Uma geração de pretas e pretos universitários que tanto ensina como aprende

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Uma geração de pretas e pretos universitários que tanto ensina como aprende
(Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil)

Por: Rodolfo Teixeira Alves

Uma geração de intelectuais vem sendo formada após a implementação das políticas de ação afirmativa nas universidades. A partir de 2012, o ingresso e permanência de jovens negras e negros nesses espaços, boa parte oriunda das favelas e periferias urbanas, mudou consideravelmente o cenário acadêmico. Não só acadêmico, aliás. Hoje, algumas empresas abrem oportunidades voltadas para esses profissionais recém formados. Programas de treinamento de empresas como Magazine Luiza, Folha de São Paulo e jornal Nexo, destinados a pessoas negras, são alguns exemplos. Essas medidas visam diversificar os quadros de liderança dessas empresas, conforme anunciam. Não creio que isso seja apenas uma tendência empresarial ou abertura espontânea dessas empresas. Isso talvez seja reflexo de tensões e reivindicações internas.

O tensionamento interno é efeito direto da presença dessas pessoas nesses espaços. E se fazer presente é, entre outras, nossa forma de atuar politicamente, como intelectuais negras e negros. Recordo de um post de uma estudante da Faculdade Nacional de Direito (UFRJ) dizendo que só por ela circular pelos corredores da faculdade, como uma mulher negra, já era em si um ato político. E nas universidade nos fizemos presente, também, formando coletivos negros, grupos de estudos e cursos para ingresso na pós-graduação. Fora dela, atuamos e construímos pré-vestibulares comunitários e outras organizações locais. 

Racializar esses espaços demarca diferenças, cria fronteiras simbólicas, questiona discursos, aponta ausências e faz lembrar do que se quer esquecer. E isso é positivo porque diversifica, oferece novos referenciais sociais, culturais e filosóficos. Traz para os trabalhos e discussões outras sensibilidades, experiências, vivências, propondo construir conhecimentos que valorizam o testemunho. O que está em jogo não é incorporação, mas diversificação. Na medida que se estabelece essa relação baseada na diferença, percebemos que todo discurso é localizado, e portanto ideológico.

Em um importante ensaio, o sociólogo jamaicano Stuart Hall argumenta como políticas voltadas para promover a diferença cultural fazem emergir outras sensibilidades e criam espaços de contestação do que existe como hegemônico. Disso surgem novas alternativas e se propõe outras tradições como referência. Esse movimento é potente porque possibilita reescrever a história a contrapelo, mostra como um conjunto de medidas institucionais, políticas e ideológicas, deixaram do lado de fora inúmeros personagens, ideias e teorias sobre o mundo. Ressalta, dessa forma, como o esquecimento, a negação, o querer calar são ferramentas políticas do racismo.

Em seu livro Memórias da Plantação, Grada Kilomba fala como a boca é um órgão importante por simbolizar a fala e a enunciação. “No âmbito do racismo, a boca se torna o órgão da opressão por excelência, representando o que as/os brancas/os querem – e precisam – controlar e, consequentemente o órgão que, historicamente, tem sido severamente censurado”, diz a autora. Kilomba analisa o quadro que retrata a escravizada Anastácia amordaçada, como castigo, por motivos que supõe ter sido sua resistência à investida sexual de um “senhor” branco ou para impedir a sua fala de ativismo político. Em 2019, o artista Yhuri Cruz produziu a importante obra Monumento à Voz de Anastácia, propondo uma viagem no tempo para retirar a mordaça de sua imagem e fazer Anastácia livre.

Essa viagem no tempo, atualmente, transcende a própria história colonial e escravista do Brasil. O retorno às tradições africanas, como o Kemet, por exemplo, tem construído caminhos alternativos para a alimentação, saúde e cuidados com o corpo. São filosofias que orientam a vida por outros princípios, mudam a forma que nos relacionamos com o mundo.

A memória é um campo de disputa. Creio que na medida que nos fazemos presente no espaço acadêmico, empresarial, artístico, ou onde quer que seja, nossos corpos fazem política. Existir, por si só, já é um ato político. Mas não para por aí. Estar presente é, também, construir espaços de contestação e meios de vociferar as vozes deixadas do lado de fora, que uma série de políticas institucionais racistas quiseram fazer esquecer. Não há apagamento porque, afinal, essas vozes continuam a ressoar.

Em todos os campos do conhecimento, trazer o pensamento de artistas e intelectuais negras e negros e indígenas, fazendo conhecer via política de resgate, torna nosso imaginário teórico e filosófico mais diversificado e representativo. Nas universidades após políticas de ação afirmativa, os coletivos negros que surgiram e se nomeiram em referencia a essas personagens históricas, muitas delas esquecidas, resgatam e as fazem presente. Pesquisadores e pesquisadoras que se dedicam à trajetória de vida dessas personagens, agem no mesmo sentido. Projetos como os podcasts História Preta, Vidas Negras, Kilombas, Ogunhê, Negra Voz, entre outros, também são exemplos.

Sem dúvida essas políticas de ação afirmativa trouxeram importantes mudanças sociais, econômicas, culturais e políticas que transcendem o espaço acadêmico. E isso mostra que o ingresso não é um fim, e sim o começo de um longo processo de luta pela permanência e construção de representatividade nesses espaços. E isso também vem se refletindo no meio empresarial, como esses programas de treinamento demonstram. E quanto mais cedo essas instituições e corporações entenderem que não entramos apenas para aprender, melhor será para o seu desenvolvimento. Uma vez presentes, tensionando, estamos ensinando.

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