“Kardec era racista? Eu diria mais etnocentrista, como Darwin” diz cineasta Karim Akadiri

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Conversamos com o cineasta francês, Karim Akadiri Soumaïla, na qual é o protagonista, diretor, corroteirista e narrador da série investigativa ‘Em Busca de Kardec’. Karim mergulha pelo espiritismo para ressignificar o luto pela morte da filha, Ifa. Ele parte da Europa para o Brasil, onde tem contato com a sua primogênita por meio de pintura mediúnica e descobre escritos inéditos do codificador da doutrina. Toda experiência foi documentada e será exibida no canal de TV por assinatura Prime Box Brazil.

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Karim, é um homem preto e muitos estudiosos sobre o tema do espiritismo acusam Allan Kardec de ter sido um homem racista.

Quem foi Allan Kardec:

Saiba mais sobre Allan Kardec e o Espiritismo | Rádio Boa Nova

Hippolyte Léon Denizard Rivail (Lyon, 1804 – 1869) foi um educador, escritor e tradutor francês. Nascido numa antiga família católica com tradição na magistratura e na advocacia, desde cedo manifestou propensão para o estudo das ciências e da filosofia. O pseudônimo de Allan Kardec o notabilizou como codificador do Espiritismo (neologismo por ele criado) também denominado de Doutrina Espírita.

Embasado na frenologia (craniologia), considerada hoje como pseudociência, fundada pelo médico alemão Franz Joseph Gall (1758-1828), segundo o qual as formas anatômicas do crânio humanos teriam relação com o caráter, personalidade, moralidade e com a espiritualidade. Ele foi membro ativo por vários anos da Sociedade Frenológica de Paris.

Kardec assume que o aspecto físico, morfológico e biotípico do negro expressa inferioridade intelecto-moral em comparação com a raça caucasiana. De acordo com ele, a raça branca seria mais evoluída espiritualmente, conforme vemos nos trechos da sua obra:

“Os negros, pois, como organização física, serão sempre os mesmos; como Espíritos, sem dúvida, são uma raça inferior, quer dizer, primitiva; são verdadeiras crianças às quais pode-se ensinar muita coisa.”

“São seres tão brutos, tão pouco inteligentes, que seria trabalho perdido procurar instruí-los; é uma raça inferior, incorrigível e profundamente incapaz.”

Karim Akadiri Soumaïla, diz que no decorrer do documentário encontrou “dois textos que me incomodaram, um na Gênese e outro na Revista Espírita datado de 1862, sobre a ‘perfectibilidade do negro…’.  Nesse texto, Kardec,se assim posso dizer, reconhece “a faculdade de aperfeiçoamento do negro, podendo passar do estado de selvagem a um ser educado”.”

Isso fez com que o diretor se aprofunda-se em suas pesquisas “mergulhar no pensamento e no contexto intelectual e científico da segunda metade do século XIX. Esse movimento que se inspirava em linha reta nas teorias de Darwin e sua escala comparativa de raças. Um século dominado pelo suprematismo branco. Assim, Kardec era racista? Eu diria mais etnocentrista, como Darwin.”

“Mas a doutrina espírita propõe uma igualdade entre todos os seres humanos, sendo que o espírito pode se encarnar ora como pobre ou rico, ora como homem ou mulher, ora como negro ou branco. Então, há aí quase uma contradição. Mas é o contexto da época.

Discutimos esse tema de um suposto “racismo de Kardec” no episódio 5, da série Em busca de Kardec. Também mergulhamos nesse episódio em minha origem Yorubá e falamos do Candomblé e da Umbanda”.

MN: Os escritos de Kardec sobre a “a raça inferior” não te incomodou a ponto de você querer fazer uma série sobre ele?

Karim: Como cineasta não me coloco no lugar de ensinar moral e nem distribuo pontos de boa conduta. Não sou espírita, mas me tornei simpatizante, sobretudo pela forma que o espiritismo tomou no Brasil, no plano da educação e da beneficência.

Anália Franco e Eurípedes Barsanulfo foram os primeiros educadores que incluíram em suas escolas, filhos de ex-escravos, dando-lhes educação, e isso pouco tempo depois da abolição da escravidão, quando havia no Brasil um projeto de branqueamento da nação.

Em suma, um certo kardecismo europeu morreu com Kardec na França do século XIX e de alguma maneira renasceu desempoeirado no Brasil.

Portanto, como diretor, devo manter uma certa distância diante do meu objeto, justamente para ter a liberdade de debater ou não este ou aquele tema, e no caso de Kardec, evocar a questão racial ou seu suposto racismo. Esse não é o objeto do documentário. Mas não nos esquivamos de tocar no assunto, na medida em que foi possível.

Assista ao trailer de ‘Em Busca de Kardec’:

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