PowerList Mundo Negro 2025 (Foto: Divulgação/Mundo Negro)
A PowerList Mundo Negro 2026, principal premiação dedicada exclusivamente a mulheres negras no Brasil, entra em sua segunda fase. Em menos de duas semanas desde a abertura das indicações, no dia 12 de maio, mais de 3 mil votos foram registrados e mais de 850 mulheres negras de todas as regiões do país foram indicadas nas cinco categorias de voto popular, um resultado que confirma a premiação como o principal espaço de reconhecimento de mulheres negras no país.
Na primeira fase, a audiência indicou e autoindicou nomes em cinco frentes: Criadora Digital, Empreendedora do Ano, Profissional da Beleza, Destaque em Gastronomia e Profissional da Moda. A partir desse volume de indicações, a curadoria consolidou o Top 5 de cada categoria, as finalistas que agora disputam o reconhecimento na reta final.
“Pelo segundo ano colocamos nossa preciosa audiência para votar e indicar nomes de pessoas que talvez sem ela a gente nunca conheceria”, afirma Silvia Nascimento, CEO e Head de Conteúdo do Mundo Negro.
São elas:
Top 5 | Criadora Digital
Cynthia Mariah (@cynthiamariah)
Referência em moda afro-brasileira e afrofuturismo, a criadora digital usa suas plataformas para engajar, educar e fortalecer a identidade negra, transformando cultura e ancestralidade em experiências interativas e inspiradoras.
Cicih Lima (@misteriosdaluz)
Oraculista há 14 anos, enfermeira e educadora popular, ela é uma mulher negra periférica especialista em Saúde Pública. Idealizadora do Mistérios da Luz e do Ateliê Valioso Aroma, atua com letramento racial no combate ao Racismo Oracular, promovendo cuidado e espiritualidade inclusiva.
Palmira Tonet (@palmiratonet)
Influenciadora e enfermeira, a criadora compartilha rotina, saúde, beleza e lifestyle com leveza e autenticidade. O trabalho traz dicas, inspiração e um pouco da vida real.
Luciane Santos (@lu_blackstylist)
Funcionária pública, graduanda em Biologia, modelo e criadora de conteúdo, ela exalta o poder feminino e a beleza negra. Mãe solo e carioca, compartilha sua rotina real, treinos e autocuidado, inspirando o público a elevar a autoestima e quebrar padrões.
Sarah Fonseca (@sarahafonseca)
Começou na internet falando de corrida e, inquieta e apaixonada por inspirar, expandiu sua voz para a beleza e autoestima, principalmente através do quadro “Finaliza e Fala”. Hoje também assina sua marca de skincare, a Skin Quer.
Top 5 | Empreendedora do Ano
Fany Miranda (@fanymirandaoficial)
Fany é mãe, artista visual, ativista e CEO da Casa Empreendedora Hub. Preside a AME-PB, organizando a maior feira de empreendedorismo feminino do Nordeste. É apresentadora de rádio, tem sua história no acervo do Museu da Pessoa e criou o 1º Ateliê LGBTQIAPN+ no sistema prisional do Brasil.
Ednusa Ribeiro (@ednusaribeiro)
Mulher preta em movimento, palestrante, produtora de conhecimento, articuladora em políticas públicas e no empreendedorismo preto.
Geovana Lima (@geolima_)
Fundadora do Entre Pretas, uma comunidade que conecta mais de 5 mil mulheres pretas. Cria espaços de pertencimento, impacto cultural e bem-estar, fortalecendo e impulsionando mulheres negras em todo o Brasil.
Elayne Almeida (@lacreafro)
Empreendedora no ramo da beleza, ela traduz autoestima, identidade e geração de renda através da beleza afro. Na sua atuação, une impacto social, ambiental, formação profissional e acolhimento, criando iniciativas que fortalecem futuras lideranças e valorizam a cultura preta.
Mariana Nunes (@soumariananunes)
Fundadora do Movimento Rosalina, defensora popular representando São Paulo e conselheira da Rede Agbara. Atua na liderança de iniciativas de empreendedorismo, impacto social e fortalecimento de mulheres negras e territórios periféricos, articulando redes e transformação social.
Top 5 | Profissional da Beleza
Dinaura França (@dinaurafrancabeauty)
Fundadora da Dinaura França Beauty, atua na área da beleza transformando autoestima através do design de sobrancelhas, maquiagem e estética facial. Acredita na beleza como ferramenta de acolhimento, confiança e representatividade.
Gleisi Souza (@glei__souza)
Especialista em cabelos com curvatura há 15 anos. Pioneira em Juiz de Fora com salão voltado exclusivamente para fios naturais. Transforma a autoestima através da saúde capilar, técnica, acolhimento e liberdade de assumir a própria textura.
Letícia Maria (@leticiamaria.imbali)
Terapeuta integrativa, esteticista e cofundadora da Imbali, ela dedica quase 20 anos ao cuidado da beleza, autoestima e bem-estar. Sua atuação humana une estética, saúde mental e terapias naturais através do toque e da escuta, defendendo que a verdadeira beleza floresce de dentro para fora.
Léia Abadia (@pretabrasileira)
Hairstylist, comunicadora e fundadora da Preta Brasileira, salão criado em 2010. Atua com corte, coloração, tratamentos, maquiagem, visagismo e tranças, unindo técnica, ancestralidade e inovação no fortalecimento da beleza negra.
Andreia Pires (@projetoraizes)
CEO do Projeto Raízes, ela une tranças e ancestralidade há mais de 20 anos na Zona Sul de SP. Ela transforma beleza em empoderamento e resgate cultural, movendo toda a sociedade na periferia.
Top 5 | Destaque em Gastronomia
Tayná Passos (@taynapassosoficial)
Pernambucana, nordestina e afrodiaspórica, ela fundou a Dùn Ajeun com o propósito de colocar a cultura alimentar negra de Pernambuco no centro que ela sempre mereceu. Para Tayná, cozinhar é afirmação, é autonomia, é a preservação viva de tudo que as culturas negras construíram e seguem construindo.
Saint Clair Cezar (@saintclaircezar)
Chef e educadora baiana à frente do Saint Clair Aromas e Afetos, ela soma 13 anos na gastronomia. Já cozinhou para o presidente Lula, Djavan e Guns N’ Roses. Ex-instrutora do Senac, une culinária e formação humana em palestras, produtos digitais, além de escrever sua autobiografia.
Luiza Felix (@felixluiza)
Cozinheira, pós graduanda em gastronomia e nutrição, geógrafa, pesquisadora alimentar e dona do Malawi Vegetariano, criando e recriando pratos à base de plantas a partir de uma perspectiva ancestral e afetiva.
Chef Cacau Alves (@ajeumdapreta)
À frente do Ajeum da Preta, a chef valoriza a culinária de terreiro como expressão ancestral e política. Cria releituras que desmistificam o candomblé, levando essa potência para eventos corporativos e sociais, além de atuar como personal chef, palestrante e facilitadora de oficinas.
Chef Priscila Novaes (@kitandadasminas)
Chef, empresária e Ìyábase, Priscila foca na gastronomia afro-brasileira e ancestralidade. É dona da Kitanda das Minas e CEO da Kitanda Café, na Biblioteca Mário de Andrade (SP). Autora do livro “Ajeum – O Sabor das Deusas”, pesquisa mulheres negras e patrimônio imaterial.
Top 5 | Profissional da Moda
Cangaceira Futurista (@cangaceirafuturista)
Iniciativa das multiartistas baianas Heleonora Pinheiro e Iasmine Cristina, o projeto une moda e arte, celebrando raízes nordestinas. O espaço propõe o fortalecimento da comunidade por meio de oficinas de costura, customização, debates e produção de fashion films.
Mônica Sampaio (@monicasampaiosr)
Ex-engenheira eletricista no Exército Brasileiro, Mônica mudou de carreira aos 45 anos e criou a Santa Resistência, estreando no SPFW. Com moda ancestral, já vestiu artistas como Lázaro Ramos e Cris Vianna. Palestrante e mentora de empreendedorismo feminino, sustentabilidade e mudança de carreira.
Keila Vianna (@ateliekeilavianna)
Há 18 anos na moda e no setor têxtil, Keila vê o segmento como força de afirmação e impacto político. À frente de seu próprio ateliê, transformou o espaço em um legado de pesquisa sobre moda, cultura e arte, com o propósito de contar histórias ancestrais e contemporâneas através de suas criações.
Ana Carolina Golin Da Silva (@golinjoias)
Ex-enfermeira oncológica, Carolina começou em uma nova carreira depois dos 30 anos. Descobriu na ourivesaria um hobby que virou profissão e criou sua própria marca, Golin Joias, com itens autorais e personalizados forjadas a mão.
Madá Negrif (@madanegrif)
Filha de costureira, Madá é graduada em Moda e fundadora da Negrif, marca afrocentrada de Salvador que une ancestralidade e resistência. Com duas lojas físicas e presença em seis estados, ela traduz a força da mulher preta desde os anos 2000 em peças autorais com foco em identidade e pertencimento.
Como votar
A votação final está aberta de 30 de maio a 22 de junho, totalmente online. Acesse powerlist.mundonegro.inf.br/votar, selecione a categoria, escolha a candidata, informe seu e-mail e confirme. Cada pessoa pode registrar um voto por categoria. As homenageadas serão celebradas na cerimônia presencial do dia 31 de julho, dentro do Julho das Pretas Latino-Americanas e Caribenhas, na sede da L’Oréal Brasil, no Rio de Janeiro.
A 5ª edição da PowerList Mundo Negro tem patrocínio do Grupo L’Oréal e da Globo.
Ernesto Xavier cresceu dentro de um terreiro. Aos oito anos, foi iniciado como Ogã de Oyá. Essa experiência atravessa tudo que ele escreve, pesquisa e fala. Em Na trilha dos orixás: sabedoria ancestral e caminhos de axé no mundo contemporâneo, lançado pela Editora Goya, selo de não ficção da Aleph, o jornalista, ator, roteirista e mestre em Antropologia pela UFF parte da mitologia dos orixás para falar do que é mais cotidiano e urgente: amor, poder feminino, masculinidades, saúde física e mental, perda e luto. Um livro que recusa o exotismo e reposiciona as tradições de matriz africana como sistemas de pensamento vivos, complexos e profundamente conectados à vida de hoje.
Em entrevista ao Mundo Negro, Xavier fala sobre os riscos do espiritualismo de vitrine nas redes sociais, sobre o orixá que atravessa sua história de forma mais pessoal e sobre o que significa escrever a partir de quem aprendeu desde criança que a ancestralidade não ficou no passado.
RELIGIÃO NÃO É TENDÊNCIA
O bem-estar virou mercado. E as religiões de matriz africana entraram nesse circuito. Para Xavier, isso exige atenção. “As religiões de matriz africana não devem ser uma tendência de bem-estar, porque não é um produto, não é um atalho social, não é uma estética para rede social. É uma tradição, é um senso de comunidade, é um fundamento. Tem muita responsabilidade.”
Ele reconhece o papel das redes na divulgação e no combate ao preconceito, mas aponta o risco da superficialidade. “Às vezes tudo acaba virando conteúdo, tudo vira promessa, uma evolução rápida, às vezes vira muita performance. Isso é muito perigoso. As religiões de matriz africana não funcionam desse jeito. Elas são construídas no tempo, na convivência, no chão de terreiro, no respeito aos mais velhos, na escuta, no cuidado, no compromisso.”
Para saber em quem confiar, ele propõe um olhar atento à postura de quem fala. “Essa pessoa respeita a tradição? Ela tem vínculo com uma casa? Ela reconhece os seus limites como um ser humano que erra? Ela fala com responsabilidade? Ela não transforma orixá em mercadoria? Ela promete uma cura milagrosa, uma salvação imediata, uma solução mágica para os problemas?” São sinais de alerta, diz ele. E vai além: “Religião de matriz africana não pode ser usada para manipular, ameaçar, explorar ninguém. Tem vídeos que mostram esse tipo de atitude. Isso me preocupa demais. Porque o axé é força, mas ele também é ética.”
Capa da obra: Na trilha dos orixás de Ernesto Xavier – Foto: Divulgação
A confiança, para Xavier, se constrói no tempo. “Com a trajetória que aquela pessoa está mostrando, se ela tem coerência, se ela tem esse senso de comunidade, principalmente se ela tem respeito com os fundamentos. Essas tradições são muito profundas e sagradas. É muito difícil você colocar tudo isso em vídeos de poucos segundos.”
OYÁ, A FORÇA QUE NÃO DEIXA A VIDA ENDURECER
Entre todos os orixás que aparecem no livro, há um que carrega um peso diferente para o autor. “Tenho um carinho muito especial por Oiá, que também conhecem como Inhansã, e não tem como ser diferente, porque a minha história passa por ela de uma maneira muito profunda. Minha avó Chica Xavier era uma mulher de Oiá, minha irmã Luana Xavier é uma mulher de Oiá, e eu fui iniciado ainda criança, com oito anos de idade, com o Ogã de Oiá.”
Para Xavier, Oiá fala diretamente com o presente. “É uma força que me lembra que a vida não é parada, que eu preciso aprender a atravessar as mudanças, as perdas, as rupturas, ter muitos renascimentos. Isso para mim é muito contemporâneo.” Ele a descreve como “essa força ancestral que não deixa a vida endurecer. Ela se desloca, ela sacode, ela abre caminho. Ao mesmo tempo, uma força ligada à coragem diante da morte, diante do invisível, diante daquilo que muita gente prefere não encarar.”
Essa visão também define o livro. “As histórias dos orixás não são histórias distantes da gente, elas não estão presas no passado. Elas continuam falando com a gente agora. Ali se fala muito de amor, de poder, de medo, de cuidado, de comunidade, luto, saúde, desejo, pertencimento.” E conclui: “Oiá especialmente me ensina, e eu tento trazer isso nas páginas do livro, que a transformação é um axé poderosíssimo. Mudar pode ser doloroso, mas também pode ser libertador.”
Na trilha dos orixás: sabedoria ancestral e caminhos de axé no mundo contemporâneo, de Ernesto Xavier, está disponível nas livrarias pelo preço de capa de R$ 54,90. Publicado pela Editora Goya, selo de não ficção da Aleph.
Entrevista realizada por Silvia Nascimento, Head de Conteúdo do Mundo Negro.
A estudante do último semestre de odontologia da Universidade Veiga de Almeida (UVA), Ariane Moura Reis, entrou na Justiça contra a instituição após se tornar alvo de um processo administrativo disciplinar que pode resultar em sua expulsão do curso. A defesa da estudante acusa a instituição de ensino de conduzir o procedimento em sigilo, sem oferecer a garantia de acesso integral aos autos e sem assegurar plenamente seu direito à ampla defesa.
Ariane conquistou visibilidade nacional ao lançar um guia sobre antirracismo na odontologia, ao lado de outros profissionais da área, denunciando práticas discriminatórias historicamente naturalizadas e presentes diariamente no atendimento clínico e no ambiente acadêmico, como falhas no acolhimento de pessoas negras nos serviços de saúde e desigualdades estruturais na formação universitária.
Devido a veloz repercussão do material, a aluna começou a participar de diversas palestras e encontros em universidades e espaços acadêmicos ao redor do Brasil. Segundo a defesa, a situação teria se agravado após Ariane ser apresentada equivocadamente como “doutora” em um material de divulgação de um evento da UERJ.
Após o ocorrido, a universidade decidiu pela instauração de processo administrativo disciplinar, determinando o afastamento cautelar da estudante.No mandado de segurança protocolado, os advogados defendem que Ariane foi submetida a um processo conduzido “sob manifesta clandestinidade”, sem acesso integral aos documentos e sem a real possibilidade de exercer o contraditório e a ampla defesa. A ação pede a suspensão imediata do PAD, a nulidade dos atos já praticados e a aplicação do Protocolo para Julgamento com Perspectiva Racial.
A defesa também destaca que devido ao processo, a estudante, que está prestes a concluir a graduação, corre o risco de perder os últimos cinco anos de formação acadêmica, tendo assim, que enfrentar danos em sua carreira e reputação.
O advogado Hédio Silva Jr., descreve o caso como uma prática discriminatória velada dentro do ambiente acadêmico. “Ariane está sendo punida não por um fato concreto de gravidade, mas porque ousou produzir conhecimento antirracista, conquistar reconhecimento público e ocupar espaços historicamente negados à população negra”, afirmou.
Em nota pública à imprensa, a Universidade Veiga de Almeida apresentou uma versão diferente do caso alegando ter recebido comunicação formal da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro acusando a estudante, estagiária da rede municipal, de estar se apresentando nas redes sociais como dentista formada e cirurgiã-dentista antes da conclusão da graduação e sem registro profissional. Segundo a UVA, a estudante ainda pode recorrer ao Conselho Superior Universitário para revisão da decisão com direito à ampla defesa e ao contraditório durante toda a tramitação.
Se você é um criador de conteúdo negro e quer levar o seu perfil para o próximo nível, esta pode ser uma excelente oportunidade. O Grupo L’Oréal no Brasil anunciou a terceira edição do Beleza Mais Diversa, programa de aceleração voltado à formação e inclusão de creators negros no mercado de influência digital. Com inscrições abertas a partir deste dia 29 de maio, a iniciativa pretende impactar até 15 mil criadores por meio de uma jornada gratuita de capacitação entre julho e novembro de 2026.
O programa selecionará 10 participantes para contratos de um ano com o Grupo L’Oréal no Brasil, entre janeiro e dezembro de 2027, com possibilidade de atuação em campanhas e projetos das marcas da companhia. As inscrições já estão abertas e para participar, os candidatos precisam ter uma conta pública ativa no Tik Tok, serem maiores de 18 anos, residentes em qualquer região do território nacional e se autodeclararem negros (pretos ou pardos).
A terceira edição amplia a iniciativa, que passa a construir, além de um ecossistema mais plural, representativo e economicamente inclusivo para creators negros, uma plataforma estruturada de desenvolvimento profissional dentro da economia criativa.
“Estamos entrando em uma nova etapa do Beleza Mais Diversa, com foco ainda maior em legado e transformação concreta. Queremos colaborar para a construção de um novo mapa de creators negros no Brasil, ampliando acesso, formação e oportunidades reais de crescimento profissional dentro da economia criativa”, afirma Loana Coelho, Diretora de Marketing Digital, Influência e CRM do Grupo L’Oréal no Brasil.
Integrado à plataforma L’Oréalistar, o Beleza Mais Diversa irá promover lives conduzidas por especialistas, missões gamificadas de conteúdo e acompanhamento contínuo da participação dos inscritos ao longo do processo seletivo. A creator Carolinne Gonçalves, conhecida nas redes sociais como @carolinnega, onde conta com mais de 600 mil seguidores, integrou a primeira turma do projeto e destaca a importância da iniciativa em sua trajetória profissional.
“Participar do Beleza Mais Diversa me trouxe uma musculatura essencial para a construção e crescimento do meu perfil. Vejo essa iniciativa como uma excelente porta de entrada para o meio da criação de conteúdo, e é muito importante ser um programa voltado para pessoas negras. Promover a diversidade no mercado de influência é necessário”, comenta.
Em alinhamento ao pilar de representatividade da iniciativa, todos os facilitadores, convidados e profissionais envolvidos na formação do Beleza Mais Diversa serão pessoas negras, com o objetivo de fortalecer ferramentas de inclusão profissional e promover oportunidades concretas de trabalho, consolidando o programa como uma das principais iniciativas voltadas à presença de creators negros no mercado brasileiro de influência digital.
Para se inscrever e saber mais informações sobre o programa, acesse o site: https://cloud.mail-br.lorealistar.com/beleza_mais_diversa_2026
A escritora, psicanalista e educadora Janine Rodrigues lança, em 31 de maio, o livro “Por que não existe flor preta?”, obra infantil que utiliza ciência, ancestralidade e imaginação como estopim para dialogar sobre as raízes do racismo estrutural e fortalecer a autoestima de crianças negras. O lançamento oficial acontece na Casa Cosmos, em São Paulo, pela Piraporiando, editora fundada pela própria autora e dedicada a temas relacionados à educação antirracista e às relações étnico-raciais.
A narrativa parte de uma pergunta feita pela autora ainda na infância: “Por que não existe flor preta?”. A partir desse questionamento, a história é construída em torno do diálogo entre uma criança e sua avó, conectando explicações biológicas e reflexões sobre identidade e beleza negra de forma sensível ao público infantil.
Do ponto de vista científico, a ausência de flores pretas está relacionada à inexistência de pigmentos naturais capazes de produzir essa tonalidade e à dinâmica da polinização, que depende da visibilidade das cores para atrair insetos e aves. Porém, no livro, essa explicação também funciona como ponto de partida para levantar questionamentos acerca de associações históricas que vinculam o preto à ausência, ao vazio ou à negatividade.
“A ausência de flores pretas tem uma explicação biológica simples. A justificativa de não entender um fenômeno não é premissa para pensar ou agir de forma preconceituosa. Estes danos atravessam gerações, e precisamos investir continuamente no cuidado com crianças negras, para que elas construam sobre si mesmas boas memórias”, afirma Janine.
A literatura combina dimensão educativa e simbólica ao transformar a ausência das flores pretas em uma metáfora sobre presença e resistência. Em uma das imagens do livro, as flores não desaparecem, mas se reinventam livres para cantar, falar, circular e existir de outras maneiras. O conceito também dialoga com o projeto gráfico desenvolvido inteiramente em preto e branco, com ilustrações da artista francesa Anne Muanaw.
O lançamento acontece em um momento crucial para a literatura infantil brasileira no debate sobre representatividade racial. Embora pessoas negras sejam maioria no Brasil, personagens negros ainda ocupam poucos espaços como protagonistas em livros voltados à infância.
Segundo Janine, o livro foi pensado para ser compartilhado entre adultos e crianças como ferramenta de escuta e reflexão coletiva. “Eu não quis escrever um livro que desse respostas prontas. Quis escrever um livro que sustentasse a pergunta, porque é a partir daí que começamos a revisar aquilo que parecia óbvio, independente da idade que possamos ter”, finaliza.
Trabalhar seis dias para descansar um. Para milhões de brasileiros, essa é a matemática da vida. Para as mulheres, a conta ainda não fecha: quando termina o turno, começa a outra jornada, a dos filhos, dos idosos, dos doentes, das tarefas que ninguém contabiliza. “Além da jornada de trabalho, elas têm a jornada do cuidado, que é o cuidado com a família, com os filhos, com os idosos, com os doentes, e além de tudo, a pressão social para ser perfeita, para dar certo, para dar conta de tudo”, afirma Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora.
“Nunca na história os trabalhadores estiveram tão adoecidos mentalmente”, diz Fontes. E dentro desse quadro, ela destaca um recorte que considera urgente: o das mulheres. Pesquisas da Rede Mulher Empreendedora apontam que 70% delas relatam alguma questão relacionada à saúde mental. “Isso tudo tem uma pressão muito forte”, afirma.
Na escala 6×1, esse acúmulo se torna ainda mais pesado. “A pessoa trabalha 6×1 e só sobra o domingo para poder fazer alguma coisa”, diz. Menos tempo livre significa menos espaço para dividir tarefas, menos espaço para descansar, menos espaço para cuidar de si.
Para Fontes, a mudança na jornada pode romper esse ciclo. “Tenho certeza que isso vai criar um ciclo positivo: vai ajudar as questões de saúde mental do próprio empreendedor, das mulheres, dos colaboradores. Não dá para viver numa sociedade onde é só o trabalho.”
O QUE MUDA PARA O PEQUENO EMPREENDEDOR
Na terça-feira, 28 de maio, a Câmara dos Deputados aprovou o fim da escala 6×1. O projeto, apresentado pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP) em parceria com o vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ), idealizador do Movimento Vida Além do Trabalho, substitui o modelo atual pelo 5×2 e reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas. O texto segue para o Senado Federal.
A aprovação dividiu opiniões. Empresários como Rony Meisler, fundador da Reserva, alertam para o impacto direto no pequeno negócio: “A conta vai chegar para os donos de pequena empresa, que terão que contratar para cobrir os turnos, pagar hora extra ou demitir.” Para Fontes, a leitura é outra. “Toda mudança gera questionamentos. Acredito que este seja um momento histórico e que os empresários vão encontrar caminhos e novos modelos, porque existe saída”, diz. Para ela, o aumento de preços ao consumidor não é inevitável. “Isso é possível sem necessariamente gerar um impacto final para o consumidor, desde que haja disposição para pensar em outras soluções.”
Fontes fala da própria experiência. Na Rede Mulher Empreendedora, o modelo já é 5×2, com duas horas a menos às sextas-feiras, e a equipe opera em formato híbrido, três dias presenciais e dois em casa. “Isso não diminuiu em nada a nossa produtividade, a nossa participação no mercado. Tudo conseguiu funcionar”, afirma.
Ela reconhece que a transição não é simples, mas rejeita o que chama de “histeria coletiva”. “O importante é cada empreendedor olhar para a sua realidade e, dentro dela, fazer conta, prestar atenção, ver o que pode fazer de melhor, pensar em bonificações para os colaboradores.” O argumento central é que colaborador bem e descansado produz mais. “Se o colaborador está bem, está feliz, está conseguindo trabalhar, o negócio vai melhor, a produtividade vai melhor e isso vai fazer bem para todo mundo, para a sociedade, para o trabalhador, para o próprio pequeno negócio.”
Ela lembra ainda que o Brasil discute o primeiro estágio da transição enquanto outros países já estudam o modelo 4×3. “Existem estudos no mundo inteiro falando na redução do 4×3. A gente está discutindo ainda o primeiro estágio, que é o 5×2, quando existem países já discutindo o 4×3.”
“O trabalho é uma parte fundamental da nossa vida, mas a gente precisa ter também tempo para descanso, para convivência com a família e para cuidar de si próprio”, conclui Fontes.
Entrevista realizada por Silvia Nascimento, Head de Conteúdo do Mundo Negro.
O ator britânico Idris Elba retorna ao universo das grandes franquias de fantasia e ação ao interpretar Duncan, também conhecido como Mentor ou Homem-de-Armas, no live-action de “Mestres do Universo”, da Amazon MGM Studios. Após já ter sido confirmado anteriormente no papel, o artista voltou a comentar recentemente sobre o personagem durante a estreia do longa em Los Angeles, reforçando sua conexão com personagens que concedem proteção, liderança e demonstram experiência ao longo de sua trajetória no cinema.
Em entrevista à revista People, Elba afirmou ter se divertido ao construir sua própria versão do personagem. “Interpretar Duncan e transformá-lo, fazê-lo parecer comigo, foi um verdadeiro prazer. Pude ser um pouco cômico e exagerado, então me joguei de cabeça”, declarou o ator, que também comentou sobre o preparo físico exigido pelo papel. “Preciso me manter em forma para poder correr e dar socos.”
A escolha de Idris Elba para o papel traz à tona uma característica frequente em sua filmografia de personagens marcados pela sabedoria, proteção e liderança espiritual. Em “Thor”, o ator viveu Heimdall, guardião ancestral de Asgard e uma das figuras mais respeitadas do universo da Marvel. Já em “Era Uma Vez um Gênio”, interpretou um Djinn atravessado por séculos de conhecimento e profundidade emocional. Em “Mogli”, deu voz a Bagheera, personagem protetor e responsável por conduzir o protagonista em uma jornada de amadurecimento e descoberta.
Elba interpreta uma figura sábia de um veterano guerreiro responsável por guiar o Príncipe Adam em sua jornada como He-Man. Durante a entrevista, o ator também revelou sua relação afetiva com “Mestres do Universo”, franquia que o acompanhou durante toda a infância. “Era algo que eu assistia muito quando criança”, afirmou.
Dirigido por Travis Knight, o longa chega aos cinemas brasileiros no dia 4 de junho e acompanha uma nova adaptação do clássico lançado originalmente em 1987.
Foto: luksmont · Produção: Gabrielly Ferraz · Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́
Em Niterói, um casal negro ocupa um casarão tombado do século XIX e cria enfim o álbum de família que nunca existiu. Conversamos com Gabrielly Ferraz, pesquisadora e idealizadora do projeto, e Pedro Melodia, músico, criador de conteúdo e parceiro nessa construção, sobre memória, afeto e o direito à imagem.
“Muitas histórias importam. Histórias têm sido usadas para expropriar e ressaltar o mal. Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida.” Chimamanda N. Adichie. O perigo de uma história única. (2019)
Quando se procura por pessoas negras no arquivo fotográfico brasileiro do século XIX, o que se encontra majoritariamente são corpos violentados, registros de exotização e os chamados “tipos negros” vendidos como souvenirs para europeus em viagem pelo Brasil. Existe a ausência de retratos afetuosos de famílias negras no cotidiano, de poses serenas e olhares altivos porque esses registros foram durante décadas privilégio quase exclusivo de corpos brancos. É como uma resposta à ausência desses arquivos que nasce ‘Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́’, ensaio fotográfico e audiovisual idealizado pela jornalista e pesquisadora Gabrielly Ferraz em parceria com o creator Pedro Melodia, a produtora INCria e o fotografo Luks Mota.
Para entender a urgência desse gesto, é preciso lembrar de algo fundamental: toda narrativa é uma escolha. Alguém decide o que contar, como contar e quem aparece nessa história. No caso das narrativas visuais, a dignidade registrada nas pinturas e nas fotografias no Brasil do século XIX era um privilégio que não cabia para pessoas negras. A construção das narrativas negras que foram divulgadas e perpetuadas nunca foram neutras, essas imagens rebaixam a identidade racial, danifica a autoestima, culpa as pessoas negras pela discriminação que sofrem e, por fim, justifica as desigualdades raciais como se fossem algo somente do passado, embora corpos negros sofram as consequências disso até hoje.
A ideia de trabalhar as reconstruções das narrativas negras a partir da fotografia vem para posicionar o corpo negro em outro lugar, uma vez que esses corpos por muito tempo foram objetos de um olhar que nunca os admirou. Justamente para valorizar essas pessoas afetadas por anos de representações negativas e colaborar para o enfraquecimento dessa construção já consolidada de um imaginário negro negativo é que foi pensado o projeto Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́.
Gravado no Solar do Jambeiro, casarão tombado de Niterói que abrigou famílias brancas abastadas no século XIX, o projeto propõe um exercício de imaginação histórica: e se existissem álbuns de família pretos daquela época, com a mesma elegância, a mesma luz trabalhada, o mesmo cuidado com a pose? O nome do projeto vem do Yorùbá, Àtúnṣe significa corrigir, emendar, reconfigurar; Ìtàn Àtijọ́ significa a história antiga e funciona como uma espécie de declaração de intenções: é hora de reescrever o que ficou registrado e criar o que não existiu pois nos foi retirado.
Em conversa exclusiva para o Mundo Negro, Gabrielly Ferraz e Pedro Melodia falam sobre o que move o projeto, o que ainda dói no arquivo brasileiro e o que significa ocupar, em pleno século XXI, um espaço de elegância que historicamente não foi feito pra acolher corpos como os nossos.
Além da fotografia, o papel da moda nesse projeto:
A escolha do figurino para este ensaio não foi aleatória, a Gaby vestiu uma criação de Mônica Anjos, estilista baiana que há 25 anos desenvolve peças carregadas de histórias, e como ela mesma define a sua obra: “Não é apenas uma roupa, é um projeto afetivo de resgate identitário preto.”
Os acessórios complementam muito essa narrativa: brincos grandes, anéis volumosos, o maximalismo presente em acessórios para o cabelo e corpo fazem parte de uma memória visual de artes que retratam reis e rainhas de Kemet, que são figuras da Antiguidade africana, uma civilização muito mais antiga do que a escravidão moderna nas Américas. E essa extravagância a partir dos acessórios, realçando a beleza nos lembra que a história negra não começa na escravidão, mas em reinos, lugar de conhecimento, poder e cultura.
Para adentrar mais sobre a construção desse material e entender todas as conexões e histórias que desencadearam essa ideia, conversamos com os modelos e a idealizadora do Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́ que reforça que o projeto significa além de uma produção para as redes sociais, se estende para algo que quer no seu cotidiano, fotos que vão ocupar as paredes de sua casa e um debate que será levantado também no ambiente acadêmico.
Sobre a origem do projeto
1. De onde vem a ideia do Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́? O que te levou a pensar nesse projeto especificamente?
GABRIELLY FERRAZ — A ideia nasceu de uma falta muito específica que eu fui percebendo na minha própria vida, eu sinto que cresci com pouco repertório cultural que vinham de pessoas negras, meus pais tiveram acesso mas nos anos da minha criação ficou cada vez mais forte a inserção da religião evangélica, nos limitando ao consumo do que pertencia somente a religião. E eu demorei pra entender que isso não era uma falha minha ou da minha família, mas era também o resultado de um projeto: a música preta, a literatura preta, a arte feita por pessoas pretas, essas histórias passam por esse processo de apagamento mesmo e juntando ao preconceito e demonização do que vem do negro era muita dificuldade para chegar até a gente. Então comecei a buscar essas referências de forma independente, atrás dos rastros, sobre quem esteve antes de nós, perguntando aos mais velhos da minha família, ouvindo eles. E foi aí que eu comecei a sentir falta de uma coisa muito específica, conforme minhas avós iam contando a história delas e eu ia imaginando a cena, eu senti falta de registros desse momento afetuoso, né? Da intimidade entre pessoas negras, eu queria ver vídeos da minha avó nesses momentos de lazer rindo com as amigas, queria uma foto da minha bisavó comendo com a família num domingo qualquer, porque a minha avó sempre disse que ela era uma cozinheira de mão cheia. E esses momentos simples do cotidiano não eram registrados, né? Essas famílias não tinham esses recursos, quem tinha eram pessoas brancas e pra eles não era interessante registrar preto sendo feliz.
2. Você fala de um “silêncio do arquivo”. Como isso aparece concretamente na sua história familiar?
GABRIELLY FERRAZ — Os avós das minhas avós tinham conhecidos próximos que eram pessoas escravizadas, minha avó me contou das mulheres que ela via com “altos turbantes, com um negócio no tornozelo” [sic], pessoas negra sem documento, sem retrato, sem nenhum registro que dissesse “aqui ela esteve, aqui ela amou, aqui ela viveu” ainda assim eu sei que isso aconteceu nas condições possíveis, porque o povo preto sempre soube resistir, né? Existiram poucos momentos bons na vida dessas pessoas, porque pelo que ouvimos dos mais velhos pessoas pretas sempre acharam frestas pra construir arte, afeto e alegria, mesmo nos espaços onde isso era proibido. Quando a minha avó me conta essas histórias eu até consigo imaginar, mas imaginar não é o mesmo que ver, e foi esse incômodo que virou ponto de partida pro projeto.
3. Ao ter conhecimento da ideia, o que te atravessou de imediato? Por que aceitar entrar no projeto?
PEDRO MELODIA — Não tinha como não aceitar participar, um conteúdo altamente relevante, que honra nosso passado e nossos ancestrais. Principalmente por todo o apagamento histórico, poder trazer isso pros pretinhos e pretinhas que nos seguem é algo que faz com que eu sinta que estou seguindo o caminho certo, que é de informar, mostrar, e fazer sentir.
O arquivo que não nos incluiu:
4. Você está pesquisando isso academicamente também, certo? Que autores e referências sustentam essa leitura crítica do arquivo fotográfico brasileiro?
GABRIELLY FERRAZ — Sim, esse é o projeto que eu quero continuar pesquisando no mestrado em Mídia e Cotidiano. Quando a gente olha pra fotografia brasileira do século XIX, encontra fotógrafos europeus como Christiano Junior, Alberto Henschel e Augusto Stahl, que comercializavam imagens de pessoas escravizadas como souvenirs para estrangeiros, o anúncio do Christiano Junior por exemplo no Almanaque Laemmert de 1866 falava em “variada colleção de costumes e typos de pretos” registros que seriam ideais para pessoas que estavam indo pra Europa. Os “registros do cotidiano brasileiro”, já apareciam nesse formato de dominação e da dor. Frantz Fanon escreveu que a principal arma dos colonizadores era a imposição da imagem do colonizado sobre o povo subjugado, então era proposital não registrar pessoas negras em momentos leves e fazer milhares de fotos e pinturas desses corpos sofrendo violência. Aí quando a gente lê bell hooks, em Olhares Negros: Raça e Representação, ela afirma que é fundamental que pessoas negras se apropriem das imagens que as representam, reconfigurando-as pra romper com as visões coloniais. O Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́ é pegar essa informação do Fanon e colocar em prática o que a bell disse.
5. A câmera fotográfica era cara, era um privilégio econômico, mas você sugere que o privilégio não era só material. Como assim?
GABRIELLY FERRAZ — A câmera era um privilégio de quem tinha condições financeiras, mas era também um privilégio muito simbólico. Ter a pose elegante, as roupas bem costuradas, o olhar altivo do retrato formal, tudo isso aparecia como exclusividade de corpos brancos, e a dignidade era registrada no papel e foi eternizada, emoldurada e a gente vê nos museus e centro culturais até hoje. A pessoa que ocupava esse espaço tinha o privilégio de pertencer, né? Essa ideia de pertencimento que foi construída sem nós. O que sobra do arquivo da minha família e da família de tanta gente preta mais velha é um vazio, só a lembrança que felizmente minha vó traz tantos detalhes no seu relato que nossa mente nos permite imaginar. Mas esse vazio também ensina, essa falta ela diz que aquele lugar de elegância, de momento em família registrado para perpetuar um sobrenome, não era nosso.
6. Você trabalha com imagem e conteúdo nas redes. Como você enxerga essa relação entre representação visual e construção do imaginário sobre pessoas negras hoje?
PEDRO MELODIA — A representação sempre foi muito importante para nós pessoas pretas, que no dia a dia dificilmente nos enxergamos em alguns lugares. Hoje em dia eu faço questão de mostrar as coisas boas que o trabalho na internet me proporciona, lugares que tenho ocupado que nunca imaginei ocupar. Gosto de contribuir positivamente para o imaginário dos meus seguidores, que são em sua maioria pessoas negras. Já mostrei muito e ainda mostro a correria do dia a dia, mas não quero reforçar só isso, porque de representação de correia já estamos cheios. Eu quero que as pessoas vejam que esses lugares também pertencem a nós.
O QUE SOBROU NO ARQUIVO | Brasiliana Fotográfica
Um exercício simples basta pra dimensionar a crítica do projeto: basta buscar por “escravo”, “escrava” ou “negro” no portal Brasiliana Fotográfica, iniciativa da Fundação Biblioteca Nacional e do Instituto Moreira Salles, lançada em 2015, que hoje reúne cerca de 11,6 mil imagens dos séculos XIX e XX. O resultado é uma coleção vasta de pessoas negras registradas como mercadoria ou força de trabalho, raramente como sujeitos de seus próprios retratos. A grande maioria aparece até mesmo como “negro não identificado”.
Christiano Junior produziu, entre 1864 e 1866, uma série de cartes-de-visite catalogadas por origem africana “Escravo – Moçambique”, “Escravo – Congo”, “Escrava – Mina”, “Escravo – Quelimane”, “Escravo – Inhambane” —, em que homens e mulheres aparecem sem nome, frequentemente sem roupa da cintura pra cima, enquadrados como em uma foto 3×4. Alberto Henschel, em estúdios de Pernambuco e da Bahia por volta de 1869, registrou “Mulher negra da Bahia”, “Retrato – Negra de Pernambuco”, “Retrato – Cafuza”, “Retrato – mulher negra não identificada” categorias que reduzem pessoas a marcadores raciais e regionais. João Goston registra, por volta de 1870, uma “Escrava doméstica” em pose de senhora, sentada em poltrona, mas com a legenda reforçando seu lugar social. Marc Ferrez fotografa, em 1882, a “Colheita de café” no Vale do Paraíba, e a “Fazenda Monte Café” em 1885 paisagens em que pessoas negras aparecem na posição de trabalho. Felipe Augusto Fidanza, no Pará por volta de 1869, registra um “Homem negro – possivelmente escravizado – carregando cesto”, com o rosto encoberto pela carga. Uma fotografia anônima de Salvador, c. 1860, mostra uma senhora branca sentada em liteira sustentada por dois homens negros ela centralizada, eles sustentando a cena com o corpo.
Esses são os registros que sobraram. São os retratos que viraram referência histórica, que aparecem em livros didáticos em que crianças constroem seus repertórios visuais do negro, que ilustram exposições sobre o século XIX brasileiro. Não tem, até hoje, um acervo com retratos de famílias negras posando em afeto, em elegância cotidiana até porque a formação de famílias também era um privilégio branco. É contra esse silêncio do arquivo que o Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́ se constrói, se existem registros de negros em posições subalternas, a ausência de registros de negros em cenários leves foi um projeto bem articulado.
Christiano Junior. [Escravos], [1864-1866]. Rio de Janeiro, RJ / Acervo Biblioteca Nacional. Reprodução: Brasiliana Fotográfica (brasilianafotografica.bn.gov.br).Christiano Junior. Escravo – Moçambique, Escravo – Congo, Escrava – Mina, Escravo – Quelimane, Escravo – Inhambane (série), [1864-1865]. Rio de Janeiro, RJ / Acervo Museu Histórico Nacional. Reprodução: Brasiliana Fotográfica (brasilianafotografica.bn.gov.br).Alberto Henschel. Mulher negra da Bahia, Retrato – Negra de Pernambuco, Retrato – Cafuza (série), circa 1869. Bahia e Pernambuco / Acervo Instituto Moreira Salles. Reprodução: Brasiliana Fotográfica (brasilianafotografica.bn.gov.br).
Ocupar o Solar do Jambeiro
ENTENDA | O Solar do Jambeiro
Localizado no bairro de São Domingos, em Niterói, o Solar do Jambeiro — também conhecido como Palacete Bartholdy foi construído em 1872 pelo comerciante português Bento Joaquim Alves Pereira, Bento era um exemplar da arquitetura residencial urbana burguesa do século XIX, o casarão é revestido por um dos mais importantes acervos de azulejos portugueses do período no Brasil, com vidraças importadas do Porto e detalhes em madeira trabalhada. Pela casa passaram o médico Júlio Magalhães Calvet, o pintor Antônio Parreiras e, a partir de 1892, o diplomata dinamarquês Georg Christian Bartholdy, que mobiliou o sobrado com quadros, lustres, candelabros e porta-retratos europeus. Tombado pelo Iphan em 1974, foi desapropriado pela Prefeitura de Niterói em 1997 e reaberto ao público em 2001 como centro cultural vinculado à Fundação de Arte de Niterói. As paredes do Solar ainda hoje exibem registros fotográficos da elite branca que ocupou seus salões.
7. Por que escolher justamente o Solar do Jambeiro como locação do projeto?
GABRIELLY FERRAZ — Primeiramente porque atualmente eu moro em Niterói – RJ e consumo muito a agenda cultural da cidade, estou sempre visitando esses lugares. Mas pra entender a fundo essa escolha, a gente precisa pensar na história desse tipo de casarão. O Solar foi planejado em 1872, ainda dentro do período de escravidão, já que a Lei Áurea só aconteceu dezesseis anos depois, e o território de Niterói, assim como toda a região da Baía de Guanabara, ainda contava com forte presença de trabalho escravo. Os sobrados residenciais daquele período, no Rio de Janeiro e adjacências, eram sustentados majoritariamente por pessoas escravizadas, desde os domésticos aos urbanos e também os trabalhadores em relações de dependência. Quem tinha o passe para construir um palacete deste porte naquela época, tinha uma posição social muito bem definida: a do comerciante europeu abastado, parte da elite de diferentes áreas que tinham suas fortunas ligadas estruturalmente com a economia da escravidão. Não temos documentos que provem isso de fato, mas o contexto histórico nos permite entender pelo menos que pessoas negras não ocupavam esse espaço como um momento de lazer. E é justamente esse contexto que torna a escolha do Solar potente: ele é, hoje, patrimônio público tombado, restaurado e mantido como referência da elegância arquitetônica do século XIX brasileiro, mas é quase impossível separar a elegância do século XIX do trabalho preto que a sustentou. Escolher o Solar é colocar dois corpos negros em afeto justamente dentro de um espaço que historicamente os manteve fora do retrato que podia ser pendurado na parede. É um conceito que vem da nossa imaginação mesmo, um exercício de perguntar: e se? E se os avós dos meus avós tivessem tido a oportunidade de viver suas vidas plenas, e se existissem álbuns de família pretos do século XIX, com a mesma pose elegante, o mesmo olhar sereno, será que nossa relação com nós mesmos seria diferente?
8. A decisão de ocupar o Solar do Jambeiro também veio da ausência de iniciativas pensadas por e para pessoas negras dentro do próprio espaço. Como isso pesou na escolha?
GABRIELLY FERRAZ — Pesou muito. Quando a gente olha pra programação mais antiga de espaços como o Solar saraus, exposições, peças de teatro, recitais, encontra uma agenda culturalmente muito rica, mas com as referências quase exclusivamente da Europa, e quase nunca pensada por pessoas negras, com pessoas negras no centro, para pessoas negras. Não é um problema só desse espaço, é um padrão da época que se reproduz justamente porque a presença negra nesses lugares ainda é tratada como exceção em momentos específicos e não como parte da história que é contada ali. Ocupar o Solar com o Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́ é, também, abrir uma fresta: dizer que esse patrimônio é público, que ele foi mantido com dinheiro público, e que a gente tem direito não só de entrar, mas de criar dentro dele, com os nossos termos, com a nossa estética, com a nossa intenção política e que isso precisa virar prática constante, não evento isolado.
Como foi pra você, na prática, posar para as fotos naquele espaço? Teve algum momento durante o ensaio que te tocou de um jeito diferente?
PEDRO MELODIA — Foi um momento que com certeza vai ficar marcado, me senti pertencente daquilo que deveria ser meu ahhaah, do que eu posso ter e do que podemos ter. Um momento marcante foi o take de cuidado entre nós dois, eu ajeitando o afro puff dela e ela penteando o meu cabelo. O cabelo para pessoas pretas é algo muito sensível e pessoal e compartilhar isso com ela [Gaby] é incrível.
Escrevivência e o direito à imagem
10. Conceição Evaristo fala em escrevivência, uma escrita que parte da experiência negra e se recusa a adormecer a casa grande. Você diria que esse projeto pode ser uma forma de escrevivência. Como?
GABRIELLY FERRAZ — Conceição Evaristo pensa a escrevivência como um fenômeno diaspórico, uma escrita que não tá aí para agradar (adormecer) a casa grande e sim para incomodá-la. Pra acordá-los, porque estão descansando e tendo sonos injustos, às custas da exaustão e exploração de um povo, né? E eu venho pensando que a criação de conteúdo, os vídeos, as fotos também podem ser uma forma de escrevivência, produzir essas imagens hoje, com intenção, é reescrever as nossas vivências. Não pra fingir que o que sabemos não existiu, as imagens retratadas (as de violência) eram aquelas porque era o que acontecia, mas também porque queriam que fosse só aquilo. Mas pensando em abrir essa portinha no imaginário coletivo, pra que uma criança preta que crescer daqui a vinte anos possa olhar um retrato como esse e entender, sem precisar de explicação, que aquele lugar também é dela, que a elegância, o afeto entre um casal, a sala bem iluminada de um casarão antigo, tudo isso pode ser, e foi, e será, também território preto.
11. O que você espera que uma pessoa preta sinta ao ver essas imagens circularem nas redes?
PEDRO MELODIA — Espero que as pessoas se sintam representadas e que as pessoas conheçam mais sobre o afeto negro, sobre cuidado, prosperidade e sonhos… Espero que chegue especialmente em pessoas que não tem muitas referências que elas possam enxergar outras perspectivas.
O que fica:
12. Pra encerrar, se o Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́ pudesse deixar uma única coisa pra quem assistir, qual seria?
GABRIELLY FERRAZ — É possível criar. Os registros visuais do século XIX impactaram diretamente na forma como nós, pessoas negras nos vimos representadas, e isso atravessa o modo como a gente se posiciona hoje séculos depois, por isso é tão importante construir imagens nossas fora do lugar de dor e sofrimento, não porque a dor não existe, mas porque ela sempre foi retratada, mesmo nunca tendo sido a história toda. Eu gostaria muito de ter tido acesso a um registro dessas pessoas negras mais velhas rindo e em momentos de afeto, e como eu não vi, eu crio e quando a gente cria, o arquivo finalmente começa a se parecer com a gente.
13. E você, Pedro — o que esse projeto deixa em você?
PEDRO MELODIA — Deixa em mim a sensação de que nós deveríamos conhecer mais a história do nosso povo, a partir do momento que conhecemos mais, mais nós podemos informar e compartilhar com outras pessoas negras sobre nossa história e assim reforçamos que essa história não foi escrita só com dor, tem muito amor, afeto, muita arte e personalidade.
Artistas como Silvana Pinto Mendes, com suas afetocolagens que devolvem humanidade às representações de corpos negros, e Gê Viana, que em “Atualizações Traumáticas de Debret” (2020) ressignifica as cenas coloniais inserindo-as em contextos contemporâneos para “exaltar a autoestima do nosso povo”, integram esse movimento de reescrita visual decolonial. Esses trabalhos precisam ocupar espaços de construção de identidade como escolas e currículos.
O Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́ se insere nessa urgência de criar novas histórias no imaginário do povo preto. Assim como pintores, colunistas visuais e fotógrafos vêm fazendo, o projeto reconhece que se a história tivesse sido diferente, se nossos ancestrais não tivessem sido tão violentados, tivessem vivido momentos mais leve e tido acesso a câmeras, a retratos, e álbuns de família, estaríamos ocupando outros lugares no imaginário coletivo. E é justamente essa ocupação que esse movimento crescente vem reivindicando: o direito de reescrever visualmente os registros que nos foram negados, e de disputar futuros onde corpos negros não sejam exceção, mas regra. A fotografia e a arte visual aqui entra como reparação.
É dessa reparação que se trata. Quando um casal negro cria o álbum de família que seus ancestrais nunca tiveram, quando artistas reescrevem os retratos coloniais devolvendo afeto e dignidade, quando ocupamos o imaginário visual com nossas próprias narrativas não se trata apenas de fazer arte é também a restituição da dignidade negra
FICHA TÉCNICA
Projeto: Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́ — recriando o passado
Idealização: Gabrielly Ferraz
Equipe: Gabrielly Ferraz, Pedro Melodia, INCria e Luks Mota
Em setembro de 2023, Rick Azevedo era um balconista de farmácia de 29 anos, nascido em Dianópolis, no Tocantins, morador do Rio de Janeiro havia uma década, sem filho, sem marido, sem casa para cuidar, e mesmo assim sem tempo. Foi dessa contradição que nasceu um vídeo no TikTok que ninguém esperava que chegasse onde chegou.
“Quando é que nós da classe trabalhadora iremos fazer uma revolução nesse país relacionada à escala 6×1? Gente, é uma escravidão moderna. Moderna não, ultrapassada. Antes fosse moderna”, disse Azevedo para a câmera, revoltado e sem roteiro. No vídeo, ele questionava como alguém sem nenhuma das responsabilidades que a maioria dos trabalhadores carrega já não conseguia encaixar a própria vida nos seis dias de trabalho e um de folga. “Eu que não tenho filho, que não tenho nada, sou sozinho, não dá para fazer as coisas. Imagina quem tem filho, tem marido, tem casa para cuidar”, disse. “A pessoa tem que se doar para a empresa seis dias na semana e ter só um dia para folgar. E isso para ganhar salário mínimo. Gente, não dá.”
O vídeo viralizou em poucas horas e transformou um desabafo individual em pauta coletiva. Com o interesse crescendo nas redes, Azevedo passou a publicar mais conteúdo sobre o tema e, junto com outros trabalhadores, fundou o Movimento Vida Além do Trabalho, o VAT. Uma petição pelo fim da escala 6×1 ultrapassou 3 milhões de assinaturas. O que começou num vídeo gravado por um jovem indignado havia se tornado o maior debate trabalhista do país em décadas.
Da farmácia à política
A trajetória de Rick Azevedo até o vídeo que mudou sua vida não foi linear. Segundo o UOL, ele trabalhou como auxiliar de serviços gerais, vendedor, frentista e balconista de farmácia ao longo dos anos no Rio de Janeiro. Chegou a se matricular em três faculdades, Enfermagem, Marketing e Jornalismo, mas não concluiu nenhuma delas. O motivo, segundo ele mesmo, era falta de tempo, o mesmo argumento que o levou a gravar o vídeo.
Foto: arquivo pessoal
Com a repercussão do movimento VAT, Azevedo entrou para a política. Em outubro de 2024, um ano depois do vídeo, foi eleito vereador pelo PSOL no Rio de Janeiro com 29.364 votos, a votação mais expressiva do partido na cidade, segundo o UOL. Assumiu a presidência da Comissão do Trabalho e Emprego da Câmara Municipal e seguiu pautando a redução da jornada de trabalho a partir do mandato.
Em fevereiro deste ano, em entrevista à BBC News Brasil, Azevedo refletiu sobre o caminho percorrido. “Quando eu comecei lá atrás, como um balconista de farmácia que só queria desabafar, nos primeiros momentos, achei que realmente não iria avançar a ponto de a gente chegar até aqui”, disse.
Do movimento à Constituição
A pauta do VAT chegou ao Congresso Nacional quando a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) decidiu transformá-la em proposta legislativa. Em novembro de 2024, Hilton apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição inspirada nas reivindicações do movimento, com texto inicial mais ambicioso que o aprovado: previa jornada semanal de 36 horas e modelo de quatro dias de trabalho. Em poucas semanas, segundo a BBC News Brasil, a proposta superou o número mínimo de assinaturas necessárias para tramitar, reunindo apoios de parlamentares de centro e da direita. “Essa não é uma discussão de campo ideológico, mas de país”, afirmou Hilton à época.
O empresariado reageu. A Confederação Nacional da Indústria calculou uma perda de R$ 76 bilhões no PIB brasileiro com a redução da jornada, e a Confederação Nacional do Comércio estimou que os custos sobre a folha salarial subiriam 21%. O CEO da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias, Sérgio Mena, afirmou à BBC News Brasil que a proposta era “populista” e inviabilizaria negócios do setor. “É um problema bem sério para o varejo e eu não sei como fechar essa conta”, disse.
Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress
Azevedo rebateu as críticas com um argumento histórico. “Se eu estivesse falando para você aqui agora, ‘vamos acabar com a escravidão no país’, os economistas de hoje iriam falar a mesma coisa: que o país não tem estrutura para acabar com a escravidão, que o país ia quebrar. O 13º salário, a mesma coisa. Férias remuneradas, a mesma coisa. Licença maternidade também”, disse à BBC News Brasil.
O governo Lula entrou na disputa com cautela. O presidente evitou assumir protagonismo nos primeiros meses, o que gerou críticas do próprio Azevedo. “O governo já deveria ter se posicionado de forma incisiva”, disse em entrevista ao UOL em março de 2025. A virada veio no 1º de Maio de 2025, quando Lula sinalizou apoio público à pauta pela primeira vez. “Está na hora do Brasil dar esse passo”, disse em pronunciamento na televisão, segundo a BBC News Brasil.
Na noite de quarta-feira (27), a Câmara dos Deputados aprovou em dois turnos a PEC que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas e extingue a escala 6×1, com 461 votos a favor e 19 contra no segundo turno. O texto segue para o Senado Federal, onde ainda enfrenta resistências. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não manifestou compromisso em aprovar a mudança nos mesmos termos, segundo a BBC News Brasil, e qualquer alteração no texto retornaria a proposta à Câmara.
O balconista de farmácia que gravou um vídeo revoltado num quarto do Rio de Janeiro, sem imaginar onde aquilo ia chegar, agora é vereador, fundador de um movimento com milhões de apoiadores e um dos protagonistas da maior alteração constitucional em direitos trabalhistas desde 1988. “Quando eu comecei lá atrás, achei que realmente não iria avançar a ponto de a gente chegar até aqui”, disse à BBC News Brasil.
A Câmara dos Deputados aprovou na noite desta quarta-feira (27), em dois turnos, a Proposta de Emenda à Constituição que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais e extingue a escala 6×1. Apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP), travesti negra, a PEC foi construída em parceria com o vereador carioca Rick Azevedo (PSOL-RJ), idealizador do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) e trabalhador que viveu por 12 anos na própria escala que ajudou a combater.
Juntos, eles protagonizam a primeira alteração constitucional em direitos trabalhistas desde 1988, quando a jornada de 44 horas foi fixada, há 38 anos. “Esta é a maior vitória da classe trabalhadora desde 1988. São 40 anos de atraso e precisou a gente chegar aqui para fazer essa história”, declarou Hilton logo após a aprovação. O texto segue agora para o Senado Federal.
A Votação
No primeiro turno, 472 deputados votaram a favor da PEC e 22 contra, com 18 ausências e uma obstrução. No segundo turno, 461 aprovaram e 19 rejeitaram, com 33 deputados ausentes. A bancada do PT votou integralmente a favor nos dois turnos, com todos os 65 deputados presentes. A resistência ficou concentrada no PL, que registrou 11 votos contrários no primeiro turno e 9 no segundo, e no Novo, com 4 votos contra em ambas as rodadas. Entre os parlamentares que rejeitaram a proposta estão Rosângela Moro (PL-SP), Ricardo Salles (Novo-SP) e Marcel van Hattem (Novo-RS).
Mais cedo, a comissão especial da Câmara havia aprovado o parecer do relator, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), por 34 votos a 4, com oposição exclusiva de PL e Novo. Os parlamentares também rejeitaram um destaque apresentado pelo PL que pretendia modificar o período de transição para a escala 5×2, mantendo intacto o texto do relator.
O Que Muda
A PEC altera o trecho da Constituição Federal referente aos Direitos e Garantias Fundamentais para fixar que a duração do trabalho normal não pode superar oito horas diárias e quarenta horas semanais. A nova regra garante ainda ao menos duas folgas remuneradas por semana, com preferência para que uma delas ocorra aos domingos, e determina que pelo menos um dos dias de descanso deve recair dentro de cada semana de trabalho. Acordos e convenções coletivas poderão prever compensações de horário e reduções adicionais de jornada.
Para Erika Hilton, a mudança vai além de um ajuste técnico na legislação. “Nós estamos mudando a Constituição Brasileira para entregar às mães, aos pais, aos filhos, às famílias brasileiras dignidade e tempo de descanso”, afirmou a deputada.
Período de Transição
A redução das quatro horas semanais ocorrerá em duas etapas. As primeiras duas horas entram em vigor em até dois meses após a promulgação da PEC, e as duas horas restantes têm prazo de até 12 meses depois dessa primeira redução para ser implementadas. O fim da escala 6×1, com a garantia das duas folgas semanais, passa a valer 60 dias após a promulgação do texto.
O período de transição foi o principal ponto de disputas nas últimas semanas. Empresários e confederações de empregadores pediram mais prazo para adequação, e o governo, que inicialmente era contrário a qualquer fase de transição, chegou a um acordo que permitiu a implantação gradativa. O relator estabeleceu ainda que, decorridos 60 dias da promulgação, todos os acordos e convenções coletivas incompatíveis com as novas jornadas perdem validade automaticamente, medida que obriga sindicatos e empresas a negociar novos termos.
Quem Fica de Fora
As novas regras não se aplicam a trabalhadores com diploma de nível superior que recebem a partir de duas vezes e meia o teto do INSS, valor equivalente a cerca de R$ 21,1 mil mensais atualmente. Para esse grupo, as exigências de controle de jornada e ponto não serão aplicadas. A exclusão foi justificada pelo argumento de combater a prática da “pejotização” e garantir autonomia a profissionais de alta renda. Economistas avaliam que o debate deve ser acompanhado de discussões sobre ganhos de produtividade, qualificação profissional, inovação e investimentos em infraestrutura e logística.
A Vitória de Quem Protagonizou
Autora da PEC, Erika Hilton celebrou a aprovação em uma transmissão ao vivo nas redes sociais ainda na noite desta quarta-feira. Travesti negra e deputada federal por São Paulo, Hilton construiu a proposta ao lado do vereador carioca Rick Azevedo (PSOL-RJ), 29 anos, natural de Taipas do Tocantins e morador do Rio de Janeiro há mais de uma década. Em setembro de 2023, Azevedo publicou um vídeo no TikTok criticando a jornada 6×1 e comparando a escala a uma escravidão moderna. Em poucas horas, o vídeo acumulou milhares de comentários e compartilhamentos, o que motivou a criação de um grupo de WhatsApp para coordenar ações e, em seguida, a fundação do Movimento Vida Além do Trabalho.
Antes disso, Azevedo havia se matriculado em três faculdades, Enfermagem, Marketing e Jornalismo, mas não concluiu nenhuma delas, segundo ele, por falta de tempo. Em 2024, foi eleito vereador com quase 30 mil votos, a votação mais expressiva do PSOL no Rio, e assumiu a presidência da Comissão do Trabalho e Emprego da Câmara Municipal. Erika Hilton, chamada por Azevedo de “madrinha” do VAT, foi quem transformou o movimento em proposta formal, já que vereadores não têm prerrogativa de apresentar PECs no Congresso Nacional.
Hilton descreveu o resultado como uma virada depois de meses de ataques e resistência. “Fui muito atacada, fui muito agredida, fui ridicularizada em rede nacional, na internet, tratada como leviana, como irresponsável. E hoje estão todos eles mordendo a língua”, declarou. “Quando eu propus essa PEC, eu não imaginava que neste período de tempo nós conseguiríamos entregar ao povo brasileiro o que nós estamos entregando na noite de hoje”, acrescentou.
Para Hilton, o resultado tem um significado político que vai além da pauta trabalhista. “Hoje é uma noite de vitória da classe trabalhadora, mas é uma vitória que foi protagonizada por uma travesti preta, por uma bicha negra. Fomos nós, que fomos tratados como quem diminui o debate da esquerda, que levamos adiante uma mudança na Constituição”, afirmou. “A gente pode ser mulher, pode ser preta, pode ser travesti, pode ser o que for, mas a gente nunca pensa a sociedade somente para nós. A gente pensa uma política e um mundo que seja bom para todo mundo”, disse.
Próximo Passo: O Senado
Com a aprovação na Câmara, a PEC segue para o Senado Federal, onde precisa ser votada em dois turnos e reunir ao menos três quintos dos votos dos senadores em cada rodada para ser promulgada. A live completa de Erika Hilton com a celebração está disponível nas redes sociais da deputada.
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