Ao celebrar a homenagem, o comunicador relembrou a jornada que começou na Bahia e resultou na criação do POPline, hoje um dos principais veículos de entretenimento e música da América Latina.
O empresário e comunicador baiano Flávio Saturnino Barbosa, fundador do POPline, recebeu nesta semana a Medalha Pedro Ernesto e o título de Cidadão Carioca Honorário, concedidos pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro. A homenagem aconteceu em uma data simbólica: o dia de seu aniversário.
Ao compartilhar o reconhecimento em suas redes sociais, Saturnino relembrou o início de sua trajetória. “Há 20 anos, eu era apenas um adolescente de 16 anos que saiu de São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano, para estudar”, escreveu.
Filho de mãe solo, estudante de escola pública e apaixonado por música, ele criou o POPline ainda na adolescência. O projeto, que começou como um site desenvolvido por um fã de cultura pop, tornou-se um dos maiores veículos do nicho na América Latina.
Segundo Saturnino, o portal acumula mais de 10 bilhões de visualizações ao longo de sua trajetória, além de mais de 200 mil matérias publicadas e uma ampla cobertura da indústria musical e do entretenimento.
Na publicação, ele também destacou a relação construída com a cidade do Rio de Janeiro, onde consolidou sua carreira e construiu iniciativas voltadas à comunicação, à cultura e à economia criativa.
“Foi aqui que transformei um sonho em profissão. Foi aqui que vi nascer movimentos culturais que ajudamos a amplificar, especialmente o funk carioca”, afirmou.
Embora tenha nascido na Bahia, Saturnino ressaltou que foi na capital carioca que construiu grande parte de sua história profissional e pessoal. Para ele, o reconhecimento representa uma celebração da cidade que acolheu sua trajetória e seus projetos ao longo dos últimos 20 anos.
A maior dupla de todos os tempos está de volta! As irmãs Serena e Venus Williamsreceberam o convite da organização de Wimbledon e estão confirmadas para disputar a chave de duplas do terceiro Grand Slam da temporada, que começa no dia 29 de junho, em Londres. O retorno marca o reencontro de uma das parcerias mais vitoriosas e emblemáticas da história do esporte mundial.
Enquanto Venus, atualmente com 45 anos, mantém sua rotina ativa competindo em torneios de simples, Serena, de 44 anos, ensaia um retorno triunfal após ter anunciado sua aposentadoria em 2022. Juntas, as irmãs construíram um legado inigualável que não apenas redefiniu os rumos do tênis, mas também quebrou barreiras e abriu portas para a afirmação da excelência negra no esporte de elite.
Ao longo de suas carreiras, Serena e Venus conquistaram juntas uma coleção impressionante de troféus que inclui seis títulos de duplas no próprio gramado de Wimbledon, além de quatro taças no Australian Open, duas em Roland Garros e outras duas no US Open. O domínio da dupla ultrapassou o circuito tradicional e alcançou o topo do mundo nos Jogos Olímpicos, onde garantiram três medalhas de ouro para os Estados Unidos.
A caminhada de Serena para este retorno ganhou força há duas semanas, quando ela pisou em quadra após quase quatro anos longe do circuito competitivo. Ela disputou a chave de duplas no WTA de Queen’s ao lado da jovem Victoria Mboko. A parceria estreou com vitória na primeira rodada, mas foi forçada a abandonar a competição antes das quartas de final porque Mboko sofreu uma lesão em sua partida de simples.
Por conta do longo período de afastamento, Serena ocupa atualmente a 593ª posição no ranking da WTA, uma colocação que impossibilitaria sua entrada direta no torneio. Sabendo do peso histórico e do espetáculo que a presença das irmãs representa para o público, a organização de Wimbledon utilizou o recurso do convite especial para garantir que a realeza do tênis ocupe, mais uma vez, o seu lugar na quadra central.
Festival confirma edição em novembro no Parque de Exposições, com programação que reúne referências da música negra internacional e brasileira em dois dias de shows
O Afropunk Brasil anunciou o line-up completo de sua edição de 2026, que acontece nos dias 7 e 8 de novembro no Parque de Exposições de Salvador. A grade reúne nomes que atravessam gerações e territórios da música negra contemporânea, com destaques internacionais como Kehlani, Jorja Smith, Kelela e o trio britânico FLO, ao lado de Gilberto Gil, Emicida, Criolo e Gaby Amarantos no eixo nacional.
Kehlani chega ao festival no momento mais significativo de sua carreira. A cantora e compositora nascida em Oakland venceu em 2026 dois Grammy Awards, nas categorias Melhor Canção de R&B e Melhor Performance de R&B, pelo single “Folded”, lançado em junho de 2025 e que se tornou um dos maiores hits do gênero nos últimos anos. Em abril de 2026, ela lançou seu quinto álbum de estúdio, autointitulado, com 17 faixas e participações de Missy Elliott, Cardi B, Usher e Brandy, entre outros. A presença no Afropunk Brasil será sua primeira apresentação no país.
Jorja Smith, por sua vez, chega ao festival cumprindo uma promessa adiada. A cantora britânica estava confirmada na edição de 2025 do Afropunk, mas cancelou toda sua passagem pelo Brasil em agosto daquele ano por motivos pessoais, com a organização do festival e as produtoras envolvidas garantindo publicamente que a artista retornaria em 2026. A confirmação no line-up deste ano encerra uma espera de mais de 12 meses do público brasileiro, que também a aguarda em shows solos em São Paulo e nos festivais Rock the Mountain. Jorja chega ao país ainda em um momento especial: o lançamento de um novo álbum previsto para agosto de 2026.
Foto: reprodução / Redes Sociais
A programação nacional coloca lado a lado artistas que representam momentos distintos da música negra brasileira. Gilberto Gil estreia no Afropunk Brasil logo após o encerramento da turnê “Tempo Rei”, que celebrou mais de seis décadas de produção musical. Emicida reafirma seu lugar como um dos principais artistas e pensadores da música brasileira contemporânea, enquanto Criolo apresenta um show dedicado ao repertório de “Nó na Orelha”, álbum lançado em 2011 que marcou uma geração inteira e permanece como um dos trabalhos mais relevantes da música brasileira do século XXI.
A força das sonoridades negras regionais aparece em Gaby Amarantos, que segue expandindo os caminhos do tecnobrega e da cultura amazônica, e em Lazzo Matumbi, uma das vozes centrais da música negra baiana. A nova geração está representada por AJULLIACOSTA, no rap nacional, por Fantasmão, referência histórica da cultura de periferia de Salvador, e por NandaTsunami, que une rap, moda e performance em linguagem própria.
A edição de Salvador encerra a jornada do Afropunk Brasil em 2026, que antes passa pelo Rio de Janeiro, no dia 15 de agosto, com o Afropunk Experience no Terreirão do Samba, e por Recife, no dia 12 de setembro, na Universidade Federal de Pernambuco. A expansão do festival para diferentes territórios do país consolida uma plataforma que, em 2025, reuniu mais de 75 mil pessoas presencialmente e alcançou 12 milhões de pessoas ao longo de suas ações.
Realizado pela IDW Company, o Afropunk Brasil mantém desde suas primeiras edições a proposta de ser um espaço de encontro entre música, moda, arte, ancestralidade e ocupação cultural. Os ingressos para a edição de Salvador estão à venda em breve.
SERVIÇO Afropunk Brasil 2026 — Salvador 7 e 8 de novembro Parque de Exposições — Av. Luís Viana Filho, 1590 Ingressos: à venda em breve
No dia 22 de junho, em Pinheiros, o HHWC celebra as divas do hip hop com halteres, elásticos e três turmas a partir das 8h
Beyoncé, Rihanna, Missy Elliott, Aaliyah, TLC, Destiny’s Child, Eve, Ciara, GloRilla, Karol com K, Flora Matos. São nomes que qualquer mulher negra reconhece antes mesmo de terminar a frase, artistas que ocupam um espaço específico na memória afetiva de quem cresceu ouvindo hip hop como forma de se ver no mundo. No próximo domingo, dia 22 de junho, essas mesmas vozes vão pulsar dentro de uma aula de musculação pela primeira vez no Brasil, quando o Hip Hop Workout Collective realiza a 21ª edição do HHWC no The Yard, em Pinheiros, São Paulo.
O evento, batizado de Divas do Hip Hop, marca uma virada na história do coletivo: até agora, todas as edições eram conduzidas apenas com o peso do próprio corpo. Halteres e elásticos entram pela primeira vez na dinâmica, transformando um treino de força em algo que nenhuma academia convencional oferece, uma aula em que a resistência muscular e a identidade cultural se constroem juntas, no mesmo movimento.
“O tema foi pensado para celebrar nossas cantoras que fazem a diferença na cena do hip hop, tanto nacional quanto internacional”, afirma Juliana Oliveira, uma das fundadoras do HHWC. “Uma aula com halteres ritmada com hip hop é algo que nunca aconteceu no Brasil. A gente traz esse conceito para inovar não só no treino, mas na rotina das alunas, que vão conhecer um outro lado do HHWC.”
O que o HHWC construiu em duas cidades
O Hip Hop Workout Collective nasceu em São Paulo fundado por três personal trainers e professoras de educação física: Juliana Oliveira, Caroline Araujo e Juliane Daianny. O projeto parte de uma constatação que as três conhecem na própria experiência: academias convencionais raramente foram espaços onde mulheres negras se sentiram representadas, seja na música que toca, nos corpos que aparecem nos espelhos ou nas pessoas que conduzem o treino.
Foto: divulgação
A resposta do coletivo foi montar um formato diferente. Cada encontro tem trilha sonora guiada pelo hip hop, dinâmicas que estimulam o coletivo tanto quanto o físico e uma proposta que coloca a cultura como parte estrutural do treino, não como decoração sonora. Em 2025, o projeto se expandiu para o Rio de Janeiro, onde realizou sua primeira edição em maio, consolidando o que começou como um encontro entre amigas em algo que hoje atravessa estados e conecta comunidades.
Os números que contextualizam essa escolha são diretos: apenas cerca de 33% das mulheres negras no Brasil praticam atividade física com regularidade, segundo dados recentes. O INCA aponta que mulheres negras têm 57% mais chance de morrer de câncer de mama do que brancas, com sedentarismo entre os fatores de risco mais documentados. Pesquisas da Universidade Charles, analisando mais de 130 mil mulheres, identificaram que a atividade física regular pode reduzir em até 40% o risco de desenvolver a doença. O HHWC opera dentro dessa equação com a hipótese de que, quando o espaço de movimento é também um espaço de pertencimento, o acesso muda.
Por que Divas do Hip Hop
A escolha do tema para a 21ª edição não é aleatória. As artistas que dão nome ao evento são, em sua maioria, mulheres negras que construíram carreiras dentro de um gênero que durante muito tempo tentou reduzir sua presença. Missy Elliott redefiniu o que uma produtora e rapper poderia ser nos anos 1990. Aaliyah levou suavidade e sofisticação para um espaço que raramente as valorizava. Beyoncé transformou o álbum visual em documento cultural. TLC abriu conversas sobre sexualidade e autonomia feminina dentro do mainstream. GloRilla e Karol com K representam a geração atual, que herdou esse espaço e continua ampliando.
Colocar essas vozes dentro de um treino de força não é só uma escolha de playlist. É uma afirmação de que a música que essas artistas fizeram sempre teve musculatura própria, e que o corpo que treina ao som delas carrega a mesma história.
As aulas acontecem em três horários: 8h, 9h30 e 11h. Os ingressos e informações estão disponíveis em linktr.ee/hhwc.br.
Em 16 de junho de 1976, estudantes negros de Soweto enfrentaram o apartheid e mudaram a história da África do Sul. Conheça o levante que abalou o mundo.
O apartheid transfom lei e a educação em instrumento de controle
O regime de segregação racial implementado na África do Sul em 1948 pelo Partido Nacional, composto por uma minoria branca, foi chamado de apartheid, palavra que em africâner significa separação. O que o nome descrevia com frieza burocrática era, na prática, um sistema que decidia onde cada pessoa podia morar, estudar, trabalhar, circular e se tratar, com base exclusivamente na cor de sua pele. A população sul-africana foi dividida oficialmente em categorias raciais: brancos, negros, mestiços e indianos, e o governo produziu uma legislação extensa para garantir que essa divisão fosse absoluta e permanente.
Casamentos inter-raciais eram proibidos, e o ato sexual entre pessoas de raças diferentes era punido com prisão. Negros não votavam, não ocupavam cargos no governo e não tinham acesso às mesmas estruturas públicas que os brancos. O apartheid não inventou o racismo sul-africano, que vinha sendo construído desde a colonização holandesa no século XVII e depois aprofundado pelos britânicos. O que ele fez foi organizar esse racismo, legislá-lo e torná-lo obrigatório. A educação, dentro desse sistema, funcionava como instrumento de rebaixamento deliberado: negros pagavam para frequentar escolas superlotadas com professores desqualificados, enquanto a educação para os brancos era gratuita e de qualidade.
Soweto existia para servir Joanesburgo e nunca para pertencer a ela
Construída como cidade-dormitório a 16 quilômetros de Joanesburgo, Soweto foi erguida pelo regime do apartheid para abrigar exclusivamente os negros que trabalhavam nas minas de ouro, nas fábricas e nas residências dos brancos da área metropolitana. O nome é uma contração de South Western Townships, as cidades-satélite criadas para manter a população negra afastada dos centros urbanos habitados por brancos. A lógica era simples e brutal: a força de trabalho negra era indispensável para o funcionamento da economia sul-africana, mas sua presença nas cidades brancas precisava ser controlada, limitada e, ao fim do expediente, devolvida para longe.
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Dentro desse arranjo, o sistema educacional funcionava como mais um mecanismo de contenção. As escolas de Soweto eram pagas, superlotadas e contavam com professores sem a qualificação exigida nas escolas brancas, que eram gratuitas e financiadas pelo Estado. Em 1974, o governo tornou ainda mais difícil ao publicar o chamado Decreto do Meio Africâner, determinando que as escolas secundárias para alunos negros passariam a ensinar matemática, ciências sociais e geografia obrigatoriamente no idioma africâner. Os estudantes se recusaram a aprender a língua dos colonizadores.
Uma geração formada para resistir chegou às ruas com consciência e organização
Os estudantes que marcharam em 16 de junho de 1976 não chegaram àquele ponto por impulso. Stephen Bantu Biko, ativista nascido em 1946, havia transformado a relação da juventude negra sul-africana com sua própria identidade por meio do Movimento da Consciência Negra. Em 1972, Biko fundou a Black Peoples Convention, que reuniu cerca de 70 grupos e associações, entre eles o South African Student’s Movement, organização estudantil que desempenhou papel central na articulação do levante de Soweto. O movimento adotou o slogan “Black is Beautiful” e combatia a noção de inferioridade que o regime tentava instalar na população negra desde a infância.
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Biko entendia que o apartheid não operava apenas por leis e violência física. Ele funcionava também ao convencer os próprios oprimidos de que eram menos. Combater essa crença era, para ele, tão urgente quanto combater qualquer decreto do governo. Até aquele momento, o Congresso Nacional Africano, principal movimento de libertação do país, estava enfraquecido pela prisão de Nelson Mandela e de outros líderes. Foi nesse espaço que as ideias de Biko ganharam força entre os jovens. Os estudantes de Soweto chegaram ao 16 de junho com consciência política formada, cartazes escritos à mão e clareza sobre o que estavam fazendo.
Entre 10 mil e 20 mil estudantes saíram às ruas cantando.
O fotojornalista Sam Nzima, do jornal The World, principal veículo da comunidade negra de Joanesburgo, chegou a Soweto antes do sol nascer. A redação havia sido informada de que haveria uma grande marcha estudantil naquele dia. Nzima encontrou os alunos na Naledi High School às 6h da manhã e os acompanhou enquanto escreviam os cartazes que carregariam durante o protesto. À medida que as horas avançavam, os estudantes começaram a caminhar em direção ao Orlando Stadium, onde planejavam fazer um comício. No Morris Isaacson High School, o líder estudantil Tsietsi Mashinini subiu em uma árvore para ser visto e pediu à multidão, que já somava cerca de 15 mil pessoas, que mantivessem a ordem e a paz. Os cartazes diziam “Abaixo o Africâner”. Os jovens cantavam em suas línguas maternas: zulu, xhosa, sotho.
A marcha seguia pacífica quando a polícia interveio. Um policial atirou uma bomba de gás lacrimogêneo, outro achou que eram os estudantes que tinham disparado, e todos começaram a atirar contra a multidão. Em segundos, uma passeata de jovens desarmados virou campo de batalha. Hector Pieterson, de 12 anos, foi uma das primeiras vítimas. A perícia realizada após sua morte revelou que ele foi atingido por um tiro disparado diretamente contra ele, não por uma bala ricocheteada no chão, como a polícia afirmou. Sam Nzima fotografou Hector sendo carregado pelo estudante de 18 anos Mbuyisa Makhubo, com a irmã de Hector, Antoinette, correndo ao lado com o uniforme escolar e o rosto desfigurado pelo choque. A imagem foi publicada naquele mesmo dia na edição vespertina do The World. No dia seguinte, a revista Time foi a primeira publicação internacional a circular a foto, seguida pela Reuters, que a distribuiu para redações em todo o mundo. A imagem foi reconhecida pela Time entre as 100 fotografias mais influentes do século. O próprio Nzima refletiu anos depois que havia quem acreditasse que aquela fotografia havia libertado a África do Sul, por causa das expressões nos rostos das pessoas nela retratadas.
O massacre se espalhou pelo país e o regime nunca mais foi o mesmo
Pelo menos 23 pessoas morreram no primeiro dia do levante, duas delas brancas e favoráveis à integração racial. Por três dias, em várias partes do país, houve confrontos, incêndios e saques, com centenas de mortos e mais de mil feridos. A revolta não ficou contida em Soweto. Espalhou-se por outras cidades e regiões da África do Sul, transformando o que começou como um protesto estudantil em uma insurreição que o regime não esperava e não soube conter. O governo designou o juiz Petrus Malan Cillié para liderar uma comissão encarregada de registrar e analisar o levante. A Comissão Cillié constatou oficialmente 575 mortos, mas há a compreensão geral de que o número real seria maior, e que dados podem ter sido omitidos para evitar prisões. Estatísticas não oficiais apontam até 700 mortos e 4 mil feridos ao longo de todo o período de agitação que se seguiu ao 16 de junho.
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Mbuyisa Makhubo, o jovem que aparece na fotografia carregando Hector Pieterson, tornou-se alvo da polícia do apartheid após a imagem circular pelo mundo. Ele fugiu da África do Sul e desapareceu na Nigéria em 1979, com 21 anos. Nunca foi encontrado.
Soweto marcou o início do fim do apartheid e o nascimento de uma data que o mundo passou a reconhecer
Com o Levante de Soweto iniciou-se a contagem regressiva para o fim do apartheid. A data 16 de junho passou a ser chamada de Dia da Juventude na África do Sul, marcando o começo de uma série de manifestações que se prolongariam por 18 anos e culminariam nas primeiras eleições democráticas do país, em 1994, vencidas pelo Congresso Nacional Africano com Nelson Mandela eleito presidente. A exposição internacional da brutalidade do regime intensificou sanções econômicas e o isolamento diplomático da África do Sul, corroendo as bases de sustentação do apartheid por dentro e por fora. Em 1991, a Organização da Unidade Africana instituiu o 16 de junho como Dia Internacional da Criança Africana, em memória das vítimas de Soweto e em defesa dos direitos das crianças e jovens africanos.
Mesmo após as eleições de 1994, as décadas de educação deliberadamente precarizada deixaram marcas profundas no sistema educacional sul-africano. Em 2015, estudantes voltaram às ruas com o movimento Fees Must Fall, protestando contra as taxas cobradas nas universidades públicas. Um dos cartazes carregados durante aquelas manifestações dizia: “Pensei que tínhamos tido essa conversa em 1976.” O Museu Hector Pieterson foi inaugurado em Soweto em 2002, a poucos metros do local onde o menino foi baleado. Antoinette Sithole, a irmã que aparece correndo na fotografia de Sam Nzima, ainda vive em Soweto e segue contando o que aconteceu naquele dia. Algumas histórias não envelhecem. Elas cobram resposta.
Pela primeira vez, o Rio celebra os 187 anos de Machado de Assis com 12 horas de programação gratuita no MAR, na Pequena África. Saiba tudo sobre o festival.
A Prefeitura do Rio de Janeiro realiza no dia 21 de junho de 2026 o Festival Machado de Assis, evento gratuito e inédito que ocupa o pilotis e o térreo do Museu de Arte do Rio (MAR), na região da Pequena África, durante 12 horas de programação cultural contínua. A data marca os 187 anos de nascimento do escritor, considerado o maior nome da literatura brasileira, e a celebração reunirá caminhada literária, rodas de conversa, debates acadêmicos, apresentações musicais, microfone aberto, experiências imersivas e um baile charme como encerramento. A entrada é gratuita e as atividades começam às 9h.
O evento é apresentado pela Secretaria Municipal de Cultura e realizado pela Academia Brasileira de Letras e pela Terreiro Produções, com apoio do Itaú Cultural. A curadoria ficou a cargo da escritora e imortal Ana Maria Gonçalves, que também idealizou o festival, e dos artistas Felipe Oladélè, Hugo Germano e Muato. A escolha do MAR não é casual: o museu está situado na Pequena África, território que concentra parte significativa da memória cultural afro-brasileira do Rio de Janeiro e guarda relação direta com o universo que Machado de Assis habitou e descreveu ao longo de sua obra.
Foto: Editora Record / Divulgação
O dia começa com uma caminhada guiada a partir do conto “Noite de Almirante”, que conduzirá o público por locais históricos do centro do Rio ligados à trajetória do escritor e à memória cultural da cidade. A atividade funciona como porta de entrada para uma programação que percorre diferentes linguagens e públicos ao longo das horas seguintes, desde intervenções artísticas e um quiz literário até experiências fotográficas com tecnologia de filtros.
Uma das atrações do espaço será a Ocupação Captu, instalação cenográfica inspirada no século XIX que recria o ambiente presente nos romances machadianos, com móveis e objetos de época. Os visitantes poderão participar de uma ativação fotográfica com o filtro “Olhos de Ressaca”, referência direta à descrição de Capitu em “Dom Casmurro”, e receberão ao final uma fotografia impressa personalizada. A proposta conecta o texto literário a uma experiência sensorial contemporânea, aproximando o público de uma das personagens mais debatidas da literatura nacional.
Debates com acadêmicos da ABL
Entre 14h e 16h, o térreo do MAR recebe um ciclo de mesas que reúne pesquisadores e membros da Academia Brasileira de Letras. A primeira delas, intitulada “Machado de Assis: obra, contexto e permanência”, contará com o professor e pesquisador Eduardo de Assis Duarte e terá mediação de Ana Maria Gonçalves. O encontro examinará a sofisticação literária de Machado e sua relevância para a compreensão da sociedade brasileira, abordando aspectos que vão da técnica narrativa à crítica social presente nos textos.
A segunda mesa, “Leituras contemporâneas de Machado”, reunirá as acadêmicas Rosiska Darcy de Oliveira, Ana Maria Machado e Lilia Schwarcz para um diálogo sobre as diferentes interpretações da obra do autor ao longo do tempo. Raça, poder, subjetividade, desejo e política estão entre os temas previstos para a conversa, que busca demonstrar como textos escritos no século XIX continuam a produzir sentido quando lidos à luz do presente.
Para Ana Maria Gonçalves, a escolha do MAR como sede do festival reforça uma relação que o próprio Machado cultivou ao longo da vida. “Em seus livros, Machado de Assis sempre falou muito bem da cidade. Então é extremamente importante a gente fazer esse festival no MAR, com uma programação que engloba espaços instagramáveis, quiz literário, shows, mesas com os acadêmicos e terminando com baile charme, numa tentativa de trazer suas obras mais para perto do público, apresentando-o para novas gerações, para que eles possam entender o quão atual ainda é esse grande escritor”, afirmou a escritora.
Microfone aberto e espetáculo de encerramento
A partir das 16h30, o festival abre espaço para a participação direta do público com o Microfone Aberto, atividade que convida artistas e visitantes a compartilharem leituras, performances e interpretações a partir dos textos de Machado de Assis. A proposta dura duas horas e funciona como transição entre o ciclo de debates e o espetáculo que encerra o dia.
O fechamento da programação ficará por conta do “Machado Vivo”, espetáculo cênico-musical com direção de Felipe Oládélè, Muato e Hugo Germano e direção musical de Muato. O show reúne música, teatro, performance, poesia e dança para percorrer temas centrais da obra machadiana, como amor, liberdade, raça, ironia e crítica social. Os intérpretes Janamô, Marcos Sacramento, Natasha Félix e João Vitor Nascimento serão acompanhados pela banda formada por Gabriel Marinho, Rodrigo Ferreira, Márcio Sorriso e Pedro Carneiro.
Ao final do espetáculo, o festival se transforma em baile charme, conduzido pelo dançarino Marcus Azevedo e pelo DJ Bob Reis, encerrando as 12 horas de programação com música, dança e convivência coletiva.
Fundador da ABL e voz da cidade
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839, filho de um pintor negro e de uma lavadeira açoriana, e cresceu no morro do Livramento, na zona portuária da cidade, região que corresponde hoje à Pequena África. Autodidata, tornou-se tipógrafo, jornalista e, ao longo de décadas de produção literária, construiu uma obra que abrange romances, contos, crônicas, peças de teatro e poesia. Foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, que ajudou a fundar em 1897, e exerceu o cargo até sua morte, em 1908.
Romances como “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Quincas Borba” e “Dom Casmurro” consolidaram sua posição como o mais influente escritor da literatura brasileira, e seus textos são traduzidos e estudados em universidades de diversos países. Apesar disso, celebrações públicas de grande porte dedicadas exclusivamente a ele são raras no Rio, cidade onde nasceu, viveu e morreu. O festival de 21 de junho representa a primeira iniciativa do município com esse escopo e essa estrutura.
O evento é gratuito e aberto ao público, com programação das 9h às 21h no Museu de Arte do Rio, localizado na Praça Mauá, 5, no Centro do Rio de Janeiro.
Fotos: denis.cord/Instagram e Reprodução/Instagram
A Justiça de São Paulo condenou o empresário Rodrigo Branco, ex-diretor da Band, ao pagamento de R$ 40 mil em indenização por danos morais à médica e campeã do Big Brother Brasil 2020, Thelma Assis. A decisão é resultado de um processo movido após declarações feitas por ele durante uma live realizada em 2020, quando afirmou que o público votava em Thelma por ela ser uma “negra coitada”.
Nesta tarde, Thelma se manifestou nas redes sociais sobre a condenação e destacou a importância do reconhecimento judicial do caso.
“Eu precisava que a justiça reconhecesse o fato, e ela foi feita. Foram seis anos lutando praticamente sozinha, somente com o apoio da minha família e dos meus advogados, contra uma injúria racial covarde, já que eu estava confinada na época do ocorrido e não pude me defender”, escreveu.
A médica também ressaltou o impacto emocional e simbólico da decisão após anos de tramitação do processo. Sua manifestação foi recebida como um marco importante na busca por responsabilização em casos de violência racial.
Entenda o caso
Durante uma transmissão ao vivo realizada enquanto o BBB 20 ainda estava em exibição, Rodrigo Branco afirmou que Thelma era “horrível” e que recebia apoio do público por ser uma “negra coitada”. Na mesma ocasião, também fez comentários sobre a jornalista Maju Coutinho, afirmando que ela estaria em sua posição profissional “por causa da cor”.
As declarações geraram ampla repercussão nas redes sociais e foram criticadas por reforçarem estereótipos raciais que desconsideram trajetórias construídas por mérito, competência e talento.
Justiça reconhece caráter discriminatório das declarações
Na sentença, a juíza Flávia Ribeiro afirmou que o empresário, “na tentativa de diminuir os evidentes atributos pessoais de Thelma, carisma, talento, competência, entre outros”, praticou um “comportamento discriminatório que não se pode admitir”.
A magistrada também entendeu que as declarações ultrapassaram a esfera individual e atingiram a coletividade ao reforçarem padrões históricos de exclusão.
Segundo a decisão, a fala não apenas atingiu a honra da médica, mas também reproduziu mecanismos de discriminação racial presentes na sociedade brasileira. Por esse motivo, a Justiça reconheceu a gravidade do caso e determinou o pagamento da indenização, que ainda será acrescida de juros e correção monetária.
De acordo com informações do processo, Rodrigo Branco não apresentou defesa na ação.
Após a repercussão das declarações, ele divulgou um vídeo afirmando que já havia falado “besteiras” e que mudar de opinião fazia parte do aprendizado. Em entrevista concedida posteriormente à revista Veja, também declarou que não era racista e que suas críticas se referiam ao desempenho de Thelma no programa.
Mesmo com a condenação, o empresário ainda poderá recorrer da decisão.
A decisão judicial ocorre seis anos após o episódio e representa um reconhecimento institucional da violência racial denunciada por Thelma Assis.
Para Thelma, a condenação simboliza o encerramento de uma longa disputa por justiça e o reconhecimento oficial de uma violência que, segundo ela, ocorreu em um momento em que não podia sequer responder publicamente às acusações por estar confinada no reality show.
O goleiro titular da seleção japonesa e atleta do Parma, da Itália, Zion Suzuki, vem chamando atenção por uma trajetória que conecta Japão, Gana, Estados Unidos e Europa. Nascido em Nova Jersey, nos Estados Unidos, filho de mãe japonesa e pai ganês, Suzuki construiu sua trajetória entre diferentes culturas até se tornar, aos 23 anos, um dos rostos mais promissores do futebol japonês.
O atleta foi criado em Saitama, no Japão. Apesar de ter nascido em território norte-americano, o goleiro escolheu representar o país de sua mãe. A ligação com o futebol começou ainda na infância, quando ingressou nas categorias de base do Urawa Reds, um dos clubes mais tradicionais do país. Com 1,90 metro de altura e destaque precoce na posição, passou a frequentar as seleções japonesas desde as categorias de base.
Da formação no Japão ao futebol europeu
Em 2023, Suzuki deu um passo importante na carreira ao se transferir para a Europa. O primeiro destino foi o St. Truiden, da Bélgica, onde ganhou experiência no futebol europeu e chamou a atenção de clubes de ligas mais competitivas.
O desempenho consistente abriu caminho para sua chegada ao Parma, tradicional equipe italiana que revelou grandes goleiros e teve em Gianluigi Buffon um de seus maiores ídolos. Na Itália, Suzuki encontrou espaço para se desenvolver e rapidamente assumiu a titularidade da equipe.
Atualmente em sua segunda temporada como titular do Parma, o goleiro tem sido reconhecido por atuações seguras, boa capacidade de reação e qualidade na saída de bola.
Titular do Japão rumo ao Mundial
Pela seleção principal, Suzuki estreou em 2022 e soma mais de 20 partidas disputadas. Entre os resultados recentes, participou da histórica vitória japonesa sobre o Brasil em amistoso e esteve presente nos triunfos sobre Inglaterra e Escócia sem sofrer gols.
Agora, o goleiro terá a missão de liderar o sistema defensivo japonês na Copa do Mundo de 2026. No Grupo F, o Japão enfrentará Holanda, Suécia e Tunísia em busca de superar sua melhor campanha em Mundiais, alcançada com as classificações para as oitavas de final em edições anteriores.
Representatividade e novas narrativas no futebol asiático
A presença de Zion Suzuki na seleção, sendo filho de uma família formada por diferentes origens, evidencia importantes transformações sociais no cenário futebolístico asiático. Ele integra uma geração de atletas que desafia visões homogêneas sobre identidade nacional e amplia as referências de pertencimento dentro do esporte.
Nos últimos anos, jogadores negros e mestiços têm ocupado espaço crescente no futebol japonês, contribuindo para a construção de narrativas mais diversas sobre quem representa o país dentro e fora dos gramados. Suzuki se tornou um exemplo de como identidade, talento e formação esportiva podem coexistir em uma carreira marcada por múltiplas influências culturais.
A Academia Brasileira de Letras (ABL) anunciou o romance ‘Meridiana’, de Eliana Alves Cruz, como o vencedor do Prêmio Guimarães Rosa de Melhor Livro de Ficção, na última sexta-feira (12). Escritora consagrada, em 2022, Eliana já havia conquistado o Prêmio Jabuti com a coletânea de contos ‘A Vestida’.
‘Meridiana’ (Companhia das Letras, 2025) acompanha a trajetória de três gerações de uma família negra no processo de ascensão social. A trama centraliza os desdobramentos socioeconômicos e afetivos decorrentes da mudança do grupo de uma comunidade para um condomínio de classe média, expondo tensões estruturais da sociedade brasileira.
“A comissão considerou o livro uma odisseia, ou anti-odisseia, de uma família negra, um romance de grande intensidade emocional, numa trama muito bem urdida, que divide polos ao pôr em trânsito os conflitos advindos de uma mudança da favela para um condomínio de classe média. Trata-se, portanto, de uma história de busca de inserção que expõe um quadro social complexo com suas adversidades cotidianas que levantam novas questões de um repertório já secular, mas que fecha acenando para as boas novas que o futuro terá para contar. Por todos os méritos literários, Meridiana, de Eliana Alves Cruz, é o livro merecedor do Destaque em Ficção da ABL, neste 2026”, diz o comunicado da ABL.
Eliana Alves comemora a mais recente conquista literária. “Muito bonito e muito surpreendente. É uma honra muito grande. A ABL é uma referência nacional, uma referência na cultura do nosso país. Estão lá e estiveram grandes intelectuais brasileiros e brasileiras. Então, é realmente muito importante ter uma obra como Meridiana nesse lugar de premiação”, afirma. “Embora o livro seja relativamente curto, construir seis vozes em primeira pessoa, seis vozes de uma mesma família, dando a cada uma sua particularidade, sua personalidade e sua identidade, foi realmente uma arquitetura bem difícil”, explica a escritora.
Eliana Alves Cruz consolidou-se como uma das vozes mais influentes da literatura contemporânea voltada à memória e à história afro-brasileira, acumulando prêmios de prestígio como o Oliveira Silveira por seu romance de estreia, ‘Água de Barrela’ — que também recebeu Menção Honrosa na Brown University, além de ter sido semifinalista do Prêmio Oceanos com ‘O Crime do Cais do Valongo’. Autora de obras densas que discutem as heranças coloniais e as dinâmicas sociais do país, como ‘Solitária e Nada Digo de Ti, Que em Ti Não Veja’, ela também transita com sucesso pela literatura infantojuvenil em títulos como ‘Gênios da Nossa Gente’ e ‘Milena e o Enigma do Pássaro Antigo’, este último escrito em parceria com Mauricio de Sousa.
Paralelamente à literatura, Eliana também possui uma sólida carreira no audiovisual, onde atuou como roteirista-chefe da série ‘Capoeiras’ (Disney+), colaborou no projeto ‘Narrativas Negras’ (Paramount) e integrou a equipe de roteiro da cinebiografia ‘Anderson Spider Silva’, produção indicada ao International Emmy Awards, além de comandar o programa literário ‘Trilha de Letras’ na TV Brasil.
Por que africanos de vários países torceram contra a África do Sul na Copa 2026? O pesquisador angolano Geovany Cattuco explica a onda de xenofobia por trás do boicote.
O México venceu a partida por 2 a 0, no Estádio Azteca, na Cidade do México, em 11 de junho. Segundo Cattuco, nigerianos, senegaleses, ganeses, moçambicanos, congoleses, camaroneses, zambianos e angolanos estiveram entre os que declararam apoio ao adversário da seleção sul-africana. A razão, diz ele, não tem nada a ver com futebol.
O pesquisador e criador de conteúdo angolano Geovany Fernandes-Cattuco, que acompanha cultura, história e língua do continente africano e tem 222 mil seguidores no Instagram, publicou um vídeo após a estreia da Copa do Mundo 2026 chamando atenção para um fenômeno que passou despercebido na cobertura esportiva brasileira: vídeos circularam nas redes sociais mostrando africanos de diferentes países vestindo as cores do México e declarando abertamente que torciam contra a África do Sul. Cattuco contextualiza o que estava em jogo: “quando existe uma competição internacional, normalmente nós, africanos, apoiamos outros africanos. Já que somos tão poucos, torcemos sempre uns pelos outros.” E completa: “no jogo de ontem, a maioria dos africanos torceu pelo México.”
Foto: reprodução/instagram
Cattuco explica que, para quem não está acompanhando as notícias do continente, a África do Sul vive uma escalada de ataques xenófobos organizados contra cidadãos de outros países africanos. O pesquisador descreve cenas que se tornaram recorrentes: “cidadãos sul-africanos organizados saem pelas ruas pedindo documentos a pessoas estrangeiras. Acontece com pessoas ilegais, mas também acontece com pessoas que vivem legalmente dentro do país. Quem não tiver documento é espancado com socos e pontapés.” Segundo ele, os grupos “vão até hospitais, ficam à porta dos hospitais para não deixar estrangeiros indocumentados receberem atendimento” e “fazem visitas em lojas de estrangeiros e mandam fechar.”
Os relatos correspondem à atuação documentada de dois movimentos organizados: a Operation Dudula e o March and March. A Operation Dudula surgiu em 2020 com o objetivo declarado de expulsar migrantes de outras partes do continente. A Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos registrou que o grupo bloqueou sistematicamente o acesso de migrantes a unidades de saúde públicas em Gauteng e KwaZulu-Natal em 2025. Em novembro do mesmo ano, o Tribunal Superior de Gauteng interditou o movimento, proibindo seus membros de exigir documentos de pessoas em espaços públicos e de praticar discurso de ódio. A violência, no entanto, continuou.
O prazo mais recente e mais concreto é o que Cattuco menciona diretamente: “esse grupo deu um prazo aos estrangeiros ilegais e irregulares: até o dia 30 de junho de 2026, todos eles devem deixar o país. Caso não saiam, eles não se responsabilizam pelo que vai acontecer depois dessa data.” A Human Rights Watch registrou em maio de 2026 que as demonstrações violentas do March and March se intensificaram nas semanas anteriores à essa data, com pouca resposta das autoridades.
O presidente Cyril Ramaphosa discursou em 7 de junho de 2026, anunciando o que chamou de Abordagem Abrangente para a Gestão da Migração, com criação de tribunais de imigração dedicados, dez mil novos inspetores de trabalho e penalidades maiores para empregadores que contratem trabalhadores indocumentados. Pela primeira vez, segundo a transcrição oficial da Presidência sul-africana, Ramaphosa usou a palavra “afrofobia” em um pronunciamento público. Ainda assim, ele não citou a Operation Dudula ou o March and March pelo nome e não fez referência ao prazo de 30 de junho.
Foto: Mike Hutchings/Reuters
A central sindical moçambicana OTM-CS, em nota divulgada em maio, afirmou que “a xenofobia dos sul-africanos é alimentada por narrativas políticas oportunistas, culpando o trabalhador estrangeiro pelas falhas estruturais de emprego”, e classificou a violência como “o assassinato simbólico do espírito pan-africanista.” Pesquisadores da Universidade de Joanesburgo e da Universidade de Cornell, em artigo publicado recentemente, apontam que grupos como a Operation Dudula canalizam a frustração gerada por desigualdade, má governança e estagnação econômica contra os aproximadamente 3 milhões de migrantes presentes no país, que representam cerca de 5% da população sul-africana.
Cattuco situa o episódio atual em perspectiva histórica ao lembrar a Copa de 2010, sediada na África do Sul: “muitos africanos sentiram um pouquinho de orgulho pela competição ser sediada no nosso continente. Vibraram muito com aquele golo do Tshabalala.” Em 2019, após uma onda anterior de ataques xenófobos no país, Zâmbia e Madagascar cancelaram amistosos confirmados contra a seleção sul-africana em boicote explícito. Dezesseis anos após 2010, no mesmo confronto de estreia contra o México, a posição do continente se inverteu.
Cattuco menciona que Marrocos também não conta com a torcida de boa parte dos africanos subsaarianos, mas que essa tensão é mais antiga. A partir de 2023, grupos e páginas com conteúdo racista contra migrantes subsaarianos se multiplicaram nas redes sociais marroquinas, com denominações como “Marroquinos contra o estabelecimento de subsaarianos no Marrocos”, reunindo milhares de membros. O governo marroquino, questionado por jornalistas sobre a proliferação desse conteúdo, declarou que o país é signatário de todas as convenções internacionais de direitos humanos e convocou os marroquinos a se distanciar dessas “vozes minoritárias.”
oto: Divulgação/África do Sul
O contexto regional mais amplo inclui a Tunísia, onde em fevereiro de 2023 o presidente Kaïs Saïed descreveu migrantes subsaarianos como parte de um “plano criminoso” para transformar o país em “uma nação puramente africana.” Segundo o Wilson Center, a repressão que se seguiu às declarações incluiu migrantes barrados do transporte público, demitidos, despejados de suas casas e agredidos. Um relatório da Carnegie Endowment for International Peace publicado em janeiro de 2026 aponta que, no Marrocos, o racismo faz parte da experiência cotidiana de migrantes subsaarianos, com discriminação frequentemente associada à cor da pele, e que mulheres migrantes estão especialmente expostas a violência e exploração sexual.
O vídeo de Cattuco parte de uma observação simples sobre o comportamento de africanos durante um jogo de futebol e chega a uma questão estrutural sobre os limites da solidariedade pan-africana. “Obviamente que não são todos os sul-africanos que se reveem nesse comportamento e também não acontece em todas as cidades do país”, pondera o pesquisador. “Mas tudo isso foi o suficiente para que outros países africanos se revoltassem e passassem a boicotar a África do Sul durante este Mundial.”
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