posto de Deusa do Ébano, ela era símbolo de beleza negra, potência, futuro e representatividade. Sua trajetória agora é interrompida de forma irreparável.

O Ilê Aiyê, enquanto instituição que há décadas exalta a vida, a cultura e a dignidade do povo negro, reafirma seu compromisso inegociável com a luta contra todas as formas de violência, em especial o feminicídio, que atinge de maneira desproporcional mulheres negras em todo o Brasil.

Este não é um caso isolado. É reflexo de uma estrutura que insiste em violentar, silenciar e interromper vidas negras. É urgente que a sociedade, o poder público e todas as instituições assumam seu papel no enfrentamento dessa realidade, com políticas efetivas, proteção às mulheres e responsabilização rigorosa dos agressores.

Hoje, nos unimos em luto, mas também em resistência. Que a memória de Karielle siga viva como força, denúncia e chamado à ação. Nos solidarizamos com familiares, amigos e toda a comunidade impactada por essa perda.

Seguiremos em pé pela vida das mulheres negras e pela justiça.

Morre aos 80 anos Professor Jarbas Vargas Nascimento, referência em análise do discurso no Brasil

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Foto: reprodução

O Brasil perdeu, neste sábado (5), o professor Jarbas Vargas Nascimento, aos 80 anos, que estava em tratamento contra o câncer. Um dos mais respeitados intelectuais brasileiros no campo da Linguística e da Análise do Discurso, Jarbas deixa um legado científico e humano que transborda os muros das universidades onde construiu sua trajetória.

Pós-doutor em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), doutor em Letras, Semiótica e Linguística Geral pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Jarbas acumulou uma das trajetórias acadêmicas mais sólidas e consistentes de sua geração. Era professor titular do Departamento de Ciências da Linguagem e do Programa de Pós-Graduação em Língua Portuguesa da PUC-SP, além de professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

Sua produção intelectual é extensa e marcante. Entre suas obras mais recentes, destaca-se Discurso, Cultura e Negritude (Blucher, 2021), livro que reúne dez autores e autoras em reflexões sobre questões discursivas e histórico-culturais ligadas à negritude brasileira, uma síntese do seu compromisso com a produção de conhecimento comprometida com a realidade do povo negro. Jarbas foi líder do Grupo de Pesquisa Memória e Cultura na Língua Portuguesa Escrita no Brasil, cadastrado no CNPq, e membro pesquisador do Grupo de Pesquisa A Escrita no Brasil Colônia e Suas Relações.

O reconhecimento ao seu trabalho se fez presente ainda em vida. No dia 13 de março de 2026, a PUC-SP sediou a mesa-redonda e o lançamento da obra Discurso, Cultura e Memória: uma homenagem a Jarbas Vargas Nascimento, reunindo pesquisadoras e pesquisadores em torno das suas contribuições para os estudos discursivos no Brasil. O evento destacou seus 15 anos de atuação no Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFES, com ênfase na consolidação da linha de Estudos sobre Texto e Discurso. Mais do que uma celebração, o livro se configura como um espaço de memória intelectual e de reconhecimento permanente à sua contribuição para a Linguística brasileira.


Além da pesquisa, atuou como Pró-Reitor de Cultura e Relações Comunitárias da PUC-SP e ocupou cargos de gestão em outras instituições, como a Universidade Braz Cubas e a Unifec.

Mas talvez o maior legado de Jarbas Vargas Nascimento não esteja nas prateleiras das bibliotecas acadêmicas, esteja nas pessoas. Silvia Nascimento, hard de conteúdo do Mundo Negro e nora do professor, traduz em palavras o que tantos viveram:

“Jarbas era um professor que, além da preocupação acadêmica, tinha uma grande preocupação em fazer os alunos serem incluídos. Ele tem um grupo incontável de pessoas que só voltaram a estudar e investiram na carreira acadêmica, inclusive no mestrado e no doutorado, porque Jarbas era aquela pessoa que falava: eu acredito em você. E contava com ele.”

O professor deixa a esposa, três filhos, oito netos, dois bisnetos e um número imensurável de alunos que encontraram no seu incentivo a coragem de acreditar que a universidade também era para eles.

O velório será realizado neste domingo (6), na Sala Roma, localizada na Rua São Carlos do Pinhal, 376, Bela Vista, São Paulo, com início às 11h e término às 13h.

Que a memória do professor Jarbas Vargas Nascimento seja honrada com a continuidade do que ele sempre defendeu: o direito de todo e qualquer pessoa ao conhecimento, à língua e ao seu próprio discurso.

Tecnologia e nostalgia: Avon aposta em IA para ajudar consultoras e traz Toque de Amor de volta

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Foto: Divulgação

“A Femtech só faz sentido se o resultado aparecer no sorriso da consumidora e na conta bancária da nossa Consultora.” A frase é de Leonardo Ribeiro, gerente de Branding da Avon, e resume a aposta da marca em seu reposicionamento: unir inteligência artificial e memória afetiva sem perder de vista quem sempre sustentou o negócio.

Aos 140 anos, a Avon anuncia um rebranding que ela mesma define por dois eixos: tecnologia e nostalgia. De um lado, uma estratégia “Digital-First” com 20 agentes de inteligência artificial trabalhando nos bastidores. Do outro, o retorno de fragrâncias clássicas como Charisma, Topaze e Toque de Amor, reunidas na chamada Iconic Collection.

Tecnologia para quem vende

A promessa da IA não é substituir a consultora, é tirar da frente dela o que atrapalha. “Estamos falando em simplificar a vida da nossa Consultora de Beleza”, afirma Ribeiro. Segundo ele, o objetivo é que a tecnologia resolva a parte burocrática e logística, para que a consultora possa focar no que ela é mestre: o relacionamento e a consultoria de beleza.

Na prática, os agentes de IA atuariam para que cada consultora receba informações mais precisas sobre o que suas clientes desejam, tornando a venda mais ágil e personalizada. “Para a mulher que está na ponta, isso não chega como um discurso, mas como tempo e produtividade”, diz o executivo.

A questão que fica em aberto é como esse suporte chega para quem não tem smartphone de última geração ou acesso estável à internet. Ribeiro afirma que a estratégia “não nasceu para excluir”, e que a marca investe em plataformas intuitivas, mas não detalha mecanismos concretos para esse grupo.

Pele negra no centro da inteligência de produto

No campo da representatividade, a Avon se reposiciona como Femtech, empresa que usa tecnologia, ciência e dados para atender às necessidades reais das mulheres. “Entendemos que a pele negra não é um anexo ao portfólio; ela é o centro da nossa inteligência de produto”, afirma Ribeiro. A resposta, segundo ele, é técnica e estrutural, embora não detalhe quais produtos ou iniciativas concretas materializam essa afirmação.

Nostalgia com reverência

O movimento que a marca batizou de Newstalgia parte do reconhecimento de que sua herança é seu maior diferencial. “Não se trata de viver no passado, mas de ter reverência por ele”, define Ribeiro. O retorno de Toque de Amor, Charisma e Topaze é apresentado como uma forma de validar memórias afetivas de milhões de brasileiras, atualizando o que é icônico para as novas gerações.

A Avon foi pioneira, em 1886, ao estruturar um modelo de vendas baseado na independência financeira feminina, quando Mrs. Albee percorria os Estados Unidos de trem para engajar outras mulheres, muito antes do direito ao voto feminino. O desafio agora é mostrar que, 140 anos depois, essa essência sobrevive ao rebranding.

Manuela Gomes: a chef que aprendeu com a avó que tempero de verdade não vem em sachê

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Foto: divulgação

Manuela Gomes cresceu num quintal que era também uma despensa viva. Em São José do Passe, na região metropolitana de Salvador, sua avó cultivava coentro, hortelã miúdo, hortelã grosso e um pé de louro. Usava sementes de coentro na comida para realçar o sabor, junto com tudo o que a terra oferecia. Nada de caldos artificiais, nada de realçadores industriais. “Eu tenho essa raiz, essa base de sempre usar tudo o mais natural possível, o que é da terra, o que é da natureza, para temperar a comida”, conta Manuela.

A avó era referência reconhecida na região. Empresas que chegavam temporariamente e fazendeiros da área iam buscá-la em casa para preparar comida. Manuela cresceu nesse ambiente, ao lado da mãe que também cozinhava muito bem, absorvendo uma herança que só perceberia o tamanho anos mais tarde.

Soteropolitana, ela trabalhou por muito tempo no setor administrativo, mas a cozinha sempre esteve presente, primeiro para amigos e familiares. Há 15 anos passou a trabalhar profissionalmente com alimentação, carregando a mesma base que aprendeu no quintal da infância. Durante esse tempo, percorreu o Recôncavo, conviveu com pessoas e aprofundou o que já trazia de casa. Aos 41 anos, inaugurou o Afilição Joaquim, restaurante em Salvador que completa nove meses, onde seu espaço se chama Sabor de Recôncavo por Chef Manu Bombom. “É a minha interpretação do que eu conheci, do que eu vivi, do que eu aprendi durante todos esses anos, dessa comida que é tão rica”, diz.

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O cardápio surpreende justamente pela simplicidade honesta. Pratos que na Bahia são rotineiros ganham outro sabor quando feitos sem atalhos industriais. “Minha comida é a base de condimentos e ervas frescas. O máximo que eu uso é um azeite de oliva. Não uso realçadores de sabores artificiais, molhos, enlatados. Esses ingredientes não fazem parte da minha culinária, não fazem parte da minha identidade.”

É essa identidade que ela leva para a campanha #IngredientePrincipal. O TikTok escolheu o Brasil para inaugurar essa campanha global, que conta com o Mundo Negro e o Guia Black Chefs como parceiros estratégicos na produção de conteúdo com 20 profissionais negros da gastronomia e nutrição. Manuela Gomes é uma delas.

Para os jovens e para todos que valorizam uma boa comida, ela tem um recado: “Não se deixem levar pelo mundo moderno, pela praticidade. Ainda é possível, ainda há tempo de resgatar velhos costumes e hábitos alimentares que valorizam e resgatam a verdadeira culinária, a raiz, a culinária ancestral.”

Do quintal da avó ao Recôncavo, Manuela Gomes prova que o ingrediente principal sempre foi a memória.

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