Os modelos Rita Carreira e Mohamed Deme utilizaram as redes sociais para denunciar um episódio de racismo ocorrido durante um voo da Air France que partia de Paris com destino a São Paulo. Segundo o casal, o caso envolveu a hostilidade de um passageiro e uma postura negligente por parte da tripulação.
De acordo com o modelo senegalês, a situação começou logo após o embarque. Ao ocupar seu assento designado, o passageiro ao lado passou a encará-lo com hostilidade e a demonstrar incômodo físico com sua presença, evitando qualquer contato de forma brusca. O homem chegou a declarar: “Você pode sentar aí, mas não pode encostar em mim porque eu não gosto que me toquem”.
Ao ser questionado sobre a inviabilidade de evitar qualquer contato físico no assento do meio, o passageiro solicitou a uma comissária a troca de lugar. Mohamed relatou o constrangimento ao ver o homem retornar para buscar seus pertences debochando e rindo da situação. Nesse momento, o modelo começou a gravá-lo. “Eu disse a ele: ‘Você é muito racista’. Ele apenas respondeu: ‘E daí?'”, relembrou.
Abordagem da companhia
Para o casal, a conduta da Air France foi ainda mais desrespeitosa. Rita descreve que três funcionários cercaram Mohamed, exigindo que ele desligasse o aparelho e parasse de falar em “racismo”, sob a alegação de que ele estaria incomodando os demais passageiros. “Tentaram de todas as formas diminuir a dor dele”, afirmou a modelo em entrevista ao portal Mundo Negro, destacando que a empresa tentou fazer o marido acreditar que estava “imaginando coisas”.
“Ele estava chorando, agachado; foi muito triste. Estavam acuando ele, querendo abafar o caso. Em nenhum momento o acolheram. Só deram atenção ao outro passageiro, oferecendo-lhe um novo lugar”, completou Rita.
O casal relata ainda que, após o pouso, houve contradições entre a equipe. Ao ser procurada por Rita, uma comissária afirmou estar ciente do caso, mas disse que não poderia fornecer o nome do outro passageiro e que chamaria o comandante. No entanto, o comandante declarou não saber de nada. Posteriormente, a mesma comissária mudou sua versão, afirmando que nada havia acontecido. “Começaram a se proteger entre eles”, criticou a modelo.
Obstáculos na delegacia
Na última quinta-feira (12), o casal tentou registrar um boletim de ocorrência na delegacia do Aeroporto de Guarulhos, mas enfrentou novos obstáculos. Segundo Rita, eles precisaram repetir o depoimento três vezes para policiais diferentes — todos brancos —, que alegaram que o caso não configurava crime de racismo ou injúria racial, pois o agressor não utilizou xingamentos ou gestos específicos.
“Eles nunca vão entender o que passamos. Eu tentei explicar ao policial que, diante de todo o contexto, aquilo é racismo para nós. Mas, para a lei, eles precisam de algo mais”, desabafou. “Quanto mais ensinamos sobre o racismo, mais essas pessoas aprendem a se blindar. O agressor sabia onde ferir meu marido. Nada apaga o que vivemos; ver o sofrimento dele é uma dor irreparável”, lamentou.
Mesmo com o apoio de uma testemunha que se prontificou a depor, Rita e Mohamed sentem-se desamparados pelas autoridades devido à alegada falta de provas. O casal, que retornava de uma semana de trabalho na Paris Fashion Week, reforçou que as passagens foram custeadas com recursos próprios e que a companhia aérea não ofereceu suporte diante do ocorrido.
Após a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) ser eleita presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados, o apresentador Ratinho proferiu ofensas transfóbicas em seu programa no SBT, na noite desta quarta-feira (11). Imediatamente, a parlamentar protocolou um pedido de investigação no Ministério Público de São Paulo (MP-SP), solicitando a abertura de inquérito policial e a prisão do apresentador que, se condenado, pode pegar até seis anos de reclusão. A informação foi revelada pela coluna de Igor Gadelha, no portal Metrópoles.
Durante a exibição do programa, Ratinho utilizou um discurso de ódio para questionar a legitimidade de a parlamentar ocupar o cargo. “Ela não é mulher, ela é trans”, disparou. “Teve uma votação hoje, e deram a Comissão da Mulher para uma mulher trans. Eu não achei muito justo, não. Tem tanta mulher, por que vai dar para uma mulher trans?”. Ratinho afirmou ainda que, para ser mulher, seria necessário “ter útero” e “menstruar”.
Na representação enviada ao MP-SP, Erika Hilton destaca que o apresentador se baseia na “repetição de afirmações destinadas a negar a condição feminina da parlamentar e a sustentar que mulheres trans não poderiam ser consideradas mulheres”.
“As declarações proferidas pelo apresentador não se limitaram a uma crítica política ou a um debate institucional acerca da atuação da parlamentar, mas consistiram na negação explícita de sua identidade de gênero e na afirmação reiterada de que ela não seria uma mulher. Esse elemento constitui o núcleo da conduta aqui narrada e evidencia o caráter discriminatório do discurso proferido”, diz um trecho do documento encaminhado ao Grupo Especial de Combate aos Crimes Raciais e de Intolerância (Gecradi).
A parlamentar destaca, ainda, o agravante de o crime ter sido transmitido em rede nacional, o que contribui para “amplificar o alcance das declarações e potencializar seus efeitos discriminatórios”.
Niara (Erika Januza) e Cayman (Welket Bungué).Foto: Globo/Estevam Avellar
‘A Nobreza do Amor’, a nova novela das seis da Globo que chega na próxima segunda-feira, 16 de março, mobilizou 300 pessoas para erguer sua cenografia monumental. Foram mais de três meses de trabalho intenso nos Estúdios Globo para dar vida ao reino africano de Batanga, com 974 metros quadrados, e à cidade fictícia de Barro Preto, no Brasil, que ocupa 3.532 metros quadrados. (Veja fotos exclusivas abaixo)
A partir de um estudo aprofundado sobre as raízes e as estéticas milenares do continente africano, a equipe de produção estabeleceu uma identidade artística pautada pela exaltação e pelo resgate histórico. Sob a consultoria de Maurício Camillo, pesquisador de Guiné-Bissau especialista em grandes impérios africanos, e a direção de arte de Rafael Cabeça, o projeto se propõe a desconstruir estereótipos historicamente limitantes.
“O povo da África ficou reduzido aos estereótipos de pobreza e doença, de savana ou até de atrasado, perpetuado enquanto pobre e associado ao crime e à corrupção. É esse retrato que aparece nos filmes e algumas novelas. ‘A Nobreza do Amor’ traça outro caminho, trazendo outras formas de viver existentes na África em suas múltiplas culturas, que também podem ser mostradas”, afirma Maurício.
Foto: Globo/Estevam Avellar
A produção, entretanto, se estende para além desses muros. As gravações foram iniciadas no Rio Grande do Norte, em dezembro de 2025, com cenas em locações escolhidas por suas semelhanças geográficas com a África. Além disso, diversas locações externas no Rio de Janeiro apoiaram as filmagens. A batalha final da Guerra da Independência, liderada pelo Rei Cayman II, por exemplo, foi encenada na Fortaleza de Santa Cruz da Barra, em Niterói, um sítio histórico que começou a ser construído em 1555. A locação foi ponto de partida para a cenografia de Batanga: segundo Paula Salles, o ambiente reproduzido nos Estúdios Globo funciona como uma extensão da fortaleza após a retomada do poder pelo povo africano.
O conceito por trás do reino que orientou a equipe de cenografia encontra também inspiração na relação da terra com a natureza. “Estamos muito conectados à ideia de terra sagrada”, comenta Paula. Nesse contexto, surge um dos elementos mais importantes da composição: o baobá. Presente antes mesmo da fase principal da novela, ele marca território como símbolo de resistência. “Funciona quase como um ancião, um elemento de muito poder, que estabelece uma ligação importantíssima com a história”, define a cenógrafa. Estruturada como uma torre metálica revestida com placas de tela de galinheiro em poliuretano, a árvore cenográfica tem cerca de três metros de largura, seis metros e meio de altura e uma copa de aproximadamente doze metros de folhagem, impondo-se como marco sagrado do reino.
Foto: Globo/Gabriel Vaguel
Ao redor do baobá, a cenografia organiza elementos que reforçam a influência da cultura africana em Batanga. Entre eles estão os muxarabis, treliças vazadas de origem árabe usadas no norte da África, e os símbolos adinkra, ideogramas tradicionais do povo Akan, usados há séculos para expressar seus valores e filosofia ancestral. É possível observá-los no cenário em portas, janelas e paredes, além das roupas dos personagens da realeza batangui.
Na reprodução da fortaleza nos Estúdios Globo, estão ambientes importantes para a história. A sala do trono, um dos mais emblemáticos, conta com madeira entalhada, bandeiras e pinturas feitas à mão, que transformam o ambiente numa expressão da opulência africana. Dois tronos foram criados, cada um com tipologia própria, relacionados a dois orixás da cultura iorubá: Iansã, para o trono da rainha, e Xangô, para o trono do rei. Paula explica que a escolha estética valoriza sempre o que seria feito por muitas mãos, não por processos fabris.
O cuidado artesanal que marca a realeza de Batanga também prepara o olhar do público para o contraste com a potiguar Barro Preto, que, de alguma maneira, também se liga ao reino africano. A paleta de Batanga tem tons alaranjados e terrosos, que servem como base neutra para que os figurinos vibrantes, marcados por vermelhos e dourados, ganhem força. Em contraste, quando a narrativa cruza o oceano e chega a Barro Preto, a lógica se inverte: ali, as casas são mais coloridas, e por isso os figurinos assumem tons mais neutros, criando um equilíbrio visual entre personagens e cidade. A novela também estabelece uma ponte luminosa entre esses dois universos: enquanto Batanga já possui iluminação própria, Barro Preto ainda vive à base de lamparinas.
Foto: Globo/Estevam Avellar
Barro Preto é, então, para o cenógrafo Fábio Rangel, uma cidade “parada no tempo”. Ficcional e ambientada no Rio Grande do Norte, sua construção visual partiu de uma ampla pesquisa em referências das regiões Norte e Nordeste, explorando casarios coloridos e fachadas históricas preservadas desde o século XIX, como as de Cachoeira (BA) e Olinda (PE). Em sua composição, nada remete à modernização: as casas carregam marcas de envelhecimento natural, sem interferências contemporâneas. A arquitetura é eclética, combinando elementos clássicos e góticos, entre outras influências.
A organização da cidade faz uma homenagem às novelas clássicas: Barro Preto se estrutura em torno de uma praça central, onde se dispõem igreja, armazém e casas principais – um formato que remete a produções como ‘Roque Santeiro’ (1985) e ‘Tieta’ (1989). Entre os elementos mais marcantes, está o busto da mãe do prefeito Bartô, que será animado por computação gráfica, reagindo aos principais acontecimentos da cidade. Para a constituição de Barro Preto houve também gravações em locações externas no Rio. A fazenda do núcleo de Tonho (Ronald Sotto), por exemplo, foi gravada na Fazenda da Taquara, onde a equipe instalou o Engenho Santa Fé.
Fábio estruturou Barro Preto como um mosaico de pequenos mundos, onde cada núcleo ganha traços de suas identidades. Os personagens de origem libanesa, por exemplo, recebem referências específicas dessa cultura, enquanto o banqueiro Diógenes (Danton Mello) habita um ambiente com visual mais inglês, reforçando sua posição de poder. Como a cidade abriga o núcleo mais cômico da novela, Fábio explica que a cenografia é “mais leve, brinca com essa coisa da vilania e dos heróis de um jeito um pouco mais caricato”.
Foto: Globo/Gabriel Vaguel
Ao longo da novela, Barro Preto é palco de diversas tramas, entre elas, a chegada da realeza deposta de Batanga. Para esses momentos, a cenografia reforça a ligação profunda entre os dois universos. A presença africana continua atravessando Barro Preto de modo discreto, mas significativo: aparecem ali ecos de técnicas, saberes e simbologias trazidos da África, como referências à serralheria tradicional e aos adinkras, incluindo o Sankofa, símbolo que evoca a importância de revisitar o passado para seguir adiante. Esses elementos aparecem em detalhes arquitetônicos e grafismos em cenários como a casa de José/Zambi (Bukassa Kabengele), sob a ideia de que o território brasileiro apresentado na novela é atravessado por essa herança ancestral.
A tarde deste domingo (8) foi marcada por momentos de tensão da Rihanna. A mansão da artista e empresária, localizada em Beverly Hills, Los Angeles, foi alvo de um atentado a tiros. Segundo o TMZ, a cantora e empresária estava dentro do imóvel no momento do ataque.
Segundo relatos obtidos pelo portal internacional, uma mulher com cerca de 30 anos — cuja identidade ainda não foi revelada pelas autoridades — se aproximou da propriedade a bordo de um veículo e efetuou uma sequência de disparos. Estima-se que pelo menos 10 tiros tenham atingido a estrutura da mansão.
A polícia de Los Angeles agiu rapidamente e conseguiu deter a suspeita ainda nas proximidades. Embora Rihanna estivesse presente na residência durante o atentado, fontes oficiais confirmaram que a artista não sofreu ferimentos.
Até o momento, não há confirmação se o parceiro de Rihanna, o rapper A$AP Rocky, ou os três filhos do casal estavam na casa no instante dos disparos. A motivação por trás do crime segue sob investigação rigorosa das autoridades locais.
A equipe da Rihanna ainda não se pronunciou publicamente sobre o caso.
Luiza Felix não escolheu a gastronomia pelo caminho mais óbvio. Formada em Geografia pela UFF, em Niterói, ela chegou à cozinha pelo mesmo lugar de onde veio sua consciência sobre o mundo: o estudo dos sistemas alimentares. “A gastronomia me escolheu no momento em que comecei a refletir sobre quais marcas eu gostaria de deixar no mundo”, conta.
Foi durante a graduação, ao se aproximar do núcleo de pesquisa em Geografia Agrária e Território, que Luiza se encantou pela agroecologia e compreendeu que continuar consumindo carne animal já não fazia sentido para ela. A decisão veio acompanhada de uma necessidade prática: precisava descobrir uma nova cultura alimentar. “Como era uma grande mudança de hábito, dentro de casa e também na sociedade, precisei literalmente colocar a mão na massa para descobrir uma nova cultura alimentar. Nesse processo, me apaixonei”, diz.
Grande parte do que aprendeu veio da sua mãe, que ela descreve como a melhor cozinheira que conhece. O que começou como transformação pessoal foi se tornando estilo de vida e, depois, profissão. Há cinco anos, Luiza trabalha com o Malawi Vegetariano, projeto que surgiu como um delivery vegano e hoje é um espaço de troca sobre alimentação, saúde e meio ambiente, conectando aprendizados e refletindo sobre sistemas alimentares mais sustentáveis.
O Malawi não é só um negócio: é uma posição no mundo. Luiza entende a alimentação como um ato que envolve território, ancestralidade e responsabilidade coletiva, e é essa visão que ela leva para o conteúdo que produz. Ao popularizar a culinária vegetal, ela não apenas apresenta receitas, mas convida as pessoas a repensar a relação com o que comem e de onde vem o que está no prato.
Essa perspectiva é o que a conecta diretamente ao conceito da campanha #IngredientePrincipal: comer bem como resgate cultural, sustentabilidade e acesso. O TikTok escolheu o Brasil para inaugurar essa campanha global, que conta com o Mundo Negro e o Guia Black Chefs como parceiros estratégicos na produção de conteúdo com 20 profissionais negros da gastronomia e nutrição. Luiza Felix é uma deles.
Tem planta que a gente chama de mato, mas que nossos ancestrais já conheciam como alimento. Luiza Felix (@malawivegetariano) explica o que são as PANCs, Plantas Alimentícias Não Convencionais: espécies nutritivas, acessíveis e que sempre estiveram ao nosso redor, esperando ser redescobertaS. Resgatar essas plantas é também resgatar os saberes de quem cuidava da terra antes da gente. Comer bem é, muitas vezes, lembrar do que nunca deveria ter sido esquecido. Você conhece alguma PANC? #IngredientePrincipal#TheMainIngredient#PANC
Para as pretinhas e os pretinhos que sonham em viver da gastronomia, ela tem uma orientação que vai além da técnica: “Recomendo, antes de tudo, estudo. Não apenas das técnicas, mas principalmente das contribuições que nossos ancestrais deixaram para a gastronomia brasileira, não só de forma braçal, mas também intelectual. Reconhecer essa herança e se apropriar dela é um passo fundamental para se empoderar e se posicionar com força e consciência nesse mercado.”
Da Geografia à cozinha vegetal, Luiza Felix mostra que entender os sistemas alimentares é também uma forma de transformá-los.
A nutrição encontrou Rafa Bastos entre panelas, temperos e aromas. Foi na cozinha de mainha, ainda criança, que nasceu o fascínio pelos alimentos que definiria sua trajetória. “Fui escolhido pela nutrição em meio às panelas, temperos e aromas que emanavam de cada preparação culinária feita por mainha. Ainda criança eu era fascinado pelos alimentos”, conta.
Baiano, nutricionista há 13 anos, professor de graduação e mestre em Crítica Cultural pela Universidade do Estado da Bahia, Rafa Bastos construiu uma prática clínica e acadêmica que parte de um lugar incômodo e necessário: a nutrição, como ciência, é historicamente branca e eurocêntrica. Sua pesquisa de mestrado investigou a comida de terreiro como estratégia de enfrentamento à fome e ao nutricídio, conceito que nomeia o apagamento sistemático dos saberes alimentares de povos negros e originários. Faz parte da Rede Ajeum e já atuou no SUS atendendo comunidades quilombolas.
Na clínica, atua com foco no cuidado integral de mulheres a partir do seu autoral Método Você Levíssima, baseado na cultura alimentar e na história que cada corpo carrega. A abordagem parte do princípio de que não existe nutrição descolada de identidade: quem somos, de onde viemos e o que herdamos está diretamente ligado ao que nos nutre de verdade.
O #IngredientePrincipal é a história que cada corpo carrega. Essa é a dica do nutricionista baiano Rafa Bastos (@Rafa Bastos Nutri ). Para ele, antes de falar sobre dieta ou hábitos alimentares, a gente precisa entender quem a gente é.
“Cresci e percebi que poderia melhorar a relação das pessoas com a comida e com o corpo por meio dessa ciência que, embora branca e eurocentrada por excelência, também precisa ser pensada a partir de recortes raciais, culturais e sociais relevantes para o nosso povo”, afirma.
Esse entendimento é o que conecta o trabalho de Rafa ao conceito da campanha #IngredientePrincipal: a ideia de que comer bem é um ato político, cultural e ancestral. O TikTok escolheu o Brasil para inaugurar essa campanha global, que conta com o Mundo Negro e o Guia Black Chefs como parceiros estratégicos na produção de conteúdo com 20 profissionais negros da gastronomia e nutrição. Rafa Bastos é um deles.
Para os jovens negros que desejam ingressar na área, ele tem um chamado claro: “Aprofundem os estudos em outros corpos, outros territórios e outros modos de vida, para que possamos construir uma nutrição genuinamente inclusiva e diversa. Que possamos sair da mesmice de uma nutrição baseada em gêneros alimentícios que muitas vezes mal conhecemos e valorizar dietas mais brasileiras, com a cara, o sabor e os aromas do povo brasileiro.”
O argumento de Rafa é também um projeto coletivo: “Quando jovens negros ocupam a nutrição trazendo suas vivências, territórios e saberes, essa ciência se torna mais justa, mais diversa e mais conectada com a realidade do povo brasileiro.”
A relação de Lucas Amâncio com a comida começa antes da faculdade, antes do restaurante, antes de qualquer formação formal. Começa em casa. “Quando eu era mais novo, minha família sempre me ensinou a respeitar os alimentos e tudo o que os envolve. Isso foi criando em mim uma relação muito íntima com a gastronomia”, conta.
Natural de Sergipe, Lucas veio para o Rio de Janeiro há seis anos para cursar Gastronomia na UFRJ. A mudança significou mais do que uma graduação. “Vir para o Rio de Janeiro representou uma expansão e um amadurecimento de todo esse conhecimento que me foi passado”, diz. A base acadêmica foi importante, mas é o cotidiano que segue sendo seu maior professor: “A UFRJ me deu muita base, mas o dia a dia que me ensina hoje em dia.”
Autodidata por natureza, Lucas busca referências na culinária brasileira de origem e na culinária afro-brasileira. “Busco minhas referências na culinária brasileira de origem e considero que a culinária afro-brasileira é marcada pela riqueza de sabores e pela profunda expressão cultural”, afirma. Para isso, aproveita o que a internet oferece, pesquisa em livros de culinária e visita diferentes espaços. “Aproveito muito as possibilidades de globalização que a internet oferece para buscar referências de pessoas que eu provavelmente não conheceria no meu dia a dia. Também realizo muitas pesquisas em livros de culinária e por meio da visita a diferentes espaços”, explica.
O acarajé não é só comida: é reza frita em azeite quente”. A culinária africana se fortalece novamente graças ao trabalho de Chefs como Lucas Amâncio (@Lucas Amâncio). Aqui ele nos ensina que o #IngredientePrincipal é a ancestralidade dos temperos que fazem muito mais do que deixar nossa comida gostosa, eles mantém viva a história dos nossos antepassados. #IngredientePrincipal#Ancestralidade
Hoje, Lucas trabalha no restaurante de culinária brasileira Rudä e conduz o Maniva, projeto pessoal de jantares harmonizados e intimistas com foco na valorização da culinária brasileira e africana. Sua especialidade são peixes, frutos do mar e comida vegetariana.
O Maniva carrega na proposta a mesma lógica que a campanha #IngredientePrincipal defende: a culinária como expressão cultural, como resgate e como forma de contar histórias. O TikTok escolheu o Brasil para inaugurar essa campanha global, que conta com o Mundo Negro e o Guia Black Chefs como parceiros estratégicos na produção de conteúdo com 20 profissionais negros da gastronomia e nutrição. Lucas Amâncio é um deles.
Para os jovens que pensam em seguir esse caminho, Lucas é direto: “Acredito que os jovens precisam alimentar a inquietação que existe dentro deles para criar novas combinações, descobrir outras referências e movimentar esse mercado que oferece milhares de possibilidades. É um caminho árduo, feito em etapas, mas não desistam: sempre existe alguém que se inspira em você.”
Da cozinha da família em Sergipe aos jantares intimistas no Rio, Lucas Amâncio mostra que respeitar o alimento, como aprendeu desde novo, é o primeiro passo para cozinhar bem.
Um caso de racismo na USP (Universidade de São Paulo) ganhou um novo desdobramento nesta semana. Após a denúncia feita por Priscila Motta da Rocha Antônio, estudante de Nutrição do campus de Ribeirão Preto, viralizar em dezembro de 2025, a universidade agora alega “falta de tempo” para aplicar medidas protetivas, obrigando a vítima a frequentar o mesmo espaço que sua agressora.
Junto ao Coletivo Negro da USP-RP, a cientista social Jéss Machado expôs a negligência da instituição com o caso. A vítima está afastada das aulas desde o ano passado por não possuir condições psicológicas de frequentar o mesmo ambiente que a aluna que lhe proferiu insultos por ser negra e cotista.
“Em março a gente tem muita demanda. Quando a gente tiver um tempo, a gente resolve”, seria a resposta enviada pelo Conselho de Direitos Humanos da USP por e-mail. Para Jéss, a falta de agilidade já declara um posicionamento da instituição: “Enquanto vocês demoram, vocês estão sendo coniventes com o racismo”.
“A gente fez a denúncia em setembro, foi ter uma resposta da USP em outubro, com a mediação de conflitos. Depois não teve mais nada, só depois que a gente fez uma denúncia pública. E eu estou vindo aqui novamente para pressionar publicamente a USP, para que eles entendam de uma vez por todas que a gente está falando de racismo, isso é urgente”, ressaltou.
“Não tem aula, não tem demanda de evento, recepção de calouros que seja mais urgente do que a vida de uma pessoa preta. A vida de uma pessoa preta é urgente e é direito dela estar nesse ambiente”, completou.
Relembre o caso
Priscila, de 21 anos, passou a ser alvo de perseguições e piadas racistas assim que a agressora descobriu que a aluna ingressou na universidade pelo sistema de cotas. O caso, que inclui agressão física com uma chave e deboches constantes, foi levado às instâncias oficiais da universidade ainda em 2025. Na época, a USP ofereceu apenas uma “mediação de conflitos”.
“Teve um episódio que a gente foi estudar na biblioteca, ela me acertou no braço com uma chave e tinha machucado muito. Eu reclamei, tive que insistir muito para ela pedir desculpa, ela pediu desculpa de uma forma super debochada. Teve um caso que ela falou que eu ia casar com um artista famoso preto, porque ele também era cotista”, contou a vítima em entrevista à EPTV no ano passado.
Em dezembro do ano passado, Priscila relatou que está fazendo uso de medicação antidepressiva e expressou o desejo de retomar sua vida acadêmica em 2026, mas está sendo forçada a conviver com a agressora.
“Uma visão de presente e futuro de um líder, sempre de mãos dadas com a ancestralidade”: assim define Regina Monteiro, uma das executivas que integrou a 1ª turma que se formou na última sexta-feira, 27 de fevereiro, no Programa de Desenvolvimento de Liderança Negra (PDLN) do Instituto Pactuá, na Escola de Negócios Saint Paul, em São Paulo.
Com a formação executiva, Regina relata que teve novas perspectivas e mudou a sua vida. “Me trouxe um novo olhar para a minha carreira, me matriculei para uma MBA, voltei a estudar inglês, fechei um intercâmbio para outubro de 2026 e, por fim, fui promovida [no trabalho]. Esse mindset veio após o início do curso”, agradeceu à equipe envolvida.
Foto: Divulgação/Instituto Pactuá
O curso do Instituto Pactuá beneficiou 150 profissionais, distribuídos em cinco turmas presenciais, combinada com sessões de mentoria com uma carga horária total de 43 horas e aulas ministradas por professores negros, mantendo o compromisso com a valorização de referências negras na produção e transmissão de conhecimento. Os recursos foram viabilizados por meio de financiamento do Tribunal de Justiça da Barra Funda.
A formação é dividida em seis módulos: 1 aula de Ancestralidade (com Grazi Mendes); 2 aulas de Liderança Estratégica (com Jaime Almeida, focando em liderança estratégica geral e específica para pessoas negras); 2 aulas de Finanças (com Jandaraci Araujo, abordando a linguagem do negócio e finanças pessoais); além de 1 aula de Inteligência Artificial (com a professora Giselle Santos, conectando tecnologia e ancestralidade).
Foto: Divulgação/Instituto Pactuá
“Ter professores negros e salas completas de executivos negros na Escola de Negócios Saint Paul, nunca tinha acontecido antes”, celebrou Iris Barbosa Barreira, presidente da organização.
Segundo a executiva, o Programa de Desenvolvimento de Liderança Negra vai continuar em 2026, em parceria com o Mover (Movimento Pela Equidade Racial).
Foto: Divulgação/Instituto Pactuá
“O Mover achou tão relevante, que eles investiram e estão reproduzindo o mesmo curso, na mesma instituição, com os mesmos professores. E eles vão fazer outra vez com 150 pessoas, cinco turmas de diferentes empresas, que são as empresas signatárias do Mover”, concluiu com o anúncio da grande novidade.
Este conteúdo é fruto de uma parceria entre Mundo Negro e Instituto Pactuá.
A família da ialorixá e liderança quilombola Mãe Bernadete Pacífico vai solicitar a federalização do caso do assassinato de Flávio Gabriel Pacífico dos Santos, conhecido como Binho do Quilombo, morto a tiros em setembro de 2017. A medida surge em resposta ao pedido de arquivamento do inquérito feito pelo Ministério Público, nove anos após o crime cometido contra o filho de Bernadete. Para os familiares e a defesa, a solicitação é considerada desarrazoada e revoltante, especialmente considerando que prisões chegaram a ser realizadas durante as investigações, mas ninguém foi responsabilizado definitivamente.
O advogado da família, Dr. Hédio Silva Jr., denuncia que o pedido de arquivamento é um novo episódio de revitimização. “Sem uma resposta judicial definitiva, a sensação de impunidade se perpetua, apesar da gravidade dos fatos e do histórico de violência relacionado a disputas territoriais no Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho”, pontua.
O caso de Binho está inserido em um ciclo violento contra a família Pacífico e seu território. Em 2017, ele foi executado após denunciar os impactos devastadores de um empreendimento na comunidade. Agora, a defesa estuda a transferência do caso para a Justiça Federal, citando a grave violação de direitos humanos e a falha persistente do Estado em dar uma resposta eficaz.
“Do ponto de vista técnico-jurídico, avalia-se a incidência dos requisitos constitucionais que autorizam a federalização, especialmente diante de indícios de grave violação de direitos humanos e da persistente ausência de resposta estatal eficaz”, explicou Dr. Hédio.
Disputas territoriais e execução de liderança quilombola
Mãe Bernadete integrava a Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq) e foi assassinada dentro de casa, no Quilombo Pitanga dos Palmares, em 17 de agosto de 2023. Ela foi executada com mais de 20 tiros. As investigações apontam que o crime foi motivado por disputas territoriais e pela atuação da líder contra o uso do território quilombola por grupos criminosos.
A tragédia de 2023 ocorreu seis anos após o assassinato de Binho do Quilombo, que tinha 36 anos quando foi morto a tiros, próximo à sua residência, enquanto dirigia em direção a um sepultamento em Salvador. Binho foi candidato a vereador em Simões Filho e era reconhecido pela militância em defesa dos direitos humanos e da comunidade quilombola onde cresceu.
Ialorixá e liderança respeitada, Mãe Bernadete cobrava publicamente a responsabilização dos autores do assassinato do filho. Morreu sem ver a justiça ser feita. À época do crime, ela integrava o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, após denunciar ameaças recorrentes.
Julgamento adiado
Nesta semana, o júri popular dos réus acusados pelo assassinato de Mãe Bernadete foi adiado para 13 de abril. O julgamento, que ocorreria no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador, foi remarcado após pedido da nova defesa, protocolado na véspera da sessão. A decisão foi comunicada pela juíza Gelzi Maria Almeida, do 1º Juízo da 1ª Vara do Júri, conforme informou o Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA).
Os réus Arielson da Conceição dos Santos e Marílio dos Santos respondem por homicídio qualificado, por motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima, além de feminicídio e outros crimes.
Para a família, a busca por justiça nos dois casos, o de Binho do Quilombo e o de Mãe Bernadete, permanece indissociável. A eventual federalização é vista como uma tentativa de romper um ciclo de impunidade que, segundo os familiares, atravessa quase uma década e marcou de forma trágica a história de uma mesma família e de um mesmo território.