Com a proximidade do Cannes Lions International Festival of Creativity, eu tenho pensado muito sobre uma mudança silenciosa — mas extremamente poderosa — que aconteceu na publicidade brasileira nos últimos anos: o momento em que paramos de olhar para fora em busca de validação criativa e começamos, finalmente, a reconhecer o Brasil como referência.
Por muito tempo, a comunicação brasileira acreditou que sofisticação criativa era sinônimo de aproximação com códigos internacionais. As grandes referências vinham de campanhas estrangeiras, de estéticas globais e de uma ideia quase implícita de que, para parecermos modernos, premium ou inovadores, precisávamos nos afastar da nossa própria identidade.
Mas talvez a grande virada da publicidade brasileira tenha acontecido justamente quando entendemos o contrário: o que nos coloca no centro não é tentar parecer outra coisa.
É assumir, sem pedir licença, o nosso próprio jeito de criar. E isso mudou tudo.
Recentemente, assisti a um vídeo sobre códigos visuais brasileiros e fiquei pensando no quanto elementos que antes eram vistos apenas como “populares”, “informais” ou até “cafonas” passaram a ocupar um lugar estratégico dentro da construção criativa contemporânea.
As tipografias de feira. O cachorro caramelo. Os memes virais. As manifestações culturais. As cores exageradas. O improviso brasileiro. O humor da internet. O funk. O São João. A linguagem periférica. Os regionalismos.
Tudo isso deixou de ser tratado como adjacência cultural para virar ferramenta criativa. E talvez esse seja um dos movimentos mais interessantes da publicidade brasileira recente.
Porque o Brasil percebeu que seu diferencial competitivo não estava na tentativa de reproduzir uma estética global pasteurizada — mas justamente na potência cultural que já existia aqui.
Hoje, vemos marcas buscando cada vez mais territorialidade, autenticidade e repertório local. Não porque virou “trend”, mas porque o comportamento contemporâneo exige verdade cultural. As pessoas reconhecem quando existe construção real de linguagem — e também percebem quando existe apenas apropriação estética. E a internet brasileira teve um papel fundamental nessa virada.
Durante anos, o Brasil foi tratado apenas como consumidor de tendências digitais globais. Mas, aos poucos, a lógica se inverteu. A linguagem da internet brasileira começou a influenciar formatos, narrativas, comportamento e estética em escala internacional.
Os memes brasileiros atravessaram fronteiras. Os creators brasileiros viraram referência de linguagem. A estética periférica deixou de ser nicho. A cultura popular virou centro criativo.
E isso não aconteceu por acaso.
Aconteceu porque existe uma potência cultural muito difícil de reproduzir artificialmente. O Brasil cria linguagem a partir da convivência, do humor, da limitação, da criatividade cotidiana e da mistura constante de referências. Talvez por isso a publicidade brasileira continue sendo uma das mais observadas do mundo.
Mas acredito que existe uma diferença importante agora: antes, éramos reconhecidos pela execução criativa. Hoje, começamos a ser reconhecidos também pelo repertório cultural. E isso é uma mudança enorme.
Porque significa entender que a nossa potência não está apenas na capacidade de criar boas campanhas — mas na capacidade de transformar comportamento, estética e identidade em linguagem universal.
O que antes era visto como excesso, informalidade ou “brasilidade demais”, hoje aparece como diferencial competitivo.
E talvez essa seja uma das mudanças mais simbólicas da publicidade contemporânea: o Brasil deixou de ocupar as adjacências da criatividade global quando entendeu que nunca precisou pedir referência emprestada.
Nosso jeito de ser sempre foi, também, nosso jeito de criar. E foi exatamente isso que nos colocou no centro.
Ator e cantor pediu para sair da novela das nove da Globo após rotina intensa em “Êta Mundo Melhor!”. Saiba quem seria seu personagem na trama de Walcyr Carrasco.
Completando 96 anos de vida e em plena atividade profissional, o ator e cantor Tony Tornado decidiu recalcular sua rota na televisão e pediu para deixar o elenco de Quem Ama Cuida, a próxima novela das nove da TV Globo. O artista, que segue contratado da emissora, avaliou que o ritmo intenso e exaustivo das gravações recentes de Êta Mundo Melhor! exigiu muito fisicamente, optando por priorizar produções com cronogramas mais curtos e menos desgastantes daqui para frente.
A decisão de diminuir o ritmo não significa uma aposentadoria. Em entrevista recente, o artista veterano reforçou que não cogita parar e que pretende seguir ativo enquanto puder, destacando seu amor por fazer shows, viajar e sentir o carinho do público. A escolha atual reflete, na verdade, uma gestão estratégica de sua própria saúde e carreira.
Na história assinada por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, Tony daria vida ao Doutor Osmar Vaz, um milionário de postura rígida, marcado por dores do passado e que guardava um segredo misterioso que o afastou do amigo Arthur, interpretado por Antonio Fagundes. Osmar entraria na segunda fase da trama como o pai de Silvana, personagem vivida pela atriz Belize Pombal. Na narrativa, o núcleo de Belize tem papel central: ela é uma viúva cujo filho, Tiago, assumirá o comando da joalheria da família após a morte do tio, travando uma disputa direta com a prima Ingrid, papel de Agatha Moreira.
A saída de Tony Tornado mexe nos planos dos autores, que agora buscam um novo nome para o papel do patriarca. Enquanto o público acompanha os próximos passos da carreira histórica de Tony, a presença de Belize Pombal no elenco principal da novela das nove garante a continuidade da potência e da representatividade preta em papéis de destaque e alta densidade dramática no horário nobre.
Série documental em três episódios reconstrói os bastidores do julgamento de 2005 com depoimentos de jurados, testemunhas e membros da defesa. Estreia em 3 de junho.
A plataforma de streaming Netflix lança em seu catálogo a série documental Michael Jackson O Veredito nesta quarta-feira dia 3 de junho de 2026. A nova produção audiovisual dividida em três episódios reconstrói detalhadamente os bastidores do julgamento por abuso infantil enfrentado pelo cantor. O processo criminal que mobilizou a imprensa global ocorreu na Califórnia e terminou com a absolvição total do artista de todas as queixas apresentadas na época após meses de sessões no tribunal americano.
O projeto de não ficção pega carona no recente sucesso comercial alcançado pela cinebiografia intitulada Michael nas salas de cinema de todo o mundo para debater a memória do músico sob um novo ângulo. De acordo com informações publicadas originalmente pelo Metrópoles a nova produção obteve um acesso inédito aos detalhes da disputa judicial iniciada no ano de 2003. A narrativa busca apresentar uma perspectiva direta e informativa ao expor as dinâmicas de poder e as estratégias jurídicas do caso.
A direção da obra ficou sob a responsabilidade do cineasta Nick Green enquanto a profissional Fiona Stourton assumiu as funções de produção para a plataforma de streaming. O grande diferencial dessa nova abordagem sobre o tema consiste na reunião de depoimentos de pessoas que acompanharam as sessões oficiais da corte de perto. O público terá acesso a relatos exclusivos fornecidos por integrantes do corpo de jurados além de testemunhas oculares antigos acusadores e membros das equipes de defesa.
Os realizadores do projeto destacaram em comunicado oficial que o debate em torno do cantor continua vivo mesmo duas décadas após o encerramento do caso. Os profissionais pontuaram que o documentário oferece uma perspectiva inédita sobre os fatos ocorridos na corte que por muito tempo permaneceram distantes do conhecimento do grande público. A estrutura textual evita adjetivos melodramáticos para priorizar o caráter puramente jornalístico e técnico que envolve uma das maiores coberturas da imprensa.
Pesquisas mostram que ouvir as mesmas músicas repetidamente revela traços emocionais e de personalidade. Entenda o que a ciência explica sobre esse comportamento.
Ouvir as mesmas músicas repetidamente não é apenas uma questão de gosto. Pesquisas interdisciplinares sugerem que o hábito revela aspectos profundos da estrutura mental e emocional do ouvinte, ligados à busca por segurança, ao processamento de sentimentos e a traços específicos de personalidade. A conclusão parte de uma reportagem do jornal O Globo publicada em 30 de maio de 2026, que reuniu estudos de diferentes áreas para explicar por que tantas pessoas ignoram milhões de faixas disponíveis nas plataformas de streaming e voltam sempre para as mesmas canções.
Um relatório do Center of Music in the Brain aponta que a música ativa o sistema de recompensa do cérebro. Ao ouvir uma canção favorita, o organismo libera dopamina, substância associada à sensação de prazer. Esse mecanismo gera uma dependência positiva que leva o ouvinte a repetir a experiência, transformando a música em ferramenta de regulação emocional.
O pesquisador Daniel Levitin, autor do livro “This Is Your Brain on Music”, também estudou como essa repetição ativa áreas cerebrais ligadas ao prazer e à memória afetiva, reforçando a conexão entre canções conhecidas e bem-estar psicológico.
Os traços de personalidade influenciam diretamente esse comportamento. Estudo publicado pela revista WebMD identificou oito comportamentos específicos em pessoas que repetem as mesmas músicas, concluindo que o hábito está associado a conforto na previsibilidade e a alta inteligência emocional.
Segundo a pesquisa, esses ouvintes não evitam emoções intensas, ao contrário, se engajam ativamente com elas, usando as canções para processar experiências e acessar sentimentos profundos. Para pessoas introvertidas, a repetição funciona ainda como recurso de preparação emocional, criando um espaço sonoro seguro diante de situações sociais desafiadoras ou de sobrecarga mental.
Em um ambiente marcado pela incerteza e pelo excesso de estímulos, músicas conhecidas oferecem estabilidade e sensação de controle. Pesquisadores chamam esse fenômeno de “efeito de familiaridade”: quando o cérebro já conhece uma melodia, ele não precisa processar informações novas, o que reduz o esforço cognitivo e gera conforto imediato. Esse mecanismo explica por que a repetição musical se intensifica em momentos de ansiedade, estresse ou cansaço emocional, funcionando como uma âncora mental que ajuda o ouvinte a se reorganizar internamente.
Flávia Agripino, de Bangu, ingressou na UFRJ aos 51 anos e conquistou o 2º lugar na AbraChefs com um bolo inspirado na literatura de cordel. Conheça sua história.
É um bolo de verdade? Dá pra comer? Essas são as primeiras perguntas que nos vêm à cabeça quando nos deparamos com o trabalho da confeiteira Flávia Agripino, de Bangu, Zona Oeste Carioca. Um talento aprimorado na sua trajetória de 15 anos de confeitaria e que agora ganha dois capítulos especiais: o ingresso aos 51 anos para cursar o Bacharelado em Gastronomia da UFRJ e o reconhecimento técnico dos pares em um concurso nacional. Flávia é uma daquelas personagens que nos inspira.
Quando entrei em sala de aula e a vi, rolou uma conexão que eu nem sei explicar – são coisas que a racionalidade não nos ajuda a desvendar. Madura, segura de si (sem ser arrogante) e com um propósito: fazer um curso superior em uma universidade pública federal. A motivação veio do filho Flávio, que a inscreveu no Enem e no Sisu (Sistema de Seleção Unificada) – plataforma em que o pretendente à vaga no ensino superior federal concorrer às vagas nas instituições públicas. Ao lado dos filhos e da sobrinha (que também estudam na UFRJ) formam uma família que acessa a educação superior pública de qualidade. E posso dizer com conhecimento de causa que Flávia é uma aluna que vai continuar se destacando.
Foto: arquivo pesssoal
Nessa linda trajetória de uma empreendedora na confeitaria, suas vendas ajudam a complementar a renda de sua família com os doces e bolos. E, agora, em 2026, veio recentemente o reconhecimento técnico dos pares no concurso nacional da Associação Brasileira de Chefs de Cozinha e Bartenders AbraChefs, ficando em segundo lugar com o bolo “Brasilidades: Literatura de Cordel”. Delicado, cheio de detalhes, lindo e gostoso. Quem viu se encantou e tudo era comestível. De acordo com a confeiteira:
“Eu usei pasta americana como cobertura, e várias técnicas para os detalhes, tudo era comestível: como uma bandeira de tecido comestível, a “terra” era uma farofa de amêndoas, as pedras de noz pecã e os livretos de papel arroz. O recheio foi uma cocada com castanha do Brasil e uma ganache de maracujá com infusão de baunilha”.
Foto: arquivo pessoal
Credo, que delícia! Deu vontade em mim e em você? Se você está no Rio de Janeiro (RJ) ou na região metropolitana e quer um bolo que entrega beleza, história do cliente por meio de uma escuta ativa dos desejos do aniversariante e verdade gastronômica, a confeiteira Flávia Agripino te espera! Embora a gente coma também com os olhos, o sabor, estrutura e textura também importam.
Empreendimento: @flaviaagripinodoceria
Preto Gourmet
Breno Cruz é o criador do Prêmio Gastronomia Preta, do Pretonomia e do Festival Gastronomia Preta. Pós-doutor, professor de Gestão na Gastronomia, Empreendedor Social e autor de 15 livros nas áreas de Administração e Gastronomia
O filme “I Love Boosters”, novo trabalho do diretor e roteirista Boots Riley, teve sua estreia confirmada nos cinemas brasileiros para o mês de outubro, após o lançamento nos Estados Unidos. O filme marca o retorno do cineasta às telas desde o aclamado “Desculpe Te Incomodar” (2018).
Conhecido por combinar humor ácido, crítica social e elementos do surrealismo em suas produções, o diretor volta a explorar temas como consumo, poder e desigualdade por meio de uma narrativa que mescla ação, moda e sátira política em seu enredo.
A narrativa gira em torno de um trio de protagonistas negras e é estrelada por Keke Palmer, que dá vida a Corvette, líder de um grupo de mulheres que realiza roubos em lojas de luxo para enfrentar uma poderosa magnata da indústria fashion, interpretada por Demi Moore. Ao lado de Palmer, o elenco principal reúne Naomi Ackie e Taylour Paige.
Ackie é conhecida por interpretar Whitney Houston no filme biográfico “I Wanna Dance with Somebody”, lançado em 2022, produção que narra a trajetória de uma das vozes mais marcantes da história da música. Já Taylour Paige ganhou reconhecimento internacional por sua atuação em “Zola” (2020).
A produção teve sua estreia mundial durante o South by Southwest Film Festival (SXSW), em março, onde chamou atenção pelo estilo visual ousado ao acompanhar a história de um grupo de pessoas que pratica furtos em estabelecimentos comerciais, conhecidos como “boosters”. Durante o filme, o trio decide voltar suas ações contra uma influente figura do universo da moda, permitindo a construção de um enredo que utiliza recursos como o humor e a estética fashionista a fim de discutir questões relacionadas à concentração de poder, status social e consumo.
“I Love Boosters” chega aos cinemas brasileiros em outubro com um histórico de destaque devido aos elogios da crítica internacional pela originalidade e capacidade de mesclar temas como protagonismo feminino, consumismo e moda em uma narrativa cativante e pouco convencional.
A atleta norte-americana conhecida por ser a maior campeã do tênis feminino na Era Aberta, Serena Williams, confirmou seu retorno às quadras após quase quatro anos longe das competições. Williams disputará, ainda em junho, a chave de duplas do WTA 500 de Queen’s Club, em Londres.
O anúncio foi feito pela própria tenista em uma publicação nas redes sociais nesta segunda-feira (1º), por meio de um vídeo compartilhado com seus seguidores: “Acho que todo mundo ouviu as notícias” e completou: “Boas notícias se espalham rapidamente”.
Pouco depois, o torneio confirmou oficialmente sua participação com uma imagem da tenista acompanhada da mensagem: “A rainha voltou”. Serena recebeu um “wildcard” para integrar a competição, que terá início no dia 8 de junho. Segundo informações divulgadas pela BBC, a norte-americana voltará às quadras ao lado da canadense Victoria Mboko, de 19 anos, uma das promessas do circuito internacional.
Serena possui 23 títulos de Grand Slam em simples, sendo dona de uma das carreiras mais premiadas da história do esporte em nível mundial, construindo um legado de representatividade e superação nas quadras e abrindo caminhos para novas gerações de atletas negras no esporte.
A feitura do best seller “Coisa de Rico” fez do antropólogo Michel Alcoforado um dos maiores especialistas no mercado de luxo do país. Não à toa, durante a Feira Preta, no Rio, ele foi um dos convidados da mesa Sebraeapresenta: Consumo, Poder e Invisibilidade, mediado por Cris Guterres, com participação da também jornalista Luanda Vieira, e do head de diversidade da L’Oreal, Eduardo Paiva. Durante o bate-papo, Michel deu conselhos valiosos para pessoas pretas conseguirem mudar de patamar financeiro.
“A sociedade é racista. Nós negros é que precisamos saber muito bem é saber qual o nosso tamanho. Então a dica é: saiba o seu tamanho! Para não achar que será mais do que você é, mas também não deixar ninguém achar que você é menos do que você é. E um caminho importantíssimo é: pessoas pretas, guardem dinheiro. Porque o que os brancos não estão preparados para ouvir é não. Não quero comprar tua marca, não vou aceitar a tua oferta de trabalho, não me interessa fazer negócio com você. Então, guarda dinheiro, se der, para falar não. É dizendo não que a gente cresce e diz para o outro tamanho da gente”, defendeu ele, que completou que a escassez inviabiliza a independência: “Quando você está na precariedade, é obrigado a aceitar qualquer coisa, fica mais difícil”.
Michel lembrou ainda dos questionamentos que recebe se “Coisa de rico” deveria ter trazido uma discussão racial mais explícita. “Digo que o debate está dado, porque um branco não teria feito esse livro. Um branco não está treinado para receber tantos nãos, como eu recebi ao longo desse processo, e continuar acreditando que ia dar em algum lugar e ia conseguir entrar no mundo dos ricos”, explicou ele.
Mesmo tendo o livro mais vendido no país em 2025, acumulando uma formação multidisciplinar nas áreas de Ciências Sociais, História e Antropologia, com doutorado (PhD) e especialização internacional em antropologia do consumo, ele revelou não ter sido considerado apto para ministrar uma formação recentemente.
Mesa Sebrae Apresenta: Consumo, Poder e Invisibilidade, mediado por Cris Guterres, com participação da também jornalista Luanda Vieira, e do head de diversidade da L’Oreal, Eduardo Paiva. Foto: 📷 @ntiuira | @atl4ntica.br
“Sugeriram o meu nome por um desses cursos em que convidam grandes personalidades para falar sobre determinado tema e o gestor do curso, um homem branco, virou uma pessoa que tinha sugerido o meu nome, a minha revelia, e disse: ‘Ainda falta um chão para o Michel conseguir dar uma aula nesse curso’. Eu pensei: ‘Falta o que mais? Falta ser branco!’”, refletiu ele.
Ainda sim, o racismo não tira a fé de Michel na chegada de dias melhores. Depois de reforçar a importância das conquistas feitas pelo Movimento Negro no Brasil, ele deu sua receita para cuidar da saúde mental.
“Aqui ninguém deu nada pra gente de graça. Todo dia de manhã, mato um leão. A gente está mudando, só que o desafio é enorme. Esse é o país que tem 380 anos de escravidão, e a gente só tem 120 anos dessa transformação (…). Minha receita toda vez que me perguntam: ‘E a saúde mental, como é que você aguenta?’ Duas sessões de análise, se você puder pagar por semana, um pouco de macumba e se precisar, vai no psiquiatra tomar duas bolinhas…. Mas vai, não dá passo para trás. Acorda de manhã e mata outro leão”, defendeu ele, que, além de profissionais de saúde e de religião de matriz africana, procura ouvir a voz da experiência: “A dica é escutar os mais velhos, olhando para a realidade, desviando das cascas de banana e sabendo para onde se quer ir. Não sei qual será meu próximo projeto, mas continuo com o objetivo de colocar a antropologia na rua. A ciência é boa demais. É preciso compartilhar conhecimento. E conhecimento guardado só pra gente presta pra nada, né?”.
Lançado em 2025, o Código de Defesa e Inclusão do Consumidor Negro, do Grupo L’Oréal e o Mover (Movimento pela Equidade Racial), com a redação da Black Sisters in Law, foi um marco para a empresa, que vem colhendo anualmente os resultados do seu investimento em representatividade. Nesta sexta-feira, durante a Feira Preta, na mesa Sebrae apresenta: Consumo, Poder e Invisibilidade, ao lado do escritor Michel Alcoforado e da jornalista Luanda Vieira, com mediação de Cris Guterres, na Feira Preta, o Diretor de Diversidade, Equidade e Inclusão da L’Oréal, Eduardo Paiva, apresentou dados do impacto da política voltada a ampliar a diversidade entre os funcionários.
“O código só foi possível em um time que se torna cada vez mais negro, que tem uma liderança que se torna cada vez mais negra. O resultado é mais coragem para discutir, mais transparência para a gente colocar o problema na mesa. Pela primeira vez, a principal fonte de incremento de novos líderes negros são as promoções, e não os recrutamentos. Então, o que isso quer dizer? Tem uma geração emergindo dentro da L’Oréal, fruto de todas essas políticas. A L’Oréal vem evoluindo. Hoje 46% dos colaboradores se declararam pessoas negras. A gente dobra o número de pessoas negras em cargos de liderança. Então, salta de 13% para 25%. É um longo caminho, mas é uma cultura que se transforma. As iniciativas de negócio surgem. Uma delas é o Programa Afroluxo, a divisão de luxo, com marcas icônicas, como Lancôme e Yves Saint Laurent, que é um programa de enfrentamento ao racismo no varejo de beleza de luxo, que é a L’Oréal se colocando como parte da solução. Então, se o racismo é sistêmico, a solução tem que ser sistêmica”, defendeu ele, durante o evento, que após 10 anos, voltou a acontecer no Rio de Janeiro.
Instrumento de autorregulação, o código ainda não possui valor legal, mas segue trazendo resultados palpáveis. “Em abril deste ano, lançamos junto ao Mover, uma grande coalizão, que todos os meses impactam mais de 100 milhões de pessoas em mais de 3 mil lojas em todo o Brasil, muito focada em sair do discurso para a prática. A gente revisa todos os protocolos de atendimento dentro das lojas e, no caso da L’Oreal, isso acabou resultando na capacitação do time que faz atendimento nas lojas de todo o Brasil. A gente vem acompanhando através de um novo processo que se chama Black Mystery Shopper para entender o quanto os dispositivos racistas estão diminuindo. Então, a gente fez uma onda antes da implementação do código, e outra após, e já vê que eles foram reduzidos 35% em menos de um ano. Então, essa correlação entre o ambiente onde a gente avança e combate a discriminação, melhora a experiência e aumenta esse mercado, e faz com que mais pessoas negras ocupem espaço de luxo”, apontou Eduardo.
A pesquisa feita para mapear como era a experiência de pessoas negras com o mercado de revelou que 91% das pessoas negras de classe A/B já sofreram algum tipo de discriminação racial nesses estabelecimentos. “Fiquei chocado com só 91% das pessoas se sentirem discriminadas. Os outros 9% não devem ter percebido… Nada, nada apaga o racismo na nossa sociedade. Mas a nossa presença nesses espaços, é pedagógica. Luanda, quando entra no shopping chique, na loja mais cara que ela quiser e ela compra, sai todo mundo mais racializado. Porque esse ato, por si só, ele é pedagógico. Mesmo com toda a dificuldade, o próximo preto que entrar nessa loja não será lido do mesmo jeito. E isso vai transformando essa sociedade. O consumo também transforma”, acredita Michel Alcoforado.
Antes de passar a palavra para Luanda Vieira, Cris Guterres confessou sua estratégia também “pedagógica” para devolver o constrangimento sofrido nesses espaços: “Eu sou aquela pessoa que, em lojas chiques, pergunto para pessoas brancas: ‘você trabalha aqui?”
Nascida em família estruturada financeiramente e acostumada a frequentar espaços de luxo, Luanda tem pensado em sua responsabilidade como espelho para sua comunidade no lugar do consumo. “Tem mulheres negras com quem falo que, de fato, frequentam os lugares que eu frequento, viajam de classe executiva como eu viajo, e tem aquelas que me escrevem dizendo que estão juntando dinheiro para se dar o produto que eu estou indicando. Aí, percebo a importância de ter seriedade com o que estou divulgando, e, de hoje ser contratada do maior shopping de luxo de São Paulo. Estou nesse lugar de abrir espaços, mas não digo que eu caminhe à vontade por esses ambientes. Alguém vai ter que sentir essa dor. Mas acho muito bonito quando as pessoas se sentem possíveis nesses lugares”, atestou Luanda.
PowerList Mundo Negro 2025 (Foto: Divulgação/Mundo Negro)
A PowerList Mundo Negro 2026, principal premiação dedicada exclusivamente a mulheres negras no Brasil, entra em sua segunda fase. Em menos de duas semanas desde a abertura das indicações, no dia 12 de maio, mais de 3 mil votos foram registrados e mais de 850 mulheres negras de todas as regiões do país foram indicadas nas cinco categorias de voto popular, um resultado que confirma a premiação como o principal espaço de reconhecimento de mulheres negras no país.
Na primeira fase, a audiência indicou e autoindicou nomes em cinco frentes: Criadora Digital, Empreendedora do Ano, Profissional da Beleza, Destaque em Gastronomia e Profissional da Moda. A partir desse volume de indicações, a curadoria consolidou o Top 5 de cada categoria, as finalistas que agora disputam o reconhecimento na reta final.
“Pelo segundo ano colocamos nossa preciosa audiência para votar e indicar nomes de pessoas que talvez sem ela a gente nunca conheceria”, afirma Silvia Nascimento, CEO e Head de Conteúdo do Mundo Negro.
São elas:
Top 5 | Criadora Digital
Cynthia Mariah (@cynthiamariah)
Referência em moda afro-brasileira e afrofuturismo, a criadora digital usa suas plataformas para engajar, educar e fortalecer a identidade negra, transformando cultura e ancestralidade em experiências interativas e inspiradoras.
Cicih Lima (@misteriosdaluz)
Oraculista há 14 anos, enfermeira e educadora popular, ela é uma mulher negra periférica especialista em Saúde Pública. Idealizadora do Mistérios da Luz e do Ateliê Valioso Aroma, atua com letramento racial no combate ao Racismo Oracular, promovendo cuidado e espiritualidade inclusiva.
Palmira Tonet (@palmiratonet)
Influenciadora e enfermeira, a criadora compartilha rotina, saúde, beleza e lifestyle com leveza e autenticidade. O trabalho traz dicas, inspiração e um pouco da vida real.
Luciane Santos (@lu_blackstylist)
Funcionária pública, graduanda em Biologia, modelo e criadora de conteúdo, ela exalta o poder feminino e a beleza negra. Mãe solo e carioca, compartilha sua rotina real, treinos e autocuidado, inspirando o público a elevar a autoestima e quebrar padrões.
Sarah Fonseca (@sarahafonseca)
Começou na internet falando de corrida e, inquieta e apaixonada por inspirar, expandiu sua voz para a beleza e autoestima, principalmente através do quadro “Finaliza e Fala”. Hoje também assina sua marca de skincare, a Skin Quer.
Top 5 | Empreendedora do Ano
Fany Miranda (@fanymirandaoficial)
Fany é mãe, artista visual, ativista e CEO da Casa Empreendedora Hub. Preside a AME-PB, organizando a maior feira de empreendedorismo feminino do Nordeste. É apresentadora de rádio, tem sua história no acervo do Museu da Pessoa e criou o 1º Ateliê LGBTQIAPN+ no sistema prisional do Brasil.
Ednusa Ribeiro (@ednusaribeiro)
Mulher preta em movimento, palestrante, produtora de conhecimento, articuladora em políticas públicas e no empreendedorismo preto.
Geovana Lima (@geolima_)
Fundadora do Entre Pretas, uma comunidade que conecta mais de 5 mil mulheres pretas. Cria espaços de pertencimento, impacto cultural e bem-estar, fortalecendo e impulsionando mulheres negras em todo o Brasil.
Elayne Almeida (@lacreafro)
Empreendedora no ramo da beleza, ela traduz autoestima, identidade e geração de renda através da beleza afro. Na sua atuação, une impacto social, ambiental, formação profissional e acolhimento, criando iniciativas que fortalecem futuras lideranças e valorizam a cultura preta.
Mariana Nunes (@soumariananunes)
Fundadora do Movimento Rosalina, defensora popular representando São Paulo e conselheira da Rede Agbara. Atua na liderança de iniciativas de empreendedorismo, impacto social e fortalecimento de mulheres negras e territórios periféricos, articulando redes e transformação social.
Top 5 | Profissional da Beleza
Dinaura França (@dinaurafrancabeauty)
Fundadora da Dinaura França Beauty, atua na área da beleza transformando autoestima através do design de sobrancelhas, maquiagem e estética facial. Acredita na beleza como ferramenta de acolhimento, confiança e representatividade.
Gleisi Souza (@glei__souza)
Especialista em cabelos com curvatura há 15 anos. Pioneira em Juiz de Fora com salão voltado exclusivamente para fios naturais. Transforma a autoestima através da saúde capilar, técnica, acolhimento e liberdade de assumir a própria textura.
Letícia Maria (@leticiamaria.imbali)
Terapeuta integrativa, esteticista e cofundadora da Imbali, ela dedica quase 20 anos ao cuidado da beleza, autoestima e bem-estar. Sua atuação humana une estética, saúde mental e terapias naturais através do toque e da escuta, defendendo que a verdadeira beleza floresce de dentro para fora.
Léia Abadia (@pretabrasileira)
Hairstylist, comunicadora e fundadora da Preta Brasileira, salão criado em 2010. Atua com corte, coloração, tratamentos, maquiagem, visagismo e tranças, unindo técnica, ancestralidade e inovação no fortalecimento da beleza negra.
Andreia Pires (@projetoraizes)
CEO do Projeto Raízes, ela une tranças e ancestralidade há mais de 20 anos na Zona Sul de SP. Ela transforma beleza em empoderamento e resgate cultural, movendo toda a sociedade na periferia.
Top 5 | Destaque em Gastronomia
Tayná Passos (@taynapassosoficial)
Pernambucana, nordestina e afrodiaspórica, ela fundou a Dùn Ajeun com o propósito de colocar a cultura alimentar negra de Pernambuco no centro que ela sempre mereceu. Para Tayná, cozinhar é afirmação, é autonomia, é a preservação viva de tudo que as culturas negras construíram e seguem construindo.
Saint Clair Cezar (@saintclaircezar)
Chef e educadora baiana à frente do Saint Clair Aromas e Afetos, ela soma 13 anos na gastronomia. Já cozinhou para o presidente Lula, Djavan e Guns N’ Roses. Ex-instrutora do Senac, une culinária e formação humana em palestras, produtos digitais, além de escrever sua autobiografia.
Luiza Felix (@felixluiza)
Cozinheira, pós graduanda em gastronomia e nutrição, geógrafa, pesquisadora alimentar e dona do Malawi Vegetariano, criando e recriando pratos à base de plantas a partir de uma perspectiva ancestral e afetiva.
Chef Cacau Alves (@ajeumdapreta)
À frente do Ajeum da Preta, a chef valoriza a culinária de terreiro como expressão ancestral e política. Cria releituras que desmistificam o candomblé, levando essa potência para eventos corporativos e sociais, além de atuar como personal chef, palestrante e facilitadora de oficinas.
Chef Priscila Novaes (@kitandadasminas)
Chef, empresária e Ìyábase, Priscila foca na gastronomia afro-brasileira e ancestralidade. É dona da Kitanda das Minas e CEO da Kitanda Café, na Biblioteca Mário de Andrade (SP). Autora do livro “Ajeum – O Sabor das Deusas”, pesquisa mulheres negras e patrimônio imaterial.
Top 5 | Profissional da Moda
Cangaceira Futurista (@cangaceirafuturista)
Iniciativa das multiartistas baianas Heleonora Pinheiro e Iasmine Cristina, o projeto une moda e arte, celebrando raízes nordestinas. O espaço propõe o fortalecimento da comunidade por meio de oficinas de costura, customização, debates e produção de fashion films.
Mônica Sampaio (@monicasampaiosr)
Ex-engenheira eletricista no Exército Brasileiro, Mônica mudou de carreira aos 45 anos e criou a Santa Resistência, estreando no SPFW. Com moda ancestral, já vestiu artistas como Lázaro Ramos e Cris Vianna. Palestrante e mentora de empreendedorismo feminino, sustentabilidade e mudança de carreira.
Keila Vianna (@ateliekeilavianna)
Há 18 anos na moda e no setor têxtil, Keila vê o segmento como força de afirmação e impacto político. À frente de seu próprio ateliê, transformou o espaço em um legado de pesquisa sobre moda, cultura e arte, com o propósito de contar histórias ancestrais e contemporâneas através de suas criações.
Ana Carolina Golin Da Silva (@golinjoias)
Ex-enfermeira oncológica, Carolina começou em uma nova carreira depois dos 30 anos. Descobriu na ourivesaria um hobby que virou profissão e criou sua própria marca, Golin Joias, com itens autorais e personalizados forjadas a mão.
Madá Negrif (@madanegrif)
Filha de costureira, Madá é graduada em Moda e fundadora da Negrif, marca afrocentrada de Salvador que une ancestralidade e resistência. Com duas lojas físicas e presença em seis estados, ela traduz a força da mulher preta desde os anos 2000 em peças autorais com foco em identidade e pertencimento.
Como votar
A votação final está aberta de 30 de maio a 22 de junho, totalmente online. Acesse powerlist.mundonegro.inf.br/votar, selecione a categoria, escolha a candidata, informe seu e-mail e confirme. Cada pessoa pode registrar um voto por categoria. As homenageadas serão celebradas na cerimônia presencial do dia 31 de julho, dentro do Julho das Pretas Latino-Americanas e Caribenhas, na sede da L’Oréal Brasil, no Rio de Janeiro.
A 5ª edição da PowerList Mundo Negro tem patrocínio do Grupo L’Oréal e da Globo.
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