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Casa Savana: onde a gastronomia e a cultura ancestral se encontram

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Espaço da Casa Savana com DJ tocando música ao fundo.
Foto: Mariana Monteiro

No Centro do Rio, perto do Cais do Valongo, uma potência cultural do povo preto se faz presente – a Casa Savana. É um lugar de gente bonita e não apenas do Samba como traço marcante da cultura carioca. Há também Jazz, Blues, Forró, Reggae, Rap, Afrobeat, Black Music; além de uma cozinha de raízes africanas chefiada pela talentosa chef Dandara Batista. Coxinha de Vatapá, Amalá, Efó com Peixe, Bafrika e Peixe à moda do Quilombo do Campinho (que eu já escrevi aqui quando fui à Paraty) são umas das delícias que a gente encontra por lá.

A escolha do nome é também uma forma de preservar a identidade do povo de África. De acordo com os sócios Pedro Henrique (ambos com mesmo nome), “Savana é uma vegetação rasteira que predomina em África. É uma região da África que não foi colonizada (Etiópia). Os colonizadores não conseguiram colonizar as savanas.” E só não colonizaram porque eram presas fáceis para os animais selvagens.

Assim, “Savana é um lugar que ninguém colonizou. Espaço que o branco não entrou e não colonizou lá” – complementa Pedro Henrique Oliveira. A Casa Savana é um espaço para levar nossa cultura, nossa culinária, nossa arquitetura e nossa religiosidade a partir da cultura preta. A Gastronomia, evidentemente, está presente alinhada ao Turismo e aos almoços nos finais de semana. Aos sábados, tem o café da manhã com turistas que visitam a Pequena África; e, depois de visitarem nossa história, retornam para o almoço.

Feijoada de feijão vermelho (Foto: Reprodução/Instagram)

Sob o comando da Chef Dandara Batista, o espaço oferece pratos a la carte assinados a partir de uma leitura multirreferenciada de África. Me lembro ao escrever sobre a atuação da chef Dandara que a primeira vez que comi Arroz de Auçá foi no AfroGourmet – ganhador de melhor restaurante da primeira edição do Prêmio Gastronomia Preta em 2022. De entrada, o mini acarajé com vatapá e caruru e bobó de cogumelos (opção vegana) reforçam a potência da culinária afrobrasileira. Nos pratos principais, Dandara faz um passeio por Angola, Nigéria, Mocambique, São Tomé e Príncipe e Senegal.

Na busca por imóveis na região central da capital fluminense, um dos sócios lembrou da realidade de alguns empresários pretos no Brasil. Tendo uma negociação mediada por uma amiga corretora na intenção de alugar um espaço próximo à Carioca, ouviu um áudio encaminhado pelo dono do imóvel a ela: “Sai fora dessa, eles não têm cara de empresários.” Convenhamos, não é sobre ter cara – é sobre ter cor de empresário neste país. Com um “voto de confiança” do atual dono em um espaço que só tinha uma lâmpada e que precisava ser completamente reestruturado, os empresários remodelaram o antigo casarão da Rua Camerino 162 e hoje são ponto de encontro das culturas pretas na Cidade Maravilhosa.

Se você não visitou a Casa Savana é da cidade ou está pelo Rio de Janeiro, não perca essa oportunidade – é um lugar para chamar de nosso com a nossa história pensada e apresentada em cada lugar por onde você passa os olhos.

Chef Dandara Batista (Foto: Reprodução/Instagram)

Empreendimento: @casasavanarj

Preto Gourmet: Breno Cruz é o criador do Prêmio Gastronomia Preta, do Pretonomia e do Festival Gastronomia Preta. Pós-doutor, professor de Gestão na Gastronomia, Empreendedor Social e autor de 15 livros nas áreas de Administração e Gastronomia

Luh Maza | 10 criadoras negras para acompanhar na TV e cinema

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As cineastas Adélia Sampaio e Luh Maza.
Fotos: Reprodução

Por: Luh Maza

A partir de hoje, passo a colaborar com o portal Mundo Negro que tanto nos forma e informa enquanto integrantes ativos da sociedade, o que me honra como mulher preta. 

Sejam bem-vindas a esse nosso novo ponto de encontro. Estou feliz por dividir experiências, reflexões e uma curadoria do que encontro de mais inspirador no cinema, nas séries e em outras manifestações que ampliam o nosso repertório e fortalecem a nossa comunidade. Acredito que poucas coisas são tão transformadoras quanto conhecer e consumir obras criadas por pessoas que compartilham nossas vivências.

Como estamos no Julho das Pretas, nada mais justo do que reunir dez criadoras que transformam o audiovisual brasileiro. Além de assistir às obras dessas artistas, vale acompanhar suas trajetórias. São roteiristas, diretoras, produtoras e atrizes. Muitas, inclusive, exercem todas essas funções ao mesmo tempo. Afinal, ser múltipla na arte é apenas o reflexo de ser múltipla para existir no Brasil.

Aliás, você sabia que a primeira mulher a dirigir um longa-metragem por aqui foi uma mulher negra? A mineira Adélia Sampaio realizou Amor Bandido, em 1984, e abriu o caminho para todas nós. Sua vida nos lembra que mulheres negras sempre movimentaram a história do audiovisual brasileiro, mesmo em um mercado que tantas vezes tentou e tenta invisibilizar nossas contribuições.

Que esta seja só a primeira de muitas conversas aqui no Mundo Negro.

Alice Marcone (@alice.marcone)
Todxs NósManhãs de SetembroEu Vou Ter Saudades de Você

Foto: Reprodução

Ceci Alves (@ceu_dos_santos)
Doido LeléDona BejaCarlinhos Brown: Meia Lua Inteira

Foto: Reprodução

Chica Andrade (@chica_andrade_)
Estamos Todos AquiMeu Pai, o Almirante NegroSegura Essa Pose

Foto: Reprodução

Maria Shu (@shu.maria)
OniscienteBom Dia, VerônicaSessão de Terapia

Foto: Reprodução

Rastricinha Dorneles (@rastricinha)
Erê: Criança no AxéPara ItalianoA Lua e a Tempestade

Foto: Reprodução

Renata Di Carmo (@renata_di_carmo)
Vai Que ColaOs Quatro da Candelária(In)Vulneráveis

Foto: Reprodução

Renata Martins (@recine12)
Sem AsasMalhação: Viva a DiferençaHistórias (Im)possíveis

Foto: Reprodução

Sabrina Fidalgo (@sabrinafidalgoo)RainhaAlfazemaO Projeto

Foto: Reprodução

Taís Amordivino (@taisamordivino)
InsubmissasA Menina Que Queria VoarHistórias de Roteiristas Negros

Foto: Reprodução

Viviane Ferreira (@aquatuny)
Um Dia com JerusaÓ Paí, Ó 2Uma Família de Sorte

Foto: Reprodução

Luh Maza é cineasta e dramaturga. Foi roteirista e diretora em séries como Sessão de Terapia, Os Quatro da Candelária e Da Ponte Pra Lá e do longa Insubmissas. Em 2026 recebeu o Prêmio Shell de Teatro. Já colaborou com veículos como jornal Folha de S.Paulo, revista Cult e portais UOL e Yahoo. Também está nas redes sociais (@luhmaza).

Angela Davis e Ana Maria Gonçalves são destaques da programação literária da Casa Sesc na Flip 2026

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Foto: Djeneba Aduayom/nytimes/Léo Pinheiro/C41 ESTÚDIO/Divulgação

Casa Sesc reúne Angela Davis, Ana Maria Gonçalves, Wole Soyinka e Cidinha da Silva na Flip 2026, em Paraty, entre 23 e 26 de julho. Veja a programação completa.

A Casa Sesc amplia sua programação na Flip 2026 com uma agenda que reúne, entre 23 e 26 de julho, em Paraty, alguns dos principais nomes da literatura e do pensamento negro contemporâneo. O espaço do Sesc RJ recebe autores como Ana Maria Gonçalves, Socorro Acioli, Cidinha da Silva, Edimilson de Almeida Pereira, Monique Malcher e Muniz Sodré, além da já anunciada mesa entre Angela Davis e Wole Soyinka.

O encontro entre Angela Davis e Wole Soyinka acontece no sábado (25), às 18h, com o título “América e África: uma conversa Atlântica” e mediação de Flávia Oliveira. A mesa propõe uma reflexão sobre liberdade, pensamento crítico e as conexões históricas entre os dois continentes.

A programação também dedica espaço à produção intelectual brasileira. Ana Maria Gonçalves e Edimilson de Almeida Pereira participam da mesa “As muitas tramas de Minas”, com mediação de Tarso de Melo, sobre as trajetórias de dois autores que ajudaram a redefinir os rumos da literatura brasileira contemporânea. Já Muniz Sodré é entrevistado por Flávia Oliveira e Isabela Reis em uma edição especial do podcast Angu de Grilo.

Cidinha da Silva divide a mesa “Entre romances e contos: os limites dos gêneros no agora” com Carlos Eduardo Pereira, sob mediação de Yasmin Santos, para discutir os desafios de narrar o presente na literatura contemporânea. A programação soma ainda debates sobre inteligência artificial e narrativas, com a participação de Nina da Hora, Sil Bahia e Lu Ain-Zaila, e sobre tradução literária, com Flânoir Bruno, floresta e Stephanie Borges.

Além das mesas, o espaço recebe apresentações musicais e poéticas. Arnaldo Antunes abre a programação noturna de quinta-feira (23) com uma performance que explora as possibilidades sonoras da palavra. Anelis Assumpção apresenta o show “Pitadas de SAL” na sexta-feira (24), e Chico César leva ao palco o espetáculo “FOFO”, baseado em seu álbum mais recente, no sábado (25).

A programação inclui também atividades de acessibilidade, com Libras e audiodescrição em todos os dias de evento, e a performance “Na surdina”, que une literatura, gesto e língua de sinais em uma experiência voltada tanto para o público surdo quanto ouvinte.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

Local: Casa Sesc RJ, Flip 2026, Paraty
Classificação: livre
Acessibilidade: Libras e audiodescrição

QUINTA-FEIRA, 23 DE JULHO
10h às 11h15 — Pelo direito de ler e escrever, com Silvia Castrillón e Eliana Yunes, mediação de Adriana Ferrari
12h às 14h — Leituras poéticas com André Capilé e APÊAGÁ
14h às 15h15 — Mediação literária: encontros, territórios e sentidos da leitura, com Volnei Canônica e Bel Santos Mayer, mediação de Galeno Amorim
16h às 17h15 — Trânsito entre as Artes e a Ciência, com Ana Kemper e Castiel Vitorino Brasileiro, mediação de Moisés Nascimento
18h às 19h — Angu de Grilo entrevista Muniz Sodré
20h às 21h — Performance poética por Arnaldo Antunes

SEXTA-FEIRA, 24 DE JULHO
10h às 11h15 — A vida em estado de linguagem, com Calila das Mercês e Anelis Assumpção, mediação de Bianca Santana
12h às 14h — Leituras poéticas com Slam de Surdes e Valeska Torres
14h às 15h15 — Inteligência artificial, narrativas e poder: quem escreve o futuro?, com Nina da Hora, Sil Bahia e Lu Ain-Zaila, mediação de Joyce Freitas Brandão
16h às 17h15 — Entre romances e contos: os limites dos gêneros no agora, com Carlos Eduardo Pereira e Cidinha da Silva, mediação de Yasmin Santos
18h às 19h — As muitas tramas de Minas, com Ana Maria Gonçalves e Edimilson de Almeida Pereira, mediação de Tarso de Melo
20h às 21h — Show poético Pitadas de SAL, com Anelis Assumpção

SÁBADO, 25 DE JULHO
10h às 11h15 — Tradução como criação, com Flânoir Bruno, floresta e Stephanie Borges, mediação de Diogo Brunner
12h às 14h — Na surdina: performance literária em Libras e em Português, com Elinilson Soares e Lucas Sol
16h às 17h15 — O que nos assombra, com Socorro Acioli e Monique Malcher, mediação de Bianca Santana
18h às 19h — América e África: uma conversa Atlântica, com Angela Davis e Wole Soyinka, mediação de Flávia Oliveira
20h às 21h — Show “FOFO”, com Chico César

DOMINGO, 26 DE JULHO
10h às 11h15 — Apresentação da coleção De Bem do Sesc RJ: reflexões em educação ambiental, com Helena Oliveira

ATIVIDADES CONTÍNUAS
23 a 25 de julho, das 10h às 18h, e 26 de julho, das 10h às 14h — Mediação de leitura “Aconchego do Conto”, com a Cia. Trilhos
23 a 26 de julho — Intervenção poética “Biscoitinhos da Sorte Poéticos”, com Mikamesmo
23 a 26 de julho — Intervenção poética “Retire um Poema”, com Yassu Noguchi

ATIVIDADES EXTERNAS
23 e 24 de julho, das 10h às 16h — “Correio do Amor de Outrora: sua carta de amor por encomenda”, com Aline Miranda
25 de julho, das 10h às 16h, e 26 de julho, das 10h às 14h — “Converso com mães”, com Letícia Bassit

Jay-Z encerra série de shows e chama atenção pelo preparo físico aos 56 anos

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Foto : Getty Images

O rapper encerrou neste fim de semana três noites de shows em Nova York, celebrando os 30 anos de “Reasonable Doubt” e os 25 anos de “The Blueprint”, e voltou a ser elogiado pela energia em cima do palco.

Jay-Z encerrou, na madrugada de segunda-feira (13), uma residência de três noites no Yankee Stadium, em Nova York, dedicada aos 30 anos de “Reasonable Doubt” e aos 25 anos de “The Blueprint”. Aos 56 anos, o rapper voltou a repercutir nas redes sociais pela disposição física durante as apresentações, que somaram mais de seis horas de show ao longo do fim de semana.

O show de encerramento, batizado de “Extra Innings”, reuniu cerca de 50 músicas e se estendeu até as 3h da manhã, com participações de Beyoncé, Rihanna, Pharrell Williams, Jadakiss e Fat Joe, entre outros nomes. A revista Rolling Stone descreveu o artista acenando para o público ao fim da apresentação como se estivesse vivendo o melhor momento de sua vida, depois de horas seguidas no palco.

Foto: Getty Imagens

A publicação Essence classificou como impressionante a capacidade de Jay-Z sustentar um show daquela magnitude aos 56 anos. Já a Yahoo Entertainment registrou que o rapper exibiu controle de respiração, letras memorizadas e presença de palco que artistas mais jovens gostariam de igualar, mesmo após dias consecutivos de apresentações. O pesquisador Timothy Welbeck, da Temple University, afirmou à agência AFP que poucos artistas do hip-hop têm capacidade de lotar um estádio do porte do Yankee Stadium com músicas lançadas décadas atrás.

A reputação de Jay-Z pela boa forma física não é recente. Em novembro de 2020, quando tinha 50 anos, o rapper foi fotografado por paparazzi treinando na praia, no Havaí, em uma sessão de agachamentos ao lado de um pequeno grupo, registrada pelo Page Six. Seis anos depois, aos 56, ele voltou a ser associado à mesma imagem de disciplina física, agora sustentada por três noites seguidas de shows de mais de duas horas cada.

França e Espanha disputam hoje vaga na final da Copa do Mundo

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Foto: REUTERS/Claudia Greco TPX IMAGES OF THE DAY/Franck Fife/ AFP

França e Espanha se enfrentam nesta terça-feira (14) na 1ª semifinal da Copa do Mundo 2026, com Mbappé e Yamal em campo. Veja horário e onde assistir.

França e Espanha se enfrentam nesta terça-feira (14), às 16h no horário de Brasília, no AT&T Stadium, em Arlington, na primeira semifinal da Copa do Mundo de 2026. A partida coloca frente a frente os dois jogadores mais comentados do torneio, o francês Kylian Mbappé e o espanhol Lamine Yamal, e será transmitida pela CazéTV.

A Copa do Mundo de 2026 é a primeira da história disputada em três países ao mesmo tempo, Estados Unidos, México e Canadá, com 16 cidades sediando as 104 partidas do torneio. A grande maioria dos jogos, incluindo esta semifinal, acontece em território americano.

A França venceu o Grupo I com números expressivos, três vitórias sobre Senegal, Iraque e Noruega, 10 gols marcados e apenas dois sofridos. Depois de superar a Suécia nos 16-avos de final, a equipe de Didier Deschamps bateu o Paraguai por 1 a 0 nas oitavas, em gol de pênalti convertido por Mbappé, e avançou às semifinais ao derrotar o Marrocos por 2 a 0 nas quartas.

Vice-campeã nas duas últimas edições da Copa do Mundo, a França chega embalada pela regularidade do ataque comandado por Mbappé e Ousmane Dembélé, com Marcus Thuram e a dupla de zaga Ibrahima Konaté e Dayot Upamecano completando um time que busca o tricampeonato mundial.

A Espanha também não perdeu nenhuma partida na competição. A seleção fechou o Grupo H em primeiro lugar, com sete pontos e nenhum gol sofrido, depois de empatar com Cabo Verde, golear a Arábia Saudita por 4 a 0, com um gol de Lamine Yamal, e vencer o Uruguai por 1 a 0. Na sequência, bateu a Áustria por 3 a 0 nos 16-avos, eliminou Portugal por 1 a 0 nas oitavas, com gol de Mikel Merino nos acréscimos, e superou a Bélgica por 2 a 1 nas quartas.

Aos 18 anos, Lamine Yamal se consolidou como titular absoluto do time comandado por Luis de la Fuente e chegou a marcar na estreia diante da Arábia Saudita, tornando-se um dos jogadores mais jovens da história a balançar as redes em uma Copa do Mundo.

O confronto desta terça-feira reúne os dois jogadores mais jovens a se destacarem nesta edição do Mundial, ambos apontados como sucessores da geração de Messi e Cristiano Ronaldo no futebol mundial. Mbappé chega em busca de sua terceira final consecutiva de Copa do Mundo, enquanto Yamal tenta levar a Espanha à decisão pela primeira vez desde o título de 2010.

O vencedor da partida aguarda a definição da segunda semifinal, marcada para quarta-feira (15), para conhecer o adversário na final da Copa do Mundo de 2026.

Mulheres negras avançam, mas violência doméstica cresce 185%

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Mulher negra em ambiente universitário ilustrando dados da pesquisa
Imagem gerada por IA

Estudo analisa mudanças entre 2015 e 2025 e identifica conquistas na educação e na política, mas também desigualdades persistentes no trabalho, na saúde e na segurança 

A última década foi marcada por conquistas importantes e desigualdades persistentes na vida das mulheres negras brasileiras. É o que mostra o estudo “Da Marcha ao Bem Viver: uma década de avanços, desafios e disputas pelos direitos das mulheres negras no Brasil”.

A pesquisa analisa diferentes bases de dados e políticas públicas implementadas entre 2015 e 2025 nas áreas de educação, trabalho, saúde, direitos reprodutivos, segurança pública, justiça climática e representação política.

O levantamento considera o intervalo entre as duas Marchas das Mulheres Negras realizadas em Brasília. A primeira reuniu entre 70 mil e mais de 100 mil participantes em novembro de 2015. Dez anos depois, a segunda mobilização reuniu cerca de 300 mil pessoas, segundo estimativa das organizadoras, com delegações de mais de 40 países.

As mulheres negras somam atualmente mais de 60 milhões de pessoas e representam aproximadamente 28% da população brasileira. Apesar de formarem o maior grupo populacional do país, sua presença nos espaços de decisão política e nas áreas profissionais de maior remuneração permanece distante dessa proporção.

Produzido por Gênero e Número, Observatório da Branquitude e Oxfam Brasil, em parceria com a Marcha das Mulheres Negras, o estudo está organizado em sete capítulos e busca identificar o que mudou e quais reivindicações permanecem atuais dez anos depois da primeira mobilização. 

Presença nas universidades quase triplicou

A educação aparece como uma das áreas com os avanços mais expressivos. Entre 2010 e 2022, o número de mulheres negras nas universidades públicas passou de 1,9 milhão para 5,7 milhões. A participação desse grupo no corpo discente cresceu de 15% para 22%.

No período analisado, o número de mulheres negras com ensino superior completo também aumentou 194%. Os dados refletem os efeitos das políticas de ações afirmativas e da ampliação do acesso à graduação, conquistas construídas a partir da mobilização histórica do movimento negro.

Esse crescimento, contudo, não ocorreu da mesma forma em todas as áreas. Mulheres negras permanecem mais presentes em cursos como pedagogia, enfermagem e letras, enquanto medicina, direito e engenharia ainda registram maior concentração de estudantes e profissionais brancos.

A desigualdade também se manifesta na pós-graduação e na composição dos corpos docentes. Segundo o levantamento, ainda existem programas e departamentos universitários sem presença de professores negros.

Para Manuela Thamani, diretora-executiva do Observatório da Branquitude, os avanços não foram suficientes para romper a associação entre determinados espaços profissionais e a figura do homem branco.

No ensino básico, a implementação da Lei nº 10.639/2003 continua distante do que estabelece a legislação. A norma determina a inclusão da história e da cultura afro-brasileira nos currículos escolares, mas 53% das secretarias municipais de Educação ainda trabalham esses conteúdos de maneira esporádica, frequentemente concentrada no mês de novembro.

Registros de violência doméstica cresceram 185%

A segurança pública apresentou um dos cenários mais preocupantes da década. Entre 2014 e 2024, os registros de violência doméstica cresceram 145% no Brasil. Entre as mulheres negras, o aumento chegou a 185%, enquanto entre as mulheres brancas foi de 92%.

Em 2024, o país registrou 1.492 feminicídios. Mulheres negras representaram 63,6% dos casos, segundo os dados reunidos pelo estudo. A maioria dos crimes ocorreu dentro de casa e foi praticada por companheiros ou ex-companheiros.

A pesquisa ressalta que os avanços em outras áreas não garantiram, na mesma proporção, o direito à vida e à segurança. Também recomenda que o quesito raça ou cor se torne obrigatório nos registros produzidos pelos sistemas de segurança pública e de Justiça, permitindo acompanhar as desigualdades e orientar políticas específicas.

Responsabilidade pelo cuidado afasta mulheres negras do trabalho

A distribuição desigual do trabalho de cuidado também continua limitando o acesso à renda, à educação e a empregos formais. Entre 2015 e 2024, aumentou 22% o número de mulheres negras que deixaram de procurar trabalho para cuidar da casa ou de familiares. Entre as mulheres brancas, houve redução de 9%.

No trabalho doméstico remunerado, a pesquisa identificou uma mudança geracional. A presença de mulheres negras mais jovens nessas atividades diminuiu, enquanto cresceu a participação de trabalhadoras com idades entre 41 e mais de 60 anos.

O dado chama atenção para as condições de trabalho, saúde e acesso à aposentadoria das profissionais mais velhas. O estudo defende que o cuidado seja reconhecido como uma atividade estruturante da economia e incorporado ao planejamento das políticas públicas.

Mortalidade materna permanece concentrada entre mulheres negras

Nos direitos reprodutivos, a proporção de mulheres negras entre os óbitos maternos permaneceu inalterada. Elas representavam 64% dessas mortes em 2015 e continuaram correspondendo ao mesmo percentual em 2024, mesmo com uma redução geral de 21% na mortalidade materna no país.

A pesquisa também aponta desigualdades no acesso ao aborto previsto em lei. Mulheres negras aparecem com maior frequência nos registros de aborto espontâneo, mas têm menor acesso ao procedimento legal.

A implementação efetiva da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra está entre as recomendações, considerando o impacto do racismo na qualidade do atendimento, no acesso aos serviços e nos indicadores de saúde.

Representação política cresce, mas permanece desigual

Na política, a participação de mulheres negras apresentou crescimento, embora elas continuem sub-representadas. Entre 2018 e 2022, a presença desse grupo entre as mulheres eleitas para o Congresso Nacional passou de 17% para 31%.

A diferença nas chances de eleição, no entanto, segue expressiva. A taxa de sucesso eleitoral dos homens brancos foi de 8,8%, quase seis vezes superior à registrada entre mulheres negras, de 1,5%.

Para Vitória Régia da Silva, diretora-executiva da Gênero e Número, os avanços são resultado direto da organização e da incidência política das mulheres negras, enquanto a continuidade das desigualdades está ligada às escolhas institucionais e à distribuição desigual de poder, recursos e direitos.

O estudo recomenda a ampliação das cotas para mulheres negras em concursos públicos, a adoção de um orçamento público sensível a gênero e raça e o fortalecimento de políticas permanentes, menos vulneráveis a interrupções provocadas por mudanças de governo.

Julianne Nestlehner, gerente de programas da Oxfam Brasil, destaca que muitas reivindicações registradas na Carta da Marcha das Mulheres Negras de 2015 continuam atuais. O documento, entregue à Presidência da República ao final da primeira mobilização, já reivindicava medidas relacionadas à segurança, à saúde, ao trabalho digno, à educação e à participação política.

O estudo será lançado nesta terça-feira, 14 de julho, às 19h30, no Cine Glauber Rocha, em Salvador. A entrada é gratuita, e a retirada dos ingressos começa às 18h30.

Homens negros se unem para exigir transparência e respostas na morte de Nolan Wells nos EUA

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Personalidades negras e Nolan Wells
Fotos: Getty Images; Divulgação; e Reprodução

Homens negros e famosos se mobilizaram na última semana para apoiar a família de Nolan Xavier Wells, o jovem de 18 anos encontrado morto após desaparecer durante um passeio à Ilha Horn, em Mississippi. A série de ações — que inclui representação legal, financiamento de autópsia independente, cobertura de custos funerários e doações diretas — transforma o caso em um ponto de atenção nos Estados Unidos por uma investigação completa e transparência.

Nolan desapareceu em 4 de julho, dia em que ele e amigos visitaram a ilha, e foi encontrado morto na água dois dias depois. Fotos daquele dia mostraram Nolan como o único jovem negro em um grupo, o que alimentou suspeitas e debates nas redes sociais sobre possíveis motivações raciais ou negligência investigativa, em um estado com histórico racial conturbado como o Mississippi.

Nolan Xavier Wells, jovem encontrado morto após passeio nos EUA, com amigos
Foto: Reprodução/ Instagram

O advogado de direitos civis Ben Crump assumiu a representação da família Wonsley. Além de oferecer assistência jurídica, ele articula uma rede de apoio e exige responsabilização por parte das autoridades responsáveis pela investigação. Em pronunciamentos, Crump afirmou que a família quer garantias de que os fatos serão apurados sem conflitos de interesse e com total transparência.

Colin Kaepernick, ex-jogador de futebol americano e ativista dos direitos civis, financiou a realização de uma autópsia independente conduzida por um patologista forense sem vínculos com as autoridades locais. A iniciativa busca fornecer à família resultados médicos claros e imparciais em paralelo ao trabalho do gabinete do legista do Condado de Jackson e do legista estadual. Segundo Crump, a família solicitou esse exame externo “porque não faz sentido” confiar apenas em procedimentos locais diante das dúvidas que cercam o caso.

O cineasta e produtor Tyler Perry assumiu a logística e os custos do funeral de Nolan, enquanto outras personalidades negras se envolveram com doações diretas à família na campanha criada para arcar com despesas imediatas. O empresário Byron Allen doou US$ 100 mil diretamente para a campanha GoFundMe da família, a maior doação individual realizada. O ator e comediante Lil Rel Howery também enviou uma contribuição pessoal de US$ 1.000 à família.

Contexto e preocupações da família

Após o grupo de amigos retornar da ilha sem Nolan, sua família reportou o desaparecimento e pediu ajuda nas redes sociais. Dias depois, um corpo compatível com sua descrição foi encontrado na água. Autoridades locais informaram que, inicialmente, não havia sinais visíveis de trauma, mas exames toxicológicos e outros laudos foram solicitados para determinar a causa da morte. O gabinete do legista pediu que a autópsia fosse realizada também no nível estadual devido ao “estado” do corpo quando encontrado.

A família, no entanto, manifestou desconforto com declarações oficiais que apressaram a hipótese de afogamento acidental. “Nós queremos transparência”, disse Christine Wonsley, mãe de Nolan, em coletiva. Os pais relataram dúvidas sobre por que Nolan teria se separado do grupo e por que não estava com o celular. Em resposta às pressões públicas e às especulações nas redes, o xerife do Condado de Jackson afirmou que os investigadores trabalham para estabelecer os fatos por meio de testemunhos, evidências físicas e imagens originais do dia, e pediu tempo para apuração. “Pelas pessoas com quem conversamos, parece que ele optou por ficar na ilha presumindo que voltaria ao continente com outra pessoa“, disse o xerife à Associated Press antes do corpo do jovem ser encontrado sem vida.

Autoridades afirmam que seguem verificando testemunhos, imagens e evidências físicas para reconstruir as últimas horas de Nolan. Resultados toxicológicos e laudos adicionais são aguardados. A autópsia independente custeada por Kaepernick foi solicitada pela família; seus resultados devem complementar (e, para a família, validar) as conclusões oficiais assim que forem divulgados. Enquanto isso, Ben Crump e a família continuam a pedir acesso irrestrito a informações e a responsabilização caso haja irregularidades.

Permanece sem resposta o motivo pelo qual Nolan se separou do grupo, por que não estava com o celular e se houve algum conflito na ilha. Investigadores pediram à população que compartilhe fotos e vídeos originais do dia 4 de julho, especialmente imagens que possam mostrar a presença de Nolan naquele momento. A família enfatiza que busca apenas uma apuração honesta e transparente para entender o que realmente aconteceu.

Letramento racial nas empresas não pode ser restrito a uma pauta de recursos humanos

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Pessoas diversas em reunião de trabalho expressando colaboração e seriedade.
Foto: IA

Por: Rachel Maia

Uma vez que as empresas são feitas de pessoas, não há como discutir assuntos raciais sem a coparticipação da sociedade. Sempre que um caso ganha repercussão nas mídias, há uma tendência de concentrar a atenção no ato falho, na ação criminosa ou no comportamento individual. Mas é o pós-mídia que merece maior reflexão. O que acontece depois da injúria racial e da indignação? Como as instituições, as escolas, as universidades, as igrejas e até mesmo as rodas de conversa entre amigos transformam o crime de racismo em combate coletivo?

Costumo dizer que mudanças exigem intenção seguida de ação. Todo indivíduo precisa se compreender socialmente como corresponsável pelo bom funcionamento das leis e dos princípios que regem a convivência em sociedade. Essa reflexão faz diferença porque o racismo não é um fenômeno que nasce nas empresas; ele chega até elas por meio das pessoas, das crenças, dos silêncios e das estruturas sociais que moldam as relações cotidianas.

Por isso, quando um crime de racismo ocorre no ambiente corporativo, a discussão não pode se limitar ao desligamento do funcionário ou à emissão de uma nota de repúdio. A legislação brasileira trata o racismo como crime, mas a punição, não é suficiente para enfrentar um problema cuja origem antecede o episódio em si. Precisamos entender — e combater — determinadas “piadas”, expressões e comportamentos que se naturalizam a ponto de muitos sequer reconhecerem a gravidade de seus atos.

O letramento racial ganhou espaço nas empresas como uma ferramenta para ampliar a consciência sobre discriminação e desigualdades. Mas é impossível esperar que treinamentos corporativos resolvam sozinhos um problema que acompanha a formação social do país. A empresa pode estabelecer regras e criar mecanismos de responsabilização, mas não substitui a família, a escola, os espaços religiosos, os meios de comunicação e as demais instituições que participam da construção de valores.

Se o racismo é um crime, sua prevenção também deve ser encarada como uma responsabilidade compartilhada. O letramento racial não pode ser entendido apenas como uma pauta de recursos humanos ou uma resposta às exigências de governança e reputação. Temos, juntos, que revisitar hábitos, questionar privilégios e compreender que a convivência democrática exige consciência.

Talvez o maior desafio esteja em abandonar a crença de que os casos de racismo são desvios ocasionais provocados por indivíduos isolados. Se assim fosse, não veríamos episódios semelhantes se repetindo em diferentes setores do país. O que se repete merece ser analisado como estrutura social, e não apenas como uma sucessão de exceções.

As empresas têm o dever de criar ambientes seguros e de agir com rigor diante de práticas discriminatórias. Mas a sociedade também precisa se perguntar que valores está transmitindo às próximas gerações. Sabemos que nenhuma organização contrata preconceitos; ela contrata pessoas. E pessoas carregam consigo referências que foram construídas muito antes da assinatura de um contrato de trabalho.

Discutir o tipo de sociedade que seguimos formando é fundamental para tratar do assunto de maneira efetiva. Porque a mudança institucional depende de políticas, mas também de escolhas individuais. As lideranças precisam ter consciência das leis e das estruturas reais da sociedade. É preciso compreender que nenhuma transformação coletiva acontece quando a responsabilidade é minimizada, atribuída ao outro, ou quando o arrependimento acontece apenas nas plataformas de comunicação. Que o antirracismo ecoe até que toda a sociedade compreenda os malefícios do racismo.

Festival Pacto das Pretas reúne lideranças em três capitais 

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Mulheres negras reunidas no Festival Pacto das Pretas
Foto: Divulgação

Circuito começa em Salvador, passa pelo Rio de Janeiro e termina em São Paulo, com expectativa de reunir 1,5 mil profissionais, executivas e empreendedoras 

O Festival Pacto das Pretas realiza sua quinta edição neste mês de julho com um circuito dedicado à liderança, ao empreendedorismo e à participação de mulheres negras em espaços de decisão. A programação começa em Salvador, no dia 17, passa pelo Rio de Janeiro, no dia 21, e termina em São Paulo, no dia 24.

Com o tema “Movimento: Mulheres Negras Criando”, o festival prevê reunir presencialmente cerca de 1,5 mil executivas, empreendedoras, lideranças sociais, representantes do poder público e profissionais ligados à inovação, à economia criativa e à governança corporativa.

O evento realizado pelo Pacto de Promoção da Equidade Racial integra a agenda do Julho das Pretas e do Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho. A proposta é ampliar as conexões entre mulheres negras e diferentes setores da sociedade, com atenção à presença dessas profissionais em cargos executivos, conselhos de administração e espaços de formulação de políticas públicas. 

O Pacto das Pretas é uma rede formada por mulheres negras e organizada em torno de ações antirracistas, formação de lideranças, valorização profissional e construção de políticas públicas voltadas às necessidades desse grupo. No festival, essa atuação se traduz em painéis, conferências e workshops distribuídos entre os períodos da manhã e da tarde.

Liderança, tecnologia e acesso a espaços de decisão

A programação vai abordar inteligência financeira, desenvolvimento de carreiras executivas, inovação tecnológica, empreendedorismo, economia criativa, segurança jurídica e políticas de enfrentamento às desigualdades de gênero e raça.

A atriz e empresária Isabel Fillardis e a escritora e comunicadora Luna Vitrolira estão entre as lideranças que participam do circuito. Os encontros também devem aproximar profissionais negras de representantes de empresas, organizações sociais, universidades e instituições públicas, promovendo trocas de experiência.

Para Wânia Sant’Anna, historiadora e presidente do Conselho Deliberativo do Pacto, o objetivo é fortalecer o protagonismo das mulheres negras por meio da criação de oportunidades e da ampliação das conexões entre diferentes setores.

“Nosso objetivo é fortalecer o protagonismo feminino negro por meio de diálogos estratégicos, geração de oportunidades, desenvolvimento de lideranças e ampliação de conexões”, afirma.

Festival apresenta plataforma voltada à formação antirracista

A edição de 2026 também marcará o lançamento da Black Hub, plataforma digital voltada à educação antirracista, à cultura e ao desenvolvimento profissional. O ambiente reunirá conteúdos, publicações e projetos elaborados para apoiar empresas, organizações e profissionais na adoção de práticas comprometidas com a equidade racial.

A plataforma também abrigará o livro “Vozes que Ocupam”, coletânea composta por 16 crônicas inéditas. A obra reúne textos de nomes da cultura, da comunicação, da educação e da sociedade brasileira, como Rodrigo França, Érica Januza, Diogo Almeida, Dom Filó, Pedro Rajão e Isabel Fillardis.

Executivas selecionadas participam de imersão

O festival receberá 30 executivas selecionadas pelo Programa Pacto Transforma. A iniciativa identifica profissionais negras seniores de diferentes regiões do país e oferece formação direcionada à atuação em conselhos de administração e cargos de alto escalão.

Durante o circuito, as participantes terão uma imersão presencial e poderão estabelecer contato com outras lideranças e representantes de organizações parceiras. A proposta é ampliar a visibilidade dessas profissionais e criar caminhos para que mais mulheres negras cheguem a posições com poder efetivo de decisão.

A edição conta com apoio de empresas como Aegea, Caixa Capitalização, Banco do Brasil, Vivo, XP Inc. e Natura. Já a Black Hub foi viabilizada pela Lei Rouanet e recebeu investimento de organizações como Itaú, Caixa Capitalização, Bayer e Fujifilm.

Circuito começa em Salvador

A primeira etapa será realizada em 17 de julho, no Auditório Makota Valdina, localizado na Casa das Histórias de Salvador. Quatro dias depois, em 21 de julho, o festival chega ao Museu de Arte do Rio, no Rio de Janeiro.

O encerramento acontece em 24 de julho, no Centro Cultural São Paulo. Na capital paulista, a programação está prevista para ocorrer das 9h às 20h. As inscrições para as três cidades são realizadas pela plataforma Sympla, mediante cadastro e disponibilidade de vagas. A etapa de São Paulo já está disponível na plataforma. 

FOTO 3X4: Hiran e o rap que insiste em ampliar as próprias fronteiras

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Retrato artístico em close do cantor Hiran.
Foto: Divulgação/Rapbox

Por: Rodrigo França

Toda geração produz artistas que obrigam uma linguagem artística a rever as próprias certezas. Hiran pertence a esse grupo. Sua presença desafia uma narrativa construída durante décadas, a de que determinados espaços culturais pertencem apenas a determinados perfis e de que determinadas identidades não encontrariam lugar dentro deles.

O rap nasceu como uma das mais importantes expressões da população negra periférica. Transformou dor em poesia, revolta em consciência política e sobrevivência em arte. Denunciou o racismo, a violência policial, a desigualdade social e a ausência do Estado. Mas, como qualquer manifestação humana, também carregou contradições. Entre elas, a dificuldade histórica de acolher plenamente a diversidade sexual.

É justamente nessa fissura que Hiran construiu sua trajetória.

Aos 31 anos, o artista vive um dos momentos mais importantes da carreira. Pouco mais de dois meses após lançar IMUNDO, disco que marca seu retorno ao rap de maneira direta e madura, ele passou a integrar dois dos projetos mais importantes do RapBox, plataforma que há quase quinze anos ajuda a revelar e consolidar nomes da cena nacional. Entre eles estão o single Escombros e a terceira edição da série LEGADO, uma cypher formada exclusivamente por artistas LGBTQIA+.

O reconhecimento confirma uma caminhada construída com consistência. Mas também escancara o quanto ainda há de resistência quando pessoas LGBTQIA+ ocupam espaços historicamente considerados masculinos e heteronormativos.

Desde o lançamento de IMUNDO, Hiran passou a receber uma avalanche de comentários homofóbicos nas redes sociais. “Rap nunca vai fechar com LGBT”, escreveu um internauta. Outro afirmou que o cantor “merecia receber todo o nosso ódio”. São frases que revelam menos sobre o artista do que sobre uma parte da sociedade que ainda acredita que identidade e talento precisam obedecer às mesmas regras.

Hiran escolheu responder com permanência. “Quanto mais tentam me excluir, mais eu entendo a importância de estar aqui. Minha existência dentro do rap já é uma resposta para quem acha que pessoas LGBTQIA+ não têm espaço na cultura”, afirma.

Sua fala revela uma compreensão profunda do próprio papel. Em vez de transformar o preconceito no centro da narrativa, ele faz da música o principal instrumento de transformação. Essa postura tem raízes muito anteriores ao sucesso.

Nascido em Salvador e criado em Alagoinhas, no agreste baiano, Hiran costuma dizer que viveu uma infância típica do interior. Caminhava pelas ruas sem medo, sonhava olhando para um mundo que parecia distante e encontrava na televisão uma janela para outras possibilidades.

Foi diante da MTV que aconteceu seu primeiro encantamento. Enquanto outras crianças passavam horas assistindo a desenhos, ele ficou hipnotizado pelos videoclipes. Ali descobriu o Hip Hop, o Soul, o Pop e o R&B. Não demorou para entender que queria dedicar a vida à música.

“Nunca tive outro objetivo desde então”, recorda.

A influência da família foi decisiva. Foram seus pais que despertaram esse interesse e permitiram que a música ocupasse um espaço central dentro de casa. Esse ambiente ajudou a formar um artista que jamais enxergou fronteiras rígidas entre os gêneros musicais.

Racionais MC’s, MV Bill e Thaíde dividem espaço, em sua formação, com Jay Z, Beyoncé, Alicia Keys e Mariah Carey. Mais tarde, vieram a música popular brasileira e as sonoridades da Bahia. Essa mistura explica por que Hiran nunca pareceu interessado em seguir fórmulas prontas.

Seu trabalho sempre esteve mais próximo da liberdade do que da obediência estética.

Essa característica aparece de maneira ainda mais evidente em IMUNDO.

O título do disco, por si só, provoca reflexão. Durante séculos, pessoas negras e LGBTQIA+ foram tratadas como indignas, desviantes ou “imundas”. Ao escolher essa palavra como nome de seu álbum, Hiran parece realizar um gesto de ressignificação. O que antes era usado como insulto transforma se em linguagem artística. O estigma vira manifesto.

Não por acaso, o projeto reúne participações de artistas como Luedji Luna, Tássia Reis, Tom Veloso, Iara Rennó, Amabbi, Preta Chave, Del Jay, Ícaro Santiago e Thay Piazzi, ampliando o diálogo entre diferentes sonoridades da música brasileira.

O impacto do álbum ultrapassou a crítica especializada.

Quando os ataques aumentaram, importantes nomes da cultura brasileira decidiram responder coletivamente. Zélia Duncan convidou Hiran para dividir o palco da Concha Acústica, em Salvador. Djonga fez questão de leva-lo para seu show em Aracaju e, diante do público, criticou abertamente o preconceito dentro do próprio rap. Nas redes sociais, vieram manifestações de apoio de artistas como Luedji Luna, Teresa Cristina, Larissa Luz, Johnny Hooker, Ebony e Letrux.

Mais do que solidariedade, esses gestos revelam uma transformação em curso.

A presença de Hiran já não representa apenas uma experiência individual. Ela simboliza um movimento de ampliação do próprio Hip Hop brasileiro, que passa a reconhecer que defender liberdade também significa defender diferentes formas de existir.

Há outro aspecto pouco conhecido que ajuda a compreender sua personalidade.

Enquanto muitos imaginam um artista dedicado exclusivamente à música, Hiran cultiva uma paixão intensa pela Física. Estuda diariamente temas ligados ao universo e às grandes questões da ciência. É um detalhe aparentemente simples, mas revelador. Sua curiosidade ultrapassa a arte. Ele demonstra a mesma vontade de compreender o cosmos que dedica às relações humanas.

Essa inquietação aparece em suas respostas. Quando perguntado sobre o legado que deseja deixar, evita qualquer grandiosidade. Prefere reconhecer a potência do próprio caminho.

Sair de Alagoinhas, construir uma carreira independente, lançar cinco discos em menos de uma década, preparar a estreia de uma turnê nacional, atuar pela primeira vez na televisão e finalizar seu segundo livro já representam, para ele, uma revolução suficiente.

Existe uma beleza rara nessa escolha.

Em tempos em que a indústria costuma medir sucesso apenas por números, Hiran parece interessado em algo mais profundo. Sua carreira não busca apenas ocupar espaço. Busca ampliar o espaço para quem virá depois.

No fim das contas, sua maior contribuição para a música brasileira talvez não esteja apenas nas canções. Está na coragem de lembrar que o rap nasceu para confrontar exclusões, jamais para produzi las.

Cada palco ocupado por Hiran reafirma essa ideia.

Sua existência artística continua sendo uma pergunta dirigida ao próprio Hip Hop brasileiro. E a resposta, felizmente, parece estar sendo escrita a cada novo verso.

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