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Zezé Motta completa 82 anos: relembre 10 papéis marcantes de sua carreira

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Foto: Globo/Manoella Mello

Zezé Motta completa 82 anos em 27 de junho. Relembre 10 personagens que definiram sua trajetória no cinema e na TV, de Xica da Silva a A Nobreza do Amor.

Zezé Motta completa 82 anos nesta sexta-feira, 27 de junho de 2026, consolidada como uma das artistas mais importantes da história do audiovisual brasileiro. Com carreira iniciada nos palcos em 1967 e estreia na televisão em 1968, a atriz e cantora natural de Campos dos Goytacazes acumulou mais de 70 filmes, 50 produções para a TV e mais de dez discos, construindo uma trajetória que atravessou ditadura militar, redemocratização e transformações profundas na representação de pessoas negras nas telas brasileiras.

O marco central da carreira veio em 1976, quando Zezé protagonizou “Xica da Silva”, dirigido por Cacá Diegues. O filme levou mais de três milhões de espectadores aos cinemas, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema brasileiro e garantiu à atriz o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Brasília, além do Coruja de Ouro, o Prêmio Air France e o Prêmio Governador do Estado. A repercussão internacional do longa projetou o nome de Zezé para além das fronteiras do país e estabeleceu um ponto de referência incontornável para discussões sobre protagonismo negro e representação de mulheres negras no cinema nacional.

Ao longo de mais de cinco décadas, Zezé construiu um repertório de personagens que ora desafiaram os limites impostos ao audiovisual negro brasileiro, ora revelaram as contradições de uma indústria que tardou a oferecer papéis à altura de seu talento. Algumas de suas principais obras mostram como a atriz atravessou gêneros, emissoras e décadas sem abrir mão de personagens com profundidade narrativa.

Shirley em Vai Trabalhar, Vagabundo
Cinema, 1973

Foto: reprodução

Doméstica da Zona Sul que cruza o caminho do malandro Dino no Jockey Club e movimenta o enredo da comédia dirigida por Hugo Carvana, com trilha de Chico Buarque. O filme venceu o Festival de Gramado na categoria Melhor Filme.

Xica da Silva em Xica da Silva
Cinema, 1976

Foto: reprodução

Mulher escravizada que conquista a alforria ao seduzir o contratador de diamantes João Fernandes e ascende socialmente na Minas Gerais do século XVIII. O filme levou mais de três milhões de espectadores aos cinemas e rendeu a Zezé o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Brasília.

Dandara em Quilombo
Cinema, 1984

Foto: reprodução

Companheira de Zumbi dos Palmares e figura central da resistência negra no Quilombo dos Palmares do século XVII. A produção, co-realizada com a França, foi selecionada para a disputa da Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Sônia em Corpo a Corpo
TV Globo, 1984

Foto: reprodução

Arquiteta de classe média bem-sucedida que se envolve romanticamente com um homem branco, filho de um milionário. A trama de Gilberto Braga foi a primeira no horário nobre da Globo a colocar um relacionamento inter-racial no centro da narrativa.

Fátima em A Próxima Vítima
TV Globo, 1995

Foto: reprodução

Matriarca de uma família negra de classe média alta em Copacabana. A novela foi pioneira ao apresentar esse perfil familiar no horário nobre brasileiro, algo raro na dramaturgia nacional até então.

Conceição em Orfeu
Cinema, 1999

Foto: reprodução

Personagem do filme que transpôs o mito grego para o Carnaval do Rio de Janeiro contemporâneo, com direção de Cacá Diegues e elenco que reuniu parte dos maiores nomes do cinema brasileiro dos anos 1990.

Carolina Maria de Jesus em Carolina
Cinema, 2003

Foto: reprodução

Interpretação da escritora autora de “Quarto de Despejo” no curta de Jeferson De, premiado no Festival de Gramado e ponto de partida de uma parceria entre a atriz e o diretor que resultou nos longas “Bróder” (2010) e “M8: Quando a Morte Socorre a Vida” (2019).

Nair em 3%
Netflix, 2016

Foto: divulgação

Personagem presente em todas as temporadas da primeira série brasileira produzida pela Netflix, distopia que alcançou audiência em mais de 190 países e tornou-se a série de língua não inglesa mais assistida nos Estados Unidos durante parte de sua exibição.

Ilza em M8: Quando a Morte Socorre a Vida
Cinema, 2020

Foto: divulgação

Personagem do filme dirigido por Jeferson De que acompanha a trajetória de um jovem negro calouro de medicina em uma universidade federal. Zezé foi indicada ao Grande Prêmio Brasileiro de Cinema na categoria Melhor Atriz Coadjuvante pela atuação. O longa entrou para o catálogo da Netflix em 2021 e figurou entre os mais assistidos no Brasil na plataforma.

Dona Menina em A Nobreza do Amor
TV Globo, 2026

Foto: divulgação

Benzedeira e parteira de Barro Preto, no Nordeste, figura de sabedoria e referência espiritual da comunidade na novela das seis ambientada entre o reino fictício africano de Batanga e o interior brasileiro, com elenco majoritariamente negro.

‘Pense Minha Cor’: plataforma digital une psicologia antirracista, suporte jurídico e afroturismo no Maranhão

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Psicólogos Rômulo Mafra e Luara Matos sorriem em foto.
Foto: Divulgação

Com a proposta de oferecer acolhimento e cuidado especializado para a população negra no cenário da saúde mental, foi lançada nesta semana em São Luís (MA), a plataforma digital do projeto ‘Pense Minha Cor’. O hub de inovação negra idealizado pelos psicólogos maranhenses Rômulo Mafra Cruz e Luara Matos, nasce da urgência de estruturar uma abordagem terapêutica com consciência racial, capaz de acolher os impactos psicossociais do racismo sem invalidar o sofrimento clínico dos pacientes.

Além dos profissionais de saúde mental (psicólogas, psiquiatras e psicoterapia), a iniciativa ainda propõe integração com outros profissionais como advogadas, contabilidade, educação, eventos e afroturismo. Todos os atendimentos feitos por profissionais negros e indígenas, com valores acessíveis.

“O ponto de partida é admitir que a psicologia, enquanto ciência e profissão, tem uma dívida com a população negra”, afirmam os fundadores em entrevista ao Mundo Negro. “A falta de referências negras e indígenas durante a formação (não por falta delas) fez por muito tempo com que prática e teoria se afastasse do povo que mais precisa de assistência devido ao histórico de violências do país”, destacam.

Rompendo com esse distanciamento, os idealizadores ressaltam que a prática da plataforma é respaldada pelas diretrizes éticas do Conselho Federal de Psicologia (CFP), como as resoluções que estabelecem normas de atuação contra o preconceito racial e vedam práticas de racismo religioso. Para Rômulo Mafra Cruz, a importância de pautar essas normativas ganha um contorno ainda mais significativo por sua própria trajetória. “Estou conselheiro federal de psicologia — o primeiro homem negro Rasta e maranhense da história”, afirmou.

Embora seja uma das três cidades com maior proporção de pessoas negras no país, a capital maranhense ainda reflete profundas marcas de desigualdade social. Segundo os psicólogos, a realidade local é marcada por micro e macroagressões cotidianas que comprometem a saúde mental coletiva. A proposta, portanto, visa descentralizar o acesso à saúde mental de qualidade, oferecendo atendimento acessível para comunidades em situação de vulnerabilidade, ao mesmo tempo em que valoriza e remunera dignamente psicólogas afro-brasileiras e indígenas.

Um dos grandes diferenciais da Pense Minha Cor é a compreensão de que o enfrentamento a um problema estrutural como o racismo exige estratégias multidisciplinares. Diante da histórica dificuldade de acesso a direitos básicos por parte da população negra, a plataforma uniu o cuidado da mente à defesa legal. Os resultados dessa articulação já começam a se consolidar na prática. “Recentemente, tivemos uma vitória judicial de um caso de racismo, através de advogados que atuam no site”, celebraram os fundadores.

O fortalecimento da autoestima também ganham destaque por meio de roteiros afrocentrados. Em uma parceria com a empresa Cidade Griot, idealizada pelo professor Marcelo Cardoso — guia credenciado, mestrando em Estudos Africanos e Afro-Brasileiros pela UFMA e uma das principais referências do setor no país —, a plataforma aposta no afroturismo como ferramenta terapêutica.

“Nosso trabalho com o afroturismo tem como pilares a educação, a valorização da memória e a reparação histórica, promovendo experiências que evidenciam a riqueza da história, da cultura e dos patrimônios afro-brasileiros e indígenas, fortalecendo identidades e ampliando o reconhecimento das contribuições da população negra para a formação da sociedade brasileira”, concluem.

Acesso o site para saber mais: www.penseminhacor.com.br

Stonewall: o movimento que deu origem ao dia do orgulho LGBTQIA+

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Foto: reprodução/Barbara Alper

Entenda o que foi o levante de Stonewall em 1969, o papel central da comunidade negra e trans e por que essa história é a origem do Dia do Orgulho LGBTQIA+.

Antes da madrugada de 28 de junho de 1969, a vida de pessoas LGBT em Nova York era governada por um sistema de leis e práticas policiais que criminalizavam sua presença em praticamente todo espaço público. Em 49 dos 50 estados americanos, atos homossexuais eram ilegais. Em Nova York, a própria existência de um estabelecimento que servisse bebida a pessoas declaradamente homossexuais infringia as normas do State Liquor Authority. Com base nessa legislação, bares e boates frequentados por pessoas LGBT operavam de forma precária, geralmente controlados pela máfia, que pagava propinas a policiais corruptos e mantinha os frequentadores em uma espécie de chantagem silenciosa. O Stonewall Inn, localizado na Christopher Street, no bairro de Greenwich Village, era um desses lugares.

O bar aceitava qualquer pessoa que a sociedade rejeitava: jovens negros e latinos sem teto, drag queens, mulheres trans, homens gays pobres. Era um dos poucos bares da cidade que permitia dançar e que não exigia que os frequentadores provassem identidade ou demonstrassem ser heterossexuais. De acordo com registros da Biblioteca do Congresso americano, o Stonewall era invadido pela polícia em média uma vez por mês na época. As batidas seguiam um padrão: policiais entravam, revistavam as pessoas, prendiam aquelas que violavam leis que proibiam o uso de roupas do gênero oposto e levavam os funcionários. Os donos eram avisados com antecedência e praticamente não sofriam consequências financeiras. Os frequentadores, não.

A madrugada de 28 de junho

Na madrugada de sexta-feira para sábado, 28 de junho de 1969, oito policiais à paisana entraram no Stonewall pouco após a meia-noite. A operação havia sido planejada para fechar definitivamente o bar, cinco dias depois de uma batida anterior que confiscou estoque de bebidas e prendeu funcionários. Naquela noite, o bar estava lotado. Os policiais começaram a verificar identidades, a prender funcionários e a separar as pessoas travestidas para detenção. Enquanto isso, quem foi liberado não se dispersou. Ficou do lado de fora. A multidão foi crescendo.

O que aconteceu a seguir é documentado por relatos de testemunhas, reportagens publicadas ainda em julho de 1969 no Village Voice e no New York Daily News, e pelos registros policiais tornados públicos em 2009 pelo portal OutHistory a partir de documentos obtidos via Lei de Liberdade de Informação. As versões divergem em detalhes, mas convergem no essencial: a multidão resistiu. Garrafas foram atiradas. Uma viatura foi danificada. Os policiais recuaram para dentro do bar e foram sitiados por horas. A resistência durou seis dias, com confrontos noturnos que se espalharam pelas ruas ao redor de Christopher Street e Christopher Park.

Foto: stonewallcdc.org

O historiador David Carter, autor de Stonewall: The Riots That Sparked the Gay Revolution, identificou o que chamou de hierarquia da resistência naquela noite: quem tinha menos a perder reagiu primeiro. Eram os jovens de rua, os sem-teto, as drag queens negras e latinas que a política gay posterior tentaria apagar da narrativa.

Marsha P. Johnson nasceu em 24 de agosto de 1945, em Elizabeth, Nova Jersey, quinta de sete filhos de uma família negra e trabalhadora. Desde pequena usava roupas femininas, algo que a família reprimia. Aos 17 anos, chegou a Manhattan com 15 dólares e uma bolsa de roupas. Nas ruas de Greenwich Village, construiu uma identidade que ela própria descreveu como a de uma drag queen, uma transvestite e uma pessoa gay, usando os pronomes she/her. O termo transgender ainda não estava em uso comum naquela época. Nas décadas seguintes, historiadores e ativistas passaram a reconhecê-la como mulher trans. Era figura conhecida na comunidade LGBT de Nova York, frequentadora do Stonewall, reconhecível pelos penteados floridos e pelo estilo extravagante que ela mesma criava com achados de brechó.

Foto:Reprodução/Netflix)

Sobre sua participação na madrugada de 28 de junho, Johnson disse em uma entrevista de 1987 ao historiador Eric Marcus que havia chegado ao Stonewall por volta das 2 da manhã, quando a resistência já estava em curso. Relatos de outros presentes, coletados por Carter, descrevem Johnson atirando um copo de shot contra um espelho enquanto gritava que queria seus direitos civis. O próprio Carter observou inconsistências nos registros e especulou que parte da narrativa pode ter sido censurada por ativistas que temiam que creditar uma mulher trans negra como protagonista dos acontecimentos prejudicasse o movimento. Carter a identificou como quase indiscutivelmente entre os primeiros a reagir com violência naquela noite e possivelmente a primeira.

Foto: stonewallcdc.org

Nascida em 2 de julho de 1951 no Bronx, Sylvia Rivera era filha de pai porto-riquenho e mãe venezuelana. Ficou órfã de mãe aos três anos, foi criada pela avó e fugiu de casa aos 11, encontrando abrigo entre drag queens nas ruas do centro de Nova York. Com 17 anos, em junho de 1969, estava nas imediações do Stonewall quando a resistência começou. Rivera afirmou ter jogado o segundo coquetel molotov da noite. Seu papel exato, como o de Johnson, permanece disputado pelos historiadores, com alguns relatos indicando que ela talvez não estivesse presente no início dos confrontos. O que não é disputado é que ambas estiveram na linha de frente nos dias que se seguiram, nas assembleias, nos protestos e nas organizações que surgiram a partir de Stonewall.

Rivera foi vaiada ao tentar discursar no Christopher Street Liberation Day Rally de 1973, o quarto aniversário do levante. Ela tomou o microfone de qualquer forma e gritou à multidão: “Se não fossem as drag queens, não haveria movimento de libertação gay. Nós somos as primeiras da linha.” A Smithsonian Institution registrou o episódio como símbolo da contradição do movimento: as pessoas que mais arriscaram foram as primeiras a ser excluídas das suas conquistas. Rivera morreu de câncer em 19 de fevereiro de 2002, aos 50 anos. Em 2015, um retrato seu foi adicionado à National Portrait Gallery do Smithsonian, tornando-a a primeira ativista trans a integrar o acervo.

Foto: reprodução

Miss Major Griffin-Gracy, nascida em 25 de outubro de 1946 em Chicago, era outra presença regular no Stonewall. Mulher trans negra, estava dentro do bar na noite da batida e descreveu em entrevistas posteriores como aquela noite foi diferente das anteriores: pela primeira vez, as pessoas decidiram não ir embora. Em uma reportagem de 2014 ao Bay Area Reporter, ela disse que o Stonewall proporcionava às mulheres trans um dos poucos espaços de conexão social disponíveis, já que a maioria dos bares gays não as admitia. Durante a resistência, um policial quebrou sua mandíbula. Ela foi presa e, depois de Stonewall, cumpriu pena de cinco anos decorrente de outra prisão.

Ao longo de décadas, Griffin-Gracy trabalhou como diretora executiva do Transgender Gender Variant Intersex Justice Project, em San Francisco, com foco em mulheres trans negras e não binárias encarceradas. Ela recusou consistentemente a romantização de Stonewall: “As pessoas colocam tanto em ver o Stonewall como símbolo… Estávamos lutando por nossas vidas. Ainda nos estão matando; ainda não nos estão dando o respeito que merecemos por aguentar tudo isso esses anos todos”, disse em seu livro de memórias, publicado em 2023. Griffin-Gracy morreu em 13 de outubro de 2025, aos 78 anos, em Little Rock, Arkansas.

Em 1970, Johnson e Rivera fundaram o Street Transvestite Action Revolutionaries, o STAR, com sede no Greenwich Village. A primeira STAR House funcionou no interior de um caminhão abandonado. Era o primeiro abrigo LGBT para jovens nas ruas da América do Norte e a primeira organização do gênero liderada por mulheres trans de cor. Usando o dinheiro que ganhavam com performances drag e trabalho sexual, Johnson e Rivera alimentavam, vestiam e abrigavam os jovens que acolhiam. Rivera descreveu em uma entrevista ao National Portrait Gallery como as duas sustentavam o espaço enquanto eram elas mesmas vulneráveis: “Marsha e eu decidimos que era hora de nos ajudar mutuamente e ajudar nossos filhos. Alimentamos pessoas, vestimos pessoas. Mantivemos o prédio funcionando. Saímos e trabalhamos nas ruas. Pagamos o aluguel.” A STAR House fechou em 1971, mas o modelo inspirou iniciativas posteriores.

A primeira marcha e o nascimento do Orgulho

Em 28 de junho de 1970, um ano exato depois do início da resistência no Stonewall, Nova York realizou sua primeira marcha. Chamada de Christopher Street Liberation Day, ela percorreu as ruas de Greenwich Village até Central Park e foi organizada pelo Christopher Street Liberation Day Committee. Simultâneas a essa marcha, aconteceram manifestações em Los Angeles e Chicago. Era o nascimento do que se tornaria o Mês do Orgulho, celebrado hoje em junho em todo o mundo. No ano seguinte, marchas aconteceram em Boston, Dallas, Milwaukee, Londres, Paris, Berlim Ocidental e Estocolmo.

A narrativa dominante sobre Stonewall tendeu, ao longo das décadas seguintes, a apagar as pessoas que mais arriscaram naquela madrugada. Mulheres trans negras e latinas, jovens sem teto, trabalhadores sexuais: eram eles que não tinham identidade para esconder, que não tinham emprego ou reputação a proteger, que reagiram primeiro justamente porque já viviam sob o peso mais pesado da perseguição. A Biblioteca do Congresso americano observa, em seu guia de recursos históricos sobre o levante, que Stonewall representou uma ruptura principalmente para pessoas brancas e cisgênero, porque pessoas negras e de gênero não-conforme nunca tiveram o privilégio de esconder suas identidades marginalizadas.

Marsha P. Johnson foi encontrada morta no Rio Hudson em 6 de julho de 1992, aos 46 anos. A morte foi inicialmente registrada como suicídio por afogamento. Em 2012, após pressão de ativistas, a investigação foi reaberta como homicídio. Permanece sem solução. Em 2020, o estado de Nova York renomeou o East River State Park como Marsha P. Johnson State Park, o primeiro parque estadual do estado a receber o nome de uma pessoa abertamente LGBT. O Stonewall Inn foi declarado monumento nacional pelos Estados Unidos em 2016, durante o governo Barack Obama, tornando-se o primeiro monumento nacional americano dedicado à história e à luta LGBT.

Fontes: Biblioteca do Congresso americano (LGBTQIA+ Studies Resource Guide); National Women’s History Museum; Smithsonian Institution; Encyclopaedia Britannica; History.com; National Geographic; David Carter, Stonewall: The Riots That Sparked the Gay Revolution; Marc Stein, The Stonewall Riots: A Documentary History (NYU Press, 2019); OutHistory.org; National Portrait Gallery, Smithsonian Institution; The 19th News; Wikipedia (versões em inglês com referências acadêmicas verificadas).

“Anos 90: A Explosão do Pagode” estreia na TV Globo e resgata a história do gênero

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Fotos: Globo/Lucas Seixas

Série documental dos Estúdios Globo revisita o pagode dos anos 1990, sua origem na periferia de São Paulo e o legado para a cultura negra brasileira.

A TV Globo estreia em 1º de julho a série documental “Anos 90: A Explosão do Pagode”, produção dos Estúdios Globo que revisita o movimento musical surgido na periferia de São Paulo nas décadas de 1980 e 1990, sua ascensão nacional e o legado que deixou para a cultura negra brasileira. Com direção de Emilio Domingos e Rafael Boucinha e roteiro de Raul Perez, a obra será exibida em três episódios às quartas-feiras e reúne imagens de arquivo raras, entrevistas inéditas e uma trilha sonora composta pelos sucessos que marcaram o gênero.

Entre os nomes que participam da série estão artistas como Salgadinho, Chrigor, Netinho, Péricles, Belo e Márcio Art, além de grupos como Katinguelê, Exaltasamba, Soweto, Negritude Júnior, Art Popular, Só Pra Contrariar, Raça Negra e Molejo. A narrativa também destaca figuras fora dos palcos que foram centrais para a expansão do movimento, como os produtores e empresários Luizão da Chic Show, William da Zimbabwe, Jorge Hamilton e Pelé Problema, nomes que organizaram os circuitos de shows e bailes que projetaram o gênero para além da Grande São Paulo. A produção fecha o arco temporal ao trazer participações de Ludmilla, Thiaguinho e Gloria Groove, conectando a sonoridade dos anos 1990 a artistas que hoje dominam as paradas e evidenciando a influência contínua do pagode na música brasileira contemporânea.

Para o diretor Rafael Boucinha, o pagode dos anos 1990 foi um fenômeno que ultrapassou o campo musical. “O pagode dos anos 90 não foi só música, foi uma revolução cultural e converge com o auge da televisão brasileira. Era um movimento musical da periferia que conquistou o país, colocando o homem negro na frente das câmeras em horário nobre, e isso mudou tudo”, afirmou. O codiretor Emilio Domingos situou a produção no debate sobre representatividade ao destacar a dimensão política do que os artistas do gênero realizaram naquela década. “O pagode dos anos 90 é um marco na representatividade negra na música brasileira. Esses artistas, vindos da periferia de São Paulo, dominaram as paradas de sucesso e a televisão em uma época em que a indústria fonográfica era extremamente influente. É um movimento político colocar essas vozes e rostos na tela, disputando espaço com a hegemonia de imagens estrangeiras. Eles colocaram a periferia de São Paulo no mapa da música brasileira. O Brasil inteiro se identificava com aquilo”, disse Domingos.

Além de celebrar o sucesso comercial do gênero, o documentário propõe uma reflexão sobre temas como a ausência de vozes femininas no pagode, o machismo presente na indústria fonográfica da época e as conexões culturais entre São Paulo e Rio de Janeiro na formação dessa sonoridade. Gravada em locações icônicas nas duas cidades, a série aposta em uma estética que recria a atmosfera dos anos 1990 e inclui musicais exclusivos produzidos para a ocasião, ampliando a experiência para além do registro documental convencional.

“Anos 90: A Explosão do Pagode” é uma produção dos Estúdios Globo criada por Emilio Domingos e Felipe Giuntini, com direção de Emilio Domingos e Rafael Boucinha, roteiro de Raul Perez, produção de Anelise Franco e Kayque Carlos e produção executiva de Fernanda Neves. A estreia está marcada para o dia 1º de julho, com exibição às quartas-feiras na TV Globo.

Costa do Marfim chega ao mata-mata da Copa pela primeira vez na história

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Fotos: @fwc26philly

Com dois gols de Pépé, Costa do Marfim vence Curaçao por 2 a 0 e vai ao mata-mata da Copa do Mundo pela primeira vez na história.

Nicolas Pépé marcou os dois gols da vitória da Costa do Marfim sobre Curaçao por 2 a 0, na quinta-feira (25), no Lincoln Financial Field, em Filadélfia, e conduziu os Elefantes a um feito inédito: a primeira classificação da seleção africana para o mata-mata de uma Copa do Mundo, alcançada após três participações consecutivas encerradas ainda na fase de grupos. A equipe comandada por Emerse Faé terminou o Grupo E com seis pontos, em segundo lugar, atrás da Alemanha no critério de confronto direto, enquanto Curaçao, com 160 mil habitantes e estreante no torneio, encerrou sua participação em último lugar com um ponto.

Yan Diomandé foi o autor da jogada que abriu o placar aos seis minutos, quando aproveitou uma perda de bola da defesa adversária, avançou pela esquerda e cruzou rasteiro para Pépé aparecer na segunda trave e completar de esquerda, no gol mais rápido da história da seleção marfinense em Copas do Mundo. Curaçao chegou a assustar com chegadas perigosas por Tahith Chong e Sherel Floranus, sendo que um chute de Floranus flertou com a trave no início do segundo tempo e Leandro Bacuna invadiu a área e chutou para fora nos minutos finais da primeira etapa, mas o goleiro Yahia Fofana fez o necessário para manter a vantagem.

Ibrahim Sangaré, do Nottingham Forest, foi quem definiu o resultado aos 18 minutos da segunda etapa ao encontrar Pépé com passe em profundidade dentro da área, e o atacante finalizou no canto direito de Eloy Room para ampliar para 2 a 0, placar que a Costa do Marfim administrou com substituições e controle de posse até o apito final.

Contratado pelo Arsenal em 2019 por 80 milhões de euros, valor que o tornou o jogador africano mais caro da história do futebol até então, Pépé atravessou anos de baixo rendimento na Inglaterra antes de reencontrar o futebol no Villarreal, onde na temporada 2025/26 somou oito gols e oito assistências em 36 partidas de La Liga, e chegou a esta Copa tendo ficado no banco na derrota por 2 a 1 para a Alemanha, dois jogos após ser titular na estreia contra o Equador. “Foi uma das melhores noites da minha carreira. No primeiro gol, só precisei empurrar a bola depois de uma jogada brilhante do Yan. No segundo, o Ibra deu um passe magnífico, e tudo o que precisei fazer foi manter o foco e marcar. Gostaria de dedicar esta atuação aos rapazes”, disse Pépé a jornalistas após o apito final. Faé referendou a avaliação em coletiva: “Nico é um jogador de primeira classe. Ele tem a habilidade e a experiência para nos ajudar a vencer partidas em competições como esta.”

Campeã africana em 2024, a Costa do Marfim nunca havia passado da fase de grupos em suas três participações anteriores em Mundiais, o que torna a classificação ainda mais expressiva diante de um histórico que inclui gerações com nomes como Didier Drogba e Yaya Touré, dois dos maiores jogadores africanos de todos os tempos, sem conseguir o feito. O país entra agora para o grupo de oito seleções africanas a avançar além dessa etapa em Copas do Mundo, ao lado de Marrocos, Camarões, Nigéria, Senegal, Gana, Argélia e África do Sul.

Antes do confronto entre Alemanha e Costa do Marfim, na rodada anterior, o ex-jogador alemão Bastian Schweinsteiger, campeão mundial em 2014 e hoje comentarista da emissora pública ARD, havia descrito o estilo de jogo africano durante a transmissão como “um pouco não ortodoxo, às vezes um pouco selvagem e não tão tático”, declarações que repercutiram na imprensa internacional e levaram críticos a apontar que os termos reproduzem estereótipos historicamente associados a visões coloniais sobre povos africanos. O jornalista negro alemão Philipp Awounou, em coluna publicada na revista Spiegel, contextualizou que palavras como “selvagem” e “imprevisível” estiveram vinculadas, muito antes do futebol, a estigmas raciais aplicados a populações africanas.

Questionado sobre as declarações na coletiva pós-jogo, Faé respondeu com irritação contida ao afirmar que ficou muito decepcionado ao ouvir os comentários e que, dada a experiência de Schweinsteiger no futebol, considerava estranho esse tipo de declaração. “Posso classificá-los, sem rodeios, como racistas”, disse o treinador, que também insinuou que o ex-jogador poderia estar em busca de visibilidade ao lembrar que Schweinsteiger foi uma estrela mundial que acabou sendo um pouco esquecido. Até o momento, o comentarista não emitiu pedido de desculpas público e não sofreu nenhuma punição da emissora.

Classificada para os 16 avos de final, a Costa do Marfim aguarda o segundo colocado do Grupo I, que reúne França, Noruega, Senegal e Iraque, para o duelo marcado para a terça-feira (30), às 14h (horário de Brasília), em Dallas, em confronto que pode se tornar ainda mais emblemático caso a França, país onde Pépé e vários titulares da seleção marfinense nasceram, confirme a segunda posição no grupo.

Durante a Segunda Guerra Mundial, 13 homens se tornaram os primeiros oficiais negros da Marinha com a maior nota da história

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Foto: Naval History and Heritage Command

Em 1944, treze homens negros se tornaram os primeiros oficiais da Marinha americana após serem convocados para falhar e provarem o contrário.

Em janeiro de 1944, dezesseis marinheiros negros foram convocados para a base naval de Great Lakes, em Illinois, sem que nenhum deles soubesse exatamente o que os esperava. A Marinha americana contava naquele momento com quase 100 mil marinheiros negros nas fileiras, e nenhum era oficial. Nos 146 anos anteriores, a instituição jamais havia comissionado um homem negro, e o curso que os aguardava deveria mudar isso, embora não fosse essa a intenção de quem o organizou.

O curso de formação de oficiais durava, em condições normais, dezesseis semanas, mas para aqueles dezesseis homens a Marinha cortou o prazo pela metade, reservando oito semanas para que absorvessem o que os candidatos brancos tinham quatro meses para aprender. A expectativa institucional era de uma taxa de reprovação de 25%, igual à das turmas brancas, e os homens entenderam o que aquilo significava na prática. Decidiram reagir de forma coletiva, porque sabiam que a reprovação de qualquer um deles não seria lida como fracasso individual, mas como evidência de que homens negros não tinham capacidade de liderar.

Samuel Barnes, um dos dezesseis, descreveu a lógica que os uniu ao afirmar que o grupo decidiu não competir entre si, realizando sessões de estudo coletivas com a consciência de que eram a porta entreaberta para muitos outros marinheiros negros e que não poderiam ser os responsáveis por fechá-la. À noite, cobriam as janelas do alojamento e estudavam até a madrugada, num esforço solidário que não era apenas estratégia, mas a única resposta viável a um sistema construído para derrubá-los.

Quando as provas chegaram, os dezesseis passaram, e a turma fechou com média 3.89, a maior já registrada na história da estação de treinamento naval de Great Lakes, superior à de qualquer turma branca que havia passado por ali. A cúpula militar simplesmente não acreditou no resultado e mandou todos refazerem os exames, que os dezesseis repetiram com desempenho ainda melhor.

Em março de 1944, treze daqueles homens foram comissionados. Doze receberam o posto de alferes, Jesse Walter Arbor, Phillip George Barnes, Samuel Edward Barnes, Dalton Louis Baugh, George Clinton Cooper, Reginald Ernest Goodwin, James Edward Hair, Graham Edward Martin, Dennis Denmark Nelson, John Walter Reagan, Frank Ellis Sublett e William Sylvester White, enquanto Charles Byrd Lear foi nomeado suboficial. Os outros três que também passaram nos exames não receberam comissão e nenhuma explicação oficial foi dada. Especula-se que a Marinha, acostumada a uma taxa de reprovação entre candidatos, não quis que uma turma de negros figurasse com desempenho superior ao das turmas brancas nos registros institucionais.

Décadas depois, o grupo ganharia o nome pelo qual passou a ser conhecido, os Golden Thirteen, mas na época o cotidiano era outro. Oficiais brancos se recusavam a prestar continência a eles, não podiam entrar no clube de oficiais da base mesmo fardados e com a patente no ombro, e recebiam as funções mais subalternas dentro da estrutura segregada da Marinha, como treinar recrutas negros, supervisionar unidades de trabalho ou comandar embarcações menores tripuladas exclusivamente por marinheiros negros. A patente garantia o título, mas o sistema insistia em traduzir aquela conquista em isolamento.

Quase nenhum seguiu carreira na Marinha após o fim da guerra, sendo Dennis Nelson a exceção, tendo chegado ao posto de tenente-comandante e publicado em 1951 uma dissertação de mestrado sobre a integração racial na instituição. Os demais voltaram à vida civil e construíram trajetórias notáveis, com Samuel Barnes tornando-se diretor de atletismo na Universidade Howard e o primeiro homem negro no comitê executivo da NCAA, e William White atuando como promotor federal antes de presidir o tribunal juvenil do condado de Cook e chegar à corte de apelações de Illinois.

O impacto daquele grupo ultrapassou 1944 e alcançou 1948, quando o presidente Harry Truman assinou a ordem executiva que encerrou oficialmente a segregação nas Forças Armadas americanas, quatro anos depois de os Treze de Ouro terem demonstrado, com resultados documentados, que a premissa racista sustentando a exclusão não tinha qualquer fundamento. A história do grupo foi sistematizada pelo historiador naval Paul Stillwell, que a partir de 1986 gravou os depoimentos dos sobreviventes, reunindo-os num livro com prefácio de Colin Powell, o primeiro negro a chefiar o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos Estados Unidos. Hoje, o prédio onde os novos recrutas chegam para o treinamento básico em Great Lakes leva o nome dos treze, e o último sobrevivente do grupo, Frank Ellis Sublett, morreu em 2006.

Barack e Michelle Obama relembram o início do namoro e a parceria há quase 34 anos: “Somos o contraponto um do outro”

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Barack e Michelle Obama sorrindo e juntos no Centro Presidencial em Chicago.
Foto: Matt Sayles/People

Quase dez anos após deixarem a Casa Branca, Barack e Michelle Obama estão celebrando a inauguração do Centro Presidencial Obama, em Chicago (EUA), um complexo cultural e educacional com a proposta de funcionar como um centro comunitário. Capa da nova edição da revista People, o casal abriu o coração durante uma entrevista intimista sobre os bastidores da vida conjugal, o impacto de suas trajetórias e o alívio de viverem longe dos protocolos de Washington.

Para os Obamas, a escolha da zona sul de Chicago para sediar o centro foi uma decisão profundamente afetiva. É a região onde Michelle cresceu, onde o casal se conheceu, se casou e viu nascer as filhas Malia, 27, e Sasha, 25.

“Cada parte de mim foi construída nesta área. Não havia nada parecido com este centro em lugar nenhum quando eu era criança. Eu me emociono ao perceber o que isso significará para as crianças. Então, para mim, é algo incrivelmente pessoal”, disse Michelle Obama.

Barack, que chegou à cidade quando era apenas um jovem organizador comunitário vindo do Havaí, relembrou os tempos em que dividia um apartamento simples e sem ar-condicionado na Rua 53 com o início do namoro: “Sentado na calçada [do Baskin-Robbins, onde se beijaram pela primeira vez]. Agora tem uma placa lá. Não sei quem a colocou”, contou o ex-presidente.

“Somos o contraponto um do outro”

A maturidade e o equilíbrio da parceria foram imortalizados no centro por meio de uma escultura da artista Maya Lin, que traz duas pedras de formatos diferentes, mas de pesos iguais. Uma metáfora perfeita para a dinâmica do casal. Casados há quase 34 anos, Michelle reconhece que a ambição e a visão ampla de Barack a tiraram de uma zona de conforto onde ela, possivelmente, teria tido uma vida mais limitada.

“Ele me fez pensar de forma mais abrangente sobre o que eu poderia fazer com este diploma de direito de Harvard, além de ser advogada. Ele me deu coragem. Ele foi meu alicerce. Ele dizia: ‘Estou com você’. E por mais difícil que tenha sido, com seus altos e baixos, ele esteve ao meu lado”, afirmou a ex-primeira-dama. Barack, por sua vez, devolveu o elogio: “Ela me dá firmeza e segurança. Deu tudo certo”.

Desmistificando a “bolha” da Casa Branca

Embora guardem memórias afetuosas e divertidas dos anos em Washington — como as festas de aniversário de Malia no Quatro de Julho, os bailes de formatura das filhas e a convivência com a falecida mãe de Michelle, Marian Robinson —, ambos não escondem o alívio de terem deixado a rigidez do protocolo para trás.

Barack brincou com a definição do ex-presidente Bill Clinton, que chamava a Casa Branca de “a joia da coroa do sistema penitenciário federal” devido ao confinamento extremo por razões de segurança. “Não sinto falta de muita pompa e circunstância. Não sinto falta de ter que usar gravata todos os dias. O que sinto falta é do trabalho e das pessoas”, pontuou.

A normalização do Poder Negro

Questionado sobre os versos emblemáticos da música “Changes”, de Tupac Shakur — onde o rapper rimava que “embora pareça um presente dos céus, não estamos prontos para ver um presidente negro” —, Barack Obama trouxe uma análise sobre os limites e as vitórias do seu pioneirismo, especialmente em uma inauguração que coincidiu com as celebrações do Juneteenth (o dia da emancipação dos escravizados nos EUA).

“Nunca foi realista pensar que, por causa de uma eleição, de um presidente, 400 anos de história simplesmente desapareceriam. Mas acho que há crianças que, crescendo durante a minha presidência, disseram: ‘Sim, claro que podemos ter um presidente negro. Por que não?’. E estou confiante de que, quando tivermos uma presidente mulher, o que acontecerá em breve, durante a minha vida, isso se tornará normal, e é isso que queremos”, destacou  Barack Obama.

Para Michelle, o impacto da passagem de Barack pelo Salão Oval ultrapassou as barreiras raciais e estabeleceu um novo padrão de liderança ética e humanizada. “O simbolismo da presidência dele não se resumia apenas à raça — também dizia respeito à maneira como ele se apresentava como líder, homem, pai e marido. Acho que o que Barack ofereceu a este país foi um presidente maduro, extremamente inteligente e altruísta”, concluiu a ex-primeira-dama.

Com o término das obras do complexo, o casal agora foca suas energias no desenvolvimento de jovens lideranças globais através dos programas da Fundação Obama — e, em cuidar da saúde e manter a flexibilidade para os novos capítulos que estão por vir.

Exposição “Com Amor, Alcione” chega ao Museu das Favelas em julho

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Alcione para TV Globo
Foto: TV Globo/ Reprodução

Alcione é o centro da nova exposição “Com Amor, Alcione”, que chega ao Museu das Favelas, em São Paulo, no dia 10 de julho, celebrando mais de cinco décadas de uma das trajetórias mais importantes da música brasileira.

Idealizada e produzida pelo Centro Cultural Vale do Maranhão (CCVM), a mostra chega a São Paulo em sua primeira itinerância após grande adesão de público no Maranhão, ocupando o espaço paulistano e reforçando o papel do museu como território de preservação da memória negra e periférica no país.

O acervo reúne mais de 650 itens que atravessam diferentes fases da carreira da artista, incluindo fotografias raras ao lado de nomes centrais da cultura brasileira, registros audiovisuais, figurinos de palco e troféus que marcam sua consolidação como uma das vozes mais reconhecidas da música popular.

A exposição evita uma leitura linear da carreira e propõe uma construção afetiva e simbólica da imagem de Alcione, conectando sua obra a temas como ancestralidade, espiritualidade, relações familiares e sua presença nas escolas de samba.

A própria artista destaca a importância de ver sua trajetória ocupar esse espaço de memória em São Paulo, reforçando o vínculo com o público e com a história que atravessa sua obra em conversa com a Billboard Brasil:

“É uma honra ter a minha vida e obra ocupando o Museu das Favelas. O nome, por si só, já revela a grandiosidade dessa instituição, que estou ansiosa para conhecer. Espero que o público goste e venha conhecer a história desta Marrom aqui, que tem uma gratidão imensa pelo povo de São Paulo. Nos vemos em breve”

A edição paulista da mostra também traz uma nova leitura sobre migração e formação urbana, destacando a presença de populações nordestinas e negras na construção cultural da cidade de São Paulo. O recorte evidencia como deslocamentos internos no Brasil também estruturam identidades, linguagens e expressões culturais.

A exposição “Com Amor, Alcione” fica em cartaz até 6 de dezembro de 2026, com entrada gratuita no Museu das Favelas, no centro histórico de São Paulo.

Pela primeira vez, terapia genética cura anemia falciforme na Louisiana, um dos estados dos EUA com mais casos

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Daniel Cressy sorridente após tratamento contra a anemia falciforme.
Foto: Manning Family Children's Hospital

Daniel Cressy, de 23 anos, entrou para a história ao se tornar a primeira pessoa do estado da Louisiana, nos Estados Unidos, a ser funcionalmente curada da anemia falciforme por meio de terapia genética. Na segunda-feira (22), ele tocou o sino cerimonial do Manning Family Children’s Hospital, em Nova Orleans, marcando o fim de uma batalha de dois anos contra a doença, que os médicos afirmam não estar mais ativa em seu organismo.

Natural da região metropolitana de Nova Orleans, Cressy é o primeiro paciente de toda a Costa do Golfo dos Estados Unidos a passar com sucesso pela Casgevy, terapia de ponta que utiliza a tecnologia de edição genética CRISPR/Cas9. O procedimento se vale das próprias células-tronco do paciente, que são editadas em laboratório para que deixem de produzir as células defeituosas causadoras da doença.

A jornada foi longa e cara. As células-tronco de Cressy foram coletadas ao longo de três dias e enviadas para um laboratório na Escócia, onde uma enzima foi usada para editar a parte específica da célula responsável pelo afoiçamento, quando as hemácias endurecem e se deformam, bloqueando o fluxo sanguíneo e provocando dores intensas. As células modificadas retornaram à Louisiana no início deste ano, e Cressy passou por quimioterapia antes de recebê-las de volta. Só o medicamento custou 2,2 milhões de dólares. O tratamento chegou a ser adiado enquanto ele aguardava aprovação pelo programa Medicaid do estado.

A anemia falciforme afeta de forma desproporcional pessoas negras e pode causar dores severas, danos a órgãos, internações frequentes e redução da expectativa de vida. A Louisiana tem uma das maiores taxas da doença nos Estados Unidos. Cerca de 3 mil pessoas vivem com a condição no estado.

Cressy não é o primeiro do mundo nem do país a ser curado. Ele se junta a mais de 100 pacientes nos Estados Unidos tratados desde que as duas primeiras terapias genéticas para a doença, a Casgevy e a Lyfgenia, foram aprovadas pela agência reguladora americana no fim de 2023. O pioneirismo dele é geográfico, em um estado onde a doença é especialmente presente.

Para Cressy, a cura significou também a retomada de um sonho. Ele pretendia ser piloto, mas descobriu que a Administração Federal de Aviação não concederia sua licença enquanto ele convivesse com a doença, por causa dos riscos associados a voos em grandes altitudes. Agora, com o caminho livre, ele planeja seguir carreira na aviação.

Determinado a transformar sua experiência em legado, Cressy fundou a organização sem fins lucrativos Privileged Pilots Project, voltada a derrubar barreiras médicas e sociais que impedem comunidades subatendidas de acessar curas genéticas milionárias. “A capacidade de alguém acessar tratamento e uma possível cura não deveria ser definida pelo seu CEP”, afirmou. “As pessoas que vivem com anemia falciforme estão aqui. São nossos vizinhos, nossos amigos, nossas famílias.”

Ele também escreve um livro sobre sua trajetória, intitulado “Blessing in the Skies” (Bênção nos Céus). “Enquanto muitos passam a vida procurando um propósito, o meu me encontrou”, disse. “Agora, em vez de buscar sentido, posso passar a vida realizando-o.”

A cerimônia em sua homenagem contou com a presença do governador Jeff Landry, do congressista Troy Carter e da prefeita Helena Moreno. No Brasil, país com a maior população com anemia falciforme das Américas, terapias como essa ainda não estão disponíveis no SUS, o que mantém a cura distante de quem mais precisa dela.

Com informações do The Guardian.

Sonhos femininos são moldados na infância, revela pesquisa

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Mulher latino-americana
Imagem gerada por IA

Um levantamento realizado pela Casa Mundo Market Intelligence em parceria com a Natura revela como mensagens recebidas na infância ainda influenciam a forma como mulheres projetam seus sonhos e trajetórias.

Em um ano em que a América Latina volta a ocupar espaço de destaque no cenário global com a realização da Copa do Mundo de 2026 no México, uma pesquisa inédita lança luz a forma como mulheres são desencorajadas a sonhar grande desde a infância.

O estudo “Deixa a Mulher Latina Sonhar”, realizado pela Casa Mundo Market Intelligence em parceria com a Natura, ouviu 320 mulheres entre 20 e 55 anos no Brasil, México e Colômbia das classes A, B e C, em janeiro de 2026. Entre os principais resultados, o mais impactante destaca que 83% das entrevistadas afirmam que poderiam estar vivendo um futuro diferente caso tivessem recebido mais incentivo para sonhar grande já durante a infância e adolescência.

Os dados apontam para experiências compartilhadas por muitas mulheres ao longo da formação. Entre as entrevistadas, 28% relatam ter ouvido expressões como “sonha, mas com os pés no chão”. Outras 18% afirmam que determinados objetivos lhes foram apresentados como distantes ou inadequados para suas realidades. Já 13% receberam incentivo para seguir caminhos considerados mais seguros, enquanto 10% relatam mensagens relacionadas à discrição e aos comportamentos socialmente esperados para mulheres.

Os dados mostram que os impactos dessas experiências aparecem também na vida adulta. Segundo a pesquisa, 44% das participantes afirmam sentir receio de parecer exageradas ou iludidas ao compartilhar seus sonhos, enquanto 38% evitam falar sobre seus objetivos em voz alta.

Para Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Market Intelligence, os resultados não indicam falta de ambição, mas refletem os limites impostos por expectativas sociais construídas ao longo do tempo.

“A questão não está relacionada à falta de ambição. Muitas mulheres cresceram recebendo mensagens que restringiam a maneira como enxergavam suas próprias possibilidades”, afirma.

O estudo também investigou quais expectativas ainda recaem sobre os projetos de vida femininos. Segundo as entrevistadas, 65% das expectativas atribuídas às mulheres permanecem concentradas em temas ligados ao cuidado, à família e à estabilidade. Apenas 15% associam os sonhos femininos à busca por liberdade individual.

Outro dado alarmante chama atenção para a dimensão familiar dessas construções sociais. Entre as participantes, 48% apontam a si mesmas ou outras mulheres da família como pessoas que acabaram reproduzindo limitações em relação aos próprios sonhos. Para as pesquisadoras, esse resultado demonstra como as normas sociais podem ser transmitidas entre gerações e incorporadas ao cotidiano.

De acordo com as informações coletadas na pesquisa, em diferentes contextos sociais, o incentivo recebido ou a falta dele durante a infância podem influenciar escolhas profissionais e pessoais, enquanto influenciam na percepção sobre quais espaços podem ser ocupados e quais objetivos são considerados possíveis na ótica feminina.

Ao evidenciar essas experiências, o levantamento incentiva uma intensa reflexão acerca dos discursos responsáveis por moldar expectativas e oportunidades desde a juventude e reforça a importância de ambientes que estimulem meninas e mulheres a sonharem sem restrições baseadas em gênero, cor ou classe social.

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