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Ronaldo Assis: o chef que quase foi médico e entendeu que gastronomia era sua identidade

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Foto: Divulgação

Ronaldo Assis costuma dizer que a gastronomia entrou na sua vida antes mesmo de nascer. Sua mãe, grávida, comeu uma bacia de peguari, uma jaca inteira, um mocofato completo. “De uma maneira ou de outra, eu já conseguia degustar as comidas através do paladar dela, dentro da barriga dela”, conta o Afrochef.

Criado em Salvador pela avó enquanto a mãe saía para trabalhar como manicure e pedicure nas casas de família, foi nas mãos dessa mulher que aprendeu a enrolar salgado, fazer cavaco e ocupar o tempo com a cozinha. A mãe, quando voltava nos finais de semana, trazia na vasilhinha um pouquinho do que havia experimentado na casa dos patrões, um fio de risoto, uma colherada de algo diferente. Assim Ronaldo foi conhecendo sabores, texturas e paladares desde pequeno.

A herança vai mais longe. Sua bisavó era indígena, e no interior as pessoas ainda a lembram como alguém que nunca deixou ninguém passar fome. Ia ao brejo, catava o que a natureza oferecia, torrava café, servia jaca mole com farinha. “De uma maneira ou de outra, tudo isso permeou a minha identidade enquanto gastrônomo”, diz.

@sitemundonegro

Qual o ingrediente principal que dá sabor à vida? Para Ronaldo Assis (@afrochefronaldoassis), a resposta começa antes do prato: é comida de verdade, é quem planta, quem cozinha, é o território e os valores de um povo e como ele, junto, cuida da terra. É por isso que o Mundo Negro e o TikTok se uniram para essa jornada em busca de uma vida mais consciente, saborosa e equilibrada. Você vem junto? #IngredientePrincipal #TheMainIngredient

♬ som original – MundoNegro

Estudou em colégio militar e tentou medicina por anos. Quando finalmente prestou o ENEM, colocou medicina em primeiro lugar e gastronomia como segunda opção. Passou em gastronomia na Unifax pelo ProUni, migrou depois para a UFBA, e foi se apaixonando cada vez mais pela área. Na oitava chamada, saiu a vaga em medicina. Mas ele não foi. Sua mãe, que sonhava com um filho médico, foi quem disse: “Você nasceu para isso.”

Bacharel em gastronomia pela UFBA, cozinheiro, pesquisador e contador de histórias através da comida, Ronaldo atua hoje com o Buffet LaRô Gastronomia, com catering, eventos, consultoria para criação de cardápios autorais, pesquisa histórica da culinária afro-brasileira, audiovisual e projetos culturais e sociais. Sua cozinha nasce, como ele mesmo define, “do afeto, da memória e da ancestralidade. Vem das mãos das mulheres da minha família, do Recôncavo e Portal do Sertão, do dendê quente, do fumeiro no varal, do feijão no fogo baixo, da rua, da feira, do terreiro, da partilha.”

É essa cozinha que ele leva para a campanha #IngredientePrincipal. O TikTok escolheu o Brasil para inaugurar essa campanha global, que conta com o Mundo Negro e o Guia Black Chefs como parceiros estratégicos na produção de conteúdo com 20 profissionais negros da gastronomia e nutrição. Ronaldo Assis é um deles. “Fazer parte do Ingrediente Principal é uma honra gigante pra mim. Acredito muito nesse projeto porque ele fala exatamente do que eu defendo: ingrediente é memória, ingrediente é território, ingrediente é gente.”

Para os jovens que pensam em seguir o mesmo caminho, o recado é direto: “Se você faz com amor, se você faz com paixão, se você faz com entrega, e se você faz bem feito, você vai ter sucesso. Não se desvencilhe das suas heranças. Porque o que me fez chegar até aqui foi entender que risoto nenhum é melhor do que o meu mocofato.”

#IngredientePrincipal #TheMainIngredient #GastronomiaAfrobrasileira

Bianca Oliveira: a filha de axé que usa o dendê para contar histórias que a gastronomia não ensinou

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Foto: Arthur Moura

A culinária chegou na vida de Bianca Oliveira pela porta da necessidade. Empreendedora criativa, ela buscou dentro de si o dom que já carregava. E foi quando começou a dar os primeiros passos que o dendê chegou e trouxe com ele tudo o que ela ainda não sabia que precisava encontrar. “Logo que comecei a dar os primeiros passos, o dendê chegou e trouxe com ele toda minha ancestralidade e reencontro com os meus, me abrindo caminhos e oportunidades”, conta.

Mulher preta, lésbica, mãe solo e filha de axé, Bianca é cozinheira e chef “soterosergipana”, nascida em Salvador e radicada em Aracaju. Sua formação não veio dos bancos de uma escola de gastronomia tradicional. Veio das suas origens, das suas vivências e de um processo profundo de autoconhecimento e reconexão com a ancestralidade. Teve na Chef Sol sua grande mentora nesse caminho.

O que começou com marmitas virou a Casa do Dendê, espaço que ela idealizou e conduz em Aracaju como um lugar de aquilombamento, celebração e resistência. Ali se servem acarajé, abará e feijoada, sempre com o azeite de dendê como fio condutor de uma cozinha que é, antes de tudo, cultural. “Uso a minha cozinha com a história e a cultura africana, desenvolvendo um trabalho de fortalecimento da identidade negra e da ancestralidade”, diz.

@sitemundonegro

O mito de que azeite de dendê faz mal é um dos mais recorrentes quando o assunto é culinária afro-brasileira. A chef Bianca Oliveira (@user031374378 ) responde com dados: rico em vitamina A, vitamina E e antioxidantes naturais, o dendê protege as células e contribui para uma nutrição equilibrada. Mais do que ingrediente, ele representa cultura, identidade e a história viva da cozinha afro-brasileira. #IngredientePrincipal #TheMainIngredient #AzeiteDeDendê

♬ som original – MundoNegro

O trabalho de Bianca ultrapassou as fronteiras de Sergipe. Foi finalista e Top 10 da Expo Favela, participou do programa de Luciano Huck e é embaixadora do Fundo Agbara e do Sebrae. O reconhecimento nacional é reflexo de uma cozinha que oferece mais do que comida: uma experiência cultural completa.

É esse olhar que ela leva para a campanha #IngredientePrincipal. O TikTok escolheu o Brasil para inaugurar essa campanha global, que conta com o Mundo Negro e o Guia Black Chefs como parceiros estratégicos na produção de conteúdo com 20 profissionais negros da gastronomia e nutrição. Bianca Oliveira é uma delas.

Para os jovens que querem seguir o mesmo caminho, ela tem uma bússola: “Que busquem de dentro pra fora a inspiração para criar e continuar. Quando o que fazemos nos nutre de alguma forma, a chance de seguir e prosperar aumenta, porque há um combustível chamado coragem.”

Da necessidade ao dendê, da marmita ao aquilombamento, Bianca Oliveira mostra que a cozinha também é lugar de existência.

#IngredientePrincipal #TheMainIngredient #CasaDoDendê

Exclusivo: L’Oréal Luxo e Sephora capacitam 100% de suas equipes de vendas no Brasil contra o racismo

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Foto: Freepik

O mercado de luxo no Brasil dá um passo importante contra a discriminação racial contra seus clientes. Neste Mês do Consumidor, a L’Oréal Luxo e a Sephora anunciaram com exclusividade ao Mundo Negro, a conclusão da capacitação de 100% de suas equipes de vendas no país contra o racismo. A ação faz parte do programa Afroluxo, que se fortalece com a adesão da Sephora ao Código de Defesa e Inclusão do Consumidor Negro.

O movimento simboliza a expansão do Afroluxo, programa de longo prazo da L’Oréal Luxo criado em 2024 para enfrentar o racismo estrutural nas relações de consumo brasileiras, e reforça a importância da atuação conjunta entre indústria e varejo na promoção de uma beleza verdadeiramente diversa.

Para Sephora, a adesão vem como um aprimoramento de uma jornada de diversidade já estruturada, com políticas, metas e práticas consolidadas de diversidade, equidade e inclusão em toda a operação.

A marca mantém uma área dedicada exclusivamente à DE&I desde 2022 e uma estratégia contínua, chamada Sephora (+), voltada à promoção de pertencimento, representatividade e capacitação interna.

“O Afroluxo nasceu do compromisso da L’Oréal Luxo em transformar o mercado de beleza em um ambiente mais justo e representativo. Hoje, a realidade está bem distante disso: 9 em cada 10 consumidores negros enfrentam racismo nos ambientes de consumo de luxo. A adesão da Sephora, ícone em varejo de beleza no mundo, é motivo de muito orgulho para nós, reforçando nossa crença de que uma mudança efetiva só acontece quando indústria e varejo caminham juntos. Esse é um passo histórico, que nos aproxima de um novo padrão de atendimento e respeito à pluralidade da beleza brasileira”, afirma Bianca Ferreira, head de Comunicação, Diversidade e Sustentabilidade da L’Oréal Luxo.

O Código de Defesa e Inclusão do Consumidor Negro reúne 10 diretrizes de autorregulamentação antirracista e propõe uma revisão das práticas de atendimento e consumo no setor. Embora sem validade jurídica, o documento estimula marcas e varejistas a repensarem suas condutas e a implementarem mudanças concretas em prol de uma experiência de compra ainda mais justa e acolhedora.

Entre as diretrizes, destacam-se:

● Capacitação antirracista: Estabelece a obrigatoriedade de treinamentos em letramento racial para colaboradores, com foco na eliminação de vieses e práticas racistas, sejam elas verbais ou não verbais.

● Excelência no atendimento: Propõe que consumidores negros sejam atendidos com atenção, respeito e qualidade desde o primeiro contato, reconhecendo a importância de reparar práticas históricas de exclusão e garantir uma experiência de compra acolhedora e equitativa.

● Livre acesso e circulação: Veda qualquer tipo de barreira — física ou simbólica — que restrinja o acesso de consumidores negros aos espaços de venda, garantindo igualdade de condições.

A Sephora terá o documento disponível em todas as 45 lojas da rede no Brasil, reafirmando seu compromisso público com a diversidade, a equidade e a inclusão.

Desenvolvido em parceria com a Black Sisters in Law e o MOVER, o Código de Defesa e Inclusão do Consumidor Negro propõe uma revisão profunda na forma como consumidores negros são recebidos e atendidos nos pontos de venda. Como parte da adesão ao Código, os colaboradores das lojas passam por treinamento específico, certificado pelo ID_BR (Instituto Identidades do Brasil), parceiro estratégico do programa Afroluxo.

A iniciativa dialoga com os 21 dispositivos racistas identificados na pesquisa “Racismo no Varejo de Beleza de Luxo”, conduzida pela L’Oréal Luxo em 2024, e reforça o compromisso com a transformação concreta dos espaços de varejo.

“Na Sephora, diversidade, equidade e inclusão são compromissos permanentes e parte essencial da nossa estratégia de negócio globalmente falando. Temos metas públicas de e ações contínuas de capacitação e fortalecimento de uma cultura de pertencimento, e a parceria com a L’Oréal Luxo através do Afroluxo reforça esse propósito ao promover um varejo de beleza de prestígio mais justo e representativo. A adesão ao programa Afroluxo e ao Código de Defesa e Inclusão do Consumidor Negro é mais do que um avanço: é mais um passo concreto na construção de um novo padrão de atendimento, respeito e pertencimento para a beleza brasileira. Essa é uma evolução natural da nossa trajetória de diversidade, que há anos orienta nossas decisões e experiências.”, destaca Marcele Gianmarino, Gerente de Inclusão e Diversidade no Brasil.

Para marcar o Mês do Consumidor e celebrar os direitos dos consumidores negros, L’Oréal Luxo e Sephora também promovem eventos exclusivos para consumidoras negras em diversas regiões do país, reforçando o protagonismo e a valorização da beleza negra. Os eventos irão acontecer ao longo de março e abril em praças selecionadas com datas ainda a serem confirmadas

Afroluxo: um novo padrão de inclusão no mercado de luxo

O Afroluxo lançado em 2024, é um programa de longo prazo que visa o enfrentamento ao racismo no mercado de luxo brasileiro. Seus pilares são: transformar o negócio, empoderar o ecossistema e impactar positivamente a sociedade.

Além do Código, o Afroluxo abrange diferentes iniciativas inéditas para combate ao racismo, como o primeiro protocolo de atendimento antiracista do mercado de luxo, auditorias anuais dos times de vendas com enfoque na questão racial através do Black Mystery Shopper; ampliação do portfólio de bases de Lancôme, que se tornou a marca de beleza não profissional com o maior portfólio para pele negra disponível no mercado brasileiro desde 2025; bem como o lançamento do Pacto Afroluxo de Enfrentamento ao Racismo nas Lojas de Beleza de Luxo, a primeira coalizão deste tipo no segmento que busca unir esforços entre o varejo e a indústria em prol do combate ao racismo.

Câmeras corporais de PMs envolvidos na morte da Dra. Andrea estavam descarregadas, diz corporação

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Fotos: Reprodução

O comando da Polícia Militar relatou que os três agentes envolvidos na morte da cirurgiã oncológica Andréa Marins Dias, de 61 anos, estavam com suas câmeras corporais descarregadas. O crime ocorreu no último domingo (15), em Cascadura, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A médica havia acabado de sair da casa dos pais, de 88 e 91 anos, quando foi alvejada pela PM durante uma suposta perseguição.

Imagens gravadas por moradores revelam o horror da abordagem. Enquanto o carro de Andréa exibia marcas de tiros no para-brisa e na traseira, um policial gritava: “Desce do carro. Desce ou vai morrer”, batendo na janela com um fuzil — mas a médica já estava sem vida.

Segundo as investigações, os policiais buscavam criminosos em um Corolla, enquanto a médica dirigia um T-Cross branco. A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) apura agora se os agentes confundiram os veículos. Os três PMs foram afastados do patrulhamento e as armas utilizadas na ação foram apreendidas para perícia.

O sepultamento de Andréa Marins ocorreu nesta terça-feira (17), no Cemitério da Penitência, em uma cerimônia restrita a familiares e amigos. Referência na saúde da mulher, Andréa tinha quase 30 anos de carreira e era especialista no tratamento de endometriose e câncer.

Nota da PM na íntegra

“A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar informa que, de acordo com as análises preliminares dos setores técnicos da Corporação, foi identificado que as baterias das câmeras corporais utilizadas pela equipe estavam descarregadas no momento da ocorrência.

Todos esses fatos seguem sob apuração integral da área correcional da SEPM.

Vale ressaltar que na corporação existem normas rígidas que determinam que os policiais, ao perceberem que há qualquer tipo de falha ou mau funcionamento das câmeras, devem regressar à unidade de origem para substituição dos equipamentos.

Os policiais seguem afastados dos serviços nas ruas.”

Aluno de 11 anos xinga colega de classe de “macaca” e agride jovem que tentava defender a irmã em escola de SP

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Foto: Google Maps

Uma estudante negra de apenas 11 anos foi alvo de ofensas racistas na Escola Municipal Forte dos Reis Magos, em São Mateus, Zona Leste de São Paulo. Ao tentar protegê-la, sua irmã mais velha foi agredida com um soco na boca pelo agressor, um menino de também 11 anos.

O crime aconteceu na semana passada e ganhou repercussão nesta quarta-feira (18). Segundo os relatos, após a menina ser xingada de “macaca” por um colega de classe, a irmã buscou satisfações, mas foi agredida fisicamente. O episódio gerou uma onda de indignação entre os alunos; cartazes denunciando o racismo foram colados nos portões da unidade em um ato de solidariedade às irmãs.

A violência, no entanto, não parou depois da ocorrência. Segundo a direção da escola, a mãe do agressor teria intensificado o conflito, proferindo ameaças de morte contra as vítimas e tentando agredir a assistente de direção.

Para Antonio Carlos Ferreira, pai das meninas, é preciso ter responsabilidade familiar na construção do preconceito: “Fiquei muito triste, porque uma criança não nasce racista, a criança é o reflexo do que ela aprende em casa.”

A família agora busca justiça. O advogado Abraão Leonardo Dutra Sales afirmou que, embora o agressor seja menor de idade, a luta jurídica agora foca na responsabilização cível dos pais e na aplicação de medidas socioeducativas. O caso foi registrado como lesão corporal, ameaça e preconceito de raça ou cor.

Em nota, a Secretaria de Educação informou que o aluno agressor foi transferido para a rede estadual a pedido da família e reiterou manter políticas de combate ao racismo.

Casos de racismo podem ser relatados ao Disque 100 ou em delegacias especializadas!

Morte da médica negra retrata perfilamento racial endêmico da PM e exige aprovação imediata do PL sobre homicídio racial

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Foto: reprodução

Em 1948 o lendário Abdias do Nascimento enviou uma Carta aberta ao Chefe de Polícia do Rio de Janeiro, na qual denunciava que: ”Basta um negro ser detido por qualquer coisa insignificante – assim como não ter uma simples carteira de identidade – para ser logo tratado como se já fosse um criminoso. Dir-se-ia que a polícia considera o homem de cor um delinquente nato, e está criando o delito de ser negro”.

            Mais de meio século depois o Supremo Tribunal Federal reproduzia, com outras palavras, o pungente postulado de Mestre Abdias, agora revestido de força própria de sentença proferida por nossa mais alta Corte. Disse o STF no julgamento do denominado HC do Perfilamento Racial:

Os policiais não podem decidir abordar pessoas apenas com base em sua raça, sexo, orientação sexual, cor da pele ou aparência física. Essa conduta discriminatória desrespeita a dignidade humana e viola outros direitos fundamentais previstos na Constituição. A revista só pode ser realizada quando a pessoa estiver em posse de arma de uso proibido ou com objetos que indiquem a prática de crime.”(STF – Pleno, HC 208.240, j. 11.04.2024)          

            Transcorridos poucos dias deste julgamento paradigmático, a questão do racismo intencional voltou a ser tratada pelo pleno de nossa Suprema Corte, com reconhecimento explícito de discriminação racial praticada diariamente por todo o sistema de persecução penal:

(…)O branco, para ser considerado traficante, tem de ter 80% a mais que o preto ou pardo. (…) Isso realmente vem gerando uma discricionariedade exagerada, insisto, no início da autoridade policial, passando pelo Ministério Público e chegando ao Poder Judiciário. Todo sistema de persecução penal vem gerando discriminação, porque as medianas quantitativas são muito diferentes nos critérios de grau de instrução, idade e cor da pele. Não há razoabilidade para isso. O estudo demonstra que não há razoabilidade para isso. (…)Por exemplo, um analfabeto negro e jovem leva desvantagem em relação a um branco maior de 30 anos, com curso superior, que pode ter, às vezes, até 136% a mais de droga. Não há razoabilidade nisso. (STF – RE 635.659 – Rel. Gilmar Mendes, j. 26.6.24 – extratos do voto vista do Ministro Alexandre de Moraes)

            Analisando o fuzilamento perpetrado no último domingo, a sangue frio, que destroçou a trajetória luminosa da médica negra Dra. Andréa Marins Dias caberia perguntar, à luz destes julgados, qual seria a arma ou objetos de crime que ela levava consigo? Teria esboçado alguma reação? Teria pronunciado algo inconveniente aos ouvidos sensíveis do agente de autoridade policial que insiste em ser tratado como autoridade?

            A resposta, como sabemos, é terminanente negativa! Bastou que ela fosse negra para que o agente se sentisse autorizado – com aval de boa parte da sociedade, diga-se – a alvejá-la, ciente de que logo surgiriam as teses do “engano”, do “fato isolado”, a velhacaria dos “afastamentos temporários” e no fim da linha uma provável sentença de um tribunal militar decretandoque 257 disparos efetuados na direção de um veículo não demonstram intenção de matar – como no caso do músico Evaldo dos Santos Rosa.

            Como diz a famosa canção de Caetano e Gil, “Haiti”, “todos sabem como se tratam os pretos”!!!

            Há décadas o Brasil é signatário de uma Convenção para Prevenção e Repressão ao Crime de Genocídio e adotou uma lei federal que pune este tipo de crime, ambas dormitando em berço esplêndido num país em que milhões de pessoas tratam a temática racial como “mimimi”.

            Assombrado com a naturalização do genocídio da juventude negra no Brasil, em 2020 o Senador Paulo Paim apresentou o projeto de lei n. 5404/2020 criando uma circunstância qualificadora (espécie de agravante) do homicídio motivado por clivagem racial – exatamente como no caso da Dra. Andréa Dias e de milhares de indivíduos mortos diariamente pelo fato de serem negros.

            Mais do que uma qualificadora racial do homicídio, ja passa da hora de o Congresso Nacional criar um tipo autônomo de genocídio no Código Penal – a exemplo do feminicídio – com causas de aumento de pena (na hipótese de vítima criança, gestante ou idoso/a por exemplo), aplicando-lhe a Lei dos Crimes Hediondos, agravando a lei de execução penal e assegurando prioridade de tramitação.

            A Dra. Andréa Dias foi morta pela violência racial, por desprezo ou discriminação à sua condição racial – fosse uma loira pobre muito provavelmente estaria viva – porquanto a resposta punitiva deve ser condizente com a gravidade da conduta.

            Não é aceitável que a imolação da Dra. Andréa Dias tenha sido em vão ou seja empurrada, com a passagem do tempo, para a galeria do naturalização e da impunidade – já alertava Abdias nos anos cinquenta do século passado.

Hédio Silva Jr., Advogado, Mestre e Doutor em Direito pela PUC-SP, escritor e conferencista, é fundador do IDAFRO – Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-brasileiras e do Jusracial @drhediosilva

Foto: OAB Campinas

Médica negra de 61 anos é morta por PMs no Rio; carro teria sido confundido com de criminosos

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Foto: Reprodução

A médica Andrea Marins Dias, de 61 anos, foi morta a tiros por policiais militares do 9º BPM (Rocha Miranda) na noite deste domingo (15), em Cascadura, Zona Norte do Rio de Janeiro. A policia investiga se o agentes teriam confundido o carro da vítima com o de criminosos.

Andrea havia acabado de sair da casa dos pais e dirigia um Corolla pela Rua Palatinado quando foi atingida. Segundo a Polícia Militar, a equipe buscava assaltantes que utilizavam um T-Cross branco, além de um Jeep e uma motocicleta, nenhum modelo compatível ao da cirurgiã oncológica.

Imagens da abordagem mostram o momento em que os agentes cercam o veículo de Andrea e chegam a bater com um fuzil na porta da motorista. Ao abrirem o carro, os policiais encontraram a médica já sem vida. Testemunha registrou momento que um agente grita: “Desce irmão, vai morrer! Vai morrer, irmão, desce!”.

A corporação alega que houve ordem de parada e troca de tiros durante a perseguição, que culminou no baleamento da médica.

A Polícia Militar instaurou um procedimento interno para investigar as circunstâncias da ocorrência, resultando no afastamento preventivo dos agentes envolvidos e na apreensão de suas armas, enquanto o carro da vítima passou por uma perícia complementar nesta segunda-feira (16).

Jordan, Coogler e Arkapaw fazem história no Oscar 2026 com “Pecadores”

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“Estou aqui por causa das pessoas que vieram antes de mim. Sidney Poitier, Denzel Washington, Halle Berry, Jamie Foxx, Forest Whitaker, Will Smith. Estar entre esses gigantes, entre esses grandes, entre meus ancestrais, entre os meus… isso significa tudo.” Com essas palavras, Michael B. Jordan recebeu a estatueta de Melhor Ator na 98ª edição do Oscar, realizada no último domingo (15) no Dolby Theatre, em Los Angeles. Foi o momento mais simbólico de uma noite em que “Pecadores”, filme concebido, escrito e dirigido pelo cineasta negro Ryan Coogler, registrou quatro vitórias e uma série de recordes históricos.

Jordan venceu pelo papel dos irmãos gêmeos Smoke e Stack, personagens que retornam ao sul dos Estados Unidos na década de 1930 para abrir um bar de blues e se veem diante de uma ameaça sobrenatural. O filme foi recordista de indicações na história da premiação, com 16 nomeações. Além da estatueta de Melhor Ator, o longa também levou os prêmios de Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora Original.

Ao subir ao palco para receber o Oscar de Melhor Roteiro Original, Coogler abriu o discurso pedindo ao público que se sentasse: “Por favor, por favor. Cresci em Oakland, na Califórnia, e a gente fala muito.” Em seguida, pediu que todo o elenco e a equipe do filme se levantassem.

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“Vocês são incríveis. Vocês são os verdadeiros vencedores para mim”, disse, antes de se emocionar ao falar da família. “Às minhas crianças que estão em casa assistindo: me desculpem por todo o tempo longe. Pai ama vocês. Memórias são tudo que temos. Espero ter dado a vocês algumas boas. Quando vocês forem abençoados com uma vida longa e eu me tornar apenas uma memória, quero que se lembrem de uma coisa: eu amo vocês mais do que qualquer coisa.”

Coogler se tornou o segundo roteirista negro a vencer na categoria de Melhor Roteiro Original. O primeiro foi Jordan Peele, por “Corra!” (2017).

A outra grande conquista histórica da noite veio com Autumn Durald Arkapaw, diretora de fotografia de “Pecadores”. Com ascendência filipina e afro-americana, ela se tornou a primeira mulher na história a vencer a categoria de Melhor Fotografia no Oscar, e também a primeira mulher não branca a receber a honraria. Ao subir ao palco, Arkapaw pediu que todas as mulheres presentes se levantassem.

Autumn Durald Arkapaw at the 98th Annual Oscars held at Dolby Theatre on March 15, 2026 in Hollywood, California.
Autumn Durald Arkapaw – Getty Image

“É uma honra estar aqui. Não cheguei aqui sem vocês. Eu digo isso de coração. Senti tanto amor, de todas essas mulheres, conheci tantas pessoas, e momentos assim acontecem por causa de vocês”, declarou.

Arkapaw também foi a primeira mulher diretora de fotografia a filmar em IMAX 65mm e Ultra Panavision. Sua parceria com Coogler vem do set de “Pantera Negra: Wakanda para Sempre”. Sobre o trabalho em “Pecadores”, ela disse que o roteiro a tocou desde a primeira leitura. “Quando li a história, me senti muito perto de casa. Há tanto amor que foi derramado neste filme. É assim que você faz filmes realmente ótimos: você dedica o máximo de si mesmo nele.”

“Pecadores” terminou a noite com quatro estatuetas em um Oscar dominado por “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson, que levou seis prêmios, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor. A vitória de Anderson na categoria de direção deixou de fora Coogler, que seria o primeiro cineasta negro a vencer Melhor Diretor em quase 100 anos de premiação.

Foto: Getty Images

Bruna Crioula: a nutricionista que foi além do currículo para articular nutrição, antirracismo e ancestralidade

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Foto: reprodução

Bruna Crioula escolheu a nutrição ainda no ensino médio, depois de um trabalho escolar sobre o fenômeno da fome que a impactou profundamente. Como qualquer adolescente em busca de propósito, encontrou naquela ciência o que parecia ser o caminho. O que ela não esperava era que o curso pouco teria a dizer sobre os temas que a moviam.

“O curso não era o que eu esperava e ansiava. Pouco se falava sobre estratégias de combate à fome ou políticas públicas de segurança alimentar, sustentabilidade então passava longe. Além disso, a ausência de referências negras e de discussões em torno das demandas de saúde e nutrição da população negra era inexistente. Foi muito desafiador”, conta.

A resposta foi a criatividade. Bruna foi além do currículo e construiu uma formação interdisciplinar por conta própria, transitando por jornalismo, serviço social, psicologia, economia e ciências sociais. A razão era clara: “A noção biológica da nutrição restringe nosso entendimento sistêmico sobre o que é a alimentação e todos os sentidos e significados que a comida tem.”

Hoje, dez anos depois de formada, é nutricionista e mestra em ciências sociais, pesquisadora alimentar, coletora urbana, comunicadora ancestral e matrigestora na Crioula Curadoria Alimentar, ecossistema voltado para a criação de soluções ecológicas e ancestrais nos sistemas alimentares. Especialista em alimentação saudável numa afroperspectiva, populariza a culinária intuitiva e biodiversa por meio das plantas alimentícias não colonizadas, as PANCs ancestrais. É também mulher africana em diáspora no Brasil e mãe do Inácio.

https://vt.tiktok.com/ZSufq52Rx

Esse percurso é o que a conecta diretamente ao conceito da campanha #IngredientePrincipal: comer bem como resgate cultural, sustentabilidade e acesso. O TikTok escolheu o Brasil para inaugurar essa campanha global, que conta com o Mundo Negro e o Guia Black Chefs como parceiros estratégicos na produção de conteúdo com 20 profissionais negros da gastronomia e nutrição. Bruna Crioula é uma delas.

Para a juventude que quer entrar na área, o recado é direto: “Não se contentem com as ofertas de disciplinas do currículo. Precisamos estudar outras áreas e criar pontes com o nosso campo, especialmente considerando os impactos da colonização nos hábitos e nas culturas alimentares do povo negro. Articular nutrição e antirracismo é fundamental para uma formação lúcida que promova inclusão e gere emancipação e autonomia alimentar.”

As referências que ela indica são precisas: Lélia Gonzalez, Abdias do Nascimento, Sueli Carneiro, Nego Bispo. E também as nutricionistas negras que vieram antes. “Busque se aquilombar teoricamente e também com a companhia de outras nutricionistas negras que vieram antes de nós e, felizmente, estão vivas e pulsantes”, diz, citando Célia Patriarca, Denise Oliveira e Silva, Lilian Bittencourt, Rute Costa e Sandra Chaves.

“Sim, você vai ter que viver ‘duas formações’ paralelas, mas vale a pena. Eu sou apaixonada pela minha profissão e sinto que estou cumprindo minha missão social, política e ancestral na sociedade”, afirma.

A síntese do que Bruna defende cabe numa frase dela mesma: “Ancestralidade alimenta e esse despertar para nossas heranças e memórias agroalimentares é a nutrição que me representa.”

#IngredientePrincipal #TheMainIngredient #AncestraliadadeAlimenta

Gerson Fernandes: da Marinha à gastronomia, o chef que transformou recomeços em princípios

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Foto: reprodução

Gerson Fernandes sabia desde pequeno. Não com aquela certeza declarada de quem escolhe uma profissão, mas com aquele sentimento que a gente só reconhece depois, olhando para trás. “Acho que desde muito pequeno eu já sabia que seria cozinheiro. Cresci em uma casa onde a comida era mais do que alimento: era união”, conta.

Criado no Rio de Janeiro pelas mãos da mãe e de três irmãs, depois da perda precoce do pai e do irmão, Gerson aprendeu cedo o que é luta. “Foi na força da minha mãe que aprendi o que é luta, dignidade e superação.” Ver as mulheres da casa na cozinha foi despertando nele uma paixão que o acompanharia por toda a vida, mesmo quando a vida tentou levá-lo para outros caminhos.

E tentou. Entrou para a Marinha, depois saiu. Iniciou faculdade de Engenharia Elétrica, não concluiu. Fez curso de garçom pelo Senac e foi ali que o sentimento pela gastronomia começou a ganhar forma. Trabalhando em um restaurante em Ipanema, sempre que podia corria para a cozinha para ajudar. “Algo dentro de mim dizia: é aqui que você pertence.”

A virada veio com a criação do Styllus Buffet, quando decidiu de vez seguir aquilo que sempre soube que seria. Fez faculdade de Gastronomia, se especializou e acumulou três pós-graduações na área. Hoje atua com consultorias e palestras, é um dos coordenadores do concurso Chefs Rio de Janeiro da Abrachefs, membro do projeto Chefs na Casa e diretor acadêmico da Escola de Gastronomia Internacional SEGi, espaço do qual tem muito orgulho, especialmente pelos projetos sociais que transformam vidas através da cozinha.

https://www.tiktok.com/@sitemundonegro/video/7610210825684405522

É esse Gerson, cozinheiro do Rio de Janeiro com uma trajetória feita de quedas e recomeços, que integra a campanha #IngredientePrincipal. O TikTok escolheu o Brasil para inaugurar essa campanha global, que conta com o Mundo Negro e o Guia Black Chefs como parceiros estratégicos na produção de conteúdo com 20 profissionais negros da gastronomia e nutrição. Gerson Fernandes é um deles.

Para os jovens que querem seguir o mesmo caminho, ele tem um conselho que resume tudo o que viveu: “Nunca entrem em uma profissão pensando apenas em dinheiro. O dinheiro é consequência. O que realmente constrói uma carreira sólida são princípios. E os meus sempre foram três: Disciplina. Verdade. Honra. Foram eles que me fizeram crescer profissionalmente e, acima de tudo, como homem.”

O caminho de Gerson Fernandes não foi fácil. Foi feito exatamente das coisas que ele aprendeu a honrar.

#IngredientePrincipal #TheMainIngredient #GastronomiaAfrobrasileira

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