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“Minha formação culinária é de fundo de quintal”: Mestra Kelma Zenaide, de Letras à gastronomia ancestral afro-brasileira

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Foto: reprodução

Há uma pergunta que percorre o trabalho de Mestra Kelma Zenaide: por que o alimento produzido no quintal da sua casa não tinha reconhecimento comercial e cultural? Foi essa indagação, registrada por ela mesma, que se tornou o motor de uma trajetória singular na gastronomia afro-brasileira.

Remanescente do quilombo de Pinhões, nascida em Contagem (MG), Kelma Zenaide é umbandista, lésbica, sommelier de cerveja, graduada em Letras e pós-graduada em literatura africana. É palestrante em universidades e centros culturais, e matrigestora da Kitutu, empresa de gastronomia afro-brasileira especializada em buffets conceituais. Sua formação culinária, ela define sem hesitar: é de fundo de quintal, aprendida com a mãe, o pai, a avó e, nas palavras dela, com mais uma pancada de gente.

O que poderia parecer contradição, a pós-graduação em literatura africana ao lado da cozinha aprendida em casa, é na prática a base do que faz a Kitutu ser o que é. Kelma usa a comida para contar a história do seu povo e para dar protagonismo e valor financeiro ao ofício da mulher negra cozinheira, categoria que, segundo ela, segue sendo invisibilizada apesar de ser fundadora da culinária brasileira.

“Cozinhar para uma mulher preta, muitas vezes, é uma obrigação. Ainda uma pequena parcela recebe reconhecimento, credibilidade e consegue ascensão. Muitas de nós passamos a vida na cozinha das casas como domésticas, nos afazeres do próprio lar ou na escravidão moderna dos grandes restaurantes, liderados por pessoas brancas, sobretudo empresários héteros masculinos”, escreve Kelma.

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A banana da terra é muito mais do que acompanhamento: rica em potássio, fibras e carboidratos de absorção lenta, ela sustenta, nutre e ainda cabe no bolso. Nesse vídeo, a Mestra Kelma Zenaide (@kitutuafrogastronomia) mostra como esse ingrediente ancestral vira protagonista numa preparação inusitada. O ceviche é uma técnica de “cocção a frio” com ácido cítrico (limão ou laranja), que preserva os nutrientes dos ingredientes e realça sabores sem precisar de fogo. Na mão da Mestra Kelma, a tradição encontra a ancestralidade: comer bem é, antes de tudo, voltar pras raízes. #IngredientePrincipal #TheMainIngredient #BananaDaTerra

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Ela aponta a chegada das escolas de gastronomia na virada do século como um fator que aprofundou essa segregação, tornando ainda mais invisível o que sempre esteve nos quintais e nas cozinhas coletivas das comunidades negras. “A história que nos contaram oculta a presença dos africanos, afrodescendentes e povos originários na construção das técnicas, tecnologias e hábitos alimentares da sociedade brasileira”, afirma.

Ao mesmo tempo, Kelma não faz do seu trabalho um discurso de lamento. Ela faz comida. E faz bem. Torresmo, mingau de fubá, frango com quiabo, feijoada: pratos que resistem porque carregam memória afetiva e coletiva. “Tradição nunca será algo estático. Ela se adequa ao tempo sem perder a essência”, diz.

É esse entendimento que a conecta ao conceito da campanha #IngredientePrincipal: comer bem é voltar pras raízes, não como nostalgia, mas como ato político e cultural. O TikTok escolheu o Brasil para inaugurar essa campanha global, que conta com o Mundo Negro e o Guia Black Chefs como parceiros estratégicos na produção de conteúdo com 20 profissionais negros da gastronomia e nutrição. Mestra Kelma Zenaide é uma deles.

Para os jovens, ela deixa um compromisso: “Saliento a importância de manter a tradição, de não deixar a nossa história se esvair.” Não como peso, mas como potência.

Saulo Gonçalves: o nutricionista que desmistifica a ciência com humor e consciência alimentar

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Foto: divulgação

Antes de falar sobre comida, Saulo Gonçalves precisou aprender a se ouvir. Formado em Direito, com dois anos de atuação na área, ele carregava uma trajetória construída sob pressão externa: origem humilde, expectativa familiar, foco no retorno financeiro. O que faltava era o que ele chama de convicção. Faixa preta de judô, apaixonado por esporte, saúde e performance desde cedo, Saulo sabia que havia uma outra rota. E foi por ela que ele decidiu ir.

“Minha primeira formação foi em Direito. Me formei, atuei por dois anos, mas algo dentro de mim dizia que aquele não era o meu destino final. Fui influenciado pela família, foquei apenas no dinheiro, e esqueci de me ouvir completamente”, conta Saulo. A virada veio quando ele entrou para o curso de Nutrição: “com frio na barriga, mas com convicção.”

Carioca e nutricionista clínico, Saulo construiu nas redes sociais uma linguagem própria que mistura humor e consciência alimentar. Já colaborou com o Mundo Negro, participou do programa É de Casa e do Mais Você, ambos da TV Globo. Em sua prática clínica, gosta de abordar sustentabilidade, e a alimentação natural consciente é o que mais o encanta.

Na prática clínica, Saulo encontrou o que chama de verdadeiro encantamento. Não foi na nutrição esportiva, área em que a conexão com o judô seria a rota mais óbvia, mas no acompanhamento integral de pessoas que chegam ao consultório com histórias, rotinas, emoções e contextos únicos. “A clínica é a base de todas as áreas. É nela que aprendemos a enxergar o paciente como um todo, a investigar, a acolher, a compreender histórias, emoções e contextos”, explica.

“A Nutrição me mostrou que comida não é só macro e micronutriente: é cuidado, é escuta, é transformação”, afirma. Essa visão é o que conecta o trabalho de Saulo ao conceito da campanha #IngredientePrincipal: a ideia de que comer bem é um ato que vai além da composição nutricional do prato, envolve cultura, escuta e acesso.

É exatamente essa perspectiva que o TikTok e o Mundo Negro buscaram reunir nesta campanha. Escolhido pelo TikTok para inaugurar o projeto globalmente, o Brasil recebe uma iniciativa que une tecnologia, educação e impacto social para democratizar o acesso à informação sobre alimentação saudável. O Mundo Negro, com o suporte do Guia Black Chefs, entra como parceiro estratégico, produzindo conteúdo com 20 profissionais negros que são referência na gastronomia e nutrição brasileira. Saulo Gonçalves é um deles.

Para quem ainda está encontrando seu caminho, ele tem uma mensagem direta: “Não escolham apenas pelo que está na moda ou pelo retorno financeiro. O dinheiro importa, claro. Mas ele não sustenta sozinho uma rotina de estudos constantes, atendimentos, responsabilidade técnica e dedicação diária. Escolham aquilo que faz seus olhos brilharem. Profissão não é apenas ganha-pão, é propósito.”

No TikTok, Saulo prova que falar de nutrição com humor e consciência não são opostos. Que conscientizar sobre alimentação começa por falar com as pessoas, não para elas.

Joélho Caetano: o gastrólogo quilombola que transforma saberes ancestrais em voz, pesquisa e empreendimento

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Foto: divulgação

A farinha de mandioca não é só um ingrediente para Joélho Caetano. É memória, é território, é política. Para quem cresceu no quilombo de Conceição dos Caetanos, no interior do Ceará, a mandioca sempre esteve no centro da vida comunitária. O que mudou é que agora ela também está no sorvete, reposicionando um saber ancestral dentro da gastronomia contemporânea.

Com 23 anos, Joélho é gastrólogo por formação, pesquisador de culturas alimentares e empreendedor criador da Sorvete Caetanos, marca que pensa sorvetes de verdade com ingredientes da terra, valorizando os saberes e sabores do seu povo. A trajetória não começa na faculdade nem no empreendimento: começa na cozinha de dona Bibiu, sua avó e matriarca do quilombo, e nas mulheres que ele cresceu observando.

“O que me motivou a seguir na gastronomia foi a beleza que eu via nas cozinheiras que cresci vendo, como minha mãe, e a possibilidade de atuar como voz na minha comunidade através da cozinha e da cultura alimentar, porque comer é um ato político e um ato cultural lindo”, diz Joélho.

Foi ao revalorizar a Farinhada, prática coletiva ancestral do seu território, que Joélho ganhou destaque e visibilidade. A partir daí, criou um sorvete com base de mandioca que incorpora também farinha de mandioca e outros elementos que representam a cultura alimentar do seu quilombo. Mais do que uma receita, o produto é uma declaração: o que a comunidade produz tem valor gastronômico, cultural e comercial.

Ao trazer esse universo para o TikTok, Joélho explicita o quanto a cultura alimentar quilombola carrega sofisticação e ciência própria, desafiando a ideia de que gastronomia é um território que pertence a outros. A casca de banana, presente nos vídeos da campanha, aparece como extensão dessa lógica: o aproveitamento integral dos alimentos não é tendência nova, é prática que comunidades como a sua já conhecem há gerações.

É exatamente esse tipo de conhecimento que a campanha #IngredientePrincipal veio amplificar. Escolhido pelo TikTok para inaugurar a campanha global, o Brasil recebe um projeto que une tecnologia, educação e impacto social para democratizar o acesso à informação sobre alimentação saudável. O Mundo Negro, com o suporte do Guia Black Chefs, entra como parceiro estratégico, produzindo conteúdo com 20 profissionais negros que são referência na gastronomia e nutrição brasileira. Joélho Caetano é um deles.

Para quem vem de um contexto em que as oportunidades chegam de forma desigual, transformar esse legado em negócio e em narrativa pública tem peso adicional. Joélho sabe disso e fala diretamente para quem se identifica: “As oportunidades nem sempre são iguais para todos, mas sonhar é o caminho mais fácil para chegar nas oportunidades.”

Comer bem, no universo de Joélho Caetano, é voltar ao quilombo. É reconhecer que a farinha de mandioca que sempre esteve na mesa da sua avó é também gastronomia, é ciência, é identidade.

Ação promove a retificação gratuita de nome e gênero em documentos oficiais

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Foto: divulgação

No dia 26 de janeiro de 2026, o Grupo L’Oréal no Brasil realizou uma mobilização histórica em sua sede, no Rio de Janeiro, em prol da dignidade e do reconhecimento da identidade de gênero. Como parte das ações do Mês da Visibilidade Trans, a companhia promoveu o mutirão “Meu Nome de Verdade”, permitindo que colaboradores e parceiros realizassem, de forma gratuita, a retificação de nome e gênero em documentos oficiais.

A ação, desenvolvida em parceria com a Fiocruz, ofereceu suporte completo para até 150 pessoas, incluindo o custeio de transporte, alimentação, subsídio para emissão de documentos e abono de horas. O objetivo central foi remover barreiras burocráticas e financeiras que dificultam o acesso ao direito fundamental à identidade.

Além do mutirão, a sede da empresa recebeu, no período da manhã, o Encontro Regional do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+. O evento reuniu representantes de mais de 60 organizações para debater estratégias de acolhimento e empregabilidade para a população trans. O Grupo L’Oréal no Brasil, que é signatário do Fórum desde 2018, reforçou seu papel na liderança de pautas de impacto social e direitos humanos.

A agenda de 2026 trouxe ainda avanços significativos nos benefícios internos da companhia. Entre as novidades estão o lançamento da Mentoria TRANSformar, voltada para o desenvolvimento de carreira de talentos trans e não binários, e a implementação de um auxílio financeiro para o processo de hormonização de colaboradores e estagiários.

Para o Grupo L’Oréal no Brasil, essas iniciativas refletem uma cultura organizacional onde o respeito é prioridade. Atualmente, 17% do quadro de colaboradores da empresa se identifica como parte da comunidade LGBTQIAPN+, um reflexo do compromisso contínuo com a construção de um ambiente de trabalho seguro e plural.

Mundo Negro se une ao TikTok em reconhecimento à ancestralidade negra na alimentação sustentável

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O nutricionista Rafa Bastos e a Chef Solange Borges ( Foto: montagem/Ia)

O Brasil foi escolhido pelo TikTok para inaugurar a campanha global #IngredientePrincipal e a escolha diz muito sobre a relação dos brasileiros com a comida. Com um investimento de R$ 2,7 milhões, o projeto une tecnologia, educação e impacto social para democratizar o acesso à informação sobre alimentação saudável, dentro e fora das comunidades. E vai muito além do digital: em parceria com a Ação da Cidadania, o TikTok prevê a inauguração em 2026 de um hub físico em São Paulo, com cozinha solidária, escola de gastronomia, banco de alimentos e um eixo de criação de conteúdo integrado ao espaço, onde empreendedores poderão ampliar o alcance do seu trabalho e gerar mais inclusão econômica.

Para Handemba Mutana Diretor de Responsabilidade Social da plataforma, o TikTok é mais do que entretenimento. “A comunidade do TikTok é extremamente engajada e já demonstrou seu impacto no mundo real em outros momentos, como no grande fenômeno mundial BookTok, que faz livros se tornarem bestsellers. Ao fundir o poder do engajamento digital com ações sociais concretas, transformamos o online em algo tangível, que irá se refletir em refeições servidas, educação prática e oportunidades geradas”, afirma. Segundo ele, hashtags como #Comida, #Gastronomia e #Alimentação já somam mais de 10 milhões de publicações no TikTok, o que torna o Brasil um terreno natural para dar o start dessa conversa global.

É nesse contexto que o Mundo Negro, com o suporte do Guia Black Chefs, entra como parceiro estratégico da campanha, produzindo uma série exclusiva de vídeos com profissionais negros que são referência na gastronomia e nutrição brasileira. “Colocar criadores negros como protagonistas nessa conversa é um reconhecimento da riqueza e profundidade de suas tradições culinárias e da influência direta disso na culinária brasileira contemporânea”, reforça Handemba.

“Pessoas negras têm voz, repertório e conhecimento. Esta não é a nossa primeira parceria com o TikTok, mas é a que mais irá amplificar nosso talento e excelência na gastronomia e nutrição para um grande número de pessoas. Serão ao todo 200 conteúdos assinados pela curadoria do Mundo Negro”, afirma Silvia Nascimento (@silvia_nascimentoo), CEO e Head de Conteúdo do Mundo Negro.

@sitemundonegro

O #IngredientePrincipal é a história que cada corpo carrega. Essa é a dica do nutricionista baiano Rafa Bastos (@Rafa Bastos Nutri ). Para ele, antes de falar sobre dieta ou hábitos alimentares, a gente precisa entender quem a gente é.

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A série tem início em 20 de fevereiro e reúne nomes como o chef e assistente social Edson Leite, fundador da Gastronomia Periférica e premiado internacionalmente; a cozinheira ancestral Iyá Sônia Oliveira, idealizadora do Yeyê Bistrô e premiada na PowerList 2025 do Mundo Negro; o nutricionista Saulo Gonçalves, o Saulo Nutri, conhecido por desmistificar a alimentação saudável com humor e consciência; a chef baiana Manuela Gomes, a Chef Mannu Bombom, referência na culinária afro-baiana; o afrochef Ronaldo Assis, da Larô Gastronomia Afro-Diaspórica; a pesquisadora e nutricionista Bruna Crioula, especialista em alimentação numa afroperspectiva; a chef cearense Marina Araújo, vencedora do Que Seja Doce; o confeiteiro Allan Mamede, também campeão do Que Seja Doce; a cozinheira Solange Borges, criadora do Culinária de Terreiro; o chef Lucas Amancio, do projeto Maniva; o chef pernambucano Bruno, o Preto na Cozinha; o gastrólogo quilombola Joélho Caetano, da Sorvete Caetanos; o nutricionista Rafa Bastos; a chef Bianca Oliveira, da Casa do Dendê; a matrigestora Mestra Kelma Zenaide, da Kitutu Gastronomia Afro-brasileira; e o cozinheiro Gerson Fernandes.

Acompanhe a série completa no perfil do Mundo Negro no TikTok (@sitemundonegro) e no Guia Black Chefs (@guiablackchefs).

#IngredientePrincipal #TheMainIngredient

Gastronomia ancestral e o protagonismo das mulheres negras

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Foto: Divulgação

Por: Chef Mannu Bombom

A gastronomia ancestral de herança africana ocupa um lugar central na formação cultural, social e econômica do Brasil. Mais do que um conjunto de receitas, ela representa um sistema de saberes construído ao longo do tempo, transmitido de geração em geração, principalmente por mulheres negras. Esses conhecimentos, muitas vezes aprendidos fora dos espaços formais de ensino, moldaram práticas alimentares, identidades e trajetórias profissionais que seguem influenciando o presente.

Ao analisar a culinária brasileira, é possível reconhecer com clareza a presença desses saberes ancestrais. O uso de ingredientes como azeite de dendê, coco, feijões, raízes, folhas e especiarias, assim como o respeito ao tempo de preparo e à coletividade, revela uma herança africana profundamente enraizada. Esses elementos não apenas estruturaram a cozinha nacional, mas também formaram modos de cozinhar que carregam memória, espiritualidade e pertencimento.

A transmissão desses conhecimentos sempre esteve fortemente ligada às mulheres. Mães, avós e outras referências femininas foram responsáveis por ensinar não apenas técnicas culinárias, mas também valores associados ao alimento, como cuidado, partilha, resistência e respeito à ancestralidade. Esse aprendizado, muitas vezes invisibilizado e desvalorizado, foi essencial para a formação de inúmeras cozinheiras e profissionais da gastronomia, que hoje reconhecem nesses saberes a base de sua atuação.

Na minha trajetória, assim como na de muitas mulheres ao meu redor, esses ensinamentos ancestrais foram determinantes para a construção do olhar, do paladar e da forma de compreender a cozinha. Aprender observando, repetindo gestos e respeitando os ensinamentos transmitidos ao longo do tempo foi o que possibilitou tornar-me a cozinheira que sou hoje. Esse mesmo processo formou outras mulheres próximas, criando um ciclo contínuo de aprendizado, troca e fortalecimento coletivo.

Esses saberes não permanecem restritos ao passado ou ao ambiente doméstico. Na contemporaneidade, eles se transformaram em ferramentas concretas de geração de trabalho, renda e autonomia. Muitas mulheres negras passaram a transformar o conhecimento herdado em empreendimentos gastronômicos, atuando em feiras populares, eventos culturais, restaurantes, serviços de alimentação e produções artesanais. A culinária ancestral, nesse contexto, deixa de ser apenas herança cultural e passa a ser também estratégia de sobrevivência e desenvolvimento econômico.

O empreendedorismo feminino negro na gastronomia tem impacto direto na economia local. Esses negócios movimentam cadeias produtivas que envolvem agricultores familiares, pescadores, feirantes e pequenos produtores, fortalecendo territórios historicamente marginalizados. Ao empreender a partir de saberes ancestrais, essas mulheres acessam o mercado com identidade, autenticidade e valor cultural agregado, ressignificando o lugar da cozinha como espaço de conhecimento, inovação e poder econômico.

Outro aspecto relevante é o reconhecimento social dessas mulheres como detentoras de saberes legítimos. Ao ocuparem espaços de visibilidade e liderança, cozinheiras negras rompem com a lógica histórica que relegava seus conhecimentos à informalidade ou ao ambiente doméstico. A gastronomia passa a ser compreendida como campo técnico, cultural e político, capaz de gerar transformação social e fortalecer identidades.

A influência desses saberes também dialoga com demandas contemporâneas, como a valorização da cultura alimentar local, a busca por alimentação mais consciente e o interesse por narrativas de origem. Nesse cenário, a gastronomia ancestral ganha destaque como prática viva, que conecta passado e presente, tradição e inovação. Mulheres negras assumem, nesse processo, o papel de protagonistas, transmissoras de conhecimento e agentes de mudança.

É importante reconhecer que esses saberes ancestrais também influenciam a forma como muitas mulheres negras se posicionam no mundo do trabalho. A experiência acumulada na cozinha, aliada à memória afetiva e cultural, fortalece a autoconfiança e amplia a percepção de valor sobre o próprio conhecimento. Ao compreender que aquilo que foi aprendido de forma oral e prática possui legitimidade histórica e técnica, essas mulheres passam a se reconhecer como profissionais, empreendedoras e formadoras de opinião.

Além disso, a gastronomia ancestral cria redes de apoio e pertencimento entre mulheres. O compartilhamento de saberes, receitas e experiências constrói ambientes de troca que fortalecem trajetórias coletivas. Muitas histórias profissionais não se desenvolvem de forma isolada, mas a partir da inspiração mútua, do incentivo e da observação entre mulheres que compartilham vivências semelhantes. Esse movimento garante a continuidade da tradição e amplia o impacto social e econômico da culinária de matriz africana.

Apesar dos avanços, mulheres negras empreendedoras da gastronomia ainda enfrentam desafios estruturais, como acesso limitado a crédito, formalização, infraestrutura e políticas públicas específicas. No entanto, iniciativas de apoio ao empreendedorismo negro, redes colaborativas e programas de valorização da cultura alimentar têm ampliado possibilidades, reconhecendo esses saberes como ativos estratégicos para o desenvolvimento econômico e cultural.

Dessa forma, a gastronomia ancestral de herança africana revela-se não apenas como patrimônio cultural, mas como força viva que molda trajetórias, forma profissionais e gera impacto social. Ao analisar esse percurso a partir da vivência pessoal e da observação de outras mulheres, torna-se evidente que esses saberes continuam sendo fundamentais para a construção de autonomia, identidade e futuro para mulheres negras na gastronomia brasileira.


Texto: Chef Mannu Bombom – soteropolitana, 40 anos, cozinheira baiana e referência na valorização da culinária afro-baiana. Sua trajetória na cozinha começou ainda na infância, a partir dos saberes transmitidos pelas mulheres de sua família, onde aprendeu que cozinhar é um ato de memória, afeto e resistência. Possui formação em Gastronomia pelo Instituto Gastronômico das Américas (IGA) e segue em formação pelo Centro Universitário Cruzeiro do Sul.

Reconhecida por sua cozinha autoral, é criadora da coxinha de vatapá, prato premiado pelo programa Panela de Bairro, da TV Bahia, em 2025. Suas receitas refletem a fusão entre criatividade, influências familiares e as descobertas adquiridas em viagens, bares e restaurantes, sempre exaltando os sabores da culinária afro-baiana.

Há cerca de cinco meses, inaugurou o restaurante Sabores do Recôncavo, na tradicional Feira de São Joaquim, em Salvador, onde oferece a famosa coxinha de vatapá e outras delícias que celebram a cultura alimentar da Bahia. Além do restaurante, atua com buffet e eventos, utilizando a gastronomia como instrumento de valorização cultural e fortalecimento do empreendedorismo negro.

*Esse conteúdo é fruto de uma parceria entre Mundo Negro e Feira Preta

Caso Miguel: Sari Corte Real passa férias na Europa com os filhos e Mirtes Renata critica justiça: “Condenada, mas segue livre”

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Fotos: Reprodução/Redes Sociais

Nesta quarta-feira (18), Mirtes Renata utilizou suas redes sociais para expressar indignação com a justiça e o privilégio de Sari Corte Real, que mesmo após ter sido condenada a sete anos de prisão pela morte de seu filho Miguel Otávio, de 5 anos, passou as férias de fim de ano em Portugal com a família.

A ex-primeira-dama de Tamandaré (PE), que agora busca ser chamada apenas por seu segundo nome, Mariana, teve suas fotos circulando nas redes sociais, desfrutando de momentos de lazer na Europa, enquanto o processo segue em fase de recursos.

“Sari segue vivendo sua vida normalmente. Viaja, tira férias na Europa com seus filhos, faz planos, segue sorrindo. E eu? Eu nunca mais poderei viajar com Miguel. Nunca mais poderei mostrar o mundo a ele. Meu filho sequer teve a chance de conhecer plenamente a terra onde nasceu”, desabafou Mirtes.

Embora a condenação de sete anos de prisão tenha ocorrido em 2023 e sido mantida em julho de 2025, a defesa de Sari Corte Real ingressou com um novo recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o que adia o início do cumprimento da pena até o trânsito em julgado.

Mirtes, ex-empregada doméstica e bacharel em Direito, pede apoio aos seguidores para que pressionem o Tribunal de Justiça de Pernambuco diante da morosidade. “Ela foi condenada, mas segue livre, recorrendo em liberdade. Eu não fui condenada por tribunal algum, mas cumpro prisão perpétua na ausência do meu filho. Isso é justiça?”, lamenta.

Relembre o caso

O crime ocorreu em junho de 2020, durante a pandemia de covid-19. Mirtes, então empregada doméstica na casa de Sari no Recife, saiu para passear com o cachorro da família e deixou Miguel sob os cuidados da patroa. Imagens de segurança mostraram a ex-primeira-dama permitindo que o menino entrasse sozinho no elevador, apertando o botão de um andar superior e abandonando a criança no equipamento. Miguel se perdeu e caiu do nono andar do prédio de luxo.

Colégio Objetivo demite porteiro que denunciou racismo de alunos; instituição nega vínculo com o caso

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Fotos: Divulgação/Colégio Objetivo; e Reprodução/EPTV

O Colégio Objetivo Barão Geraldo, em Campinas (SP), negou que o desligamento do porteiro Rodnei Ferraz tenha ocorrido como retaliação à denúncia de racismo feita pelo profissional contra alunos da instituição. O caso, ocorrido em dezembro de 2025 e que veio a público nesta semana, está sob investigação da Polícia Civil e do Ministério Público do Trabalho (MPT), que apuram tanto o crime de injúria racial quanto a conduta administrativa da escola.

Segundo o boletim de ocorrência, Ferraz relatou ter sido alvo de ofensas desumanizantes proferidas por três estudantes do Ensino Médio. Ao tentar conter uma desordem no banheiro da unidade, o funcionário teria sido chamado de “negro sujo”, “macaco” e “sub-raça”. Segundo o depoimento da vítima, um dos adolescentes teria confrontado sua autoridade afirmando que “pagava o seu salário”, reforçando um recorte de classe e raça no conflito. Rodnei, que possui duas décadas de experiência no setor, descreveu o episódio como um momento de profunda impotência e constrangimento.

O desligamento do porteiro, que trabalhava na unidade desde agosto de 2025, ocorreu pouco tempo após ele reportar o incidente à direção, gerando questionamentos sobre a transparência da instituição. Em nota, o Colégio Objetivo afirmou que a demissão foi uma decisão administrativa comum, sem nexo causal com o episódio de racismo: “atitudes indisciplinares de alunos são analisadas com rigor e proximidade”.

O colégio também afirma que realizou uma apuração interna com alunos, colaboradores e famílias. Os alunos envolvidos no crime negaram qualquer ato racista.

Atualmente, o caso segue em duas frentes jurídicas a esfera criminal, que busca identificar e responsabilizar os autores das ofensas, e a esfera trabalhista, que analisa se a rescisão contratual de Rodnei Ferraz configurou uma demissão discriminatória ou retaliatória. Enquanto o colégio reforça seu papel social e o empenho em colaborar com as autoridades, a defesa do porteiro busca reparação pelo dano moral sofrido no exercício de sua função.

Veja a nota do Colégio Objetivo na íntegra:

“O Colégio Objetivo Barão Geraldo repudia qualquer ato de racismo e todo tipo de preconceito. Os valores da escola estão respaldados na formação humana, tratada como um importante pilar no desenvolvimento dos alunos.

Trabalhos assíduos são realizados, desde a Educação Infantil, até o Ensino Médio, para a construção e o fortalecimento de princípios como respeito, empatia, convivência e responsabilidade social em diversas disciplinas e eventos.

Atitudes indisciplinares de alunos são analisadas com rigor e proximidade. Em ações que desrespeitam regras, seguimos o nosso regimento interno em que, dependendo de cada situação, o aluno pode receber uma advertência, suspensão ou até mesmo expulsão, se constatado a necessidade e respeitado o caráter pedagógico.

Em relação ao fato objeto da matéria jornalística, a escola faz os seguintes esclarecimentos:

  • Rodnei Ferraz trabalhava como porteiro na unidade desde o dia 1/8/2025;
  • O tema foi tratado com extrema cautela, profunda atenção e seriedade uma vez que envolve menores de idade, por isso, a escola fez contato com os alunos envolvidos, colaboradores e com as famílias;
  • A acusação do funcionário foi apurada internamente, tendo os alunos negado a prática de qualquer ato racista;
  • O desligamento do funcionário não teve qualquer ligação com os fatos.

Reforçamos nosso papel social e empenho em lidar com a situação de forma ética e com profissionalismo. A escola está contribuindo com as autoridades competentes”.

Homem é condenado por racismo religioso após atacar terreiro de candomblé no Pará

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Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

A Justiça do Pará condenou o aposentado Arlindo Augusto dos Santos Meirelles por racismo religioso após ataque a um terreiro de candomblé em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém. O réu foi condenado a 1 ano, 7 meses e 25 dias de reclusão, além de multa, em regime inicial aberto, com direito de recorrer em liberdade.

Segundo a sentença, o réu abordou praticantes durante a realização de um ritual em via pública, em frente ao terreiro Ilê Iyá Omí Asé Ofá Lewá, proferindo ofensas de cunho discriminatório. Ainda de acordo com os autos, ele lançou um balde de água sobre objetos sagrados e símbolos dos orixás, interrompendo o culto e constrangendo publicamente os participantes.

Para a Justiça, a conduta teve motivação religiosa e não se limitou a um suposto conflito pessoal ou incômodo com a realização do culto, ficando caracterizado o viés discriminatório da ação. A decisão reconhece que os atos configuram crime e violam o direito constitucional à liberdade religiosa.

O caso foi acompanhado pelo Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (IDAFRO). Para o advogado e presidente da entidade, Hédio Silva, a decisão fortalece a jurisprudência no enfrentamento ao racismo religioso. “A sentença reafirma que impedir ou perturbar rituais, ofender símbolos sagrados e constranger pessoas por causa de sua religião caracteriza racismo religioso. Trata-se de uma violação direta à Constituição e à legislação penal, que exige resposta institucional e responsabilização”, afirmou.

O episódio ocorreu em 2022 e teve repercussão entre lideranças religiosas e organizações de direitos humanos. Segundo Dr Hédio, “decisões como essa contribuem para o fortalecimento da proteção às religiões de matriz africana e para o enfrentamento de práticas discriminatórias ainda recorrentes no país”, concluiu.

Nobreza Globeleza: o encontro das mulheres que viraram referência do Carnaval na televisão

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Foto: Pedro Napolinário

O Carnaval brasileiro é, em sua gênese, uma tecnologia de liberdade e um prolongamento dos terreiros para o asfalto. Muito antes de ganhar as telas, ele foi gestado no silêncio dos Abaçás e na resistência dos corpos negros que se recusavam à invisibilidade. É uma celebração que herda e reencena a cosmogonia dos Orixás: a dança é o Alujá de Xangô, a beleza é o Abebé de Oxum que reflete a dignidade reconquistada, e a força é o Iruquerê de Oxóssi que garante a propagação da nossa cultura.

A avenida, nesse sentido, é o Xirê em escala monumental. O samba é a orquestração do Ogã, onde o rufar dos tambores, o atabaque que se fez bateria, convoca a ancestralidade para o tempo presente. É dentro dessa liturgia de tambor e suor que a figura da Globeleza se insere. Ela não é meramente uma personagem da cultura de massas, mas uma entidade estética que ocupou, por décadas, o lugar de anúncio visual de um “estado de espírito” nacional.

A história é viva, e como todo organismo vivo, ela exige que as narrativas amadureçam. A TV Globo entendeu que o olhar sobre a mulher negra na mídia precisava mudar de tom: sair do espetáculo visual para o reconhecimento do legado. O projeto “Nobreza Globeleza” é o desdobramento natural desse processo de escuta. É o momento em que a imagem ganha voz, corpo e ancestralidade, transformando a campanha em um marco de memória e continuidade cultural. Em um diálogo com o portal Mundo Negro, ficou nítido que, para essas mulheres, o corpo nunca foi apenas imagem, mas um território de afirmação política.

Em um diálogo com o portal Mundo Negro, ficou nítido que, para essas mulheres, o corpo nunca foi apenas imagem, mas um território de afirmação política. 

Falar de Valéria Valenssa é falar de um Brasil que aprendia a se olhar. Ela foi a pioneira que, com um sorriso, rompeu o silêncio de uma tela que raramente celebrava a pele negra com tamanha majestade. Ao revisitar sua história, Valéria transborda uma emoção profunda ao abraçar a jovem que, aos 18 anos, colocou o corpo à disposição de um país inteiro, consciente de que “quando eu gravava, eu sabia justamente que tinha milhões de pessoas do outro lado da câmera. Então o meu olhar, o meu sorriso… tinha todo esse histórico de identidade e ancestralidade”. Para ela, aquela Valéria jovem teve a coragem necessária para ocupar um lugar de fala que hoje representa todas as meninas que ela vê.

Aline Prado trouxe ao posto uma doçura magnética no olho do furacão de um Brasil que começava a questionar as formas de representação. Sua força vinha da preservação da criança que via o Carnaval como casa, escolhendo proteger a alegria como sua maior ferramenta de resistência. Aline recorda com saudade da “inocência com que eu sempre encarei o Carnaval… era uma parte comum da minha vida”, admitindo que, por causa dessa pureza, inicialmente não enxergava as problemáticas da hipersexualização, pois “a personagem que eu criei, a minha Globeleza, era a alegria do Carnaval chegando” — uma pauta que hoje ela amadurece com amor e afeto.

Nayara Justino é o brilho da noite carnavalesca. Sua eleição foi um grito de vanguarda que forçou o país a encarar a potência de sua imagem. Há uma força quase visceral em sua trajetória; Nayara sentiu os desafios de ser um marco estético e político. Hoje, com a autoridade de quem venceu barreiras invisíveis, ela deixa um recado que é puro fôlego para as meninas que o mundo tenta silenciar: “O que eu digo para as meninas pretas é que não desistam. Sei o quanto é difícil em todas as áreas pra gente… pra mulher preta é muito difícil, mas para nós é muito mais difícil. Então, pode parecer clichê, mas é verdade: não desistam, se esforcem o dobro. […] Não deixem de sonhar nunca”.

Érika Moura é a síntese da mulher contemporânea que pisa firme. Vinda do chão sagrado da escola de samba, trouxe para a tela o suor e a técnica de quem entende que a nobreza não é um presente, mas uma conquista diária. Ao despir-se do glamour, Érika revela a vulnerabilidade e o esforço monumental por trás do brilho, provando que seu sorriso é um gesto de bravura: “O pessoal vê todo o glamour, né? Mas não vê as horas de gravação… a gente ali fica ansiosa, nervosa, pensando que tem que entregar o melhor. No samba a gente chora, a gente briga, mas a gente esconde: sorri, entrega o carisma, o carão. O sorriso entrega a força mesmo no samba”.

A força desse encontro revela que a Globeleza nunca foi uma imagem estática, mas um território de poder ocupado por mulheres que fizeram de sua presença uma afirmação cultural. O “estado de espírito” que hoje celebramos não é uma abstração; ele pulsa na memória e no afeto de quem sustentou a majestade negra diante de um país inteiro.

Ao olharmos para a trajetória de cada uma delas, a gente entende que cada sorriso ali na frente das câmeras foi, na verdade, um gesto de generosidade e um jeito de dizer “eu estou aqui”. Este é um tributo à ancestralidade que caminha e à alma de mulheres que não apenas deram vida a um ícone, mas que fundaram a nossa identidade afetiva, provando que a verdadeira nobreza do Carnaval nasce do respeito profundo a quem abriu os caminhos e nos ensinou a sonhar.

Tudo isso ganha um sentido ainda mais profundo quando a gente olha para quem está no comando desse movimento. Samantha Almeida, diretora de marketing da Globo, traz para o projeto não apenas a liderança, mas a própria pele e a memória de quem cresceu assistindo a essas mulheres. Para ela, o “Nobreza Globeleza” não é sobre diversidade como pauta, mas sobre a verdade de quem sabe que essas trajetórias fundaram a nossa autoestima.

É um reconhecimento que vem do coração e que Samantha resume com a força de quem se enxerga em cada uma delas:

“Para muitas mulheres, especialmente mulheres negras como eu, elas foram referência de beleza, orgulho e pertencimento em um tempo em que diversidade ainda não era pauta. Hoje, elas fazem parte dessa roda de bambas, dessa memória afetiva coletiva, sendo homenageadas não como passado, mas como símbolos vivos da nossa história cultural. Nesta campanha, existe um reconhecimento muito genuíno com o público, porque eu não me sinto falando com ele, eu me sinto sendo esse público.”

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