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Gilberto Gil chora ao lembrar morte da filha no documentário ‘Preta Gil: eu não ando só’

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Gilberto Gil e Preta Gil
Foto: Reprodução/Instagram

No próximo dia 20 de julho, data que marca um ano do falecimento de Preta Gil, a TV Globo estreia o documentário “Preta Gil: eu não ando só” após a novela das nove, ‘Quem Ama Cuida’. A produção reúne imagens inéditas da artista e depoimentos de amigos e familiares e revelou uma trecho comovente do Gilberto Gil chorando ao comentar a morte da filha.

Quando ela morreu, quando ela teve que ir embora, o mundo disse: ‘puxa, vida’. Minha menina foi embora. Tenho muita saudade dela“, diz o músico emocionado.

O filme ainda deriva a série documental de quatro episódios “Meu nome é Preta”, que também estreia no dia 20, na plataforma do Globoplay. “Não dá para não passar por tudo que estou passando e não registrar para ajudar pessoas, abrir debates”, disse a artista pouco tempo antes de falecer, quando decidiu que gostaria de fazer um documentário para relatar seu tratamento contra o câncer no intestino.

Amiga de longa data da família, a apresentadora Regina Casé também participa do documentário. Em depoimento, ela ressalta o humor constante de Preta: “Ela não perdeu o bom humor em nenhum momento“. Nas imagens, a artista aparece rindo ao comentar o visual em estampa de onça escolhido durante o tratamento: “Estou fazendo um tratamento contra o câncer no intestino, mas sigo fashion“.

Relembre trajetória de Preta Gil na luta contra o câncer

Preta havia sido diagnosticada com um tumor em janeiro de 2023 com adenocarcinoma e passou por exames e cirurgias no Brasil antes de buscar tratamento nos Estados Unidos. Ao longo de dois anos, submeteu-se a cirurgias, quimioterapia e radioterapia. Em determinado momento a doença chegou a ser anunciada em remissão, mas, em agosto de 2024, a artista informou que o câncer havia retornado em diferentes partes do corpo: dois tumores nos linfonodos, um nódulo no ureter e metástase no peritônio.

Em agosto de 2024, Preta comemorou seus 50 anos com uma festa para cerca de 700 convidados no Rio, que teve shows do Psirico e de Ludmilla. Na ocasião, lançou a autobiografia “Preta Gil: os primeiros 50” (Globo Livros), em que narra a batalha contra a doença e relata o fim do casamento de oito anos com o produtor Rodrigo Godoy, em 2023, após descobrir uma traição ocorrida enquanto ela se tratava.

Em dezembro do mesmo ano, a cantora passou por uma cirurgia extensa — que durou mais de 18 horas — para retirada dos tumores. Em maio de 2025, viajou aos Estados Unidos para um tratamento considerado inovador, acompanhada por amigos e familiares que se revezaram no apoio. Na ocasião, afirmou: “Sou grata por passar por tudo isso podendo me tratar com dignidade. Entro em uma fase difícil. No Brasil, já fizemos tudo que podíamos, agora a minha chance de cura está no exterior.

Cerca de dois meses depois, Preta não resistiu e faleceu em decorrência do câncer.

Idosa resgatada no Ceará após 55 anos de trabalho análogo à escravidão era chamada de “mãe preta” pela família 

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Trabalhadora doméstica resgatada após 55 anos no Ceará sendo representada por imagem gerada por IA
Imagem gerada por IA

Trabalhadora começou a realizar serviços domésticos aos 7 anos, sem acesso à escola, salário mensal ou descanso; uma das empregadoras foi exonerada de cargo público.

Meses antes de uma trabalhadora doméstica negra, de 62 anos, ser resgatada de uma situação de trabalho análogo à escravidão no Ceará, uma publicação nas redes sociais da família para a qual ela trabalhava a chamava de “nossa mãe preta”.

“Parabéns para a nossa mãe preta, aquela que Deus enviou como um anjo em nossas vidas”, dizia parte da mensagem. A publicação também apresentava a trabalhadora como exemplo de amor materno incondicional.

O discurso público de afeto contrasta com as condições identificadas pela Auditoria-Fiscal do Trabalho. Segundo a fiscalização, a mulher começou a executar serviços domésticos aos 7 anos, não teve acesso à educação formal, trabalhou sem receber salário mensal e permaneceu em situação de dependência econômica durante mais de cinco décadas.

A expressão “mãe preta” remete a uma construção histórica originada no período escravista, quando mulheres negras eram responsabilizadas pelo cuidado e, em muitos casos, pela amamentação dos filhos de famílias brancas. No caso investigado no Ceará, o termo aparecia associado a uma narrativa de pertencimento familiar que, conforme os auditores, não se transformou em acesso aos mesmos direitos, oportunidades e condições de vida dos demais integrantes da casa.

Trabalho doméstico começou aos 7 anos

A história teve início em 1971, quando a trabalhadora chegou, ao lado da irmã, à residência da primeira geração da família. Enquanto as crianças da casa frequentavam a escola, as duas meninas realizavam atividades domésticas e permaneciam sem acesso à educação formal.

Em 1982, a trabalhadora passou a morar com uma das filhas da primeira empregadora. Na nova residência, ficou responsável pelos serviços domésticos e pela criação dos três filhos do casal.

Já em 2014, ela foi levada para a casa da geração seguinte da mesma família, no município de Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza. A partir daquele período, passou a acumular a limpeza e a organização da residência com o cuidado diário de duas crianças.

No momento da fiscalização, a jornada começava por volta das 4h30. A trabalhadora preparava refeições, limpava a casa e organizava a rotina das crianças, de 7 e 11 anos. As atividades continuavam mesmo ela sendo hipertensa e apresentando episódios recorrentes de mal-estar em momentos de estresse.

Benefício social era administrado pela empregadora

Durante as cinco décadas de trabalho, a mulher não recebeu salário mensal nem conquistou autonomia financeira. Ela também permaneceu sem oportunidades educacionais e sem a possibilidade de constituir patrimônio próprio.

A trabalhadora estava inscrita no Cadastro Único e recebia R$ 600 mensais do Bolsa Família. Segundo a fiscalização, os procedimentos para retirada do benefício eram intermediados pela empregadora.

Empregadora foi exonerada de cargo público

Zaamarah Alencar Brasil Andrade, integrante da terceira geração da família e uma das empregadoras mais recentes da trabalhadora, foi exonerada do cargo comissionado de assessora técnica da Secretaria Municipal da Conservação e Serviços Públicos de Fortaleza.

A exoneração foi assinada pelo prefeito Evandro Leitão e publicada no Diário Oficial do Município na quarta-feira, 8 de julho. Zaamarah ocupava o cargo desde março de 2017. Ela e outros cinco familiares assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta com o MPT. 

A Auditoria-Fiscal concluiu que a ausência de remuneração, a dependência econômica e a permanência no mesmo núcleo familiar desde a infância caracterizavam uma grave violação da dignidade da trabalhadora e uma situação de trabalho análogo à escravidão. A operação foi concluída em 2 de julho, com participação do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), do Ministério Público do Trabalho (MPT), da Polícia Federal e da equipe psicossocial do Centro de Referência em Direitos Humanos do Ceará.

Direitos trabalhistas ultrapassam R$ 1,5 milhão

Os empregadores reconheceram o vínculo profissional apenas a partir de 21 de julho de 2014, período correspondente à residência da terceira geração da família.

A Auditoria-Fiscal concluiu que a ausência de remuneração, a dependência econômica e a permanência no mesmo núcleo familiar desde a infância caracterizavam uma grave violação da dignidade da trabalhadora e uma situação de trabalho análogo à escravidão, e calculou que os direitos relativos aos 55 anos de trabalho da idosa, somados aos salários não pagos, férias, 13º salários, FGTS, verbas rescisórias e horas extras decorrentes da ausência de descanso semanal, ultrapassam R$ 1,5 milhão em créditos trabalhistas.

O TAC determina o pagamento de R$ 50 mil em verbas rescisórias e indenizatórias, além da aquisição de um imóvel mobiliado para a trabalhadora, no valor mínimo de R$ 150 mil. A família também deverá custear as contribuições previdenciárias até que ela consiga se aposentar.

O acordo não representa a quitação integral dos direitos estimados pela fiscalização. A trabalhadora ainda poderá recorrer à Justiça para cobrar outros valores e indenizações.

Em nota, a defesa da família negou as acusações e afirmou que havia uma relação de “convivência, cuidado e afeto”. Também declarou que a trabalhadora teria recebido remuneração, férias, plano de saúde e contribuições previdenciárias. As alegações deverão ser analisadas pelas autoridades responsáveis.

Mbappé: uma trajetória marcada por consciência e posicionamento

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Foto: reprodução/ Route One Football

Conheça a trajetória de Kylian Mbappé, craque que une performance dentro de campo a posicionamentos raciais e políticos fora dele.

Kylian Mbappé concedeu, em maio deste ano, uma entrevista à revista Vanity Fair na qual resumiu a lógica que orienta seus posicionamentos públicos há mais de uma década. “Antes de tudo, você é um cidadão. Não estamos desconectados do mundo”, disse o atacante do Real Madrid, ao explicar por que não separa sua carreira esportiva das disputas políticas e sociais que atravessam o futebol francês. Na mesma conversa, tratou da ascensão da extrema direita no país com a mesma franqueza que costuma reservar para assuntos dentro de campo, classificando o cenário político francês como catastrófico. A frase não nasceu naquela entrevista. Ela resume um padrão de comportamento que remonta à infância do jogador e segue ativo em cada temporada, dos protestos contra patrocinadores de apostas às respostas diretas a episódios de racismo dentro e fora de campo.

Nascido em Bondy, periferia de Paris, filho de um técnico de futebol camaronês com uma ex-jogadora de handebol de origem argelina, Mbappé cresceu num bairro que descreveu, anos depois, em um artigo de próprio punho publicado no Player’s Tribune. “Nosso bairro é um caldeirão incrível de culturas diferentes, francesa, africana, asiática, árabe”, escreveu, ao rebater a forma como a periferia parisiense costuma ser retratada pela imprensa, associada quase sempre à criminalidade e nunca à diversidade que, segundo ele, moldou seu próprio caráter. Ainda aos 12 anos, em uma entrevista concedida em 2011, o garoto que sonhava em jogar pela seleção principal já enunciava a leitura que faria da própria trajetória: “na história, os melhores jogadores foram negros e árabes, além de Platini e Cantona”. A frase, resgatada nos últimos anos e amplamente compartilhada nas redes sociais, antecipa em mais de uma década o debate que o próprio Mbappé enfrentaria como titular da seleção, quando sua nacionalidade francesa passou a ser publicamente questionada por setores da extrema direita europeia, entre eles a própria Marine Le Pen.

O primeiro momento de exposição pública mais dura veio ainda jovem, na Eurocopa de 2020, quando Mbappé desperdiçou um pênalti decisivo diante da Suíça, nas oitavas de final, e se tornou alvo de uma onda de ataques racistas nas redes sociais. Chegou a cogitar deixar a seleção francesa naquele período, decisão da qual recuou pelo apego que sente à camisa do país, mas o episódio marcou o início de uma relação mais desconfiada entre o jogador e parte da torcida que o acompanha.

A partir de 2022, a resistência do atacante passou a ganhar contornos mais organizados e coletivos. Às vésperas da Copa do Catar, ele se recusou a participar de uma sessão de fotos promocionais da Federação Francesa de Futebol, recusa que envolvia diretamente patrocinadores ligados a redes de fast-food e casas de apostas esportivas, sob a justificativa de que certas marcas não deveriam estar associadas à imagem dos jogadores. O impasse resultou, em 2023, em um acordo coletivo entre elenco e federação para revisar os termos de uso de imagem, negociação que Mbappé liderou ao lado de companheiros de seleção. A pauta voltou à tona no fim de 2024, quando o atacante detalhou, em entrevista ao Canal+, a origem da sua resistência ao setor de apostas: “Alguns de nós vêm de bairros onde isso destrói inúmeras pessoas”, disse, relacionando a posição pessoal às experiências que presenciou na própria comunidade onde cresceu. Em junho de 2026, já durante a preparação para a Copa do Mundo, o atrito se repetiu quando a Federação Francesa reutilizou imagens de Mbappé e de outros jogadores em uma campanha publicitária de apostas sem autorização prévia, reacendendo a tensão entre o elenco e a entidade.

Em 2024, com a ascensão eleitoral da Reunião Nacional, partido de extrema direita liderado por Marine Le Pen, que chegou a despontar como favorito nas pesquisas antes de perder a maioria no segundo turno das eleições legislativas, Mbappé se posicionou publicamente contra o avanço do partido, pedindo que a população francesa votasse no lado correto da disputa. Le Pen respondeu dizendo que o jogador não representaria os franceses com histórico de imigração e que parte do eleitorado estaria cansada de ouvir sermões de milionários. A crítica não fez Mbappé recuar do posicionamento.

Em fevereiro deste ano, o atacante saiu publicamente em defesa do companheiro de time Vinicius Júnior, depois de o brasileiro denunciar ter sido chamado de macaco pelo menos cinco vezes pelo jogador do Benfica Gianluca Prestianni, durante partida de Champions League. Em entrevista à TNT Sports, Mbappé descreveu o que havia presenciado em campo com precisão: “no momento de tensão, o camisa 25 do Benfica usou palavras inaceitáveis”. Meses depois, em julho de 2026, já durante a Copa do Mundo, o próprio Mbappé foi alvo de ataques racistas feitos pela senadora paraguaia Celeste Amarilla, após a eliminação do Paraguai para a França no torneio, e respondeu classificando a parlamentar como “uma mulher desprezível e indigna do seu cargo”.

O conjunto desses episódios, que atravessa mais de uma década de carreira, do menino que aos 12 anos já refletia sobre raça e nacionalidade dentro do futebol francês ao homem que hoje enfrenta publicamente senadoras, federações e líderes de extrema direita, desenha o perfil de um atleta que raramente separa o desempenho em campo da forma como se posiciona fora dele. Enquanto boa parte dos grandes nomes do futebol evita comentar temas sensíveis por receio de desgaste comercial, Mbappé segue optando, repetidamente, pelo caminho contrário.

Silêncio de Messi após ataque racista envolvendo torcedores argentinos repercute

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Fotos: Luciano Bisbal/Eurasia Sport Images/Getty Images

Fifa investiga ataque racista de torcedores argentinos contra o influenciador IShowSpeed na Copa, enquanto Messi segue sem se manifestar sobre o caso.

A Fifa investiga, desde o início de julho, ataques racistas cometidos por torcedores argentinos contra o influenciador americano IShowSpeed durante a Copa do Mundo de 2026. O episódio aconteceu em 3 de julho, no Hard Rock Stadium, em Miami, durante a vitória da Argentina sobre Cabo Verde por 3 a 2. O criador de conteúdo, que acompanhava a partida vestindo a camisa da seleção cabo-verdiana, foi hostilizado por torcedores argentinos, alguns dos quais teriam imitado um macaco em sua direção. A entidade abriu investigação formal e afirmou que esse tipo de comportamento não tem lugar no futebol, mas ainda não divulgou prazo de conclusão nem informou se os torcedores envolvidos foram identificados.

Lionel Messi, capitão da seleção argentina e maior artilheiro da história das Copas do Mundo, não se pronunciou sobre o episódio até o momento. O silêncio ganha peso diante do lugar que ele ocupa neste torneio, ovacionado a cada cidade que a Argentina visita e citado como o principal nome do futebol mundial em disputa pelo título. Enquanto astros como Kylian Mbappé reagiram publicamente após serem alvo direto de ataques racistas durante a mesma Copa, Messi optou por não comentar um episódio de racismo cometido dentro do próprio grupo de torcedores que o idolatra. Não se trata de um detalhe menor, um jogador com esse nível de audiência e influência define, com cada silêncio, o que considera digno de comentário e o que prefere deixar passar.

A situação ganhou outra camada em 4 de julho, quando Messi foi fotografado sorridente ao lado do ativista espanhol de extrema direita Javier Negre. Negre é sócio do portal La Derecha Diario e conhecido por divulgar conteúdo racista, misógino e desinformação contra minorias. Ele responde na Espanha a um processo movido pelo Ministério Público, que pediu pena de um ano e meio de prisão por humilhar publicamente uma mulher com deficiência intelectual durante um protesto político. A imagem ao lado de Messi gerou repercussão internacional e reacendeu questionamentos sobre o entorno político do jogador, ainda que não haja confirmação de que ele conhecesse o histórico de Negre no momento do encontro.

Em coluna publicada pelo UOL, a jornalista Milly Lacombe observou que parte do discurso antirracista de brasileiros em relação à Argentina só ganha força depois que a seleção brasileira já está eliminada do torneio, o que esvazia sua consistência quando confrontado com episódios como o de Miami. Já o jornalista Thiago Amparo, em coluna na Folha de S.Paulo, tratou do apagamento histórico que sustenta esse silêncio coletivo, apontando que a ausência de rostos negros nas arquibancadas argentinas costuma ser lida como prova de uma suposta homogeneidade racial que a própria história do país desmente.

Nascida em Buenos Aires por volta de 1766, María Remedios del Valle era uma mulher negra que se juntou ao Exército do Norte durante as guerras de independência da Argentina, ao lado do marido e dos dois filhos. Perdeu os três em combate na batalha de Huaqui, mas seguiu na linha de frente, cuidando de feridos e enfrentando o inimigo nas batalhas de Tucumán, Salta, Vilcapugio e Ayohuma. Foi ferida, capturada pelas forças espanholas e açoitada publicamente por nove dias seguidos, mas conseguiu escapar. Pelo compromisso e pela coragem demonstrados em combate, o general Manuel Belgrano a nomeou capitã de seu exército, tornando-a uma das poucas mulheres a ocupar patente militar na guerra.

Décadas depois, María Remedios foi reconhecida pedindo esmola nas ruas de Buenos Aires pelo general Juan José Viamonte, que havia lutado ao lado dela. A partir do relato dele e de outros oficiais, o Congresso argentino aprovou, por unanimidade, uma pensão vitalícia e o reconhecimento oficial de sua patente de capitã de infantaria, em 1827. Ficou conhecida como a Madre da Pátria, e desde 2013 o dia 8 de novembro, data de sua morte, é o Dia Nacional dos Afroargentinos e da Cultura Afro no país. Em 2022, um monumento em sua homenagem foi instalado em Buenos Aires. Um ano depois, foi incendiado por completo, em um ato tratado pelas autoridades locais como crime de ódio.

Até o fechamento desta reportagem, Messi não havia se manifestado sobre nenhum dos dois episódios, nem sobre o racismo direcionado a IShowSpeed, nem sobre a repercussão da foto ao lado de Javier Negre. O silêncio contrasta com a repercussão internacional que o caso ganhou, com públicos de diferentes países reagindo nas redes sociais e cobrando posicionamento das autoridades do futebol, o que reforça o quanto o tema é tratado como relevante fora da Argentina, mesmo enquanto o capitão da seleção opta por não comentar.

As matriarcas do rock: 10 mulheres negras que fizeram história

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Foto: Getty Imagens/Reprodução

Conheça dez mulheres negras que criaram as bases do rock and roll, de Sister Rosetta Tharpe a Tina Turner.

O rock and roll nasceu da mistura entre gospel, blues e rhythm and blues, gêneros criados pela população negra nos Estados Unidos muito antes de o rótulo “rock” virar produto de mercado branco. A guitarra distorcida, o balanço do ritmo e a energia vocal que hoje definem o gênero vêm diretamente dessa tradição musical, construída em igrejas, bares e estúdios frequentados majoritariamente por artistas negros.

Ainda na década de 1930, uma cantora e guitarrista do Arkansas já misturava gospel com guitarra elétrica distorcida, técnica que décadas depois se tornaria assinatura do rock and roll. Historiadores da música apontam Sister Rosetta Tharpe como uma das responsáveis diretas por moldar o som que Elvis Presley populariza vinte anos mais tarde, quando o gênero passa a ser associado quase exclusivamente a artistas brancos.

Ao longo das décadas seguintes, outras mulheres negras deram continuidade a essa construção, muitas vezes sem o reconhecimento que caberia ao trabalho que fizeram. O padrão se repete tantas vezes na história do rock que virou quase uma regra não escrita, a artista negra cria e inova, a versão branca vende mais e entra para os livros. A seguir, a trajetória de dez dessas mulheres e o que cada uma representa na construção do gênero.

Sister Rosetta Tharpe

Foto: Getty Images

Nascida em 1915, no Arkansas, começou a cantar dentro da igreja ainda criança e foi quem primeiro combinou letras espirituais com guitarra elétrica distorcida, antecipando o rock em quase duas décadas. A gravação de “Strange Things Happening Every Day”, de 1944, é apontada por parte da crítica musical como uma das primeiras do gênero, mas o reconhecimento oficial só veio em 2018, quando ela entrou para o Rock and Roll Hall of Fame, 45 anos depois de morrer.

Big Mama Thornton

Foto: Getty Images

Quatro anos antes de “Hound Dog” estourar nas rádios na voz de Elvis Presley, a música já existia numa versão mais crua e mais próxima do blues, gravada por ela em 1952. O crédito histórico e o retorno financeiro maior ficaram com a versão que veio depois, e a cantora seguiu carreira ativa até os anos 1980 sem nunca receber o mesmo reconhecimento pelo hit que ajudou a criar.

LaVern Baker

Foto: reprodução

Poucas semanas separaram o lançamento de “Tweedle Dee” de uma cópia nota por nota feita pela cantora branca Georgia Gibbs, que vendeu milhões de cópias em rádios que não tocavam artistas negros. O episódio, em 1954, virou um dos casos mais conhecidos de apropriação racial da música popular americana, e em 1991 Baker se tornou a segunda mulher a entrar para o Rock and Roll Hall of Fame.

Etta James

Foto: Getty Images

Uma voz cheia de nuances e tensão emocional, capaz de transitar entre blues, gospel e rock com a mesma intensidade, marcou sua carreira desde a adolescência. Discos como “At Last” a consolidaram como uma das grandes intérpretes de sua geração e viraram referência direta para cantoras de rock e soul que surgiram depois dela.

Tina Turner

Foto: afp_tickers

Ao lado de Ike Turner, começou nos anos 1950 a construir uma das carreiras mais marcantes da história do rock, e explodiu na década seguinte com o duo Ike & Tina Turner, responsável por hits como “Proud Mary”. Depois de deixar um casamento marcado pela violência, reconstruiu a carreira sozinha nos anos 1980 e se tornou uma das artistas mais bem-sucedidas do gênero.

The Blossoms

Foto: Getty Images

Centenas de gravações dos anos 1960 tiveram a voz de mulheres negras que o público nunca soube identificar. O grupo, que teve Darlene Love entre suas integrantes mais conhecidas, sustentou vocais de apoio em hits hoje creditados apenas aos artistas principais dos discos, um trabalho de bastidor essencial para o som da época.

Merry Clayton

Foto: Getty Images

Um dos vocais mais intensos já registrados em estúdio pertence a ela, que gravou a parte que sustenta “Gimme Shelter”, dos Rolling Stones. Seguiu carreira como cantora de apoio e também solo ao longo das décadas seguintes, mas aquele vocal segue sendo a marca mais lembrada de sua trajetória.

Aretha Franklin

Foto: reprodução

Do gospel ao posto de uma das maiores vozes da música popular americana, sua trajetória atravessou soul, R&B e rock com a mesma autoridade. Em 1987, tornou-se a primeira mulher a entrar para o Rock and Roll Hall of Fame, reconhecimento que carregou também um peso simbólico numa indústria que historicamente tratou artistas negras como coadjuvantes do próprio gênero que ajudaram a criar.

Betty Davis

Foto: Derek Ridgers

Nos anos 1970, escreveu, produziu e cantou seus próprios discos de funk-rock experimental num período em que era casada com o trompetista Miles Davis, a quem também influenciou musicalmente. Sua postura sexualmente livre e o som cru de seus álbuns foram empurrados para as margens do mercado pela indústria da época, mas décadas depois sua obra foi redescoberta e passou a ser reconhecida como pioneira.

Alice Coltrane

Foto: reprodução

A harpa e uma sonoridade espiritual profunda entraram para o experimentalismo sonoro dos anos 1970 pelas mãos dessa viúva do saxofonista John Coltrane, que cruzou jazz, rock e música devocional em discos que romperam com qualquer categorização fácil, influenciando gerações posteriores de músicos.

“The Cheetah Girls”, sucesso dos anos 2000, ganhará novo filme

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Foto: divulgação

Sucesso da Disney nos anos 2000, produção inicia gravações ainda este mês na África do Sul, com Raven-Symoné e Adrienne Bailon retomando os papéis principais.

A Disney anunciou uma nova produção da franquia “The Cheetah Girls”, batizada de “The Cheetah Girls: Next Gen”, que será lançada no Disney Channel e no Disney+. Raven-Symoné e Adrienne Bailon retornam aos papéis de Galleria e Chanel, vinte anos após o primeiro filme da série, lançado em 2003.

A Disney oficializou o anúncio do projeto no dia 8 de julho, por meio de publicação da conta do Disney+ nas redes sociais. O estúdio classificou o novo longa como o segundo retorno de Raven-Symoné a um personagem da franquia da companhia.

Raven-Symoné assume também a produção executiva do longa, enquanto Adrienne Bailon integra a equipe como coprodutora, segundo informações divulgadas pela Disney. Sabrina Bryan participa como convidada especial no papel de Dorinda, e Lynn Whitfield e Lori Alter reprisam seus personagens da trilogia original. Kiely Williams, que interpretou Aqua nos filmes anteriores, não integra o elenco confirmado até o momento.

A nova geração de atrizes e atores é formada por Sophia Bush, no papel de Jennifré; Leah Sava Jeffries, conhecida pela série “Percy Jackson e os Olimpianos”, como Faith, filha de Galleria; Carmen Sanchez, como Dior, irmã de Chanel; além de Kaileen Chang, Sophie Lennon e o estreante sul-africano Kamogelo Ramashala.

A trama acompanha Galleria e Chanel viajando para a África ao lado de Faith e mais três amigas, para atuar como voluntárias em um santuário de vida selvagem. Ao longo da história, as jovens precisam se unir para salvar a reserva e assumir o palco como a nova geração das Cheetah Girls.

A direção do longa fica a cargo de Bille Woodruff, responsável por episódios de “Bridgerton”. O roteiro é assinado por Kara Holden, Sarah Watson e Deborah Swisher, com produção de Debra Martin Chase e coreografia de Kyle Hanagami. As filmagens começam ainda este mês na África do Sul.

Rihanna surpreende fãs em participação no show de Jay-Z

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Foto: Reprodução/X

Rihanna surpreendeu o público ao subir no palco de Jay-Z, no Yankee Stadium, em Nova York, marcando seu retorno após mais de dois anos sem show completo.

Rihanna subiu ao palco do Yankee Stadium, em Nova York, na noite deste domingo (12), durante a apresentação final da série de shows realizada por Jay-Z na cidade. A cantora de 38 anos cantou “Run This Town” e “Bitch Better Have My Money”, faixas que integram seu repertório de maior sucesso comercial, em uma participação que durou poucos minutos dentro do espetáculo de quase três horas.

“Run This Town” foi lançada originalmente em 2009 por Jay-Z em parceria com Rihanna e Kanye West, e se tornou uma das faixas mais reproduzidas da trajetória do rapper. A escolha da música para reunir os dois artistas no palco reforçou o caráter de celebração da série de apresentações, pensada como um retrospecto da carreira de Jay-Z.

A apresentação marcou a terceira e última noite de shows organizados pelo rapper no estádio, dedicados a celebrar sua carreira na música. Beyoncé, mulher de Jay-Z, e a filha do casal, Blue Ivy, também subiram ao palco durante a série de apresentações, segundo registros compartilhados nas redes sociais pelo público presente.

Ao ser recebida pelo público, Rihanna comentou sobre o tempo afastada dos palcos. “Vocês sabem que estou meio enferrujada, né? Faz tempo que não subo ao palco. Vocês estão comigo?”, disse a cantora, que arrancou aplausos da plateia reunida no estádio.

Vídeos da participação circularam rapidamente nas redes sociais horas depois do encerramento do show, registrados por fãs presentes no Yankee Stadium. As imagens mostram Rihanna cantando ao lado de Jay-Z em meio à plateia que lotou o estádio na última das três noites de apresentações.

Retorno após dois anos

O último show completo de Rihanna aconteceu em março de 2024, quando ela cantou cerca de 20 músicas durante uma festa de pré-casamento realizada em Jamnagar, na Índia. A apresentação repercutiu amplamente na imprensa internacional por representar a primeira performance completa da artista após oito anos sem uma turnê própria.

Antes desse evento, a aparição de maior visibilidade de Rihanna havia sido o show de intervalo do Super Bowl, disputado em fevereiro de 2023, nos Estados Unidos. Na ocasião, a cantora revelou a segunda gravidez enquanto se apresentava suspensa por uma plataforma aérea sobre o campo, em uma das performances mais comentadas da história do evento esportivo.

Rihanna não anunciou uma nova turnê internacional. A carreira musical da artista segue pausada desde o lançamento do álbum “Anti”, de 2016, período em que ela concentrou investimentos em outras frentes, como a marca de cosméticos Fenty Beauty e produções audiovisuais assinadas por sua produtora. Nos últimos anos, as aparições públicas da cantora se concentraram em eventos pontuais, entre eles casamentos, festivais e a passagem pelo Super Bowl, sem retomar a rotina de shows que marcou turnês anteriores.

A participação no show de Jay-Z reacendeu especulações sobre um possível retorno aos estúdios. Até a manhã desta segunda-feira (13), a cantora não havia se pronunciado sobre planos para um novo álbum ou sobre a possibilidade de uma turnê própria, e sua equipe também não confirmou datas ou projetos musicais em andamento.

Taís Araujo reivindica a busca por pertencimento e identidade de mulheres negras na peça “Mudando de Pele”

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Taís Araujo atuando na peça "Mudando de Pele"
Foto: Nanna Moraes/Divulgação

Muitas mulheres negras demoram para reconhecer a própria negritude, batalham para manter o contrato invisível de boa conduta em um “bom emprego” ou um “bom relacionamento”, e evitar conflitos. Porém, mais cedo ou mais tarde, é preciso reconhecer nossos limites, encarar as contradições e fazer um mergulho interior.

Nessa perspectiva, a magnífica Taís Araujo comove o público no solo coletivo “Mudando de Pele”. Mantendo o humor e a crítica na medida certa, a peça traz as angústias da sua personagem Mayah. Ela chega ao limite por ser a única pessoa negra em um ambiente corporativo tóxico, por conviver com um relacionamento desgastado e sem acolhimento, e por tentar corresponder às expectativas da família sobre como deveria ser aos quase quarenta anos. É nesse momento que ela recomeça a vida inteira do zero.

Escrita pela inglesa Amanda Wilkin, a montagem conta com a brilhante direção da premiada Yara de Novaes, que transforma temas urgentes das mulheres negras em uma comédia dramática essencial, além do trabalho excepcional de Nathalia Cruz no dramaturgismo.

Com mais de 30 anos de carreira, cada trabalho de Taís Araujo se revela único, imperdível e surpreendente. Em cada diálogo, descrição e reação, é possível envolver-se e, muitas vezes, identificar-se com os sentimentos de Mayah.

Nesse período de transformação, ela conhece duas mulheres que darão novo sentido à sua vida: Mildred, uma senhora jamaicana de 90 anos com quem irá alugar um quarto, e Kemi, uma jovem expansiva que não se prende ao que os outros pensam e com quem irá trabalhar no novo emprego.

Com Mildred, Mayah sente a necessidade de viver mais em comunidade, conhecer as histórias das pessoas que a cercam — especialmente as da colega de quarto, que lutou pelos direitos civis da população negra. Com Kemi, ela percebe a importância de se empoderar como mulher negra e de parar de diminuir-se para caber em algum lugar.

Em diversos momentos, como mulher negra, me identifiquei com o desenvolvimento de Mayah na sua busca por pertencimento e identidade, me fazendo também refletir sobre como nos terreiros é ensinado a importância de ouvir os mais velhos, mas também os mais jovens. Essas trocas geracionais enriquecem a nossa trajetória, fazem com que a gente evolua e se conheça cada vez mais.

Ao longo da jornada, Mayah vai parecendo mais leve conforme passa por transformações e pensa na própria identidade, que também se torna visível através dos próprios figurinos. 

Enquanto Taís envolve o público com o monólogo, as musicistas Dani Nega e Layla conduzem a trilha sonora do palco de forma excepcional, agindo quase como um novo personagem que dá mais vida à personagem. Layla ainda utiliza o kora, um instrumento africano que nos conecta diretamente na busca de Mayah por pertencimento. 

O trabalho nos bastidores também conduz os elementos do palco de forma ágil e coerente com a trama: iluminação, adereços e a movimentação cênica compõem uma equipe em sincronia. À medida que todos se movimentam pelo palco e pelos bastidores, percebe-se um trabalho coletivo bem desenvolvido.

Com toda essa qualidade, “Mudando de Pele” recebeu, nesta semana, cinco indicações ao Prêmio Shell de Teatro nas categorias Atriz, Direção, Figurino, Iluminação e Música, posicionando-se como um dos fortes concorrentes desta edição.

Sucesso de público após temporadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, “Mudando de Pele” desembarca em Belo Horizonte nos dias 8 e 9 de agosto, com ingressos esgotados. Em seguida, a equipe retorna a capital paulista entre 13 de agosto e 6 de setembro, na FAAP; os ingressos ainda estão à venda.

Assistir Taís Araujo é sempre um grande privilégio. 

Chef Flávia Alves transformou almoços no quintal de casa em referência da cultura afro em Paraty

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Flávia Alves usando o turbante vermelho
Foto: Reprodução/Instagram

Quando abriu a porta de casa para receber pequenos grupos de amigos, Flávia Alves buscava uma solução prática: conciliar o sustento da família com os cuidados do filho Tom. Em celebração ao Julho das Pretas, o Mundo Negro e o Guia Black Chefs contam a trajetória da chef: vinte anos depois, esses almoços caseiros se transformaram no Quintal de Mãe, referência em culinária afro-brasileira em Paraty (RJ) e importante motor da economia local.

Aos 45 anos, conhecida na cidade como Flavinha, a chef fez da cozinha um lugar de memória e ancestralidade. Cresceu anotando receitas de programas de TV e vendendo doces e salgados ainda na adolescência; trabalhou na barraca da Tia Preta, em Paraty, vendendo pão de queijo com pernil, teve um restaurante no Centro Histórico de Curitiba e acumulou passagens pela Bahia, além de experiências em festivais, eventos e serviços de catering. Todo esse percurso formou o repertório técnico e cultural que hoje marca a identidade do Quintal de Mãe.

O restaurante nasceu como resposta às necessidades de Flávia após o nascimento do filho, em 2016. “Precisei criar um modelo de negócio que atendesse à minha necessidade e à minha linguagem de trabalho. Lembro das conversas animadas com amigos, discutindo qual seria o nome dos encontros mensais que, aos poucos, se tornaram quinzenais e depois semanais”, conta.

Foto: Gustavo Goto

Atualmente, o negócio fatura cerca de R$ 700 mil por ano. O Quintal de Mãe gera empregos, movimenta fornecedores locais e passou a oferecer serviços de catering para grandes marcas, como Nubank e Netflix, além de participar de produções audiovisuais, como o filme “sobre Dias”.

“Hoje me reconheço muito mais como empresária e agente de transformação social. O empreendedorismo também é uma ferramenta de impacto. Todos os dias fazemos escolhas sobre quais profissionais contratar, quais fornecedores fortalecer e onde os recursos vão circular. Isso contribui para que mais oportunidades cheguem à comunidade”, afirma Flávia.

Ancestralidade no prato e empoderamento feminino

Foto: Divulgação/Quintal de Mãe

A proposta do Quintal de Mãe vai além do cardápio. Inspirada por sua vivência no candomblé, Flávia incorpora saberes ancestrais e a ritualística do alimento em suas receitas. O ambiente do restaurante reúne livros sobre religiosidade, referências aos orixás e obras de artistas nacionais, compondo um espaço que é ao mesmo tempo restaurante, ateliê cultural e ponto de encontro comunitário.

Entre os pratos que se tornaram ícones da casa está a feijoada da Flavinha, destacada em publicações internacionais e incluída no roteiro de afroturismo de Paraty, em parceria com a agência Black Studio Stories. O Quintal também oferece aulas de culinária e experiências que aproximam turistas e moradores da história e das técnicas da culinária afro-brasileira.

O Quintal de Mãe opera como um polo de protagonismo feminino. Foi lá que nasceu o Samba das Trabalhadoras, grupo formado exclusivamente por mulheres, e de onde surgiu o bloco “Carnaval do Quintal”, hoje referência na programação cultural da cidade. Esses projetos ampliam o alcance do restaurante como espaço de capacitação, resistência e visibilidade para as mulheres negras da região.

Zezé Motta celebra 50 anos de ‘Xica da Silva’: “Mulheres negras passaram a se enxergar de outra forma”

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Fotos: Juliano Simões e Divulgação/Vitrine Filmes

“Quando uma obra permanece viva por tanto tempo, é porque ela continua dialogando com a sociedade.” Há 50 anos, Zezé Motta revolucionava o cinema brasileiro com o lançamento de ‘Xica da Silva’, reafirmando a beleza e o poder de uma mulher negra. Em entrevista ao Mundo Negro no especial de Julho das Pretas, a atriz celebra o relançamento do longa-metragem em cópia restaurada em 4K pela Sessão Vitrine Petrobras, no dia 16 de julho.

Dirigido por Cacá Diegues e adaptado da literatura, o filme reconta a história da ex-escravizada Chica da Silva, mulher que conquistou sua alforria e desafiou os padrões coloniais do século XVIII ao manter uma relação pública com um contratador de diamantes. O sucesso estrondoso de bilheteria levou mais de 3,1 milhões de espectadores aos cinemas, revolucionando a maneira de representar corpos negros no Brasil ao unir humor, erotismo e linguagem popular para combater a invisibilidade racial. Na época, o filme atraiu mais de 3,1 milhões de espectadores e conquistou os prêmios de Melhor Filme, Direção e Atriz no Festival de Brasília.

“Acho que a Xica da Silva teve um impacto que ultrapassou o cinema. Ela ajudou a colocar uma mulher negra no centro da narrativa, como protagonista da própria história, em uma época em que isso era muito raro. Isso teve um peso político e social enorme, mesmo que muitas pessoas não percebessem naquele momento. Ao longo desses 50 anos, encontrei inúmeras mulheres negras que me disseram que passaram a se enxergar de outra forma depois de assistir ao filme”, disse Zezé Motta à editora Halitane Rocha.

Ao longo da entrevista, a atriz celebrou o impacto da obra em sua carreira, mas também relembrou os desafios de dar vida a uma personagem tão marcante em um período de censura e repressão, além de como as pessoas passaram a confundir a personagem com a mulher que ela realmente era, levando-a a situações embaraçosas e até a episódios de assédio sexual. A atriz ainda comentou sobre sua parceria brilhante com Cacá Diegues e refletiu sobre como o filme continua atual ao provocar novas gerações a pensar sobre protagonismo negro, liberdade e pertencimento.

Foto: Divulgação/Vitrine Filmes

Leia a entrevista completa abaixo:

1- Zezé, como você enxerga o impacto político e social da personagem Xica da Silva na história do cinema brasileiro e na autoestima das mulheres negras ao longo desses 50 anos?

Acho que a Xica da Silva teve um impacto que ultrapassou o cinema. Ela ajudou a colocar uma mulher negra no centro da narrativa, como protagonista da própria história, em uma época em que isso era muito raro. Isso teve um peso político e social enorme, mesmo que muitas pessoas não percebessem naquele momento.

Ao longo desses 50 anos, encontrei inúmeras mulheres negras que me disseram que passaram a se enxergar de outra forma depois de assistir ao filme. Isso sempre me emocionou muito. A representatividade tem esse poder: ela fortalece a autoestima, amplia horizontes e faz com que as pessoas entendam que também pertencem a esses espaços.

É claro que ainda temos muitos desafios, mas fico feliz em saber que Xica da Silva continua despertando debates e inspirando novas gerações. Quando uma obra permanece viva por tanto tempo, é porque ela continua dialogando com a sociedade. E acredito que esse seja um dos maiores legados que um artista pode deixar.

Foto: Gustavo Arrais

2- Na época do lançamento, o Brasil vivia sob um regime autoritário. Qual era a sensação, como artista negra, de dar vida a uma Rainha que subverteu os padrões coloniais e de poder em um período de tanta repressão política no Brasil?

Naquele momento, o Brasil vivia um período muito duro da sua história. A censura, a repressão e a falta de liberdade atingiam toda a sociedade, e, para nós, artistas negros, havia ainda o desafio de romper estereótipos e conquistar espaços que historicamente nos eram negados.

Dar vida à Xica foi muito especial porque ela era uma mulher que, com todas as suas contradições, desafiava as estruturas de poder do seu tempo. Interpretá-la foi também uma forma de afirmar que pessoas negras têm direito ao protagonismo, à complexidade e a ocupar o centro das suas próprias histórias.

Acho que, mesmo sem ser um filme de militância no sentido tradicional, Xica da Silva acabou se tornando um ato político. A arte tem essa força: ela provoca, questiona e faz as pessoas refletirem. Cinquenta anos depois, continuo acreditando que contar histórias sob diferentes perspectivas é uma das maneiras mais poderosas de combater preconceitos e ampliar o nosso olhar sobre o Brasil e sobre nós mesmos.

Foto: Divulgação/Vitrine Filmes

3- Sua atuação em Xica da Silva foi um divisor de águas na sua carreira. Como foi gerenciar essa ascensão meteórica e as pressões que vieram com o fato de se tornar uma das maiores referências de protagonismo negro no país?

A Xica da Silva me deu muito mais do que reconhecimento. Ela também trouxe desafios que eu jamais imaginei enfrentar. Durante muito tempo, as pessoas confundiram a personagem com a mulher que eu era. Precisei fazer análise para entender e lidar com isso.

O filme nasceu em uma época em que se falava muito de liberdade sexual, dos anos de “sexo, drogas e rock and roll”. A Xica despertava um imaginário muito forte. Ela era uma mulher livre, sensual, poderosa, que dançava nua e dominava os homens. E essa fantasia acabou sendo projetada sobre mim.

Eu estava solteira quando fiz o filme e, muitas vezes, os homens com quem me relacionava mencionavam a Xica antes, durante ou depois da relação. Havia uma expectativa de que eu fosse exatamente aquela mulher. Lembro de um deles dizer: “É como se o filme tivesse virado realidade”. Durante muito tempo, senti que precisava corresponder a essa fantasia. Me preocupava tanto em não decepcionar que, muitas vezes, esquecia de mim, do meu próprio prazer. Foi aí que percebi o quanto aquela personagem havia ultrapassado a tela e invadido a minha vida. A análise foi fundamental para que eu conseguisse separar a Zezé da Xica.

Também vivi situações muito difíceis por causa dessa confusão. Nunca esqueço de um episódio dentro de um táxi. O motorista reconheceu minha voz, confirmou que eu era a Zezé Motta e, de repente, passou a me tocar, acreditando que tinha esse direito. Fiquei completamente apavorada. Só consegui sair quando ele precisou parar em um sinal de trânsito, onde havia um guarda. Abri a porta e corri. Naquele momento, eu só queria escapar. Nem pensei em registrar ocorrência. Hoje entendo que aquilo foi uma violência.

Essas experiências me fizeram compreender que o sucesso também pode trazer um peso muito grande, especialmente para uma mulher negra que interpretou uma personagem tão marcante. Ao mesmo tempo, reforçaram em mim a importância de lembrar que nenhuma atriz se confunde com o papel que interpreta. A Xica mudou a minha carreira para sempre, mas eu precisei aprender, com o tempo, que ela não podia definir quem eu era como mulher.

Foto: Juliano Simões

4- O diretor Cacá Diegues foi um dos fundadores do Cinema Novo, mas na época de Xica da Silva, ele já buscava um caminho próprio no audiovisual. Como foi para você, junto a ele, construir essa Xica irreverente, sensual e humana que também rompeu com os padrões da época do cinema?

Cacá era meu irmão, e eu dizia que eu era a musa dele, fiz 5 filmes do Cacá… Eu simplesmente era dirigida e levada por ele, não pensava muito em como criar aquela personagem, eu gosto de ser dirigida….

Foto: Divulgação/Vitrine Filmes

5- Pensando no público mais jovem que agora terá a chance de assistir à cópia restaurada de Xica da Silva nos cinemas a partir de 16 de julho, qual a mensagem principal que você espera que essa obra transmita para as novas gerações, em especial as mulheres negras?

Espero que as novas gerações assistam a Xica da Silva entendendo que ela é fruto de um momento da história do Brasil, mas que continua dialogando com o presente. É um filme que provoca, desperta perguntas e nos faz refletir sobre poder, liberdade, racismo, desejo e desigualdade.

Para as jovens mulheres negras, desejo que a principal mensagem seja a de que elas pertencem a todos os espaços. Que nunca deixem que outras pessoas definam o tamanho dos seus sonhos ou o lugar que podem ocupar. Quando fiz Xica da Silva, era muito raro ver uma mulher negra protagonizando um filme dessa dimensão. Hoje avançamos, mas ainda temos muito caminho pela frente.

Espero também que elas olhem para essa trajetória e entendam que cada conquista abre portas para quem vem depois. Eu tive a felicidade de fazer parte dessa história, mas o mais importante é que outras histórias continuem sendo contadas, com cada vez mais diversidade, liberdade e verdade. Esse é o legado que mais me emociona.

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