Os desafios da construção de riqueza das famílias negras brasileiras

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Os desafios da construção de riqueza das famílias negras brasileiras
Helen Moraes (Foto: Divulgação)

Por: Rachel Maia

No dicionário, a palavra herdeiro significa “sucessor” e entre o povo negro esse contexto raramente é associado ao poder aquisitivo. Uma palavra que representa uma divisão entre aqueles que detêm liberdade de escolha e os que precisam correr atrás do prejuízo causado pelo sistema escravocrata e pela ausência de reparação aos descendentes de pessoas escravizadas.

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Sendo assim, a discussão sobre riqueza entre famílias negras não pode ser reduzida à capacidade individual de poupar, empreender ou conquistar a casa própria. É preciso compreender que patrimônio é resultado de tempo, oportunidades e transmissão de recursos entre gerações. Entender que existe uma dívida histórica que mantém pessoas negras em desvantagem financeira é fundamental para identificar os diferentes pontos de partida.

Casa própria: patrimônio, herança e oportunidade

A moradia é o principal instrumento de formação patrimonial. É a partir da tão sonhada casa própria que as famílias brasileiras têm a oportunidade de se projetar para o futuro e proporcionar aos seus herdeiros maior tranquilidade e melhores condições para alcançar estabilidade financeira.

Helen Moraes é CEO da Habita Reurb e da Habita Moraes, a primeira mulher negra à frente de uma incorporadora de construção civil, alguém que cria oportunidades para que famílias iniciem o processo de formação patrimonial e compreendam que cada bem material adquirido representa um passo em direção à segurança financeira e geração de riquezas.

“Muitas famílias negras sonham com a casa própria, mas cresceram sem referências de investimento patrimonial dentro de casa. Quando não existe herança, imóvel ou reserva financeira familiar, cada geração precisa começar do zero”, enfatiza Helen.

Quando uma família adquire um imóvel, ela não está apenas conquistando um bem material. Está criando uma base de segurança capaz de atravessar décadas, protegendo seus descendentes das instabilidades econômicas e ampliando suas possibilidades de escolha. Como defende Helen: “Incentivar a compra da casa própria, o planejamento financeiro e a cultura da sucessão patrimonial é contribuir para que as próximas gerações tenham mais oportunidades do que tivemos. Afinal, riqueza não se constrói apenas para uma vida, mas para um legado”.

Enquanto descendentes de europeus acumulam patrimônio há gerações — por terem adquirido concessões para compra de terras e imóveis —, famílias negras e indígenas, descendentes de pessoas privadas de sua liberdade e impedidas de adquirir recursos para iniciar suas vidas financeiras e acadêmicas devidamente, ainda estão construindo aquilo que deveria ter sido o ponto de partida de seus antepassados.

“Acredito que a educação patrimonial é uma ferramenta de transformação social. Tenho procurado ensinar as pessoas da minha comunidade que a aquisição da casa própria não representa apenas segurança habitacional, mas também a construção de um ativo capaz de gerar estabilidade financeira e oportunidades para os filhos e netos. Um imóvel pode ser a primeira etapa para a formação de riqueza familiar”, contextualiza a empresária.

Temos falado sobre reparação e sobre políticas de acesso, inclusão e informação para essa parcela da população, historicamente negligenciada, que ainda sofre os efeitos de quase quatorze décadas decorridas desde o fim da escravização. A ampliação do acesso à moradia, ao crédito, à educação financeira e às oportunidades de geração de renda para a população negra fortalecerá uma cultura de planejamento patrimonial, permitindo que os frutos das conquistas atuais não se encerrem em uma única geração.

“Construir riqueza é um processo de longo prazo. Ele começa quando entendemos que patrimônio não é apenas um bem material, mas uma estratégia de liberdade econômica. Dados do IBGE demonstram que a renda da população preta e parda permanece significativamente inferior à da população branca, o que impacta diretamente a capacidade de poupar, investir e adquirir bens duráveis. Essa desigualdade não afeta apenas o presente, mas também a possibilidade de construção de herança e mobilidade social”, ressalta a CEO.

Produzir riqueza e garantir que ela permaneça, cresça e seja transmitida de geração em geração entre as famílias afro-brasileiras e os povos originários é um desafio que estamos enfrentando há muito tempo. E esse tempo já se estendeu o suficiente para que a situação retratada nestas linhas não seja normalizada, mas combatida. Isso exige intencionalidade, perseverança e sobretudo corresponsabilidade de pessoas não-negras nesse processo de transformação. A palavra “herdeiro” precisa deixar de ser uma exceção na realidade das famílias negras brasileiras para se tornar parte de uma trajetória coletiva de prosperidade, autonomia e poder de escolha.

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