Jornais, novelas, programas de auditório e a normalização do sofrimento de pessoas pretas na TV

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Foto: Reprodução/TV Globo

Por muito tempo reclamávamos da falta de representatividade na dramaturgia e quaisquer outros programas na TV brasileira. Após anos de protagonismo de pessoas brancas na televisão, pessoas negras passaram a boicotar e reivindicar seus rostos nesses espaços. Com muita luta e insistência, nos últimos anos, ainda que em pequena quantidade, mais pessoas negras eram escaladas em elencos de novelas e ganhavam um espaço na programação mensal de grandes emissoras.

Porém, por anos nossos papéis caíam em lugares estereotipados e é assim até hoje, atrizes negras encenando como empregadas, atores negros como bandidos, cantores e outros artistas negros como coadjuvantes nos programas famosos. A tal “representatividade” que tanto solicitamos geralmente vinha com um racismo sutil ou [descarado mesmo]. E mais uma vez nossos papéis eram delimitados pelos senhores brancos

Quem não lembra dos quadros apelativos dos programas de TV que com frequência mostrava pessoas pretas e pobres se humilhando para conseguir reformas na casa, ou um dinheiro para a realização de um sonho? Hoje essa prática ainda se repete, grandes emissoras seguem lucrando com nossas dores e fazem delas um espetáculo para ser exibido em dia de domingo.

Como se não bastasse a realidade do país racista em que vivemos, onde nos deparamos com violência e discriminação contra pessoas negras diariamente no jornal, essas cenas são reproduzidas em outros horários, de diferentes formas e com ar de entretenimento na programação das emissoras.

Na última semana, no dia do combate a discriminação racial (21/03) o vídeo de um casal negro militante e criadores do Ateliê Afro Cultural, projeto que reúne um acervo de objetos e livros ligados à herança cultural do povo negro viralizou nas redes sociais. Em um discurso, o homem mencionou diversas dores que o povo preto sofreu e sofre até hoje, enquanto Luciano Huck, a plateia virtual e milhares de brasileiros assistem.

“Somos oriundos de um povo que é capaz de sorrir, mesmo estando de barriga vazia. Primeiro, fomos arrancados de nossas pátrias. Fomos amarrados, acorrentados, torturados, humilhados, arrastados… Já levamos 80 tiros, já levamos 111 tiros. E as balas perdidas sempre nos acham”, disse Wil em uma tentativa de declaração a sua esposa.

O discurso emocionou muitos telespectadores, que reproduziram o vídeo nas redes sociais, mas o que incomoda é a forma como as nossas dores sempre são lembradas e geram lucros para as emissoras, em momentos propícios ou não.

Enquanto nas novelas…

Após anos longe do protagonismo, com o lançamento da novela “Amor de Mãe” nós esperávamos a mudança nessas narrativas, a novela foi anunciada com um grande protagonismo negro e pela primeira vez, parecia que os personagens pretos teriam suas histórias contadas longe do olhar de sofrimento, longe das dores do racismo que nos assombrou e assombra até hoje, mas estávamos enganados. A ficção realmente imita a vida, mas em tempos como esses vivenciar e assistir essas experiências simultaneamente é doloroso.

Confira uma parte da trajetória das personagens negras da novela ‘Amor de Mãe’

Não há pausa no sofrimento de pessoas negras nem mesmo na ficção, com o retorno da novela após a pausa devido à pandemia diversas cenas já foram apontadas como problemáticas por influenciadores e militantes negros:

Na última semana uma cena envolvendo o personagem Marconi, interpretado pelo ator Douglas Silva despertou gatilhos em muitos jovens negros:

Marconi, jovem negro e traficante, foi interpretado pelo incrível ator Douglas Silva – que representaria bem de um rei a um traficante, papel que lhe é muito dado na televisão –  foi executado a tiros por um policial após a sua rendição e mostrou um único desejo, o de não ser esquecido. Ter a dignidade de poder ser enterrado como gente e não como mais um dos milhares de garotos negros que morrem a cada 23 minutos no Brasil.


Outras análises sobre a novela aqui


Na semana seguinte, a polêmica foi com a personagem Camila, interpretada pela atriz Jessica Ellen que já vinha de uma sequência de acontecimentos desgraçados em sua vida [foi abandonada recém-nascida, sofreu um aborto, perdeu o útero, levou um tiro] agora na 2º fase da novela, Camila é atropelada e ficará um tempo usando cadeira de rodas por conta de um edema na região cervical. Essa representação dos personagens negros nos incentiva a desacreditar nos dias melhores e até mesmo nos conformar com as desgraças.

Foto: Reprodução/TV Globo

O questionamento que fica é: quando seremos felizes, se até na ficção a vida é extremamente difícil e não alivia para pessoas pretas?

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