Estudo da UFMG revela 150 mil agressões contra pessoas em situação de rua em uma década. 78% das vítimas são pretas ou pardas. Entenda o que os dados revelam.
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O Brasil registrou 150 mil episódios de violência contra pessoas em situação de rua entre 2014 e 2023. Os dados são do estudo “A Cartografia Invisível: 10 anos de Violência contra a População em Situação de Rua”, produzido pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/UFMG) e divulgado pela Agência Brasil em junho de 2026. Mesmo com esse volume, os pesquisadores alertam que o número real é muito maior: 70% das vítimas nunca buscam atendimento após uma agressão, em grande parte por desconfiança das instituições e por experiências anteriores de discriminação, conforme explicou à Agência Brasil o professor André Luiz Freitas Dias, coordenador do observatório.
A cada dia, pelo menos 120 casos graves chegam ao sistema de saúde. Em 75% dessas ocorrências, as lesões exigiram intervenção médica aguda, e em 12% o desfecho foi trauma físico grave ou morte, segundo o mesmo levantamento. O ataque físico responde por 65% dos casos notificados, seguido pela violência psicológica, com 42%, pela negligência e abandono, com 18%, pela violência sexual, com 15%, e pela violência autoprovocada, com 10%.
Quem são as vítimas e por que isso não é acidente
Pretos e pardos respondem por 78% das notificações de violência contra a população em situação de rua, e jovens entre 15 e 49 anos concentram 82% do total de ataques, de acordo com os dados do OBPopRua/UFMG cruzados pelo Sinan e pelo Disque 100. O coordenador do estudo declarou à Agência Brasil que esse perfil não é coincidência: “A violência atinge de forma desproporcional jovens negros que vivem em espaços públicos, refletindo a combinação entre racismo estrutural, pobreza e exclusão social.”
Compreender por que a rua tem cor exige olhar para o que a abolição de 1888 não fez, e os números do OBPopRua/UFMG são a resposta mais direta a essa pergunta. A Lei Áurea tinha dois artigos e não previa indenização, acesso à terra, moradia ou qualquer política de inserção social para a população negra recém-liberta. A pesquisadora Shirley Pimentel, em entrevista publicada pelo Instituto Federal da Bahia, foi direta: “Não teve indenização, não teve acesso à terra, não teve acesso à escolarização. Foi uma liberdade falsa e sofremos até hoje as consequências dela, pois a cidadania efetiva da população negra ainda não ocorreu.” O portal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais registrou avaliação semelhante de especialista consultado pela instituição: “O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão e não implementou políticas de integração social após a abolição. Esse vazio institucional consolidou o que chamamos de racismo estrutural.” Os 78% de pretos e pardos entre as vítimas de violência nas ruas, registrados pelo OBPopRua/UFMG, são a medida concreta desse vazio.
A violência do Estado e a higienização urbana
Robson César Correia de Mendonça, presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, relatou à Agência Brasil que em São Paulo três pessoas em situação de rua são agredidas por dia, e que as agressões partem com frequência das próprias ações do poder público: “Eles são agredidos diariamente, seja nas ações da zeladoria ou sendo expulsos dos locais que escolhem para ficar.” O estudo do OBPopRua/UFMG confirma que a violência também ocorre dentro de instituições de acolhimento e abrigos, e que agentes do Estado praticam agressões principalmente durante ações de zeladoria e remoções. Pesquisa publicada pela revista Virtuajus da PUC Minas aponta que essas práticas têm como objetivo afastar corpos negros e empobrecidos das áreas centrais das cidades, reproduzindo o mesmo projeto que orientou as reformas urbanas do início do século XX, quando o chamado embelezamento das cidades significava, na prática, remoção de populações negras dos centros, conforme documentado pelo Jornal da USP.
Maioria homem, maioria negro, maioria invisível
A predominância masculina entre a população agredida nas ruas costuma ser lida como confirmação de um estigma sobre homens negros e pobres. O Projeto MAN, que pesquisa masculinidade e vulnerabilidade social, apresenta outra leitura: a noção de honra associada à masculinidade leva esses homens a resistirem a pedir ajuda, por acreditarem que admitir necessidade os tornaria menos homens, o que os afasta das redes de assistência antes que o colapso se torne irreversível.
Ao mesmo tempo, o estudo do OBPopRua/UFMG aponta que, embora a maioria das vítimas seja masculina, mulheres e pessoas trans em situação de rua enfrentam risco significativamente maior de sofrer agressões com consequências graves ou fatais. Fatores como deficiência, transtornos mentais e identidade de gênero ampliam ainda mais essa vulnerabilidade, especialmente nas formas de violência sexual e institucional, segundo os pesquisadores da UFMG à Agência Brasil.
Um ciclo que só cresce
As denúncias registradas no Disque 100 passaram de 12,5 mil em 2020 para 45,8 mil em 2023, de acordo com o OBPopRua/UFMG. Em estados como São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Ceará e Rio de Janeiro, os indicadores registram aceleração entre 127% e 206%. O pesquisador Freitas Dias concluiu à Agência Brasil que esse ciclo não será interrompido por ações de segurança pública isoladas: “Somente por meio de políticas públicas integradas e sustentáveis será possível interromper o ciclo de exclusão e violência que afeta milhares de pessoas em situação de rua em todo o país.” Mendonça, do Movimento de São Paulo, resumiu a raiz do problema em uma frase dita à Agência Brasil: “Ser pobre, negro e favelado no Brasil é ser visto como criminoso.”
Fontes consultadas
Agência Brasil, OBPopRua/UFMG, Instituto Federal da Bahia, Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Revista Virtuajus/PUC Minas, Jornal da USP, Projeto MAN
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