Conheça a história do verso que saiu de BH e tomou os movimentos negros do Brasil.
Gustavo Pereira Marques, o Djonga, nasceu em 4 de junho de 1994 na Favela do Índio, em Belo Horizonte, e cresceu no bairro São Lucas, na região leste da capital mineira. Da periferia de uma cidade que nunca esteve no centro do rap nacional, ele construiu uma das obras mais politicamente densas da música brasileira contemporânea, com letras que cruzam identidade negra, crítica social e consciência histórica. É dele o verso que se tornou o grito antirracista mais repetido das últimas décadas no Brasil: “fogo nos racistas”.
Por influência da família, tomou gosto por música desde cedo, tendo crescido ouvindo estilos variados, de Milton Nascimento aos Racionais MCs. Por volta de 2012, quando ainda se formava no Ensino Médio, Djonga começou a frequentar o Sarau Vira-Lata, evento de poesia de rua em Belo Horizonte, primeiro como ouvinte e depois como participante. O rapper Hot Apocalypse o convidou para montar um grupo, e a partir daí o caminho para o rap se abriu de vez. Antes de lançar qualquer álbum solo, ele integrou o coletivo DV Tribo e lançou o EP “Fechando o Corpo”, com sete faixas, em parceria com Coyote Beats. Foi também nesse período que Djonga cursou História na Universidade Federal de Ouro Preto, mas trancou a faculdade no último semestre para seguir a carreira musical, decisão que moldou tanto sua visão de mundo quanto a densidade das letras que viria a escrever.
Foto: Redes sociais
Heresia e o começo de uma tradição
No dia 13 de março de 2017, Djonga lançou seu álbum de estreia, “Heresia”, com críticas sociais afiadas e mensagens de empoderamento negro. O disco foi aclamado pela crítica e rendeu uma indicação ao prêmio da APCA, a Associação Paulista de Críticos de Arte. Mais do que o reconhecimento imediato, o lançamento estabeleceu uma data que se tornaria marca registrada de sua carreira: o mês de março passou a ser o momento fixo de cada novo álbum, criando uma espécie de ritual anual entre o artista e seus fãs.
Em 2018, exatamente um ano depois, Djonga voltou com “O Menino que Queria ser Deus”, aprofundando a reflexão sobre questões raciais, carreira e vida pessoal, com participações de Karol Conká e Sant. O disco foi eleito o 6º melhor álbum brasileiro de 2018 pela Rolling Stone Brasil. Em 2019, mantendo a tradição, 15 de março, lançou “Ladrão”, conceito inspirado em Robin Hood, seguido de “Histórias da Minha Área” em 2020, que retratava vivências de periferias de todo o Brasil.
Fogo nos Racistas
O verso “fogo nos racistas”, refrão do single “Olho de Tigre”, lançado em 2017, tornou-se um dos hinos da luta antirracista no Brasil, com versos afiados contra o racismo e o fascismo, e um chamado direto à juventude negra brasileira. A frase extrapolou o universo do rap e passou a ser repetida em manifestações, protestos nas ruas, redes sociais e debates públicos, funcionando como síntese de uma geração que recusou o silêncio diante do racismo estrutural.
Foto: Ian Cheibub/Reuters
O Instituto Humanitas Unisinos analisou a dimensão do verso e concluiu que manifestações culturais como essa informam a legitimidade dos pleitos de uma nação e têm poder revolucionário. O próprio Djonga reconheceu, em declaração ao site Her Campus, que a frase superou qualquer intenção artística original: “Quando eu trouxe essa frase em ‘Olho de Tigre’, eu não sabia que ela se tornaria um dos gritos mais importantes da nossa geração. Nunca me apropriei dela como minha, inclusive por sentir que o caráter dela é maior que artístico.”
Recordes e reconhecimento internacional
Em 2020, Djonga se tornou o primeiro brasileiro a receber uma indicação no BET Hip Hop Awards, na categoria de Melhor Artista Internacional, além de ter sido o primeiro rapper a entrar na lista Forbes Under 30. No mesmo ano, seu álbum “O Dono do Lugar” foi a 4ª maior estreia de rap da história do Spotify no Brasil e o 7º álbum mais ouvido no Spotify global. Nesse lançamento, Djonga quebrou pela primeira vez a tradição do 13 de março, escolhendo outubro para apresentar o trabalho ao mundo.
Em 32 anos, Gustavo construiu uma obra que conecta a periferia de Belo Horizonte ao debate racial global, com uma voz que não distingue palco de posicionamento político.
O psicólogo e escritor Lucas Veiga - Foto: Divulgação
“O paradoxo da clínica com pessoas negras é lidar com o impossível do fim imediato do racismo e com o impossível de sermos totalmente capturados por ele, criando modos de vida próprios apesar da violência racial.” Essa é uma das diversas constatações colhidas em 13 anos de clínica atendendo pessoas negras com que o psicólogo e escritor Lucas Veiga aborda em seu livro “Clínica do impossível”, agora em uma nova edição revisada e ampliada.
Publicado pelo selo Paidós, da Editora Planeta, o livro constrói uma reflexão profunda sobre os efeitos do racismo na subjetividade de pessoas negras que, para Lucas, por mais diversas que sejam suas histórias, têm em comum experiências com o racismo que atravessaram sua existência e geram impacto na sua saúde mental.
Nem a jovem geração, que tem mais acesso à informação, ama mais os seus cabelos e tem mais representatividade na mídia que gerações anteriores, conseguiu se proteger do impacto da violência racial na sua mente. “Se a pessoa sofre violência pelo corpo que tem, no limite ela só se livraria disso livrando-se do próprio corpo através da morte. Por isso, há um índice considerável de suicídio entre a população negra jovem”, explica o escritor, que é mestre em Psicologia Clínica pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
“Por isso é muito importante sustentar a afirmação de que a vida é maior do que o racismo. Dizer isso é um convite para manter a conexão com a vida e com a ancestralidade, no sentido de que os princípios e tecnologias ancestrais que nos possibilitaram chegar até aqui são os que nos possibilitarão seguir adiante”, comenta Veiga, que também atua em atendimentos clínicos, cursos, palestras e consultorias, e é criador dos cursos “Introdução à Psicologia Preta”, “Frantz Fanon e a esquizoanálise” e “Clínica do impossível”, que dá nome ao livro.
Capa de “Clínica do impossível”, de Lucas Veiga (selo Paidós/Editora Planeta). Foto: Divulgação
Em conversa com Silvia Nascimento, head de conteúdo do Mundo Negro, Lucas Veiga falou sobre a origem do título, as feridas que o racismo deixa na subjetividade negra, o quilombo como tecnologia ancestral e os fundamentos da Psicologia Preta. Confira.
Queria entender melhor como você chegou a esse título, “Clínica do impossível”.
O título veio a partir da minha experiência clínica de 13 anos atendendo pessoas negras. Quando um paciente vive o luto do fim de um casamento, esse processo vai ser elaborado e, em algum momento, essa pessoa poderá ter uma nova relação. Quando alguém desenvolve transtorno de estresse pós-traumático por um acidente de carro, elabora-se o trauma para que os sintomas diminuam e a pessoa consiga voltar a dirigir sem crise de ansiedade. Estabelece-se um prognóstico em relação ao sintoma no início do trabalho terapêutico.
No entanto, o que há de comum em todas as pessoas negras que atendo, por mais diversas que sejam, é a repetição dos episódios de violência racial e de racismo. Mesmo quando os pacientes conquistam uma identidade afirmada e não submetida à discursividade racista, os episódios de racismo não param de acontecer. Eles fazem parte do cotidiano nas capitais, no mercado, na farmácia, no shopping, no mercado de trabalho, onde pessoas olham atravessado ou seguram a bolsa achando que você pode cometer um delito por ser negro. Escutar semanalmente pacientes fortalecidos relatando o impacto dessa repetição foi o que me levou a nomear o livro de “clínica do impossível”.
É “impossível” porque os episódios de racismo não param de acontecer e a resolução definitiva do problema não está posta; nossa geração ainda continuará lidando com isso. Mas há um duplo sentido nesse impossível: ao mesmo tempo em que é impossível o fim imediato do racismo, nós seguimos produzindo realidades e modos de vida impossíveis para o cenário em que vivemos. O paradoxo da clínica com pessoas negras é lidar com o impossível do fim imediato do racismo e com o impossível de sermos totalmente capturados por ele, criando modos de vida próprios apesar da violência racial.
O psicólogo e escritor Lucas Veiga – Foto: Divulgação
Mesmo diante dessa persistência do racismo, surgem forças criativas. Como elas se manifestam?
Penso a partir dos quilombos como uma tecnologia ancestral. Eles foram erguidos e construídos no seio da colonização: enquanto a colonização e a escravização aconteciam, africanos em condição escrava puderam criar um território existencial livre das engrenagens de opressão colonial através da fuga. Essa capacidade de criar um território livre da opressão racial é uma ferramenta ancestral da qual precisamos lançar mão no contemporâneo, fortalecendo nossos espaços de aquilombamento como uma força criativa, inventiva e de afirmação da vida em nós.
Por isso é muito importante sustentar a afirmação de que a vida é maior do que o racismo. Dizer isso é um convite para manter a conexão com a vida e com a ancestralidade, no sentido de que os princípios e tecnologias ancestrais que nos possibilitaram chegar até aqui são os que nos possibilitarão seguir adiante. Viver seguindo uma ética do bem viver, o melhor que pudermos, é a nossa principal resposta e a nossa maior vingança ao contexto de opressão racial em que estamos inseridos.
Quais as dores da alma e da mente mais comuns na nossa comunidade por conta do racismo? Na perspectiva de gênero, homens e mulheres são afetados de forma diferente?
O racismo produz efeitos nocivos, como a possibilidade de a pessoa negra introjetar os discursos racistas e passar a acreditar que vale menos, que é inferior ou feia. Isso desenvolve o que Fanon chama de complexo de inferioridade ou de auto-ódio, em que o ódio racial é introjetado na subjetividade negra, levando a pessoa a odiar seus traços e a ter baixíssima autoestima.
Mas vai além da baixa autoestima. O nosso corpo, que é a nossa primeira casa e o nosso primeiro território, pode ser experimentado como uma ameaça a nós mesmos, porque é exatamente por termos a cor da pele e os traços que temos que sofremos violência. Se a pessoa sofre violência pelo corpo que tem, no limite ela só se livraria disso livrando-se do próprio corpo através da morte. Por isso, há um índice considerável de suicídio entre a população negra jovem. Ao ler esse índice, não se pode desconsiderar o impacto do racismo na experiência corporal da população negra como um todo e da juventude negra em particular.
Sobre o gênero: existem, sem dúvida, diferenças entre homens e mulheres, e também marcadores de orientação sexual, identidade de gênero e classe que atravessam a população negra. Incluir e olhar para a especificidade desses marcadores é um exercício importante. Ainda que o livro caminhe por algumas dessas diferenças, o foco principal é pensar o que há de comum a toda e qualquer pessoa negra. Essa atenção ao comum visa fortalecer a nossa coesão, articulação e vínculo enquanto comunidade negra, reconhecendo as diferenças, mas sem perder de vista aquilo que nos conecta.
Poderia explicar o conceito de Psicologia Preta? Ela se aplica só a profissionais e pacientes negros?
A psicologia preta surge nos Estados Unidos no final dos anos 1960, com larga produção de artigos e livros ao longo dos anos 1970, que vai até os dias de hoje. Exatamente nesse período acontecia a luta pelos direitos civis. No momento em que o movimento negro estadunidense reivindicava os direitos civis, intelectuais negros e negras do campo da saúde mental se debruçaram para construir uma psicologia preta, a black psychology, posteriormente chamada de African Psychology.
Eles entenderam primeiro que as construções teóricas em psicologia até então não tinham considerado a especificidade e a singularidade da experiência negra e que, portanto, era necessário pensar uma psicologia com ferramentas teórico-conceituais para oferecer o cuidado adequado em saúde mental para essa população. A importação direta de saberes da psicologia ocidental, produzidos por pessoas brancas para pessoas brancas, seria insuficiente para uma escuta e um trabalho clínico qualificado com pessoas negras, por mais que trouxessem alguns insights importantes.
A psicologia preta nasce, então, com o objetivo de entender os impactos do racismo na saúde mental da população negra para pensar a escuta e o cuidado. O objetivo também era entender o que seria a subjetividade negra saudável e os índices de saúde para a população negra, tendo como referência os pressupostos da psicologia preta e os princípios de vida baseados nas filosofias e cosmogonias africanas.
Serviço
O livro “Clínica do impossível” (selo Paidós/Editora Planeta, 176 páginas, R$ 54,90) tem lançamentos no Rio de Janeiro e em São Paulo:
Rio de Janeiro: 15/06, às 19h, na Livraria Janela, em Laranjeiras.
São Paulo: 18/06, às 19h, na Livraria Megafauna, no Copan.
Urias, Majur, Gloria Groove, Pepita e Pabllo Vittar estão entre os destaques negros da Parada LGBT+ de SP 2026. Veja em qual trio cada uma se apresenta.
A 30ª edição da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo acontece neste domingo, 7 de junho, na Avenida Paulista, a partir das 10h. Organizado pela APOLGBT-SP, o evento reúne mais de 130 artistas distribuídos em 14 trios elétricos e chega a essa marca histórica em um cenário de pressão financeira: o presidente da associação, Nelson Matias, confirmou que o patrocínio caiu 60% entre 2025 e 2026, com a saída de empresas multinacionais que eram parceiras do evento. O tema da edição é “A rua convoca, a urna confirma”, com foco na participação política da comunidade LGBTQIA+ no ano eleitoral.
Segundo estimativa da Associação Comercial de São Paulo, a Parada deve movimentar R$ 466,2 milhões na economia da capital em setores como hotelaria, transporte, alimentação e entretenimento. Mesmo assim, a queda de patrocínio gerou reação pública de artistas confirmados no evento. Pabllo Vittar usou as redes sociais para criticar a redução, associando o recuo das empresas ao avanço do conservadorismo e afirmando que o silenciamento financeiro “diz muito sobre quem está do nosso lado e quem realmente só quer fazer dinheiro”. A cantora integra o Trio 13, ao lado de Urias, e é uma das principais atrações da programação.
Além de Pabllo e Urias, a programação reúne Gloria Groove, Pepita, Diego Martins, Jup do Bairro, MC Soffia, Katy da Voz e as Abusadas, entre outros nomes da música e da cena drag nacional. Por conta de obras na Avenida Paulista, os trios elétricos percorrerão o lado ímpar da via, e a organização orienta o público a acompanhar o evento pelas ruas Haddock Lobo e Bela Cintra.
Os nomes abaixo representam alguns dos destaques confirmados na programação, que reúne mais de 130 artistas no total.
Trio 1 — A Rua Convoca Silvetty Montilla assume a apresentação do trio de abertura, ao lado de Pepita, uma das vozes mais reconhecidas do pagode brasileiro.
Trio 5 — Visibilidade Bi+ Nega Jackie e MC Soffia integram a programação do trio dedicado à visibilidade bissexual, reforçando a presença negra também nas frentes temáticas do evento.
Trio 9 — L’Oréal Groupe Gloria Groove, Thiago Pantaleão e Lud Anjos estão entre as atrações do trio patrocinado pela L’Oréal, um dos mais aguardados da edição.
Trio 13 — Amstel Pabllo Vittar, Urias, Silvetty e Márcia Pantera compõem o trio de maior apelo popular da programação, patrocinado pela Amstel.
Trio 14 — A Urna Confirma (Encerramento) Majur fecha a Parada no trio de encerramento, ao lado de Melody e MC Trans, entre outros artistas.
A programação completa dos 14 trios está disponível em paradasp.org.br.
Depois de reunir multidões em apresentações que transformaram praças e teatros em grandes celebrações populares, Carlinhos Brown e a Orquestra Ouro Preto eternizam um dos encontros mais singulares da música brasileira no álbum “Afrossinfonicidade”. Gravado ao vivo na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, o projeto será lançado em dois volumes, com estreia nas plataformas nos dias 5 e 26 de junho.
O trabalho nasce do encontro entre a tradição percussiva afro-brasileira e a linguagem sinfônica. No palco, tambores, cordas e vozes deixam de ocupar universos distintos para construir uma experiência musical que atravessa gêneros, territórios e gerações.
O repertório percorre diferentes momentos da obra de Brown, com nova roupagem sinfônica assinada por Paulo Malheiros e regência do maestro Rodrigo Toffolo. Entre os destaques do Volume 1 está “Frases Ventias”, faixa originalmente lançada no clássico “Alfagamabetizado”, álbum que completa 30 anos em 2026. A canção reaparece em uma releitura que aproxima a força do barroco à poesia afro-brasileira. O volume também revela a delicadeza e a intensidade de faixas como “Dois Grudados”, “Argila”, “Ocaso”, “Segue o Seco” e “Muito Obrigado Axé”.
No Volume 2, composições criadas por Brown ao lado dos Tribalistas, Marisa Monte e Arnaldo Antunes, como “Vilarejo”, “Velha Infância” e “Já Sei Namorar”, ganham novas e profundas interpretações. O mesmo acontece com sucessos que atravessaram gerações, como “A Namorada” e “Amor I Love You”. Junto ao Volume 2, será lançado ainda o audiovisual do show completo gravado na Concha Acústica.
Nascido no Candeal Pequeno, em Salvador, Carlinhos Brown construiu uma obra que resiste a rótulos. Compositor de canções que viraram patrimônio coletivo, criador da Timbalada e parceiro de artistas como Marisa Monte, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Arnaldo Antunes, Brown sempre tratou a música como experiência coletiva e manifestação cultural profundamente ligada à ancestralidade e à percussão.
Reconhecida como uma das formações mais inventivas do país, a Orquestra Ouro Preto construiu sua trajetória aproximando o universo sinfônico de diferentes linguagens populares. Sob direção artística e regência do maestro Rodrigo Toffolo, o grupo mineiro encontrou em “Afrossinfonicidade” um espaço de experimentação, rigor técnico e liberdade criativa.
“Afrossinfonicidade é um encontro de linguagens que sempre estiveram destinadas a caminhar juntas. O tambor já nasce sinfônico porque organiza pessoas, emoções e memórias. Quando a Orquestra Ouro Preto abraça essa pulsação, nasce uma música que celebra o Brasil em toda a sua grandeza. Gravar esse trabalho ao vivo era fundamental, porque existe uma energia acontecendo ali que não cabe apenas na partitura ou no estúdio. O público canta, responde, vibra. O projeto nasceu para ser vivido de forma coletiva”, afirma Brown.
Para o maestro Rodrigo Toffolo, o disco retrata um encontro profundamente ligado às relações culturais entre Ouro Preto e Salvador, duas cidades fundamentais na formação do Brasil. “Quando as cordas da Orquestra Ouro Preto se encontram com a percussão e a força criativa de Brown, criamos uma experiência sonora singular, potente e surpreendente”, comenta.
Gravado ao vivo, o álbum preserva o que o estúdio dificilmente capturaria: a forma orgânica como os músicos se escutam, os contracantos que nascem do instante, a sensação de que aquilo está acontecendo pela primeira e última vez ao mesmo tempo. O disco não propõe reconciliar mundos opostos. Pelo contrário: revela que essas linguagens sempre estiveram mais próximas do que aparentavam. Entre o tambor e o violino, entre o terreiro e o teatro, entre Minas e Bahia, entre Castro Lobo e Castro Alves, há uma continuidade que a música brasileira conhece bem, mas que raramente encontra forma tão bem acabada para se expressar.
O primeiro encontro entre Brown e a Orquestra Ouro Preto aconteceu em 2024, em um concerto aberto na Avenida Paulista, em São Paulo. A sintonia entre os músicos foi imediata e rapidamente conquistou o público. Desde então, o projeto passou por cidades como Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Ouro Preto, sempre transformando cada apresentação em uma celebração coletiva marcada por coro, emoção e festa.
Entre a televisão, o cinema e os palcos, Luciano Quirino vive um dos momentos mais produtivos da carreira. Na novela das 18h, “A Nobreza do Amor”, o ator dá vida a Pascoal, um perigoso mercenário que chega à trama aplicando um golpe no rei de Batanga e logo se torna o braço direito de Jendal (Lázaro Ramos) nas maldades. Mas a novela é só uma das frentes de um artista que também está no elenco de um filme sobre o caso Elize Matsunaga e prepara o retorno aos palcos no segundo semestre.
Quem acompanha a trama vê em Jendal uma figura ambiciosa, calculista e com sede de poder, vilania compartilhada com a filha, Kênia (Nykolly Fernandes), e agora reforçada por Pascoal. Estratégico, observador e quase silencioso, o personagem chega ao núcleo principal carregando relações tensas, marcadas por manipulações e jogos de interesse.
“Pascoal é um homem que chega de fora, mas rapidamente entende o jogo de poder daquele reino”, conta o ator. “Ele é extremamente perigoso, não é um vilão impulsivo. Pensa, calcula, articula, e isso o torna ainda mais assustador.” Para compor o personagem, Quirino buscou referências na ficção misturadas a um traço contemporâneo. “Busquei como referência personagens clássicos que operam na sombra, como Iago, de Otelo, e até figuras mais populares como o Jafar, de ‘Aladdin’, já que Pascoal traz esse ar de mistério e seu figurino remete a alguns do clássico vilão de ‘Aladdin’, mas sempre trazendo para uma construção própria, mais humana e brasileira”, explica.
Segundo o ator, dar vida ao mercenário tem sido um exercício de mergulhar em territórios novos. “Tem sido um desafio muito instigante. O Pascoal me provoca a explorar novas camadas como ator, acessar lugares mais sombrios e compreender uma lógica completamente diferente daquilo que eu vinha fazendo até aqui. Fazer um vilão exige que você defenda ideias que, muitas vezes, são moralmente questionáveis, mas o segredo é nunca o julgar. Ele acredita no que faz e a diferença está justamente aí: encontrar a lógica interna daquele comportamento”, afirma.
Por estar no núcleo central da novela, Quirino divide muitas cenas com Lázaro Ramos, parceria que ele define como “muito potente”. “O Lázaro é um ator extremamente generoso, inteligente em cena, e isso eleva o jogo. A gente cria uma dinâmica de tensão e cumplicidade que movimenta a trama”, destaca.
A trama também rendeu um reencontro: o ator volta a contracenar com André Luiz Miranda, com quem trabalhou em “Dona Beja”, da HBO Max. Os dois integram o núcleo da cidade fictícia de Batanga, agora em posições opostas. “Tivemos a oportunidade de contracenar, mas agora em lados opostos, ele como mocinho e eu como vilão. Isso cria uma tensão muito interessante em cena, porque existe uma conexão anterior entre nós, mas dentro da história somos adversários”, detalha.
Em “Dona Beja”, reedição da novela que se popularizou em 1986, Quirino interpreta Mendonça, pai do personagem de André Luiz Miranda. Ele descreve o papel como “um homem de época, porém atravessado por sentimentos muito profundos”, que vive conflitos intensos entre amor, honra e desejo. Para o ator, a nova versão se distingue principalmente na abordagem: “A nova versão traz um olhar mais contemporâneo, mais aprofundado nas relações e nas camadas dos personagens. Há uma escuta mais sensível para temas que hoje são inevitáveis.”
Elenco de Dona Beja – Foto: Reprodução Instagram
Embora admire o trabalho de Jonas Mello, que viveu Mendonça na primeira versão, Luciano optou por não se prender à trama de 86. “Tenho muito respeito pelo trabalho do Jonas Mello, mas optei por não me prender à versão anterior. Preferi construir o meu Mendonça a partir do texto e da direção. Naturalmente, as versões dialogam, mas cada uma tem sua identidade”, comenta. O elenco ainda proporcionou o reencontro com Thalma de Freitas, com quem dividiu cena em “Laços de Família” no início dos anos 2000. “Foi especial. A Thalma é uma atriz de uma sensibilidade enorme. A gente se reencontra com mais maturidade, mais repertório, e isso aparece em cena. Nessa história vivemos um casal, o Mendonça e a Josefa. Tem história ali, tem verdade.”
A boa fase também alcança o cinema. Quirino integra o elenco do filme que reconstitui o caso Elize Matsunaga. “Foi um trabalho delicado. Quando lidamos com histórias reais, existe uma responsabilidade muito grande. Procurei tratar tudo com respeito, sem sensacionalismo, entendendo a complexidade humana envolvida”, diz. Sobre seu personagem, adianta: “É alguém que observa muito mais do que fala, e quando fala, muda o rumo das coisas. Ele chega de forma sutil, mas deixa marcas profundas.”
Nos palcos, presença constante, o ator esteve recentemente no espetáculo sobre os irmãos Timotheo da Costa, experiência que define como “um encontro com a história, com a arte e com a ancestralidade”. Para o segundo semestre, prepara o retorno como o maestro Carlos Gomes em “Maestro Selvagem”, projeto que descreve com “expectativa enorme”.
“Esse é um projeto muito especial pra mim. A ideia é retomar com uma circulação mais ampla, passando por capitais e cidades do interior, ampliando o alcance dessa história”, conclui.
O espetáculo “As negras letras de Oswaldo de Camargo” precisa ser visto pela população negra. É uma das homenagens mais singelas e belas que se pode prestar em vida a um escritor negro.
O elenco é constituído por atores belíssimos: Elina de Souza, Adolfo Moura, Dimmy Anderson, todos negros +60, e o ator mirim Miguel Lucca Britto. A direção é de Eduardo Silva.
Conheci o Sr. Oswaldo de Camargo na década de 1970, no lançamento do livro de contos “Carro do Êxito”, livro de cabeceira que sempre releio. É daquelas obras pelas quais você se apaixona: lê, relê, compra exemplares antigos e edições novas, presenteia amigos e, quando encontra o autor, agradece e fala dos contos, das paisagens citadas, dos momentos vividos na cidade de São Paulo.
Assistir a Oswaldo de Camargo no teatro é uma grande emoção. O jovem ator Miguel Lucca Britto, que representa o período da infância, nos traz uma imensa alegria em saber que as crianças e jovens estão tornando a figura de Oswaldo eterna.
Oswaldo Faustino, autor da peça, é daqueles intelectuais que nos orgulhamos de conhecer. Brilhante, mágico, deslumbrante e um apaixonado pelo xará. A cada palavra pronunciada pelo ator Adolfo Moura, ouço o genial Oswaldo Faustino.
Que ator esse Adolfo Moura! Arrasa pela sobriedade em interpretar Oswaldo de Camargo.
A figura feminina na peça, Elina de Souza, é um toque de alegria, sabedoria e respeito à nossa ancestralidade, com um olhar de esperança e despertar para a vida. Quando Elina entra em cena, só consigo pensar em um solo de trompete de Miles Davis, pela liberdade e leveza do seu desempenho. Que beleza, que olhar cativante, que nos leva à admiração.
Dimmy Anderson, o ator que representa o pai de Oswaldo, nos leva a refletir sobre a paternidade e o impacto, a ferida aberta, jamais cicatrizada, da partida ainda jovem. História de muitas famílias negras que, após a escravidão, tiveram seus pais mortos pela exaustão do trabalho, pela doença do alcoolismo, pelo descaso do Estado. Dimmy dá um show com a dramatização de ser um pai trabalhador e carregado de esperança no futuro dos filhos.
A direção de Eduardo Silva, que tenho acompanhado nos palcos paulistas, é uma chama de esperança no surgimento de diretores negros. Um trabalho primoroso, mais uma vez.
Se você ainda não viu o espetáculo “As negras letras de Oswaldo de Camargo”, saiba que é um momento especial na dramaturgia negra paulista. Atores, escritor e diretor negros, todos empenhados em prestar uma homenagem ao grande Oswaldo de Camargo, que completará 90 anos. Que privilégio dos paulistas poderem assistir a este belo trabalho, que nossos filhos, netos, sobrinhos e amigos precisam conhecer.
Gostaria de citar uma poesia do escritor Oswaldo de Camargo:
Grito de angústia
À memória de meu pai
Dê-me a mão. Meu coração pode mover o mundo com uma pulsação… Eu tenho dentro em mim anseio e glória que roubaram a meus pais. Meu coração pode mover o mundo, porque é o mesmo coração dos congos, bantos e outros desgraçados, é o mesmo.
É o mesmo coração dos que são cinzas e dormem debaixo da Capela dos Enforcados… é o coração da mucama e do moleque; e eu sei muitas canções de ninar gente branca, sei histórias, todas feitas à sombra das palmeiras, ou nas margens do Nilo… Eu conheço um grito de angústia, trovejante, que deve estarrecer todas as minhas amantes que tenho decerto…
Eu conheço um grito de angústia, e eu posso escrever este grito de angústia, e eu posso berrar este grito de angústia, quer ouvir? “Sou um negro, Senhor, sou um… negro!”
(15 poemas negros, p. 51-52)
SERVIÇO:
Espetáculo: “As Negras Letras de Oswaldo de Camargo Temporada: 22 de maio a 21 de junho de 2026. Horários: Quinta a domingo às 20h. Local: Complexo Funarte (Teatro Funarte) – Alameda Nothman, 1058, Campos Elíseos, São Paulo – SP. Ingressos: R$ 40 Vendas: https://ciaumbrasil.com.br/bilheteria-oswaldo-de-camargo Mais informações: @cia.um.brasil
A pesquisadora e professora Josiane Cristina Climaco lança o livro “Educação Física e Matrizes Africanas: Por uma proposição crítico-superadora e antirracista” em Salvador, no dia 11 de julho, durante o evento Redes Alvorada. A obra propõe uma releitura da Educação Física brasileira a partir das contribuições de diferentes matrizes africanas para a cultura corporal.
Publicada pela Editora Revista África e Africanidades, a obra aborda a formação de professores e professoras, os desafios enfrentados pela educação pública e a presença ainda limitada de referências africanas e afro-brasileiras nos currículos acadêmicos. A autora defende uma prática pedagógica comprometida com a equidade racial e com a valorização das identidades negras na educação.
Organizado em quatro eixos centrais, o livro amplia o debate sobre educação antirracista ao abordar a formação docente e os desafios da implementação da Lei 10.639/03, propondo novas possibilidades pedagógicas para o ensino da dança.
Segundo Josiane Climaco, a publicação é resultado de décadas de atuação como professora de Educação Física e pesquisadora das relações étnico-raciais.
“Minha área de formação foi construída sob uma lógica biologicista e eurocêntrica, que se consolidou como norma na educação brasileira. Pesquisar e sistematizar as contribuições do continente africano para o desenvolvimento das práticas corporais, de forma curricular e aplicável às escolas, foi um passo fundamental para qualificar o processo de formação integral”, afirma.
Josiane é mestra e doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e atua na rede estadual de ensino, na Faculdade Lusófona e na UFBA. Sua trajetória é marcada pela pesquisa e militância em defesa da educação antirracista e da valorização da cultura negra.
O livro possui recursos interativos acessados por QR Code, incluindo vídeos da autora, uma conversa sobre a pesquisa e o recurso educacional Elimu, ampliando suas possibilidades de utilização pedagógica.
A obra também será apresentada em São Paulo, na Colômbia e durante o Congresso Nacional de Pesquisadores e Pesquisadoras Negras (COPENE 2026), em Brasília.
Nesta segunda-feira (2), completam-se seis anos da morte de Miguel Otávio Santana da Silva, que, aos 5 anos de idade, foi colocado sozinho em um elevador de um edifício residencial no Recife (PE), em um caso que mobilizou o país e se tornou símbolo do debate acerca da desigualdade racial no acesso à justiça.
Miguel estava sob os cuidados de Sarí Corte Real enquanto sua mãe, Mirtes Renata de Souza, trabalhava no local. Ao sair para passear com o cachorro da família, Mirtes deixou o filho no apartamento. Pouco depois, o menino foi colocado sozinho no elevador e acabou chegando a um andar superior do edifício, de onde caiu.
Em 2023, Sarí Corte Real foi condenada por abandono de incapaz com resultado morte. Em maio deste ano, o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) manteve a pena de sete anos de prisão em regime inicialmente fechado. Apesar disso, ela continua respondendo ao processo em liberdade enquanto a defesa apresenta recursos.
Agora, o caso segue para análise no Superior Tribunal de Justiça (STJ), etapa que definirá os próximos desdobramentos do processo.
Nos últimos anos, Mirtes Renata tem mantido uma atuação pública em defesa da memória do filho, seguindo na luta pelo cumprimento da decisão judicial. Em diferentes manifestações, ela questiona a demora na execução da pena e denuncia o que considera privilégios concedidos à condenada, como a manutenção do passaporte, a possibilidade de viagens internacionais e a continuidade de atividades acadêmicas enquanto o processo aguarda decisão definitiva.
Em uma publicação compartilhada nesta segunda-feira (2), data que marca seis anos da morte de Miguel Otávio, Mirtes Renata voltou a expressar a sua indignação diante da espera por uma resposta definitiva da Justiça e cobra o cumprimento da condenação.
“A Justiça já levou mais tempo para responder do que o tempo que Miguel teve para viver. Eu tenho medo de que a lentidão vença. Tenho medo de que a demora se transforme em impunidade. Tenho medo de que, enquanto a condenada segue vivendo sua vida, viajando, sorrindo e construindo novas memórias, a história do meu filho continue presa em recursos sem fim.Não temos mais tempo.Junho não pode terminar sem uma resposta concreta para Miguel.Junho não pode terminar sem que a condenada seja presa. 2026 não pode ser mais um ano de espera.”, declarou.
Há uma cena recente em São Paulo que escancara mais do que parece. Na Lapa, moradores reagiram à presença de casas de repouso e ao trânsito de carros funerários. O incômodo virou debate público, com reportagens da Folha de S. Paulo mostrando o desconforto de quem não quer conviver com o envelhecimento e, principalmente, com a morte.
Mas vamos ser honestos. Ninguém está discutindo trânsito. Ninguém está preocupado com fluxo de veículos. O que está em jogo é outra coisa. É o desejo de manter a ilusão de juventude intacta. É a tentativa de empurrar para fora do campo de visão aquilo que desorganiza a fantasia de controle. A velhice virou um erro estético. Um ruído. Algo que precisa ser escondido para que a narrativa da juventude permanente continue funcionando. Só que ela não se sustenta.
Vivemos mais. Essa é a promessa do nosso tempo. A medicina avançou, a expectativa de vida aumentou. Mas, curiosamente, quanto mais vivemos, menos sabemos lidar com o que isso significa. Queremos os anos extras, mas não queremos ver o que eles produzem. Queremos longevidade, mas recusamos a velhice. Isso não é só contradição. É imaturidade social.
Agora olha para as comunidades de terreiro. O mais velho não é descartado. Ele é referência. É quem sustenta a memória, quem organiza o sentido, quem conecta o presente ao passado. A morte não é um tabu silencioso. É parte do ciclo. A ancestralidade não é discurso bonito. É prática. O mesmo acontece em muitas comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas. O tempo não é uma corrida desesperada. É um fluxo. O mais velho carrega mundo, não peso. Existe ali um entendimento mais sofisticado da existência, algo que o modelo urbano decidiu abandonar em nome da produtividade e da aparência.
Quando você rejeita o velho, você está rejeitando o seu próprio futuro. Não existe exceção. Não existe blindagem. Não existe filtro que segure o tempo. Enquanto isso, um outro dado desmonta completamente essa fantasia de controle. Hoje, vemos cada vez mais jovens morrendo. Violência, desigualdade, colapso da saúde mental. A morte não está esperando a velhice chegar. Ela já está atravessando a juventude. Percebe o paradoxo?
A gente esconde quem viveu muito e naturaliza a morte de quem mal começou. Isso não é só incoerente. É brutal. O carro funerário incomoda porque ele quebra a encenação. Ele lembra que existe fim. E, num mundo que se construiu em cima da ideia de performance constante, falar de fim é quase um ato subversivo. Mas ignorar isso tem custo.
Uma sociedade que não sabe olhar para a morte também não sabe viver plenamente. Porque viver sem a consciência do fim é viver anestesiado, superficial, sempre adiando aquilo que importa.
As comunidades tradicionais entenderam algo que a gente insiste em desaprender. O respeito ao mais velho não é caridade. É inteligência coletiva. É reconhecer que o tempo não é inimigo, é estrutura.
Não adianta admirar essas comunidades de longe e continuar reproduzindo a lógica que descarta o envelhecimento no seu cotidiano. Não adianta transformar ancestralidade em estética e continuar tratando o velho como problema. Isso é incoerência fantasiada de sensibilidade.
Quando o tempo marcar você, onde você quer estar? Num mundo que esconde, ou num mundo que acolhe? Porque esse debate não é sobre a Lapa. É sobre o tipo de humanidade que você está ajudando a construir. E, principalmente, sobre o tipo de velhice que você vai merecer.
A trajetória de mais de quatro décadas de Hilton Cobra no teatro brasileiro se reflete em Chinua, personagem que interpreta na novela das seis A Nobreza do Amor, da TV Globo. Na trama, o ator e diretor baiano dá vida a Chinua, conselheiro do rei Cayman II e uma das figuras centrais da resistência ao golpe liderado por Jendal, personagem de Lázaro Ramos.
Fiel à família real destronada, Chinua permanece em seu posto mesmo após a mudança de poder e se torna um importante aliado de Dumi na luta pela restauração da ordem no reino. A presença de Hilton Cobra no papel tem chamado atenção pela construção de uma representação digna, complexa e altiva da realeza africana ambientada nos anos 1920.
A escolha do ator para interpretar Chinua dialoga com sua rica trajetória artística construída ao longo de mais de quatro décadas. Nascido no município de Feira de Santana, na Bahia, o artista é uma das principais referências do teatro negro brasileiro contemporâneo, com atuação marcada pela valorização das culturas negras e pelo fortalecimento de espaços de protagonismo para artistas negros no teatro e na televisão brasileira.
Sua trajetória nos palcos começou no final da década de 1970, quando protagonizou o espetáculo Solta-me Orelha, dirigido por Luiz Marfuz. Em 2001, fundou a Companhia dos Comuns, coletivo inspirado no legado do Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias Nascimento. Também esteve à frente da Fundação Cultural Palmares entre 2013 e 2015, período em que contribuiu ativamente para o fortalecimento de políticas voltadas à preservação da cultura afro-brasileira.
Entre seus trabalhos mais conhecidos está o solo Traga-me a Cabeça de Lima Barreto, espetáculo criado em comemoração aos seus 40 anos de carreira e que contou com diversas apresentações pelo Brasil, propondo uma reflexão crítica sobre racismo científico, intelectualidade negra e memória histórica por meio da obra e da trajetória do escritor Lima Barreto.
Hilton Cobra integrou o elenco de Medida Provisória, filme dirigido por Lázaro Ramos e inspirado na peça Namíbia, Não!, de Aldri Anunciação, e, ao longo dos anos, consolidou-se como ator, diretor, gestor cultural e articulador de iniciativas para impulsionar a produção cultural negra no Brasil.
Em A Nobreza do Amor, o artista reforça seu legado e sua presença na televisão brasileira ao interpretar um personagem com uma narrativa pautada em valores como lealdade e sabedoria, contribuindo para ampliar a visibilidade de personagens negros no audiovisual.
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