O Fundo Agbara está com inscrições abertas para o Descansa, Nêga, programa que vai financiar experiências de descanso em contato com a natureza para cinco mulheres negras de diferentes regiões do Brasil. A iniciativa também prevê que cada selecionada possa levar outra mulher negra para vivenciar a experiência.
Com inscrições gratuitas até 26 de agosto, às 20h (horário de Brasília), o programa propõe discutir o descanso não como recompensa pela produtividade, mas como parte das condições necessárias para uma vida com qualidade, autonomia e bem-estar.
A iniciativa parte de uma questão central: quem consegue, de fato, reservar tempo e recursos para descansar?
Descanso também é uma questão de acesso
O debate proposto pelo Descansa, Nêga considera que o acesso ao tempo livre, ao lazer e às experiências de cuidado não é distribuído de maneira igual. Para mulheres negras, as jornadas de trabalho remunerado, as responsabilidades domésticas e as tarefas de cuidado podem se sobrepor, reduzindo as possibilidades de pausa e lazer.
Ao financiar uma experiência concreta de descanso, o programa busca colocar o tema no centro da discussão sobre desigualdade racial, de gênero e econômica.
A proposta é inspirada no conceito de Bem Viver, que amplia a compreensão de qualidade de vida para além da produtividade e do consumo. Nesse contexto, descansar aparece como uma dimensão do direito a uma vida digna e com autonomia.
“O Descansa, Nêga nasce para afirmar que o descanso não é um privilégio nem uma recompensa pelo excesso de trabalho: ele é um direito. Quando uma mulher negra consegue pausar, cuidar de si e recuperar suas energias, estamos falando também de saúde, dignidade e justiça econômica”, afirma Aline Odara, fundadora e diretora-executiva do Agbara.
Quem pode participar?
Podem se inscrever mulheres negras de todo o Brasil, desde que atendam aos critérios estabelecidos no edital. A seleção levará em consideração aspectos como a situação de vulnerabilidade, o potencial de impacto da experiência e o significado do Bem Viver para cada candidata.
Cada uma das cinco selecionadas poderá convidar outra mulher negra para acompanhá-la em toda a experiência, sem custos.
Serviço
Programa: Descansa, Nêga Realização: Fundo Agbara Público: mulheres negras de todo o Brasil, conforme os critérios do edital Número de selecionadas: 5 mulheres, que poderão levar outra mulher negra Inscrições: gratuitas Período: de 12 a 26 de agosto de 2026 Prazo final: 26 de agosto, às 20h (horário de Brasília)
Com o objetivo de capacitar mais profissionais negros no mercado de energia, o Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), por meio da Universidade Setorial (UnIBP), prorrogou até o próximo domingo, 23 de agosto, as inscrições para a Trilha Ziga de Desenvolvimento para o Setor de Energia. O programa é gratuito, oferece bolsa-auxílio de R$ 700 mensais e quer transformar a presença negra nos quadros técnicos e de liderança do setor no estado do Rio de Janeiro. As inscrições devem ser feitas diretamente no portal oficial da UnIBP.
Para garantir que a oportunidade chegue a mais talentos e contemple trajetórias diversas, o IBP promoveu mudanças estratégicas no edital. O alcance do programa foi expandido para candidatos de todo o estado do Rio de Janeiro e a exigência de um tempo máximo de formado após a conclusão do ensino superior foi derrubada, permitindo a participação de profissionais em diferentes etapas da vida acadêmica e profissional.
“A trilha é uma resposta concreta do setor de energia à necessidade de diversificar suas lideranças e seus quadros técnicos. É um esforço que o IBP conduz junto às empresas parceiras TotalEnergies e TBG, articulando ações que ampliem o acesso de profissionais negros a oportunidades qualificadas no setor de petróleo, gás e biocombustíveis”, destaca Victor Montenegro, diretor-executivo corporativo interino do Instituto.
A formação conta com o apoio das gigantes TotalEnergies e TBG e disponibiliza 12 vagas. Com duração de três meses, o curso será realizado na modalidade a distância (EAD), com aulas ao vivo no período noturno — facilitando a rotina de quem precisa conciliar o estudo com o trabalho.
A grade curricular abrange o panorama geral da indústria de energia, aulas de inglês e desenvolvimento de soft skills. Os alunos também passarão por dinâmicas de networking e construirão um projeto prático focado em solucionar desafios reais do setor. Para garantir a permanência e o apoio financeiro aos participantes durante o percurso, cada selecionado receberá uma bolsa-auxílio de R$ 700 mensais.
Ao final do programa, os alunos aprovados passam a integrar o Hub de Talentos da UnIBP, ficando visíveis para conexões diretas de carreira com grandes empresas do mercado.
Quem pode participar e como funciona a seleção
Os interessados em concorrer a uma das vagas devem atender aos seguintes critérios de elegibilidade:
Autodeclarar-se pessoa preta ou parda (negra);
Ter no mínimo 18 anos de idade;
Residir em qualquer município do estado do Rio de Janeiro;
Possuir ensino superior completo (bacharelado, licenciatura ou tecnólogo) em instituição reconhecida pelo MEC.
A seleção será feita em quatro fases: inscrição, aplicação de provas, entrevistas e avaliação por uma comissão de heteroidentificação.
Sobre o Programa de Diversidade ZIGA
Criado em 2023 pelo IBP, o Programa Ziga consolida as iniciativas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DE&I) voltadas para o pilar racial dentro da indústria de energia. A iniciativa é mantida em conjunto com o Grupo de Trabalho de Raça e Etnia, vinculado à Comissão de DE&I do IBP, mobilizando empresas parceiras para abrir portas e construir uma representatividade efetiva em toda a cadeia produtiva do setor.
Esta coluna tem como eixo principal a curadoria. Escolha a recomendação cuidadosa de obras e artistas a conhecer e seguir. Então, aqui vai uma indicação imperdível para todos que estiverem no Rio de Janeiro: a remontagem do maior musical brasileiro: Ópera do Malandro, em uma encenação autoral do diretor Jorge Farjalla (Clara Nunes – A Tal Guerreira; Brilho Eterno) com Valéria Barcellos (Titaníque; A Palavra Que Resta) brilhando no elenco como Geni.
Foto: Divulgação/Priscila Prade
Sobre a Ópera
Chico Buarque escreveu o musical em 1978, encerrando um ciclo precedido por outras joias como Gota d’Água, Roda Viva e Calabar. Ele se inspirou na Ópera dos Mendigos de John Gay, mas, principalmente, em A Ópera dos Três Vinténs de Bertold Brecht, misturando a sátira política alemã dos anos 1920 ao Brasil corrupto e melodramático, com o Rio de 1940 de pano de fundo, com malandros-heróis e prostitutas como mocinhas.
A montagem original, dirigida por Luís Antônio Martinez Corrêa, trazia a então companheira de Chico, Marieta Severo, como Teresinha, e uma exuberante Elba Ramalho, como Lúcia, as duas responsáveis pela primeira versão de uma das canções que transcenderam da dramaturgia à música popular brasileira: “O Meu Amor”. Uma, herdeira de um bordel, outra, profissional do sexo. O amor? O contraventor Max Overseas (Otávio Augusto) – herói dessa tragicomédia.
Geni, a pioneira
Entre tantas audácias para o Brasil sob a Ditadura Militar, Chico guardava uma surpresa que só seria revelada na estreia: a travesti Geni – personagem com nome feminino para uma voz tida como “masculina”. Mais: memórias de Madame Satã (1900–1976) também inspiraram Chico, o que nos ajuda a compreender a personagem como travesti, à luz da iconografia da época.
Geni não é uma personagem pequena; ela é amiga do “mocinho” e convive com o “vilão”, tendo função dramática fundamental para a resolução da trama principal. Mais: Geni tem um momento só seu, um à parte de toda estrutura da história de amor protagonista, para narrar seu passado: “Geni e o Zepelim”, outra música que atravessou o teatro para gravações da MPB.
O refrão, “joga pedra na Geni”, sintetiza a voz da sociedade moralista e hipócrita que hostiliza a personagem até ser ameaçada pelo comandante de um zepelim que escolhe justamente Geni. Ela se torna a salvação de todos, mas depois da partida do veículo prateado, volta a ser violentada, apedrejada. Uma analogia sobre como boa parte do mundo ainda trata pessoas à margem de uma dita “normatividade”. Uma das primeiras representações trans na dramaturgia brasileira, Geni ainda hoje é poderosa e muito necessária.
O anúncio de uma nova montagem do clássico, dessa vez pelas mãos de Jorge Farjalla, despertou frisson com a pergunta “Quem será Geni?”. Sabendo do bom senso dos envolvidos, pela primeira vez, não veríamos um “transfake” (quando um ator cisgnênero interpreta uma personagem trans). E de fato, é impressionante e emocionante a generosa quantidade de excelentes atrizes e cantoras trans no Brasil hoje, aumentando a dúvida.
O encontro de Valéria
Segundo a atriz e cantora gaúcha Valéria Barcellos, ela própria procurou o diretor se apresentando como alguém que se preparou durante toda vida para viver a personagem. O movimento assertivo é digno de uma Geni! Mas acho que esse encontro já estava predestinado: na internet, há uma emocionante gravação ao vivo, de 2022, mostra Valéria, acompanhada pelo violão de Rafael Erê, construindo toda história de Geni só com sua voz teatral e suas emoções mais sinceras.
Anos depois, no palco, Valéria é senhora como Geni. Confortável, flui com graça pelo texto e joga de igual para igual com os parceiros de cena como Totia Meireles e José Loreto (Vitória Régia e Max). Valéria tem frescor próprio em uma encenação de tons circenses. É aquela que deixa entrever a melancolia do palhaço. Uma atuação e voz maduras que a posicionam como uma das grandes atrizes dos musicais brasileiros. Na bem sucedida encenação de Farjalla – que mescla elementos da farsa e da religiosidade afro -, Valéria Barcellos é o maior destaque.
Fotos: Divulgação/Gattu Filmes
Uma Geni histórica
E o diretor demonstra consciência política de seu tempo, dando uma dimensão ainda maior a presença de Geni, tornando seu número o ponto mais alto da jornada do espetáculo. Se, em diferentes momentos, Farjalla baseia sua estrutura num número de canção em paralelo à representação cênica do que é cantado, em “Geni e o Zepelim” essa linguagem alcança a apoteose.
Valéria surge altiva e vulnerável com uma qualidade vocal irrepreensível. O excelente arranjo de Gui Leal segue o original, mas o adapta com precisão à voz de Valéria, mantendo a clareza na comunicação de cada palavra – algo fundamental para o teatro musical. Também é belo o trabalho com a percussão mais ao final e o coro a capella. “Geni e o Zepelim”, com uma rasgante Valéria Barcellos, merece uma gravação – na verdade toda esta Ópera do Malandro.
Chegando mesmo a tremular a bandeira trans em cena como ao fim de uma guerra, a cena causa tamanha catarse que, no dia que assisti, algumas pessoas – eu me incluo – aplaudiram de pé o número protagonizado por Valéria e seu duplo, a Geni jovem que representa a canção com a trupe, Marina Mathey. Aqui também é preciso destacá-la: sua máscara facial e partitura física expressam toda ingenuidade, medo, dor e resignação. Marina também é a eventual substituta de Valéria como Geni e tem um humor cheio de picardia em sua cena como Dorinha Tubão.
Fotos: Divulgação/Gattu Filmes
Mais por aí
Outra presença recentes da personagem foi na Mini Ball da Geni (dirigida por esta autora) onde, interpretada Olívia Lopes, Geni se tornou Mestre de Cerimônias de um concurso da cultura Ballroom na Biblioteca Mário de Andrade e no CPT – Centro de Pesquisa Teatral do Sesc, em São Paulo. E vem mais por aí: o aguardado filme Geni e o Zepelim (dirigido por Anna Muylaert), após polêmicas, traz a atriz trans e negra Ayla Gabriela como Geni, ao lado do Comandante, vivido por Seu Jorge.
Serviço
Ópera do Malandro
Quinta, Sexta e Sábado às 20h00, Sábado às 16h00, Domingo às 15h30 e 19h30 Teatro Multiplan – VillageMall – Av. das Américas, 3900 – Barra da Tijuca – Rio de Janeiro/RJ Ingressos entre R$ 25 e R$ 350 Sympla: https://bileto.sympla.com.br/event/122813/d/394821 Até 30/08
* Luh Maza é dramaturga e cineasta. Escreveu críticas de arte entre 2009 e 2012 para veículos como o Caderno Teatral e o portal Yahoo! Brasil. Integra a dissertação de mestrado da UFRGS: “Aspectos da crítica teatral brasileira na era digital”, de Helena Maria Mello. Também foi jurada do Prêmio Shell de Teatro no biênio 2022-2023, como primeira pessoa trans no Brasil e primeira pessoa negra em São Paulo. Foi curadora nas secretarias de cultura de São Paulo e Curitiba, no SESI, na MIT-SP, entre outras instituições, mostras e festivais de teatro e audiovisual.
Após cinco anos, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro marcou para o dia 26 de novembro o júri popular dos dois policiais militares acusados pela morte deKathlen Romeu, de 24 anos, morta durante uma operação no Complexo do Lins, na Zona Norte da capital fluminense.
Os réus Marcos Felipe da Silva Salviano e Rodrigo Correia de Frias serão levados ao Conselho de Sentença sob a acusação de homicídio qualificado.
Kathlen foi atingida por um tiro de fuzil no tórax em 8 de junho de 2021, quando visitava a avó no Complexo do Lins. Ela estava grávida de 13 semanas e não resistiu aos ferimentos, morrendo no hospital.
A versão inicial apresentada pela Polícia Militar afirmava que havia ocorrido um confronto com criminosos na região. No entanto, relatos de moradores e apurações do Ministério Público indicaram que não houve troca de tiros no momento em que Kathlen foi atingida.
Investigações posteriores revelaram que policiais recolheram cápsulas de munição e alteraram elementos do cenário da ocorrência, o que levou à denúncia por fraude processual.
Desde o ocorrido, familiares da vítima têm cobrado punição aos envolvidos e criticado a lentidão do andamento do processo. Em março deste ano, a juíza Elizabeth Machado Louro determinou que os indícios apresentados pelo Ministério Público e pela Polícia Civil eram suficientes para levar o caso a júri popular.
O julgamento está agendado para as 11 horas, no II Tribunal do Júri da Capital, no Rio de Janeiro.
Iniciativa passa a integrar permanentemente o site e facilita o encontro entre creators negros, marcas e agências
A Vitrine de Creators Negros, iniciativa criada pelo Mundo Negro para ampliar a visibilidade de profissionais negros da criação de conteúdo, agora passa a ser uma seção fixa do site. A mudança busca tornar a consulta aos perfis mais simples e contínua, tanto para marcas e agências em busca de talentos quanto para creators que desejam ampliar suas oportunidades no mercado publicitário.
Lançada inicialmente como uma chamada para reunir profissionais negros de diferentes nichos e regiões do Brasil, a Vitrine ultrapassou 1 mil inscrições em menos de 24 horas. Agora, com quase 2 mil perfis cadastrados, a iniciativa entra em uma nova etapa: manter esses talentos acessíveis ao mercado a longo prazo.
A proposta é que a Vitrine funcione como um espaço permanente de descoberta. Marcas, agências e profissionais interessados poderão consultar os perfis cadastrados, enquanto os creators passam a contar com uma estrutura que contribui para aumentar sua exposição e facilitar novos contatos profissionais.
Para Silvia Nascimento, fundadora e Head de Conteúdo do Mundo Negro, ampliar a audiência dos creators também faz parte desse processo de fortalecimento profissional.
“Ser notado pelas marcas é importante, mas construir uma audiência é também muito relevante para esse creator. Notamos muitos perfis super legais que poderiam ser maiores, e queremos usar nosso tamanho e credibilidade para amplificar esses talentos. Até o momento foram quase 2 mil de perfis de pessoas negras que trabalham com criação de conteúdo e vamos aos poucos mostrar quem eles são”, afirma Silvia.
A Vitrine também parte de uma mudança de perspectiva sobre a presença negra na publicidade: não basta inserir pessoas negras nas campanhas; é necessário ampliar o acesso aos profissionais que já produzem, comunicam e constroem audiência em diferentes áreas.
Ao transformar a iniciativa em uma seção permanente, o Mundo Negro amplia seu papel como ponte entre o mercado e os talentos da população negra, criando uma ferramenta que pode ser consultada ao longo do tempo e fortalecendo a circulação desses profissionais.
Como participar
Creators negros que ainda não fizeram seu cadastro podem preencher o formulário da Vitrine. Marcas, agências e profissionais do mercado também podem acessar a plataforma para conhecer os talentos já inscritos.
Projeto inicia circulação nacional em Niterói, com show gratuito, e passa por Salvador, Olinda, Brasília, Porto Alegre e outras cidades até janeiro de 2027
O samba do Batuke do Pretinho da Serrinha vai ganhar novos territórios a partir de setembro. Idealizado pelo músico Pretinho da Serrinha, o projeto inicia uma turnê nacional em 6 de setembro, em Niterói, no Rio de Janeiro, e seguirá por dez cidades brasileiras até janeiro de 2027.
A primeira apresentação acontece na Reserva Cultural, em Niterói, com entrada gratuita. A circulação também passa por Juiz de Fora, Salvador, Olinda, Florianópolis, Vitória, Porto Alegre, Brasília, Santos e Campinas. As datas de Salvador e outras cidades já estão definidas, enquanto os locais de algumas apresentações ainda serão anunciados.
A proposta do Batuke é criar encontros entre a música e as identidades culturais de cada território. O projeto mantém o samba como ponto de partida, mas abre espaço para artistas, sonoridades e referências locais.
“Com o tempo, percebemos que essa energia não pertencia apenas ao Rio de Janeiro. Hoje, transformar o Batuke em uma turnê nacional representa um passo muito importante na nossa história”, afirma Pretinho da Serrinha.
A nova temporada também terá repertório renovado e homenagens a artistas que fazem parte da trajetória do projeto. Participações-surpresa, encontros entre diferentes gêneros musicais e a interação próxima com o público seguem entre as características do Batuke.
“O Batuke sempre foi um projeto que navega além do samba. Recebemos artistas de diferentes estilos e mostramos que grandes sucessos da música podem ganhar uma nova leitura e virar samba, sem perder a essência”, destaca o músico.
Essa abertura para diferentes sonoridades também dialoga com a própria formação artística de Pretinho da Serrinha, atravessada pelas rodas de samba, pelo jongo, pela bateria do Império Serrano e pela convivência com mestres da cultura popular. Essas referências aparecem nos arranjos e nas escolhas musicais que compõem cada encontro.
A circulação é realizada pelo Ministério da Cultura e todas as apresentações terão recursos de acessibilidade, como intérprete de Libras, audiodescrição, acessibilidade arquitetônica e espaços reservados para cadeirantes.
Serviço
Batuke do Pretinho da Serrinha — Niterói
6 de setembro de 2026 Reserva Cultural — Avenida Visconde do Rio Branco, 880, São Domingos, Niterói (RJ) Abertura: 16h | Show: 18h Entrada gratuita, com retirada de até dois ingressos por CPF pelo Ticket360.
Depois de Niterói, a turnê segue para Juiz de Fora (27/09), Salvador (10/10), Olinda (11/10), Florianópolis (15/11), Vitória (20/11), Porto Alegre (29/11), Brasília (05/12), Santos (15/01/2027) e Campinas (16/01/2027). Os locais das demais apresentações serão divulgados posteriormente.
Ex-BBB conta que precisou “recalcular a rota” e celebra a possibilidade de unir pesquisa e criação de conteúdo em uma nova fase profissional.
Lumena Aleluia anunciou, nesta quarta-feira (19), que assinou seu primeiro contrato remunerado para atuar como pesquisadora e criar conteúdo a partir de sua formação e experiência na área.
Em vídeo publicado no Instagram, Lumena contou que precisou “recalcular a rota” diante de novos desejos que surgiram em sua vida. Ela também relembrou o período em que dedicou grande parte de sua energia ao ativismo social e falou sobre a relação entre essa trajetória e sua formação como pesquisadora.
“Eu entendo que eu sou uma pesquisadora nata, uma mulher muito curiosa pela vida, eu sou uma mulher muito curiosa sobre a minha própria experiência. Minha primeira fonte de pesquisa foi a minha própria história de vida”, afirmou.
Formada em Psicologia pela Universidade Salvador (UNIFACS), Lumena possui mestrado em Psicologia Social pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e especializações em Saúde da Mulher pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em Gênero e Sexualidades pela UERJ.
A nova oportunidade também representa o reencontro com uma paixão que, segundo ela, havia sido deixada de lado.
“Eu nunca imaginei que eu poderia, depois de tudo que aconteceu na minha vida, voltar a ser pesquisadora. Eu engavetei essa minha paixão”, declarou.
Atualmente, Lumena também atua como influenciadora e decidiu experimentar uma comunicação mais leve e bem-humorada nas redes. A proposta, segundo seu relato, surgiu como parte desse processo de reorganização de sua trajetória e da busca por novos objetivos.
Com o primeiro contrato na área, ela passa a aproximar duas frentes de sua atuação: a pesquisa e a criação de conteúdo. Lumena afirma estar se preparando para produzir conteúdos de qualidade a partir dessa experiência.
“Esse vídeo é só pra dizer pra vocês que eu fechei o meu primeiro contrato pra exercer minha função de pesquisadora”, celebrou.
Documentário revisita a trajetória de Tebas e destaca a presença negra na arquitetura, no empreendedorismo e na transformação do Centro Histórico de São Paulo.
“O Triângulo de Tebas”, documentário produzido e dirigido por Luciano Quirino, já está disponível no YouTube. O filme amplia o acesso a uma narrativa sobre a presença negra na arquitetura do Centro Histórico de São Paulo e sobre a trajetória de Tebas, nome pelo qual ficou conhecido Joaquim Pinto de Oliveira.
Com roteiro de Luciano Quirino e Luquinha Figueiredo, a produção marcou presença e foi reconhecida em festivais de cinema nacionais e internacionais. Entre eles, estão os prêmios de Melhor Documentário de Curta-Metragem, na Mostra Competitiva de Cinema da Universidade Veiga de Almeida, e Melhor Roteiro de Curta-Metragem, no OFFCine – Festival Internacional de Cinema.
O filme também integrou a abertura do Santos Film Fest e participou do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, além de ter sido selecionado para o Festival de Cinema de São Bernardo do Campo e o Festival de Curtas Paranaguá.
Agora disponível no YouTube, O Triângulo de Tebas chega a um público ainda maior. Segundo o diretor, o documentário busca ampliar a compreensão sobre a atuação de pessoas negras na construção da sociedade brasileira, destacando não apenas o trabalho realizado sob a escravidão, mas também criação, conhecimento, técnica e protagonismo.
Na obra, Quirino também aborda a importância da diáspora africana para a arquitetura paulistana, processos de inovação tecnológica e empreendedorismo negro.
Jason Arday chegou a Cambridge carregando uma biografia que contrariava a paisagem histórica de uma instituição fundada há mais de oito séculos. Homem negro, autista, professor de Sociologia da Educação, tornou-se, aos 37 anos, o professor negro mais jovem da história da universidade. Sua nomeação foi celebrada como sinal de transformação. Cambridge podia olhar para Arday e apresentar ao mundo uma fotografia conveniente de si mesma: uma universidade secular finalmente capaz de reconhecer que inteligência, produção de conhecimento e excelência também têm outros rostos. A fotografia funcionou enquanto produziu prestígio.
Quando surgiram acusações de plágio e questionamentos sobre aspectos de sua trajetória acadêmica e pessoal, Arday deixou rapidamente de representar apenas a diversidade que Cambridge parecia orgulhosa de anunciar. Sua história passou a alimentar uma disputa maior sobre mérito, inclusão e políticas de igualdade. O professor foi investigado, sua produção foi examinada, suas qualificações foram questionadas e episódios de sua vida foram submetidos a um escrutínio público que ultrapassou a discussão sobre eventuais irregularidades acadêmicas. A lupa deixou de procurar somente o erro e começou a percorrer o homem inteiro.
Dias depois de renunciar ao cargo, Jason Arday morreu aos 41 anos. A polícia britânica informou que sua morte era inesperada e não estava sendo tratada como suspeita. Sua família denunciou uma campanha de assédio e desinformação. O próprio Arday havia relatado o peso de viver sob escrutínio constante. Seria irresponsável estabelecer uma relação causal entre esse processo e sua morte sem evidências que a sustentem. Seria igualmente irresponsável observar tudo o que aconteceu antes dela e reduzir o episódio a uma controvérsia sobre integridade acadêmica.
Integridade acadêmica deve ser cobrada de qualquer pesquisador. Plágio é grave, currículos podem ser verificados e nenhum enfrentamento ao racismo exige que pessoas negras sejam poupadas da responsabilidade por seus atos. A questão que seu caso impõe está em outro lugar: em que momento a responsabilização deixa de examinar aquilo que alguém fez e passa a investigar se aquela pessoa deveria ter chegado onde chegou?
Essa fronteira é conhecida por pessoas negras que ocupam espaços historicamente brancos. Há uma espécie de credencial provisória que acompanha muitas dessas trajetórias. O diploma não encerra a suspeita, o mestrado não encerra, o doutorado tampouco. O cargo, a publicação de livros e o reconhecimento profissional podem aumentar a vigilância em vez de eliminá-la. Existe uma banca invisível funcionando depois da banca oficial, examinando competência, comportamento, linguagem, temperamento, aparência e pertencimento. A pessoa chega, mas continua precisando demonstrar que sua chegada não foi um equívoco.
Essa é uma das perversidades mais sofisticadas do racismo institucional: exigir excelência de quem já precisou ser extraordinário para atravessar a porta. A pessoa negra aprende que não lhe basta realizar o trabalho. Precisa conhecer os códigos que ninguém explicou, saber mais para que sua inteligência seja reconhecida, errar menos para que sua competência não seja questionada e administrar cuidadosamente a reação diante da violência para que sua resposta não se transforme numa acusação contra ela própria. O desgaste não nasce apenas do grande episódio racista. Nasce também da repetição cotidiana da suspeita.
Pessoas brancas podem fracassar individualmente sem que seu fracasso convoque a branquitude inteira para o julgamento. Um professor branco pode cometer uma irregularidade acadêmica e continuar sendo um professor que cometeu uma irregularidade. Sua conduta pode ser investigada, sua carreira pode sofrer consequências e sua reputação pode ser atingida sem que alguém utilize seu caso para perguntar se pessoas brancas deveriam ocupar universidades. A racialização do erro acontece quando a falha de uma pessoa negra começa a ser utilizada como evidência contra a presença negra.
É nesse ponto que o caso Arday se torna maior do que Arday. Sua ascensão havia sido transformada em símbolo. Depois, sua queda também foi. Setores contrários às políticas de diversidade encontraram no episódio matéria para discutir se sua contratação teria sido favorecida pela busca institucional por representatividade. O homem que antes funcionava como demonstração do avanço de Cambridge passou a servir, para seus adversários, como demonstração dos supostos perigos desse avanço. A mesma raça que ajudara a transformar sua nomeação em notícia passou a participar da narrativa construída sobre sua deslegitimação.
Não precisamos fabricar inocentes para reconhecer essa violência. Esse ponto é fundamental porque o antirracismo perde força quando acredita que só consegue defender pessoas negras perfeitas. A dignidade não pode ser prêmio concedido àqueles que jamais erraram. Arday podia ser contraditório, podia ter cometido falhas e deveria responder por irregularidades que fossem comprovadas. Humanidade significa também possuir o direito de ser responsabilizado na proporção dos próprios atos, sem que um erro autorize a sociedade a reexaminar toda a sua existência em busca da fraude original que supostamente explicaria como aquele homem negro conseguiu chegar tão longe.
O racismo contemporâneo tornou-se competente em utilizar palavras aparentemente neutras. Mérito, excelência, preparo, qualidade e critérios podem expressar preocupações legítimas. Também podem funcionar como instrumentos de conservação quando são acionados seletivamente. É curioso observar como determinadas instituições descobrem uma devoção quase religiosa pela meritocracia justamente quando pessoas que historicamente permaneceram do lado de fora começam a atravessar seus portões. A pergunta relevante não é se o mérito deve existir, e sim quem historicamente teve o poder de defini-lo.
Universidades antigas foram construídas por redes de pertencimento que atravessam gerações. Sobrenomes, escolas frequentadas, relações familiares, indicações, amizades, repertórios culturais e condições materiais de estudo sempre participaram da formação das elites intelectuais. Quando esses privilégios se repetem durante séculos, deixam de parecer privilégios. Ganham aparência de normalidade. O estudante negro ou o professor negro chega depois e encontra uma instituição que chama de mérito aquilo que, muitas vezes, também foi produzido por acesso acumulado.
O Brasil conhece profundamente essa engrenagem. As políticas de cotas alteraram a composição das universidades e produziram uma das transformações sociais mais relevantes das últimas décadas. Pessoas que durante gerações tiveram sua inteligência mantida do lado de fora começaram a ocupar salas de aula, laboratórios, programas de pós-graduação e espaços de pesquisa. A presença aumentou, mas a cultura institucional não se transforma na mesma velocidade de uma política pública. É possível modificar quem entra sem modificar completamente as relações de poder encontradas por quem chegou.
Por isso, a experiência brasileira não está distante de Cambridge. A universidade pode celebrar a diversidade em campanhas institucionais enquanto mantém bibliografias onde intelectuais negros aparecem como exceção. Pode receber estudantes negros e continuar oferecendo poucas referências negras entre seus professores. Pode defender igualdade racial publicamente e conservar formas de reconhecimento intelectual nas quais determinados saberes, sotaques, repertórios e trajetórias continuam sendo tratados como naturalmente superiores.
A violência acadêmica possui uma particularidade: aprendeu a vestir formalidade. Nem toda exclusão precisa chegar acompanhada de uma ofensa racial. Ela pode estar na ideia ignorada numa reunião e valorizada quando reaparece na voz de outra pessoa, na surpresa diante de uma argumentação sofisticada, na cobrança desproporcional, na orientação que desencoraja, na banca que muda a régua conforme quem está sentado diante dela, na suspeita sobre a contratação e na necessidade permanente de explicar como alguém conseguiu chegar ali. Nenhum desses acontecimentos isolados parece suficiente para descrever uma estrutura. A repetição deles durante anos é capaz de produzir uma existência profissional inteira sob vigilância.
E isso adoece. Existe um custo psíquico em trabalhar enquanto se administra a própria legitimidade. Há diferença entre dedicar energia intelectual a uma pesquisa e precisar reservar parte dessa energia para interpretar o ambiente, antecipar preconceitos, escolher quando reagir, calcular as consequências de uma denúncia e decidir quais violências serão enfrentadas e quais precisarão ser engolidas para que seja possível continuar. O racismo acadêmico não precisa expulsar alguém fisicamente da universidade para cumprir sua função. Pode mantê lo dentro dela e consumir silenciosamente uma parcela de sua inteligência apenas para sobreviver ao lugar onde deveria ter liberdade para pensar.
Essa violência ganha outra dimensão quando a pessoa negra se torna excepcionalmente visível. Quanto maior a ascensão, maior pode ser a expectativa de exemplaridade. Surge a obrigação de representar uma coletividade inteira. O sucesso deixa de ser somente individual e o erro também. Poucas experiências são tão desumanizadoras quanto perceber que outras pessoas têm direito à banalidade enquanto você precisa transformar a própria vida numa demonstração permanente de competência.
Cambridge celebrou Jason Arday como o professor negro mais jovem de sua história. Essa formulação importa. A universidade não apresentou somente um professor. Sua negritude fazia parte do acontecimento institucional. Ela produzia significado, prestígio e uma narrativa de transformação. Por isso, existe uma questão ética incontornável quando instituições utilizam pessoas negras como símbolos de avanço: a responsabilidade não pode terminar na fotografia da contratação. Diversidade sem pertencimento corre o risco de transformar pessoas em peças de comunicação de estruturas que continuam despreparadas para protege-las quando a celebração termina.
O caso de Jason Arday não oferece uma história simples, e é justamente por isso que merece reflexão. Houve, segundo acadêmicos de Cambridge e familiares, ataques racistas e uma campanha de hostilidade que ultrapassou a crítica acadêmica. Há uma perversidade histórica em permitir que pessoas negras atravessem portas que permaneceram fechadas durante séculos e, depois da entrada, submetê-las a um regime permanente de comprovação. Primeiro se exige que sejamos excepcionais para chegar. Depois, exige se que continuemos excepcionais para permanecer. Finalmente, quando erramos, o erro é utilizado para confirmar a suspeita que existia antes mesmo de nossa chegada.
É por isso que a história de Jason Arday atravessa o oceano e encontra o Brasil com tanta facilidade. Ela nos obriga a abandonar a celebração confortável do acesso e observar aquilo que acontece depois. Uma universidade não se torna democrática porque pessoas negras conseguiram entrar. A transformação começa quando elas podem permanecer, produzir conhecimento, discordar, ensinar, ocupar poder, cometer erros, responder por eles e continuar sendo reconhecidas em sua humanidade sem enfrentar diariamente um exame secreto de merecimento.
Durante muito tempo, a pergunta brasileira foi como colocar pessoas negras dentro da universidade. Conseguimos produzir respostas importantes para isso. O nosso desafio agora é mais profundo: construir instituições nas quais atravessar o portão não signifique passar o restante da vida provando que tínhamos o direito de atravessá-lo.
Jason Arday chegou a Cambridge. Sua história expõe a distância brutal que ainda pode existir entre ser admitido e ser reconhecido como pertencente. O racismo institucional habita justamente essa distância. Ele já não precisa manter todas as portas fechadas. Em muitos casos, aprendeu a permitir a entrada e transferir a violência para aquilo que acontece depois dela.
A ciência do exercício mostra que grupo de verdade sustenta a prática melhor do que aula de academia. Os coletivos negros já sabiam disso sem precisar de metanálise.
A pergunta que eu mais escuto de quem quer começar a treinar em grupo é se pode ir sozinha. Vem quase sempre meio sem jeito, como quem pede licença: “eu vou sozinha mesmo, tudo bem?”
Tudo bem, e a minha resposta é sempre a mesma. Ir sozinha não é a mesma coisa que ficar sozinha depois que chega, e essa distância entre uma coisa e outra é justamente o que muda quando o coletivo foi pensado para a população negra. A pessoa atravessa a porta sem conhecer ninguém e, no fim do treino, já tem gente sabendo o nome dela e perguntando se ela volta na semana seguinte.
Algumas me contaram depois, quando já estavam à vontade, que tinham tentado academia antes e não conseguiram continuar. Os motivos que aparecem nessas conversas costumam ser bem concretos: mensalidade que pesa no orçamento, horário que não cabe na jornada, o trajeto de volta para casa no escuro, a sensação de estar num lugar onde não conhece ninguém e onde o corpo anunciado na parede não se parece com o seu. Nada disso é falta de disciplina, é a soma de coisas que tornam a permanência mais cara para umas pessoas do que para outras.
Eu venho defendendo há tempos que treino de força não é luxo estético, e sim construção de autonomia para os próximos trinta anos. Só que descobrir isso não resolve nada se a pessoa não conseguir permanecer, e é aí que essa conversa precisa mudar de lugar. O nosso problema com o exercício raramente é começar. É continuar.
A ciência do exercício tem uma resposta para isso, e ela é mais interessante do que parece. Uma metanálise clássica da área, feita por Burke e colegas, reuniu 44 estudos com mais de 4.500 participantes para comparar contextos de prática, e o resultado não foi simplesmente que em grupo é melhor do que sozinho. Foi mais fino: exercitar-se num grupo de verdade foi superior a fazer aula estruturada de academia, e a aula estruturada não se diferenciou de treinar em casa com algum contato. A adesão foi o desfecho mais beneficiado de todos.
A diferença está aí, nesse detalhe. Estar numa sala com trinta pessoas não é a mesma coisa que pertencer a um grupo, e uma aula em que as pessoas mal se conhecem tende a não entregar esse efeito. O que entrega é coesão, vínculo, gente que percebe quando você falta. A literatura da minha área chegou, por caminho técnico, numa coisa que a população negra pratica neste país há mais de quatrocentos anos.
O quilombo nunca foi só esconderijo. Em 1985, num texto publicado na revista Afrodiáspora, a historiadora Beatriz Nascimento fez um movimento que mudou o jeito de olhar para o tema: ela mostrou como o quilombo deixa de ser apenas uma instituição do período colonial e vira princípio ideológico, uma forma de resistência cultural que reaparece ao longo do século XX sempre que pessoas negras se organizam para construir junto o que não recebem separadas. Ela seguiu esse fio no documentário Ôrí, de 1989, dirigido por Raquel Gerber, em que narra e assina o roteiro, e onde trabalha também a ideia de corpo como território para quem teve a terra tirada. Alguns anos antes, em 1980, Abdias Nascimento já havia proposto o quilombismo como projeto político, e não como lembrança de museu.
Aquilombar-se, nessa leitura, é reunir-se para existir com mais folga do que se existiria sozinho. E é exatamente o que os coletivos negros de atividade física estão fazendo hoje.
E não sou eu quem está inventando essa ponte entre quilombo e saúde. Pesquisadoras e pesquisadores ligados à Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz publicaram, em 2023, uma revisão sobre o aquilombamento como ferramenta de resistência e de promoção de saúde da população negra. Eles partem do quilombismo de Abdias Nascimento e da leitura de Beatriz Nascimento para descrever o aquilombamento como um movimento que resgata saberes ancestrais, coletiviza dores e enfrenta o racismo estrutural, que a própria revisão trata como o principal determinante social de saúde da população negra. A conclusão vai além do que se costuma imaginar: além do aquilombamento que as pessoas negras já praticam como modo de vida, é preciso aquilombar também os currículos, as epistemologias científicas, os espaços e as políticas de atendimento à saúde.
Se dá para aquilombar um currículo e um serviço de saúde, dá para aquilombar um treino.
O Hip Hop Workout Collectivenasceu em 2025, criado por mim, pela Juliana Oliveira e pela Juliane Daianny. Começou com uma caixa de som e um sonho, numa salinha pequena, e foi virando espaço de acolhimento para mulheres negras e para pessoas LGBTQIAPN+. Não montamos aquilo lendo metanálise, montamos porque fazia falta.
Preciso ser honesta sobre o tamanho da evidência que estou usando. A metanálise que citei é de 2006, junta estudos bem diferentes entre si, e os próprios autores reconhecem essa limitação. Ela mostra adesão maior em grupos coesos, o que não é a mesma coisa que provar que qualquer coletivo funciona melhor que qualquer outro formato e, até onde eu sei, ninguém testou em ensaio clínico coletivos negros brasileiros. O que existe é convergência entre o achado da adesão, o que a gente observa na prática e o que a pesquisa qualitativa vem descrevendo.
Preciso abrir aqui um parêntese sobre as mulheres, porque tem uma camada que só aparece quando a gente separa. Uma revisão sistemática recente do Howard e do Bartholomew, publicada na PLOS Global Public Health, sintetizou dezoito estudos sobre barreiras e facilitadores à atividade física especificamente entre mulheres negras. É uma pesquisa americana, com pouco mais de 400 mulheres, e por isso não dá para transportar ao Brasil sem cuidado, mas os temas que aparecem são reconhecíveis demais para nós ignorarmos: motivação, suporte estruturado, saúde geral, ambiente, ideal de corpo e cabelo.
Numa revisão científica internacional, o cabelo aparece como barreira concreta à prática de exercício entre mulheres negras, porque o tempo e o dinheiro investidos nele são muito maiores do que os de outros grupos de mulheres. Suar significa refazer, e refazer custa hora e custa salário. Isso não é vaidade, é economia doméstica, e é o tipo de barreira que nenhum treino individualizado resolve, mas que um grupo de mulheres negras desata em cinco minutos de conversa, trocando o que funciona e normalizando chegar de trança, de turbante, de cabelo preso, do jeito que der. Por isso eu insisto que coletivo não é enfeite do treino, é parte do método.
Lélia Gonzalez escreveu, ainda nos anos 1980, sobre os lugares muito específicos que a cultura brasileira construiu para o corpo negro: o corpo que serve, que trabalha, que é consumido em determinadas datas do ano, sempre em função de outra pessoa. Quando a gente se reúne para treinar, o que está em disputa é justamente isso, o corpo negro deixando de ser instrumento e virando destinatário do próprio cuidado. E tem bell hooks, que em 1993 escreveu Irmãs do inhame, publicado no Brasil só em 2023. O detalhe que quase ninguém conta é que o livro não saiu da cabeça dela sozinha: nasceu de um grupo de apoio de mulheres negras que se reunia de fato e que dava nome à obra. O inhame do título vem de Toni Cade Bambara e carrega a ideia de sustentação da vida e de conexão diaspórica. Ou seja, o livro mais conhecido sobre autorrecuperação de mulheres negras foi ele próprio produzido dentro de um coletivo. Ela estava falando de saúde mental e de cura, não de agachamento, mas o princípio atravessa, já que é muito difícil se cuidar sozinho num mundo organizado para que você cuide de todo mundo menos de você.
Quando alguém me pergunta por que investir em coletivo em vez de simplesmente dar mais treino individual de graça, minha resposta é técnica antes de ser política. Adesão é o que determina resultado, e um treino excelente que a pessoa abandona em três semanas entrega menos do que um treino simples que ela mantém por três anos. O que segura alguém treinando não é a periodização perfeita, é ter gente esperando por ela.
Se você é negro e já desistiu de treinar mais de uma vez, eu queria que você considerasse a possibilidade de que o problema nunca foi você, e sim que você tentou sozinho uma coisa que funciona melhor acompanhado. Procura um coletivo em que você se reconheça, onde as pessoas se pareçam com você e a sua presença não precise ser justificada. Existem mais do que a gente imagina, e vale perguntar, pesquisar, ir uma vez só para sentir. E se não houver nenhum por perto, chama alguém para treinar com você, porque duas pessoas com dia marcado já mudam bastante a chance de continuar. Nós aprendemos há séculos que sozinho ninguém aguenta muito tempo, e isso nunca foi discurso bonito, foi estratégia de sobrevivência. Continua sendo, inclusive no treino.
Caroline Araujo Amorim é formada em Educação Física há oito anos, com pós graduação em ortopedia e reabilitação pelo Hospital Albert Einstein. Atleta de powerlifting, é cofundadora do Hip Hop Workout Collective e criadora do aplicativo APPCAH. Instagram: @carolinepersonall
Referências
BURKE, S. M.; CARRON, A. V.; EYS, M. A.; NTOUMANIS, N.; ESTABROOKS, P. A. Group versus individual approach? A meta-analysis of the effectiveness of interventions to promote physical activity. Sport and Exercise Psychology Review, v. 2, n. 1, p. 19-35, 2006.
HOWARD, S. L.; BARTHOLOMEW, J. B. Barriers and facilitators to physical activity among Black women: a qualitative systematic review and thematic synthesis. PLOS Global Public Health, v. 4, n. 12, e0003202, 2024. DOI: 10.1371/journal.pgph.0003202
MIRANDA, A. A. M. et al. Social inequalities in leisure-time and transport-related physical activity through the lens of intersectionality: 10-year longitudinal study in Brazil. International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity, v. 23, art. 64, 2026. DOI: 10.1186/s12966-026-01900-5
RIMOLI, T. M.; SANTOS, A. P. M. B.; PIRES, L. J. A.; MENDES, E. C. Aquilombamento como ferramenta de resistência e promoção de saúde da população negra. Revista de Saúde Coletiva da UEFS, v. 13, n. 2, e9284, 2023. DOI: 10.13102/rscdauefs.v13i2.9284
NASCIMENTO, Maria Beatriz. O conceito de quilombo e a resistência cultural negra. Afrodiáspora: Revista do Mundo Negro, Rio de Janeiro: IPEAFRO, n. 6-7, p. 41-49, 1985.
ÔRÍ. Direção: Raquel Gerber. Roteiro e narração: Beatriz Nascimento. Brasil, 1989. Documentário, 131 min.
NASCIMENTO, Abdias do. O Quilombismo: documentos de uma militância pan africanista. Petrópolis: Vozes, 1980.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: SILVA, Luiz Antônio Machado da (Org.). Movimentos sociais urbanos, minorias étnicas e outros estudos. Brasília: ANPOCS, 1984. (Ciências Sociais Hoje, 2), p. 223-244.
HOOKS, bell. Irmãs do inhame: mulheres negras e autorrecuperação. Tradução de floresta. Prefácio de Ynaê Lopes dos Santos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2023. [Original: Sisters of the Yam: Black Women and Self-Recovery. Boston: South End Press, 1993.]u
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