Só a radicalização salva os negros

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Só a radicalização salva os negros
Imagem: The Atlantic

*Texto de Ricardo Corrêa*

preto é um brinquedo nas mãos do brancoentão, para romper este círculo infernalele explode.

 − Frantz Fanon

Os meus amigos estão com a saúde mental bastante fragilizada, e eu me encontro na mesma condição, afinal, somos todos negros sobrevivendo em uma sociedade descaradamente racista. Impossível escapar ileso. Aliás, como o racismo estrutura as relações sociais não temos saída, a não ser minorar as dores. A constante exposição nos adoece, ao ponto de até abreviar as nossas vidas. As doenças evitáveis nos perseguem, além das “balas perdidas”.

Lamentavelmente, o retrocesso civilizatório parece ser a sina dos brasileiros, é por isso que são mínimas as minhas esperanças de uma sociedade mais acolhedora. As pessoas demonstram cada vez mais um fascínio por reacionários. Tão verdade que parcela considerável dos políticos eleitos, no primeiro turno das eleições de 2022, está alinhada aos pensamentos contrários a luta pelos direitos humanos. Nesse sentido, não adianta acreditarmos que os direitos à população negra surjam naturalmente através do Estado. Mas é possível que a população negra, organizada e radicalizada, consiga melhorar a própria condição social. Para tanto, devemos nos afastar das discussões que jogam sombra ao que realmente importa no combate ao racismo, e repelir pensamentos que flertam com o individualismo, com a defesa do capitalismo e a divinização a personalidades. A nós, importa, fundamentalmente, desconstruir todos os diferentes instrumentos a serviço do racismo.

Porém, isso só ocorrerá ao superarmos os desafios, mencionados pelo sociólogo Clóvis Moura (1988), que impedem a massificação da consciência negra, da consciência crítica, fundamentais para o estímulo do eu revolucionário dos negros.

A herança da escravidão que muitos sociólogos dizem estar no negro, ao contrário, está nas classes dominantes que criam valores discriminatórios através dos quais conseguem barrar, nos níveis econômico, social, cultural e existencial a emergência de uma consciência crítica negra capaz de elaborar uma proposta de nova ordenação social e de estabelecer uma verdadeira democracia racial no Brasil.

Os poucos radicais negros que aparecem são cooptados pelo sistema; e os que resistem, sabotados. Afinal, os mesmos colocam em risco o projeto de alienação das pessoas oprimidas, defensoras do status quo e do próprio sofrimento. O radical é um farol na luta! E, diferente do que muitos acreditam, ele não é sectário e defensor da violência. Conforme o educador Paulo Freire (1987), o radical é uma pessoa com apurado senso crítico. É contra a passividade diante da violência do dominador. Está sempre junto das massas e se comunica de forma clara. Elabora análises e estratégias relacionando a realidade concreta e a subjetividade.

Vamos pensar juntos. De acordo com o IBGE (2022), os negros totalizam 56% da população brasileira.[1] Imagine se a maioria dessas pessoas não recuasse um só milímetro perante o racismo. Homens e mulheres negros denunciando os comportamentos racistas dos brancos. Organizando amplos protestos de combate ao racismo, não apenas quando acontecem casos brutais de violência racista. Elegendo políticos negros compromissados com as pautas antirracistas e anticapitalistas. Construindo e participando de agremiações focadas na cultura negra e na defesa dos direitos humanos. Elaborando boicotes contra empresas e comércios com histórico racista. Educando jovens negros e adultos negros acerca das questões raciais. Trabalhando coletivamente para desmantelar toda lógica racista institucional (justiça, economia, política) que impede o nosso acesso aos direitos básicos. Lembrando sempre a sociedade de que o racismo jamais será tolerado. Claro que esses exemplos são básicos, mas digo que soam revolucionários, se considerarmos que o racismo colocou na cabeça do negro um sentimento de inferioridade, o responsabilizou pelas próprias mazelas, e assim o imobilizou. Os brancos, não pertencentes às classes dominantes, foram domesticados e cooperam com o racismo em troca de míseras vantagens, mesmo não sendo poupados das violências resultantes do capitalismo. Estão cegos. Assumiram o ódio, a repulsa e o silêncio perante as injustiças contra os negros; em alguns momentos ficam indignados


quando vêem corpos negros tombados pela violência, mas nada que provoque uma mudança de comportamento que os estimulem a discutirem seriamente como podem utilizar os privilégios na luta antirracista. Infelizmente, participam ativamente na manutenção do racismo, de maneira consciente e inconsciente.

Por tudo isso, a radicalização dos negros é a única forma de mitigarmos o sofrimento. Vamos ampliar as maneiras de difusão do conhecimento para o povo negro. Recusemos as migalhas que o sistema oferece. Deixemos de lado as distrações como “preto no topo”, “a favela venceu”, “favela é potência” e exaltação às conquistas individuais como se fossem coletivas. Ou radicalizamos a luta, ou o racismo seguirá esmagando a todos nós. Lembre-se, estamos por nossa própria conta e − definitivamente − nada será concedido sem exigência, como ensinou o revolucionário sul-africano Steve Biko.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BIKO, Steve. Escrevo o que eu quero. São Paulo: Editora Ática, 1990.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Trad. de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.

MOURA, Clóvis. Sociologia do negro brasileiro. São Paulo: Editora Ática, 1988

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

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