“A Femtech só faz sentido se o resultado aparecer no sorriso da consumidora e na conta bancária da nossa Consultora.” A frase é de Leonardo Ribeiro, gerente de Branding da Avon, e resume a aposta da marca em seu reposicionamento: unir inteligência artificial e memória afetiva sem perder de vista quem sempre sustentou o negócio.
Aos 140 anos, a Avon anuncia um rebranding que ela mesma define por dois eixos: tecnologia e nostalgia. De um lado, uma estratégia “Digital-First” com 20 agentes de inteligência artificial trabalhando nos bastidores. Do outro, o retorno de fragrâncias clássicas como Charisma, Topaze e Toque de Amor, reunidas na chamada Iconic Collection.
Tecnologia para quem vende
A promessa da IA não é substituir a consultora, é tirar da frente dela o que atrapalha. “Estamos falando em simplificar a vida da nossa Consultora de Beleza”, afirma Ribeiro. Segundo ele, o objetivo é que a tecnologia resolva a parte burocrática e logística, para que a consultora possa focar no que ela é mestre: o relacionamento e a consultoria de beleza.
Na prática, os agentes de IA atuariam para que cada consultora receba informações mais precisas sobre o que suas clientes desejam, tornando a venda mais ágil e personalizada. “Para a mulher que está na ponta, isso não chega como um discurso, mas como tempo e produtividade”, diz o executivo.
A questão que fica em aberto é como esse suporte chega para quem não tem smartphone de última geração ou acesso estável à internet. Ribeiro afirma que a estratégia “não nasceu para excluir”, e que a marca investe em plataformas intuitivas, mas não detalha mecanismos concretos para esse grupo.
Pele negra no centro da inteligência de produto
No campo da representatividade, a Avon se reposiciona como Femtech, empresa que usa tecnologia, ciência e dados para atender às necessidades reais das mulheres. “Entendemos que a pele negra não é um anexo ao portfólio; ela é o centro da nossa inteligência de produto”, afirma Ribeiro. A resposta, segundo ele, é técnica e estrutural, embora não detalhe quais produtos ou iniciativas concretas materializam essa afirmação.
Nostalgia com reverência
O movimento que a marca batizou de Newstalgia parte do reconhecimento de que sua herança é seu maior diferencial. “Não se trata de viver no passado, mas de ter reverência por ele”, define Ribeiro. O retorno de Toque de Amor, Charisma e Topaze é apresentado como uma forma de validar memórias afetivas de milhões de brasileiras, atualizando o que é icônico para as novas gerações.
A Avon foi pioneira, em 1886, ao estruturar um modelo de vendas baseado na independência financeira feminina, quando Mrs. Albee percorria os Estados Unidos de trem para engajar outras mulheres, muito antes do direito ao voto feminino. O desafio agora é mostrar que, 140 anos depois, essa essência sobrevive ao rebranding.
Manuela Gomes cresceu num quintal que era também uma despensa viva. Em São José do Passe, na região metropolitana de Salvador, sua avó cultivava coentro, hortelã miúdo, hortelã grosso e um pé de louro. Usava sementes de coentro na comida para realçar o sabor, junto com tudo o que a terra oferecia. Nada de caldos artificiais, nada de realçadores industriais. “Eu tenho essa raiz, essa base de sempre usar tudo o mais natural possível, o que é da terra, o que é da natureza, para temperar a comida”, conta Manuela.
A avó era referência reconhecida na região. Empresas que chegavam temporariamente e fazendeiros da área iam buscá-la em casa para preparar comida. Manuela cresceu nesse ambiente, ao lado da mãe que também cozinhava muito bem, absorvendo uma herança que só perceberia o tamanho anos mais tarde.
Soteropolitana, ela trabalhou por muito tempo no setor administrativo, mas a cozinha sempre esteve presente, primeiro para amigos e familiares. Há 15 anos passou a trabalhar profissionalmente com alimentação, carregando a mesma base que aprendeu no quintal da infância. Durante esse tempo, percorreu o Recôncavo, conviveu com pessoas e aprofundou o que já trazia de casa. Aos 41 anos, inaugurou o Afilição Joaquim, restaurante em Salvador que completa nove meses, onde seu espaço se chama Sabor de Recôncavo por Chef Manu Bombom. “É a minha interpretação do que eu conheci, do que eu vivi, do que eu aprendi durante todos esses anos, dessa comida que é tão rica”, diz.
O cardápio surpreende justamente pela simplicidade honesta. Pratos que na Bahia são rotineiros ganham outro sabor quando feitos sem atalhos industriais. “Minha comida é a base de condimentos e ervas frescas. O máximo que eu uso é um azeite de oliva. Não uso realçadores de sabores artificiais, molhos, enlatados. Esses ingredientes não fazem parte da minha culinária, não fazem parte da minha identidade.”
É essa identidade que ela leva para a campanha #IngredientePrincipal. O TikTok escolheu o Brasil para inaugurar essa campanha global, que conta com o Mundo Negro e o Guia Black Chefs como parceiros estratégicos na produção de conteúdo com 20 profissionais negros da gastronomia e nutrição. Manuela Gomes é uma delas.
Para os jovens e para todos que valorizam uma boa comida, ela tem um recado: “Não se deixem levar pelo mundo moderno, pela praticidade. Ainda é possível, ainda há tempo de resgatar velhos costumes e hábitos alimentares que valorizam e resgatam a verdadeira culinária, a raiz, a culinária ancestral.”
Do quintal da avó ao Recôncavo, Manuela Gomes prova que o ingrediente principal sempre foi a memória.
Muito antes de se tornar gênero musical, muito antes das batalhas de rap e dos campeonatos de breakdance, o movimento do corpo já era, para o povo negro, um ato político. Na África, a dança era linguagem sagrada, forma de reverenciar ancestrais, celebrar colheitas, comunicar guerras e curar. Quando africanos escravizados foram arrancados de seus territórios e jogados em terras desconhecidas, o corpo continuou sendo o único território que ainda lhes pertencia.
Séculos depois, em 1973, no Bronx, bairro negro e periférico de Nova York destruído por políticas de reurbanização que forçaram comunidades afro-americanas e latinas a viver entre escombros, essa mesma energia ganhou nome novo. O DJ Kool Herc organizou a primeira festa de rua onde nasceria o hip hop. Afrika Bambaataa, ex-líder de gangue que havia sido transformado por uma viagem à África e pelos discursos de Malcolm X e dos Panteras Negras, fundou a Universal Zulu Nation com um objetivo claro: substituir a violência entre jovens negros pela dança, pela música, pelo grafite e pelo rap.
Essa cultura atravessou o Atlântico e chegou ao Brasil nos anos 1980, encontrando na periferia de São Paulo um terreno fértil. Na estação São Bento, na Galeria 24 de Maio, jovens negros se reuniam para dançar break e ouvir rap em rádios boombox. Os Racionais MC’s, Thaíde, os grafiteiros Os Gêmeos, todos filhos dessa mesma raiz, todos herdeiros de uma filosofia que colocava o corpo negro no centro da cena, como sujeito e não como objeto. É dentro dessa linhagem que nasce, em São Paulo, o HipHop Workout Collective, o HHWC.
O coletivo que juntou treino e ancestralidade
Juliana Oliveira, Caroline Araujo e Juliane Daianny são personal trainers, professoras de educação física, atletas e, acima de tudo, mulheres negras que conhecem na própria pele o que significa não se reconhecer em um espaço de autocuidado. As academias convencionais, com seus espelhos, seus padrões e seus silêncios, raramente foram lugares onde corpos como os delas se sentiram bem-vindos.
Foto: divulgação
A resposta que criaram não foi apenas um treino diferente. Foi um espaço diferente. Com trilhas sonoras guiadas pelo hip hop, dinâmicas que estimulam o coletivo tanto quanto o físico e uma proposta que rompe com os padrões tradicionais do fitness, o HHWC transforma cada encontro em uma experiência cultural.
“O HHWC é potência em movimento.”
— Juliane Daianny, idealizadora do HHWC
Juliane, formada em Marketing e Educação Física, é proprietária do Studio JD, espaço de treinamento exclusivo para mulheres na Zona Norte de São Paulo. Amante da black music desde sempre, ela traz esse amor para o cotidiano do coletivo. Caroline Araujo, personal há sete anos e atleta de powerlifting com especialização em Ortopedia pelo Hospital Israelita Albert Einstein, cuida da parte administrativa e da experiência dos encontros. Juliana Oliveira, personal trainer e professora de boxe desde 2019, campeã de levantamento terra, é responsável pelas redes sociais e pelas parcerias comerciais do projeto. Três mulheres, três trajetórias diferentes, uma visão comum: de que o treino pode ser, e deve ser, cultura.
Quando não se mover é também uma questão estrutural
Dados recentes revelam que apenas cerca de 33% das mulheres negras no Brasil praticam atividade física regularmente. Esse número, que poderia ser lido como desinteresse, é na verdade o retrato de uma equação estrutural: sem tempo, sem renda, sem representatividade, sem um lugar onde o próprio corpo se sinta em casa, o movimento se torna um luxo que o sistema não oferece.
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“Transformamos treino em cultura e movimento em pertencimento. O Hip Hop Workout Collective nasce também da urgência de criar espaços onde mais mulheres se sintam seguras para se movimentar. Quando olhamos para dados que mostram que mulheres negras ainda se movimentam menos, entendemos que não é sobre falta de interesse, mas sobre acesso, identificação e oportunidade. O HHWC surge como esse espaço de conexão, onde o corpo, a cultura e a comunidade caminham juntos.”
— Caroline Araujo, idealizadora do HHWC
E as consequências dessa ausência de movimento vão muito além do peso na balança. Pesquisas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), da Unicamp e da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica apontam que o sedentarismo está diretamente relacionado ao desenvolvimento de tumores, e que mulheres negras pagam um preço desproporcional por essa equação.
Um estudo publicado na revista científica Breast Cancer Research and Treatment, analisando casos entre 2010 e 2015, constatou que mulheres negras são diagnosticadas em estágios mais avançados da doença do que mulheres brancas, e enfrentam uma taxa de mortalidade quase quatro vezes maior. O INCA, por sua vez, aponta que mulheres negras têm 57% mais chance de morrer de câncer de mama do que brancas, com especial incidência do subtipo triplo negativo, o mais agressivo da doença. Pesquisadores da Unicamp identificaram ainda uma tendência perturbadora: enquanto a mortalidade por câncer de mama cai entre mulheres brancas, ela continua subindo entre pretas e pardas, sinal de que as melhorias no diagnóstico e tratamento ainda não chegam a quem mais precisa.
E é aqui que o movimento entra como resposta. Estudos da Universidade Charles, na República Tcheca, analisando mais de 130 mil mulheres, concluíram que a atividade física regular pode reduzir em até 40% o risco de desenvolver câncer de mama. A American Cancer Society aponta que manter um nível regular de exercícios diminui entre 10% e 20% a chance de desenvolver um tumor. O sedentarismo, por outro lado, pode chegar a dobrar o risco de desenvolvimento da doença. O INCA confirma: a atividade física regula hormônios como estrogênio e progesterona, reduz inflamações crônicas e fortalece o sistema imunológico — mecanismos diretamente ligados à prevenção.
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Hip hop como filosofia, treino como filosofia
Há uma coerência profunda no HHWC que vai além da playlist. O hip hop, em sua essência, sempre foi sobre transformação social através da arte, sobre pegar o que o sistema jogou fora e fazer disso cultura, identidade, orgulho. É o que Afrika Bambaataa chamava de quinto elemento do hip hop: o conhecimento de si, da realidade histórica e cultural dos grupos oprimidos.
O HHWC opera nessa mesma frequência. Cada sessão de treino é também um ritual de pertencimento — a música que pulsa, os corpos que se movem juntos, a instrutora que se parece com você, o espaço que foi construído pensando em você. Isso não é detalhe. Para uma mulher negra que cresceu achando que academia não era lugar para ela, isso é transformação.
“O HHWC leva o hip hop para o treino como cultura viva, traduzindo esse movimento em comunidade, liberdade e transformação social.”
— Juliana Oliveira, idealizadora do HHWC
Em 2025, o Hip Hop Workout Collective deu um passo que marca uma nova fase da sua história: a expansão para o Rio de Janeiro. O que nasceu como um encontro entre amigas em São Paulo agora conecta territórios, amplia redes e consolida o projeto como um movimento, com tudo o que essa palavra carrega de político, de histórico e de esperança.
Ao lado das fundadoras, uma equipe de staff, voluntários, audiovisual, o DJ Pink Jay e a produtora Jufa Balshoy, todos pertencentes à mesma comunidade, todos com histórias de vida que se encontram nesse projeto. Como dizem as idealizadoras: isso vai muito além de ser mais um coletivo de treino.
Sempre que me deparo com uma construção, um espaço ou prédio imponente em expansão, não penso primeiro nos nomes que assinam o projeto. Penso em quem, de fato, colocou a mão na massa. Em quem carregou o peso, ergueu paredes, moldou estruturas e permaneceu invisível. Por trás de cada empreendimento, existe uma história que raramente é contada, e é essa que quero contar.
Recentemente, a fala do CEO Luciano Amaral, do setor da construção civil — ao afirmar que “filho de pedreiro não quer mais ser pedreiro” — ecoou como crítica. Mas talvez ela diga mais sobre o próprio setor do que sobre os filhos dos trabalhadores. A questão não é a recusa ao trabalho, mas a recusa à desigualdade histórica que o acompanha, e, infelizmente, a sociedade ainda não está aberta para essa conversa.
A construção civil brasileira sempre foi um retrato fiel das contradições sociais do país: um setor que movimenta bilhões, e que, de acordo com o IBGE, teve alta significativa em 2025 — 5,63% um aumento de 1,65 comparado a 2024 —, mas que, historicamente, sustenta sua base em mão de obra desvalorizada. Durante décadas, naturalizou-se que aqueles que constroem não ocupassem os espaços de decisão. Não por falta de capacidade, mas por ausência de oportunidade — e, sobretudo, por um sistema que condicionou valor à posse de um diploma, o “canudo” que hierarquiza saberes e define quem manda e quem executa.
Nesse contexto, não surpreende que pedreiros, garis, empregadas domésticas e trabalhadores da limpeza tenham sonhado e lutado para que seus filhos trilhassem caminhos diferentes. Tornar-se “doutor” não era apenas uma ambição individual, mas um projeto coletivo de mobilidade social. Era, sobretudo, uma tentativa de romper com um ciclo de invisibilidade e subalternização.
O que eles temem?
Desde a implementação da Lei de Cotas nº 12.711/2012, o perfil do ensino superior brasileiro se transformou de forma consistente. Hoje, estudantes oriundos da escola pública — muitos deles filhos da classe trabalhadora — já representam a maioria nas universidades federais, ultrapassando 50% das matrículas. Entre esses, há um crescimento significativo de jovens negros, de baixa renda e de primeira geração no ensino superior.
É justamente esse novo horizonte, em que os filhos de pedreiros podem ser engenheiros, arquitetos, gestores ou o que desejarem, que tensiona a lógica histórica do setor. A crítica do CEO, por tanto, está mais relacionada a uma estrutura social que deseja que o rio siga pelo mesmo curso. Pois, só assim, eles seguirão lucrando enquanto a sociedade empobrece e é impedida de acessar os espaços que construiu.
O que está em curso agora não é um desinteresse pelo trabalho na construção civil, mas uma transformação estrutural. O jogo, de fato, mudou, e até posso afirmar que está mudando em velocidade máxima. E isso não acontece por acaso. Há uma reconfiguração das expectativas sociais, impulsionada por políticas públicas de acesso à educação, pela ampliação do debate sobre desigualdade e pela crescente consciência de direitos.
Mas essa mudança revela uma tensão: o setor que sempre dependeu dessa força de trabalho começa a sentir os efeitos de décadas de desvalorização. Quando os filhos daqueles que construíram o país passam a buscar outros caminhos, o que se evidencia não uma crise de interesse, mas uma crise de reconhecimento.
Há, ainda, um elemento que raramente é discutido: a desclassificação simbólica de profissões essenciais. Uma mistura de preconceito estrutural, herança histórica e ignorância social fez com que trabalhos fundamentais fossem tratados como menores. E, ao fazer isso, o mercado não apenas precarizou essas funções, como também afastou novas gerações delas.
Ao olhar para esse cenário, não vejo apenas uma defasagem de mão de obra. Vejo um sistema que, por muito tempo, se apropriou de trabalhadores altamente qualificados — mestres do ofício — enquanto os convencia de que seu saber valia menos do que o saber formal, e, com isso, alimentaram nessas camadas o desejo de que seus filhos olhassem para o topo.
Mas é preciso dizer, também, de onde viemos. Este texto é, antes de tudo, uma homenagem a milhões de brasileiros que ergueram este país com as próprias mãos, e, de forma especial, ao meu pai, Ercio Cruz. Mesmo sem acesso pleno à educação formal, sem ter tido a oportunidade de aprender a ler e escrever como deveria, ele se tornou uma referência na construção a seco/stell frame. Lê uma planta com precisão, domina a técnica como poucos e sempre se orgulha de nunca ter feito concessões que colocassem vidas em risco.
Conhecido como o “Rei do Gesso”, aos 73 anos, ele ainda trabalha. Não apenas por amor ao ofício, mas por necessidade. Depois de quase seis décadas dedicadas à profissão, ajudando a erguer shoppings e empreendimentos de alto padrão, foi aposentado com apenas um salário mínimo.
Sua trajetória revela o descompasso que sustenta esse modelo: quem domina o fazer permanece distante do reconhecimento e da remuneração que esse saber produz. O que está em jogo agora é a ruptura dessa lógica, quando o conhecimento que sempre construiu passa, finalmente, a disputar também o direito de decidir, de ascender e de ser valorizado em todas as dimensões.
A mesa farta das reuniões de família foi o primeiro livro de gastronomia de Jônatas Bomfim. De um lado, a avó Carminha, de Salinas da Margarida, com sua comida de dendê, frigideiras e moquecas. Do outro, a avó Joana, do interior baiano de Terra Nova, com farofa d’água e carne de sertão frita. “Tudo isso foi moldando a forma de eu fazer gastronomia”, conta.
Saiu de casa cedo e por um tempo a cozinha foi apenas necessidade. Trabalhava como recepcionista em um hospital quando decidiu investir no que sentia chamar. Foi pelo Senac Bahia que encontrou o caminho, no curso de cozinheiro profissional, aprendendo técnicas e construindo trocas com colegas que aprofundaram sua visão sobre a gastronomia. Estudou tanto que passou no bacharelado em Gastronomia da UFBA, onde sua trajetória ganhou uma dimensão que ele mesmo não esperava.
Dentro do curso, Jônatas criou o que seria um projeto e se tornou um prêmio: o Chefe da Quebrada, hoje projeto de extensão da universidade, que dá visibilidade a cozinheiros e cozinheiras de periferia e oferece acesso gratuito a formações em técnicas de manipulação de alimentos, ficha técnica e empreendedorismo. “Hoje eu sou pesquisador e extensionista através do próprio projeto que eu mesmo criei”, diz.
Fora da universidade, comanda a brigada de uma cozinha industrial responsável pela produção de refeições para o Tribunal de Justiça da Bahia, o Fórum Ruy Barbosa e a Maternidade Climério de Oliveira, operando em grande escala com foco em qualidade, segurança alimentar e gestão eficiente. É também presença frequente em eventos como o Bahia Origem Week e o Festival da Economia Popular e Solidária, onde apresenta uma cozinha autoral enraizada em território e identidade.
Antes de qualquer técnica, existe quem planta. Jônatas Bomfim ( @jonatasgastronomia) abre sua série #IngredientePrincipal com uma declaração direta: o ingrediente principal da sua trajetória na gastronomia é a agricultura familiar. Chef baiano, pesquisador e criador do projeto Chefe da Quebrada, Jônatas construiu sua cozinha a partir da origem dos alimentos, valorizando quem produz e garantindo que essa base chegue à mesa com identidade e propósito. Nos próximos vídeos, segurança alimentar, técnicas e receitas. Mas tudo começa aqui. Porque sem origem, não existe gastronomia. #IngredientePrincipal#TheMainIngredient#AgriculturaFamiliar
É essa visão de gastronomia como ferramenta coletiva que ele leva para a campanha #IngredientePrincipal. O TikTok escolheu o Brasil para inaugurar essa campanha global, que conta com o Mundo Negro e o Guia Black Chefs como parceiros estratégicos na produção de conteúdo com 20 profissionais negros da gastronomia e nutrição. Jônatas Bomfim é um deles.
Para quem está começando, o recado vai além da técnica: “Lembre de sempre aprender a origem, a base, de onde vem o alimento. Não pense só em fazer pratos bonitos, mas lembre da responsabilidade que você tem como cozinheiro de levar para outras pessoas, de transformar os alimentos. Vá pela base, aplicando técnicas simples e básicas, até você começar a evoluir.”
E para quem pensar em desistir: “A gastronomia mudou a minha vida e ela pode mudar a sua vida também. Mas não romantize tudo. Cozinhar, se for sua dedicação, vai ter uma hora que você vai pensar em parar. E você tem que lembrar: não pare.”
O que deveria ser uma rotina comum de trabalho, lazer e cuidado com a família tornou-se um trauma repetitivo para o coordenador de departamento pessoal Ailton Alves de Sousa. Morador de Heliópolis, na Zona Sul de São Paulo, Ailton foi detido injustamente quatro vezes nos últimos sete meses. Um erro do Smart Sampa, sistema de monitoramento facial da prefeitura, o classifica como um foragido da Justiça de Mato Grosso por homicídio.
As abordagens ocorreram nos contextos mais diversos: ao sair de casa, no trabalho, durante uma corrida de rua e, a mais recente, enquanto acompanhava a mãe em uma consulta médica.
“Eu não sei o que pode acontecer. Fico com medo, mesmo sem dever nada. Você fica com receio, com vergonha da situação em si”, desabafou Ailton em entrevista ao SPTV, da TV Globo. Ele afirma, ainda, nunca ter visitado a região Centro-Oeste do país.
Grandes evidências foram ignoradas pelo sistema: há uma diferença de 12 anos entre os dois homens — o foragido nasceu em 1972, enquanto Ailton nasceu em 1984. Além disso, os nomes dos pais não coincidem e há uma divergência na grafia do próprio sobrenome: o suspeito assina “Souza” (com Z), e o paulistano é “Sousa” (com S). O mandado original de Mato Grosso, inclusive, sequer possui imagens do verdadeiro procurado.
O Smart Sampa conta com 40 mil câmeras espalhadas pela capital paulista. “O que queremos é eliminar essa biomentira. Já entrei com pedidos junto ao Smart Sampa por e-mail, mas, até agora, não obtivemos nenhum tipo de resposta”, disse o advogado da vítima, Sandro Godoy.
Enquanto Ailton vive sob constante temor, a Prefeitura de São Paulo e a Secretaria da Segurança Pública não souberam informar quem incluiu a imagem do coordenador no sistema. Mas em nota, a prefeitura declarou que “não houve qualquer falha no funcionamento do programa” e que a GCM apenas seguiu o alerta. Já a SSP informou ter notificado o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre a inconsistência e providenciado a remoção dos dados de Ailton da base estadual.
O lançamento do filme Pecadores não provocou apenas reações estéticas ou narrativas. Especialmente após sua indicação ao Oscar 2026, que ampliou sua visibilidade internacional, o longa escancarou as estruturas da indústria cinematográfica — e, mais do que isso, revelou como o audiovisual pode impactar diretamente a cultura e a economia do povo negro.
Não se trata apenas da história contada na tela, mas daquilo que aconteceu fora dela: Ryan Coogler, o diretor, garantiu o corte final do filme e uma porcentagem dos lucros das exibições nos cinemas desde o início — diferentemente do modelo tradicional de Hollywood, no qual os diretores recebem parte dos ganhos após a comprovação do sucesso financeiro do filme.
Ao mesmo tempo em que o filme se propõe a discutir exploração, poder e desigualdade racial, os bastidores de sua produção ecoam essas questões, transformando a obra em um marco que vai além da tela e tensiona as estruturas do próprio mercado.
Em um setor historicamente marcado por assimetrias, sobretudo quando se trata de profissionais negros, essa iniciativa foi vista como uma ameaça ao modelo vigente. E isso é mais um fator que torna Pecadores tão relevante: o filme não apenas denuncia desigualdades, mas exige, na prática, medidas mais equitativas capazes de reestruturar a indústria. Afinal, se um projeto demonstra que é possível valorizar adequadamente roteiristas, diretores e equipes — o que nos faz vislumbrar um mundo mais justo para todos —, vale a ousadia.
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Para Letícia Castor, jornalista e crítica de cinema, que atua no mundo corporativo como comunicadora especializada em Diversidade, Equidade e Inclusão (DE&I), o filme vai na contramão do que os estúdios estão dispostos a investir.
“Ryan Coogler, diretor de obras como Pantera Negra e Creed: Nascido para Lutar, conseguiu trazer em um filme de horror, Pecadores, uma analogia sobre como aqueles com mais poder sugam a vida e os direitos dos subjugados no Mississippi da década de 1930, na era Jim Crow”, destaca Letícia, reforçando que a escolha do gênero não é acidental — é estratégica. O horror, aqui, não está apenas nas criaturas da tela. Essa escolha estética amplia a discussão e reforça que o audiovisual movimenta todo um ecossistema, já que é por meio da cultura que construímos contextualizações de inclusão e conexão com a sociedade.
Pecadores opera em duas camadas. Na superfície, apresenta uma narrativa que denuncia a exploração de pessoas negras por estruturas de poder. Em um plano mais profundo, porém, o filme se torna um espelho da própria indústria que o produziu. A ficção e a realidade se cruzam de forma quase inevitável: o que é denunciado na trama se manifesta, de maneira concreta, nas reações do mercado.
“Ryan protegeu o trabalho de pessoas historicamente excluídas e se recusou a jogar o jogo de Hollywood, assegurando que todo lucro (cinemas, streamings, merchandising) vá diretamente para o seu bolso, e não para o dos estúdios e distribuidoras. Mais do que isso, ele protegeu a propriedade intelectual de sua criação e o legado de sua obra ao conseguir em seu acordo com a distribuidora que os direitos autorais retornassem a ele após 25 anos. E que obra! Pecadores bateu o recorde de indicações ao Oscar, com 16 nomeações. O filme levou para casa as estatuetas de Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora, Melhor Roteiro Original e Melhor Ator Principal para Michael B. Jordan. Aqui, temos uma vitória agridoce, já que Michael é o sexto homem negro na história do Oscar a vencer na categoria. É motivo de celebração? Com certeza. Mas é também de reflexão sobre os vieses da Academia (e de toda indústria), afinal, estamos falando da 98ª edição da cerimônia”, enfatiza a jornalista.
A resistência a mudanças estruturais não é novidade. Ao longo da história do cinema e do meio corporativo, avanços em DE&I e impacto social frequentemente enfrentam barreiras — muitas vezes veladas, outras explícitas. O que diferencia o momento atual é a crescente visibilidade dessas tensões. O público está mais atento, os profissionais mais organizados e as narrativas mais conscientes de seu papel político.
O filme cumpre uma função que vai além do entretenimento. Ele gera discussão, provoca e, sobretudo, evidencia que oportunidade, ética e reconhecimento — quando aplicados de fato — redistribuem o poder, principalmente o econômico.
A internet tem se tornado um ambiente cada vez mais hostil para mulheres — especialmente para mulheres negras. Entre o desejo de compartilhar uma vitória profissional ou uma foto exaltando a própria beleza, surge o medo de que o próximo comentário seja um julgamento, uma ofensa disfarçada de opinião ou, em casos mais graves, uma ameaça direta à integridade física.
Os números são alarmantes. Segundo dados divulgados em 2022 pelo professor Dr. Luiz Valério Trindade, doutor pela Universidade de Southampton, no Reino Unido, 81% dos discursos de ódio online têm como alvo mulheres pretas e pardas, com idade entre 25 e 35 anos e em ascensão social.
Não se trata apenas de haters aleatórios. As denúncias de misoginia na internet mais que triplicaram no último ano, crescendo 224,9%, segundo levantamento da SaferNet. Em 2024, foram registradas 2.686 denúncias de violência ou discriminação contra mulheres; já em 2025, foram 8.728 registros.
Muitas ofensas podem parecer inofensivas, mas são a faísca que alimenta um ciclo de desrespeito que, muitas vezes, escala para a violência física no mundo real. Para mulheres negras, as “opiniões” ainda têm o agravante do racismo: “Melhor você alisar o cabelo, é mais limpo e profissional”; “Só a promoveram para cumprir a cota”; e “Você é muito raivosa, ninguém pode falar nada”.
Redesenhando o ambiente digital
Para enfrentar essa realidade, a SEPHORA Hearts Not Hate lançou sua campanha para o Brasil. A iniciativa, que chega ao país no Mês da Mulher, propõe uma reflexão profunda sobre como a misoginia tenta impedir a presença das mulheres nas redes sociais.
A proposta é transformar a realidade de forma coletiva. Ocupar as redes, mas preservando a saúde mental e a integridade física.
Estratégias de autodefesa e denúncia:
Não hesite em filtrar: Bloquear e silenciar contas que drenam sua energia não é falta de diálogo, é preservação da integridade.
Produza provas: Em casos de violência digital, reúna prints, links e URLs.
Denuncie formalmente: Registre um Boletim de Ocorrência em delegacias especializadas (Delegacia da Mulher ou de Crimes Cibernéticos).
Busque apoio: Em casos de emergência, ligue 190. Para acolhimento e orientações, ligue 180 para a Central de Atendimento à Mulher.
Redesenhar o ambiente digital é uma escolha coletiva sobre quais vozes decidimos amplificar para garantir a nossa liberdade.
Bruno Manoel não escolheu a gastronomia de forma deliberada. Ela chegou antes, pelo afeto. “A gastronomia entrou na minha vida de uma forma muito afetiva, que foi pela minha mãe. Eu aprendi a cozinhar, vamos dizer que por osmose, que a gente criava em casa. A mãe deixava a gente meio que na barra da saia dela e ela estava cozinhando lá na cozinha. E a gente aprendeu a cozinhar sem ela querer”, conta.
Pernambucano de coração e orgulho, Bruno é chef de cozinha, influenciador de gastronomia e um dos rostos mais conhecidos da cena gastronômica do Nordeste. Estudou na Le Cordon Bleu, mas faz questão de deixar claro: a sua verdadeira formação veio da cozinha de Mainha. É dessa combinação entre técnica acadêmica e saber afetivo que nasce o trabalho do @preto_na_cozinha, perfil onde compartilha a gastronomia nordestina e pernambucana junto com cultura, música e histórias.
O alcance do seu trabalho já chegou à televisão nacional. Venceu o reality Que Delícia no Mais Você com Ana Maria Braga e participou do Chef de Alto Nível, dois dos programas gastronômicos de maior audiência do Brasil.
Antes de virar produto embalado, o milho já era base nas cozinhas do Nordeste. Bruno Manoel (@Preto na Cozinha ) prepara uma canjica simples e afetiva: milho cozido, leite de coco, manteiga, açúcar e canela. Ingredientes que juntos contam uma história muito maior do que a receita. Canjica não é sobremesa. É continuidade. Foi com milho que muita gente aprendeu que comida também é afeto, e que raiz não é sobre luxo: é sobre o que a gente carrega e passa pra frente. #IngredientePrincipal#TheMainIngredient#Milho
É essa voz autêntica e nordestina que ele leva para a campanha #IngredientePrincipal. O TikTok escolheu o Brasil para inaugurar essa campanha global, que conta com o Mundo Negro e o Guia Black Chefs como parceiros estratégicos na produção de conteúdo com 20 profissionais negros da gastronomia e nutrição. Bruno Manoel é um deles.
Para quem pensa em seguir carreira na gastronomia, o conselho dele é simples e direto: “Primeiro de tudo, para você pensar em seguir uma carreira, você tem que gostar daquilo. Não adianta só fazer. Cozinhar é uma coisa que você vai estar fazendo todos os dias. Então se você não gostar daquilo, não vai ficar bom. Não é só zoar, mas tem que ter amor.”
Da cozinha de Mainha ao Le Cordon Bleu, Bruno Manoel mostra que a melhor formação é aquela que começa em casa.
No Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, a UNEafro Brasil realiza seu Aulão Inaugural 2026, marcando o início do ano letivo dos cursinhos populares voltados à juventude negra, periférica e da classe trabalhadora. O evento acontece na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, na Cidade Universitária, em São Paulo, a partir das 9h.
A escolha da data é simbólica. O dia 21 de março foi instituído pela ONU em memória ao Massacre de Sharpeville, ocorrido em 1960 na África do Sul, quando 69 pessoas foram assassinadas durante um protesto pacífico contra o regime do apartheid.
A programação inclui a Aula Magna, que neste ano será conduzida por Sheila de Carvalho, advogada, professora e atual Secretária Nacional de Acesso à Justiça do Ministério da Justiça e Segurança Pública, e por Douglas Belchior, professor de História, ativista do movimento negro e cofundador da UNEafro e da Coalizão Negra por Direitos.
O aulão também celebra os 17 anos da organização, fundada em 5 de março de 2009 a partir de uma ocupação da Faculdade de Medicina da USP, em ato que denunciava a desigualdade racial no acesso ao ensino superior.
Em 2026, mais de 130 estudantes da rede conquistaram vagas em universidades públicas, entre elas USP, Unifesp, Unesp, UFRJ, UERJ e UFABC. Durante o evento, alguns deles compartilharão suas trajetórias com os novos ingressantes. A programação ainda conta com atrações artísticas, roda de capoeira, almoço no bandejão e um tour pelo campus.
A UNEafro Brasil atua em mais de 40 núcleos de educação popular espalhados por periferias de São Paulo e outros municípios, além de estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco e o Distrito Federal.
ServiçoAulão de Boas-Vindas – UNEafro BrasilData: 21 de março de 2026 Horário: 9h às 17h Local: FFLCH-USP – Av. Professor Lineu Prestes, 338, Cidade Universitária, Butantã/SP