Após uma série de polêmicas ao longo do dia, Vinicius Jr.ficou em segundo lugar entre os melhores jogadores do mundo na Bola de Ouro, em cerimônia realizada nesta segunda-feira (28), organizada pela France Football, em Paris. O atacante do Real Madrid era o favorito ao troféu do primeiro lugar, mas o vencedor deste ano é o meio-campista Rodri, do Manchester City e da seleção espanhola.
Um levantamento feito pelo ge.globo, revela que na temporada de 2023/2024, em 49 jogos, Vini Jr. fez 26 gols e 11 assistências, enquanto Rodri, em 63 jogos, fez 12 gols e 14 assistências. Neste mesmo período, o brasileiro venceu o prêmio de melhor jogador da Champions League, e o espanhol venceu como melhor jogador da Eurocopa.
Em conquistas coletivas, Vini venceu a Champions League, o Campeonato Espanhol e a Supercopa da Espanha, enquanto o Rodri levou a Eurocopa, o Campeonato Inglês, a Supercopa da Europa e o Mundial de Clubes.
Durante o evento, o Real Madrid venceu o prêmio de melhor equipe masculina do ano e de melhor técnico de equipe masculina, com o Carlo Ancelotti. No entanto, ninguém compareceu para receber os troféus.
Nesta manhã, o jogador e o time espanhol optaram por não ir ao evento como forma de protesto em relação à não nomeação como melhor jogador do mundo, depois de uma temporada muito expressiva.
Para parte da imprensa internacional, o jogador Vini Jr. teria sido penalizado por suas manifestações públicas e seu enfrentamento direto a episódios de racismo, o que poderia ter influenciado negativamente sua avaliação junto aos votantes.
Lamine Yamal, 17, atacante do Barcelona e atual camisa 10 da seleção espanhola, foi eleito o melhor jogador sub-21 da temporada 2023/24, durante a premiação da Bola de Ouro, promovida pela France Football, nesta segunda-feira (28), em Paris. Ele se tornou o primeiro atleta a receber o Troféu Kopa com menos de 18 anos. A categoria premia jogadores de até 21 anos.
Na última temporada, somando os jogos pelo Barcelona e pela Espanha, o jovem de 17 anos atuou em 38 jogos, marcou 10 gols e 11 assistências.
O desempenho com a camisa da seleção espanhola, campeã da Eurocopa, foi decisivo para a premiação de Yamal. Ele também foi eleito o melhor jogador jovem do torneio e integrou a seleção da competição.
Outros novo jogadores também concorriam ao prêmio, entre eles, apenas um brasileiro, o atacante Savinho, que hoje joga pelo Manchester City, mas foi indicado pela sua temporada no Girona.
O atacante Vinicius Jr e o Real Madrid optaram por não comparecer à cerimônia de entrega da Bola de Ouro, promovida pela revista France Football, em Paris, nesta segunda-feira (30). A ausência do jogador brasileiro é interpretada por veículos internacionais, como o jornal espanhol Marca, como um protesto em relação à não nomeação de Vinicius Jr para o prêmio de melhor do mundo, apesar de sua temporada expressiva pelo clube espanhol.
De acordo com informações divulgadas pela imprensa espanhola, o vencedor deste ano será o meio-campista Rodri, do Manchester City e da seleção espanhola. A decisão de privilegiar o espanhol ao invés de Vinicius Jr gerou críticas e alimentou debates sobre justiça nas escolhas da premiação, especialmente considerando o desempenho do brasileiro, que marcou 24 gols na temporada 2023/2024 e teve um papel fundamental no Real Madrid.
Jornalistas e analistas esportivos levantaram ainda outro ponto sensível: a postura combativa de Vinicius Jr contra o racismo nos campos da Europa. Para parte da imprensa internacional, o jogador teria sido penalizado por suas manifestações públicas e seu enfrentamento direto a episódios de racismo, o que poderia ter influenciado negativamente sua avaliação junto aos votantes.
Desde 2007, quando Kaká recebeu o troféu, nenhum brasileiro venceu a premiação da France Football. E, antes de Kaká, o último jogador negro a conquistar o título de melhor do mundo foi Ronaldinho Gaúcho, em 2006. O caso de Vinicius Jr reacende discussões sobre os critérios adotados na escolha do vencedor, bem como o papel da postura extracampo no reconhecimento de atletas que se destacam em campanhas pela igualdade racial e justiça social no esporte.
A cerimônia da Bola de Ouro acontecerá na capital francesa na noite de hoje, mas a ausência de um dos jogadores mais comentados da última temporada parece já antecipar o tom de insatisfação que ronda o evento.
Imagem 1 -Ìyálòrìṣà Neuza Cruz do Terreiro da Casa Branca em Salvador_ Frame do filme O Corpo da Terra da cineasta Day Rodrigues
No dia 5 de novembro, o Sesc Pompeia, na Zona Oeste de São Paulo, sediará um evento gratuito em homenagem aos 40 anos do tombamento do Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho, localizado em Salvador, Bahia, e reconhecido como o primeiro Monumento Negro do país pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) desde 1984. Fundado no século XIX, o Ilé Àṣẹ Ìyá Nasò Ọka é o primeiro terreiro estruturado para o culto aos Òrìṣà no Brasil e um marco na preservação e difusão das tradições afro-brasileiras.
O evento contará com a participação da Ìyálòrìṣà Neuza Cruz e da Èkejì Sinha, ambas ligadas à Casa Branca, e falas de personalidades como o Bàbálòrìṣà Alabiy Ifakoya, o Bàbá Gill Ominirò, da Ìwé Ìmọ e da Ẹgbẹ Ominirò Láàlú àti Ọ̀ ṣùn e o advogado e fundador do JusRacial, Dr. Hédio Silva Jr., além da arquiteta Gabriela de Matos, que abordará o impacto arquitetônico do terreiro como precursor na construção afro-brasileira. A mediação será da Ìyálòrìṣà Luciana de Ọya, e haverá uma performance de dança dedicada a Ṣàngó, com a bailarina Cibelle de Paula.
Outro destaque da celebração é o curta “O corpo da terra”, de Day Rodrigues, que aborda a relação entre o solo sagrado e a preservação ambiental. A cineasta explora a simbologia e as tradições do candomblé na defesa da natureza, destacando que, “sem folha não há orixá”. O filme foi exibido na Bienal de Veneza e propõe um olhar crítico para a continuidade do candomblé e a construção da identidade cultural brasileira.
“A celebração é essencial para solidificar a cultura afro-brasileira como patrimônio protegido pelo Estado”, ressalta o antropólogo Bàbá Gill Ominirò, enfatizando a importância de homenagens a essa história em outras capitais. Segundo ele, o tombamento da Casa Branca foi “um passo fundamental para o reconhecimento de um processo cultural negligenciado por séculos no Brasil”.
Apesar do reconhecimento institucional, o Terreiro enfrenta dificuldades. Para Bàbá Gill, “a violência institucional e a especulação imobiliária são problemas frequentes”. Um exemplo recente foi a demolição de uma construção que ameaçava o espaço sagrado, um processo conquistado após intensa mobilização com a participação de órgãos públicos e defensores do patrimônio.
Imagem – Festa de Oxóssi em 1985 Acervo Terreiro da Casa Branca
A Casa Branca também inspira o campo da arquitetura afro-brasileira, sendo modelo para outros terreiros e tema da exposição “Terra”, que recebeu o Leão de Ouro na Bienal de Veneza deste ano, com curadoria dos arquitetos Gabriela de Matos e Paulo Tavares. Para Matos, “o mato faz parte da espacialidade dos terreiros, conectando a arquitetura à terra e à espiritualidade”.
Serviço: O quê: homenagem ao Ilé Àṣẹ Ìyá Nasò Ọka (Terreiro da Casa Branca) pelos 40 anos de tombamento pelo IPHAN Quando: 05 de novembro de 2024, a partir das 19h30 Onde: Sesc Pompeia. R. Clélia, 93 – Água Branca, São Paulo, SP. Quanto: Grátis, ingressos: meia hora antes
O antropólogo Dagoberto José Fonseca, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), foi empossado no dia 24 de outubro como membro correspondente da Academia Angolana de Letras (AAL). A honraria reconhece sua extensa trajetória de pesquisa e cooperação com Angola, uma relação que Fonseca iniciou há mais de duas décadas.
Durante uma videoconferência organizada pela AAL, com o tema “Angola e Brasil: irmãos d’além mar”, Fonseca destacou a irmandade cultural entre os dois países. “Os escravizados trouxeram para o Brasil a cultura e a tradição dos reinos Ndongo e da Matamba, tornando-nos povos irmanados por valores civilizatórios”, afirmou.
“Para além das similitudes na forma de pensar, de falar e de sorrir e da proximidade culinária, dança e música, há também entre nós processos políticos similares”, pontuou o antropólogo que possui uma carreira dedicada ao fortalecimento das relações entre Brasil e Angola desde 2002, quando a Universidade Agostinho Neto, maior instituição de ensino superior do país africano, buscou a colaboração da Unesp para apoiar a reconstrução nacional no período pós-guerra.
A nomeação o coloca ao lado de grandes nomes da literatura e da intelectualidade angolana, como David Capelenguela e Amélia da Lomba. Além de Fonseca, a economista Sônia Jorge também será empossada pela Academia Angolana de Letras (AAL).
O Afro Fashion Day (AFD) deve celebrar uma edição histórica que marca os dez anos do evento e oficializa o início do Novembro Negro em Salvador. Com o tema “Música – Resgatando raízes e elevando vozes”, o evento acontece no o dia 1º de novembro, na Praça 2 de Julho, no Campo Grande, que será transformada em um espaço dedicado à moda, cultura e música negra, com atividades a partir das 11h e um desfile programado para as 18h.
Com o título de maior evento de moda negra do país, o AFD deste ano apresenta uma estrutura inédita. O palco, com 13 metros de largura, conta com uma passarela de 75 metros de extensão. “Como o tema deste ano está relacionado à música, pensamos em criar uma passarela de desfile que surgisse de dentro da boca de cena de um grande palco. Músicos e modelos compartilharão os mesmos espaços de apresentação, oferecendo um espetáculo dinâmico para o público do AFD”, explica Sandra Mazzoni, da GMF Arquitetos.
O evento promete surpreender com o tema “Música – Resgatando raízes e elevando vozes”, dividido em três blocos: Percussão Ancestral, Festiva e Contemporânea. Cerca de oito mil pessoas são esperadas para acompanhar as atividades, que incluem oficinas de música e moda, feira e exposições. Um destaque especial será o abraço simbólico ao Monumento ao 2 de Julho durante o ato final do desfile, homenageando a luta pela Independência do Brasil.
Peter Silva em desfile para a marca João pimenta | Foto: Reprodução/Instagram
Destaque nos desfiles de oito marcas que exibiram suas coleções durante a São Paulo Fashion Week, que aconteceu entre os dias 16 e 20 de outubro na capital paulista, o modelo paulistano Peter Silva, de 22 anos, foi o terceiro no ranking de presença nas passarelas do evento, onde representou marcas como Ateliê Mão de Mãe, Dendezeiro, João Pimenta, Silvério, LED, Martins, Bold Strap e Normando.
Peter Silva desfilando para a Ateliê Mão de Mãe
Antes de chegar às passarelas, Silva trabalhava como ajudante de pedreiro, instalando bueiros em loteamentos residenciais. A virada em sua vida veio em 2020, quando venceu o concurso The Look of The Year, uma das competições de modelos mais prestigiadas do país, e assinou com a agência JOY Model.
Desde então, sua carreira ganhou impulso. Além de se destacar nos desfiles da SPFW, Peter Silva estrelou campanhas para grandes marcas e editoriais de moda, incluindo a versão internacional da revista Vogue. Seu nome tem atraído cada vez mais a atenção de agências e marcas estrangeiras, que enxergam no modelo uma nova promessa para o mercado fashion.
O melhor e maior presente que uma criança pode e deve receber é que o seu direito de ser e existir como criança seja respeitado e praticado em todos os espaços. Um estudo sobre os traumas psicológicos na primeira infância e o desenvolvimento de transtornos mentais na vida adulta foi usado como mote para este texto.
Um trecho que vale ressaltar diz que os cuidados primários são essenciais para a estruturação psíquica e a aquisição de habilidades de regulação afetiva, capacidade reflexiva e autonomia. Vale lembrar que crianças se tornaram adultos e que traumas praticados na infância podem causar transtornos mentais, como mostra o artigo, publicado no portal da Atena Editora.
Os dados de crianças com depressão e transtorno de ansiedade têm crescido e o impacto dessa realidade afeta principalmente lares de crianças negras e famílias de baixa renda. Não é a primeira vez que falo aqui sobre saúde mental, mas noto a importância de focarmos na infância, para que em um futuro próximo essa pauta não tenha o peso que tem neste momento.
Quando uma criança se torna vítima de agressão, preconceito, violência física ou psicológica na primeira infância — que vai do zero aos seis anos de idade — por ser diferente do que a sociedade entende como normativo, ela está acometida ao sofrimento solitário e contínuo, uma vez que a sociedade não faz um movimento na base para discutir sobre o assunto e principalmente sobre a diversidade.
A escola, por exemplo, é o lugar que deveria ser referência na temática, mas, vejamos: a escola é a extensão da sociedade e com isso é também lá que se reproduzem comportamentos vivenciados nos lares. Crianças repetem padrões que evidenciam o contexto histórico do país, que não está aberto para conviver com outras maneiras de ser e existir — estamos falando de crianças criadas por mães solo, negras, indígenas, frutos de relacionamentos homoafetivos, neurodivergentes ou com algum tipo de deficiência física.
Quando entendermos que todos têm direitos iguais perante a lei, as práticas nos meios serão condizentes com a pluralidade dos indivíduos que fazem parte dela. Ensinar aos futuros adultos — que por sua vez não nasceram racistas ou preconceituosos — que somos diversos e que isso só nos enriquece, fará com que a sociedade se aceite em sua totalidade.
O preconceito, seja ele de raça, religião, gênero ou orientação sexual, na infância ainda é um tabu, tanto nas famílias quanto nas escolas. O impacto desse comportamento excludente e a falta de ações que solucionem estas demandas expõem as crianças a um risco da arquitetura cerebral com consequências como o transtorno do sono, irritabilidade, desenvolvimento do medo e piora da imunidade, conforme exemplifica o estudo sobre primeira infância e negritude do Centro de Liderança Pública (CPL) que se refere a crianças negras que são acometidas ao racismo.
Os relatos das famílias e de seus filhos que sofrem discriminação evidenciam que quem educa está potencializando as diferenças de maneira negativa e que esse tipo de comportamento não será mais tolerado. Hoje, há escolas, principalmente as particulares que têm predominância de alunos brancos (por conta da estrutura desigual), redesenhando as narrativas do convívio social, com o ingresso de alunos negros e o posicionamento dos pais, porém os fatos decorrentes nos sinalizam que ainda há muito que fazer. Lembrem-se: toda criança e adolescente é um sujeito de direitos, em condição peculiar de desenvolvimento, e demanda proteção integral e prioritária por parte da família, da sociedade e do Estado. Isso é garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei Federal N° 8.069, de 13 de julho de 1990, regulamentada no artigo 227 da Constituição Federal.
Milhares de pacientes enfrentam atrasos para obter diagnóstico de câncer de mama no Brasil. Apesar da Lei dos 30 dias, que exige que usuários do SUS realizem exames em até 30 dias após a suspeita de câncer, ao menos 87,4 mil mulheres passaram desse prazo entre 2020 e 2024. De acordo com uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo, apenas em 2024, 39% dos procedimentos para diagnóstico não cumpriram o prazo legal, segundo dados do DataSUS.
A lei de 2019 veio complementar outra legislação de 2013, e determina que o Sistema Único de Saúde (SUS) deve iniciar o tratamento de pacientes com câncer em até 60 dias. Santa Catarina teve 36% dos exames de biópsia fora do prazo legal em 2024. O Amazonas apresentou o pior índice, com 81% dos exames realizados fora dos 30 dias previstos. O Rio Grande do Sul foi o estado com melhor desempenho, com 9% de exames atrasados.
A Secretaria de Saúde de Santa Catarina contestou os números, afirmando que apenas 12 dos 2.552 exames realizados em 2024 ultrapassaram o prazo. Já o Ministério da Saúde informou que tem adotado medidas para reduzir as filas de espera e melhorar o acesso a exames e tratamentos, como o Plano Nacional de Redução de Filas e o Programa Mais Acesso a Especialistas.
Para a psicóloga oncológica Luciana Holtz, do Instituto Oncoguia, a espera por diagnósticos no SUS é uma questão que envolve diversas etapas, desde consultas com especialistas até a realização de exames como mamografia e ultrassonografia. “As pacientes estão perdendo a chance de um tratamento mais eficaz. Quando finalmente chegam à consulta, o que poderia ser o primeiro passo vira o décimo”, lamenta.
A nova coleção da marca baiana resgata a essência sertaneja com cores vibrantes, técnicas artesanais e uma estética que exalta a força e a beleza do nordeste brasileiro.
Texto: Rodrigo França
A coleção “BRASILIANO: Filhos do Sol”, da Dendezeiro, é uma ode ao sertão brasileiro, uma terra de resistência, calor e histórias centenárias que se entrelaçam com a modernidade e a inovação. A passarela da SPFW foi tomada por uma celebração vibrante da moda regional, onde o streetwear encontra a alfaiataria em um diálogo que honra a tradição enquanto desafia o conservadorismo estético. Sob a direção criativa de Hisan Silva e Pedro Batalha, a marca baiana trouxe à tona a força do sertão, ressignificando o espaço árido como um solo fértil de criações inéditas e narrativas de força e superação.
Dendezeiro na SPFW N58. (Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite)
Em termos técnicos, a coleção se destacou pelo uso de tecidos de fibras naturais, uma escolha consciente que vai além da estética, reafirmando o compromisso com a sustentabilidade e com o respeito à matéria-prima local. A utilização de trançados de palha e miçangas, executados por artesãos da região, foi um aceno ao trabalho manual, elemento essencial na construção de uma moda genuinamente brasileira e artesanal – arte. As modelagens apresentaram cortes amplos e estruturas fluidas, remetendo à leveza necessária para enfrentar o calor sertanejo.
Dendezeiro na SPFW N58. (Foto: Marcelo Soubhia/@agfotosite)
Os looks da “BRASILIANO: Filhos do Sol” não se limitaram a reproduzir símbolos óbvios do sertão, mas criaram uma nova iconografia a partir de detalhes que evocam memórias afetivas e cotidianas. As estampas foram inspiradas na fauna e flora do sertão, presentes em peças que variaram de conjuntos de alfaiataria reinterpretados a vestidos, todos marcados por uma paleta terrosa que ia do marrom profundo ao bege suave, passando por tons quentes de vermelho e laranja, símbolos da conexão visceral com a terra. Em paralelo, o preto surgiu como um elemento de contraste, trazendo profundidade e uma dose de sobriedade aos conjuntos.
A poesia da coleção residiu não apenas nas referências literárias a obras como Vidas Secas, de Graciliano Ramos, mas na narrativa visual que se apresentou na passarela. O desfile foi, em si, uma espécie de cordel moderno, onde cada peça era um verso e cada modelo, um contador de histórias.
Dendezeiro na SPFW N58 (Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite)
O uso de técnicas como o tingimento natural, o bordado manual e o crochê agregaram texturas únicas às peças, trazendo para a moda uma dimensão tátil que convida ao toque e à exploração dos sentidos. As miçangas e palhas trançadas surgiram como ornamentos, mas também como agentes narrativos, carregando consigo histórias de gerações. Essas técnicas destacam a identidade visual da marca, conhecida por inserir elementos de cultura popular brasileira de maneira refinada e contemporânea. Ao misturar a alfaiataria clássica com o streetwear despojado, a Dendezeiro conseguiu traduzir a complexidade do sertão em roupas que são ao mesmo tempo atemporais e contemporâneas, prontas para ocupar espaços urbanos sem perder o vínculo com a origem.
O desfile foi um verdadeiro espetáculo de identidade e potência cultural. As peças apresentadas na SPFW não foram apenas roupas; foram manifestos visuais, gritos de resistência, em um mundo que ainda tenta silenciar as vozes vindas do sertão. Os filhos do sol, como os carcarás mencionados na descrição da coleção, não voam apenas com fome de conquista, mas com a sede de espalhar a verdade do sertão pelo mundo. A moda, aqui, é mais do que estética: é instrumento de voz, de representatividade e de afirmação cultural.
Dendezeiro na SPFW N58. (Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite)
A marca não apenas mostra o sertão, mas nos convida a senti-lo, a vestir suas histórias e a carregar no corpo a força de um povo que, debaixo do sol inclemente, jamais deixa de florescer. Assim, “BRASILIANO: Filhos do Sol” não é apenas uma coleção; é uma canção, uma jornada e, acima de tudo, uma declaração de amor à terra que, mesmo seca, é berço de uma criatividade sem fim.
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