Por: Rodrigo França
Eu estava em cima de um trio elétrico na Parada LGBTQIAPN+ de São Paulo, deste ano, quando uma imagem me atravessou mais do que qualquer música, qualquer discurso ou qualquer celebração. No meio de uma multidão que cantava, reivindicava, dançava e comemorava direitos conquistados, havia um jovem negro parado. Sozinho. Com um cartaz simples de papelão nas mãos. Nada elaborado. Nenhum slogan de marketing. Nenhuma produção sofisticada. Apenas uma frase: “Nenhum direito a menos”.
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Durante muito tempo, enquanto o trio permaneceu praticamente imóvel, ele continuou ali. E eu não conseguia parar de olhar. Porque, de repente, aquela imagem parecia fazer uma pergunta que atravessa toda a história do movimento LGBTQIAPN+. Onde estão as pessoas negras? Onde estão as travestis negras? Onde estão os homens negros, mulheres negras? Onde estão aqueles que carregam as maiores estatísticas de violência, exclusão e morte? E, principalmente, quem pode estar aqui celebrando?
Quando olhei para a multidão, vi majoritariamente pessoas brancas. Muitos homens brancos. E não se trata de negar a legitimidade de suas existências, de suas dores ou de suas lutas. A questão é outra. Quem ocupa o centro da narrativa? Quem tem visibilidade? Quem aparece nas campanhas? Quem recebe os convites? Quem é lembrado quando chega o mês do orgulho?
É impossível celebrar o orgulho LGBTQIAPN+ sem olhar para a questão racial. E é impossível falar da história desse movimento sem lembrar de Marsha P. Johnson. Durante décadas, a história hegemônica tenta embranquecer até mesmo as origens da revolta que se transformaria no maior símbolo da luta LGBTQIAPN+ mundial. Mas os levantes que ocorreram no entorno do Stonewall Inn não podem ser compreendidos sem reconhecer a presença decisiva de pessoas negras, latinas, travestis, transexuais e drag queens que viviam na margem da margem.
Pessoas que não estavam lutando apenas pelo direito de amar. Estavam lutando para sobreviver. A diferença é profunda. Enquanto parte da população LGBT reivindicava reconhecimento social, outras pessoas reivindicavam o direito de continuar vivas.
Não é coincidência que até hoje as travestis e mulheres trans negras estejam entre as maiores vítimas da violência. Não é coincidência que a pobreza tenha cor. Não é coincidência que a exclusão tenha endereço. Não é coincidência que a morte seja distribuída de forma tão desigual. Por isso, quando observo grandes eventos LGBTQIAPN+, às vezes me pergunto se estamos diante de uma celebração da diversidade ou da vitória de um segmento específico dentro dessa diversidade.
Porque a branquitude possui uma capacidade histórica de ocupar espaços, inclusive aqueles construídos por outras mãos. Aconteceu no samba. Aconteceu na cultura popular. Aconteceu em inúmeros movimentos sociais. E acontece também dentro da comunidade LGBTQIAPN+.
A luta nasceu profundamente marcada por pessoas negras, latinas, pobres e trans. Mas o protagonismo público, os microfones, os contratos publicitários, os espaços institucionais e a representação midiática acabaram sendo concentrados, muitas vezes, nas mãos de pessoas brancas. Mesmo quando pertencem a grupos historicamente discriminados.
Esse é um debate que costuma gerar desconforto porque desafia uma ideia muito difundida: a de que sofrer uma opressão elimina automaticamente a possibilidade de reproduzir outras. Mas não elimina. Um homem branco gay continua sendo branco. Uma mulher branca lésbica continua sendo branca. E a branquitude não desaparece quando alguém sofre discriminação por orientação sexual. Privilégios não são anulados. Eles coexistem. É justamente por isso que tantas vezes vemos pessoas utilizando sua condição de grupo minorizado como uma espécie de certificado automático de consciência social.
Como se sofrer preconceito em uma dimensão impedisse alguém de praticar silenciamentos em outra. A realidade mostra o contrário. Também existem hierarquias dentro da própria diversidade. Também existem exclusões dentro dos grupos excluídos. Também existe racismo dentro da comunidade LGBTQIAPN+. E a pergunta mais dura seja justamente aquela que me acompanhou enquanto observava aquele jovem negro segurando seu cartaz.
Quem está faltando nesta festa? Quem não conseguiu chegar? Quem está trabalhando enquanto outros celebram? Quem está na escala seis por um? Quem está limpando o chão da festa? Quem está servindo? Quem está cuidando das crianças? Quem está cuidando dos idosos? Quem está garantindo que a cidade continue funcionando enquanto a Avenida Paulista se transforma em palco?
Essas perguntas não são novas. Elas atravessam também uma crítica histórica ao feminismo liberal branco. Durante décadas, muitas conquistas femininas foram possíveis porque outras mulheres, quase sempre negras e pobres, permaneceram ocupando os espaços do cuidado. Enquanto algumas conquistavam o direito de ocupar escritórios, universidades e cargos de poder, outras continuavam responsáveis pela cozinha, pela limpeza e pela criação dos filhos que não eram seus.
A liberdade de umas frequentemente repousava sobre o trabalho invisível de outras. Já passou da hora de perguntar se algo semelhante acontece em parte dos espaços LGBTQIAPN+. Porque representatividade sem redistribuição de poder é apenas uma nova forma de desigualdade. E orgulho sem memória corre o risco de virar espetáculo.
A imagem daquele jovem negro continua comigo. No meio de uma multidão celebrando, ele parecia lembrar algo que não deveria ser esquecido.
Nenhum direito a menos. Mas para quem?
Se a resposta não incluir as pessoas negras, especialmente as travestis e mulheres trans negras, então não estamos falando de libertação coletiva. Estamos falando apenas da ampliação dos privilégios de quem já estava mais próximo deles.
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