Uma vez que as empresas são feitas de pessoas, não há como discutir assuntos raciais sem a coparticipação da sociedade. Sempre que um caso ganha repercussão nas mídias, há uma tendência de concentrar a atenção no ato falho, na ação criminosa ou no comportamento individual. Mas é o pós-mídia que merece maior reflexão. O que acontece depois da injúria racial e da indignação? Como as instituições, as escolas, as universidades, as igrejas e até mesmo as rodas de conversa entre amigos transformam o crime de racismo em combate coletivo?
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Costumo dizer que mudanças exigem intenção seguida de ação. Todo indivíduo precisa se compreender socialmente como corresponsável pelo bom funcionamento das leis e dos princípios que regem a convivência em sociedade. Essa reflexão faz diferença porque o racismo não é um fenômeno que nasce nas empresas; ele chega até elas por meio das pessoas, das crenças, dos silêncios e das estruturas sociais que moldam as relações cotidianas.
Por isso, quando um crime de racismo ocorre no ambiente corporativo, a discussão não pode se limitar ao desligamento do funcionário ou à emissão de uma nota de repúdio. A legislação brasileira trata o racismo como crime, mas a punição, não é suficiente para enfrentar um problema cuja origem antecede o episódio em si. Precisamos entender — e combater — determinadas “piadas”, expressões e comportamentos que se naturalizam a ponto de muitos sequer reconhecerem a gravidade de seus atos.
O letramento racial ganhou espaço nas empresas como uma ferramenta para ampliar a consciência sobre discriminação e desigualdades. Mas é impossível esperar que treinamentos corporativos resolvam sozinhos um problema que acompanha a formação social do país. A empresa pode estabelecer regras e criar mecanismos de responsabilização, mas não substitui a família, a escola, os espaços religiosos, os meios de comunicação e as demais instituições que participam da construção de valores.
Se o racismo é um crime, sua prevenção também deve ser encarada como uma responsabilidade compartilhada. O letramento racial não pode ser entendido apenas como uma pauta de recursos humanos ou uma resposta às exigências de governança e reputação. Temos, juntos, que revisitar hábitos, questionar privilégios e compreender que a convivência democrática exige consciência.
Talvez o maior desafio esteja em abandonar a crença de que os casos de racismo são desvios ocasionais provocados por indivíduos isolados. Se assim fosse, não veríamos episódios semelhantes se repetindo em diferentes setores do país. O que se repete merece ser analisado como estrutura social, e não apenas como uma sucessão de exceções.
As empresas têm o dever de criar ambientes seguros e de agir com rigor diante de práticas discriminatórias. Mas a sociedade também precisa se perguntar que valores está transmitindo às próximas gerações. Sabemos que nenhuma organização contrata preconceitos; ela contrata pessoas. E pessoas carregam consigo referências que foram construídas muito antes da assinatura de um contrato de trabalho.
Discutir o tipo de sociedade que seguimos formando é fundamental para tratar do assunto de maneira efetiva. Porque a mudança institucional depende de políticas, mas também de escolhas individuais. As lideranças precisam ter consciência das leis e das estruturas reais da sociedade. É preciso compreender que nenhuma transformação coletiva acontece quando a responsabilidade é minimizada, atribuída ao outro, ou quando o arrependimento acontece apenas nas plataformas de comunicação. Que o antirracismo ecoe até que toda a sociedade compreenda os malefícios do racismo.
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