A PowerList Mundo Negro 2026 entra em sua reta final. Hoje, 22 de junho, é o último dia para participação do público na escolha das finalistas da premiação, que reconhece trajetórias de mulheres negras em diferentes áreas de atuação no Brasil.
A segunda fase da edição ainda está aberta, mas o resultado depende diretamente da participação popular. Na primeira etapa, a premiação registrou mais de 3 mil votos e mais de 850 mulheres negras indicadas em todo o país. Dessa primeira fase saíram as finalistas de cada categoria.
Categorias da premiação
Entre as categorias estão Criadora Digital, Empreendedora do Ano, Profissional da Beleza, Destaque em Gastronomia e Profissional da Moda. As indicadas representam diferentes segmentos do mercado criativo, empreendedor e cultural.
Indicadas por categoria
Criadora Digital @cynthiamariah, @misteriosdaluz, @palmiratonet, @lu_blackstylist e @sarahafonseca.
Empreendedora do Ano @fanymirandaoficial, @ednusaribeiro, @geolima_, @lacreafro e @soumariananunes.
Profissional da Beleza @dinaurafrancabeauty, @glei__souza, @leticiamaria.imbali, @pretabrasileira e @projetoraizes.
Destaque em Gastronomia @taynapassosoficial, @saintclaircezar, @felixluiza, @ajeumdapreta e @kitandadasminas.
Profissional da Moda @cangaceirafuturista, @monicasampaiosr, @ateliekeilavianna, @golinjoias e @madanegrif.
Prazo final
A votação segue aberta até o fim do dia 22 de junho. As vencedoras serão premiadas no dia 31 de julho, durante o Julho das Pretas, em cerimônia na sede da L’Oréal Groupe Brasil, no Rio de Janeiro.
Como votar
A participação é simples, e pode ser feita de forma online, pelo link: https://powerlist.mundonegro.inf.br/votar/, é só escolher a candidata na sua respectiva categoria, preencher o formulário com o seu e-mail e finalizar a ação. A mensagem de confirmação do voto registrado surge instantaneamente na tela do aparelho e vale lembrar que cada e-mail cadastrado permite registrar apenas uma escolha.
O mercado da música urbana contemporânea, muitas vezes refém de lançamentos efêmeros e fórmulas desenhadas para engajamento instantâneo, ganha um respiro de extrema sofisticação e audácia conceitual.
O duo belo-horizontino Dois Canalhas, formado por Brandu e Kairee, acaba de estrear com o single e videoclipe “Tudo o que eu preciso nessa casa”. Lançado sob o selo CRIA.co, incubadora do Grupo A Macaco, o projeto não se limita a entregar apenas uma canção: ele inaugura um universo narrativo ambicioso que promete redefinir os moldes do R&B e do Rap nacional através de uma estrutura cinematográfica.
Logo no primeiro contato com o clipe, fica evidente que o Dois Canalhas não está interessado em seguir o óbvio. Em vez de uma sucessão de singles soltos, a dupla estruturou seu trabalho de estreia sob uma lógica de “série”, onde cada faixa funciona como um capítulo interconectado, pavimentando o caminho para o EP “Dois Canalhas em Ação”, previsto para agosto. Segundo Brandu, essa escolha nasceu do desejo de liberdade criativa e de resgatar o hábito de consumir narrativas completas: “A gente sempre gostou de trabalhar um conceito maior. Lançar single também é importante pra fazer conexões com outros artistas, pros feats, pra ver se a química rola. Mas quando é um trabalho que dá pra pensar com mais calma, a gente prefere EP ou álbum, porque ali dá pra desenvolver uma ideia maior, contar uma história, ter um enredo, coisa que no single nem sempre cabe”.
Visual e sonoramente, a obra é uma celebração afrofuturista e nostálgica. É impossível assistir ao clipe e não se lembrar das sitcoms icônicas dos anos 2000, como Um Maluco no Pedaço, resgatando a leveza, o figurino marcante e o humor característicos dessas produções pretas que moldaram o comportamento de uma geração.
Contudo, o Dois Canalhas evita a armadilha da mera cópia do passado. Existe uma fusão muito interessante entre o antigo e o contemporâneo, o passado e o presente. O instrumental traz um groove refinado dos anos 90, calcado em uma pesquisa minuciosa de timbres que dialoga com o hip-hop, o boom bap, o canto gospel e o R&B clássico. Como aponta Kairee, o diferencial está em aplicar autenticidade a esses cenários: “Acredito que o diferencial pra cena é trazer autenticidade e sair do mesmo: explorar e misturar referências de forma divertida. São realmente os “Dois Canalhas” explorando sua musicalidade em vários estilos, sem preconceito, e chamando outros artistas pra somar e explorar infinitos cenários”.
Essa sinergia se reflete perfeitamente na dinâmica de estúdio da dupla. Brandu, já reconhecido por sua excelência técnica na cena de Belo Horizonte, assina a produção e os arranjos (com mix e master de Gabriel Henriques), mas assume um inédito e potente protagonismo vocal ao lado da caneta afiada e interpretação marcante de Kairee. O processo criativo fluiu de forma orgânica e horizontal, distanciando-se da figura do mero “beatmaker” para alcançar uma produção musical de fato. Eles criaram melodias e refrões juntos, costurando as batidas de Brandu com as linhas vocais e rimas de Kairee em uma identificação mútua e natural.
Outro ponto alto do lançamento é a precisão afetiva e a territorialidade. O duo trouxe para o single a participação da cantora e prima de Brandu, Cibely (Ciih), natural de Ponte Nova, cidade que também é berço do produtor. A presença dela adiciona uma camada de calor e sofisticação vocal que eleva a faixa a um patamar global e pop, apto a dialogar com qualquer canto do Brasil e do mundo. Isso sem falar do visual icônico, com beleza e estilo muito bem assinados.
Embora o som de estreia mire em uma linguagem universal do R&B e da black music, a essência mineira está impregnada na postura artística do projeto. Kairee sintetiza com propriedade o orgulho dessa identidade: “O Dois Canalhas é isso: dois jovens músicos negros de Minas, explorando diversos cenários da black music e da diáspora de forma popular, da forma mais bonita que a gente enxerga no mundo”. Brandu ainda antecipa que a profunda pesquisa sobre a música mineira e seus ritmos tradicionais já está acontecendo nos bastidores com parceiros especializados, mas avisa que isso será revelado aos poucos nos próximos episódios.
“Tudo o que eu preciso nessa casa” é uma estreia e um cartão de visitas de alto nível pra uma dupla de artistas da nova cena. O Dois Canalhas mostra que é possível fazer música urbana com apelo popular sem abrir mão da complexidade artística, do resgate histórico e do respeito às suas origens. Quem aprecia a cultura preta em sua máxima potência estética e musical precisa, obrigatoriamente, acompanhar e degustar com atenção, os próximos capítulos dessa série. O single já está disponível em todas as plataformas digitais e o clipe no Youtube.
Atriz se pronunciou pela primeira vez uma semana após a divulgação do caso. O processo foi encerrado por acordo homologado pela Justiça do Trabalho em 2025, enquanto defesa contesta as alegações apresentadas pela ex-funcionária.
A atriz Isis Valverde se pronunciou pela primeira vez após a divulgação de um processo trabalhista movido por uma ex-cozinheira que trabalhou em sua residência. A manifestação aconteceu sete dias depois de a ação ganhar ampla visibilidade nas redes sociais e em veículos de imprensa.
Sem citar diretamente a ação judicial, a atriz utilizou suas redes sociais para compartilhar uma mensagem direcionada ao público em meio aos debates gerados pelo episódio. O pronunciamento marcou a primeira manifestação pública de Isis desde que detalhes do processo voltaram a circular na internet.
“Nos últimos dias, tenho visto interpretações e afirmações sobre mim que não são verdadeiras. Acima de tudo, que fique claro que tenho absoluto respeito pelas pessoas e pelos seus direitos. Jamais agiria diferente em relação a isso.” escreveu Isis.
O processo envolve uma ex-funcionária que ingressou com uma ação trabalhista alegando trabalhar 12h por dia e apenas tirar 20 minutos de almoço após jornadas prolongadas de trabalho, e o exercício de atividades além das atribuições inicialmente contratadas.
Segundo informações divulgadas nos autos, a trabalhadora afirmou que cumpria jornadas extensas e dispunha de pouco tempo para as refeições durante o expediente. As alegações resultaram em uma ação na Justiça do Trabalho do Rio de Janeiro.
O processo foi encerrado após um acordo homologado pela Justiça em novembro de 2025. Conforme divulgado, o entendimento entre as partes previu o pagamento de R$ 30 mil, parcelado em seis vezes, encerrando a disputa judicial sem reconhecimento de culpa por qualquer uma das partes.
Diante da repercussão do processo, a defesa da atriz contestou a versão apresentada pela ex-funcionária. Isis Valverde criticou o que classificou como acusações sem fundamento por meio de suas redes sociais.
“Eu respeito a opinião das pessoas, mas não acredito neste formato baseado em acusações e afirmações infundadas e distorcidas. Decidi que vou seguir confiando que a verdade sempre encontra o seu caminho”, declarou a atriz.
O Brasil é um país majoritariamente negro (56%), mas essa maioria ainda é minoria nos espaços de poder, prestígio e decisão — e isso inclui hospitais, cursos de medicina e consultórios. A população negra enfrenta os piores indicadores de acesso à saúde e segue sub-representada entre os profissionais que ocupam a linha de frente do cuidado: os médicos.
Pessoas negras e indígenas vivem em maior vulnerabilidade social, enfrentam dificuldade de acesso a tratamentos, diagnósticos tardios e índices alarmantes de mortalidade materna e de doenças crônicas. E isso se deve ao fato de que a medicina ainda é um espaço historicamente elitizado, branco e distante da realidade da maioria da população brasileira, principalmente quando o assunto é prevenção e estética.
Estar nesses espaços e discutir o tema é um passo importante para compreender que a presença de médicos negros possui um significado que vai além da ocupação profissional. Ela ajuda a construir vínculos mais humanizados dentro do sistema de saúde, pois, para muitos pacientes, enxergar-se representado no atendimento gera acolhimento, confiança e pertencimento — algo fundamental em qualquer processo de cuidado.
Doutor Lucas Diniz é cirurgião plástico facial e doutorando em Ciências Cirúrgicas pela USP, com experiência internacional em Stanford, na Weill Cornell University (EUA) e na Mannheim Universität (Alemanha). Atualmente atende em consultório particular e realiza cirurgias em hospitais de renome em São Paulo. É cirurgião voluntário em projeto social do Barco Papa Francisco, na Amazônia, e compreende as dores da limitação de acesso na pele. Ao comemorar sua aprovação em primeiro lugar para Membro Titular da Academia Brasileira de Cirurgia Plástica da Face, ele nos oportuniza, mais uma vez, sonhar e agir.
Dr. Lucas Diniz (Foto: Alex Santana)
“Minha trajetória foi lapidada em casa. Filho de um eletricista e de uma agente de saúde, aprendi cedo que a educação é a maior ferramenta de transformação. Foi com essa perseverança que cheguei em primeiro lugar no ingresso em Medicina, na residência e no fellowship de Cirurgia Plástica da Face da USP. Neste mês, recebi a notícia de que fui aprovado em primeiro lugar na prova para Membro Titular da Academia Brasileira de Cirurgia Plástica da Face. Sou o primeiro homem negro a conquistar esse título. Porém, a pergunta que faço é: por que demorou tanto e o que faremos para que não demore de novo?”, questiona o Dr. Diniz.
O ingresso nas faculdades de Medicina continua sendo uma das maiores expressões da desigualdade racial no Brasil. Cursos caros e obstáculos educacionais históricos afastaram gerações de jovens negros desse espaço. O avanço das políticas de cotas é notório e nos levará a novos índices, mas os desafios para estudantes negros são muitos, e é preciso olhar para esse ponto para que a equidade seja aplicada. Combater o racismo acadêmico, a pressão psicológica e as dificuldades financeiras — fatores que ampliam essa desigualdade — é fundamental para que os alunos permaneçam nos cursos e tenham a oportunidade de competir em igualdade de condições.
“Estudo é tão essencial quanto oportunidade; afinal, ninguém se lapida sozinho. O Dr. Carlos Caropreso, chefe do serviço da USP, me viu e me estimulou. No exterior, abriram-se portas: Stanford, pelas mãos dos Drs. Thomaz Fleury e Robson Capasso; a Weill Cornell, com o Dr. Michael Stewart. Vale registrar: todos que me formaram no Brasil, inclusive meu orientador de doutorado na USP, Dr. Nivaldo Alonso, são aliados não-negros. Sou profundamente grato a cada um deles”, enfatiza o médico.
Dr. Lucas Diniz (Foto: Divulgação)
Intencionalidade e políticas públicas são a soma do investimento inicial no combate à desigualdade social e racial na saúde. Contribuir para mudar culturas institucionais, ampliar perspectivas e humanizar o cuidado é uma responsabilidade que precisa fazer parte das decisões e das pautas institucionais. Sabemos que ampliar o número de médicos negros não resolve sozinho o problema do racismo estrutural na saúde, mas é mais uma ação de transformação fundamental para essa mudança que segue atrasada, mas em curso.
“Em toda a trajetória escolar, tive um único professor negro, Estéfani Martins, que me deixou um ensinamento que carrego até hoje: ‘O que te define é como você se apresenta para o desafio no seu pior dia.’ Na faculdade, ouvia histórias do professor Odo Adão, primeiro cirurgião plástico negro do Brasil. Mas, em toda a minha formação médica, não tive um único professor negro. Precisei sair do país para ver cirurgiões negros em posição de destaque”, informa o doutor.
A presença de médicos negros tem contribuído para transformar a forma como pacientes negros se relacionam com o autocuidado, com os serviços de saúde e com a própria confiança nas instituições médicas. Essa representatividade amplia perspectivas, fortalece vínculos e traz para o centro do debate questões fundamentais para o aprimoramento das políticas públicas de saúde. A tecnologia e a produção de conhecimento baseada em dados são ferramentas indispensáveis para compreender desigualdades, desenvolver soluções e ampliar o acesso a cuidados mais equitativos.
Para o Dr. Lucas, a experiência de mentoria com o Dr. Kofi Boahene, cirurgião plástico da Johns Hopkins, o fez refletir sobre outra perspectiva, mesmo quando as estatísticas diziam o contrário. Todo profissional precisa ter acesso ao conhecimento pleno para atender às demandas tecnológicas que estão em curso. Precisamos de mais mentores médicos negros e nos preparar para plantar as tamareiras para as próximas gerações colherem os frutos.
“Dominar a inteligência artificial é a tecnologia do agora. Um estudo da IDC com a Microsoft, apresentado pela presidente da Microsoft Brasil, Priscyla Laham, mostra que 90% dos executivos C-level brasileiros veem a IA como diferencial-chave de competitividade em seus setores, e 88% a consideram o principal motor de competitividade até 2030. Se as portas do passado foram abertas por pessoas, as do futuro serão abertas por quem dominar as ferramentas”, ressalta o médico.
O Dr. Lucas faz uso de IA desde 2022 e aprendeu diretamente na fonte, no Vale do Silício, a testar diversas ferramentas para aprimorar suas técnicas e conhecimentos. Ele afirma que existe um mundo além do ChatGPT e que as habilidades do futuro, como a IA agêntica, precisam ter a nossa cor. Ao propor que nossas instituições, ABCPF e ABORL-CCF, realizem o censo — quem somos, por raça e cor —, ele reafirma a urgência dos dados para que possamos corrigir as estruturas históricas que, consequentemente, atrasam nossa evolução social e econômica.
“Quem chega primeiro deixa a porta aberta. Como nos mostrou a genial Rachel Maia em seu livro Meu Caminho até a Cadeira Número 1, levar a próxima geração mais longe é o meu, o seu, o nosso dever”, acrescenta o especialista.
A busca por uma sociedade mais inclusiva dialoga com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente o ODS 3, voltado à saúde e ao bem-estar, e com as metas brasileiras de promoção da igualdade étnico-racial, ODS 18. Construir uma medicina mais diversa significa oportunizar esperança aos jovens estudantes negros que desejam seguir a carreira e aos pacientes negros que têm direito ao cuidado e a se verem representados.
Cofundador de MUVUKA e AUÊ, o estrategista e executivo independente leva ao festival uma perspectiva brasileira, negra e latino-americana sobre criatividade, cultura e negócios
Renan Damascena participa do Cannes Lions como jurado de Creative Strategy, tornando-se um dos representantes brasileiros na área de estratégia criativa do festival mais relevante da indústria publicitária global. Estrategista, pesquisador cultural e executivo independente, ele leva ao evento uma perspectiva construída a partir da inteligência negra, periférica e latino-americana, em um espaço historicamente ocupado por perfis distantes dessa origem.
Cofundador e CSO de MUVUKA e AUÊ, Renan atua na interseção entre inteligência cultural, estratégia criativa, tecnologia e prototipação de novos negócios. Reconhecido pela Forbes Under 30 Brazil 2025, ele representa uma geração de executivos independentes que acumula método e linguagem próprios, sem depender das estruturas tradicionais do mercado para ocupar posições de decisão.
Para Renan, a presença em Cannes não é uma conquista individual. “A cadeira que ocupo não começou em mim. Ela também é resultado de pessoas que abriram caminhos, como Raphaella Martins, Samantha Almeida, Gabriela Rodrigues, Felipe Silva e tantas outras lideranças que provaram que inteligência negra, periférica, brasileira e independente tem lugar em espaços globais de decisão”, afirma.
O executivo também chama atenção para o papel de iniciativas como Publicitários Negros e Perifa Lions, que vêm funcionando como infraestruturas de formação, visibilidade e circulação de talentos negros na indústria criativa. A avaliação, porém, vem acompanhada de uma crítica direta ao mercado. “O mercado celebra diversidade, mas ainda investe pouco nas estruturas que tornam a diversidade sustentável. Não basta chamar talentos negros quando a campanha precisa de legitimidade. É preciso financiar caminhos concretos para muitos”, diz.
A presença de Renan em Cannes integra uma agenda mais ampla de reconhecimento do papel das comunidades negras e periféricas na produção de método, estratégia e linguagem criativa, e não apenas como fontes de repertório cultural. Sua trajetória reforça também o crescimento de executivos brasileiros independentes em espaços globais de decisão, um movimento que vem ganhando consistência à medida que nomes com esse perfil acumulam visibilidade internacional sem precisar passar pelos filtros das grandes agências ou holdings.
O solo teatral de Taís Araújo ganha sessão extra em São Paulo no dia 26 de junho e chega a Belo Horizonte em agosto. Saiba como garantir seu ingresso.
“Mudando de Pele”, espetáculo protagonizado por Taís Araújo, tem duas novas datas confirmadas. A peça, que estreou no Rio de Janeiro e cumpre temporada no Sesc 14 Bis, em São Paulo, até 5 de julho, ganha agora uma sessão extra na capital paulista e anuncia sua chegada a Belo Horizonte, em agosto.
No enredo escrito pela britânica Amanda Wilkin e dirigido por Yara de Novaes, com direção assistente de Ivy Souza, Taís interpreta Mayah, uma mulher de quase 40 anos que abandona ciclos desgastados de trabalho e relacionamento para iniciar uma jornada de autodescoberta. Ao longo dessa trajetória, ela encontra Mildred, uma senhora jamaicana de 90 anos com história de luta pelos direitos civis, e Kemi, uma jovem que ocupa espaços sem pedir licença. As relações entre as três personagens constroem uma narrativa sobre identidade, ancestralidade e valor, deslocando a dor do centro da trama para dar espaço ao humor, ao afeto e à alegria. Dani Nega e Layla integram o elenco e executam ao vivo a trilha sonora do espetáculo.
São Paulo
A sessão extra acontece no dia 26 de junho, sexta-feira, às 15h, no Teatro Raul Cortez. Os ingressos estarão disponíveis a partir de 23 de junho, às 17h, pelo aplicativo Credencial Sesc SP e pela Central de Relacionamento Digital. A venda presencial começa no dia 24 de junho, às 17h, nas bilheterias da rede Sesc SP. Não será permitida a entrada após o início do espetáculo.
Belo Horizonte
A peça chega à capital mineira nos dias 8 e 9 de agosto, no Centro Cultural Unimed-BH Minas. Os ingressos estão disponíveis via Sympla. A produção é assinada pela Rubim Produções, com patrocínio do Itaú por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura.
Afeto, celebração e cultura são como ferramentas de sobrevivência. É com essa fórmula que o criador de conteúdo Stefan Costa subverte a lógica da mídia tradicional para construir uma comunidade digital baseada com acolhimento mútuo. “Eu queria levar essa leveza e tranquilidade, porque a gente já é muito marcado com trauma, violência e escassez. Isso fica evidente na mídia, sempre tratando pessoas trans com um ponto negativo”, destacou o influenciador em entrevista à editora-chefe do Mundo Negro, Silvia Nascimento, no Mês do Orgulho.
Stefan reflete sobre a urgência de pautar a transição sob a ótica do afeto e da saúde mental. Para ele, o autocuidado é político: “A transição mexe muito com a nossa cabeça, com o nosso corpo, principalmente para quem faz uso de hormônios. Eu costumo dizer que o meu corpo é o meu templo, a minha casa, o meu lar. E a minha casa precisa estar bem arrumada e bem cuidada para que eu consiga ser uma pessoa trans feliz e saudável”, pontua.
Mesmo sendo uma referência nas redes sociais, o creator traz à tona o recuo das marcas na pauta da diversidade e alerta outros transmasculinos negros que trabalham ou desejam trabalhar no ambiente digital. “Diversificar a renda é o que me permite continuar criando conteúdo de verdade, sem pirar a cabeça e sem deixar minha dignidade nas mãos de um mercado que funciona por conveniência.”
Foto: Reprodução/Instagram
Leia a entrevista completa abaixo:
1 – Você é um homem homem negro trans e a impressão que dá visitando seu perfil é que você tem uma grande leveza e alegria para lidar com os temas da sua rotina. Esse é um reflexo da sua personalidade ou é algo estratégico para lidar com pautas que nossa sociedade ainda vê de forma preconceituosa? O bem-viver é algo debatido na comunidade trans masculina?
A leveza dos meus conteúdos vem muito desde que eu comecei a criar. Eu queria levar literalmente essa leveza e tranquilidade, porque a gente já é muito marcado com trauma, violência e escassez, isso fica evidente na mídia, sempre tratando pessoas trans com um ponto negativo. Pensei: não é possível que a gente só tenha coisa negativa para apresentar. Comecei a criar conteúdos muito por essa necessidade, pela falta de ter pessoas trans negras, principalmente homens, e também para falar no sentido positivo: de que a gente tem afeto, celebração e outras expectativas para além da dor.
Sobre o bem-viver, é uma pergunta urgente e central. Muitas vezes o processo de transição empurra a gente para uma masculinidade um pouco mais rígida, performática e isolada. O bem-viver entra justamente para reivindicar esses direitos. Eu sou lido como homem, mas tenho direito à vulnerabilidade, à saúde mental, a uma construção de redes de afeto que me permitam existir, e não só sobreviver às barreiras sociais que são impostas às pessoas trans. Na comunidade transmasculina, o bem-viver vem no sentido de que queremos ser vistos e ouvidos como pessoas humanas, que precisam ter um descanso e que têm vulnerabilidades para além dos nossos corpos. Olham muito para o corpo da pessoa trans e não para o ser em si.
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2 – Você tem uma comunidade de homens trans muito engajada. Quem produz conteúdo ensina, mas também aprende. Consegue citar coisas que te marcaram nessa troca com sua audiência?
A minha comunidade tem muita proximidade e é muito engajada justamente porque eu mostro minhas fragilidades. Quando você mostra a sua fragilidade na internet, onde está todo mundo performando muito, fingindo estar bem o tempo todo. No caso de pessoas trans, parece que estão sempre tomando as melhores testosteronas e tendo as melhores barbas. Quando mostro que estou sofrendo com algo e pergunto se já aconteceu com eles, vem uma enxurrada de gente dizendo: ‘caraca, está acontecendo comigo também’ ou ‘eu resolvi assim’. Essa humanização dos nossos corpos traz a diferença. Eu me exponho pra eles e eles pra mim. É uma partilha e uma confiança louvável que depositam em mim, porque sou só um cara que liga o celular e fala sobre suas fragilidades e alegrias.
O que eu aprendi e vou levar para a vida toda é a existência de imaginar a masculinidade de forma plural. Aquela masculinidade rígida e performática se quebra com esse contato. Eu olho para vários meninos trans que me seguem e vejo que existem múltiplas maneiras de ser homem, não apenas uma. A transmasculinidade te leva a isso: não existe uma maneira certa, você pode ser homem do jeito que quiser. Eu sou esse homem formado pela internet, que descobriu coisas com os meus seguidores. Essa troca é super justa e válida também.
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3 – Em um dos seus reels você cita coisas nas rotinas que só homens trans conseguem reconhecer e o uso do banheiro é uma delas. Em espaços públicos essa questão gera muitos debates. Como lidar com isso sabendo dos seus direitos, mas também entendendo a sociedade que a gente vive?
Ir ao banheiro é das coisas mais básicas que existem, mas para nós, homens trans, se transforma em algo sufocante. A gente precisa de estratégia toda vez que sai de casa. Isso afeta o nosso corpo; há muitos relatos de homens trans que têm infecção urinária por segurar o xixi por medo e pânico do banheiro de rua. Esse medo adoece física e mentalmente. Recentemente, teve um “zumzumzum” na internet de uma mulher trans dizendo que homens trans não estão lutando para ir ao banheiro porque eles não precisam, porque pra eles é muito fácil, o que mostra a falta de conhecimento da nossa realidade. Não é fácil!
Os hormônios masculinos são caros, muitos não têm acesso ou não querem usar, e nem todo mundo chega na ‘passabilidade’ de ter uma barba, como eu tenho, ou um corpo lido como socialmente masculino. Para ir ao banheiro e se sentir minimamente seguro, infelizmente a ‘passabilidade’ acaba sendo necessária, mas ela não é garantia de segurança total 100%, inclusive mental. Você ainda fica refém da estrutura. Quando um lugar tem banheiro masculino, não significa que está apto para eu usar. A gente precisa analisar: tem mictório ou só cabine? Se tem cabine, tem tranca? Ela fecha direito ou tem aquela fresta de 5 cm onde quem está fora consegue ver? Isso pode ser perigoso ou não. A gente nunca sabe quem vai entrar; a pessoa pode não se importar, ou pode te agredir ali dentro. Isso acontece, já aconteceu.
Tudo vira uma logística para sair de casa. Se vou a um lugar que não conheço, preciso me controlar. Pedir pra um amigo ir comigo fazer uma certa segurança. Várias vezes em shoppings eu me controlei para não ingerir líquidos porque não me sinto seguro para usar o banheiro lá. Já fui expulso de banheiro no início da minha transição por não aparentar ser masculino o suficiente, e também já fui expulso do feminino por não aparentar ser feminino o suficiente. Aí você se pergunta: que banheiro eu uso? E não estou falando que seria necessário um terceiro banheiro; para mim, um terceiro banheiro é sinônimo de exclusão, não de inclusão.
O que me impressiona é que entra ano e sai ano — já estamos em 2026 — e ainda estamos discutindo banheiro. É tão absurdo precisarmos que o STF garanta esse direito. É algo tão corriqueiro que nem deveria ser pauta, enquanto deveríamos estar dando atenção à saúde, ao acesso livre ao SUS e a garantir emprego formal ou informal para pessoas trans. O preconceito é tão enraizado que o Judiciário precisa intervir, e mesmo assim não garante total solução. Eu queria estar discutindo a saúde mental dos meus irmãos trans, e não se posso fazer xixi em uma cabine que só tem um vaso. A sociedade surtou com a discussão de banheiros unissex, sendo que todo mundo tem um banheiro unissex em casa. Banheiro tem muitas camadas que adoecem a gente.
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4 – Você também cita o SUS quando fala do seu processo transexualizador. Pode explicar para gente como funciona o tratamento por lá pensando em homens que queiram recorrer por não poderem arcar com um tratamento particular?
O processo transexualizador do SUS é uma conquista enorme e inegável, mas eu tenho críticas à eficiência do processo. Fazer a transição por clínicas particulares é extremamente caro. Uma consulta não sai por menos de R$ 400 ou R$ 500, fora o retorno, as receitas e os exames de sangue regulares para monitorar as taxas. A maioria esmagadora transmasculinas não consegue arcar com isso. Por outro lado, a minha crítica sobre a velocidade. É inadmissível que eu tenha ficado dois anos na fila de espera só para conseguir a primeira consulta.
Na prática, aqui no Rio de Janeiro, o caminho começa pela Clínica da Família ou pela Secretaria de Saúde do município. No meu caso, faço parte do Projeto Arco-Íris dentro da Clínica da Família, que dá um suporte básico de clínica geral. Quando decidi entrar no processo transexualizador, eles me inseriram no sistema de regulação (SISREG). Fui encaminhado para o IED (Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia), no centro do Rio, onde tem o AMIG (Ambulatório Multidisciplinar de Identidade de Gênero).
Lá, você passa primeiro pelo serviço social e tem acesso a uma equipe multidisciplinar completa: ginecologista, psiquiatra, psicólogo, assistente social, endocrinologista e fonoaudiólogo. Isso é perfeito e essencial. E eu faço muita questão de destacar, que o acompanhamento é fundamental inclusive para os homens trans que não querem tomar testosterona. Ser trans envolve muitas coisas; você ainda precisa ir ao ginecologista, cuidar da saúde mental e, quem sabe, fazer fonoaudiologia para a voz, mesmo não usando testosterona.
Para os meninos que querem a terapia hormonal, precisamos tirar a ideia da cabeça de que é só ir lá e aplicar a testosterona e acabou. A transição precisa ser saudável. Eu costumo dizer que meu corpo é meu templo, minha casa, meu lar. E a minha casa precisa estar bem cuidada e arrumada para eu conseguir ser uma pessoa trans feliz e saudável. Se quero continuar aplicando testosterona daqui a 5 ou 10 anos, preciso de calma, carinho e responsabilidade hoje. Preciso fazer os exames regularmente, passar por todos esses profissionais, por mais que desconfortáveis sejam alguns. A fila do SUS é revoltante, mas é o caminho que garante que eu consiga me olhar no espelho, que minha casa está arrumada e faz eu me sentir bem.
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5 – Sobre rede de apoio, tão importantes para quem durante a transexualização lida com mudanças hormonais que impactam não só o corpo, mas também a mente. O que você diria para quem não tem o apoio familiar nesse momento?
A ruptura e a falta de aceitação da família de sangue dói demais e nos destrói mentalmente. Mas a mensagem principal que eu gostaria de deixar é que a falta desse apoio não define o seu futuro e nem quem você é. Se a sua família de origem não te dá acolhimento agora, você tem todo o direito do mundo de construir a sua própria família, que são seus amigos e outras redes de apoio que encontrar pelo caminho. É você quem escolhe.
A transição mexe muito com a cabeça e com o corpo, principalmente com os hormônios. Precisamos de pessoas ao lado que nos aconselhem, mas que também peguem no pé quando necessário. É fundamental ter uma rede de pessoas trans que saibam exatamente o que você está passando. Procure coletivos, grupos na internet, amigos de confiança. Crie o seu porto seguro fora de casa. O mundo é grandão e tem muita gente pronta para te acolher, te respeitar, pra te ver. Não deixe uma, duas ou três pessoas dizerem que você não pode ser visto. Você não está sozinho. Meu acesso à internet cresceu justamente por isso: por encontrar e criar uma rede de homens transmasculinos negros para mostrar que a gente tem um ao outro, passa por paradas semelhantes e a gente cria uma família sim. Por mais que pareça, a gente não está sozinho.
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6 – Agora sobre o mercado de creator, assim como para comunidade negra, a comunidade LGBT+ sofreu com esses recuos de diversidade. Como se manter criativo apesar dessas dificuldades? Acha importante o creator ter outras fontes de renda?
A Creative Economy é um mercado cruel. Teve uma época em que todo mundo queria falar de diversidade, mas agora as empresas deram um passo atrás, isso contando que 60% das marcas recuaram nos patrocínios da Parada de SP. Mas na verdade, raramente pessoas trans negras fazem publicidade de forma consistente. Dá para contar nos dedos. E eu comparo sim pessoas trans negras com pessoas trans brancas, porque criadores trans brancos ainda têm muito mais acesso.
Eu sou a prova disso. Sempre fiz publicidade com marcas grandes: Disney, Vivo, Google e YouTube. Mas eu conto no dedo quantos meninos trans negros no Brasil têm essa oportunidade como a minha. Então, não dá para ter a internet como única fonte de renda. Este ano, por exemplo, eu ainda não fiz nenhuma publicidade relevante. Ninguém me procurou. Faz muito tempo que eu não faço uma campanha. Como eu me manteria? Por causa dessa volatilidade, entendi muito cedo que não dava para apostar todas as fichas no mesmo lugar. Sou um homem trans negro tentando pagar aluguel, cuidar dos meus cachorros e colocar comida na mesa. As contas não esperam o algoritmo melhorar ou as marcas lembrarem que existimos.
Por isso, fui para o trabalho formal, que hoje me sustenta e traz uma certa estabilidade. No cenário geral, a situação de pessoas trans no mercado de trabalho ainda é muito assustadora. Os dados mostram que apenas 25% conseguem emprego formal com carteira assinada no Brasil. É muito pouco. Ter outras fontes de renda não é uma escolha, é sobrevivência. Eu dou palestras, fico nos bastidores da comunicação, construindo a minha autonomia. O mercado de creator hoje em dia, também demora meses para pagar. Diversificar a renda é o que me permite continuar criando conteúdo de verdade, sem pirar a cabeça e sem deixar minha dignidade nas mãos de um mercado que funciona por conveniência.
Foto: Reprodução/Instagram
7 – Como alguém que entende de cultura pop, recomenda para gente livros, filmes ou séries com representatividade transmasculina?
Eu sou uma pessoa muito ‘multi’, estou sempre lendo de tudo um pouco, então vou recomendar três livros:
Monstrans: Experimentando Horrormônios (Lino Arruda): É uma história em quadrinhos genial. O Lino usa o terror e o conceito de ‘monstros’ de um jeito muito subversivo para falar sobre transição e hormonoterapia. Tem uma cena marcante em que ele diz que a testosterona é o veneno e o antídoto. Isso me pegou forte, porque dialoga sobre o corpo ser a nossa casa: o hormônio nos transforma, assusta a sociedade que nos olha como monstros, mas é o que nos cura e nos faz bem.
O Mar Me Levou Até Você (Pedro Rhuas): Uma indicação bem mais leve e tranquila. É um livro fofinho que foge do caminho da tragédia que estamos acostumados a ver na mídia para pessoas trans. Conta a história de uma pessoa não-binária descobrindo o amor, construindo laços profundos e afeto. Mostra que a nossa vida não precisa ser só desgraça; existem caminhos bons. Te conquista nas primeiras páginas.
Transmasculinidades Negras: Narrativas Plurais (Org. Leonardo Peçanha): Uma leitura mais acadêmica e de vivência, organizada por um amigo meu. O livro traz exatamente o que o título diz: a pluralidade de homens trans negros no Brasil através de artigos e relatos que cruzam raça, gênero e classe social. É um livro maravilhoso para entender como essas identidades ocupam o mundo e que faz você ver que não está sozinho.”
A produtora Ashé, fundada por Viola Davis, Julius Tennon e pelo brasileiro Maurício Mota, anunciou sua entrada como produtora executiva no thriller brasileiro ‘Cinco Tipos de Medo’, estrelada por Bella Campos e Xamã. O longa foi o grande vencedor do Festival de Gramado 2025, levando quatro prêmios Kikitos, incluindo o de Melhor Filme pelo Júri Oficial, além de concorrer ao Prêmio Grande Otelo nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Montagem de Ficção.
A chegada da Ashé reforça a estratégia de internacionalização do filme, que é uma produção da Plano B Filmes e da Druzina Content, em coprodução com a Quanta e distribuição da Downtown Filmes. Segundo Maurício Mota, este movimento confirma a visão do Grupo Reclaim de investir no soft power brasileiro e na potência de narrativas que nascem fora do eixo dominante do audiovisual do país, impulsionadas por roteiros, direções e atuações fortes.
Com os olhos voltados para o mercado estrangeiro e para a corrida ao Oscar, a Malin Entertainment assumiu a representação internacional do longa, liderando as estratégias de vendas e posicionamento global em parceria com a Ashé, o que inclui a promoção de sessões exclusivas em Los Angeles. O diretor Bruno Bini e a produtora Luciana Druzina celebram a recepção calorosa do público em festivais de cidades como Paris, Barcelona, Chicago e Havana, destacando que histórias profundamente brasileiras, quando contadas com verdade, identidade e excelência, têm a capacidade universal de tocar espectadores de qualquer lugar do mundo.
Essa conexão humana e intensa se reflete na trama do thriller, onde as vidas de cinco pessoas aparentemente desconectadas colidem em um caminho sem volta na Baixada Cuiabana. Segundo a sinopse oficial, “Murilo, um jovem músico em luto, se envolve com Marlene, enfermeira presa a um relacionamento abusivo com um traficante. Suas histórias se cruzam com as de Luciana, policial movida por vingança, e Ivan, advogado com intenções ocultas. Cinco vidas aparentemente desconectadas colidem num caminho sem volta.”
Se você gosta de teatro, de interpretação e do tipo de atuação que continua ecoando depois que a luz acende, existe um motivo para assistir “Ultimatum”: Valéria Monã e Orlando Caldeira.
Há espetáculos que se sustentam pela encenação. Outros pela dramaturgia. Em “Ultimatum”, o encontro desses dois atores cria um terceiro elemento: presença. Daquelas que reorganizam a atenção do público.
Montado a partir do último texto inédito de Domingos Oliveira e dirigido por Marcio Meirelles, o espetáculo trabalha num território exigente, onde ensaio, ficção, memória e realidade se cruzam continuamente. Não é uma peça que entrega respostas ou conduz o espectador pela mão. Exige escuta, disponibilidade e precisão dos intérpretes. E é justamente nesse terreno que Valéria Monã e Orlando Caldeira revelam a dimensão dos seus trabalhos.
Valéria Monã aparece como uma atriz que domina algo raro: maturidade de linguagem. Sua interpretação não busca impacto imediato nem excesso emocional. O que impressiona é o controle. A forma como administra ritmo, silêncio, escuta e deslocamentos internos da cena. Existe uma segurança construída por trajetória, mas sem acomodação. Ela não atua para confirmar experiência, atua para continuar investigando. E isso produz um efeito potente: o público não assiste apenas a uma personagem, acompanha uma atriz pensando e construindo em tempo real.
Em cena, Valéria lembra algo que o teatro brasileiro nem sempre reconheceu como deveria: atrizes negras não são apenas presença simbólica ou força narrativa. São também elaboração técnica, sofisticação interpretativa e pensamento cênico.
Orlando Caldeira entra por outro caminho e talvez aí esteja uma das grandes forças do espetáculo. Há nele uma qualidade muito difícil de encontrar: intensidade sem ansiedade. Orlando não disputa atenção nem força protagonismo. Trabalha a cena com inteligência, escuta e disponibilidade. Existe rigor no modo como ocupa o espaço e constrói relação com os parceiros. Sua atuação tem densidade sem rigidez e presença sem excesso.
Interpretando Breno e Manuel, Orlando demonstra domínio de mudança de registro, composição e condução dramática. Não existe caricatura nem marcação evidente. Existe um ator que entende que atuar não é exibir recurso, mas produzir sentido.
Ao lado de Valéria, o que surge não é um contraste geracional. É continuidade. Uma atriz que representa permanência, pesquisa e repertório encontra um ator que aponta caminhos de renovação sem romper com a tradição do ofício.
Também há mérito importante na direção de Marcio Meirelles, que evita transformar o último texto de Domingos Oliveira em homenagem estática. A montagem mantém a inquietação, a fragmentação e o caráter vivo que atravessam a escrita do autor.
Esta observação não ignora a qualidade do elenco de “Ultimatum”, que sustenta uma montagem complexa e exigente com alto nível de entrega. Mas, considerando o recorte editorial do Mundo Negro e seu compromisso histórico com a crítica e a visibilidade da produção artística negra, o foco em Valéria Monã e Orlando Caldeira é uma escolha consciente. Não para isolá-los do conjunto, e sim para reconhecer, com a atenção crítica que merecem, dois intérpretes que transformam presença em linguagem e reafirmam o lugar central de artistas negros na elaboração estética do teatro brasileiro contemporâneo.
A peça estará disponível até o dia 21 de junho, no teatro Sesc Arena de Copacabana. Sábado e domingo, às 18h.
Em um movimento de retorno às origens para curar o presente, incorporando o princípio ancestral de Sankofa, a intelectual Aza Njeri lança a obra ‘Somos Sol Vivo: ensaios radicais sobre experiências da Vida‘. No livro, a pesquisadora desenvolve o conceito de “Solaridade”, uma provocação para que a sociedade brasileira abandone as bases coloniais e reconstrua seu imaginário a partir da valorização comunitária.
Com uma narrativa fluida e emocionante, a doutora em Literaturas Africanas tece reflexões que entrelaçam sua própria história pessoal e familiar com análises críticas sobre o sistema sociopolítico global, a educação e as artes. O coração da obra bate no conceito de “Sol Vivo”, cunhado pela autora como um princípio essencial de vitalidade e responsabilidade coletiva. Em contraposição ao individualismo adoecedor do Ocidente, a Solaridade orienta os valores de convivência para uma perspectiva comunitária de existência, onde o brilho de cada indivíduo é nutrido pela coletividade.
Em suas redes sociais, a escritora celebrou a chegada da obra, que condensa uma longa trajetória de dedicação acadêmica e espiritual. “Esse livro é a reunião dos meus últimos sete anos de pesquisa, um trabalho aprofundado que perpassa as filosofias africanas, filosofias afrodiaspóricas, principalmente as de terreiro. Passa por um trabalho pelas artes, pensando música, literatura e cinema, e, principalmente, faz uma crítica ao mundo contemporâneo”, destaca a autora. “Essa obra é muito especial porque eu me dediquei durante muito tempo para pensá-la e estou muito feliz em saber que agora ela ganha o mundo para também acender outros sóis.”
Ao longo dos ensaios, Somos Sol Vivo se revela um verdadeiro tour de force. A autora utiliza a educação e a pesquisa como ferramentas inegociáveis de reparação histórica de populações marginalizadas. O livro apresenta ao leitor uma “gramática de resistência”, fortalecendo os debates contemporâneos sobre o letramento racial.
Para estruturar essa jornada, cada capítulo é conectado a um Adinkra—conjunto de símbolos visuais do povo Ashanti (Gana) que sintetiza provérbios, valores e conceitos filosóficos fundamentais. A obra ainda estabelece conexões profundas com as filosofias Bacongo e Ubuntu (“Eu sou porque nós somos”), mostrando como o apagamento da presença negra na constituição simbólica do país empobrece nossa compreensão de mundo.
A obra já está disponível para venda no site oficial da editora HarperCollins Brasil. Aza Njeri reforça o convite para que o público se reconecte com essas reflexões urgentes. “Venha conhecer esse meu novo trabalho, feito para acender o seu sol com muito respeito, e lembrar a todos, todas e todes que a nossa humanidade, ela é inegociável”, convida a escritora.
Aza Njeri é professora e pesquisadora de literaturas, culturas, artes e filosofias africanas e afro-diaspóricas. Integra o corpo docente da PUC-Rio, além de atuar como roteirista, crítica teatral e literária, e criadora de conteúdo no YouTube.