Dendê, feijão-fradinho e sabedoria ancestral: o que a cozinha de terreiro sempre soube sobre nutrição

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Dendê, feijão-fradinho e sabedoria ancestral: o que a cozinha de terreiro sempre soube sobre nutrição
Foto: gerada por IA

Feijão-fradinho, azeite de dendê, camarão e cebola. Quatro ingredientes que, juntos, formam o omolocum, prato sagrado de Oxum preparado nos terreiros de candomblé há séculos. O que para muitos parece ritual exótico é, na prática, um sistema alimentar com lógica nutricional, calendário próprio e função social comprovada. Três profissionais negras debatem esse tema na campanha #IngredientePrincipal, iniciativa global do TikTok que o Brasil inaugura em parceria com o Mundo Negro e o Guia Black Chefs.

Sistema alimentar, não folclore

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Iyá Sônia Oliveira (@iyasoniaoliveira) explica que cada ingrediente do omolocum tem uma função precisa: o feijão-fradinho é rico em fibras, o dendê concentra vitaminas A e E, o camarão oferece proteína com baixo teor de gordura e a cebola é fonte de vitamina C e vitaminas do complexo B. “Valorizar pratos tradicionais como o Omolocum é valorizar a cultura, ciência e saúde. Nutrir o corpo também é nutrir a nossa identidade e a nossa história”, afirma. O que os terreiros já praticavam há gerações, a ciência da nutrição levou décadas para sistematizar. Além disso, a cozinha de terreiro obedece a um calendário ritual rigoroso: cada orixá tem seus pratos, seus dias e seus ingredientes específicos, o que configura, muito antes de qualquer tendência contemporânea, um modelo de alimentação sazonal e funcional.

Da marmita ao aquilombamento

Em Aracaju, Bianca Oliveira (@user031374378) transformou esse entendimento em espaço físico. A Casa do Dendê, que ela idealizou e conduz, nasceu de marmitas e se tornou referência de cozinha afro-brasileira na capital sergipana, servindo acarajé, abará e feijoada sempre com o azeite de dendê como fio condutor. Chef “soterosergipana”, nascida em Salvador e radicada em Aracaju, Bianca é mulher preta, lésbica, mãe solo e filha de axé, cuja formação não veio de escolas tradicionais de gastronomia, mas das suas origens e da reconexão com a ancestralidade. “Uso a minha cozinha com a história e a cultura africana, desenvolvendo um trabalho de fortalecimento da identidade negra e da ancestralidade”, diz. Finalista do Top 10 da Expo Favela e embaixadora do Fundo Agbara e do Sebrae, ela chegou à campanha com uma cozinha que já é, por si mesma, um manifesto: o dendê não faz mal, o acarajé não é comida menor e o terreiro nunca foi lugar de atraso.

Fome, terreiro e política

A dimensão coletiva da cozinha sagrada é o que orienta a pesquisa de Bruna Crioula (@brunacrioula), nutricionista, mestra em ciências sociais e matrigestora da Crioula Curadoria Alimentar. Ela mapeia como a comida de terreiro funcionou historicamente como rede de segurança alimentar para populações negras periféricas, uma estratégia de enfrentamento à fome que o discurso dominante nunca nomeou como tal. Bruna escolheu a nutrição ainda no ensino médio, após um trabalho escolar sobre a fome, mas encontrou no curso uma lacuna que a desafiou: referências negras e discussões sobre saúde da população negra simplesmente não existiam na grade. A resposta foi construir uma formação paralela, transitando por jornalismo, ciências sociais e economia, até articular o que ela define como alimentação numa afroperspectiva. “Ancestralidade alimenta e esse despertar para nossas heranças e memórias agroalimentares é a nutrição que me representa”, resume.

O que une Iyá Sônia, Bianca e Bruna é o mesmo diagnóstico: o racismo religioso no Brasil também opera na mesa, ao demonizar o dendê, subestimar o acarajé e ignorar a sofisticação nutricional dos pratos sagrados. As três respondem a isso com prática, pesquisa e cozinha no fogo aceso.

Os conteúdos da campanha estão disponíveis no TikTok @sitemundonegro e no portal Mundo Negro. #IngredientePrincipal #TheMainIngredient #ComidaSagrada #CozinhaDeTerreiroé #RacismoReligioso

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