A chef brasileira Sandra Rocha, que mora nos Estados Unidos há 19 anos, concorre ao prêmio Favorite Chef por votação popular e pode levar para casa a quantia de 25 mil doláres – aproximadamente 125 mil reais na cotação dos primeiros dias de Julho. E sabe o que é o melhor? A gente pode mostrar a força do povo preto brasileiro na Internet votando em Sandra para ganhar o prêmio e também, ver o rostinho da chef estampado na revista Taste of Home – a principal revista de culinária dos Estados Unidos.
Sandra é natural de Chapada Diamantina, Andaraí – no coração do Parque Nacional da Chapada Diamantina na Bahia. A baiana depois de passar por São Paulo (SP) foi para os Estados Unidos em 2007 para estar ao lado do seu companheiro George Evanoff (um americano do sul do país). Formada em Relações Internacionais, a gastronomia entrou na sua vida quando seu marido a convidou para fazer um jantar como parte de um leilão para ajudar enfermeiras a conseguirem bolsas de estudos para ingressarem em universidades. O jantar foi nomeado de “Brasil comes to you” (Brasil chega até você – tradução livre) e desde 2009 Sandra oferece gratuitamente os jantares para leilões com foco em transformar vidas de diferentes grupos minoritários.
Esse nome do jantar foi escolhido porque a chef gostaria de mostrar o Brasil pela perspectiva da comida visto que muitas vezes os gringos associam o Brasil ao carnaval, ao samba e ao churrasco. Sandra quis mostrar a comida da sua infância para os americanos, oferecendo mandioca, tapioca, banana da terra e quiabo nas suas preparações. Quando a chef ia ao supermercado comprar alguns insumos, as pessoas sempre perguntavam como ela cozinhava a mandioca – por exemplo. Sandra usava essa oportunidade de questionamento para ensinar um pouquinho mais sobre a riqueza da culinária brasileira. E, na esteira dos preconceitos, a conotação de uma mulher brasileira casada com um americano foi de sempre vir uma pergunta do tipo “como chegou até aqui?”
Sandra Rocha servindo Batata au Murro (Foto: Divulgação)
Dentre as experiências oferecidas pela chef nos jantares do Brasil comes to you, Sandra Rocha traz as suas raízes na experiência oferecida aos gringos, como Feijoada, Moqueca de Camarão, Moqueca de Bacalhau fresco, Bobó de Camarão, Farofa, Feijão de Corda, Baião de Dois e Pudim, Mousse de Maracujá, Cocada, Sorvete de Coco e Doce de Abacaxi. Já são 17 anos que Sandra doa esses jantares para contribuir com os grupos minoritários e essas experiências já renderam mais de 100 mil dólares direcionados às ONGs. Isso sim é um trabalho social de impacto.
Agora é a nossa vez de retribuir esse bem que ela faz fora do país para que outras pessoas possam continuar estudando. A votação para os semifinalistas termina na próxima quinta-feira, 23 de julho, às 19h (horário do Pacífico). Bora lá votar na chef Sandra Rocha para representar o Brasil e mostrar a força dos brasileiros na Internet? Vote aqui!
Preto Gourmet – Breno Cruz é o criador do Prêmio Gastronomia Preta, do Pretonomia e do Festival Gastronomia Preta. Pós-doutor, professor de Gestão na Gastronomia, Empreendedor Social e autor de 15 livros nas áreas de Administração e Gastronomia
Criada na Cidade de Deus, atriz e modelo fala sobre a estreia em Quem Ama Cuida, a carreira internacional, a relação com o samba e o legado que deseja deixar para a filha.
A atriz Duda Almeida cresceu cercada pela arte no bairro Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O teatro surgiu ainda na infância, aos 8 anos, por meio de projetos sociais realizados na comunidade. A moda também chegou cedo, inspirada por uma tia que trabalhava como modelo e pelas referências artísticas presentes em uma família profundamente ligada ao carnaval.
Antes de chegar à televisão, Duda construiu uma carreira nas passarelas, trabalhou para grandes marcas e viveu em cidades como Londres e Nova York. Agora, retoma o sonho da atuação ao interpretar Andréia em Quem Ama Cuida, novela das 9h da TV Globo escrita por Walcyr Carrasco e Cláudia Souto.
Em entrevista ao Mundo Negro, a atriz e modelo falou sobre os caminhos que a levaram da Cidade de Deus ao exterior, o teste inesperado para a novela, as semelhanças com a personagem e a importância de não apagar a própria origem para ocupar novos espaços.
“Eu nasci com a veia de artista. Tenho uma ligação com o mundo da arte, esse sempre foi o meu grande sonho. Queria muito ser modelo, atriz e ainda tenho vontade de cantar um samba um dia”, contou.
A moda despertou o interesse da atriz ainda na infância pela possibilidade de transformação diante das câmeras.
“Eu sempre gostei muito de fotografia. Essa coisa do audiovisual sempre me pegou. Quando via as capas de revista, achava incrível o ato de se transformar, de poder ser outra coisa. Quando criança, era um lugar muito performático, no sentido de poder ser o que eu quisesse”, relembrou.
O início da carreira internacional sem falar inglês
A trajetória internacional começou sem garantias. Mesmo com uma carreira consolidada como modelo na capital carioca, Duda decidiu economizar dinheiro e buscar oportunidades fora do Brasil. A escolha exigiu que ela recomeçasse profissionalmente em outros mercados.
“Todas as vezes que fui para fora, foi uma completa loucura, na cara e na coragem. Quando eu falava em carreira internacional, ainda existia essa ideia de que talvez eu não tivesse o padrão, o corpo ou a altura. Parecia que eu nunca tinha nada”, afirmou.
A atriz conta que chegou a Londres e Nova York sem falar inglês e precisou lidar com a solidão, as diferenças culturais e a instabilidade própria da profissão. Ter uma agência, como ela aprendeu, não significava necessariamente conseguir trabalhos.
Ao mesmo tempo, as experiências acumuladas crescendo na Cidade de Deus, contribuíram para que ela enfrentasse as dificuldades de construir uma carreira em outro país.
“Eu vim de um lugar em que já existiam tantos desafios que estar fora do país, vivendo uma experiência nova e sem falar inglês, não parecia um monstro tão grande. Acho que a minha vida me deu molejo para lidar com essas dificuldades.”
Um teste sem saber para qual produção
A entrada em Quem Ama Cuida aconteceu de maneira inesperada. Uma vizinha enviou para Duda a fotografia de um texto e pediu que ela gravasse um teste até a manhã seguinte. A modelo não sabia para qual produção seria avaliada nem tinha informações sobre a personagem.
“Eu não sabia que era para a novela, não sabia quem era a personagem, não sabia de nada. Fiz dois vídeos, com duas variações, e mandei. Pensei: ‘Não tenho nada a perder, então vou tentar’”, contou.
Poucos dias depois, enquanto trabalhava em uma campanha no Rio Grande do Sul, Duda recebeu a ligação confirmando que havia sido escolhida. A notícia veio acompanhada de uma orientação: ela ainda não poderia revelar a aprovação.
“Eu estava toda maquiada, no meio do trabalho, e não podia dar pinta, não podia demonstrar. Queria gritar, queria chorar, mas precisei guardar aquilo para mim.”
O segredo permaneceu durante meses. Duda contou a novidade à família apenas na Páscoa de 2026, quando a divulgação da novela estava prestes a começar. A reação dos familiares, segundo ela, foi de emoção, mas também de reconhecimento por uma conquista que já esperavam que chegasse.
“Foi uma coisa maravilhosa. Todo mundo ficou emocionado, mas, ao mesmo tempo, dizia que era óbvio que isso aconteceria em algum momento.”
O que Duda e Andréia têm em comum
Na trama, Andréia namora Rafael, vivido por João Vitor Silva, e deseja se casar e construir uma família. Para ser aceita pela família do namorado, no entanto, esconde sua origem periférica. A personagem tem ambições e diferentes camadas emocionais, características que despertaram na atriz reflexões sobre identidade, autoestima e pertencimento.
Duda reconhece em Andréia uma determinação semelhante àquela que orientou a própria trajetória.
“Eu me identifico com essa vontade de vencer. Talvez não pelos mesmos meios, mas ela tem garra, vontade de mudar a realidade dela e uma determinação muito forte”, explicou.
Para ela, um dos principais aprendizados despertados pela personagem é a importância de não sentir vergonha da própria história. A reflexão ganha um sentido especial quando direcionada às mulheres negras, frequentemente pressionadas a adaptar sua aparência, sua linguagem ou partes de suas identidades para serem aceitas em determinados espaços.
“Eu acho que, primeiro de tudo, é não ter vergonha da sua história. A nossa história sempre nos fortalece quando a gente se apropria de si. A gente se fortalece cada vez mais quando se apropria de quem é”, afirmou.
A atriz também destaca a confiança que Andréia deposita em si mesma, mesmo diante de comportamentos que podem ser considerados questionáveis ao longo da trama.
“Ela acredita muito no poder dela, na beleza dela e naquilo que é capaz de fazer. Ela sabe que é maravilhosa. Isso também me motiva, porque a autoestima é um processo que vamos construindo e aprendendo a cada dia.”
Na avaliação de Duda, interpretar Andréia também possibilita ampliar as referências disponíveis para meninas negras e periféricas que acompanham a novela.
“Quando uma menina preta, periférica, liga a televisão e consegue se reconhecer ali, isso muda muita coisa. Muda a forma como ela passa a sonhar também.”
O samba como escola e herança familiar
O samba ocupa um lugar central em sua formação e se entrelaça com a sua história e a da família. Antes de integrar a Viradouro como destaque artístico, ela passou por diferentes funções dentro das escolas de samba, incluindo experiências como passista e diretora.
“O samba me criou, me deu orgulho e fez com que eu me apropriasse da minha história enquanto mulher negra. As escolas de samba cumprem muito bem esse papel de serem, de fato, escolas”, declarou.
Segundo Duda, sua família participou da fundação de uma escola de samba na Cidade de Deus e também tem uma relação histórica com a São Clemente. A aproximação com a Viradouro ganhou força em 2004, quando a agremiação reeditou um samba composto por seu avô.
Em 2023, enquanto estava em Londres, ela recebeu o convite para participar do desfile sobre Rosa Maria Egipcíaca. Desde então, passou a representar figuras e elementos centrais dos enredos apresentados pela escola.
“Na Viradouro, faço um trabalho de destaque artístico. É como se eu encarnasse esses personagens e essas figuras centrais da história que a escola quer contar”, explicou.
Embora ainda não ocupe o posto de musa — como chegou a ser apresentada em outros conteúdos —, Duda não esconde o desejo de continuar construindo sua trajetória na agremiação.
“Nós, mulheres do carnaval, temos muitos sonhos. Se eu dissesse que não sonho em ser musa ou rainha de bateria, seria mentira. Estou muito conectada com os meus sonhos. O que tiver que ser, vai ser, mas espero que seja na Viradouro.”
Afeto, cumplicidade e encontro ancestral
Ao falar sobre o relacionamento com o marido, Duda destaca a identificação construída por meio de vivências, perspectivas e projetos semelhantes. Para ela, essa proximidade permite que o casal se compreenda mesmo quando não encontra palavras para explicar determinadas experiências.
“A gente não precisa se explicar muito. Às vezes, só em um olhar ou em um gesto, já sabemos. Nossas vivências são muito parecidas, assim como as nossas ideias de vida, de mundo e de sonhos”, afirmou.
Duda define a relação como um “encontro ancestral” e ressalta o olhar afetuoso que os dois preservam mesmo nos momentos mais difíceis.
“Quero deixar para minha filha um mundo possível”
A maternidade também transformou a maneira como Duda compreende os próprios sonhos. Mãe de Angela, ela recebeu a confirmação de que estaria na novela quando a filha tinha cerca de seis meses.
Para a atriz, continuar trabalhando e realizar um sonho depois da chegada da filha contribuiu para ressignificar a ideia de que a maternidade necessariamente interrompe os projetos profissionais de uma mulher.
“Eu vivi para dar orgulho aos meus avós e aos meus pais, mas dar orgulho para uma filha me pega em outro lugar”, contou, emocionada.
Duda deseja que Angela cresça entendendo que pode imaginar diferentes futuros para si — uma segurança que, segundo ela, não teve durante a infância.
“Eu não cresci achando que tudo era possível. Quero que ela olhe para mim, veja que desfilei grávida, que a minha vida continuou e que entrei em uma novela depois que ela nasceu. Isso é muito importante para mim e pode ser importante para outras mulheres também.”
Ao conciliar maternidade, televisão, moda e carnaval, Duda Almeida mostra que sua trajetória não é resultado de uma oportunidade isolada. A chegada ao horário nobre representa a continuidade de um caminho iniciado ainda na infância e também o desejo de construir um mundo de possibilidades para as próximas gerações.
“O que eu quero deixar para Angela é um mundo possível. Um mundo em que ela realmente acredite que pode ser tudo o que quiser.”
Em O Dragão sob o Céu, jurista questiona a centralidade das referências europeias e analisa como a China articulou tradição, técnica jurídica e projeto nacional
O professor e jurista Silvio Almeida anunciou o lançamento de O Dragão sob o Céu: direito, soberania e socialismo na China, livro em que analisa o papel do Direito na organização material da sociedade e na construção de projetos de poder.
Publicada pela Editora Contracorrente, a obra parte da experiência chinesa para questionar a centralidade das referências europeias na interpretação do Direito, do Estado e da soberania. Em vez de apresentar um panorama geral da história jurídica do país, Almeida investiga o encontro entre categorias modernas e uma tradição intelectual e política construída ao longo de cerca de dois milênios.
O livro é resultado de quase dois anos de pesquisa e reflexão. Em publicação nas redes sociais, o autor afirmou que o trabalho exigiu um mergulho “em um novo objeto, em uma nova cultura, em uma língua desconhecida”. A obra entra em pré-venda e terá eventos de lançamento em cidades como São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro.
Monique Lemos, Amira Pinheiro e Iasmin Reis deixaram Salvador e São Luís para construir trajetórias no Brasil e no exterior. Em entrevistas exclusivas ao Mundo Negro, elas refletem sobre raízes, representatividade e os caminhos abertos para outras meninas negras nordestinas.
De Salvador e São Luís, para campanhas, editoriais e passarelas de diferentes países. As trajetórias de Monique Lemos, Amira Pinheiro e Iasmin Reis mostram uma nova geração de modelos negras nordestinas que tem ampliado sua presença na moda brasileira e internacional sem deixar para trás os territórios, as referências familiares e as experiências que formaram suas identidades.
Embora tenham histórias distintas, as três compartilham uma história semelhante: deixaram suas cidades ainda jovens, enfrentaram a distância da família e precisaram se adaptar a novos idiomas, culturas e dinâmicas profissionais. Ao mesmo tempo, transformaram suas origens em parte fundamental da maneira como se apresentam ao mundo.
Em entrevistas exclusivas ao Mundo Negro, Monique e Amira falaram sobre o início da carreira, os desafios da atuação internacional e a importância de suas conquistas para o imaginário de meninas negras do Nordeste. A reportagem também apresenta a trajetória de Iasmin, modelo baiana radicada em Nova York que já trabalhou com algumas das maiores grifes do mundo.
Da venda de peixes fritos à moda internacional
Antes de ingressar na moda, Monique Lemos vendia peixe frito nas praias de Salvador. Aos 13 anos, carregava bandejas sob o sol durante uma jornada que começava pela manhã e terminava no início da noite. Parte do dinheiro era usado para ajudar a família. Foi com o valor recebido naquele trabalho que também comprou seu primeiro salto alto.
Moradora de Mirantes de Periperi, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, Monique foi descoberta por Vivaldo Marques e teve uma das primeiras oportunidades no Afro Fashion Day, iniciativa do jornal Correio, dedicada à valorização da estética e dos talentos negros na moda. Posteriormente, mudou-se para São Paulo para investir na carreira, conciliando a preparação profissional com os estudos de inglês.
A modelo também integrou o elenco do videoclipe de “Me Gusta”, de Anitta, gravado em Salvador, e passou a construir uma trajetória que a levou a diferentes mercados da moda. Para ela, a percepção de que o sonho estava se tornando realidade surgiu quando começou a ocupar espaços que antes pareciam distantes.
“Quando percebi que estava saindo do lugar onde tão poucas pessoas têm oportunidade, quando passei a andar em ambientes que nunca imaginei conhecer e comecei a ver o sucesso do meu trabalho, percebi que estava no caminho certo”, contou ao Mundo Negro.
A conquista dessas oportunidades, no entanto, também exigiu aprender a viver longe de casa. Monique aponta a distância da família como um dos aspectos mais difíceis da carreira internacional.
“Eu senti e ainda sinto muita falta deles, mas sempre penso: é pela minha família. Também enfrentei o desafio do dia a dia, da língua, de aprender outros idiomas, conhecer novos costumes, lugares e culturas diferentes. Tudo isso é muito novo. Conhecer pessoas e precisar me adaptar não é fácil, mas eu sempre penso: é pelo meu trabalho”, afirmou.
A família esteve presente desde os primeiros passos. Quando Monique viajou para São Paulo no início da carreira, levou parte do dinheiro que havia conseguido trabalhando na praia e recebeu do pai metade do salário dele para completar os custos da viagem. Hoje, a modelo busca retribuir esse apoio e proporcionar melhores condições de vida aos pais.
Sua relação com o Subúrbio Ferroviário também permanece como parte de sua identidade, como lembrança do ponto de partida, e referência afetiva e formadora.
“É algo interno, que vem de dentro de mim. Nunca vou me esquecer de onde eu vim, das coisas que passei e das bandejas de peixe que carreguei debaixo do sol quente. Acho que a nossa origem vive dentro de nós. Sair da Suburbana é motivo de muito orgulho para mim. Tenho orgulho de ter vindo de lá e sinto falta do lugar que me ensinou a ser quem eu sou”, declarou.
Para Monique, a presença crescente de modelos negras nordestinas rompe padrões historicamente restritivos e amplia as possibilidades imaginadas por outras jovens.
“Essa mudança quebra os padrões antigos da moda e abre espaço para novos ideais e novos talentos. Para todas nós, mulheres negras e nordestinas que nunca imaginamos ocupar um espaço como este, ela mostra que podemos ser muito mais, que podemos ir longe, que somos fortes e que, sim, podemos vencer”, destacou.
Se pudesse conversar com a menina que ainda buscava uma oportunidade na moda, Monique escolheria reconhecer a coragem que a trouxe até aqui:
“Você é forte, sim. Você consegue, sim. Você tem potencial e pode chegar a lugares que jamais imaginou. Eu te parabenizo pela sua força, por quem você é e pela mulher que deseja se tornar. Você é muito maior do que imagina, Monique. Parabéns por toda a sua força e por nunca ter desistido de si mesma.”
Representatividade negra e baiana nas grifes
Assim como Monique, Iasmin Reis também iniciou sua trajetória em Salvador. A modelo saiu do bairro de Pirajá para morar em Nova York e, antes mesmo dos 20 anos, acumulou trabalhos com grifes como Dolce & Gabbana, Ralph Lauren, Marc Jacobs e Chanel.
No início, Iasmin procurou escolas de modelos na capital baiana, mas não encontrou imediatamente as oportunidades que esperava. Mesmo diante da frustração, manteve o objetivo. O caminho começou a mudar quando uma agência encontrou seu perfil nas redes sociais e a convidou para uma avaliação.
Antes de viajar para o exterior, Iasmin também participou da moda produzida em seu próprio estado. Um dos trabalhos importantes dessa fase foi o desfile para a marca baiana Dendezeiro, conhecida por desenvolver peças para diferentes corpos e questionar padrões tradicionais da indústria.
A experiência ajudou a modelo a reconhecer a importância de trabalhar com profissionais que compartilhavam referências culturais próximas das suas. Pouco tempo depois, ela começou a circular por mercados internacionais.
“Me sinto muito privilegiada e abençoada por estar fazendo tantas coisas grandes com tão pouca idade”, afirmou ao g1 Bahia.
Mesmo com trabalhos para marcas mundialmente conhecidas, Iasmin entende a moda como um processo contínuo de aprendizado. “Todo dia você recomeça, todo dia você aprende um pouco mais”, declarou.
A mudança para Nova York trouxe desafios como a distância da família, as diferenças culturais e a necessidade de trabalhar em outro idioma. Para preservar os vínculos, Iasmin mantém contato diário com familiares e amigos por meio de mensagens e videochamadas.
A modelo também encontrou na terapia e em atividades como leitura, violão e ukulele formas de cuidar da saúde mental diante da inconstância da profissão. Antes de sua primeira viagem internacional, aos 15 anos, sua mãe fez questão de que ela conversasse com uma psicóloga, assegurando que estivesse emocionalmente preparada para aquela nova etapa.
A maranhense que conquistou a marca da Selena Gomez
Já Amira Pinheiro, nasceu em São Luís, no Maranhão, e trabalhou como recepcionista e vendedora de chips telefônicos antes de construir uma carreira na moda. Seu nome ganhou projeção nacional durante a edição N47 da São Paulo Fashion Week, quando participou de 22 desfiles.
Desde então, a maranhense passou a reunir no currículo trabalhos para marcas como Balmain, Tom Ford, Tiffany & Co., Issey Miyake, Armani e Max Mara. Mais recentemente, foi a única brasileira escolhida para uma campanha global da Rare Beauty, marca fundada por Selena Gomez. O projeto foi fotografado em Los Angeles e reuniu mulheres de diferentes origens.
O nome da empresa permaneceu em segredo durante o processo de seleção. Amira enviou fotos, um vídeo de apresentação e informações pessoais, como acontece em outros castings. Somente depois de ser confirmada soube que trabalharia para a Rare Beauty.
“Foi somente no set que entendi a dimensão daquela campanha. A equipe explicou a proposta do trabalho e contou que fotografaríamos ao lado da Selena Gomez. Descobrir que eu era a única brasileira naquele projeto foi uma alegria imensa e, acima de tudo, uma grande responsabilidade. Representar o Brasil em uma campanha global é uma lembrança de que nossos talentos podem ocupar qualquer espaço”, disse ao Mundo Negro.
Diferentemente de muitas profissionais que alimentam o sonho da passarela desde a infância, Amira não planejava inicialmente ser modelo. Seu desejo era encontrar um trabalho que lhe permitisse conhecer outros países, estudar idiomas e conviver com diferentes culturas. A moda acabou reunindo essas possibilidades.
O incentivo de pessoas próximas e o acompanhamento da família foram fundamentais para que ela conhecesse melhor a profissão e começasse a participar de seleções. Naquele momento, porém, Amira ainda encontrava poucas modelos negras que parecessem próximas de sua realidade.
“Naomi Campbell era um nome que eu conhecia, mas ainda distante da minha realidade. Com o tempo, compreendi o quanto é importante termos referências que se pareçam conosco, especialmente no mercado brasileiro. Hoje, sinto orgulho ao perceber que muitas mulheres negras estão ocupando esses espaços e inspirando uma nova geração a acreditar que também pertence a eles”, explicou.
Amira ressalta que sua primeira mudança teve como objetivo construir uma carreira nacional. A projeção internacional surgiu posteriormente, como consequência do trabalho desenvolvido no Brasil. Foi em São Paulo, ao conviver com pessoas de diferentes regiões que ela passou a reconhecer a origem maranhense como uma força também dentro da profissão.
“Com o tempo, trabalhando em diferentes países, minha identidade afro-latina passou a fazer ainda mais sentido para mim”, afirmou.
A modelo conta que muitas pessoas demonstram surpresa ao descobrirem que ela é brasileira e, especialmente, maranhense. Em vez de apagar essas referências para se adaptar aos mercados internacionais, ela faz questão de apresentar sua origem.
“Carregar minhas raízes é uma forma de honrar quem abriu caminho antes de mim e de lembrar que o talento floresce em todos os territórios. Carregar minhas raízes é também uma forma de representar tantas histórias que ainda precisam ser vistas e valorizadas”, disse.
Para Amira, as conquistas individuais precisam contribuir para uma transformação mais ampla no mercado. A presença de modelos negras nordestinas em grandes campanhas não encerra o debate sobre representatividade, mas ajuda a expandir o que outras jovens conseguem imaginar para o próprio futuro. Ao olhar para a própria trajetória, Amira destaca os valores familiares e o respeito ao tempo de cada conquista.
“O que é seu encontra você, mas é preciso coragem para fazer a própria parte”, afirmou. “Siga em frente, mantenha seus valores e aproveite a jornada. Ela será muito maior e mais bonita do que você consegue imaginar.”
Fotos: Paramount Pictures e Getty Images for IMDb/
Gina Prince-Bythewood volta ao centro das atenções ao assumir a adaptação de‘Filhos de Sangue e Osso’, livro de Tomi Adeyemi que se tornou fenômeno mundial e agora ganha versão para os cinemas, com estreia prevista para 15 de janeiro de 2027. Em entrevista à Essence, a diretora falou sobre o desafio de transportar a obra para as telas, a parceria com a autora e a proposta de construir uma fantasia épica ancorada na diáspora negra.
A cineasta explicou que a decisão de dirigir o longa só veio após uma relação mais madura com o material. “Fui abordada duas vezes nos últimos sete anos para fazer este filme e recusei ambas as propostas”, afirmou. Na primeira vez, ela estava trabalhando no filme ‘A Mulher Rei’, e na segunda, ela disse que não sentia pronta. Mas no terceiro convite, a leitura do livro despertou uma conexão imediata com a trajetória da protagonista. “No momento em que li o livro, comecei a visualizar o filme e me senti profundamente inspirada por essa visão de como levá-lo para as telas”, disse.
A diretora também destacou sua relação com adaptações literárias. “Esta é a minha quarta adaptação e o meu respeito pelos autores é sempre a minha bússola. Para mim, o livro é sempre a Bíblia. Não é um roteiro”, afirmou. Para Prince-Bythewood, a força de Filhos de Sangue e Osso está justamente na ligação afetiva que o público desenvolveu com a história de Tomi Adeyemi, e o desafio da adaptação foi preservar esse vínculo sem abrir mão da linguagem cinematográfica.
Prince-Bythewood revelou que a autora participou de perto da construção do filme, começando pelo roteiro e acompanhando decisões criativas em outras etapas. “Conversei com ela sobre a minha visão de como eu queria abordar o projeto, de trazer todos nós para esse incrível mundo de fantasia para que todos nós pudéssemos nos ver refletidos de forma bela e heroica”, explicou. Segundo a diretora, foi a partir dessa conversa inicial que as duas perceberam que estavam alinhadas. “A beleza desse processo é que Tomi e eu estávamos alinhados nessa visão. Então, este filme é uma verdadeira celebração da diáspora negra, da história à escolha do elenco, passando pelo design de construção do mundo, figurino, ação, coreografia, música, tudo.”
No entanto, essa tarefa não foi simples. A diretora lembrou que o projeto passou por outras tentativas antes de chegar ao formato atual. “Decifrá-lo foi uma tarefa árdua; cinco roteiristas e dois estúdios antes de mim não conseguiram”, contou. Ainda assim, ela afirma que o livro lhe ofereceu uma imagem muito clara do que poderia se tornar no cinema. “Este filme é lindamente inspirado na Nigéria e inclui toda a diáspora”, disse, reforçando a intenção de expandir o universo da obra para além da fantasia tradicional.
O filme reúne um elenco estelar com Viola Davis, Damson Idris, Cynthia Erivo, Idris Elba, Regina King, Lashana Lynch, Amandla Stenberg, Thuso Mbedu, Tosin Cole e Chiwetel Ejiofor. Prince-Bythewood contou que fez convites pessoais a vários nomes e que o projeto despertou interesse imediato por sua dimensão simbólica e artística. “Este é um elenco épico. Às vezes assisto ao filme e penso: ‘Como conseguimos fazer isso?’”, disse. Para ela, a reunião desses artistas também reforça a singularidade da produção no atual cenário de Hollywood.
A trilha sonora ficou a cargo de Terence Blanchard, parceiro da diretora em ‘A Mulher Rei’. “Terence é um gênio”, afirmou Prince-Bythewood, destacando que a composição mistura orquestração tradicional, instrumentação africana e Afrobeats. A diretora acredita que essa combinação cria uma assinatura musical inédita, capaz de dialogar com a grandiosidade da história e com a identidade cultural que sustenta o filme.
Filmado na África do Sul, Filhos de Sangue e Osso também reafirma a conexão de Prince-Bythewood com o continente africano. A diretora disse que não havia dúvidas sobre a escolha do local, ressaltando que a decisão se relaciona à beleza da paisagem, à conexão cultural e à possibilidade de construir uma comunidade de profissionais locais. “Quando chegamos lá, criamos uma comunidade de dublês completamente nova”, explicou, ao comentar o impacto da produção na formação de atletas e dançarinos que passaram a atuar como dublês.
“Queria que todos nós pudéssemos nos ver neste mundo, em toda a nossa amplitude, toda a nossa humanidade, cada bela nuance”, afirmou a cineasta na entrevista, ao celebrar que o filme é uma celebração da diáspora negra em múltiplas dimensões.
Prêmio da Futuros Possíveis reconhece 50 lideranças que moldam o país e abre votação popular até 27 de julho
Silvia Nascimento, fundadora e head de conteúdo do Mundo Negro, está entre os finalistas do Prêmio Pensadores de Futuros 2026, iniciativa da plataforma Futuros Possíveis que reconhece 50 lideranças responsáveis por moldar os próximos passos do país em áreas como inovação, tecnologia e representatividade. A lista oficial foi divulgada após uma fase de indicações públicas e curadoria técnica, e agora o público pode votar nos candidatos pelo site oficial da premiação.
Silvia Nascimento concorre na vertical de Comunicação, uma das dez categorias do prêmio, e está entre os indicados destacados pela organização por liderarem discussões de diversidade e representatividade, ao lado de nomes como Mauricio Pestana, CEO da Revista Raça, Paola Ferreira Rosa, editora-assistente de diversidade na Folha de S.Paulo, Paula Luiza, diretora da WorldWide Women in Tech, Milena Moraes, gestora de inovação na Mamba Negra Tecnológica, Andreza Delgado, cofundadora da Perifacon, e Amanda Costa, fundadora do Instituto Perifa Sustentável, entre outros indicados.
Jornalista formada pela PUC-Campinas, Nascimento fundou o Mundo Negro em 2001, primeiro portal de notícias voltado à comunidade negra na América Latina, e desde então acumula a direção de conteúdo do site. Antes de se dedicar integralmente ao portal, atuou como repórter de negócios na revista da ABAD, foi editora de publicações do Conselho Federal de Farmácia e assinou textos em veículos como UOL, Vogue, Meio & Mensagem e a revista americana Essence. Em 2006, criou o primeiro programa de formação para criadores de conteúdo negros realizado no YouTube Space Brasil, e em 2022 lançou a Powerlist Mundo Negro, prêmio que reconhece mulheres negras de destaque em diferentes áreas e que chegou à quinta edição em 2026, com quase 20 mil votos no processo de escolha das homenageadas.
Silvia Nascimento, fundadora e head de conteúdo do Mundo Negro, está entre os finalistas do Prêmio Pensadores de Futuros 2026, iniciativa da plataforma Futuros Possíveis que reconhece 50 lideranças responsáveis por moldar os próximos passos do país em áreas como inovação, tecnologia e representatividade. A lista oficial foi divulgada após uma fase de indicações públicas e curadoria técnica, e agora o público pode votar nos candidatos pelo site oficial da premiação.
A indicação de Nascimento aparece na vertical de diversidade e representatividade, ao lado de nomes como Mauricio Pestana, CEO da Revista Raça, Paola Ferreira Rosa, editora-assistente de diversidade na Folha de S.Paulo, Paula Luiza, diretora da WorldWide Women in Tech, Milena Moraes, gestora de inovação na Mamba Negra Tecnológica, Andreza Delgado, cofundadora da Perifacon, e Amanda Costa, fundadora do Instituto Perifa Sustentável, entre outros indicados.
Jornalista formada pela PUC-Campinas, Nascimento fundou o Mundo Negro em 2001, primeiro portal de notícias voltado à comunidade negra na América Latina, e desde então acumula a direção de conteúdo do site. Antes de se dedicar integralmente ao portal, atuou como repórter de negócios na revista da ABAD, foi editora de publicações do Conselho Federal de Farmácia e assinou textos em veículos como UOL, Vogue e Meio & Mensagem. Em 2022, lançou a Powerlist Mundo Negro, prêmio que reconhece mulheres negras de destaque em diferentes áreas e que chegou à quinta edição em 2026, com quase 20 mil votos no processo de escolha das homenageadas.
O reconhecimento externo ao trabalho de Nascimento já havia aparecido em outras premiações recentes, caso do Troféu Mulher Imprensa, do qual foi finalista na categoria Liderança em 2022, e do Prêmio Jacira Silva, recebido em 2024 como representante do Mundo Negro na 17ª edição do Festival Latinidades, em Brasília. Ainda em 2024, ela foi a única jornalista brasileira selecionada para o Reporting Tour, intercâmbio profissional promovido pelo governo dos Estados Unidos para cobertura das eleições americanas.
Os candidatos ao Pensadores de Futuros 2026 passam pela metodologia proprietária P.E.N.S.A.R, da Futuros Possíveis, que avalia critérios como pensamento crítico, capacidade de análise de mercado e execução prática. A avaliação técnica conta com um comitê de jurados formado por Beatriz Guarezi, da Bits to Brands, Amanda Graciano, do Pacto Global da ONU, Carine Roos, consultora em ética na inteligência artificial, Igor Lopes, da TransformaçãoDigital.com, Michel Porcino, da OFUTURO, e Mateus Fernandes, palestrante do circuito TEDx.
Em declaração distribuída pela organização, o CEO da Futuros Possíveis, Marcelo Gripa, afirmou que “o futuro do Brasil está sendo projetado por uma rede plural”, que conecta lideranças corporativas, a academia e movimentos sociais de base. Andreza Maia, cofundadora e diretora de influência da plataforma, também comentou o critério de seleção da lista e declarou que “o futuro também se desenha como uma disputa de imaginários”.
A votação popular vai definir os 50 nomes que vão compor a comunidade oficial de Pensadores de Futuros de 2026, com resultado previsto para 27 de julho, durante evento especial da premiação. Até lá, o público pode votar em Nascimento e nos demais finalistas pelo site oficial do prêmio, clique aqui.
Empregada doméstica por mais de 20 anos, cantora se tornou maior referência de samba, vissungos e partido-alto.
Não existe idade certa para o reconhecimento chegar, e a trajetória de Clementina de Jesus prova isso da forma mais dura possível, já que ela só subiu a um palco pela primeira vez aos 63 anos, depois de passar mais de duas décadas trabalhando como empregada doméstica, e ainda assim se tornaria a maior referência do samba, dos vissungos, das ladainhas religiosas e dos partidos-altos no Brasil. A data de 19 de julho marca 39 anos de sua partida, ocorrida em 1987, no Rio de Janeiro, em decorrência de complicações de um derrame.
Neta de pessoas escravizadas em uma fazenda de café do Vale do Paraíba por parte de mãe, e de negros alforriados por parte de pai, Clementina de Jesus da Silva nasceu na comunidade do Carambita, periferia da cidade de Valença, no sul do estado do Rio de Janeiro, em 7 de fevereiro de 1901. A mãe, Amélia de Jesus dos Santos, era parteira, lavadeira e rezadeira, e o pai, Paulo Batista dos Santos, trabalhava como pedreiro, carpinteiro, mestre de capoeira e violeiro, ofícios que atravessavam tanto o trabalho manual quanto a tradição musical e religiosa da família. Foi com a mãe que Clementina aprendeu, ainda criança, pontos de jongo, cantos de trabalho, ladainhas e partidos-altos, além de rezas em línguas de matriz banta, um repertório absorvido inteiramente por transmissão oral, sem qualquer contato com formação musical formal.
Aos oito anos, a família se mudou para o Rio de Janeiro, primeiro para Jacarepaguá e depois para o bairro de Oswaldo Cruz, onde Clementina acompanhou de perto o surgimento e o desenvolvimento da escola de samba Portela, frequentando desde cedo as rodas de samba da região. Em 1940, já casada, mudou-se para a Mangueira, e seguiu vivendo à margem dos palcos por mais duas décadas, trabalhando como empregada doméstica e criando as filhas sozinha, sem qualquer perspectiva de carreira artística à vista.
O atraso no reconhecimento não resultou do acaso, mas do lugar social ocupado por uma mulher negra, pobre e trabalhadora doméstica em um Brasil que historicamente reservava os palcos da música popular a outro perfil de artista. A mudança começou em 1963, quando o produtor e compositor Hermínio Bello de Carvalho a ouviu cantar em uma festa na Penha e, mais tarde, reencontrou-a na inauguração do bar Zicartola, ponto de encontro de sambistas no Rio de Janeiro. Impressionado com a potência da voz dela, Hermínio a convidou para o projeto “O Menestrel”, onde Clementina estrearia profissionalmente em 1964, já aos 63 anos, ao lado do violonista Turíbio Santos. No ano seguinte, em 1965, ela integrou o elenco do espetáculo “Rosa de Ouro”, com direção de Hermínio Bello de Carvalho e Kléber Santos, dividindo o palco com Araci Cortes, Elton Medeiros, Paulinho da Viola e Nelson Sargento, entre outros nomes que viriam a se tornar centrais no samba carioca. O sucesso do espetáculo gerou dois álbuns ao vivo e projetou definitivamente o nome de Clementina para o público nacional.
A partir da estreia, o repertório de Clementina se revelou em toda a sua extensão e diversidade. Em 1966, ela gravou o primeiro disco solo, intitulado “Clementina de Jesus”, pela gravadora Odeon, reunindo jongos, corimás, sambas e partidos-altos, com destaque para as faixas “Cangoma me Chamou” e “Barracão É Seu”, esta última um dueto de quase sete minutos marcado por dezesseis improvisos poéticos. Em 1968, ela participou do LP “Gente da Antiga”, produzido por Hermínio Bello de Carvalho, ao lado de Pixinguinha e João da Baiana, considerado até hoje um dos registros históricos mais importantes da música popular brasileira. Já em 1982, ao lado das cantoras Tia Doca e Geraldo Filme, Clementina gravou o disco “O Canto dos Escravos”, reunindo vissungos, cantos de trabalho entoados em dialeto banto por pessoas escravizadas de origem benguela nas minas de Diamantina, em Minas Gerais, cantos que haviam sido recolhidos décadas antes pelo filólogo Aires da Mata Machado Filho e que, sem esse tipo de registro sonoro, correriam risco real de desaparecer. Ela também emprestou a voz à faixa “Escravos de Jó”, no álbum “Milagre dos Peixes”, de Milton Nascimento, lançado em 1978. Ao todo, Clementina gravou cinco discos solo e emprestou a voz a treze LPs entre trabalhos próprios e participações.
O reconhecimento institucional viria em vida, ainda que tardio, com uma homenagem em espetáculo no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1983, promovida pelo então secretário de Cultura do estado, Darcy Ribeiro, e que reuniu nomes como Paulinho da Viola, João Nogueira, Elizeth Cardoso, Beth Carvalho e Gilberto Gil, acompanhados pela bateria da Estação Primeira de Mangueira, marcando a primeira vez que o Teatro Municipal abriu as portas para o samba. Em 1985, ela recebeu do governo francês, das mãos do ministro da Cultura Jack Lang, a Comenda da Ordem das Artes e Letras, em cerimônia que contou com a presença de Jorge Amado, Caetano Veloso e Milton Nascimento. Um Ciep no bairro de Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro, leva o nome dela até hoje, e sua trajetória foi reunida no livro “Quelé, a Voz da Cor”, lançado em 2017 pela Civilização Brasileira após mais de seis anos de pesquisa, com depoimentos de Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Hermínio Bello de Carvalho e Beth Carvalho, entre outros.
Clementina também é conhecida como Quelé, corruptela carinhosa do próprio nome, e como Rainha Ginga, em referência à soberana angolana Nzinga, símbolo histórico de resistência ao colonialismo português em Angola. Há ainda uma leitura simbólica possível para esse apelido, que vale como interpretação e não como origem histórica comprovada do nome, já que nenhuma fonte confirma ligação direta entre os dois termos: no candomblé, o quelê é o colar sagrado que liga o iniciado ao próprio orixá, funcionando como proteção e conexão com a ancestralidade. Não é exagero enxergar Clementina de Jesus cumprindo, para o samba brasileiro, papel semelhante ao daquele colar, o de guardiã que atravessou a vida inteira carregando e protegendo uma memória negra que, sem ela, teria se perdido.
Equipe do cantor informa que ele está estável, com boa evolução clínica, e deve continuar o tratamento em casa após a alta.
O cantor Milton Nascimento, de 83 anos, está internado desde a última quarta-feira para tratar uma pneumonia, segundo nota divulgada nesta sexta-feira pela equipe do artista. O comunicado informa que ele está estável, apresenta boa evolução clínica e deve receber alta nos próximos dias para dar continuidade ao tratamento em casa.
A equipe descreveu a pneumonia como uma intercorrência considerada comum diante do atual quadro de saúde do cantor, sem detalhar o histórico clínico que motiva essa avaliação. “Ele segue estável e em boa evolução clínica, com todo o suporte necessário”, afirma a nota, que também garante o acompanhamento de profissionais de saúde durante a internação.
Segundo o comunicado, a expectativa é de que Milton deixe o hospital nos próximos dias para seguir o tratamento em casa, visando o conforto do artista. A equipe não informou em qual hospital ele está internado nem deu detalhes sobre o início dos sintomas ou os procedimentos adotados até o momento. A nota foi publicada nas redes sociais do cantor e replicada por seu perfil oficial no Instagram.
Um dos principais nomes da música popular brasileira, Milton Nascimento é autor de canções como “Travessia”, “Clube da Esquina nº 2”, “Canção da América” e “Maria, Maria”. O artista encerrou a turnê de despedida dos palcos em 2022, mas segue participando de projetos especiais e fazendo aparições públicas ocasionais.
A turnê estreia neste sábado (18) na Casa Natura Musical, em São Paulo, celebrando os 25 anos de carreira da artista e os 13 anos do disco de estreia.
Karol Conká sobe ao palco da Casa Natura Musical, em São Paulo, neste sábado (18), para a estreia da turnê que leva de volta aos palcos o álbum “Batuk Freak”. A apresentação marca o início de uma série de shows que celebra os 25 anos de carreira da artista e revisita o disco que, lançado gratuitamente em abril de 2013 pela revista Vice e depois pela Deckdisc, ajudou a consolidar uma linguagem musical que hoje é comum na produção nacional, mas que na época soava como uma aposta arriscada. Depois de São Paulo, a turnê segue para Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Florianópolis, com novas datas anunciadas ao longo do ano.
Em entrevista ao Mundo Negro, Karol Conká falou sobre o significado de revisitar esse repertório, as referências que sustentaram sua construção e o lugar que ocupa hoje como uma das principais nomes do rap e do funk brasileiros.
Uma estreia que virou divisor de águas
Produzido por Nave Beats entre 2009 e 2013, “Batuk Freak” reuniu rap, funk, afrobeat e sonoridades eletrônicas em uma linguagem que, à época, não tinha paralelo direto na cena nacional. O single “Boa Noite” abriu caminho para a indicação de Karol Conká na categoria Aposta do MTV Video Music Brasil, em 2011, ainda antes do lançamento oficial do álbum. Faixas como “Corre, Corre Erê”, “Gandaia” e “Gueto ao Luxo” somaram, à época, mais de um milhão e meio de visualizações no YouTube e projetaram a curitibana para além do circuito underground em que havia começado a carreira, no início dos anos 2000.
Passados treze anos, Karol Conká reconhece que a dimensão que o disco alcançaria não era clara enquanto o trabalho estava sendo construído. “Olhando hoje para a Karol daquela época, eu vejo que eu tinha muita garra, ainda tenho, essa disposição para viver intensamente a vida e cada desafio que aparece na frente. Eu tinha conhecimento que o álbum era um divisor de águas, uma coisa disruptiva no meio do rap, mas eu não fazia ideia que ele ia se tornar um marco assim para as gerações”, contou a artista, em entrevista ao Mundo Negro.
As raízes de um som vanguardista
A mistura de referências que caracteriza “Batuk Freak” nasceu do encontro entre a trajetória de Karol Conká e a produção de Nave Beats, responsável também por trabalhos de nomes como Emicida e Marcelo D2. Segundo a artista, o processo de composição foi também um processo de amadurecimento profissional. “Esse repertório todo é graças a vivências, experiências e conexões. Esse álbum foi produzido pelo Nave, então ele traz muito dessa brasilidade e dessa veia artística. Devo muito também à produção dele, que me ajudou a me conhecer como artista e entender quais seriam os novos passos. Foi um álbum que me despertou para o mundo artístico mais administrativo, vamos dizer assim. Até então eu fazia música me divertindo, e o Batuk Freak me cravou o pé, me assentou como artista. Eu sabia que a partir dali eu ia viver da minha arte para sempre”, afirmou Karol Conká.
Questionada sobre as influências que alimentaram a construção do disco, a cantora citou um repertório amplo, que atravessa gerações e gêneros da música negra brasileira e internacional. “As minhas influências na época, e até hoje reverberam dentro de mim, são Lauryn Hill, Nação Zumbi, Timbalada, Zeca Pagodinho, Negra Li, Dina Di, Negralli. Essas foram as fontes em que eu me vitaminei para florescer o meu dom”, disse a artista, que define sua identidade sonora como uma miscelânea deliberada de temas, melodias e eras.
Críticas publicadas à época do lançamento já apontavam essa característica como um dos pilares do trabalho. A produção foi descrita como um catálogo de ideias que dialogava com nomes internacionais como Santigold e M.I.A., sem abrir mão de referências da produção brasileira, casando os tambores tribais de “Corre, Corre Erê” com o cover de “Caxambu”, do sambista Almir Guineto, e contando ainda com participações de Rincon Sapiência e Tuty.
Uma luta que se repete
Karol Conká é apontada hoje como uma das artistas que abriram caminho para uma geração de mulheres que hoje ocupam espaço central no rap e no funk brasileiros. Ainda assim, o debate sobre a necessidade de dar visibilidade a essas artistas continua presente na cena, mesmo duas décadas e meia depois do início da carreira da cantora. Perguntada sobre por que esse espaço ainda exige tanta disputa, Karol Conká reconheceu o incômodo da repetição, mas fez questão de marcar uma mudança concreta em relação ao passado.
“É complicado quando a gente percebe que bate numa mesma tecla e, anos depois, tem que continuar batendo naquela mesma tecla. É um sinal de que muita coisa não andou para frente. Mas no caso do rap nacional, uma tecla a gente não precisa mais bater, que é achar que não tem mulheres no rap. A verdade é que sempre teve mulheres no rap, só não tinha espaço, elas não tinham visibilidade e não tinham tanto apoio como hoje tem. Ainda vivemos uma escassez, mas existe apoio, muito vindo das próprias mulheres para fazer acontecer”, declarou a artista, em entrevista ao Mundo Negro.
A cantora também citou a geração de rappers que despontou no final dos anos 1980 como parte de uma linhagem que antecedeu sua própria trajetória e que, segundo ela, corre o risco de ser apagada da memória da cena. “É um caminho que foi um passo dado por mulheres na década de 80, artistas do rap que hoje não teriam tanta visibilidade, mas que nunca vão ser esquecidas. Acho muito bacana esse movimento que está sendo feito e a gente entender que hoje só precisamos de nós”, afirmou.
Uma postura antes do discurso pronto
Para além da sonoridade, “Batuk Freak” é lembrado por ter colocado em primeiro plano uma estética e uma postura associadas à cultura negra em um momento no qual esse debate ainda não fazia parte da conversa pública brasileira do jeito que faz hoje. Questionada sobre o que significa subir ao palco novamente com esse repertório, agora diante de um público que reconhece essa construção com outro vocabulário, Karol Conká descreveu a sensação como gratidão.
“É muito bom, é gratificante demais ver que as minhas ideias, as minhas percepções através da música, despertaram também o interesse de outras pessoas de se permitirem ser e estar onde elas quiserem. Fico muito lisonjeada quando reconhecem toda a minha trajetória e todo o esforço que eu tive e tenho pela cultura, pela música, pela arte. Eu sou uma artista plural e me proponho a fazer tudo da melhor forma que eu posso. É muito bacana quando eu recebo carinho, reconhecimento. Eu fico feliz”, disse a cantora.
Nostalgia e estreia no mesmo palco
Sobre a apresentação de estreia, marcada para este sábado na Casa Natura Musical, Karol Conká adiantou que o espetáculo foi pensado como um encontro entre gerações de público, entre quem acompanhou o disco em 2013 e quem chega até ele agora. “As pessoas podem esperar um momento muito gostoso e nostálgico, onde eu vou convidar o público para revisitar as suas fontes de fortaleza, onde as pessoas vão relembrar o momento em que conheceram o Batuk Freak. E para a galera da nova geração que não viveu aquela época lá atrás, também está convidada a viver essa nova era. O Batuk Freak é um álbum atemporal, ele sempre vai falar com várias gerações, e isso é muito legal”, concluiu a artista.
Depois da estreia em São Paulo, a turnê segue para A Autêntica, em Belo Horizonte, no dia 14 de agosto, Tork N’Roll, em Curitiba, no dia 18 de setembro, Opinião, em Porto Alegre, no dia 19 de setembro, e Deraiz, em Florianópolis, no dia 26 de setembro. Novas datas devem ser anunciadas nas próximas semanas.
Jessie e D’Lila Combs dão primeira entrevista desde a condenação do pai e comentam conselhos recebidos dele para tocar nova marca de roupas, a 12TWINTY1.
Jessie James Combs e D’Lila Star Combs, filhas gêmeas de 19 anos de Sean “Diddy” Combs e da atriz Kim Porter, concederam à jornalista Nischelle Turner, da Entertainment Tonight, a primeira entrevista desde a condenação do pai, cumprida em julho de 2026 por dois crimes de transporte para fins de prostituição, que resultaram em pena de 50 meses de prisão na unidade federal de Fort Dix. Combs foi absolvido das acusações mais graves de organização criminosa e tráfico sexual que também constavam do processo.
Questionadas sobre eventual receio em se expor ao público neste momento, as irmãs foram responderam: “Não. De forma alguma”, e explicaram o motivo: “As pessoas não percebem que, só porque ele é o nosso pai, não significa que a imprensa dele seja a nossa imprensa. A nossa imprensa é a nossa imprensa. Nossa linha de roupas é a nossa linha de roupas, não a linha de roupas dele. É separado. As pessoas não entendem que também somos indivíduos.”
Sobre o momento escolhido para lançar a marca, em meio à repercussão do processo do pai, as gêmeas reforçaram que o projeto vinha sendo amadurecido havia anos. “Nós queríamos ter uma linha de roupas há muitos, muitos anos. Agora é o momento porque estamos nos tornando adultas. Nós realmente temos tempo. Temos 19 anos, não estamos mais no ensino médio, estamos nos tornando jovens mulheres.” A coleção de estreia da 12TWINTY1 recebeu o nome de “777”, em referência aos sete minutos que separam o nascimento das duas.
A respeito da relação atual com o pai, as irmãs descreveram vínculo próximo: “Está ótima! É ótima, com certeza somos muito próximas. E ele dá os melhores conselhos. Ele é muito, muito experiente nesse aspecto. Nós perguntamos a ele o tempo todo, tipo, quando precisamos de ajuda com algo.” Segundo as gêmeas, um ensinamento do pai se tornou referência direta na condução do negócio. “O sucesso não será entregue de bandeja para você. Tipo, não espere estender as mãos e o sucesso virá. Você tem que trabalhar duro, tem que dedicar tempo. Esse conselho realmente nos moldou hoje, porque nós nos esforçamos muito. Ele tem sido muito, muito prestativo.”
Procurado pela imprensa americana após o lançamento da marca, Combs declarou orgulho do empreendimento das filhas e disse esperar que o público julgue a 12TWINTY1 pela qualidade do que foi criado, sem associar o projeto à situação jurídica dele.
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