“Amor de mãe” e a exploração visual da dor negra na dramaturgia brasileira

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Conversa Aḇšālôm @Spavierofficial "Meu nome é Marconi Eduardo Silva! Eu nasci no Rio de Janeiro! Sou filho da Dona Flávia e do seu Antônio! Meu nome é Marconi!" - Reprodução Globo

Após a cena que finalizou o capitulo da quarta-feira na novela “Amor de Mãe”, uma frase que marcou muitas pessoas foi bastante repercutida na internet  “Meu nome é Marconi Eduardo Silva! Eu nasci no Rio de Janeiro! Sou filho da Dona Flávia e do seu Antônio! Meu nome é Marconi!”.  

Marconi, jovem negro e traficante, foi interpretado pelo incrível ator Douglas Silva – que representaria bem de um rei a um traficante, papel que lhe é muito dado na televisão –  foi executado a tiros por um policial após a sua rendição e mostrou um único desejo, o de não ser esquecido. Ter a dignidade de poder ser enterrado como gente e não como mais um dos milhares de garotos negros que morrem a cada 23 minutos no Brasil.

A cena do ‘traficante negro’ sendo morto já foi muito passada na televisão, mas sempre dói em apenas uma parte da população, a preta. A questão é: O quanto seria necessária fazê-la doer novamente nesse povo? A execução de um homem negro com medo de morrer e não ser reconhecido como “gente” causa transtorno apenas na parte negra do país.

A televisão e os autores nos devem uma representação digna da imagem e da população preta, em lugares que humanizam essas identidades, corpos e trajetórias. A cena foi além de pesada e impactante, foi sufocante, paralisante. Ficou explicito a importância do Marconi dizer seu nome completo, de quem é filho e de onde ele veio, mas não conseguimos entender o seu único destino representado, a execução.

Como o fotografo Roger Cipó pontuou, em pleno ano de 2021, após tantas discussões sérias, produções críticas, denúncias, relatórios e tudo à disposição para um corpo preto não ser rasgado com um fuzil enquanto grita seu nome: “queria ver gente preta existindo com dignidade. Brasil precisa acreditar nisso. Ou, pelo menos, faça denúncia direito. Que fetiche é esse da caneta que só combina corpo preto com tragédia!? A serviço de quê!?”

O Diretor na Fundação Ford Brasil, Átila Roque, também se manifestou sobre o assunto e deixou claro uma opinião bem popular nas redes sociais. A novela “Amor de Mãe” tem uma grande histórias e enredo, mas a cena, para ele, não se fazia necessária.

É válido ressaltar o que está sendo questionado nas redes sociais. O talento de Douglas Silva é imprescindível, ao enredo e atores da novela, também. O que está sendo refletido é a real precisão de, novamente, mostrar a execução do corpo negro, pobre e marginalizado, mesmo que não estejamos apenas nessa posição a muito tempo.   

https://www.instagram.com/p/CMjvJhpHQNy/?igshid=wvo634w48nti

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