O verso de Djonga que se tornou um dos maiores gritos do movimento negro no Brasil

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O verso de Djonga que se tornou um dos maiores gritos do movimento negro no Brasil
Divulgação: Daniel Assis

Conheça a história do verso que saiu de BH e tomou os movimentos negros do Brasil.

Gustavo Pereira Marques, o Djonga, nasceu em 4 de junho de 1994 na Favela do Índio, em Belo Horizonte, e cresceu no bairro São Lucas, na região leste da capital mineira. Da periferia de uma cidade que nunca esteve no centro do rap nacional, ele construiu uma das obras mais politicamente densas da música brasileira contemporânea, com letras que cruzam identidade negra, crítica social e consciência histórica. É dele o verso que se tornou o grito antirracista mais repetido das últimas décadas no Brasil: “fogo nos racistas”.

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Por influência da família, tomou gosto por música desde cedo, tendo crescido ouvindo estilos variados, de Milton Nascimento aos Racionais MCs. Por volta de 2012, quando ainda se formava no Ensino Médio, Djonga começou a frequentar o Sarau Vira-Lata, evento de poesia de rua em Belo Horizonte, primeiro como ouvinte e depois como participante. O rapper Hot Apocalypse o convidou para montar um grupo, e a partir daí o caminho para o rap se abriu de vez. Antes de lançar qualquer álbum solo, ele integrou o coletivo DV Tribo e lançou o EP “Fechando o Corpo”, com sete faixas, em parceria com Coyote Beats. Foi também nesse período que Djonga cursou História na Universidade Federal de Ouro Preto, mas trancou a faculdade no último semestre para seguir a carreira musical, decisão que moldou tanto sua visão de mundo quanto a densidade das letras que viria a escrever.

Heresia e o começo de uma tradição

No dia 13 de março de 2017, Djonga lançou seu álbum de estreia, “Heresia”, com críticas sociais afiadas e mensagens de empoderamento negro. O disco foi aclamado pela crítica e rendeu uma indicação ao prêmio da APCA, a Associação Paulista de Críticos de Arte. Mais do que o reconhecimento imediato, o lançamento estabeleceu uma data que se tornaria marca registrada de sua carreira: o mês de março passou a ser o momento fixo de cada novo álbum, criando uma espécie de ritual anual entre o artista e seus fãs. 

Em 2018, exatamente um ano depois, Djonga voltou com “O Menino que Queria ser Deus”, aprofundando a reflexão sobre questões raciais, carreira e vida pessoal, com participações de Karol Conká e Sant. O disco foi eleito o 6º melhor álbum brasileiro de 2018 pela Rolling Stone Brasil. Em 2019, mantendo a tradição, 15 de março, lançou “Ladrão”, conceito inspirado em Robin Hood, seguido de “Histórias da Minha Área” em 2020, que retratava vivências de periferias de todo o Brasil.

Fogo nos Racistas

O verso “fogo nos racistas”, refrão do single “Olho de Tigre”, lançado em 2017, tornou-se um dos hinos da luta antirracista no Brasil, com versos afiados contra o racismo e o fascismo, e um chamado direto à juventude negra brasileira. A frase extrapolou o universo do rap e passou a ser repetida em manifestações, protestos nas ruas, redes sociais e debates públicos, funcionando como síntese de uma geração que recusou o silêncio diante do racismo estrutural. 

Foto: Ian Cheibub/Reuters

O Instituto Humanitas Unisinos analisou a dimensão do verso e concluiu que manifestações culturais como essa informam a legitimidade dos pleitos de uma nação e têm poder revolucionário. O próprio Djonga reconheceu, em declaração ao site Her Campus, que a frase superou qualquer intenção artística original: “Quando eu trouxe essa frase em ‘Olho de Tigre’, eu não sabia que ela se tornaria um dos gritos mais importantes da nossa geração. Nunca me apropriei dela como minha, inclusive por sentir que o caráter dela é maior que artístico.” 

Recordes e reconhecimento internacional

Em 2020, Djonga se tornou o primeiro brasileiro a receber uma indicação no BET Hip Hop Awards, na categoria de Melhor Artista Internacional, além de ter sido o primeiro rapper a entrar na lista Forbes Under 30. No mesmo ano, seu álbum “O Dono do Lugar” foi a 4ª maior estreia de rap da história do Spotify no Brasil e o 7º álbum mais ouvido no Spotify global. Nesse lançamento, Djonga quebrou pela primeira vez a tradição do 13 de março, escolhendo outubro para apresentar o trabalho ao mundo.

Em 32 anos, Gustavo construiu uma obra que conecta a periferia de Belo Horizonte ao debate racial global, com uma voz que não distingue palco de posicionamento político.

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