A nova adaptação de Hedda, dirigida por Nia DaCosta, estreou em 2025 em cinemas selecionados e passa a estar disponível no Prime Video a partir de 29 de outubro. O filme revisita a peça Hedda Gabler, de Henrik Ibsen, e a transporta para uma Inglaterra dos anos 1950, com escolhas estéticas modernas que colocam a protagonista no centro de tensões sociais, emocionais e identitárias.
Desde o lançamento, Hedda tem atraído atenção da crítica internacional por sua abordagem visual ousada e por reimaginar a personagem em novos contornos. A direção de DaCosta, segundo analistas, opta por “tweaks” relevantes, incluindo a reinterpretação de personagens — para expandir os temas centenários da obra.
Uma das partes mais valorizadas nas críticas é a atuação de Tessa Thompson. Segundo o New Yorker, ela entrega uma performance “intensa, nuançada e digna de prêmios”, que sustenta a narrativa e dá novas camadas à personagem. The New Yorker Já a Washington Post afirma que sua Hedda exala “glamour, inquietação e agência subversiva” no contexto opulento e caótico criado por DaCosta.
Além do mérito artístico, a escolha de Thompson para o papel foi interpretada por observadores como parte de um debate maior sobre representatividade. O protagonismo negro em uma releitura de um clássico europeu como Hedda Gabler reforça a discussão sobre quem tem acesso a papéis de peso na cultura tradicional, e como essas releituras podem oferecer novas perspectivas, sem apagar a essência da obra original.
Mais do que letras de protestos, Devotos, a banda de punk hardcore pernambucana, também transforma seus shows em um culto aos orixás! Para o especial do Novembro Negro, eu entrevistei o vocalista Cannibal, após uma recente apresentação da banda na abertura do grupo Nação Zumbi, em São Paulo, celebrando 30 anos do álbum ‘Da Lama ao Caos’. Com o estilo , eu presenciei não apenas músicas contra a desigualdade social, mas a celebração às religiões de matriz africana e conheci a história do ex-escravizado e líder quilombola, Benedito Meia-Légua, que inspirou o single ‘Mas Será o Benedito?’.
“Trazer os orixás para dentro da nossa música punk não é fácil porque a gente é de outra época, de uma pós-ditadura, de punks muito ‘brabos’, muito revoltados. A religião, seja ela qual for, passava muito longe do movimento punk. Mas me reprimir do que eu estou sentindo e do que eu quero passar não era muito legal”, relatou o vocalista para o Mundo Negro. “Eu não sou de dentro da religião de matriz africana, eu não frequento, mas eu leio e tenho muito respeito. Eu cultuo Exu e eu sei a força que tem esse orixá. E uma das coisas que a gente reivindica dentro do punk é a liberdade de expressão”, afirmou.
Já a história que inspirou o single ‘Mas Será o Benedito?’, é sempre contada antes de tocar no show. A expressão popularmente conhecida no Brasil, é inspirada em Benedito Caravelas, mais conhecido como Benedito Meia Légua. O ex-escravizado e líder quilombola nascido em Espírito Santo, fazia constantes viagens a pé para o Nordeste e tinha como missão libertar pessoas escravizadas. Ele ficou famoso por invadir fazendas, quebrar senzalas e organizar fugas. “Mas Será o Benedito?”, seria uma expressão muito dita na época, destacando sua importância na luta contra a escravidão.
Cannibal (Foto: @Renata Victor)
“Quando eu descobri a história do Benedito, eu me encantei e vi como nós temos tantos protagonistas aqui dentro do Brasil que não são conhecidos. Uma frase tão impactante, existiu uma pessoa com esse nome e eu não sabia. É sempre bom a gente enaltecer essas pessoas que são protagonistas. Eu acho que uma das coisas que o fascismo fez, que a sociedade fez, foi esconder essas pessoas fortes da negritude, daquela época”, contou Cannibal, que cresceu ouvindo essa expressão de sua mãe.
Em agosto deste ano, Devotos foi reconhecida como Patrimônio Imaterial do Recife. A banda formada por Cannibal, Neilton e Celo Brown, surgiu da periferia de Alto do José do Pinho em 1988, mantendo a mesma formação do ano de surgimento ao longo dessas quase quatro décadas de carreira. Ao falar sobre a relação com a banda Nação Zumbi e o movimento manguebeat, que também surgiu no final dos anos 90, Cannibal destaca a força cultural de Recife que permanece até hoje.
“Devotos e Nação em cima de um palco é uma combinação muito perfeita da história pernambucana. Um é do mangue do asfalto e outro é do morro da periferia. E quando os dois se juntam, aquilo ali vira uma mágica. A gente não quer saber se um é punk, se o outro é do mangue, se o outro é do rap, se o outro é do samba. A gente quer estar junto porque a gente quer somar nossas músicas”.
Leia a entrevista completa abaixo!
Foto: (@fraan_silvafotografia)
1. O single “Mas será o Benedito?” apresenta ao público a história de um ex-escravizado. Como nasceu essa música e o que ela representa dentro do momento atual da banda e do Brasil?
A música “Mas será o Benedito?” surge a partir do momento que eu descobri a história. Era uma frase que minha mãe falava muito quando a gente estava perreando dentro de casa. E a mãe dela também falava muito para ela. Era uma frase muito comum de se falar na nossa época de criança. Ouvia muito as mães dos meus amigos falarem quando estavam reclamando com eles: “Será o Benedito, que esse menino não fica quieto?”. E até então, eu não sabia da história. Quando a gente descobre a história, eu como músico, logicamente me inspira. Me inspira por duas coisas. Uma que é justamente o lado positivo dessa tecnologia que a gente tem agora, que tem muitas coisas que estão no livro, mas são livros muito escondidos da gente, população negra. Então você tem que tá praticamente dentro daquele círculo de pessoas que estão mais ligadas naquilo. Quando você não tá, aí a internet te ajuda a isso. Quando eu descobri a história do Benedito, de quem ele era, do que ele fez, eu me encantei e vi como nós temos tantos protagonistas aqui dentro do Brasil que não são nem conhecidos, nem reconhecidos e muito menos lembrados. Uma frase tão impactante, existiu uma pessoa com esse nome e eu não sabia. Poucas pessoas sabem. Até hoje, antes de cantar a música, eu sempre gosto de falar dela sobre porque eu fiz, como foi e quem é. Quando termina o show, eu gosto muito de ir na banquinha vender os produtos do Devotos e sempre chega alguém e diz: “Cara, não sabia da história do Benedito. Minha mãe sempre falava para mim também quando eu era criança, quando eu tava perreando”. É sempre bom a gente enaltecer essas pessoas que tem que ser e são protagonistas. Eu acho que uma das coisas que o fascismo fez, que a sociedade fez, foi justamente esconder essas pessoas fortes da negritude, daquela época. Luiza Mahin, Zumbi dos Palmares… Zumbi eu acho que é um dos mais conhecidos, mas a história dele, poucas pessoas falam, principalmente as pessoas que são do subúrbio, que não tão muito aí pra história, pra literatura. Então, essas coisas têm que ser faladas. Já que a gente consegue subir em cima de um palco, ter um microfone, consegue fazer música, das artes é a mais consumida, então a gente traz para dentro e começa a mostrar o povo da gente, começa a mostrar as pessoas que são parecidas com a gente e que são verdadeiros heróis. Foi por isso que eu fiz a música e a gente colocou no repertório com toda aquela vontade de mostrar uma pessoa que tem que ser falada. A gente tem que fazer isso com todo mundo que a gente conhece, que a gente sabe que teve uma importância muito grande para a mudança social da negritude dentro do Brasil.
Álbum ‘Punk Reggae’ (2022).
2. Em agosto deste ano, o Devotos foi reconhecido como Patrimônio Imaterial do Recife, um marco histórico para o punk. O que esse reconhecimento significa para vocês, vindos do Alto José do Pinho, e para a cena independente da periferia?
É um significado muito forte, porque é um título dado às artes de transformação, uma coisa que a Devotos sempre pregou. Devotos foi fundada em 1988 para mudar um quadro social através da música. Se ia mudar ou não, a gente não sabia, mas a gente queria falar desse nosso inconformismo perante a nossa comunidade: falta de saneamento, falta de segurança. Muitas coisas a gente conseguiu e muitas coisas a gente ainda vai conseguir. A gente tem um pé no chão que nem tudo tá resolvido e nem tudo vai se resolver de uma hora para outra, mas a gente tem que estar reivindicando e a gente tem que estar falando, principalmente através da arte. Esse título para nós é muito importante porque a gente sabe a transformação que a gente criou, que a gente conseguiu aqui dentro da comunidade e em várias outras comunidades, na sociedade em geral.
Devotos é uma banda que é lembrada, quase como uma ONG. A gente não tem uma bandeira, a gente milita em todas as bandeiras que a gente vê que podemos fortalecer. A gente fala de LGBTQIA+, de gordofobia, de racismo. A gente não fala sobre uma coisa ou ser ligado a uma coisa, a gente fala de tudo porque a gente sofre tudo isso dentro da nossa periferia. A gente tem amigos gordos, negros, gays, tem todo tipo de gente que tá aqui, que são pessoas de força, de pensamento, de atitude e são pessoas que são hostilizadas como a gente. Então, se a gente for querer resolver só os nossos problemas, os outros problemas vão nos afetar também. Se tá todo mundo brigando por todo mundo, acho que a gente consegue viver melhor. Nós por nós! O impacto do título pro outro do Alto do Pinho, pras periferias, pra cena underground alternativa daqui de Pernambuco, foi muito forte, porque é uma banda punk de periferia.
Esse título foi dado por Cida Pedrosa, uma vereadora daqui de Recife. E antes a gente já tinha feito um barulho quando a gente foi homenageado pelos 30 anos do Devotos, quando a gente foi homenageado pelo deputado José Isaltino Nascimento, e ele colocou a gente para se apresentar na Câmara Municipal do Recife. Foi uma loucura porque nunca tinha entrado uma banda ali dentro para tocar, principalmente uma banda punk. Aquilo ali foi um marco.
E aí eu já abro o leque para várias outras bandas importantes da cena. Ratos de Porão, Inocentes, Cólera, Flicts, Agrotóxico, Punho de Mahin, Black Pantera, Plugins, Saga HC, O Cão, essas bandas daqui do Alto do Pinho, Matalanamão, Nanica Papaya, Ostenta, Terceiro Mundo, O Verbo, Face do Subúrbio. É uma galera que é totalmente alternativa underground e que tem o discurso. Eu acho que isso é uma das coisas mais importantes quando você se propõe a fazer arte, é você fazer o que sente. E essa leque que eu te falei, eles falam o que sente. É muita coisa positiva que a gente tem através da música dentro do nosso país e que ainda não tá no mainstreams. Essas pessoas são importantes para mudar um quadro social, são importantes para as crianças e para os adolescentes. Um dia que a gente conseguir pensar a cultura dessa forma, a gente vai ter um Brasil melhor, porque o Brasil cultural ainda não é esse que tá no mainstream da televisão, das mídias, ela é um mecanismo muito grande para mudar e para conquistar isso. Eu acho que arte salva, como me salvou.
Foto: Reprodução/Instagram
3. Recentemente, vocês abriram o show da Nação Zumbi na celebração dos 30 anos de “Da Lama ao Caos”, em São Paulo. Como foi esse encontro entre duas bandas que se tornaram símbolos de resistência e identidade cultural de Pernambuco?
Tocar com a Nação Zumbi nos 30 anos do “Da Lama ao Caos”, para nós é de uma alegria e uma satisfação muito grande. Devotos é de 1988 e o movimento mangue surgiu no final dos anos 90, a gente viu esse movimento surgir. Chico Science era amigo da gente. Nação Zumbi, quando surgiu, foi uma coisa fenomenal. Nação Zumbi e o manguebeat, quando surgem, as artes surgem junto com Recife, porque eles começam a mostrar tudo isso. Quando o movimento mangue acontece, quando o Chico começa a falar sobre Jorge Joel de Castro, começa a falar sobre a teoria do caos, aí vem tudo de vez também. Aparece as artes plásticas, a literatura, a dança, a fotografia, a moda. Toda essa movimentação cultural de Recife aparece junto com o movimento mangue. É o diferencial do movimento mangue para todos os movimentos do mundo, porque no mundo os movimentos são muitos, são todos cada um do seu quadrado. Movimento de música, como a Tropicália, rock, blues, jazz e tal. Mas com manguebeat não, a música é o carro chefe, mas alavanca tudo isso que tá junto. Eu vim bem antes disso. A gente tava naquele marasmo, não acontecia nada em Pernambuco, não acontecia nada em Recife, e de repente surge um movimento mangue que alavanca tanta coisa que leva uma banda punk junto que é o Devotos. A primeira vez que a gente apareceu dando uma entrevista na TV a nível nacional foi o Chico apresentando Devotos. Ele vem aqui em casa de surpresa, diz que tem uma TV que pediu para ele mostrar os grupos culturais de Recife e ele queria mostrar o Devotos. Foi quando a gente se reuniu e ele fez essa matéria com a gente. Tinha 10, 20 bandas de mangue em cada esquina, mas ele veio ao Alto para apresentar uma banda punk que ele sempre gostou. Então, quanto eu tô ali em cima daquele palco da Áudio abrindo o show, tocando com os caras, eu fico lembrando de tudo isso lá atrás. E como você falou, duas bandas muito emblemáticas, duas bandas que sonoricamente soa diferentes, mas tematicamente a gente é muito igual. A gente fala de problemas sociais. A gente não tem uma bandeira, a gente fala nos problemas de todos. E a coisa mais primordial, a gente se gosta, se considera, se respeita como pessoa, como amigo e fazemos questão de um tá junto com o outro. Devotos e Nação em cima de um palco é uma combinação muito perfeita da história pernambucana.Um é do mangue do asfalto e outro é do morro da periferia. E quando os dois se juntam, aquilo ali vira uma mágica. A gente não quer saber se um é punk, se o outro é do mangue, se o outro é do rap, se o outro é do samba. A gente quer estar junto porque a gente quer somar nossas músicas e também não quer ficar na mesmice de fazer um som tão igual a todo mundo. Então eu estou em roda de maracatu, tenho minha banda de reggae, Café Preto, que é outra história. Pernambuco é muito isso!
4. Como foi para a banda começar a trazer referências de religiões de matriz africana para as músicas? E como vocês veem a relação entre a ancestralidade dos orixás e outras entidades com o rolê punk?
Trazer os orixás para dentro da nossa música punk não é fácil porque a gente é de outra época, de uma pós-ditadura. Eu acho que até dentro mesmo da ditadura, a gente já estava fazendo som. É uma época de punks muito brabos, muito revoltados. A religião, seja ela qual for, passava muito longe do movimento punk. A maioria nem acredita, não está nem aí para isso. Então, para nós, era muito difícil falar sobre isso. Mas aí você que faz arte, mas já é uma coisa minha, eu faço arte primeiro para mim, para depois soltar pro público. Então, me reprimir do que eu estou sentindo e do que eu quero passar não era muito legal. Eu preferia ser hostilizado de alguma forma, mas eu passei minhas verdades. Eu não sou de dentro da religião de matriz africana, eu não frequento, mas eu leio e tenho muito respeito. Eu cultuo Exu e eu sei a força que tem esse orixá, que é um dos orixás que mais se parecem com o ser humano, porque Exú é de paz, Exú é de guerra, Exú é de sangue, é de luta, gosta de se divertir, gosta de brincar, e o ser humano é muito isso. Mas a igreja demonizou muito Exú, de uma forma que a desconstrução tá acontecendo, mas é muito lenta. É muito importante a gente falar sobre isso, sobre religiões de matriz africana que chegaram no Brasil e foram demonizadas. É importante a gente falar sobre isso nas nossas músicas. E também é importante a gente deixar que o povo decida o que é bom e o que é ruim para eles. E não alguém dizer que essa religião é boa, essa religião é ruim. Eu acho que o que é bom para você, é o que te faz feliz, é o que te traz paz, te traz felicidade.
Quando eu tô em cima do palco falando sobre aquilo, eu fecho o olho e sinto uma paz muito grande dentro de mim. Eu não sei se tô transmitindo pras pessoas, mas se elas sentirem o que eu tô sentindo ali dentro, com certeza elas vão sair do show uma pessoa melhor. E o propósito do Devotos é isso: fazer com que você pense e que saia do show uma pessoa melhor. É como o Chico falava: ‘o show do Devotos é uma diversão com responsabilidade’.
E uma das coisas que a gente reivindica dentro do punk é a liberdade de expressão. Essa liberdade de expressão cabe dentro das nossas inspirações de se fazer arte, de se fazer música. Acho que cada vez mais eu vou cultuar.
Capa do single ‘Orixás’ (Foto: Divulgação)
5. Com 37 anos de estrada, o Devotos segue fiel às suas raízes e mensagens de luta, denunciando a desigualdade racial e social. Olhando para essa trajetória, o que vocês consideram a maior conquista da banda — e o que ainda sonham realizar?
Eu acho que a maior conquista da gente é permanecer na ativa e sem nunca ter mudado. A formação da gente tem a mesma idade da banda, 37 anos. O primeiro guitarrista saiu, e no mesmo ano Neilton entrou. 37 anos juntos: eu, Celo e Neilton. Acho que o maior legado de tudo isso, quando você faz arte, principalmente com banda – que é muito difícil a convivência, é chegar nessa longevidade com as mesmas pessoas. Eu sempre falo isso para todo mundo que quer fazer banda. Eu participo muito de roda de diálogo e sempre a gurizada, os adolescentes que estão fazendo banda, perguntam como é chegar a 37 anos de banda. Eu costumo dizer pra galera que seja em qualquer lugar que você for, que você for trabalhar em grupo, você não procurar só os melhores. Porque a gente às vezes vai fazer uma banda, procura o melhor guitarrista, melhor baixista, melhor baterista, melhor tecladista, melhor vocalista, sempre o melhor. A gente quer sempre ter o melhor em tudo quando a gente tá trabalhando em grupo. E a gente esquece de procurar os verdadeiros, porque os verdadeiros são os que somam. Os verdadeiros são os que sabem construir junto. Os verdadeiros querem sempre somar com o que você tem para apresentar e aí você cria uma identidade, porque quem faz música, quem faz arte, o importante de fazer tudo isso é ter uma identidade. Você ouvir um som e saber qual é a banda que tá tocando, sem precisar o vocal cantar. O Devotos conseguiu isso. Eu acho que o legado maior de você ter essa longevidade quando você faz arte é ter uma identidade.
Logicamente tem muita coisa. Olhar o Alto do Pinho com outros olhos. Ele era um bairro olhado muito pelo lado sensacionalista, mais policial, de violência. Tem muita coisa para se resolver, mas hoje em dia também é visto pelas bandas, pela sua cultura e o Devotos tem uma parcela muito grande nisso. Várias bandas inspiradas no Devotos, vários artistas que fala: “Fiz uma banda por causa de vocês, sou inspirado em vocês, gosto de vocês”. Essas homenagens que a gente tá recebendo é uma coisa muito gratificante e vigorosa, porque queira não queira, sempre que você é agraciado, sua autoestima cresce. E também estar aqui com vocês, numa página que luta pela negritude, conversando com a galera que reivindica deveres e direitos da população negra. Tudo isso para nós nesses 37 anos é muito satisfatório, muito vigoroso e a gente só cresce com isso, só dá mais vontade de tocar, fazer show, música, disco. E o futuro da gente é esse.
A gente tá com um disco para ser lançado pela Red Star, que é um selo de São Paulo do nosso amigo Jeferson, do Flicts. A ideia é que ele saia primeiro em vinil para depois de um ano ir pras plataformas musicais. Estamos fazendo músicas novas para o próximo disco do Devotos. Esse disco que vai sair agora é ao vivo de show. Mas já estamos planejando, compondo. Devotos é uma banda que sobrevive, vive do dia a dia, do cotidiano. A gente planeja logicamente o que quer fazer futuramente, mas a gente também vai fazendo. A gente dá um tempo, consegue fazer isso porque senão fica uma arte muito conturbada, para vender e a gente não é só para vender, a gente é para transformar. E para transformar você tem que estar bem, você tem que se policiar mentalmente e saudavelmente para poder passar sua boa energia para aquele público. Ninguém doente consegue passar uma boa energia para ninguém.
Há uns 10, 15 dias atrás, nós chegamos na nossa quarta turnê internacional. Fizemos Alemanha, França, Bélgica e Holanda. Foram 16 shows em 22 dias que nós passamos lá. Foi uma coisa muito pensada, sem edital, tirando do bolso, tirando de cachês que a gente faz e consegue tirar. E fizemos essa turnê já planejando a próxima. Então nosso “faça você mesmo”, tá 24 horas com a gente, desde o começo da banda, quando a gente não tinha instrumento e que Neilton fez a própria guitarra. Neilton hoje faz a guitarra, faz o próprio amplificador dele, agora a pouco montou um baixo para mim. O importante para nós é não parar de tocar e não parar de sonhar. E é isso que a gente sempre diz para todo mundo que tá começando: “Não pare de sonhar”.
Alicia Keys adquiriu uma mansão em La Jolla, Califórnia, localizada sobre um penhasco com vista para o Oceano Pacífico. A residência, projetada pelo arquiteto Wallace E. Cunningham, combina vidro, concreto e tecnologia de ponta. O imóvel foi comprado por cerca de US$ 20,8 milhões, com um desconto de US$ 10 milhões em relação ao valor pedido inicialmente.
Conhecida como “Razor House”, a mansão possui quatro níveis, seis suítes, oito banheiros, salas voltadas à arte contemporânea, estúdios de gravação e espaços integrados de convivência. O projeto privilegia a integração entre ambientes internos e externos, com grandes janelas que proporcionam a visão do oceano e do terreno rochoso.
Fotos: Frank Frances Fotos: Frank Frances Fotos: Frank Frances Fotos: Frank Frances Fotos: Frank Frances Fotos: Frank Frances Fotos: Frank Frances Fotos: Frank Frances Fotos: Frank Frances Fotos: Frank Frances Fotos: Frank Frances Fotos: Frank Frances
O design da residência inclui soluções de tecnologia e sustentabilidade, assim como áreas dedicadas à produção musical do casal. A casa foi planejada para atender tanto às necessidades de conforto quanto aos requisitos técnicos de gravação e criação artística.
Com uma avaliação aproximada de R$ 160 milhões, a propriedade reflete as escolhas arquitetônicas e tecnológicas do casal, consolidando-se como um dos imóveis mais notáveis da região de La Jolla em termos de design, localização e infraestrutura.
Luis Miranda, Luisa Perissé e Luellem de Castro no elenco de Falas Negras. (Foto: Globo/ Manoella Mello)
O ‘Falas Negras’ deste ano será exibido no Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro, na TV Globo, com a missão de fazer refletir sob a perspectiva do humor. Apresentado por Luis Miranda e Luellem de Castro, ambos da série ‘Encantado’s‘, o programa abraça a temática racial no Mês da Consciência Negra. Este é o último especial do “Falas” de 2025.
Bastidores de cena em Falas Negras, Ícaro Silva como Machado de Assis e o diretor Matheus Malafaia. (Foto: Globo/ Manoella Mello)
Para o apresentador Luis Miranda, a força do programa reside justamente na capacidade de gerar o debate e o desconforto positivo. “Eu acho que, para nós pretos brasileiros, o programa é a possibilidade de discutir questões do nosso cotidiano e isso sendo levado para uma maior quantidade de gente. Acho que não só os pretos precisam ouvir, mas os brancos também”, afirma, ao destacar a importância da conversa ampla.
Antônio Pitanga e Cosme dos Santos em cena no especial Falas Negras. (Foto: Globo/ Manoella Mello)
O especial vem recheado de ironias certeiras e conta com a participação de um elenco que é majoritariamente negro. Nomes como Ícaro Silva, Haonê Thinar, Pedro Ottoni, Luisa Perissé, Digão Ribeiro, Magda Gomes, Thamirys Borsan e Fernando Caruso estão confirmados, garantindo a força em cena. O roteiro é uma mistura dinâmica de esquetes, referências musicais, momentos de stand-up comedy, e conta ainda com humoristas já queridos pelo público, como Thiago Carmona e Bruna Braga. A comediante Tatá Mendonça, que brilhou em ‘Falas de Acesso’, também marca presença em ‘Falas Negras’.
O ator Pedro Ottoni no elenco de Falas Negras. (Foto: Globo/ Manoella Mello)
‘Falas Negras’ tem roteiro final de Veronica Debom, direção de Naína de Paula e direção artística de Matheus Malafaia. O especial é escrito por Clara Anastácia, Flávia Boggio e Veronica Debom, com colaboração de Bruna Braga. A produção executiva é de Claudio Dager, produção de Silvana Feu e direção de gênero de Patricia Pedrosa.
A trajetória de Mônica Sampaio atravessa dois mundos que, à primeira vista, parecem distantes: a engenharia elétrica e a moda. Mas quando observamos sua história com mais atenção, fica claro que essa travessia não é ruptura, é afirmação. Depois de anos em ambientes majoritariamente masculinos, da aviação ao Exército Brasileiro, Mônica decidiu reescrever o próprio destino. E, nessa reinvenção, descobriu espaço para uma moda que não apenas veste, mas reivindica memória, estética e pertencimento para mulheres negras que nunca se viram representadas nas vitrines brasileiras.
Fundadora da Santa Resistência, marca que traduz ancestralidade africana em linguagem contemporânea, Mônica leva para a passarela histórias que ela mesma precisou escavar: rastros de origem apagada, símbolos que foram calados e narrativas que não chegaram até nós. Seu processo criativo nasce desse gesto político, contar o que não nos deixaram lembrar, criar novas portas de entrada para identidade e cultura, e colocar mulheres negras no centro da construção estética do Brasil.
Nesta entrevista exclusiva ao Mundo Negro, ela fala sobre coragem, ancestralidade, apagamento histórico, afrofuturismo, representatividade e o legado que deseja deixar para as próximas gerações de criadores negros.
1. Você começou como engenheira elétrica e hoje é estilista. Como foi fazer essa transição e o que ela te ensinou sobre coragem e reinvenção?
“Tenho muito orgulho da minha trajetória profissional, das minhas conquistas no mundo corporativo, majoritariamente masculino. Trabalhei na área de aviação, em multinacional alemã e no Exército Brasileiro. Posso afirmar que sou realizada profissionalmente. Ser Engenheira e também militar me deram disciplina, resiliência para empreender e também organização para gerir minha própria empresa. A mudança veio em decorrência de uma necessidade de maior qualidade de vida e da culpa que, nós mães e profissionais, carregamos. Queria mais tempo com minha família. E literalmente virei a chave. Comecei do zero em uma carreira totalmente desconhecida. Sempre houve uma inquietação minha com relação ao que era oferecido como moda no Brasil. Eu não via uma moda que contemplasse a mulher consciente de sua negritude, madura, profissional, poderosa e marcante e, como muitas, comecei desenhando para mim. Eu já observava o interesse das pessoas e elogios, então quando decidi empreender, sabia que seria na moda. Fundei a Santa Resistência e tem sido a minha paixão desde sempre.”
2. A Santa Resistência traz muitas referências da ancestralidade africana e da cultura feminina. Como essas histórias do passado inspiram o que você cria hoje?
“Falarei da minha penúltima coleção, onde abordei literalmente a cultura africana. Todo o meu processo criativo parte de uma história que quero contar e da minha percepção em relação a essa história. Quando você conversa com um brasileiro com sobrenome europeu, asiático ou norte-americano, todos sabem sua ascendência. E nós? Pessoas como eu? Com a minha cor de pele? Nossa ascendência foi apagada, usurpada. Trocaram os nomes de nossos tataravós. Eu queria saber e contar minha ancestralidade para minha filha para que ela possa contar para os filhos dela. Iniciei minha pesquisa pela minha própria história. Chegamos na África Oriental e na tribo Maasai, uma riqueza cultural impressionante. Criei três estampas: uma inspirada no Shuka; outra com animal print em degrade azul representando o mar de Zanzibar; e a última celebrando as mulheres pescadoras de Zanzibar. A mensagem era transportar a riqueza cultural dos Maasai para o universo da moda, representando a simbologia e a força desse povo e também celebrando o afrofuturismo.”
3. Como você enxerga a representatividade da mulher negra na moda brasileira hoje e o papel da Santa Resistência nesse cenário?
“Enxergo que não evoluímos muito. As referências continuam embranquecidas. Temos poucas estilistas negras e, quando não são inviabilizadas, são usadas como token ou cota para justificar a ausência. Sou uma mulher negra e faço moda, mas isso não me define. Quando falamos de estilistas brancas, não referendamos a cor da pele, apenas o trabalho. Então por que é necessário quando se trata da pele negra? A atriz negra, a apresentadora negra, a escritora negra… parece sempre um “apesar de”.”
4. Olhando para o futuro, que legado você gostaria de deixar para novas gerações de criadores negros e negras no Brasil?
“Quero que a minha moda ultrapasse fronteiras e seja vista como uma moda genuinamente brasileira e com valores sustentáveis. Que mais designers negros surjam no mercado, mostrando a possibilidade de ter uma profissão onde, até pouco tempo atrás, éramos pouquíssimos. Quero que olhem para mim e pensem: “Se ela está ali, se ela está fazendo isso… eu também posso.””
A força de Mônica Sampaio está justamente nesse movimento de costurar passado, presente e futuro sem perder de vista quem ela é e quem quer alcançar. Sua moda nasce de uma reivindicação, mas também de um gesto de afeto, de cuidado e de reconstrução de memórias que o Brasil tentou apagar.
Aos 76 anos, Djavan segue explorando o amor e a vida com a mesma sofisticação que atravessa cinco décadas de carreira. Em seu mais recente álbum, Improviso, lançado em 11 de novembro, o cantor apresenta 12 faixas, 11 inéditas, nas quais assume composição, produção e direção artística, mostrando que sua criatividade permanece em plena forma. Além das canções sobre o amor em suas diversas nuances, o disco revisita clássicos, como a regravação de O Vento, imortalizada na voz de Gal Costa.
Entre os destaques do álbum está a faixa Pra Sempre, cuja melodia Djavan compôs originalmente para Michael Jackson durante a produção de Bad nos anos 1980. Sobre a decisão de finalmente gravar a canção, ele contou à Rolling Stone Brasil: “Meus filhos sempre insistiram para eu gravar essa música todos esses anos. Eu nunca quis, achava que não fazia sentido: ‘Não rolou, vou gravar isso por quê?’ Era só a melodia; a ideia era o Michael fazer a letra, se gostasse. Agora, após tanta insistência, resolvi escrever a letra e gravei”.
O álbum reflete a maturidade e o método de Djavan, que mantém sua forma singular de compor: primeiro a melodia, depois a letra, sempre com cuidado nos arranjos e atenção aos detalhes. Sobre Improviso, ele definiu: “É algo que já vem de algum tempo. Foi uma necessidade que foi surgindo”, evidenciando o cuidado com que constrói cada música e a atenção em preservar sua identidade artística.
Com lançamento digital e em vinil, Improviso prepara o terreno para a turnê Djavanear 50 anos, Só sucessos, prevista para 2026. O álbum reforça o talento de um artista que consegue transformar sentimentos complexos em música e mantém sua relevância mesmo após cinco décadas, provando que a elegância e a sensibilidade de Djavan permanecem únicas no cenário da música brasileira.
Mano Brown voltou a movimentar a cena cultural com o lançamento do livro Mano a Mano, uma edição especial baseada no podcast original do Spotify que já se tornou referência no país. O encontro de lançamento, que aconteceu no último dia 13 de novembro no Sesc 14 Bis, em São Paulo, reuniu Brown, Semayat Oliveira e o editor Fernando Baldraia para uma conversa sobre o impacto e a urgência dessas narrativas.
A publicação traz vinte entrevistas e trechos selecionados das quatro primeiras temporadas do programa, conversas que atravessam política, cultura, comunicação, esporte e subjetividades negras. Passam por essas páginas nomes como Lula, Dilma Rousseff, Marina Silva, Sueli Carneiro, Glória Maria, Conceição Evaristo, Emicida e Ronaldo Fenômeno. O livro também apresenta introduções inéditas escritas por Mano Brown, além de fotos das gravações e dos bastidores, reforçando a força documental do projeto.
Com projeto gráfico especial e pintura trilateral, Mano a Mano faz jus ao caráter singular do podcast: direto, profundo e comprometido em tensionar o Brasil que se revela pela voz de quem vive, constrói e questiona o país todos os dias. Brown, uma das figuras mais influentes das últimas quatro décadas, reafirma aqui seu papel como pensador central da cultura negra e periférica, não apenas pela música, mas pela escuta afiada e pelo respeito aos caminhos de cada convidado.
SERVIÇO Mano a Mano, de Mano Brown Número de páginas: 360 Preço: R$ 79,90 | E-book: R$ 39,90
A Prefeitura de São Paulo realiza, nos dias 19 e 20 de novembro, a 5ª Expo Internacional Dia da Consciência Negra, no Centro Cultural São Paulo, das 9h às 21h. Com entrada gratuita, o evento integra a política pública “São Paulo, Farol de Combate ao Racismo Estrutural” e tem como tema desta edição o Afrofuturismo na cidade de São Paulo, conectando cultura, tecnologia, identidade e políticas públicas que impactam comunidades negras, indígenas e imigrantes.
Organizada por uma articulação de secretarias municipais, a Expo propõe refletir sobre como o Afrofuturismo pode orientar práticas de equidade racial no presente. O conceito, que combina memória, protagonismo e imaginação de futuro, atravessa toda a programação com experiências de afroempreendedorismo, educação antirracista, cultura, ciência e conexões internacionais.
Segundo a organização, o Afrofuturismo funciona como estética e também como ferramenta política: reconstrói identidades, questiona estruturas e aponta futuros não colonizados. A partir desse entendimento, o evento propõe que São Paulo seja um território capaz de unir saberes ancestrais e inovação tecnológica para avançar em diversidade, inclusão e direitos.
Nesta edição, o público receberá um passaporte que funciona como guia para circular pelos “portais afrofuturistas” instalados no Centro Cultural São Paulo. Cada portal apresenta uma narrativa que conecta passado, presente e futuro para discutir políticas públicas, equidade racial, cultura e trajetórias de resistência.
Com curadoria das secretarias municipais, a Expo reúne exposições, painéis, vivências, ações voltadas ao afroempreendedorismo e atividades que evidenciam São Paulo como uma cidade comprometida com a construção de um futuro antirracista.
Serviço
5ª Expo Internacional Dia da Consciência Negra 19 e 20 de novembro de 2025 Centro Cultural São Paulo – Rua Vergueiro, 1.000 (Metrô Vergueiro) 9h às 21h Entrada gratuita Programação completa nas redes: @direitoshumanos.sp
Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora e do Instituto RME (Foto: Divulgação)
Mulheres negras são as que enfrentam os maiores obstáculos para acessar crédito e impulsionar seus negócios no Brasil, segundo a 10ª edição da pesquisa “Empreendedoras e Seus Negócios 2025”, realizada anualmente pelo Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME) por meio do seu Laboratório de Gênero e Empreendedorismo, e execução da Ideafix. O estudo revela dados sobre acesso a crédito no Brasil e se dedicou a compreender os principais desafios e oportunidades para o crescimento dos pequenos negócios femininos e também revelou a desigualdade racial no acesso.
“Mulheres brancas têm 23% dos pedidos negados, contra 29% das mulheres negras. Além disso, os valores obtidos por mulheres negras tendem a ser menores: 37% delas receberam até R$2 mil, frente a 22% das mulheres brancas. Apenas 6% das empreendedoras negras acessaram empréstimos acima de R$20 mil, ante 20% das empreendedoras brancas”, explica Ana Fontes, empreendedora social e fundadora da Rede Mulher Empreendedora e do Instituto RME.
A pesquisa, que ouviu 1.043 mulheres de todas as regiões, revela que 57,3% das empreendedoras afirmam não ter dívidas em 2025 — um movimento que pode refletir tanto a cautela diante das incertezas econômicas quanto o esforço para manter as contas em dia. Ainda assim, a realidade financeira é marcada por contradições: 72,1% estão negativadas como pessoa física, indicando que muitas recorrem ao crédito pessoal enquanto mantêm seus CNPJs sem restrições.
Mesmo com a necessidade de investimento para crescer, 65,5% das empreendedoras nunca solicitaram crédito para o negócio, enquanto apenas 21% tentaram mais de uma vez. Entre as que buscaram recursos, os bancos privados lideram a procura (52,4%), seguidos por fintechs (39,6%) e bancos públicos (33,2%).
O estudo também evidencia que a informalidade segue como barreira para muitas mulheres: 74,5% acessam crédito como pessoa física, e apenas 35,3% como pessoa jurídica. As fintechs aparecem como alternativa para empréstimos menores e liberação rápida, enquanto bancos públicos e cooperativas atendem negócios formalizados e valores mais altos.
O perfil racial das participantes se divide entre mulheres negras (49%) e brancas (48%). A maioria está entre 30 e 59 anos, com concentração na faixa dos 40 aos 49 anos. Em média, elas têm renda mensal de R$ 2.400, são chefes de família (58,3%) e sustentam outras pessoas com essa renda (69,4%). Pela primeira vez, o desemprego superou a busca por independência financeira como principal motivação para empreender.
Discriminação no processo de crédito
Entre as mulheres que tiveram o crédito negado, 30,5% relatam ter sofrido algum tipo de discriminação, enquanto esse percentual sobe para 35,5% entre aquelas que ainda aguardavam resposta. Questões como gênero, raça/cor, classe social, território periférico ou rural e escolaridade aparecem como motivadores do tratamento discriminatório.
No total, 26,3% das empreendedoras tiveram o pedido de crédito negado, e 8,6% ainda esperam retorno. A negativação do nome foi o principal motivo apontado para a recusa (58,5%). Para muitas, a falta de crédito dificultou o planejamento dos negócios (23,4%) e até impactou a renda familiar (5,3%).
Setores onde essas mulheres atuam
A área de alimentação e gastronomia concentra a maior parte das empreendedoras (19,6%), seguida pelos setores de beleza, estética e bem-estar (16,7%). Já segmentos como tecnologia (2,4%), transporte (1,8%) e turismo (1,5%) permanecem com baixa participação feminina — especialmente negra — evidenciando a necessidade de investimentos, inclusão e formação para ampliar o acesso dessas mulheres a setores mais lucrativos e valorizados.
Em 2025, o setor de beleza perdeu espaço, enquanto os negócios ligados a arte e cultura registraram crescimento.
A metodologia da pesquisa combina dados quantitativos e qualitativos e inclui entrevistas com representantes de instituições financeiras que atuam no Brasil e na América Latina. A coleta foi realizada em agosto de 2025.
Novo fundo para apoiar empreendedoras — com foco no Norte e Nordeste
Junto com a divulgação da pesquisa, o IRME anunciou o lançamento do FIRME – Fundo de Impacto e Renda para Mulheres Empreendedoras, que vai disponibilizar R$ 2,5 milhões em crédito orientado para mulheres à frente de pequenos negócios. O fundo prioriza empreendedoras das regiões Norte e Nordeste, além de negócios com impacto social e sustentável.
A iniciativa combina financiamento, capacitação e mentorias individuais, fortalecendo negócios desde o planejamento até a execução. O FIRME é realizado pelo Instituto RME com apoio da Rede Mulher Empreendedora e parceria do Banco Pérola, instituição com mais de 16 anos de experiência em microcrédito produtivo orientado.
No TOP 10 da Netflix no Brasil, ‘Má Influencer‘, a nova série sul-africana que acompanha BK (Jo-Anne Reyneke), uma mãe solo que se une à influenciadora Pinky (Cindy Mahlangu) para vender bolsas de luxo falsificadas na internet. O esquema rapidamente sai do controle e chama a atenção de uma gangue de falsificadores e das autoridades, empurrando as protagonistas para uma corrida onde precisam ser mais espertas que criminosos e a própria polícia.
Com sete episódios, a produção aborda temas como a busca por fama nas redes sociais, a cultura dos influenciadores digitais – que pode ser muito tóxica, lealdade e sobrevivência. A série foi criada e escrita por Kudi Maradzika, com direção de Ari Kruger e Keitumetse Qhali.
Kudi, apontada pela Glamour África do Sul como parte da nova geração que está redefinindo as narrativas do continente, traz para a série seu olhar pessoal sobre o universo digital. Antes de se consolidar como roteirista, ela mesma tentou trilhar o caminho da influência nas redes. “Cheguei até mesmo a ser convidada para eventos de marca. Mas, como jornalista de formação, comecei a perceber um mundo muito mais complexo do que as pessoas imaginam.”
A criadora participou do laboratório do Instituto Realness, incubadora que revelou talentos de países como Quênia, Nigéria e África do Sul e que chamou a atenção da Netflix. De lá, ela desenvolveu série durante um ano e meio. “Má Influencer explora o quanto as mídias sociais moldam nossa identidade, nossas ambições e nossa bússola moral, especialmente em uma sociedade obcecada por imagem.”, explica.
Além das tensões do mundo digital, a trama investiga os cruzamentos entre tecnologia e crime, abordando desde consumidores enganados por influenciadores até as implicações éticas do dinheiro que circula no mercado das falsificações — sempre a partir de um ponto de vista local. “Os ritmos culturais, o humor e as contradições sul-africanas conduzem a história. A equipe ancorou tudo em um mundo que é reconhecidamente nosso”, afirmou Maradzika ao Nollywood Reporter.