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Caso de Jason Arday nos lembra que entrar não significa pertencer

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Jason Arday
Foto: Reprodução

Por: Rodrigo França

Jason Arday chegou a Cambridge carregando uma biografia que contrariava a paisagem histórica de uma instituição fundada há mais de oito séculos. Homem negro, autista, professor de Sociologia da Educação, tornou-se, aos 37 anos, o professor negro mais jovem da história da universidade. Sua nomeação foi celebrada como sinal de transformação. Cambridge podia olhar para Arday e apresentar ao mundo uma fotografia conveniente de si mesma: uma universidade secular finalmente capaz de reconhecer que inteligência, produção de conhecimento e excelência também têm outros rostos. A fotografia funcionou enquanto produziu prestígio.

Quando surgiram acusações de plágio e questionamentos sobre aspectos de sua trajetória acadêmica e pessoal, Arday deixou rapidamente de representar apenas a diversidade que Cambridge parecia orgulhosa de anunciar. Sua história passou a alimentar uma disputa maior sobre mérito, inclusão e políticas de igualdade. O professor foi investigado, sua produção foi examinada, suas qualificações foram questionadas e episódios de sua vida foram submetidos a um escrutínio público que ultrapassou a discussão sobre eventuais irregularidades acadêmicas. A lupa deixou de procurar somente o erro e começou a percorrer o homem inteiro.

Dias depois de renunciar ao cargo, Jason Arday morreu aos 41 anos. A polícia britânica informou que sua morte era inesperada e não estava sendo tratada como suspeita. Sua família denunciou uma campanha de assédio e desinformação. O próprio Arday havia relatado o peso de viver sob escrutínio constante. Seria irresponsável estabelecer uma relação causal entre esse processo e sua morte sem evidências que a sustentem. Seria igualmente irresponsável observar tudo o que aconteceu antes dela e reduzir o episódio a uma controvérsia sobre integridade acadêmica. 

Integridade acadêmica deve ser cobrada de qualquer pesquisador. Plágio é grave, currículos podem ser verificados e nenhum enfrentamento ao racismo exige que pessoas negras sejam poupadas da responsabilidade por seus atos. A questão que seu caso impõe está em outro lugar: em que momento a responsabilização deixa de examinar aquilo que alguém fez e passa a investigar se aquela pessoa deveria ter chegado onde chegou?

Essa fronteira é conhecida por pessoas negras que ocupam espaços historicamente brancos. Há uma espécie de credencial provisória que acompanha muitas dessas trajetórias. O diploma não encerra a suspeita, o mestrado não encerra, o doutorado tampouco. O cargo, a publicação de livros e o reconhecimento profissional podem aumentar a vigilância em vez de eliminá-la. Existe uma banca invisível funcionando depois da banca oficial, examinando competência, comportamento, linguagem, temperamento, aparência e pertencimento. A pessoa chega, mas continua precisando demonstrar que sua chegada não foi um equívoco.

Essa é uma das perversidades mais sofisticadas do racismo institucional: exigir excelência de quem já precisou ser extraordinário para atravessar a porta. A pessoa negra aprende que não lhe basta realizar o trabalho. Precisa conhecer os códigos que ninguém explicou, saber mais para que sua inteligência seja reconhecida, errar menos para que sua competência não seja questionada e administrar cuidadosamente a reação diante da violência para que sua resposta não se transforme numa acusação contra ela própria. O desgaste não nasce apenas do grande episódio racista. Nasce também da repetição cotidiana da suspeita.

Pessoas brancas podem fracassar individualmente sem que seu fracasso convoque a branquitude inteira para o julgamento. Um professor branco pode cometer uma irregularidade acadêmica e continuar sendo um professor que cometeu uma irregularidade. Sua conduta pode ser investigada, sua carreira pode sofrer consequências e sua reputação pode ser atingida sem que alguém utilize seu caso para perguntar se pessoas brancas deveriam ocupar universidades. A racialização do erro acontece quando a falha de uma pessoa negra começa a ser utilizada como evidência contra a presença negra.

É nesse ponto que o caso Arday se torna maior do que Arday. Sua ascensão havia sido transformada em símbolo. Depois, sua queda também foi. Setores contrários às políticas de diversidade encontraram no episódio matéria para discutir se sua contratação teria sido favorecida pela busca institucional por representatividade. O homem que antes funcionava como demonstração do avanço de Cambridge passou a servir, para seus adversários, como demonstração dos supostos perigos desse avanço. A mesma raça que ajudara a transformar sua nomeação em notícia passou a participar da narrativa construída sobre sua deslegitimação.

Não precisamos fabricar inocentes para reconhecer essa violência. Esse ponto é fundamental porque o antirracismo perde força quando acredita que só consegue defender pessoas negras perfeitas. A dignidade não pode ser prêmio concedido àqueles que jamais erraram. Arday podia ser contraditório, podia ter cometido falhas e deveria responder por irregularidades que fossem comprovadas. Humanidade significa também possuir o direito de ser responsabilizado na proporção dos próprios atos, sem que um erro autorize a sociedade a reexaminar toda a sua existência em busca da fraude original que supostamente explicaria como aquele homem negro conseguiu chegar tão longe.

O racismo contemporâneo tornou-se competente em utilizar palavras aparentemente neutras. Mérito, excelência, preparo, qualidade e critérios podem expressar preocupações legítimas. Também podem funcionar como instrumentos de conservação quando são acionados seletivamente. É curioso observar como determinadas instituições descobrem uma devoção quase religiosa pela meritocracia justamente quando pessoas que historicamente permaneceram do lado de fora começam a atravessar seus portões. A pergunta relevante não é se o mérito deve existir, e sim quem historicamente teve o poder de defini-lo.

Universidades antigas foram construídas por redes de pertencimento que atravessam gerações. Sobrenomes, escolas frequentadas, relações familiares, indicações, amizades, repertórios culturais e condições materiais de estudo sempre participaram da formação das elites intelectuais. Quando esses privilégios se repetem durante séculos, deixam de parecer privilégios. Ganham aparência de normalidade. O estudante negro ou o professor negro chega depois e encontra uma instituição que chama de mérito aquilo que, muitas vezes, também foi produzido por acesso acumulado.

O Brasil conhece profundamente essa engrenagem. As políticas de cotas alteraram a composição das universidades e produziram uma das transformações sociais mais relevantes das últimas décadas. Pessoas que durante gerações tiveram sua inteligência mantida do lado de fora começaram a ocupar salas de aula, laboratórios, programas de pós-graduação e espaços de pesquisa. A presença aumentou, mas a cultura institucional não se transforma na mesma velocidade de uma política pública. É possível modificar quem entra sem modificar completamente as relações de poder encontradas por quem chegou.

Por isso, a experiência brasileira não está distante de Cambridge. A universidade pode celebrar a diversidade em campanhas institucionais enquanto mantém bibliografias onde intelectuais negros aparecem como exceção. Pode receber estudantes negros e continuar oferecendo poucas referências negras entre seus professores. Pode defender igualdade racial publicamente e conservar formas de reconhecimento intelectual nas quais determinados saberes, sotaques, repertórios e trajetórias continuam sendo tratados como naturalmente superiores.

A violência acadêmica possui uma particularidade: aprendeu a vestir formalidade. Nem toda exclusão precisa chegar acompanhada de uma ofensa racial. Ela pode estar na ideia ignorada numa reunião e valorizada quando reaparece na voz de outra pessoa, na surpresa diante de uma argumentação sofisticada, na cobrança desproporcional, na orientação que desencoraja, na banca que muda a régua conforme quem está sentado diante dela, na suspeita sobre a contratação e na necessidade permanente de explicar como alguém conseguiu chegar ali. Nenhum desses acontecimentos isolados parece suficiente para descrever uma estrutura. A repetição deles durante anos é capaz de produzir uma existência profissional inteira sob vigilância.

E isso adoece. Existe um custo psíquico em trabalhar enquanto se administra a própria legitimidade. Há diferença entre dedicar energia intelectual a uma pesquisa e precisar reservar parte dessa energia para interpretar o ambiente, antecipar preconceitos, escolher quando reagir, calcular as consequências de uma denúncia e decidir quais violências serão enfrentadas e quais precisarão ser engolidas para que seja possível continuar. O racismo acadêmico não precisa expulsar alguém fisicamente da universidade para cumprir sua função. Pode mantê lo dentro dela e consumir silenciosamente uma parcela de sua inteligência apenas para sobreviver ao lugar onde deveria ter liberdade para pensar.

Essa violência ganha outra dimensão quando a pessoa negra se torna excepcionalmente visível. Quanto maior a ascensão, maior pode ser a expectativa de exemplaridade. Surge a obrigação de representar uma coletividade inteira. O sucesso deixa de ser somente individual e o erro também. Poucas experiências são tão desumanizadoras quanto perceber que outras pessoas têm direito à banalidade enquanto você precisa transformar a própria vida numa demonstração permanente de competência.

Cambridge celebrou Jason Arday como o professor negro mais jovem de sua história. Essa formulação importa. A universidade não apresentou somente um professor. Sua negritude fazia parte do acontecimento institucional. Ela produzia significado, prestígio e uma narrativa de transformação. Por isso, existe uma questão ética incontornável quando instituições utilizam pessoas negras como símbolos de avanço: a responsabilidade não pode terminar na fotografia da contratação. Diversidade sem pertencimento corre o risco de transformar pessoas em peças de comunicação de estruturas que continuam despreparadas para protege-las quando a celebração termina.

O caso de Jason Arday não oferece uma história simples, e é justamente por isso que merece reflexão. Houve, segundo acadêmicos de Cambridge e familiares, ataques racistas e uma campanha de hostilidade que ultrapassou a crítica acadêmica.  Há uma perversidade histórica em permitir que pessoas negras atravessem portas que permaneceram fechadas durante séculos e, depois da entrada, submetê-las a um regime permanente de comprovação. Primeiro se exige que sejamos excepcionais para chegar. Depois, exige se que continuemos excepcionais para permanecer. Finalmente, quando erramos, o erro é utilizado para confirmar a suspeita que existia antes mesmo de nossa chegada.

É por isso que a história de Jason Arday atravessa o oceano e encontra o Brasil com tanta facilidade. Ela nos obriga a abandonar a celebração confortável do acesso e observar aquilo que acontece depois. Uma universidade não se torna democrática porque pessoas negras conseguiram entrar. A transformação começa quando elas podem permanecer, produzir conhecimento, discordar, ensinar, ocupar poder, cometer erros, responder por eles e continuar sendo reconhecidas em sua humanidade sem enfrentar diariamente um exame secreto de merecimento.

Durante muito tempo, a pergunta brasileira foi como colocar pessoas negras dentro da universidade. Conseguimos produzir respostas importantes para isso. O nosso desafio agora é mais profundo: construir instituições nas quais atravessar o portão não signifique passar o restante da vida provando que tínhamos o direito de atravessá-lo.

Jason Arday chegou a Cambridge. Sua história expõe a distância brutal que ainda pode existir entre ser admitido e ser reconhecido como pertencente. O racismo institucional habita justamente essa distância. Ele já não precisa manter todas as portas fechadas. Em muitos casos, aprendeu a permitir a entrada e transferir a violência para aquilo que acontece depois dela.

Treinar junto é aquilombar: os coletivos negros e a ciência explicam a importância do exercício em grupo

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Mulheres negras treinando juntas em grupo no Hip Hop Workout Collective.
Foto: @peroladutra

Por Caroline Araujo Amorim

A ciência do exercício mostra que grupo de verdade sustenta a prática melhor do que aula de academia. Os coletivos negros já sabiam disso sem precisar de metanálise.

A pergunta que eu mais escuto de quem quer começar a treinar em grupo é se pode ir sozinha. Vem quase sempre meio sem jeito, como quem pede licença: “eu vou sozinha mesmo, tudo bem?” 

Tudo bem, e a minha resposta é sempre a mesma. Ir sozinha não é a mesma coisa que ficar sozinha depois que chega, e essa distância entre uma coisa e outra é justamente o que muda quando o coletivo foi pensado para a população negra. A pessoa atravessa a porta sem conhecer ninguém e, no fim do treino, já tem gente sabendo o nome dela e perguntando se ela volta na semana seguinte. 

Algumas me contaram depois, quando já estavam à vontade, que tinham tentado academia antes e não conseguiram continuar. Os motivos que aparecem nessas conversas costumam ser bem concretos: mensalidade que pesa no orçamento, horário que não cabe na jornada, o trajeto de volta para casa no escuro, a sensação de estar num lugar onde não conhece ninguém e onde o corpo anunciado na parede não se parece com o seu. Nada disso é falta de disciplina, é a soma de coisas que tornam a permanência mais cara para umas pessoas do que para outras. 

Eu venho defendendo há tempos que treino de força não é luxo estético, e sim construção de autonomia para os próximos trinta anos. Só que descobrir isso não resolve nada se a pessoa não conseguir permanecer, e é aí que essa conversa precisa mudar de lugar. O nosso problema com o exercício raramente é começar. É continuar. 

A ciência do exercício tem uma resposta para isso, e ela é mais interessante do que parece. Uma metanálise clássica da área, feita por Burke e colegas, reuniu 44 estudos com mais de 4.500 participantes para comparar contextos de prática, e o resultado não foi simplesmente que em grupo é melhor do que sozinho. Foi mais fino: exercitar-se num grupo de verdade foi superior a fazer aula estruturada de academia, e a aula estruturada não se diferenciou de treinar em casa com algum contato. A adesão foi o desfecho mais beneficiado de todos. 

A diferença está aí, nesse detalhe. Estar numa sala com trinta pessoas não é a mesma coisa que pertencer a um grupo, e uma aula em que as pessoas mal se conhecem tende a não entregar esse efeito. O que entrega é coesão, vínculo, gente que percebe quando você falta. A literatura da minha área chegou, por caminho técnico, numa coisa que a população negra pratica neste país há mais de quatrocentos anos.

O quilombo nunca foi só esconderijo. Em 1985, num texto publicado na revista Afrodiáspora, a historiadora Beatriz Nascimento fez um movimento que mudou o jeito de olhar para o tema: ela mostrou como o quilombo deixa de ser apenas uma instituição do período colonial e vira princípio ideológico, uma forma de resistência cultural que reaparece ao longo do século XX sempre que pessoas negras se organizam para construir junto o que não recebem separadas. Ela seguiu esse fio no documentário Ôrí, de 1989, dirigido por Raquel Gerber, em que narra e assina o roteiro, e onde trabalha também a ideia de corpo como território para quem teve a terra tirada. Alguns anos antes, em 1980, Abdias Nascimento já havia proposto o quilombismo como projeto político, e não como lembrança de museu. 

Aquilombar-se, nessa leitura, é reunir-se para existir com mais folga do que se existiria sozinho. E é exatamente o que os coletivos negros de atividade física estão fazendo hoje. 

E não sou eu quem está inventando essa ponte entre quilombo e saúde. Pesquisadoras e pesquisadores ligados à Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz publicaram, em 2023, uma revisão sobre o aquilombamento como ferramenta de resistência e de promoção de saúde da população negra. Eles partem do quilombismo de Abdias Nascimento e da leitura de Beatriz Nascimento para descrever o aquilombamento como um movimento que resgata saberes ancestrais, coletiviza dores e enfrenta o racismo estrutural, que a própria revisão trata como o principal determinante social de saúde da população negra. A conclusão vai além do que se costuma imaginar: além do aquilombamento que as pessoas negras já praticam como modo de vida, é preciso aquilombar também os currículos, as epistemologias científicas, os espaços e as políticas de atendimento à saúde. 

Se dá para aquilombar um currículo e um serviço de saúde, dá para aquilombar um treino. 

O Hip Hop Workout Collective nasceu em 2025, criado por mim, pela Juliana Oliveira e pela Juliane Daianny. Começou com uma caixa de som e um sonho, numa salinha pequena, e foi virando espaço de acolhimento para mulheres negras e para pessoas LGBTQIAPN+. Não montamos aquilo lendo metanálise, montamos porque fazia falta. 

Preciso ser honesta sobre o tamanho da evidência que estou usando. A metanálise que citei é de 2006, junta estudos bem diferentes entre si, e os próprios autores reconhecem essa limitação. Ela mostra adesão maior em grupos coesos, o que não é a mesma coisa que provar que qualquer coletivo funciona melhor que qualquer outro formato e, até onde eu sei, ninguém testou em ensaio clínico coletivos negros brasileiros. O que existe é convergência entre o achado da adesão, o que a gente observa na prática e o que a pesquisa qualitativa vem descrevendo. 

Preciso abrir aqui um parêntese sobre as mulheres, porque tem uma camada que só aparece quando a gente separa. Uma revisão sistemática recente do Howard e do Bartholomew, publicada na PLOS Global Public Health, sintetizou dezoito estudos sobre barreiras e facilitadores à atividade física especificamente entre mulheres negras. É uma pesquisa americana, com pouco mais de 400 mulheres, e por isso não dá para transportar ao Brasil sem cuidado, mas os temas que aparecem são reconhecíveis demais para nós ignorarmos: motivação, suporte estruturado, saúde geral, ambiente, ideal de corpo e cabelo. 

Numa revisão científica internacional, o cabelo aparece como barreira concreta à prática de exercício entre mulheres negras, porque o tempo e o dinheiro investidos nele são muito maiores do que os de outros grupos de mulheres. Suar significa refazer, e refazer custa hora e custa salário. Isso não é vaidade, é economia doméstica, e é o tipo de barreira que nenhum treino individualizado resolve, mas que um grupo de mulheres negras desata em cinco minutos de conversa, trocando o que funciona e normalizando chegar de trança, de turbante, de cabelo preso, do jeito que der. Por isso eu insisto que coletivo não é enfeite do treino, é parte do método. 

Lélia Gonzalez escreveu, ainda nos anos 1980, sobre os lugares muito específicos que a cultura brasileira construiu para o corpo negro: o corpo que serve, que trabalha, que é consumido em determinadas datas do ano, sempre em função de outra pessoa. Quando a gente se reúne para treinar, o que está em disputa é justamente isso, o corpo negro deixando de ser instrumento e virando destinatário do próprio cuidado. E tem bell hooks, que em 1993 escreveu Irmãs do inhame, publicado no Brasil só em 2023. O detalhe que quase ninguém conta é que o livro não saiu da cabeça dela sozinha: nasceu de um grupo de apoio de mulheres negras que se reunia de fato e que dava nome à obra. O inhame do título vem de Toni Cade Bambara e carrega a ideia de sustentação da vida e de conexão diaspórica. Ou seja, o livro mais conhecido sobre autorrecuperação de mulheres negras foi ele próprio produzido dentro de um coletivo. Ela estava falando de saúde mental e de cura, não de agachamento, mas o princípio atravessa, já que é muito difícil se cuidar sozinho num mundo organizado para que você cuide de todo mundo menos de você. 

Quando alguém me pergunta por que investir em coletivo em vez de simplesmente dar mais treino individual de graça, minha resposta é técnica antes de ser política. Adesão é o que determina resultado, e um treino excelente que a pessoa abandona em três semanas entrega menos do que um treino simples que ela mantém por três anos. O que segura alguém treinando não é a periodização perfeita, é ter gente esperando por ela. 

Se você é negro e já desistiu de treinar mais de uma vez, eu queria que você considerasse a possibilidade de que o problema nunca foi você, e sim que você tentou sozinho uma coisa que funciona melhor acompanhado. Procura um coletivo em que você se reconheça, onde as pessoas se pareçam com você e a sua presença não precise ser justificada. Existem mais do que a gente imagina, e vale perguntar, pesquisar, ir uma vez só para sentir. E se não houver nenhum por perto, chama alguém para treinar com você, porque duas pessoas com dia marcado já mudam bastante a chance de continuar. Nós aprendemos há séculos que sozinho ninguém aguenta muito tempo, e isso nunca foi discurso bonito, foi estratégia de sobrevivência. Continua sendo, inclusive no treino. 

Caroline Araujo Amorim é formada em Educação Física há oito anos, com pós graduação em ortopedia e reabilitação pelo Hospital Albert Einstein. Atleta de powerlifting, é cofundadora do Hip Hop Workout Collective e criadora do aplicativo APPCAH. Instagram: @carolinepersonall 

Referências 

BURKE, S. M.; CARRON, A. V.; EYS, M. A.; NTOUMANIS, N.; ESTABROOKS, P. A. Group versus individual approach? A meta-analysis of the effectiveness of interventions to promote physical activity. Sport and Exercise Psychology Review, v. 2, n. 1, p. 19-35, 2006. 

HOWARD, S. L.; BARTHOLOMEW, J. B. Barriers and facilitators to physical activity among Black women: a qualitative systematic review and thematic synthesis. PLOS Global Public Health, v. 4, n. 12, e0003202, 2024. DOI: 10.1371/journal.pgph.0003202 

MIRANDA, A. A. M. et al. Social inequalities in leisure-time and transport-related physical activity through the lens of intersectionality: 10-year longitudinal study in Brazil. International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity, v. 23, art. 64, 2026. DOI: 10.1186/s12966-026-01900-5 

RIMOLI, T. M.; SANTOS, A. P. M. B.; PIRES, L. J. A.; MENDES, E. C. Aquilombamento como ferramenta de resistência e promoção de saúde da população negra. Revista de Saúde Coletiva da UEFS, v. 13, n. 2, e9284, 2023. DOI: 10.13102/rscdauefs.v13i2.9284 

NASCIMENTO, Maria Beatriz. O conceito de quilombo e a resistência cultural negra. Afrodiáspora: Revista do Mundo Negro, Rio de Janeiro: IPEAFRO, n. 6-7, p. 41-49, 1985. 

ÔRÍ. Direção: Raquel Gerber. Roteiro e narração: Beatriz Nascimento. Brasil, 1989. Documentário, 131 min. 

NASCIMENTO, Abdias do. O Quilombismo: documentos de uma militância pan africanista. Petrópolis: Vozes, 1980. 

GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: SILVA, Luiz Antônio Machado da (Org.). Movimentos sociais urbanos, minorias étnicas e outros estudos. Brasília: ANPOCS, 1984. (Ciências Sociais Hoje, 2), p. 223-244.

HOOKS, bell. Irmãs do inhame: mulheres negras e autorrecuperação. Tradução de floresta. Prefácio de Ynaê Lopes dos Santos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2023. [Original: Sisters of the Yam: Black Women and Self-Recovery. Boston: South End Press, 1993.]u

Terceiro acusado pela morte de Mãe Bernadete será julgado em outubro; crime completou três anos

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Mãe Bernadete, liderança quilombola baiana assassinada em 2023.
Foto: Divulgação

O terceiro acusado de envolvimento no assassinato da líder quilombola Maria Bernadete Pacífico Moreira, conhecida como Mãe Bernadete, será julgado pelo Tribunal do Júri no dia 13 de outubro, às 8h, no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador. O crime completou três anos na segunda-feira (17).

Josevan Dionísio dos Santos, conhecido como “BZ” ou “Buzuim”, é apontado pelo Ministério Público como um dos executores do assassinato, ocorrido em 17 de agosto de 2023, na comunidade quilombola Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador.

Segundo o advogado da família, Dr. Hédio Silva, as provas reunidas no processo são suficientes para sustentar a condenação do acusado. Durante o julgamento, a defesa pretende pedir a aplicação da pena máxima, de 40 anos de prisão.

“Ele foi o segundo executor. Ele atirou várias vezes. Temos prova testemunhal, prova pericial, além da arma utilizada no crime, que ele chegou a exibir nas redes sociais. Também há elementos de que participou do planejamento da execução. Diante da robustez das provas, não tenho dúvida de que será condenado. Vamos pedir a pena máxima, de 40 anos”, afirmou o advogado.

Josevan foi pronunciado por homicídio qualificado pelo uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. O julgamento será realizado em Salvador após o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) determinar a transferência do processo, inicialmente vinculado à comarca de Simões Filho. A decisão tornou-se definitiva em maio deste ano.

Relembre o caso

Mãe Bernadete tinha 72 anos quando foi assassinada a tiros dentro da sede da Associação Quilombola Pitanga dos Palmares. De acordo com a acusação, a atuação da liderança em defesa do território quilombola e contra a expansão do tráfico de drogas na região contrariava os interesses de uma organização criminosa que atuava na localidade.

O assassinato ocorreu seis anos após a morte do filho de Mãe Bernadete, o também líder quilombola Flávio Gabriel Pacífico dos Santos, conhecido como Binho do Quilombo. Ele foi morto a tiros em setembro de 2017.

Este será o terceiro julgamento relacionado ao assassinato de Mãe Bernadete. Arielson da Conceição Santos e Marílio dos Santos já foram julgados e condenados pelo crime. Apontado pelas investigações como mandante, Marílio morreu posteriormente durante uma operação policial.

Dr. Hédio Silva participou do julgamento mais recente e afirma que cada nova etapa representa um avanço na busca da família por justiça e responsabilização dos envolvidos.

“Não estamos falando apenas da responsabilização por um crime brutal contra uma mulher de 72 anos. Mãe Bernadete era uma liderança quilombola, uma defensora do seu território e dos direitos de sua comunidade. A resposta da Justiça precisa estar à altura da gravidade desse crime. A família seguirá acompanhando cada etapa até que todos os responsáveis sejam julgados e responsabilizados”, declarou.

Angelique Kidjo faz história como primeira cantora africana na Calçada da Fama de Hollywood

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Angelique Kidjo na Calçada da Fama
Foto: © Frederic J. Brown, AFP

A ícone da música Angélique Kidjo, de 64 anos, tornou-se nesta terça-feira (18) a primeira musicista africana — e a primeira artista negra africana — a receber uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, em Los Angeles, nos Estados Unidos. “Sem a gente, não há música possível neste planeta”, afirmou a cantora, na cerimônia que contou com a presença de nomes de peso da indústria do entretenimento, incluindo Harvey Mason Jr., presidente da Recording Academy, e o ator Djimon Hounsou.

Nascida no Benin, Angélique mudou-se para Paris em 1983, onde deu os primeiros passos de uma carreira global. Ela lançou 19 álbuns desde 1981 e conquistou fãs em todo o mundo graças à sua habilidade única de fundir estilos da África Ocidental com funk, jazz e R&B.

A cantora acumula cinco prêmios Grammy em sua trajetória: venceu na categoria de Melhor Álbum de Música do Mundo Contemporâneo em 2008 e ganhou o prêmio de Melhor Álbum de Música Global quatro vezes entre 2015 e 2022. Em 2023, também recebeu o Polar Music Prize, considerado o “Nobel da música”.

Sua extensa lista de colaboradores inclui artistas diversos como Burna Boy, Alicia Keys, John Legend, Philip Glass, Sting, Peter Gabriel, Bono e Yo-Yo Ma.

Além dos Grammys e do Polar Music Prize, a cantora ainda foi listada pela Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, pela BBC como uma das 50 figuras mais icônicas da África e pelo The Guardian como uma das 100 pessoas mais cultas do planeta.

Em declaração à AFP quando a estrela foi anunciada, no ano passado, Angelique demonstrou otimismo sobre o futuro: “Poderei ser a primeira cantora africana a ter uma estrela na Calçada da Fama, mas tenho certeza de que não seria a última. Muitos outros virão e isso enche meu coração de alegria”.

Vitrine de Creators Negros ultrapassa 1 mil inscrições em menos de 24 horas

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Vitrine de Creators Negros supera 1 mil inscrições em 24 horas
Foto: Divulgação

Iniciativa do Mundo Negro aproxima criadores negros de marcas, agências e imprensa e já mobiliza a comunidade.

Mais de 1.000 criadores negros se inscreveram na Vitrine de Creators Negros em menos de 24 horas após o lançamento da iniciativa. O número mostra a força da demanda e o desejo da nossa comunidade em estar em espaços que conectem talentos negros ao mercado, e reforça a importância de ampliar a visibilidade de quem já produz conteúdo em diferentes nichos e regiões do Brasil.

Criada pelo Mundo Negro, a Vitrine reúne criadoras e criadores pretos de todo o país para facilitar o encontro com marcas, agências e profissionais de imprensa interessados em encontrar talentos negros para campanhas, projetos e parcerias.

A proposta surgiu a partir de uma questão recorrente no mercado: a alegação de que seria difícil encontrar creators negros. A resposta ao lançamento veio rapidamente. Em menos de um dia, mais de mil pessoas preencheram o formulário para fazer parte da Vitrine. Nos comentários da publicação, integrantes da comunidade também agradeceram a iniciativa e destacaram a importância de criar uma ponte entre quem produz conteúdo e quem busca esses profissionais.

“Isso tá sendo tão necessário! Dentro do meu nicho, é realmente raro ver um preto tendo oportunidade de fechar com uma marca grande.”, declarou o seguidor Christian Mello (@soueuchristianmello). 

A Vitrine parte da ideia de que repertório e consistência também são critérios de valor, independentemente do tamanho da audiência.

O sucesso inicial da iniciativa também é um agradecimento à comunidade que respondeu ao chamado e ajudou a mostrar, mais uma vez, que talento negro existe — e está criando todos os dias.

As inscrições para a Vitrine de Creators Negros seguem disponíveis. Criadores interessados podem fazer seu cadastro em: https://mundonegro.inf.br/vitrine-de-creators-negros/.

Any Gabrielly protagoniza “Habeas corpus”, nova série da Netflix

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Any Gabrielly em cena da série Habeas corpus, da Netflix.
Foto: Rafael Barion/Netflix

Produção estreia em 23 de setembro e é inspirada no trabalho do Innocence Project Brasil

Any Gabrielly estreia em uma nova frente da carreira como Marina, estudante de Direito em “Habeas corpus”, primeira série jurídica brasileira da Netflix. A produção chega ao catálogo da plataforma em 23 de setembro e também tem Marjorie Estiano, Vladimir Brichta, Danton Mello, Marisa Orth e Natália Lage no elenco.

Na trama, Marjorie interpreta Inez, uma professora de Direito que lidera um grupo de revisão criminal dedicado a investigar a condenação de um jovem que afirma não ter cometido o crime pelo qual foi preso.

Marina, interpretada por Any Gabrielly, é uma das alunas de Inez e se aproxima da professora movida por um objetivo pessoal: buscar respostas para uma injustiça que afetou profundamente sua família.

A história é inspirada no trabalho real do Innocence Project Brasil, organização que atua na investigação e revisão de casos de condenações injustas. A produção utiliza essa realidade como ponto de partida para discutir falhas do sistema de Justiça.

A série tem direção geral de Luiz Villaça, que também assina a criação ao lado de Leonardo Moreira e Donna Oliveira. Leonardo Moreira é responsável pelo roteiro final.

A Netflix divulgou as primeiras imagens da produção nesta terça-feira (18) e confirmou a estreia para 23 de setembro.

Gaby Ferraz e Joanna Fernanda lançam plataforma de idiomas com foco na cultura afro-francófona 

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Gaby Ferraz e Joanna Fernanda, criadoras do Afrofrancês
Foto: Divulgação

Afrofrancês conecta ensino de idiomas a literatura, memória, colonialismo e ancestralidade, com aulas conduzidas por professores nativos de países africanos francófonos. 

Aprender francês a partir de referências culturais negras e das experiências de países africanos francófonos é a proposta do Afrofrancês, projeto idealizado pelas pesquisadoras Gaby Ferraz e Joanna Fernanda. A iniciativa une ensino de idiomas, literatura, memória, colonialismo e ancestralidade em uma experiência que supera o aprendizado convencional da língua.

O projeto parte do francês falado em mais de 20 países africanos que têm o idioma como uma das heranças do processo de colonização francesa. Nesses territórios, o francês convive com diversas línguas locais, entre elas wolof, lingala, kikongo, swahili, tshiluba e baoulé, formando diferentes experiências linguísticas e culturais.

Pesquisa e educação como ponto de partida

A criação do Afrofrancês nasce do encontro entre as trajetórias de suas idealizadoras. Joanna Fernanda é professora de francês e mestranda em Literaturas Francófonas, com pesquisa voltada ao colonialismo, à cultura e à literatura de países africanos de língua francesa.

Seu repertório acadêmico orienta a construção dos conteúdos, a curadoria literária e cultural e a abordagem crítica utilizada nas aulas. A proposta é apresentar o idioma também a partir das produções culturais e dos contextos históricos dos lugares onde ele é utilizado.

Gaby Ferraz é jornalista, criadora de conteúdo e pesquisadora de memória e narrativas negras na diáspora, atuando na estruturação da experiência cultural do projeto. Sua contribuição inclui a organização de imersões, passeios, o podcast do Afrofrancês e a seleção dos professores africanos que participam das aulas.

A experiência das próprias idealizadoras como estudantes de idiomas também influenciou a metodologia. Gaby, que estudou inglês e espanhol de forma autodidata, identificou na própria trajetória a importância de estabelecer uma relação de identificação com os conteúdos estudados.

Professores como parte da experiência cultural

Atualmente, o Afrofrancês reúne alunos que buscam aprender francês por essa perspectiva. As aulas são conduzidas por professores nativos de diferentes países africanos francófonos.

No projeto, esses profissionais também compartilham referências e experiências relacionadas aos seus próprios contextos culturais. As idealizadoras os definem como “corpo-memória”, destacando a presença de suas vivências na construção das aulas e na ampliação do repertório dos estudantes.

A proposta não se restringe ao ambiente virtual ou à sala de aula. O Afrofrancês já realizou encontros de culinária, atividades relacionadas ao artesanato, cinedebates e clubes de leitura em parceria com empreendedores interessados em aproximar os alunos de diferentes expressões culturais.

Turmas personalizadas

Outro aspecto do método está na formação das turmas. Antes de começar as aulas, os interessados respondem a um formulário que funciona como uma espécie de entrevista inicial. O objetivo é conhecer interesses, gostos pessoais, formas preferidas de aprendizado e experiências multiculturais anteriores.

A partir dessas informações, as turmas são organizadas de maneira personalizada, de acordo com os perfis e interesses dos estudantes.

As novas turmas do Afrofrancês estão abertas e os grupos continuam sendo formados de maneira personalizada. Informações sobre aulas e valores estão disponíveis no Instagram @francesafro.

Executiva defende que mulheres falem sobre suas conquistas: “Temos que desaprender a humildade silenciosa”

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Lauren Flanigan
Foto: Divulgação

Há 12 anos, Lauren Flanigan ingressou na Mondelez como estagiária, e desde 2024, tornou-se líder de um portfólio de US$ 2,5 bilhões em mais de 20 mercados globais. A executiva — que também presidiu o Conselho Afro-Americano da multinacional — consolida sua trajetória no topo do mercado corporativo desafiando normas estruturais de gênero e raça. Para ela, o divisor de águas na carreira foi abandonar a expectativa do reconhecimento passivo e reivindicar o próprio protagonismo: “Temos que desaprender a humildade silenciosa”, afirmou em uma entrevista recente à Forbes Brasil.

No início de sua caminhada, Flanigan acreditava na premissa de manter a cabeça baixa e esperar pelo reconhecimento. Ao perceber os limites dessa postura, mudou a estratégia e passou a comunicar ativamente seus resultados sob o lema “dê crédito e receba o crédito”. “Com muita frequência, a sociedade incentiva as mulheres a adotarem comportamentos que jogam contra o sucesso corporativo — ser quieta, ser humilde, não ser insistente, não pedir muito”, destacou. “Aprendi que as pessoas não podem conhecer os detalhes do meu trabalho a menos que eu conte a elas”.

A postura assertiva se refletiu em números e campanhas premiadas mundialmente. Responsável por ações globais da marca Trident — incluindo peças premiadas com o Leão de Ouro no Festival de Cannes —, a executiva demonstra visão aguçada para identificar oportunidades de mercado.

Em 2017, percebendo um nicho inexplorado para produtos sazonais, a Flanigan estruturou um plano de negócios que convenceu a liderança a criar uma divisão exclusiva sob sua gestão. A iniciativa gerou o lançamento de 13 produtos em nove meses e uma receita superior a US$ 100 milhões em três anos. “Muitas vezes, esperamos as coisas acontecerem. Mas, às vezes, você precisa criar a oportunidade”, afirma a executiva.

Com trajetória que conecta alta performance e compromisso com a equidade, a executiva também utilizou seu espaço para fortalecer a presença de profissionais negros no corporativo durante sua gestão no Conselho Afro-Americano da empresa. Para Flanigan, a presença nos espaços de decisão ganha sentido quando acompanhada de movimentos coletivos. “Representatividade importa, mas mentoria ativa e aliança importam mais. Meu objetivo é sempre elevar outros enquanto eu subo”, destaca.

Inspirada pelo pai corporativo e pela mãe empreendedora, o interesse de Lauren pelo marketing surgiu ainda no ensino médio, consolidando-se durante sua passagem pela renomada Wharton School, na Universidade da Pensilvânia.

Apesar de gerenciar operações em múltiplos fusos horários, a executiva faz questão de estabelecer limites rígidos para preservar sua saúde mental e o convívio com a família. Entre hábitos como a escrita de diários de gratidão e a confecção de velas, ela mantém o foco no que realmente importa: “No final da minha vida, quero me orgulhar do meu sucesso profissional, mas não será a única coisa à qual me apegarei. Protejo as pessoas e os momentos dos quais mais me lembrarei da mesma forma que protegeria uma entrega profissional.”

Caso Tupac Shakur: Promotoria afirma que ex-líder de gangue ordenou morte do rapper por vingança

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Tupac e Keffe D
Fotos: IMDB e Steve Marcus/Pool/Las Vegas Sun via AP file

Quase três décadas após o assassinato que marcou a história do hip-hop, o julgamento de Duane “Keffe D” Davis, de 63 anos, teve início em Las Vegas. Único réu formalmente acusado pela morte de Tupac Shakur, o ex-líder de gangue é apontado pela promotoria como o articulador e “comandante” do ataque ocorrido em 1996.

Embora não seja acusado de ter efetuado os disparos, a acusação sustenta que Davis planejou a ação, forneceu a arma e ordenou o ataque como retaliação a uma agressão sofrida por seu sobrinho, Orlando Anderson, horas antes.

“Sejamos claros, Duane Davis não apertou o gatilho. Mas planejou o tiroteio em retaliação à agressão sofrida por seu sobrinho”, declarou o promotor-chefe adjunto Binu Palal diante do júri. Davis se declara inocente.

O episódio que culminou na morte de Tupac teve origem em um confronto físico horas antes do crime, no hotel MGM Grand, após uma luta de boxe de Mike Tyson. Na ocasião, o rapper e integrantes de seu grupo se envolveram em uma briga com Orlando Anderson, membro da gangue South Side Compton Crips e sobrinho de Davis.

De acordo com a promotoria, Davis considerou que o ocorrido exigia uma resposta. Ele teria conseguido uma arma e circulado por Las Vegas ao lado de outros homens em um Cadillac branco até localizar o veículo em que estavam Tupac e Marion “Suge” Knight, cofundador da Death Row Records. Davis estaria no banco do passageiro e teria repassado a arma para Anderson, apontado como o autor dos disparos.

Baleado em 7 de setembro de 1996, aos 25 anos, Tupac Shakur não resistiu aos ferimentos e morreu seis dias depois.

Declarações do réu e contra-argumentos da defesa

Grande parte da tese da acusação baseia-se em falas do próprio Davis ao longo dos anos. Em entrevistas e em um livro de memórias publicado em 2019, o réu afirmou que estava no veículo envolvido no atentado e confirmou ter entregue a arma ao sobrinho.

A defesa de Davis contestou a validade do material, alegando que passagens da autobiografia foram dramatizadas com fins comerciais para impulsionar vendas. Os advogados classificaram a investigação como “tendenciosa, negligente e incompleta”, questionando a consistência das provas reunidas ao longo de quase três décadas. O advogado Michael Sanft questionou o desaparecimento de relatórios policiais e mudanças de depoimentos de testemunhas ao longo do tempo.

No primeiro dia de audiência, o ex-policial de Las Vegas Garry Dale relatou que acompanhou o rapper na ambulância após o ataque e tentou identificar os suspeitos. Segundo o agente, Tupac recusou-se a colaborar com as investigações, afirmando apenas: “Nós vamos cuidar disso”.

Outra testemunha, Ingrid Stokes, relatou que estava em um veículo próximo no momento do ataque e presenciou o momento em que o carro do rapper foi emparelhado. “Estávamos de cabeça baixa, tirando os cintos de segurança, quando ouvimos os tiros. O inferno se instaurou”, relatou.

O assassinato de Tupac Shakur permanece como um dos episódios mais chocantes na história da música, marcado pelas tensões geopolíticas do rap entre as costas Leste e Oeste dos Estados Unidos e pelos conflitos entre gangues rivais na década de 1990.

Justiça anula autuação por trabalho escravo na casa de desembargador em SC e retira nome da ‘lista suja’

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Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região
Foto: Reprodução

Por unanimidade, o Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região (TRT-12) anulou o processo administrativo que confirmava o auto de infração por trabalho análogo à escravidão na residência do desembargador Jorge Luiz de Borba, do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, em Florianópolis. A decisão beneficiou a esposa do magistrado, Ana Cristina Gayotto de Borba, apontada pela fiscalização como a empregadora de Sônia Maria de Jesus, uma mulher negra, surda e cega de um olho. As informações são da coluna do Leonardo Sakamoto do UOL.

Com o entendimento do tribunal, a Justiça determinou a remoção do nome de Ana Cristina da “lista suja” do trabalho escravo, o cadastro federal mantido pelo Ministério do Trabalho e Emprego e reconhecido pela ONU como uma das principais ferramentas de combate ao crime e de gestão de risco comercial. No entanto, a Advocacia-Geral da União solicitou uma decisão sobre o caso, e o Ministério Público do Trabalho informou que também irá recorrer da anulação.

A decisão colegiada do tribunal, tomada sob segredo de Justiça, não analisou o mérito da fiscalização e não concluiu que a trabalhadora não tenha sido submetida a condições análogas à escravidão. A anulação fundamentou-se em uma falha considerando que houve violação à ampla defesa.

Segundo o relator, desembargador Garibaldi Tadeu Pereira Ferreira, embora a presença de advogado não seja obrigatória em processos administrativos, o pedido expresso para que as comunicações fossem feitas aos advogados constituídos deveria ter sido respeitado pela administração pública. Como a notificação foi enviada diretamente a Ana Cristina, o prazo recursal expirou sem manifestação da defesa técnica. Assim, o acórdão invalidou apenas a etapa administrativa que confirmava a infração, sem desfazer a operação de resgate nem absolver os investigados.

Entenda o caso

Sônia Maria de Jesus foi resgatada em junho de 2023 por uma ação conjunta do Grupo Especial de Fiscalização Móvel, composto por Inspeção do Trabalho, MPT, MPF, DPU e Polícia Federal. Levada aos nove anos de uma creche na Grande São Paulo pela mãe de Ana Cristina, a fiscalização concluiu que Sônia trabalhou quase 40 anos para a família exercendo tarefas domésticas e cuidados diários sem receber salário, carteira assinada, férias, décimo terceiro ou descanso semanal. Ela passou a maior parte da vida sem registro de identidade, emitido apenas em 2019, e sem ter sido alfabetizada em português ou em Língua Brasileira de Sinais (Libras), comunicando-se apenas por gestos.

No imóvel, segundo o relatório, ela dormia entre um quarto anexo à área de serviço e o quarto de hóspedes da residência. Diante da repercussão do resgate e da denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por trabalho escravo, a família Borba sustentou que Sônia era integrante da família e anunciou intenção de pedir sua filiação afetiva. Contudo, publicações nas redes sociais mostravam Sônia listada como “funcionária” do casal, ficando de fora de fotos e homenagens sobre a família reunida.

Apenas três meses após o resgate, a trabalhadora foi devolvida à casa do desembargador sob a justificativa de manifestar uma suposta vontade clara e inequívoca, em decisão autorizada pelo ministro Mauro Campbell, do Superior Tribunal de Justiça, e mantida no Supremo Tribunal Federal pelo ministro André Mendonça, que negou um habeas corpus da Defensoria Pública da União.

O subprocurador-geral da República Carlos Frederico Santos classificou como teratológica a ordem que permitiu o retorno, alertando para pareceres técnicos que atestavam a impossibilidade de a vítima manifestar livre vontade e comparando a situação à Síndrome de Estocolmo, uma vez que o retorno interrompeu a autonomia da vítima e seu aprendizado em Libras.

O caso provocou denúncias de entidades à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA e levou o relator especial da ONU para formas contemporâneas de escravidão, Tomoya Obokata, a declarar-se alarmado com a autorização judicial para a devolução da trabalhadora aos patrões, recomendando ao Brasil a garantia efetiva de resgate, reabilitação e reparações a Sônia.

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