A parte 1 da segunda temporada de ‘Beauty in Black’ estreou na Netflix nesta semana e já está no top 10 das séries mais assistidas do momento. A primeira temporada terminou deixando os fãs sem fôlego, quando o magnata Horace Bellarie (Ricco Ross) apresentou seus filhos, Roy (Julian Horton) e Charles (Steven G. Norfleet), à sua nova esposa — e nova chefe — Kimmie (Taylor Polidore Williams).
Oficialmente como a Sra. Bellarie, ela está pronta para mostrar quem manda agora. “Os fãs estão prestes a embarcar em uma jornada alucinante com Kimmie assumindo seu novo poder como chefe da Beauty in Black e da família Bellarie. Nesta temporada, ela é uma força que ninguém espera — e não importa quantos tentem, nada pode impedi-la”, afirmou Tyler Perry, criador da série, ao Tudum.
No clipe de oito minutos divulgado antes da estreia oficial, Horace se torna o mentor improvável de Kimmie, ensinando-a os segredos de como comandar uma família poderosa. Ela não quer apenas manter seu trono, quer garantir que sua irmã Sylvie (Bailey Tippen) e sua melhor amiga Rain (Amber Reign Smith) estejam seguras diante de tantas mudanças.
E as perguntas não param: como Kimmie vai lidar com o novo papel de chefona? Como seu ex-chefe Jules (Charles Malik Whitfield) vai reagir à inversão de papéis? E onde está Angel (Xavier Smalls)?
Tyler Perry garante que os fãs podem esperar uma temporada eletrizante: “Mal posso esperar para que os fãs descubram o quão louca e imprevisível esta nova temporada é. Todos os seus personagens favoritos retornam, e as reviravoltas incríveis estão mais emocionantes e de cair o queixo do que nunca.”
A Netflix ainda não anunciou oficialmente a data de estreia da parte 2 da segunda temporada.
A empresária e designer baiana Graziele Neves apresenta a MAAR, marca de joias autorais que nasce em Lisboa e chega ao Brasil através de vendas online. Com experiência de mais de 20 anos em gestão e liderança, Graziele transforma seu olhar estratégico em criações que unem estética, cultura e ancestralidade.
As peças da MAAR são concebidas para gerar conexão — com a natureza, com memórias afetivas e com aquilo que nos torna únicos. Trabalhando com pedras naturais, cristais, pérolas, conchas, búzios, latão, aço inoxidável e prata, a marca aposta em joias artesanais, em baixa escala e com possibilidade de personalização, permitindo que cada peça conte histórias individuais.
Foto: divulgação
A primeira coleção foi lançada em maio e, em setembro, chegam 40 novas peças exclusivas, já exportadas para Portugal, Espanha, Reino Unido, França, Irlanda, Alemanha, Holanda e Brasil. No país, o público pode adquirir as joias diretamente pelo site oficial, com condições especiais de lançamento.
Para Graziele, a MAAR não é apenas uma marca de joias: é uma ponte entre culturas, conectando a riqueza estética da Bahia ao design contemporâneo europeu e trazendo à tona a força da ancestralidade afro-brasileira em cada detalhe.
A telenovela Vale Tudo é um clássico da dramaturgia brasileira. Mais do que o enredo, ela nos lembra de uma questão urgente: representatividade não é apenas quem aparece diante das câmeras, mas também quem está atrás delas. Durante décadas, a branquitude se autorizou a narrar nossas histórias, quase sempre reduzindo pessoas negras a estereótipos que reforçam dores históricas.Quando a crítica surge, o argumento recorrente é o de evitar o “panfletário”, termo usado seletivamente, apenas quando não lhes convém aprofundar discussões sobre racismo, gênero, sexualidade ou desigualdade social.
O que falta, em grande parte da produção do audiovisual brasileira, é escuta. Falta reconhecer que estamos em um país que ainda engatinha na construção de uma educação antirracista e, justamente por isso, a responsabilidade da mídia é imensa. Falta consultoria especializada, falta abertura para roteiristas, diretores e produtores negros contarem suas próprias vivências sem filtros coloniais.
Essa reflexão não é nova. Abdias do Nascimento, um dos maiories intelectuais e ativistas negros do Brasil, já denunciava a ausência de protagonisto negro nas artes e nas narrativas culturais. Ao criar, o Teatro Experimental do Negro, na década de 1940, Abdias abriu espaço para que pessoas negras não fossem apenas personagens periféricos, mas autores de suas próprias histórias. Sua obra e militância nos lembram que sem autoria negra, continuamos presos a imagens distorcidas sobre quem somos.
E quando revisitamos personagens icônicos, como Raquel, percebemos que as marcas dessa ausência. Se pensarmos em uma Raquel de 2025, podemos enxergá-la não mais como uma mulher em busca de “salvação”, mas como uma mulher negra empreendedora, consciente de sua identidade e capaz de criar uma rede forte com outras mulheres negras. Esse “salvamento” presente em narrativas da branquitude não é inocente, ela reflete o racismo estrutural que sempre coloca pessoas negras em um lugar inferior, dependente da tutela branca para ascender socialmente. É uma lógica colonial de subalternização, onde o destino da população negra só se realiza quando mediado pela branquitude.
A Rede Globo, mostrou em algumas produções que é possível abrir espaços para narrativas negras como maior dignidade e profundidade. Vai Na Fé, Mister Brau e Encantados são exemplos disso. Essas experiências comprovam que há caminhos. No entanto, continuam sendo exceções dentro de uma indústria que insiste em manter a hegemonia branca nos bastidores. E é justamente aí que está chave da mudança, sem diversidade real entre os roteiristas, diretores, produtores e executivos, continuaremos reféns de uma visão limitada, muitas vezes racista, sobre o que significa ser negro no Brasil.
Representatividade não é apenas ocupar a tela, mas disputar narrativas. É garantir que as histórias contadas sobre nós tenham profundidade, pluralidade e respeito. Como Abdias do Nascimento ensinou, é preciso romper com a lógica da tutela branca sobre nossas existências e assegurar o direito de narrar a nós mesmos.
O futuro da televisão Brasileira precisa ser constrúido de forma coletiva, plural e antirracista. Só assim será possível romper com os grilhões do passado e abrir espaço para narrativas que realmente expressem a diversidade deste país.
Por Diego do Subúrbio (@diegodosuburbio)
Apoie a continuidade e permanência de Diego na universidade pública via Pix: diegodosuburbio.contato@gmail.com e mais informações no perfil @diegodosuburbio
Em entrevista ao Notícias da TV (leia aqui), a atriz Haonê Thinar falou sobre a importância de dar vida a Pam, personagem de Dona de Mim. Mulher negra e cadeirante, a atriz faz história ao ocupar um espaço inédito na teledramaturgia da Globo.
“Sou muito grata a Rosane [Svartman, autora] e à equipe por fazerem uma personagem que vive normalmente. Ela não está ali por causa da deficiência. Ela trabalha, tem amigos, dá bronca, preocupa-se. Vive”, afirmou Haonê.
A presença da atriz em horário nobre rompe um padrão ainda recorrente na TV brasileira: a representação de pessoas com deficiência restrita a papéis marcados pelo sofrimento, superação ou limitações. Em Dona de Mim, Pam aparece como costureira, amiga, namorada e mulher jovem que circula pela trama sem ter sua narrativa reduzida à cadeira de rodas.
O papel de Haonê chama atenção para um debate necessário: a inclusão de atores e atrizes com deficiência em produções de grande alcance. Sua atuação amplia o repertório de histórias contadas na televisão e aponta para a possibilidade de personagens mais diversos e realistas nas telas.
A Powerlist Mundo Negro – Mulheres Negras Mudam Histórias chega à sua quarta edição com inovações que ampliam seu alcance e reforçam sua legitimidade. Pela primeira vez, parte da escolha das vencedoras está aberta ao voto popular em quatro categorias — Criadora Digital, Empreendedora, Moda e Beleza e Gastronomia. Já as demais áreas ficam sob responsabilidade da Curadoria Técnica, um comitê independente que avalia impacto, consistência de carreira, relevância pública e inovação .
A formação da Curadoria Técnica é uma novidade de 2025 e representa um avanço no modelo da premiação, que desde 2022 reconhece mulheres negras de diferentes setores e já contou com apoio de marcas como L’Oréal, Ambev, Smiles e Fenty Beauty . Este ano, a edição soma Natura e Grupo L’Oréal como patrocinadores institucionais, consolidando o evento como o mais aguardado desde sua criação .
Quem são as integrantes da Curadoria Técnica
O comitê reúne lideranças que atuam em campos estratégicos da economia, da comunicação e da inovação:
Elaine Moura – CEO e fundadora do Grupo PopCorn Gourmet, maior franquia de pipocas do país, chef de cozinha e jurada do Mais Você.
Helena Bertho – executiva com passagens por Coca-Cola e L’Oréal, premiada com o Caboré e eleita pela ONU uma das 100 afrodescendentes mais influentes do mundo.
Kelly Baptista – presidente da Fundação [1 Bi], colunista do Mundo Negro e integrante de redes globais de liderança.
Luana Génot – CEO do Instituto Identidades do Brasil, autora e conselheira de empresas globais, reconhecida pelo Fórum Econômico Mundial como Young Global Leader.
Marcele Giordano – executiva de Diversidade, Equidade e Inclusão com experiência em transformação cultural em grandes corporações.
Nina Silva – fundadora do Movimento Black Money e do D’Black Bank, reconhecida pela Forbes e pelo Fórum Econômico Mundial como uma das mulheres mais influentes da tecnologia.
Priscilla Arantes – jornalista, fundadora do Instituto Afroella e especialista em comunicação institucional, com trajetória em organizações sociais.
Rita Oliveira – diretora de Diversidade, Equidade e Inclusão da Coca-Cola Company para Brasil e Cone Sul, com carreira em multinacionais como Disney e Walmart.
Samantha Almeida – diretora de Marketing da TV Globo, já presidiu o Festival Cannes Lions e foi eleita pela ONU como uma das 100 afrodescendentes mais influentes do mundo.
Sauanne Bispo – executiva de inovação e fundadora da AfriHub, com trajetória em empresas como Google, Smiles e B3.
Viviane Elias – especialista em governança corporativa e riscos, conselheira de organizações como Feira Preta e Instituto Conta Black.
Próximas etapas
O público segue participando da premiação até o dia 16 de setembro, votando nas finalistas do voto popular. Também é possível enviar sugestões de nomes para análise da Curadoria Técnica pelo e-mail powerlist@mundonegro.inf.br .
As vencedoras de todas as categorias serão anunciadas em 11 de outubro, com celebração no evento oficial marcado para o dia 17 de outubro, na Casa Manioca, em São Paulo .
Fotos: Marcio Farias; Reprodução/Instagram; e Ana Branco/Agência O Globo
O site Mundo Negro revela com exclusividade três importantes nomes do pensamento e da arte negra no Brasil que integrará a programação da sétima edição do Festival LivMundi deste ano: o artista, dramaturgo e colunista do Mundo Negro, Rodrigo França, o filósofo Renato Noguera, e a escritora Vilma Piedade. O diálogo “Águas de Encantaria – Fabulações do Norte ao Sul” acontece no domingo (21/09), às 11h, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio). O evento é gratuito.
A mesa parte da ideia de que imaginar é também um gesto político. Entre encantarias e palavras que curam, os convidados discutem como memória, território e literatura se cruzam na construção de novas formas de existir. A proposta é mostrar como o ato de fabular pode manter vivas as histórias que atravessam gerações, valorizando a ancestralidade como fonte de aprendizado e força coletiva. Nesse sentido, o encontro reafirma a potência das epistemologias negras como caminhos de resistência, reexistência e transformação social.
O Festival LivMundi será realizado nos dias 20 e 21 de setembro, das 9h30 às 21h, e no domingo (21/09), das 9h às 19h, e a programação também receberá outras rodas de conversa, cortejo de maracatu, shows, cinema, oficinas e intervenções artísticas. Os ingressos estão disponíveis gratuitamente pelo site livmundi.come pela plataforma Sympla.
Obra de Nádia Taquary (Foto: Levi Fanan/Fundação Bienal)
O Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera, abriu no último sábado (6) para a 36ª Bienal de São Paulo, que terá duração inédita de quatro meses, até 11 de janeiro de 2026, com entrada gratuita. A edição “Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática”, inspirada no poema “Da calma e do silêncio” de Conceição Evaristo, tem curadoria de camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung e reúne 120 artistas de diferentes partes do mundo, com debates, performances e encontros que exploram a humanidade, a memória e a relação do ser humano com a terra.
O projeto arquitetônico e expositivo é assinado por Gisele de Paula e Tiago Guimarães, que organizaram a Bienal em seis capítulos temáticos. Inspirados pela fluidez dos rios e pela imagem do estuário presente na proposta curatorial, os arquitetos criaram margens sinuosas que transformam a visita em um percurso sensorial, incentivando a pausa, a escuta e o encontro.
A exposição propõe refletir sobre o encontro de diferentes mundos, a errância como método e a humanidade como verbo, inspirando-se nos versos de Conceição Evaristo: “Nem todo viandante / anda estradas, / há mundos submersos, / que só o silêncio / da poesia penetra.”
Entre as iniciativas inovadoras da Bienal está o projeto “Aparições”, desenvolvido em parceria com a plataforma WAVA, que utiliza realidade aumentada para exibir digitalmente obras brasileiras em pontos específicos ao redor do mundo. O público pode interagir com as criações por meio do aplicativo da iniciativa.
O programa “Invocações” trouxe encontros de poesia, música, performances e debates em Marrakech (Marrocos), Guadalupe (México), Zanzibar (Tanzânia) e Tóquio (Japão) antes de chegar a São Paulo. Além do Pavilhão, cinco artistas participam do programa “Afluentes”, ocupando a Casa do Povo, que inclui mostras de filmes com curadoria de Benjamin Seroussi e Daniel Blanga Gubbay.
Os artistas desta edição exploram linguagens diversas, incluindo vídeo, performance, pintura, som, escultura, escrita e experimentações coletivas, desafiando o público a refletir sobre a humanidade em suas múltiplas formas e caminhos. Obras que se transformam ao longo da exposição e materiais reaproveitados reforçam a ideia de temporalidade, memória e ciclos da vida.
Vindos de diferentes partes do mundo, os artistas desta edição exploram diferentes linguagens de arte, oferecendo ao público experiências sensoriais e reflexivas. A programação completa podem ser conferidos no site oficial da Bienal. Clique aqui!
“Em Cabral eu aprendi uma porção de coisas, digo em Cabral significando também com Cabral, que aprendi um bando de coisas, eu confirmei outras coisas de que eu suspeitava, mas eu aprendi, por exemplo, uma coisa que é a necessidade que têm o educador progressista e o educador revolucionário?” – Paulo Freire
Não se sinta solitário caso desconheça esse fato. Estamos no Brasil! Um país que sempre escondeu e distorceu a nossa história. O continente africano, berço da civilização, é o nascedouro de grandes heróis que enfrentaram as potências colonialistas, além de grandes cientistas e intelectuais. Absurdamente, essas informações não chegam à população brasileira por conta do racismo presente nas instituições escolares. E olha que somos mais da metade da população cuja ancestralidade está ligada àquele continente.
A educação brasileira preocupa-se em ensinar sobre os personagens brancos, criminosos e controversos da história, mesmo existindo leis que determinam a abordagem histórica da cultura africana e afro-brasileira. O Brasil adora exaltar estátuas, viadutos, ruas e avenidas, entre outros espaços públicos, com nome de pessoas ligadas à ditadura. Isso nos oferece uma pista sobre qual o viés ideológico reinante nas classes dominantes, responsáveis pelas abjetas homenagens.
Amílcar Cabral era um homem brilhante. Nasceu em solo guineense no dia 12 de setembro de 1924. Ele foi um revolucionário e arquiteto da independência de Guiné-Bissau e Cabo Verde. Poeta, engenheiro-agrônomo e pan-africanista, participou da fundação do Partido Africano Para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde — PAIGC, em 1956. Esses países eram colônias de Portugal, que na época estava sob o regime sangrento de António de Oliveira Salazar. A destruição daquele fio que os amarrava ao colonialismo precisava ser desatada não somente legalmente. Cabral incluía nesse processo a abolição consciente dos valores incutidos no interior de cada africano. Arrancar todos os germes da submissão colocados em solo africano.
Para Cabral, não adiantaria a libertação objetiva sem que a subjetiva fizesse parte. Ele conceituou a “reafricanização dos espíritos” como o instrumento para esse processo, ou seja, o resgate da cultura africana por meio de atividades artísticas. Ademais, acreditava na educação como método inegociável para lograr sucesso, pois a mesma teve papel fulcral para ampliar valores estranhos aos africanos. “Toda a educação portuguesa deprecia a cultura e a civilização do africano. As línguas africanas estão proibidas nas escolas. O homem branco é sempre apresentado como um ser superior e o africano como um ser inferior. Os conquistadores coloniais são descritos como santos e heróis. As crianças adquirem um complexo de inferioridade ao entrarem na escola primária. Aprendem a temer o homem branco e a ter vergonha de serem africanos (…)”
Muitos estudiosos chamam Amílcar Cabral de “Pedagogo da Revolução” devido às formulações de postulados e construção de conhecimento com os guerrilheiros do PAIGC. A sua estatura na educação conquistou até o educador Paulo Freire, Patrono da Educação Brasileira, e confesso admirador do revolucionário africano. Amílcar Cabral foi assassinado em 20 de janeiro de 1973, antes de ver o sonho da independência concretizado. Mas os caminhos construídos foram aproveitados. Em setembro desse mesmo ano a Guiné-Bissau proclamou a independência. Dois anos depois, Cabo Verde também se tornou independente.
Cabral continua a inspirar diretamente através da sua própria história, e indiretamente nas obras de Paulo Freire, um dos educadores mais lidos do mundo. Portanto, a pedagogia freiriana tem uma parte do nosso herói negro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CABRAL, Amílcar . Guiné-Bissau – nação africana forjada na luta. Lisboa. Nova Aurora, 1974.
CABRAL, Amílcar. Unidade e Luta I. A Arma da Teoria. Textos coordenados por Mário Pinto de Andrade, Lisboa: Seara Nova, 1978.
FREIRE, P. Sobre Africanidade: Amílcar Cabral, pedagogo da revolução. In: FREIRE, P; ARAÚJO, A. M. (org.). Pedagogia da tolerância. 5. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2016. p. 115-155.
ROMÃO, José Eustáquio; GADOTTI, Moacir. Paulo Freire e Amílcar Cabral: a descolonização das mentes. São Paulo: Editora e livraria Instituto Paulo Freire, 2012.
Pelo menos oito universidades historicamente negras (HBCUs) nos Estados Unidos têm aulas suspensas e acionaram protocolos de abrigo no local nesta quinta-feira, 11 de setembro de 2025, após receberem ameaças potenciais. As instituições afetadas incluem Alabama State University, Virginia State University, Hampton University, Southern University, Bethune-Cookman University, Clark Atlanta University, Spelman College e Morehouse College, sendo algumas delas referenciais históricos da educação negra nos EUA.
As medidas foram tomadas como precaução, em um momento de alerta crescente nos campi, pouco depois do tiroteio fatal envolvendo Charlie Kirk, comentarista político e ativista da extrema direita, embora não haja confirmação de relação direta com as ameaças. A prioridade das instituições é garantir a segurança de estudantes, professores e funcionários.
As HBCUs têm um papel central na história da educação negra nos Estados Unidos. Fundadas majoritariamente após a Guerra Civil, essas instituições surgiram para garantir acesso à educação de qualidade a estudantes negros em um período marcado pela segregação racial. Entre elas, a Howard University, em Washington, D.C., se destaca como símbolo da educação negra e já formou líderes, artistas e ativistas de relevância internacional.
O episódio evidencia que, mesmo em pleno século XXI, as comunidades negras e acadêmicas seguem enfrentando ameaças à sua segurança, reforçando a importância de proteger o patrimônio e as pessoas que fazem dessas instituições espaços de aprendizado, resistência e representatividade.
Na última semana, um trecho da coletiva de imprensa do filme Depois da Caçada viralizou nas redes. O elenco contava com a brilhante Ayo Edebiri, ao lado de Julia Roberts e Andrew Garfield. A cena que circulou mostra a jornalista italiana Federica Polidoro perguntando: “Agora que a era do #MeToo e do Black Lives Matter acabaram, o que devemos esperar de Hollywood e o que perdemos, se é que perdemos algo, com a era do politicamente correto?”
A questão, carregada de viés problemático, foi direcionada apenas a Julia e Andrew, ignorando Ayo — justamente a pessoa cuja contribuição seria central nesse debate. O constrangimento foi imediato. Edebiri, firme, interveio: reafirmou que os movimentos não acabaram e que vão além de hashtags. Mais do que responder, ela expôs a exclusão que se desenhava: “eu estou aqui, isso é sobre mim, então eu começo”.
Assisti ao vídeo algumas vezes, atenta à força de Ayo ao derrubar o muro de invisibilização que se erguia à sua frente. Embora a pergunta tivesse sido cuidadosamente direcionada aos colegas brancos, ela não permitiu que a situação se consolidasse como apagamento. Sua postura foi um recado direto: presença é resistência.
Esse episódio me trouxe lembranças. No mercado financeiro, eu liderava um projeto robusto, já aprovado pela diretoria. A etapa seguinte seria apresentar o plano de ação a um grupo de gerentes médios. Tudo pronto, estruturado, incontestável. Ainda assim, pedi a um diretor — homem branco e meu mentor — que entrasse na reunião por quinze minutos, apenas como observador. Ele riu da minha insistência, disse que não era necessário, já que o trabalho estava impecável e chancelado. Mas aceitei correr o risco do incômodo: pedi que testasse.
Ele entrou com a reunião em andamento. Eu já havia apresentado boa parte do plano e percebia os olhares enviesados, as tentativas de questionamento por detalhes irrelevantes, o peso da dúvida que não se sustentava no conteúdo, mas no corpo que o apresentava. Com poucos minutos na sala, recebi dele uma mensagem curta: “Entendi o que você queria dizer”. Logo depois, abriu o microfone e, em tom firme, disse: “Começamos na segunda-feira e o orçamento necessário sai da área de vocês. Pode seguir, Ana K.”
Ali, naquele instante, o silêncio foi de outro tipo. O mesmo projeto que até então era contestado passou a ser incontestável porque um homem branco, em posição hierárquica superior, o endossou em voz alta. Embora eu estivesse conduzindo a reunião, só fui verdadeiramente legitimada quando ele verbalizou o óbvio.
Não caia na armadilha de pensar em como ele foi “incrível”. Assim como não cabe aplaudir Julia e Andrew no episódio com Ayo. O que precisa ser discutido é a violência de ter que desenhar estratégias, pedir reforços e criar atalhos para ser ouvida — mesmo quando o trabalho é sólido e as vivências são legítimas. É sobre o desgaste de precisar provar o tempo todo que pertencemos à sala, ao debate, ao lugar.
Já vivi situações em que consegui sustentar minha posição sem intervenção de superiores. Mas cada vitória vinha acompanhada de um cansaço brutal, da dúvida corrosiva: será que fui lida como reativa? Será que passei do ponto? Será que o público não gostou da firmeza da minha postura? Ayo não deveria carregar essas perguntas depois de uma resposta tão necessária. Eu espero que ela não tenha se feito essas mesmas cobranças.
Após a repercussão, Polidoro se defendeu dizendo ter uma família multiétnica, feminista e marcada pela imigração, além de entrevistas realizadas com pessoas de diferentes origens. Nas palavras dela: “Na minha visão, os verdadeiros racistas são aqueles que enxergam racismo em tudo e buscam silenciar o jornalismo.” O discurso soa familiar: “não sou racista, tenho amigos ou parentes negros”. Para a jornalista, não haveria protocolo que determine a quem direcionar perguntas, portanto, não haveria racismo.
Mas para nós não é tão simples assim. Não é “só uma pergunta”. É mais uma ferida que se abre na sutileza. É exaustivo explicar porque, depois de correr três vezes mais para chegar ao mesmo lugar e provar dez vezes que somos competentes, ainda podemos ser invisibilizadas por um gesto que pretende ser neutro. Essa é a violência racial que se infiltra nas entrelinhas, sofisticada o bastante para ser negada, mas brutal o suficiente para nunca ser esquecida.