Michel Alcoforado: “Pessoas pretas, guardem dinheiro. O que brancos não estão preparados para ouvir é não”

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Michel Alcoforado: “Pessoas pretas, guardem dinheiro. O que brancos não estão preparados para ouvir é não”
Foto: 📷 @ntiuira | @atl4ntica.br

Por Sara Paixão do Rio de Janeiro

A feitura do best seller “Coisa de Rico” fez do antropólogo Michel Alcoforado um dos maiores especialistas no mercado de luxo do país. Não à toa, durante a Feira Preta, no Rio, ele foi um dos convidados da mesa Sebraeapresenta: Consumo, Poder e Invisibilidade, mediado por Cris Guterres, com participação da também jornalista Luanda Vieira, e do head de diversidade da L’Oreal, Eduardo Paiva. Durante o bate-papo, Michel deu conselhos valiosos para pessoas pretas conseguirem mudar de patamar financeiro. 

“A sociedade é racista. Nós negros é que precisamos saber muito bem é saber qual o nosso tamanho. Então a dica é: saiba o seu tamanho! Para não achar que será mais do que você é, mas também não deixar ninguém achar que você é menos do que você é. E um caminho importantíssimo é: pessoas pretas, guardem dinheiro. Porque o que os brancos não estão preparados para ouvir é não. Não quero comprar tua marca, não vou aceitar a tua oferta de trabalho, não me interessa fazer negócio com você. Então, guarda dinheiro, se der, para falar não. É dizendo não que a gente cresce e diz para o outro tamanho da gente”, defendeu ele, que completou que a escassez inviabiliza a independência: “Quando você está na precariedade, é obrigado a aceitar qualquer coisa, fica mais difícil”.

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Michel lembrou ainda dos questionamentos que recebe se “Coisa de rico” deveria ter trazido uma discussão racial mais explícita. “Digo que o debate está dado, porque um branco não teria feito esse livro. Um branco não está treinado para receber tantos nãos, como eu recebi ao longo desse processo, e continuar acreditando que ia dar em algum lugar e ia conseguir entrar no mundo dos ricos”, explicou ele. 

Mesmo tendo o livro mais vendido no país em 2025, acumulando uma formação multidisciplinar nas áreas de Ciências Sociais, História e Antropologia, com doutorado (PhD) e especialização internacional em antropologia do consumo, ele revelou não ter sido considerado apto para ministrar uma formação recentemente. 

“Sugeriram o meu nome por um desses cursos em que convidam grandes personalidades para falar sobre determinado tema e o gestor do curso, um homem branco, virou uma pessoa que tinha sugerido o meu nome, a minha revelia, e disse: ‘Ainda falta um chão para o Michel conseguir dar uma aula nesse curso’. Eu pensei: ‘Falta o que mais? Falta ser branco!’”, refletiu ele. 

Ainda sim, o racismo não tira a fé de Michel na chegada de dias melhores. Depois de reforçar a importância das conquistas feitas pelo Movimento Negro no Brasil, ele deu sua receita para cuidar da saúde mental. 

“Aqui ninguém deu nada pra gente de graça. Todo dia de manhã, mato um leão. A gente está mudando, só que o desafio é enorme. Esse é o país que tem 380 anos de escravidão, e a gente só tem 120 anos dessa transformação (…). Minha receita toda vez que me perguntam: ‘E a saúde mental, como é que você aguenta?’ Duas sessões de análise, se você puder pagar por semana, um pouco de macumba e se precisar, vai no psiquiatra tomar duas bolinhas…. Mas vai, não dá passo para trás. Acorda de manhã e mata outro leão”, defendeu ele, que, além de profissionais de saúde e de religião de matriz africana, procura ouvir a voz da experiência: “A dica é escutar os mais velhos, olhando para a realidade, desviando das cascas de banana e sabendo para onde se quer ir. Não sei qual será meu próximo projeto, mas continuo com o objetivo de colocar a antropologia na rua. A ciência é boa demais. É preciso compartilhar conhecimento. E conhecimento guardado só pra gente presta pra nada, né?”. 

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