“O axé é força, mas ele também é ética”: Ernesto Xavier fala sobre seu livro e religiões de matriz africana enquanto conteúdo nas redes

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“O axé é força, mas ele também é ética”: Ernesto Xavier fala sobre seu livro e religiões de matriz africana enquanto conteúdo nas redes
Foto: Divulgação

Ernesto Xavier cresceu dentro de um terreiro. Aos oito anos, foi iniciado como Ogã de Oyá. Essa experiência atravessa tudo que ele escreve, pesquisa e fala. Em Na trilha dos orixás: sabedoria ancestral e caminhos de axé no mundo contemporâneo, lançado pela Editora Goya, selo de não ficção da Aleph, o jornalista, ator, roteirista e mestre em Antropologia pela UFF parte da mitologia dos orixás para falar do que é mais cotidiano e urgente: amor, poder feminino, masculinidades, saúde física e mental, perda e luto. Um livro que recusa o exotismo e reposiciona as tradições de matriz africana como sistemas de pensamento vivos, complexos e profundamente conectados à vida de hoje.

Em entrevista ao Mundo Negro, Xavier fala sobre os riscos do espiritualismo de vitrine nas redes sociais, sobre o orixá que atravessa sua história de forma mais pessoal e sobre o que significa escrever a partir de quem aprendeu desde criança que a ancestralidade não ficou no passado.

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RELIGIÃO NÃO É TENDÊNCIA

O bem-estar virou mercado. E as religiões de matriz africana entraram nesse circuito. Para Xavier, isso exige atenção. “As religiões de matriz africana não devem ser uma tendência de bem-estar, porque não é um produto, não é um atalho social, não é uma estética para rede social. É uma tradição, é um senso de comunidade, é um fundamento. Tem muita responsabilidade.”

Ele reconhece o papel das redes na divulgação e no combate ao preconceito, mas aponta o risco da superficialidade. “Às vezes tudo acaba virando conteúdo, tudo vira promessa, uma evolução rápida, às vezes vira muita performance. Isso é muito perigoso. As religiões de matriz africana não funcionam desse jeito. Elas são construídas no tempo, na convivência, no chão de terreiro, no respeito aos mais velhos, na escuta, no cuidado, no compromisso.”

Para saber em quem confiar, ele propõe um olhar atento à postura de quem fala. “Essa pessoa respeita a tradição? Ela tem vínculo com uma casa? Ela reconhece os seus limites como um ser humano que erra? Ela fala com responsabilidade? Ela não transforma orixá em mercadoria? Ela promete uma cura milagrosa, uma salvação imediata, uma solução mágica para os problemas?” São sinais de alerta, diz ele. E vai além: “Religião de matriz africana não pode ser usada para manipular, ameaçar, explorar ninguém. Tem vídeos que mostram esse tipo de atitude. Isso me preocupa demais. Porque o axé é força, mas ele também é ética.”

Capa da obra: Na trilha dos orixás de Ernesto Xavier – Foto: Divulgação

A confiança, para Xavier, se constrói no tempo. “Com a trajetória que aquela pessoa está mostrando, se ela tem coerência, se ela tem esse senso de comunidade, principalmente se ela tem respeito com os fundamentos. Essas tradições são muito profundas e sagradas. É muito difícil você colocar tudo isso em vídeos de poucos segundos.”

OYÁ, A FORÇA QUE NÃO DEIXA A VIDA ENDURECER

Entre todos os orixás que aparecem no livro, há um que carrega um peso diferente para o autor. “Tenho um carinho muito especial por Oiá, que também conhecem como Inhansã, e não tem como ser diferente, porque a minha história passa por ela de uma maneira muito profunda. Minha avó Chica Xavier era uma mulher de Oiá, minha irmã Luana Xavier é uma mulher de Oiá, e eu fui iniciado ainda criança, com oito anos de idade, com o Ogã de Oiá.”

Para Xavier, Oiá fala diretamente com o presente. “É uma força que me lembra que a vida não é parada, que eu preciso aprender a atravessar as mudanças, as perdas, as rupturas, ter muitos renascimentos. Isso para mim é muito contemporâneo.” Ele a descreve como “essa força ancestral que não deixa a vida endurecer. Ela se desloca, ela sacode, ela abre caminho. Ao mesmo tempo, uma força ligada à coragem diante da morte, diante do invisível, diante daquilo que muita gente prefere não encarar.”

Essa visão também define o livro. “As histórias dos orixás não são histórias distantes da gente, elas não estão presas no passado. Elas continuam falando com a gente agora. Ali se fala muito de amor, de poder, de medo, de cuidado, de comunidade, luto, saúde, desejo, pertencimento.” E conclui: “Oiá especialmente me ensina, e eu tento trazer isso nas páginas do livro, que a transformação é um axé poderosíssimo. Mudar pode ser doloroso, mas também pode ser libertador.”

Na trilha dos orixás: sabedoria ancestral e caminhos de axé no mundo contemporâneo, de Ernesto Xavier, está disponível nas livrarias pelo preço de capa de R$ 54,90. Publicado pela Editora Goya, selo de não ficção da Aleph.

Entrevista realizada por Silvia Nascimento, Head de Conteúdo do Mundo Negro.

Foto: Divulgação

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