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Taís Araujo corta o cabelo, entra em nova fase e diz: “Tô me sentindo chique!”

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Fotos e vídeo: @gabrielfiischer

Taís Araujo está de visual novo. A atriz apareceu com os cabelos bem curtos e uma nova coloração durante a Paris Fashion Week, e contou os bastidores da mudança em entrevista ao Ela, do jornal O Globo.

Segundo Taís, a decisão veio do cansaço de manter o “cabelão”, mas vai além da praticidade. É a segunda vez que ela adota um corte tão curto, e as duas coincidem com momentos de virada. Na primeira, tinha acabado de se tornar mãe. Agora, a mudança chega no mesmo ano em que ela entrou na menopausa. “Eu não consigo dissociar uma coisa da outra”, disse. “Tem a ver, sim, por ser uma nova fase da minha vida, querer mudar.”

A palavra que ela usa para definir o novo momento é liberdade. Taís contou que quase chorou na primeira noite em que conseguiu lavar o cabelo no banho e sentar para jantar logo em seguida, sem a rotina de cuidados que os fios longos exigiam.

A reação em casa

Em casa, a novidade rendeu comentários sinceros. Lázaro Ramos pediu que ela parasse de “inventar coisa com o cabelo”. Já os filhos associaram o corte à ideia de renascimento, leitura que a própria atriz reconhece. Entre as brincadeiras da família, surgiram até comparações com crise de identidade. A resposta dela: “Vocês estão certos, é um pouco disso tudo, é uma nova fase.”

Do loiro de volta ao castanho

A cor atual, que à primeira vista pode passar despercebida, também tem história. Taís decidiu que queria o cabelo curto e loiro e chegou a realizar o plano, depois de três idas ao salão para descolorir os fios. O resultado, porém, não a convenceu. Diante do espelho, ela não se reconhecia e se perguntava: “Quem é essa?”

A atriz então decidiu voltar ao castanho, mesmo com os fios já fragilizados pela descoloração. “E aí eu voltei a ser eu”, resumiu.

E o saldo final? Taís não hesita: “Tô me sentindo chique!”

As nove séries com protagonismo negro entre as 100 melhores do século pelo The New York Times

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O The New York Times elegeu as 100 melhores séries do século 21/Foto: IMDb

O jornal The New York Times elegeu na última sexta-feira (25) as 100 melhores séries do século 21. 

O veículo norte-americano utilizou como critério a consulta a grandes nomes das artes televisivas, como atores, diretores, críticos, produtores e especialistas. Eles precisaram votar em 10 melhores títulos que estrearam a partir de 1° de janeiro de 2000. 

O jornal contou com personalidades como Colman Domingo, Elizabeth Moss, Adam Scott, Danielle Brooks, Kathy Bates, Giancarlo Esposito, Lena Waithe, entre outros. 

Apesar da grande responsabilidade jornalística de analisar critérios como qualidade, popularidade e relevância, a lista chama a atenção para a falta de séries com personagens negros em papel de protagonismo. Apenas nove de 100 títulos são de produções com atores ou narrativas negras em foco central. 

O Mundo Negro separou essas séries, bem como suas posições na lista e canais onde eles podem ser encontrados para assistir.

100° — Scandal


A série acompanha Olivia Pope, especialista em gerenciamento de crises que trabalha para proteger a imagem de políticos e outras figuras poderosas de Washington. Criada por Shonda Rhimes e protagonizada por Kerry Washington, a produção mistura política, relacionamentos, escândalos e disputas de poder.

Onde assistir: Disney+. 

97° — Community

Jeff Winger, um advogado que teve seu diploma invalidado, é obrigado a voltar à faculdade. Na instituição, ele forma um grupo de estudos com alunos bastante diferentes entre si, incluindo Troy Barnes, personagem interpretado por Donald Glover. A série combina humor, cultura pop e situações absurdas.

Onde assistir: Netflix e Mercado Play

61° — RuPaul’s Drag Race

O reality show reúne drag queens que competem em desafios de performance, moda, humor e criatividade pelo título de “America’s Next Drag Superstar”. Apresentado por RuPaul, o programa se tornou uma das principais vitrines da cultura drag e da comunidade LGBTQIA+.

Onde assistir: Paramount+ e canais Amazon/Apple TV do Paramount+. 

58° — Chappelle’s Show


Criado e apresentado por Dave Chappelle, o programa de esquetes combina stand-up, paródias e sátiras sobre raça, racismo, política, cultura pop e relações sociais nos Estados Unidos. O humorista interpreta diferentes personagens e aborda temas raciais de maneira provocativa.


Onde assistir: atualmente, não há disponibilidade em serviços de streaming brasileiros.

55° — Insecure


Criada e protagonizada por Issa Rae, a série acompanha Issa Dee e sua melhor amiga Molly, duas mulheres negras que enfrentam relacionamentos, trabalho, amizade e as inseguranças da vida adulta em Los Angeles. A produção combina comédia, drama e situações do cotidiano.


Onde assistir: HBO Max

29° — Key & Peele


A série de esquetes estrelada por Keegan-Michael Key e Jordan Peele utiliza a comédia para satirizar raça, identidade, política, estereótipos e cultura pop. Os atores interpretam personagens diferentes em situações que frequentemente expõem os absurdos das relações raciais e sociais nos Estados Unidos.


Onde assistir: não está disponível atualmente em serviços de streaming brasileiros. 

18° — I May Destroy You


Criada, escrita, dirigida e protagonizada por Michaela Coel, a série acompanha Arabella, uma escritora cuja vida muda depois de sofrer uma agressão sexual. A produção acompanha sua tentativa de reconstruir a memória do que aconteceu e aborda consentimento, trauma, sexualidade, amizade e identidade.

Onde assistir: HBO Max 

10° — Atlanta


Criada por Donald Glover, a série acompanha Earn e seu primo Alfred, conhecido como Paper Boi, enquanto eles tentam navegar pelo cenário musical de Atlanta. Com uma mistura de comédia, drama e surrealismo, a produção aborda raça, classe, identidade, fama e a experiência negra nos Estados Unidos.

Onde assistir: Netflix e Disney+. 

2° — The Wire


Ambientada em Baltimore, a série acompanha diferentes grupos ligados ao tráfico de drogas, à polícia, à política, à educação e a outras instituições da cidade. Criada por David Simon, a produção apresenta diferentes perspectivas sobre as estruturas sociais e econômicas que atravessam a vida urbana, com forte presença de personagens e histórias negras.

Onde assistir: HBO Max 

‘Feitiço’: Spartakus ganha prêmio internacional por videoclipe filmado na Bahia baseado na história de Obaluaê

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Videoclipe de Spartakus ganha prêmio internacional em Londres/Divulgação

O videoclipe “Feitiço”, dirigido pelo artista e cineasta baiano Spartakus, recebeu o prêmio de Best Music Short no New Renaissance Film Festival London, em Londres. O festival celebra e destaca produções independentes com forte apelo artístico e narrativas inovadoras.

Em sua 11ª edição, o New Renaissance Film Festival já premiou cineastas que posteriormente receberam importantes reconhecimentos, como premiações internacionais e o Oscar.

“Feitiço”, de Spartakus, foi gravado em Itabuna, no sul da Bahia, sua cidade natal, e contou com a participação de profissionais e artistas da região. Parte das filmagens ocorreu na Escola Curumim, onde o diretor estudou na sua infância. O ator mirim Sol Benedito, também de Itabuna, interpreta Spartakus durante a infância. 

A narrativa do videoclipe celebra a história de Obaluaê, orixá associado às curas, às doenças e à transformação. Na produção, as feridas do orixá são utilizadas como metáfora para as feridas internas causadas pela rejeição enfrentada por pessoas negras e LGBTQIA+ durante a infância.

Um dos principais elementos é o manto de Obaluaê, confeccionado por Junior Camini e finalizado por Dona Lourdes, avó de Spartakus.

O clipe faz parte do EP Livre Com Fiança, que também possui clipes inspirados em outros orixás, como Exu, Oxóssi e Iemanjá.

Reconhecimento internacional

O prêmio em Londres soma-se à trajetória internacional de “Feitiço”. O videoclipe já foi selecionado para o Denton Black Film Festival, no Texas, e para o NewFilmmakers, em Las Vegas.

O álbum visual Livre Com Fiança, que contém o clipe de Feitiço, também foi premiado no The Peoples Film Festival, em Nova York.

A produção contou com a colaboração de Thierry Brito na produção executiva, Augusto Santos na assistência de direção e Raone Calixto na direção de fotografia. O clipe é assinado pela Haus of Spartta, produtora independente de Spartakus.

Tim Maia, o Síndico que levou o soul às rádios, faria 84 anos

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Foto: reprodução

Pioneiro do soul em português e referência do Black Rio, o cantor carioca nasceu em 28 de setembro de 1942 e ganhou o apelido em música de Jorge Ben Jor

Tim Maia completaria 84 anos nesta segunda-feira (28), e o apelido de Síndico, registrado por Jorge Ben Jor na música “W/Brasil (Chama o Síndico)”, ainda é a forma como músicos e fãs se referem a ele. Morto em 1998, aos 55 anos, Sebastião Rodrigues Maia foi um dos primeiros artistas a cantar soul em português e a levar o gênero às rádios do país, e é citado como referência por artistas de diferentes gerações, o que faz dele o cantor preferido de muitos dos cantores que o público mais ouve.

Nascido na Tijuca, na zona norte do Rio, o cantor era o penúltimo de 19 filhos e entregava as marmitas da pensão da família, o que lhe rendeu o apelido de Tião Marmiteiro. Começou a compor aos 8 anos, tocou bateria em um grupo do bairro aos 14 e depois passou a dar aulas de violão para garotos da vizinhança, entre eles Erasmo Carlos. No fim dos anos 1950, integrou os Sputniks, conjunto que tinha Roberto Carlos na formação, e dividia com Jorge Ben Jor o gosto pelo rock norte-americano.

Em 1959, aos 17 anos, viajou sozinho para os Estados Unidos, onde viveu na região de Nova York, trabalhou em empregos temporários e cantou no grupo vocal The Ideals, período em que passou a usar o nome pelo qual ficaria conhecido. Voltou ao Brasil em 1964, depois de quatro anos ouvindo e cantando o soul feito por artistas negros norte-americanos.

Primeiro disco saiu seis anos depois da volta ao Brasil

Os anos seguintes foram de portas fechadas em gravadoras e entre antigos colegas que já faziam sucesso na Jovem Guarda, sem espaço para o soul que ele cantava. A situação começou a mudar quando “Não Vou Ficar”, composição dele, chegou às paradas em 1969. No ano seguinte, gravou com Elis Regina e lançou o primeiro LP, que tinha “Azul da Cor do Mar”, “Coroné Antônio Bento” e “Primavera”, música de Cassiano, e em 1971 emplacou “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)”.

Nesses discos, o cantor juntou os metais e o groove do soul ao samba, ao baião e às baladas românticas, alternando letras em português e em inglês. O som tomou as rádios e se tornou uma das principais referências do movimento Black Rio, que nos anos 1970 reuniu milhares de jovens negros em bailes nos subúrbios cariocas. Ao lado de nomes como Cassiano e Hyldon, ele consolidou uma produção de soul brasileiro que influenciou Sandra de Sá, sua parceira no dueto “Vale Tudo”, de 1983, o sobrinho Ed Motta e gerações seguintes da música preta do país.

Em meados daquela década, aderiu à Cultura Racional, deixou o álcool e as drogas e gravou os discos “Racional” volumes 1 e 2, que renegou ao se afastar da seita, em 1976. Os álbuns saíram pelo Seroma, selo criado por ele e considerado o primeiro independente do Brasil, ficaram anos fora de catálogo e, depois de relançados, se tornaram alguns dos mais citados de sua discografia.

Apelido de Síndico nasceu de uma brincadeira

O apelido surgiu de uma conversa entre Jorge Ben Jor e o publicitário Washington Olivetto sobre a situação do país no governo Collor, quando Olivetto brincou que o Brasil estava tão bagunçado que Tim Maia poderia virar o síndico da nação. Jorge transformou a brincadeira em “W/Brasil (Chama o Síndico)”, lançada no início dos anos 1990, e o próprio cantor adotou o título com humor. Com o tempo, muitas leituras passaram a associar o apelido à revolução que ele propôs na música brasileira, como alguém que reorganizou a casa por dentro.

O cantor acumulou uma reputação de atrasar, interromper e cancelar apresentações, e nunca escondeu que não gostava de fazer shows. Costumava brincar que os contratantes fariam melhor negócio se não o contratassem e, quando subia ao palco, repetia ao técnico de som os pedidos de “mais grave, mais agudo, mais retorno”, frase que músicos e fãs usam até hoje.

Os próprios hábitos também viravam piada, e uma das frases mais repetidas dele é “Não fumo, não bebo e não cheiro. Só minto um pouco”. Sobre as dietas, contava que tinha cortado álcool, gordura e açúcar e que, em duas semanas, havia perdido 14 dias. Em 8 de março de 1998, passou mal no palco do Teatro Municipal de Niterói, durante a gravação de um show, e morreu uma semana depois, no dia 15.

Gravadora de David Byrne apresentou o cantor ao público dos Estados Unidos

O reconhecimento internacional ganhou escala em 2012, quando a Luaka Bop, gravadora criada por David Byrne, ex-líder dos Talking Heads, lançou “Nobody Can Live Forever: The Existential Soul of Tim Maia”. A coletânea reuniu 15 gravações dos anos 1970, incluindo faixas da fase Racional, exigiu dez anos de negociação de direitos e foi lançada junto com festas pelo aniversário de 70 anos do cantor em cidades de quatro continentes. Na época, a revista Rolling Stone descreveu seu som como uma versão brasileira de Curtis Mayfield e Barry White.

Em fevereiro deste ano, a orquestra da pré-cerimônia do Grammy tocou “O Descobridor dos Sete Mares”, gravada por ele em 1983, durante a entrega de um dos prêmios da noite. O selo espanhol Vampisoul relançou em 2026 o álbum de 1973, apontado por críticos como um dos melhores da carreira, e “Acenda o Farol”, de 1978, chegou a um público jovem no fim de 2024 depois de viralizar no TikTok com vídeos sobre supostos significados escondidos na letra. Lançamentos e homenagens ao cantor são divulgados no perfil oficial @timmaia.oficial.

Sidnei Nogueira e Hédio Silva Jr. debatem livro sobre fé e poder

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Foto: FH Stúdio/Divulgaçao

Em “O perigo de uma religião única”, os autores analisam o uso da fé na política; debate gratuito será em 7 de outubro na Câmara Municipal de São Paulo

O babalorixá e linguista Sidnei Nogueira e o advogado Hédio Silva Jr. apresentam no dia 7 de outubro, na Câmara Municipal de São Paulo, o livro “O perigo de uma religião única”, lançado em junho pela editora Planeta. A obra analisa como grupos políticos têm usado a fé para impor uma teologia e práticas religiosas particulares como se fossem universais, projeto que, segundo os autores, sustenta políticas racistas, misóginas e LGBTfóbicas no Brasil e em outros países. O debate público acontece das 19h às 21h30, no Auditório Sérgio Vieira de Mello, com entrada gratuita mediante retirada de ingresso.

Foto: divulgação

O título dialoga com a palestra “O perigo de uma história única”, apresentada em 2009 pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, na qual ela alerta para a adoção sem questionamento de uma perspectiva dominante, cuja imposição faz parte de um projeto de poder. Sidnei Nogueira e Hédio Silva Jr. levam esse raciocínio para o campo religioso e examinam o que acontece quando uma única crença passa a orientar as decisões do Estado.

Em 224 páginas, os autores combinam epistemologias do Candomblé, a legislação brasileira e análises de geopolítica e discurso público para mostrar como forças autoritárias vêm se apoiando na religião. O livro não condena experiências de fé, embora aponte o papel de setores do cristianismo contemporâneo nesse processo, e defende a pluralidade de crenças, o direito de não ter crença e a laicidade do Estado. Para os autores, a disputa religiosa é hoje um dos campos em que se decide o futuro da democracia.

Obra reúne Candomblé, linguística e Direito

Sidnei Nogueira é escritor, pesquisador, arte-educador e mestre e doutor em Semiótica e Linguística Geral pela Universidade de São Paulo (USP). Iniciado há 40 anos para Xangô, comanda a Casa de Xangô e integra como membro consultivo a Cátedra de Sustentabilidade da Unesco. Entre seus livros está “Intolerância Religiosa”, finalista do Prêmio Jabuti.

Hédio Silva Jr., que é ogã, é mestre e doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e construiu sua carreira na defesa dos direitos raciais e da liberdade religiosa. Ele fundou o Jusracial e o Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro), onde atua em casos ligados à igualdade racial e às religiões de matriz africana. No livro, a formação de Sidnei em linguagem e os saberes do Candomblé se somam à experiência jurídica de Hédio para discutir como religião, linguagem e poder interferem na vida em sociedade.

Segunda atividade acontece durante festividade em terreiro de Mairiporã

Os autores voltam a se encontrar com o público no dia 17 de outubro, na Comunidade da Compreensão e da Restauração Ilè Asé Sàngó (CCRIAS), em Mairiporã, na Grande São Paulo. A atividade faz parte das festividades do Ipeté de Oxum e terá sessão de autógrafos e venda de exemplares, com horário ainda a ser confirmado pela organização.

Serviço

Debate público “O perigo de uma religião única”
Com Sidnei Nogueira e Hédio Silva Jr.
Data: 7 de outubro de 2026
Horário: das 19h às 21h30
Local: Câmara Municipal de São Paulo, Auditório Sérgio Vieira de Mello
Entrada: gratuita, com retirada de ingressos pelo Sympla (aqui)

Livro “O perigo de uma religião única”
Autores: Sidnei Nogueira e Hédio Silva Jr.
Editora: Planeta
Páginas: 224
Instagram dos autores: @professor.sidnei e @drhediosilva

Vozinha diz que trocaria a fama da Copa pela vida que tinha antes

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Foto: Getty Imagens

Goleiro de Cabo Verde, que passou de 56 mil para mais de 1 milhão de seguidores, contou ao The Observer que trocaria a fama pela vida que tinha antes

O goleiro cabo-verdiano Vozinha, de 40 anos, afirmou ao jornal britânico The Observer que, se pudesse escolher, voltaria à rotina que tinha antes da Copa do Mundo de 2026. Na entrevista ao jornalista Dani Gil, publicada neste sábado (26), o jogador contou que a exposição repentina mudou sua vida pessoal e a da família. “Perdi minha paz e tranquilidade. Agora saio, vou a um restaurante, e sempre tem alguém querendo tirar uma foto comigo ou me pedir um autógrafo. Ou, pior, alguém me filmando”, disse.

Até o início do torneio, Vozinha defendia o Chaves, clube da segunda divisão de Portugal, e era pouco conhecido fora do país. A virada veio na estreia de Cabo Verde, quando fez sete defesas no empate sem gols com a Espanha, seleção que terminaria campeã. Antes da partida, seu perfil no Instagram reunia 56 mil seguidores e, ao apito final, já passava de 1 milhão, impulsionado por uma campanha da CazéTV, detentora dos direitos de transmissão no Brasil, que convocou o público a seguir o goleiro.

Vozinha só entendeu o que estava acontecendo na zona mista, quando uma repórter da emissora brasileira mostrou os números no celular. “Um membro da equipe de catering veio até mim e disse que eu tinha um bilhão de seguidores. Eu não fazia ideia do que ele estava falando, achei que ele estivesse brincando”, relembrou. Para tentar manter o foco, ele desativou as notificações do aplicado. Na sequência da competição, Cabo Verde empatou com o Uruguai, avançou às oitavas de final e levou a Argentina à prorrogação.

Família e patrocínios

Os efeitos da fama chegaram à casa dos pais, em Cabo Verde, onde fãs aparecem diariamente para pedir fotos ou conversar com a mãe do goleiro. “Não estou lá, então não posso ajudá-los. Eles têm que aprender a conviver com a situação e impor limites”, afirmou. No campo comercial, Vozinha fechou apenas uma parceria durante a Copa, com a UFL Mobile, e disse que não pretende se associar a marcas de tabaco, álcool ou apostas.

O goleiro reconhece que a visibilidade ajudou a projetar o arquipélago, mas atribui o resultado ao grupo. “Fizemos história e a melhor notícia seria se pudéssemos aproveitar esse impulso para desenvolver o nosso país”, declarou. Sobre a nova condição, foi direto: “Muita gente quer ser famosa e ter uma imagem pública, mas só enxerga o lado positivo dessa realidade. Para ser sincero, se me oferecessem a vida que tenho hoje ou a vida que tinha antes, eu escolheria a que tinha antes.”

Depois do Mundial, Vozinha assinou com o Colo-Colo, do Chile, clube que segundo ele demonstrou maior interesse, e espera disputar a Copa Libertadores. O jogador desistiu da aposentadoria da seleção e está concentrado em Lisboa para o início das eliminatórias da Copa Africana de Nações de 2027. Ele também figura entre os dez indicados ao prêmio de melhor goleiro do mundo na cerimônia da Bola de Ouro, prevista para daqui a cerca de um mês. “Nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Só de estar nessa lista já é uma grande honra”, disse.

Com informações de The Observer, em reportagem de Dani Gil.

“Amor Preto”: Carla Akotirene lança obra sobre afeto entre pessoas pretas

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Carla Akotirene, autora do livro Amor Preto
Foto: Renner Boldrino

Escritora baiana parte de suas próprias experiências para refletir sobre amor, racismo e interseccionalidades em livro publicado pela Record.

A escritora e intelectual baiana Carla Akotirene lançou “Amor Preto: Escrevivências sobre racismo e interseccionalidades”, novo livro publicado pela Editora Record. A obra, lançada em agosto de 2026, coloca as relações amorosas entre pessoas pretas no centro de uma reflexão sobre afeto, cuidado, ancestralidade e estruturas raciais.

Foto: Divulgação

O lançamento presencial aconteceu durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 12 de setembro. A ocasião marcou a apresentação pública do novo trabalho da autora, conhecida também pelo livro Interseccionalidade, publicado pela Coleção Feminismos Plurais.

A autora investiga como as relações entre mulheres pretas e homens pretos também são atravessadas pelas marcas sociais e raciais que estruturam a vida cotidiana, apesar de serem definidas na maioria das vezes somente como uma experiência individual. 

O amor como campo de reflexão

Em Amor Preto, Carla Akotirene apresenta o que chama de uma perspectiva antirracista para pensar o afeto. O livro associa amor, alinhamento, cuidado e respeito espiritual, propondo que as relações também podem ser espaços de construção de vínculos e de enfrentamento de processos de autorrejeição.

Ela organiza parte dessa reflexão em seu chamado “diário de Iyabá”, formato em que registra suas escrevivências e aproxima experiência pessoal, produção intelectual e saberes ancestrais. A proposta dialoga com a tradição da escrevivência associada à obra de Conceição Evaristo.

Segundo a apresentação da Editora Record, o livro propõe um caminho voltado ao bem-viver da comunidade negra, afirmando o afeto afrocentrado como uma dimensão da contracolonialidade. A publicação também relaciona cuidado e respeito espiritual à construção e ao fortalecimento dos laços afetivos.

Escrevivências, feminismo negro e contracolonialidade

A reflexão de Akotirene se aproxima de diferentes tradições do pensamento negro. O texto-base do lançamento aponta como referências a crítica feminista negra de autoras como Toni Morrison, Alice Walker e bell hooks, a produção poética de Lande Onawale e debates contemporâneos sobre relações afetivas entre pessoas pretas.

Nesse percurso, Amor Preto aproxima teoria e experiência, em um espaço em que a autora utiliza suas próprias vivências para discutir como relações amorosas podem ser atravessadas por expectativas, rejeições e formas de identificação construídas em uma sociedade racializada.

A obra também aborda a chamada “descolonização psíquica”, conceito utilizado por Akotirene para pensar a possibilidade de romper com padrões de autorrejeição e com marcas produzidas historicamente pelo racismo.

Doutora em Estudos Feministas e natural de Salvador, Carla Akotirene tem uma trajetória dedicada à produção intelectual sobre raça, gênero e desigualdades. É autora de Interseccionalidade, obra que ajudou a ampliar o debate sobre o conceito no Brasil, além de Ó pa í, prezada! e É fragrante fojado dôtor vossa excelência.

Serviço

Livro: Amor Preto: Escrevivências sobre racismo e interseccionalidades
Autora: Carla Akotirene
Editora: Record
Edição: 1ª edição, 2026
Páginas: 126
Idioma: Português
Formato: Capa comum
ISBN: 978-85-01-92683-8
Lançamento: agosto de 2026
Preço da edição física: R$ 59,90
E-book: R$ 39,90 na Apple Books

Os preços podem variar de acordo com a loja e a edição.

Banho no escuro antes de dormir: entenda o que a ciência diz sobre a tendência

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A imagem foi editada com ajuda de inteligência artificial/Foto: Canva

Prática que ganhou espaço nas redes sociais combina pouca luz e banho quente; pesquisas sobre sono indicam que os dois fatores podem favorecer o relaxamento, mas ainda não há estudos que comprovem diretamente os efeitos do chamado “banho no escuro”

Uma nova tendência de bem-estar nas redes sociais propõe apagar a luz do banheiro antes de entrar no chuveiro à noite. A prática de “banho no escuro”, ganhou adeptos com a promessa de ajudar o corpo a desacelerar antes de dormir. Na penumbra, o som da água fica mais evidente, enquanto o excesso de estímulos visuais diminui, segundo texto publicado pela The Conversation.

Embora ainda existam poucas pesquisas sobre o banho no escuro especificamente como técnica para melhorar o sono, estudos sobre ciência do sono apontam para dois fatores envolvidos na prática: luz e calor. Ambos podem influenciar o organismo, ajudando a preparar o corpo para dormir ou, dependendo da exposição, mantendo-o em estado de alerta.

Menos luz à noite pode favorecer o sono

A luz não interfere apenas na visão. Durante a noite, a exposição à iluminação intensa informa ao relógio biológico do cérebro que ainda é dia. Esse estímulo pode atrasar a liberação de melatonina, hormônio que participa da regulação do sono e é frequentemente descrito como um “sinal de escuridão” do organismo.

Em um estudo de laboratório com 116 adultos, a exposição à iluminação comum de ambientes entre o anoitecer e o horário de dormir reduziu em aproximadamente 70% os níveis de melatonina no início da noite, em comparação com uma iluminação muito baixa. A exposição à luz também reduziu em cerca de 90 minutos a duração total da liberação do hormônio. Os participantes relataram estar mais alertas.

O banheiro, por sua vez, costuma ser um dos ambientes mais iluminados da casa. Luzes no teto e espelhos iluminados são pensados para facilitar tarefas que exigem precisão, algo útil durante o dia, mas que pode não ser tão adequado no período que antecede o sono.

Um experimento mostrou que apenas 30 minutos de exposição à iluminação convencional de um banheiro na hora de dormir foram suficientes para reduzir os níveis de melatonina e aumentar a sensação de alerta dos participantes.

Pesquisas mais recentes apontam para resultados semelhantes. Um estudo de 2025 comparou, antes de dormir, a exposição a uma iluminação LED branca fria com uma iluminação fluorescente mais suave, ambas com o mesmo nível de intensidade. A luz LED atrasou em cerca de dez minutos o tempo necessário para os participantes adormecerem e fez com que eles se sentissem menos sonolentos.

Outro estudo, realizado com adolescentes, constatou que uma exposição intensa à luz no início da noite reduziu os níveis de melatonina três horas depois e atrasou o aumento natural da sonolência.

O efeito também aparece em pesquisas sobre telas. Em um experimento controlado, pessoas que leram em um dispositivo eletrônico com emissão de luz, em vez de um livro impresso, tiveram o relógio biológico atrasado, apresentaram redução de melatonina e demoraram mais para adormecer.

Já uma pesquisa de laboratório de 2023 analisou o impacto do componente azul da luz emitida por telas — parte da iluminação considerada especialmente relevante para o relógio biológico. A redução desse componente diminuiu a supressão da melatonina e encurtou o tempo necessário para adormecer.

Nesse sentido, o banho no escuro pode contribuir para o sono caso substitua períodos de exposição à iluminação intensa do banheiro ou ao uso do celular. O efeito, porém, tende a ser menor se, depois do banho, a pessoa voltar a ficar sob luz forte para secar o cabelo, escolher roupas para o dia seguinte ou organizar o ambiente.

Além disso, a mudança não é imediata. A melatonina não começa a ser liberada instantaneamente após as luzes serem apagadas, e um banho curto não é capaz de reajustar um relógio biológico que vem funcionando em horários tardios há semanas.

O papel da água quente

A temperatura da água também pode estar relacionada aos possíveis efeitos relaxantes da prática.

Pesquisas sobre aquecimento corporal passivo — quando o corpo é aquecido sem a realização de exercícios — indicam que um banho quente tomado no momento adequado pode ajudar a adormecer mais rapidamente.

Uma meta-análise publicada em 2019 reuniu 13 estudos e concluiu que permanecer por cerca de dez minutos em água morna, entre uma e duas horas antes de dormir, reduziu em aproximadamente nove minutos o tempo necessário para adormecer e melhorou a eficiência do sono, ou seja, a proporção do período na cama que a pessoa efetivamente passou dormindo.

A água quente dilata os vasos sanguíneos das mãos e dos pés, facilitando a queda posterior da temperatura corporal central. Essa redução da temperatura é um dos sinais associados à sonolência.

Banho também pode ajudar a desacelerar o organismo

O banho no escuro também pode atuar sobre o sistema nervoso. A baixa luminosidade reduz sinais de alerta do cérebro e pode facilitar a passagem de um estado de vigilância, associado à resposta de “luta ou fuga”, para um estado de maior calma e descanso.

Em um estudo de laboratório, voluntários permaneceram em uma banheira enquanto sensores monitoravam seus batimentos cardíacos. Quando a água estava próxima da temperatura normal do corpo, entre 37°C e 38°C, houve aumento da atividade do sistema nervoso parassimpático — responsável por desacelerar o coração e favorecer o relaxamento.

Os participantes apresentaram uma pequena redução da frequência cardíaca e aumento da variabilidade da frequência cardíaca, indicador de que o organismo estava se adaptando e entrando em um estado mais tranquilo.

Um experimento mais simples encontrou efeito semelhante com apenas um banho de pés com água quente. Jovens mulheres que deixaram os pés imersos em água quente durante dez minutos apresentaram aumento do tônus vagal em até 15 minutos.

O tônus vagal está relacionado aos sinais transmitidos pelo nervo vago, que participa da regulação dos batimentos cardíacos, da respiração e do relaxamento. Um tônus vagal maior está associado a uma respiração mais estável, níveis menores de hormônios do estresse e uma transição mais fácil para o sono.

A ausência de luz também pode contribuir para esse processo. Iluminações LED intensas e ricas em luz azul podem aumentar a frequência cardíaca e reduzir o tônus vagal em poucos minutos. Uma revisão sistemática publicada em 2025 apontou que ambientes com iluminação mais fraca e quente permitem o aumento da variabilidade da frequência cardíaca, sinalizando um sistema nervoso mais calmo.

Até o som da água pode ter influência

Outro elemento presente durante o banho é o som da água corrente. Uma análise publicada em 2024 apontou que sons naturais, como chuva e água corrente, podem reduzir o cortisol — hormônio relacionado ao estresse — e estabilizar a frequência cardíaca de maneira mais eficaz do que o silêncio.

Assim, calor, escuridão e um som ambiente suave podem atuar em conjunto para sinalizar ao organismo que é hora de relaxar.

Ainda faltam estudos específicos sobre o “banho no escuro”

Apesar dos resultados encontrados em pesquisas sobre luz, temperatura, relaxamento e sono, existe uma ressalva importante: nenhum grande estudo comparou diretamente banhos no escuro com banhos realizados em ambientes iluminados enquanto avaliava indicadores objetivos de sono.

Isso significa que a possível relação entre a prática e uma melhora no sono é baseada na combinação de resultados de diferentes pesquisas, e não em evidências que tenham testado especificamente o chamado “banho no escuro”.

Também é preciso considerar a segurança. Pessoas com dificuldades de mobilidade podem precisar de iluminação para reduzir o risco de escorregões e quedas. Além disso, quem sente ansiedade durante a noite pode ficar desconfortável em ambientes completamente escuros.

Como acontece com outras recomendações relacionadas ao sono, o banho no escuro não deve ser encarado como uma solução para a insônia crônica. A exposição à luz durante o dia, o horário de consumo de cafeína e o controle do estresse também têm papel importante na qualidade do sono.

Cosme e Damião, Ibeji e erê, o que celebra o 27 de setembro

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Foto: Márvila de Ewá

Entenda a origem de Cosme e Damião, do orixá Ibeji e dos erês, o significado de cada palavra e o que a festa de 27 de setembro ensina sobre a infância

Quem cresceu nos subúrbios e nas periferias do Brasil guarda na memória um dia do ano em que as crianças corriam de portão em portão atrás de saquinhos de cocada, maria-mole e pé de moleque, enquanto na Bahia as casas se enchiam de gente em volta de uma bacia de caruru. Neste domingo (27), devotos católicos, umbandistas e candomblecistas celebram Cosme e Damião e os Ibejis numa mesma data que reúne tradições nascidas em lugares e tempos muito distantes e que, justamente por isso, costumam ser confundidas. Separar o que é orixá, o que é erê e o que é santo ajuda a enxergar a sofisticação daquilo que o povo negro construiu no Brasil a partir desse encontro, e a entender por que uma festa dedicada às crianças diz tanto sobre a vida dos adultos.

Os gêmeos sagrados dos iorubás

A história começa na África Ocidental, no território que hoje corresponde ao sudoeste da Nigéria e a partes do Benin. O nome Ibeji vem da junção dos termos iorubás ibi, nascimento, e ji, dois, e designa o orixá jeje-nagô que protege e guarda os gêmeos. Nos candomblés, a saudação Oní Ibeji anuncia o senhor dos gêmeos, e o grito Béjèrò, que especialistas na língua descrevem como uma contração entre Ibeji e eró, palavra que remete à calma e à tranquilidade, lembra que a presença dessas divindades serena quem as recebe.

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A importância dos gêmeos nessa cultura tem base concreta, já que as sociedades iorubanas estão entre as que registram as maiores taxas de nascimento de gêmeos do mundo. O primeiro a nascer recebe o nome de Taiwo e o segundo, de Kehinde, e a tradição considera Kehinde o mais velho, porque teria sido ele a mandar o irmão na frente para inspecionar o mundo. A reverência nem sempre existiu. Estudos sobre o tema apontam que o culto teria surgido em Ìṣokùn e que, durante muito tempo, o nascimento duplo foi visto como desequilíbrio, a ponto de os gêmeos serem sacrificados antes de passarem a ser venerados.

Essa virada transformou os gêmeos em portadores de sorte e prosperidade para a família. Quando um deles morre, a família e o irmão sobrevivente seguem cultuando o gêmeo falecido por meio de uma estatueta de madeira, a ère ìbejì, que recebe parte de tudo o que o outro ganha. A tradição também dá nome a quem vem depois, pois a criança nascida após os gêmeos é chamada Idòwú, enquanto entre os povos de língua gbe o vodum protetor dos gêmeos se chama Hoho e o caçula recebe o nome de Dosú.

Os santos médicos que não cobravam

Em outro ponto do mapa, na Ásia Menor, nasceu a segunda metade desta história. Segundo a tradição cristã, Cosme e Damião eram gêmeos nascidos em Egeia, na Cilícia, atual Turquia, exerciam a medicina sem aceitar pagamento e por isso ficaram conhecidos como anárgiros, termo grego para os desapegados do dinheiro. Os irmãos foram martirizados no início do século IV, durante a perseguição aos cristãos promovida pelo imperador Diocleciano, e o martírio é associado à cidade de Ciro, na antiga Síria.

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A devoção se espalhou pelo Mediterrâneo e chegou a Portugal, de onde atravessou o Atlântico com a colonização. Duarte Coelho trouxe o culto ao Brasil por volta de 1530, os santos se tornaram padroeiros de Igarassu, em Pernambuco, e passaram a ser invocados no Nordeste contra epidemias. A Igreja Matriz dos Santos Cosme e Damião, em Igarassu, é considerada o templo mais antigo do país ainda em funcionamento.

O dia 27 de setembro vem desse calendário. A Igreja Católica celebrou os santos nessa data até 1969, quando a reforma litúrgica transferiu a memória para o dia 26, já que o 27 também homenageava São Vicente de Paulo, cuja data de morte era conhecida. A decisão de Roma não mudou o costume popular brasileiro, que manteve o 27 como o dia dos santos gêmeos nas casas, nas ruas e nos terreiros.

O encontro nas encruzilhadas do Brasil

Os povos escravizados reconheceram nos santos gêmeos da Igreja a imagem de Ibeji, e a aproximação produziu algo que não pertence por inteiro a nenhuma das duas origens. O pesquisador Michael Iyanaga, que analisou jornais de Salvador entre o século XIX e o início do XX, mostrou que o culto a Cosme e Damião só ganhou força na cidade quando surgiu já associado ao mundo negro, e defende que a devoção baiana é uma criação própria, que se apoia em cosmologias europeias e africanas sem se reduzir a nenhuma delas.

O exemplo mais evidente dessa invenção é Doum, o menino que aparece ao lado dos santos nas imagens vendidas em mercados populares. Ele descende do Idòwú iorubá, e o antropólogo Vivaldo da Costa Lima sugere que o nome talvez venha de owú, palavra que significa ciúme, o que faria dele o caçula enciumado dos irmãos mais velhos. Vivaldo registra ainda que a fama de travessos desses caçulas deu origem ao ditado nagô Exu lehin Ibeji, que diz que Exu vem depois dos Ibeji.

Erê, a brincadeira que virou criança

O erê completa o trio e costuma ser o mais confundido. Em iorubá, a palavra não significa criança, que se diz omodé, e omodé kekerê quando se trata da criancinha, do filho pequeno. Erê é o jogo, a diversão, o próprio ato de brincar, e foi na diáspora, nos terreiros, nas rodas de samba e nas letras de música, que o termo passou a nomear as crianças.

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No candomblé, o erê não é um orixá nem um espírito de criança morta. Ele se manifesta no transe do iniciado como intermediário entre a pessoa e o orixá e transmite as mensagens da divindade, já que no candomblé o orixá não fala. Os erês recebem nomes ligados ao orixá de cada iniciado, como Pipocão para filhos de Obaluaiê, Pingo Verde para os de Oxóssi e Rosinha para os de Oxum.

A umbanda desenvolveu outra compreensão. Nela, os erês são entidades autônomas, com história e nome próprios, como Mariazinha e Pedrinho da Cachoeira, que formam uma falange sob a vibração de Ibeji e são sincretizadas com Cosme e Damião. É essa falange que os umbandistas chamam de Ibejada, e é por isso que, nas giras de setembro, a saudação Oní Ibejada ecoa entre doces, refrigerante e risadas.

O caruru dos sete meninos

Na Bahia, a festa tem cheiro de dendê e quiabo. O escritor Odorico Tavares registrou em “Bahia, imagens da terra e do povo”, de 1951, a tradição afro-luso-baiana segundo a qual existiam sete irmãos, Cosme, Damião, Doú, Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi. Cada um deles é representado por um menino, e o rito pede que sete crianças sejam chamadas para comer primeiro.

A mesa dos meninos é montada com uma toalha branca estendida no chão, as crianças sentadas em roda, a imagem dos santos ao centro e o alguidar com a comida, que é comida com as mãos ao som de cantigas próprias da ocasião. Só depois que os sete terminam o caruru é servido aos adultos, e a crença diz que o gesto traz saúde, alegria e sorte a quem oferece. O babalorixá André Nery conta que, segundo a tradição, um caruru foi preparado para curar uma pessoa doente, e os sete meninos esfregaram no corpo do enfermo as mãos com que haviam comido, livrando-o da doença. A relação com a saúde atravessa a festa até hoje, já que, segundo quem prepara o prato em Salvador, quase todos os devotos oferecem o caruru em agradecimento a graças ligadas à saúde.

No Rio de Janeiro, a festa ganhou a forma dos saquinhos de doce. O Laboratório de Antropologia do Lúdico e do Sagrado do Museu Nacional, coordenado pela antropóloga Renata Menezes, pesquisa a tradição desde 2013 e registrou que os festejos começam por volta de 26 de setembro e se estendem até 25 de outubro, dia de Crispim e Crispiniano, outra dupla de santos gêmeos.

Por que o culto importa

Os ritos dedicados às crianças sagradas funcionam como uma pedagogia que se aprende com o corpo, e o primeiro ensinamento está na ordem da mesa. Quando sete meninos comem antes de todos os adultos da casa, a tradição inverte a hierarquia que organiza o resto do ano e lembra que uma comunidade se mede pelo modo como alimenta os seus menores. O caruru só chega ao prato dos mais velhos depois que as crianças se fartam, e ninguém ali entende essa espera como perda.

A mesma mesa ensina o adulto a abrir mão da compostura. Comer com as mãos, sentado numa toalha estendida no chão, lambuzado de dendê, devolve uma intimidade com a comida e com o outro que a vida formal faz desaprender, e a promessa só se cumpre quando todo mundo divide o mesmo alimento. A saúde que o caruru promete passa pela partilha, pela casa cheia e pela vizinhança que atende ao chamado.

Os gêmeos iorubás existem em par, e quando um deles parte a família talha a ère ìbejì para que o irmão que ficou continue inteiro, oferecendo à estatueta parte de tudo o que ele recebe, como se a ausência também precisasse de cuidado. Béjèrò, a saudação que pede calma, completa o ensinamento ao lembrar que a alegria dessas divindades também é repouso, respiro e pausa no meio da pressa.

Para as pessoas negras, esses ensinamentos ganham a força de uma reparação. Muitos adultos negros foram chamados de maduros cedo demais, cuidaram de irmãos, trabalharam antes da hora e aprenderam a desconfiar da própria leveza, carregando dentro de si uma infância interrompida. A imagem da ère ìbejì cabe nessa história, porque cultuar os erês e os Ibejis é também esculpir, a cada setembro, a criança que ficou pelo caminho, oferecer a ela o doce e o caruru e mantê-la viva ao nosso lado. Doum, o caçula que chegou depois e ganhou lugar na imagem dos santos, lembra que sempre há espaço na roda para quem ainda não foi acolhido.

10 anos de Atlanta: como Donald Glover reinventou a televisão ao contar histórias negras

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Atlanta fez 10 anos de lançamento em setembro/Foto: IMDb

Estreada em 2016, série da FX rompeu com formatos tradicionais ao misturar comédia, drama, surrealismo, hip-hop e crítica social

Em setembro de 2016, uma série estreava na televisão norte-americana sem parecer muito interessada em explicar ao público exatamente o que ela era. Atlanta, criada por Donald Glover, chegava à FX acompanhando Earn Marks (Donald Glover), um jovem que retorna à cidade e passa a administrar a carreira musical do primo Alfred “Paper Boi” Miles (Brian Tyree Henry). Ao redor deles estavam Van (Zazie Beetz) e Darius (LaKeith Stanfield).

Dez anos depois, a produção é lembrada não apenas pelos personagens ou pelas histórias sobre a cena do hip-hop de Atlanta, mas pela maneira como ampliou as possibilidades da televisão. Desde os primeiros episódios, críticos destacaram sua originalidade, especificidade e capacidade de combinar humor, melancolia e observação social sem se prender às convenções de uma sitcom. A revista New Yorker, por exemplo, definiu a série como uma das produções mais interessantes daquela leva de comédias de meia hora de 2016 e chamou atenção para sua ênfase em personagem, atmosfera, lugar e ritmo.

A série está disponível no streaming Disney+.

Uma comédia que não queria ser apenas uma comédia

Uma das primeiras inovações de Atlanta foi justamente não se comportar como aquilo que a classificação “comédia” poderia fazer o público esperar.

A crítica publicada pelo TVLine antes da estreia já apontava que, embora tivesse meia hora de duração, seria enganoso simplesmente classificá-la como uma comédia. O Los Angeles Times, por sua vez, descreveu a produção como uma obra sutil e humana, centrada em personagens e no lugar onde eles vivem.

A própria estrutura da série confirma essa escolha. Um episódio pode acompanhar os problemas financeiros de Earn e, no seguinte, apresentar uma situação completamente absurda. A produção não estabelece uma fronteira rígida entre comédia, drama, terror, sátira e fantasia.

A experiência negra sem uma única fórmula

Atlanta também rompeu com uma expectativa frequente em narrativas sobre pessoas negras: a de que a história precisa necessariamente explicar a experiência racial para o público.

A série fala sobre racismo, pobreza, classe, dinheiro, identidade, violência, apropriação cultural e indústria musical. Mas seus personagens não existem apenas como instrumentos para discutir esses assuntos.

Eles são contraditórios, engraçados, egoístas, vulneráveis, ambiciosos e, muitas vezes, simplesmente estranhos.

A própria cidade ocupa um papel fundamental nessa construção. Em vez de funcionar apenas como cenário, Atlanta aparece como parte da identidade da produção, com sua história, cultura, lugares e relações sociais. Uma reportagem da Axios publicada em 2026, por ocasião dos 10 anos da série, destaca justamente o uso da cidade para abordar raça, estruturas de poder, capitalismo e identidade.

O absurdo como linguagem

Talvez nenhuma característica tenha se tornado tão associada a Atlanta quanto sua capacidade de transformar o absurdo em narrativa.

Um carro invisível. Uma versão negra de Justin Bieber. Um episódio apresentado como um programa de televisão dentro da própria série. Um rapper encontrando um jacaré. Uma história de terror protagonizada por Teddy Perkins.

Essas situações não são apenas “bizarras”. O absurdo permite que a série crie uma distância da realidade para falar sobre questões que são extremamente concretas.

“Teddy Perkins” e o terror dentro da comédia

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa liberdade é “Teddy Perkins”, episódio da segunda temporada.

Darius vai até uma mansão e encontra Teddy Perkins, personagem interpretado por Donald Glover com uma caracterização perturbadora. A história abandona boa parte da estrutura tradicional da série e assume elementos de terror psicológico.

O episódio chegou a ser indicado ao Emmy em categorias de direção e edição. (Television Academy)

Mais do que um episódio diferente, “Teddy Perkins” se tornou uma demonstração de que Atlanta poderia transformar seus próprios personagens e seu universo em matéria-prima para gêneros completamente diferentes.

A televisão como experimento

A liberdade narrativa se tornou ainda mais evidente nas temporadas seguintes.

Na terceira temporada, por exemplo, a série passou a apresentar episódios que funcionavam quase como curtas-metragens independentes. Alguns nem sequer acompanhavam diretamente Earn, Paper Boi, Van e Darius.

Em entrevista à GQ, Stephen Glover, roteirista e produtor executivo da série, explicou que a equipe sempre teve interesse na ideia de antologia e que, desde o início, brincava com a possibilidade de contar histórias completamente diferentes dentro de Atlanta.

O resultado foi uma produção que não precisava avançar sua trama principal a cada episódio para justificar sua existência.

Essa escolha chegou a provocar estranhamento entre parte do público, mas fazia parte da proposta criativa.

Uma cidade negra no centro da televisão

A escolha de Atlanta também é significativa.

Em vez de utilizar Nova York ou Los Angeles como centros inevitáveis de uma narrativa sobre indústria cultural, Atlanta colocou uma cidade do Sul dos Estados Unidos no centro da história. E não qualquer Atlanta: a Atlanta negra, musical, empresarial, periférica, rica, pobre, contraditória e culturalmente específica.

A Axios destaca que a produção surgiu em um momento particular da cidade, após os efeitos da Grande Recessão, e utilizou sua cultura, história e espaços como elementos para discutir questões maiores. A publicação também aponta que a série contou, naquele momento, com uma das poucas salas de roteiristas totalmente negras da televisão.

O hip-hop como parte da história

A música também não aparece apenas como trilha sonora.

A ascensão de Paper Boi permite que Atlanta explore a relação entre arte e dinheiro, fama e anonimato, autenticidade e indústria, comunidade e sucesso.

A carreira de um rapper funciona como ponto de partida para falar sobre as estruturas que cercam a cultura hip-hop — e sobre as expectativas colocadas sobre artistas negros.

Isso também aproxima a série da própria trajetória de Donald Glover, que atua simultaneamente como ator, roteirista, produtor, diretor, comediante e músico, sob o nome artístico Childish Gambino.

Uma série que também mudou o reconhecimento institucional

A inovação narrativa veio acompanhada de reconhecimento da indústria.

Segundo a Television Academy, Atlanta recebeu 26 indicações ao Emmy e conquistou sete prêmios. Entre eles estão as vitórias de Donald Glover como melhor ator em série de comédia e melhor direção de comédia em 2017.

A vitória na direção teve um significado histórico: Glover se tornou o primeiro homem negro a vencer o Emmy de direção em série de comédia.

A produção também recebeu reconhecimento por aspectos técnicos e artísticos. “Teddy Perkins”, por exemplo, foi indicado ao Emmy de direção e edição; anos depois, “Three Slaps” venceu na categoria de fotografia para série de meia hora.

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