Quando abriu a porta de casa para receber pequenos grupos de amigos, Flávia Alves buscava uma solução prática: conciliar o sustento da família com os cuidados do filho Tom. Em celebração ao Julho das Pretas, o Mundo Negro e o Guia Black Chefs contam a trajetória da chef: vinte anos depois, esses almoços caseiros se transformaram no Quintal de Mãe, referência em culinária afro-brasileira em Paraty (RJ) e importante motor da economia local.
Aos 45 anos, conhecida na cidade como Flavinha, a chef fez da cozinha um lugar de memória e ancestralidade. Cresceu anotando receitas de programas de TV e vendendo doces e salgados ainda na adolescência; trabalhou na barraca da Tia Preta, em Paraty, vendendo pão de queijo com pernil, teve um restaurante no Centro Histórico de Curitiba e acumulou passagens pela Bahia, além de experiências em festivais, eventos e serviços de catering. Todo esse percurso formou o repertório técnico e cultural que hoje marca a identidade do Quintal de Mãe.
O restaurante nasceu como resposta às necessidades de Flávia após o nascimento do filho, em 2016. “Precisei criar um modelo de negócio que atendesse à minha necessidade e à minha linguagem de trabalho. Lembro das conversas animadas com amigos, discutindo qual seria o nome dos encontros mensais que, aos poucos, se tornaram quinzenais e depois semanais”, conta.
Foto: Gustavo Goto
Atualmente, o negócio fatura cerca de R$ 700 mil por ano. O Quintal de Mãe gera empregos, movimenta fornecedores locais e passou a oferecer serviços de catering para grandes marcas, como Nubank e Netflix, além de participar de produções audiovisuais, como o filme “sobre Dias”.
“Hoje me reconheço muito mais como empresária e agente de transformação social. O empreendedorismo também é uma ferramenta de impacto. Todos os dias fazemos escolhas sobre quais profissionais contratar, quais fornecedores fortalecer e onde os recursos vão circular. Isso contribui para que mais oportunidades cheguem à comunidade”, afirma Flávia.
Ancestralidade no prato e empoderamento feminino
Foto: Divulgação/Quintal de Mãe
A proposta do Quintal de Mãe vai além do cardápio. Inspirada por sua vivência no candomblé, Flávia incorpora saberes ancestrais e a ritualística do alimento em suas receitas. O ambiente do restaurante reúne livros sobre religiosidade, referências aos orixás e obras de artistas nacionais, compondo um espaço que é ao mesmo tempo restaurante, ateliê cultural e ponto de encontro comunitário.
Entre os pratos que se tornaram ícones da casa está a feijoada da Flavinha, destacada em publicações internacionais e incluída no roteiro de afroturismo de Paraty, em parceria com a agência Black Studio Stories. O Quintal também oferece aulas de culinária e experiências que aproximam turistas e moradores da história e das técnicas da culinária afro-brasileira.
O Quintal de Mãe opera como um polo de protagonismo feminino. Foi lá que nasceu o Samba das Trabalhadoras, grupo formado exclusivamente por mulheres, e de onde surgiu o bloco “Carnaval do Quintal”, hoje referência na programação cultural da cidade. Esses projetos ampliam o alcance do restaurante como espaço de capacitação, resistência e visibilidade para as mulheres negras da região.
“Quando uma obra permanece viva por tanto tempo, é porque ela continua dialogando com a sociedade.” Há 50 anos, Zezé Motta revolucionava o cinema brasileiro com o lançamento de ‘Xica da Silva’, reafirmando a beleza e o poder de uma mulher negra. Em entrevista ao Mundo Negro no especial de Julho das Pretas, a atriz celebra o relançamento do longa-metragem em cópia restaurada em 4K pela Sessão Vitrine Petrobras, no dia 16 de julho.
Dirigido por Cacá Diegues e adaptado da literatura, o filme reconta a história da ex-escravizada Chica da Silva, mulher que conquistou sua alforria e desafiou os padrões coloniais do século XVIII ao manter uma relação pública com um contratador de diamantes. O sucesso estrondoso de bilheteria levou mais de 3,1 milhões de espectadores aos cinemas, revolucionando a maneira de representar corpos negros no Brasil ao unir humor, erotismo e linguagem popular para combater a invisibilidade racial. Na época, o filme atraiu mais de 3,1 milhões de espectadores e conquistou os prêmios de Melhor Filme, Direção e Atriz no Festival de Brasília.
“Acho que a Xica da Silva teve um impacto que ultrapassou o cinema. Ela ajudou a colocar uma mulher negra no centro da narrativa, como protagonista da própria história, em uma época em que isso era muito raro. Isso teve um peso político e social enorme, mesmo que muitas pessoas não percebessem naquele momento. Ao longo desses 50 anos, encontrei inúmeras mulheres negras que me disseram que passaram a se enxergar de outra forma depois de assistir ao filme”, disse Zezé Motta à editora Halitane Rocha.
Ao longo da entrevista, a atriz celebrou o impacto da obra em sua carreira, mas também relembrou os desafios de dar vida a uma personagem tão marcante em um período de censura e repressão, além de como as pessoas passaram a confundir a personagem com a mulher que ela realmente era, levando-a a situações embaraçosas e até a episódios de assédio sexual. A atriz ainda comentou sobre sua parceria brilhante com Cacá Diegues e refletiu sobre como o filme continua atual ao provocar novas gerações a pensar sobre protagonismo negro, liberdade e pertencimento.
Foto: Divulgação/Vitrine Filmes
Leia a entrevista completa abaixo:
1- Zezé, como você enxerga o impacto político e social da personagem Xica da Silva na história do cinema brasileiro e na autoestima das mulheres negras ao longo desses 50 anos?
Acho que a Xica da Silva teve um impacto que ultrapassou o cinema. Ela ajudou a colocar uma mulher negra no centro da narrativa, como protagonista da própria história, em uma época em que isso era muito raro. Isso teve um peso político e social enorme, mesmo que muitas pessoas não percebessem naquele momento.
Ao longo desses 50 anos, encontrei inúmeras mulheres negras que me disseram que passaram a se enxergar de outra forma depois de assistir ao filme. Isso sempre me emocionou muito. A representatividade tem esse poder: ela fortalece a autoestima, amplia horizontes e faz com que as pessoas entendam que também pertencem a esses espaços.
É claro que ainda temos muitos desafios, mas fico feliz em saber que Xica da Silva continua despertando debates e inspirando novas gerações. Quando uma obra permanece viva por tanto tempo, é porque ela continua dialogando com a sociedade. E acredito que esse seja um dos maiores legados que um artista pode deixar.
Foto: Gustavo Arrais
2- Na época do lançamento, o Brasil vivia sob um regime autoritário. Qual era a sensação, como artista negra, de dar vida a uma Rainha que subverteu os padrões coloniais e de poder em um período de tanta repressão política no Brasil?
Naquele momento, o Brasil vivia um período muito duro da sua história. A censura, a repressão e a falta de liberdade atingiam toda a sociedade, e, para nós, artistas negros, havia ainda o desafio de romper estereótipos e conquistar espaços que historicamente nos eram negados.
Dar vida à Xica foi muito especial porque ela era uma mulher que, com todas as suas contradições, desafiava as estruturas de poder do seu tempo. Interpretá-la foi também uma forma de afirmar que pessoas negras têm direito ao protagonismo, à complexidade e a ocupar o centro das suas próprias histórias.
Acho que, mesmo sem ser um filme de militância no sentido tradicional, Xica da Silva acabou se tornando um ato político. A arte tem essa força: ela provoca, questiona e faz as pessoas refletirem. Cinquenta anos depois, continuo acreditando que contar histórias sob diferentes perspectivas é uma das maneiras mais poderosas de combater preconceitos e ampliar o nosso olhar sobre o Brasil e sobre nós mesmos.
Foto: Divulgação/Vitrine Filmes
3- Sua atuação em Xica da Silva foi um divisor de águas na sua carreira. Como foi gerenciar essa ascensão meteórica e as pressões que vieram com o fato de se tornar uma das maiores referências de protagonismo negro no país?
A Xica da Silva me deu muito mais do que reconhecimento. Ela também trouxe desafios que eu jamais imaginei enfrentar. Durante muito tempo, as pessoas confundiram a personagem com a mulher que eu era. Precisei fazer análise para entender e lidar com isso.
O filme nasceu em uma época em que se falava muito de liberdade sexual, dos anos de “sexo, drogas e rock and roll”. A Xica despertava um imaginário muito forte. Ela era uma mulher livre, sensual, poderosa, que dançava nua e dominava os homens. E essa fantasia acabou sendo projetada sobre mim.
Eu estava solteira quando fiz o filme e, muitas vezes, os homens com quem me relacionava mencionavam a Xica antes, durante ou depois da relação. Havia uma expectativa de que eu fosse exatamente aquela mulher. Lembro de um deles dizer: “É como se o filme tivesse virado realidade”. Durante muito tempo, senti que precisava corresponder a essa fantasia. Me preocupava tanto em não decepcionar que, muitas vezes, esquecia de mim, do meu próprio prazer. Foi aí que percebi o quanto aquela personagem havia ultrapassado a tela e invadido a minha vida. A análise foi fundamental para que eu conseguisse separar a Zezé da Xica.
Também vivi situações muito difíceis por causa dessa confusão. Nunca esqueço de um episódio dentro de um táxi. O motorista reconheceu minha voz, confirmou que eu era a Zezé Motta e, de repente, passou a me tocar, acreditando que tinha esse direito. Fiquei completamente apavorada. Só consegui sair quando ele precisou parar em um sinal de trânsito, onde havia um guarda. Abri a porta e corri. Naquele momento, eu só queria escapar. Nem pensei em registrar ocorrência. Hoje entendo que aquilo foi uma violência.
Essas experiências me fizeram compreender que o sucesso também pode trazer um peso muito grande, especialmente para uma mulher negra que interpretou uma personagem tão marcante. Ao mesmo tempo, reforçaram em mim a importância de lembrar que nenhuma atriz se confunde com o papel que interpreta. A Xica mudou a minha carreira para sempre, mas eu precisei aprender, com o tempo, que ela não podia definir quem eu era como mulher.
Foto: Juliano Simões
4- O diretor Cacá Diegues foi um dos fundadores do Cinema Novo, mas na época de Xica da Silva, ele já buscava um caminho próprio no audiovisual. Como foi para você, junto a ele, construir essa Xica irreverente, sensual e humana que também rompeu com os padrões da época do cinema?
Cacá era meu irmão, e eu dizia que eu era a musa dele, fiz 5 filmes do Cacá… Eu simplesmente era dirigida e levada por ele, não pensava muito em como criar aquela personagem, eu gosto de ser dirigida….
Foto: Divulgação/Vitrine Filmes
5- Pensando no público mais jovem que agora terá a chance de assistir à cópia restaurada de Xica da Silva nos cinemas a partir de 16 de julho, qual a mensagem principal que você espera que essa obra transmita para as novas gerações, em especial as mulheres negras?
Espero que as novas gerações assistam a Xica da Silva entendendo que ela é fruto de um momento da história do Brasil, mas que continua dialogando com o presente. É um filme que provoca, desperta perguntas e nos faz refletir sobre poder, liberdade, racismo, desejo e desigualdade.
Para as jovens mulheres negras, desejo que a principal mensagem seja a de que elas pertencem a todos os espaços. Que nunca deixem que outras pessoas definam o tamanho dos seus sonhos ou o lugar que podem ocupar. Quando fiz Xica da Silva, era muito raro ver uma mulher negra protagonizando um filme dessa dimensão. Hoje avançamos, mas ainda temos muito caminho pela frente.
Espero também que elas olhem para essa trajetória e entendam que cada conquista abre portas para quem vem depois. Eu tive a felicidade de fazer parte dessa história, mas o mais importante é que outras histórias continuem sendo contadas, com cada vez mais diversidade, liberdade e verdade. Esse é o legado que mais me emociona.
Atriz afro-americana de 25 anos, Chase Infiniti saiu dos covers de K-pop para protagonizar o videoclipe de “Bad”, do grupo sul-coreano ATEEZ, enquanto desponta como um dos novos nomes de Hollywood.
A paixão pelo K-pop acompanhou Chase Infiniti muito antes de sua estreia em Hollywood. Hoje, a atriz afro-americana de 25 anos vive um momento que muitos fãs chamariam de realização. Depois de anos acompanhando o grupo sul-coreano ATEEZ e produzindo covers de coreografias do gênero, ela protagonizou o videoclipe de “Bad”, faixa lançada pelo grupo em junho deste ano.
A participação marcou um momento especial na trajetória da atriz, que já havia compartilhado diversas vezes seu carinho pelo grupo nas redes sociais e em entrevistas. Fã declarada do ATEEZ, especialmente do integrante San, Chase passou de admiradora a integrante de uma produção oficial do grupo, experiência conhecida entre fãs de K-pop pelo termo coreano seongdeok, usado para descrever quem consegue conhecer ou trabalhar com seus artistas favoritos.
Do Duple Dance Crew aos sets de Hollywood
Muito antes de estrelar um videoclipe de K-pop, Chase já fazia parte desse universo. Durante a pandemia, ela cofundou o Duple Dance Crew, grupo de dança cover criado com amigas enquanto vivia em Chicago.
O coletivo publica vídeos inspirados no formato conhecido como “K-pop in public”, levando coreografias para espaços públicos da cidade. O repertório reúne sucessos de grupos como NCT U, Red Velvet, NewJeans, Stray Kids e o próprio ATEEZ, um dos favoritos da atriz.
Em entrevista ao portal Biography, Chase explicou que o interesse pelo K-pop nasceu justamente pela combinação entre música e performance.
“O que me atraiu imediatamente foi o quão divertido era assistir. Ouvir suas músicas favoritas é divertido, mas aprender a coreografia é uma experiência totalmente nova.”
Novo nome em ascensão
Enquanto fortalece sua conexão com o universo do K-pop, Chase Infiniti também consolida sua carreira no audiovisual.
A atriz fez sua estreia no cinema, em 2025, com “One Battle After Another”, thriller dirigido por Paul Thomas Anderson, no qual interpreta Willa, filha do personagem vivido pelo ator Leonardo DiCaprio. Ela também integra o elenco da série “Os Testamentos: Das Filhas de Gilead”, adaptação inspirada na obra de Margaret Atwood, disponível no Disney+.
O chef carioca Léo Oldman, de 44 anos, natural de Irajá, no subúrbio do Rio de Janeiro, precisou tomar uma das decisões mais difíceis de sua vida em 2023: fechar seu restaurante de alta gastronomia na cidade do Porto, em Portugal — o Restaurante Cabeça de Porco. Após 17 anos de carreira na cozinha, sendo 10 deles em Portugal, encerrar as atividades foi a única alternativa para quitar suas dívidas e recomeçar.
Dessa decisão, sobraram apenas uma bancada, um forno, uma batedeira e uma geladeira. Foi assim que Léo deu início a uma pequena operação de take away e delivery de pizzas no Porto. Três anos depois, em 2026, brilhou no The Best Pizza Awards — considerado o “Oscar” do mundo da pizza — ao ser indicado na categoria “One to Follow”, voltada a profissionais apontados como grandes promessas e que, geralmente, passam a disputar as principais categorias nas edições seguintes. Infelizmente, Léo foi a única pessoa preta indicada na premiação de 2026, realidade ainda recorrente em reconhecimentos da gastronomia.
A pizza entrou em sua vida muito mais por necessidade do que por acaso.
“Aos poucos, aquilo que começou como uma forma de recomeçar se transformou em um projeto ao qual passei a dedicar praticamente todo o meu tempo”, explica o chef.
Léo sempre acreditou que estudar era o único caminho para evoluir. Dedicou-se aos livros, aos estudos e à prática, testou técnicas e aprendeu com alguns dos maiores nomes da pizza contemporânea, como Anthony Mangieri, Chris Bianco, Imai e Tamaki. Essas referências foram fundamentais, mas, como ele mesmo destaca, “meu objetivo nunca foi reproduzir o trabalho de ninguém. Eu quero construir uma identidade própria, baseada em técnica, consistência e respeito aos ingredientes.”
Não me estranha que Léo Oldman tenha sido o único preto indicado ao The Best Pizza Awards 2026. Foi por situações como essa que criei o Prêmio Gastronomia Preta, em 2022. O que me causa ainda mais estranhamento é que, em 2026, ele tenha sido o único homem preto presente no evento realizado em Milão, na Itália. A Europa contemporânea conta com uma expressiva presença da diáspora africana e, por isso, o relato do chef evidencia um cenário que merece reflexão.
O reconhecimento nunca vem fácil — ainda mais quando se é uma pessoa preta em um setor historicamente marcado pela baixa presença de profissionais negros em espaços de maior visibilidade. Léo Oldman estudou e pesquisou intensamente para alcançar um nível técnico capaz de ser reconhecido em uma área tão específica. A busca pelo conhecimento o levou diversas vezes à Itália para conhecer produtores, estudar processos e compreender de perto a cultura que envolve a pizza. Cada viagem reforçou a ideia de que fazer uma boa pizza depende muito mais de disciplina e atenção aos detalhes do que de fórmulas secretas.
Quando perguntei ao chef o que fazia com que ele tivesse sido reconhecido em uma área tão específica em um período relativamente curto, ele respondeu:
“O fato de eu ter vivido como chef muitos anos, ter uma técnica aprendida na França e ter passado um tempo na alta gastronomia me fez aplicar todo o rigor técnico que eu já tinha na confecção de pizzas. Os especialistas perceberam a fermentação natural, o controle desse processo e também o domínio do forno a lenha a 460 graus. Possivelmente, compreenderam tudo isso, o que chamou a atenção deles, principalmente ao descobrirem que eu não faço pizza há 20 anos, não sou de família italiana e nem tenho um storytelling de tradição italiana para contar. Até a premiação, eu nunca tinha ido à Itália.”
Ou seja, em apenas três anos, o chef Léo Oldman alcançou um nível técnico que muitas famílias e empresários italianos construíram ao longo de décadas. Isso é, sem dúvida, resultado de talento, estudo e dedicação. Espero, em breve, noticiar sua presença entre os vencedores das principais categorias do The Best Pizza Awards 2027. E já deixo registrado: quero a exclusividade dessa notícia, chef Léo Oldman.
Referência na dança negra contemporânea, companhia apresenta os espetáculos Florestas de Odé e Terreiro Urbano no Sesc 24 de Maio, dando início à turnê nacional comemorativa.
Referência na dança negra contemporânea, a Cia Treme Terra celebra 20 anos de trajetória com uma temporada especial em São Paulo. As apresentações acontecem entre os dias 16 e 19 de julho, no Sesc 24 de Maio, e marcam o início da turnê nacional comemorativa das duas décadas de atuação da companhia.
Durante a temporada, o público poderá assistir aos espetáculos Florestas de Odé e Terreiro Urbano, obras que dialogam com a ancestralidade, território e questões sociais contemporâneas por meio da linguagem da dança.
A temporada no Sesc 24 de Maio abre uma circulação nacional que celebra os 20 anos da companhia, reafirmando sua contribuição para a produção artística e para a valorização da dança negra contemporânea no Brasil.
Atualização (13/07): A Prefeitura de São Paulo informou que a estátua de Milena, personagem negra da Turma da Mônica, não foi vandalizada. Segundo a administração municipal, a cabeça da escultura se desprendeu devido a um problema durante a instalação da peça. O Instituto Mauricio de Sousa informou que uma nova estátua já está sendo produzida para substituição.
De acordo com a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa de São Paulo, o dano foi constatado durante um patrulhamento da Guarda Civil Municipal (GCM). O caso foi registrado no 33º Distrito Policial de Pirituba e comunicado ao Instituto Maurício de Sousa.
Em nota, o Instituto Maurício de Sousa informou que a escultura foi recolhida pela equipe responsável para passar por restauração. Após o reparo, a previsão é que a estátua seja reinstalada no mesmo local onde estava exposta.
A peça integra uma ação que espalhou 91 esculturas de personagens da Turma da Mônica por diferentes pontos da cidade de São Paulo em homenagem aos 90 anos de Maurício de Sousa.As esculturas foram instaladas em locais como a Avenida Paulista, a Praça da República, o Edifício Copan e a Marquise do Parque do Ibirapuera.
Criada em 2019, Milena foi apresentada como a primeira protagonista negra da Turma da Mônica e passou a integrar o núcleo principal de personagens da série.
Até o momento, não há informações sobre a autoria do vandalismo. O caso segue sob apuração.
Fotos: Ana Paula Amorim/Divulgação e Fábio Rocha/Globo
A TV Globo avalia cenários para o futuro do Altas Horas e, nos bastidores, o nome de Lázaro Ramos ganha força como possível sucessor de Serginho Groisman a partir de 2028. A informação foi divulgada por Carla Bittencourt, colunista do portal Léo Dias, e circula internamente na emissora enquanto se discute a renovação do veterano apresentador.
Serginho tem contrato com a Globo até o fim de 2027 e ainda não definiu se renovará. Caso deixe o comando do programa — no ar desde outubro de 2000 e marcado por conversas que atravessam gerações — a direção da casa busca alguém capaz de preservar a identidade da atração sem abrir mão de uma linguagem contemporânea.
Entre os nomes cogitados, Lázaro se destaca por reunir atributos que interessam tanto à recepção do público quanto à cena cultural. Ator, diretor e apresentador, ele é visto dentro da emissora como um profissional que transita com facilidade entre diferentes públicos e entre áreas como dramaturgia, música e literatura.
À frente do programa Espelho, no Canal Brasil — que completou 20 anos recentemente com uma temporada especial — Lázaro consolidou sua presença na televisão e no mercado publicitário. Além disso, é figura respeitada internamente e tem forte apelo junto a anunciantes.
Ainda que seja o favorito nas conversas internas, a possibilidade de Lázaro assumir o Altas Horas segue no campo das especulações até que a Globo e Serginho Groisman concluam as negociações contratuais. Outros nomes continuam na lista de possíveis substitutos.
Presidente da FIFA Gianni Infantino e o presidente da AFA Claudio Tapia (Foto: Getty Images)
O FBI e procuradores federais dos Estados Unidos investigam transações da Associação de Futebol Argentino (AFA) que teriam movimentado mais de US$ 300 milhões no sistema financeiro norte‑americano, em apuração que avalia possíveis crimes como lavagem de dinheiro e fraude bancária.
Fontes do jornal La Nación indicam que agentes do FBI e integrantes do Departamento de Justiça já colhem depoimentos relacionados às operações financeiras da entidade, presidida por Claudio Tapia. A investigação também mira a relação da AFA com a empresa americana TourProdEnter LLC, que passou a atuar como agente de cobrança dos contratos internacionais da federação.
Segundo relatos, investigadores ouviram por videoconferência o empresário Guilherme Tofoni em diligência sobre transferências e estruturas de pagamento vinculadas à AFA. O objetivo é determinar se parte das transações realizadas em solo americano se enquadra em delitos sob a jurisdição dos Estados Unidos.
As apurações, iniciadas em 2025, são conduzidas pelos procuradores-gerais Patrick Gushue e Christopher Ting, em Washington, com participação de Michael Berger, do Distrito Sul da Flórida. Gushue integra a Unidade de Integridade Bancária do Departamento de Justiça, especializada em crimes financeiros. Berger tem histórico em casos de lavagem de dinheiro, incluindo a condenação do ex-controlador-geral do Equador Carlos Ramón Polit Faggioni em Miami.
A TourProdEnter LLC passou a ser investigada após receber responsabilidade pelos recebimentos de contratos internacionais da AFA. De acordo com o La Nación, a empresa teria canalizado centenas de milhões de dólares oriundos de acordos com multinacionais. Entre os contratos citados estão supostos repasses de US$ 60 milhões com a Adidas e US$ 40 milhões com a Warner.
As investigações ocorrem enquanto a seleção argentina se prepara para disputar as quartas de final da Copa do Mundo de 2026, em meio a acusações de favorecimento da arbitragem nos jogos contra o Egito e contra Cabo Verde.
Procurada pela imprensa, a AFA não se manifestou até o momento.
O ator Colman Domingo voltou a ser reconhecido pela Academia de Televisão dos Estados Unidos ao conquistar duas indicações ao Emmy 2026. O artista concorre nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante em Série de Comédia, por The Four Seasons, e Melhor Ator Convidado, por sua participação na terceira temporada de Euphoria.
As declarações foram concedidas ao portal Deadline, logo após o anúncio das indicações. Para Domingo, o reconhecimento ganha um significado especial justamente por destacar interpretações construídas em registros completamente diferentes.
“A diversidade de trabalho é o que sempre almejei, ter essas oportunidades para exercitar habilidades bem diferentes.”
No ano anterior, o ator descobriu que havia sido indicado ao Emmy enquanto gravava Euphoria. Desta vez, a coincidência foi ainda maior, pois as duas produções das quais participa figuram entre seus trabalhos reconhecidos pela Academia na mesma edição da premiação.
Em The Four Seasons, Domingo interpreta Danny, personagem que, segundo ele, dialoga diretamente com a cultura contemporânea por meio do humor e da leveza. Já em Euphoria, retorna ao papel de Ali, figura central na trajetória de Rue, interpretada por Zendaya.
Segundo o ator, os dois personagens representam desafios criativos distintos e demonstram diferentes possibilidades de atuação ao longo de sua carreira.
Sobre Ali, Domingo destacou que o personagem ocupa um lugar simbólico dentro da narrativa da série.
“Ele é a consciência. Ele é a oração pelo mundo, de muitas maneiras. Então, pude me aprofundar em questões muito importantes para mim: como nos curamos? Como nos reinventamos?”
A indicação ao Emmy veio pelo episódio final da temporada, em que Ali enfrenta acontecimentos decisivos que aprofundam sua própria trajetória emocional. Segundo o ator, interpretar esses momentos exigiu um mergulho em temas como perda, redenção e transformação. Ele também afirmou que o processo criativo desenvolvido ao lado de Zendaya e do criador da série, Sam Levinson, está entre os trabalhos mais significativos de sua carreira.
“O trabalho que Zendaya, Sam e eu fizemos juntos naquele episódio está entre os meus melhores. Foi um desafio que me fez crescer como artista.”
Domingo já havia conquistado um Emmy por sua atuação em Euphoria. Nesta edição, ele e Zendaya são os únicos integrantes do elenco da série indicados nas categorias de atuação.
Ao receber a notícia das duas novas indicações, o ator contou que estava de férias na Europa e recebeu uma ligação de Sam Levinson para celebrar o momento. Em vez de grandes comemorações, disse que pretende aproveitar o período de descanso para recarregar as energias antes dos próximos projetos.
Conheça as Yabás, orixás femininas do candomblé, e descubra o que cada uma ensina sobre dinheiro, luto, amizade e autoridade na vida da mulher negra.
A tradição iorubá reúne mais de quatrocentas divindades, transmitidas de geração em geração por meio de itans, mas apenas um número reduzido delas atravessou o Atlântico com a população negra escravizada e se firmou nos terreiros brasileiros. Desse recorte, dezesseis orixás formam o conjunto mais cultuado no país, e seis deles são femininos, Oxum, Iemanjá, Iansã, Obá, Nanã e Ewá, chamadas de Yabás. Os outros dez são Exu, Oxalá, Ogum, Oxóssi, Oxumarê, Xangô, Omolu, Logunedé, Ossain e Ibeji. Os itans de cada Yabá, quando lidos além da superfície, mostram ensinamentos sobre administração de bens, resolução de conflitos, relação com a morte e exercício da autoridade, temas que a leitura popular costuma reduzir a vaidade e delicadeza. Duas outras forças femininas, Ajé e Iyami, embora fora dessa lista fechada de dezesseis, seguem amplamente cultuadas em terreiros de todo o país e ajudam a completar esse retrato.
O termo iorubá que designa as divindades femininas do candomblé, iabá ou iyabá, se contrapõe a aborô, categoria reservada aos orixás masculinos. Essa divisão não é meramente linguística. Nos terreiros de nação Ketu e Ijexá, a organização familiar costuma seguir uma lógica matrifocal, e são as mães de santo, não os pais de santo, quem historicamente concentram a maior autoridade religiosa em boa parte das casas mais tradicionais do país. O pesquisador e babalorixá José Flávio Pessoa de Barros, fundador do Ilé Asé Omí Iwí Odara e filho da iyalorixá Nitinha de Oxum, dedicou parte de sua obra a documentar essa estrutura, assim como o etnógrafo Pierre Verger, que passou décadas registrando itans nas duas margens do Atlântico. Para essa linhagem de estudiosos, entender uma Yabá exige separar o itan do estereótipo, e cada relato sagrado carrega camadas de sentido que os próprios terreiros preservam por oralidade, geração após geração.
Oxum, a estrategista das águas doces
Oxum ensina, antes de qualquer coisa, a administrar recursos, informação e alianças, ofício que a leitura popular reduz a espelho, ouro e vaidade. O itan que narra seu aprendizado ao lado de Iansã, quando ela adquire a qualidade guerreira conhecida como Oxum Opará e passa a acompanhar a companheira nos fundamentos ligados aos eguns, mostra que essa gestão de bens nunca dispensou preparo para o enfrentamento direto. Já o itan em que ela orienta Obá a cozinhar um prato especial para Xangô, episódio que termina com Obá cortando a própria orelha, revela outra camada da mesma lição, a de que quem administra recursos também administra informação, e nem sempre com boa fé. Aplicada à vida de mulheres negras hoje, essa dupla natureza de Oxum aponta para uma gestão financeira e profissional que exige tanto articulação quanto vigilância, competências historicamente negadas a essas mulheres e hoje reivindicadas como herança espiritual.
Iemanjá, autoridade sobre a multidão
Iemanjá ensina a exercer liderança sobre grupos numerosos, não apenas afeto individual, distinção que a iconografia comercial apaga ao reduzi-la a mãe silenciosa dos mares. Os itans que a descrevem como responsável por uma extensa descendência de orixás mostram uma matriarca que arbitra disputas entre filhos já adultos, distribui autoridade entre eles e segue reconhecida como referência mesmo quando esses filhos formam seus próprios domínios. Essa dimensão de gestão coletiva, mais próxima da administração de uma grande rede familiar do que da maternidade contida e discreta, aproxima Iemanjá do papel que hoje cumprem mulheres negras à frente de arranjos familiares extensos, redes de apoio comunitário e organizações de base, papel que exige arbitragem constante e raramente é lido como exercício de poder.
Iansã, a que negocia com a morte
Iansã ensina a atravessar perdas sem se fixar no medo, e a condição para esse aprendizado aparece no próprio desenho de seus itans, que a mostram adquirindo, uma a uma, habilidades com diferentes orixás masculinos, a lida com o ferro junto de Ogum, a arte da caça junto de Oxóssi, o domínio do vento junto de Iroko, até reunir autonomia suficiente para se tornar, ao lado de Obaluaiê, a única orixá autorizada a conduzir os eguns, os espíritos dos mortos. Essa trajetória de acúmulo, lida ao lado da recusa de Iansã em permanecer parada durante os rituais, algo que zeladores de santo costumam cobrar quando corrigem terreiros que a tratam como figura decorativa, ensina que atravessar o fim de um ciclo exige movimento contínuo, não resignação. Para mulheres negras que enfrentam luto, demissão, ruptura ou qualquer forma de encerramento, o itan de Iansã oferece um modelo raro, o de quem negocia diretamente com aquilo que a maior parte das culturas prefere evitar.
Obá, a arquiteta de espaços só de mulheres
Obá ensina a reconhecer conselhos que não vêm de boa fé e a reconstruir autoridade depois de uma derrota pública, lição que o itan mais difundido sobre ela costuma obscurecer ao reduzi-la ao episódio em que corta a própria orelha, enganada por Oxum, para agradar Xangô. O mesmo itan, lido com atenção, mostra Obá se retirando para as águas do rio que leva seu nome depois da humilhação, não para desaparecer, mas para se transformar em uma força renovada, capaz de dominar corredeiras e enchentes. Outro itan, menos repetido, apresenta Obá como fundadora e senhora da sociedade Elecô, espaço ritual restrito a mulheres dedicado ao culto da ancestralidade feminina, dado que desloca sua história do ciúme individual para a construção coletiva de autoridade. As duas camadas, a da dor transformada e a da liderança institucional, ensinam que reconstruir credibilidade depois de um erro ou de uma armadilha alheia é possível, e passa por criar espaços próprios de sustentação.
Nanã, o tempo que não se apressa
Nanã ensina que a autoridade se acumula com o tempo, não com a pressa, princípio presente no próprio lugar que ela ocupa entre as Yabás, a de mais antiga, cuja idade avançada não diminui seu poder e, ao contrário, sustenta a hierarquia inteira do panteão, já que orixás mais jovens a tratam com deferência. O itan que a credita como fornecedora do barro usado por Oxalá para moldar os primeiros corpos humanos posiciona Nanã na origem de tudo o que existe, e o mesmo itan que trata a morte como retorno a esse barro a coloca também no fim de cada ciclo, tratando nascimento e morte como partes de um mesmo movimento, não como opostos. Em uma sociedade que costuma descartar mulheres mais velhas, Nanã oferece o modelo inverso, o da mulher negra idosa como guardiã de memória e não como figura ultrapassada, autoridade que se conquista justamente por não agir por impulso.
Ewá, a senhora do que não se explica
Ewá ensina discernimento e o direito de proteger o que permanece intocado, lição que se perdeu por décadas sob uma leitura equivocada de seu itan de iniciação, que exigiria virgindade física das mulheres feitas para ela. Estudiosos da língua iorubá contestam essa leitura, apontando que o termo associado a Ewá remete à ideia de pureza de julgamento e proteção, não à anatomia, e que a confusão nasceu de uma tradução mal ajustada. O próprio erro, sustentado por tanto tempo dentro dos terreiros, funciona como itan em si, o de como leituras coloniais e patriarcais se infiltram na interpretação de tradições africanas, deslocando sentido simbólico para controle sobre o corpo feminino. Ewá, menos conhecida no Brasil e associada à mata fechada, à neblina e ao segredo, ensina hoje a estabelecer fronteiras pessoais e a decidir por si mesma o que permanece reservado, temas que dialogam diretamente com debates atuais sobre autonomia e consentimento.
Ajé, a riqueza que se guarda em segredo
Ajé ensina que prosperidade não exige ostentação, lição construída ao longo do itan em que ela segue Olokun, seu pai e senhor das profundezas do oceano, disfarçada na espuma das ondas, aprendendo a observar sem se expor. Filha caçula de Olokun e irmã mais nova de Iemanjá, Ajé descobre nesse mesmo itan que todo segredo carrega também um risco, quando o brilho que ela guarda para si acaba revelando sua presença. O culto a essa orixá é raro no Brasil hoje, mais preservado em terreiros cubanos, mas vem sendo lentamente reconstruído em algumas casas de candomblé, e sua presença amplia a leitura sobre riqueza dentro da mulheridade negra, associando prosperidade à administração discreta e paciente do que se conquista, não à visibilidade constante.
Iyami, o poder que antecede os orixás
Iyami ensina que vida e morte, fertilidade e destruição, são faces de uma mesma força, não polos opostos a serem escolhidos. Iyami Ajé, também chamada Iyami Oxorongá, não é uma orixá individual, mas a sacralização coletiva do poder ancestral feminino, anterior à própria criação dos orixás segundo a tradição iorubá, e seu itan de origem a liga à sociedade Gelede e ao culto das chamadas senhoras dos pássaros da noite. Dentro do candomblé, Iyami mantém relação direta com Oxum, cuja iyalorixá tradicionalmente assume a responsabilidade por esse culto após 21 anos de obrigação fechada, e também com Nanã e com Iroko, conexões que reforçam sua posição como camada mais funda da autoridade feminina. Pesquisadoras da área alertam contra a leitura que equipara Iyami a uma figura de bem e mal, ao estilo de Exu, e insistem que seu significado original está ligado à fertilidade, à vida e à morte tratadas como uma mesma continuidade, ensinamento que devolve à mulher negra mais velha e à ancestral o lugar de origem, não de margem.
O calendário do candomblé reserva a este mês de julho duas datas de peso para essas divindades. Terreiros de diferentes nações celebram Iansã ao lado de Xangô ao longo do mês, e no dia 26 de julho é a vez de Nanã receber suas homenagens como a mais velha do panteão. Mundo Negro segue a programação do Julho das Pretas com novos conteúdos sobre a presença das Yabás na formação da mulheridade negra brasileira.
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