Ana Gabryele Moreira: A primeira cientista preta brasileira a receber prêmio internacional da ONU

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Ana Gabryele Moreira: A primeira cientista preta brasileira a receber prêmio internacional da ONU
Foto: Reprodução.

Por: Nycolle de Moraes. 

Diretamente de Cajazeiras, periferia de Salvador, Bahia, filha de dona de casa e motorista de transporte coletivo, Ana Gabryele Moreira, de 29 anos, foi a primeira mulher preta a receber um prêmio internacional da ONU. Estudante de física médica na Universidade de São Paulo (USP), Ana Gabryele ganhou o Prêmio Marie Curie da Agência Internacional de Energia Atômica – IAEA – ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), e seguirá o mestrado fora do país no próximo ano. Em 2020, a IAEA iniciou um trabalho para incentivar mulheres a ingressarem no mundo da energia nuclear. A cientista terá direito a bolsa de 10 mil a 40 mil euros para estudar no exterior.

Sendo uma área atuante por homens brancos, a estudante conseguiu levar a segunda edição do prêmio com sua pesquisa científica. Ao lado de outras pesquisadoras, buscou-se entender o perfil sociocultural de mulheres que trabalham em uma instituição nuclear brasileira, o IPEN (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares). A pesquisa foi feita por Ana Gabryele, Karoline Suzart, Nélida Mastro, e Priscila Rodrigues, visando incluir naturalidade, cor, áreas que mais atuam, se tem mulheres ocupando cargo de chefia, quais mulheres que são referências no instituto para elas, entre outras questões. Os resultados vieram de respostas voluntárias, onde as poucas mulheres que ocupam os espaços na área são divididas em 84% brancas e somente 10% pretas. 

“Teve o trabalho de um homem, aqui no Brasil, em que ele cita 16 homens na física nuclear, nenhuma mulher. E trazemos justamente essa crítica, que tem mulheres muito boas trabalhando na física nuclear do Brasil, reconhecidas internacionalmente, e mulheres não são citadas”, pontuou Ana Gabryele. 

A baiana foi a primeira pessoa de sua família a ingressar em uma universidade federal, através do sistema de cotas, foram cinco anos tentando ingressar na Universidade Federal da Bahia (UFBA), até passar na Universidade Federal de Sergipe (UFS), depois de ter feito um curso tecnológico em radiologia, até que recebeu um conselho para seguir na área de física médica e ingressou no Instituto de Pesquisas Energéticas Nucleares (IPEN), dentro da USP, onde fica o primeiro reator nuclear do Brasil. 

O IPEN está vinculado à Comissão Nacional de Energia Nuclear, o CNEN, que fiscaliza e regulamenta o uso da energia nuclear em todo o Brasil. Além disso, no IPEN são produzidos 25 medicamentos diferentes para o tratamento de câncer, cerca de 85% destes medicamentos no país são feitos no instituto.

Para Ana Gabryele, o papel da mulher dentro da academia vai além de desenvolver pesquisa, a estudante destaca a necessidade de também incentivá-las, destacando que as mulheres são pouco reconhecidas no ambiente acadêmico e em congressos, além de não ocuparem espaços na liderança de chefias e departamentos. “As pessoas acham que para ser machismo e racismo está atrelado a ações. Mas somos testadas todos os dias e não só em ações diretas. Somos testadas por sermos mulher e mulher preta”, concluiu.

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