Home Blog Page 27

UOL e Drauzio Varella debatem dignidade menstrual e raça

0
Menina sentindo dor de cólica
Foto: Imagem gerada por IA

Debate em evento do UOL e Portal Drauzio Varella aponta como raça, gênero e acesso a direitos influenciam a experiência menstrual

Durante o evento Pulso: um diagnóstico da saúde e do bem-estar, promovido nesta terça-feira (17) pelo UOL e pelo Portal Drauzio Varella, especialistas discutiram temas centrais para a saúde da população brasileira. Entre eles, a dignidade menstrual e os impactos que desigualdades sociais e raciais continuam exercendo sobre a vida de meninas e mulheres.

O Mundo Negro acompanhou os debates e teve acesso ao estudo “Ser menina não deveria doer: as dimensões do direito das meninas à dignidade menstrual e o mapeamento legislativo no Congresso Nacional”, divulgado em maio de 2026. O documento chama atenção para um aspecto frequentemente invisibilizado nas discussões sobre menstruação: a dor, o estigma e as desigualdades estruturais que rotulam a experiência menstrual de milhões de brasileiras.

Quando a menstruação deixa de ser apenas uma questão de saúde

Embora a menstruação seja um processo biológico natural, especialistas apontam que ela continua cercada por silêncio, constrangimento e falta de informação.

Historicamente, as políticas públicas voltadas ao tema concentraram-se no combate à pobreza menstrual e na distribuição de absorventes. Embora essas iniciativas sejam fundamentais, o estudo argumenta que elas não são suficientes para responder à complexidade do problema.

A saúde menstrual envolve também acesso à informação, acolhimento, diagnóstico de condições como a endometriose, privacidade, infraestrutura adequada e reconhecimento da dor como uma questão legítima de saúde pública.

Dor menstrual continua sendo subestimada

Os números apresentados pelo estudo revelam a dimensão do problema.

Entre 66% e 73% das adolescentes e jovens mulheres convivem com dores menstruais. Destas, entre 30% e 35% relatam dores moderadas ou intensas.

O levantamento também destaca que entre 62% e 75% das jovens encaminhadas para investigação especializada recebem posteriormente diagnóstico de endometriose. Mesmo assim, o diagnóstico da doença pode levar até 12 anos para ser confirmado.

A demora no reconhecimento dos sintomas pode gerar impactos físicos, emocionais, educacionais e profissionais ao longo da vida.

O recorte racial da dignidade menstrual

As desigualdades relacionadas à menstruação não atingem todas as meninas da mesma forma.

Segundo o estudo, 58,8% das meninas que vivem sem banheiro ou chuveiro em casa são pretas ou pardas. O dado evidencia como raça, gênero e condição socioeconômica se cruzam no acesso a condições básicas para o cuidado menstrual.

A realidade também dialoga com uma questão historicamente presente na sociedade brasileira: a naturalização da resistência da mulher negra à dor.

Pesquisas nacionais e internacionais têm demonstrado que estereótipos raciais podem influenciar a forma como dores e sintomas relatados por pessoas negras são interpretados ou acolhidos por instituições e profissionais de saúde.

Quando esse cenário se encontra com os tabus em torno da menstruação, meninas negras podem enfrentar barreiras adicionais para ter suas necessidades reconhecidas e atendidas.

Um debate sobre dignidade e direitos para milhares de estudantes

Mesmo com avanços recentes no debate público, muitas meninas ainda escondem absorventes ao caminhar pelos corredores escolares, evitam pedir ajuda ou enfrentam dificuldades para acessar banheiros que garantam privacidade e segurança.

O estudo destaca que a menstruação marca um momento importante da vida de meninas e adolescentes, podendo impactar autoestima, participação social e permanência em ambientes educacionais quando não existem condições adequadas de acolhimento.

Ao reunir profissionais da saúde, pesquisadores e comunicadores, o evento Pulso reforçou a importância da informação baseada em evidências para enfrentar desafios históricos da saúde brasileira.

Lucy Ramos e Sheron Menezzes vivem amizade em “Por Você”

0
Lucy Ramos e Sheron Menezzes como Juli e Bela em "Por Você"
Foto: TV Globo/Fábio Rocha

Interpretadas por Lucy Ramos e Sheron Menezzes, Juli e Bela protagonizam uma história sobre amizade, cuidado e escolhas de vida na próxima novela das 21h da TV Globo.

A amizade entre Juli e Bela é o ponto de partida de “Por Você”, próxima novela das 21h da TV Globo com estreia prevista para agosto. Vividas por Lucy Ramos e Sheron Menezzes, as personagens compartilham uma trajetória construída desde a infância na Vila Maravilha, comunidade da Zona Sul do Rio de Janeiro, onde cresceram como vizinhas e transformaram a convivência em um vínculo de irmandade.

Embora tenham seguido caminhos diferentes, as duas permaneceram conectadas ao longo da vida. Bela realizou o sonho de se tornar médica e construiu uma carreira de destaque como ginecologista e obstetra. Já Juli encontrou na maternidade o centro de sua jornada, criando quatro filhos enquanto conciliava trabalho, afeto e responsabilidades cotidianas.

A relação entre as duas durante a trama, destaca as diferenças de percurso das personagens e como elas se entrelaçam. Quando Juli decide se formar como técnica de enfermagem, é Bela quem a incentiva e apoia. Mais tarde, as amigas passam a trabalhar juntas no mesmo hospital, fortalecendo uma parceria construída ao longo de décadas.

Para Lucy Ramos, a personagem representa uma história que retrata o cuidado coletivo e a importância das redes de apoio. A atriz, que retorna às novelas após a maternidade, destaca a conexão que encontrou com Juli desde o primeiro contato com o roteiro.

“A única rede de apoio da Juli é a amiga Bela. Sem pais ou parceiros, elas se completam: uma ajuda, acolhe e apoia a outra em suas dificuldades e dores. É uma amizade muito bonita de acompanhar”, afirma Lucy.

No decorrer da novela, a amizade das duas será colocada à prova após um acontecimento que muda o rumo de suas vidas. O impacto dessa história também impacta na construção e crescimento de Bela, personagem que, segundo Sheron Menezzes, carrega camadas de força, vulnerabilidade e transformação.

“A cada capítulo que eu leio, e a cada camada da Bela que eu desbravo, eu me reconheço um pouco. É uma mulher guerreira, que não mede esforços e encara os desafios com dignidade, sempre em busca dos seus objetivos”, destaca a atriz.

Criada por Dino Cantelli e Juliana Peres, “Por Você” tem direção artística de André Câmara e direção geral de Jeferson De.

Documentário sobre doceiras de Pelotas é lançado no YouTube

0
Mulher negra sorrindo.
Foto: Gabriela Cunha

As vozes e as mãos negras que sustentam a tradição doceira de Pelotas (RS) ganham novo destaque no ambiente digital. A produção do projeto “As Mulheres Por Trás dos Doces” está disponível gratuitamente para o público no YouTube. O lançamento audiovisual coroa a iniciativa das fotógrafas Andressa Santos e Gabriela Cunha, que busca reparar uma lacuna histórica e dar rosto às verdadeiras guardiãs desse patrimônio imaterial.

Embora o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tenha reconhecido as tradições doceiras de Pelotas em 2018, a narrativa oficial frequentemente apaga o protagonismo negro. Se a origem dos doces é portuguesa, a execução e a sobrevivência das receitas no século XIX passaram, obrigatoriamente, pelas mãos de mulheres negras escravizadas nas cozinhas das charqueadas e casarões.

Um caso emblemático é o do Quindim, uma releitura da “Brisa do Lis” portuguesa que só se tornou o pilar da identidade gaúcha após receber o toque ancestral do coco pelas mãos africanas.

O projeto rompe o silêncio entre o centro e a periferia ao registrar o cotidiano e a memória afetiva de seis mulheres fundamentais para essa engrenagem cultural:

  • Claudete Lessa, Sônia Mara Farias e Marli Bandeira: Lideranças do Kilombo Urbano Ocupação Canto de Conexão, onde coordenam a “Cozinha das Mais Velhas” — espaço que une o preparo do alimento ao combate à insegurança alimentar e ao repasse de saberes aos jovens.
  • Lígia Maria Ribeiro: Uma das fundadoras da Cooperativa dos Doceiros de Pelotas na década de 1980 e peça-chave na criação da Fenadoce e da consolidação da Rua do Doce.
  • Cibele e Cíntia Costa: Representantes da continuidade familiar à frente da marca Doces Vô Jordão, fundada nos anos 1960.

O registro vai além da culinária; é um manifesto sobre resistência e memória afetiva, documentando como essas técnicas foram preservadas em cozinhas domésticas e quintais distantes, muitas vezes à margem das certificações oficiais que priorizam o capital em detrimento da tradição oral.

Além do fotolivro — lançado fisicamente no Museu do Doce da UFPel —, o documentário de 30 minutos agora cumpre sua missão de democratização do acesso. Ao disponibilizar a obra na maior plataforma de vídeos do mundo, a produção garante que a história contada a partir da perspectiva de quem preservou a tradição oral e a economia criativa de Pelotas alcance o reconhecimento global que a história oficial tentou ocultar.

O documentário completo pode ser acessado diretamente no YouTube, no canal oficial da produtora fuzzz lab.

Lil Nas X retorna às redes e revela diagnóstico de transtorno bipolar: “Estou me sentindo muito melhor”

0
Foto: reprodução/redes sociais

Após meses em reabilitação e longe dos holofotes, Lil Nas X confirma diagnóstico de transtorno bipolar e anuncia que novos projetos musicais estão a caminho.

Lil Nas X voltou a se comunicar com o público nesta semana com um vídeo em que detalhou, pela primeira vez de forma abrangente, o que viveu nos últimos meses: internação em reabilitação, acompanhamento com terapeuta e psiquiatra, e um diagnóstico de transtorno bipolar que, segundo ele, já suspeitava há anos mas evitava encarar.

O episódio que marcou o início desse período aconteceu em 21 de agosto de 2025, quando a Polícia de Los Angeles foi acionada após relatos de um homem nu caminhando pela Ventura Boulevard, em Studio City, pouco antes das 6h da manhã. Quando os agentes chegaram ao local, o suspeito avançou em direção a eles. Montero Lamar Hill, nome de registro do cantor, foi levado a um hospital por suspeita de overdose e em seguida preso por agressão a policial, respondendo a três contagens de agressão com lesão a policial e uma de resistência à prisão, acusações que somadas poderiam resultar em até cinco anos de prisão. Ele pleiteou inocência em todas elas.

Em abril deste ano, um juiz concedeu ao cantor a possibilidade de cumprir um programa de desvio para saúde mental no lugar da pena. As acusações poderão ser encerradas caso ele conclua o programa e não cometa novos crimes nos próximos dois anos.

No vídeo divulgado esta semana, Lil Nas X falou com franqueza sobre o período que se seguiu ao episódio. “Estive em reabilitação por alguns meses. Desde então fiquei em casa, seja em Atlanta com minha família ou em Los Angeles comigo mesmo, com amigos, tentando me reconectar com a realidade e sair da minha cabeça”, disse ele. A revelação central do vídeo foi o diagnóstico de transtorno bipolar, confirmado publicamente pela primeira vez. “Tenho um terapeuta e um psiquiatra agora, o que tem sido muito útil desde que recebi o diagnóstico de transtorno bipolar. Sinto que sabia disso há alguns anos, mas não queria admitir, porque não queria ter que tomar medicação e não queria que as pessoas me vissem diferente. Já sou negro e gay, caramba, negro, gay e bipolar, é como viver no modo difícil extremo da vida.”

O cantor também fez questão de contextualizar o estado atual. “Estou muito melhor. Me sentindo bem. Criando livremente, com menos medo no coração, cheirando as flores. Faz sete anos que faço música, isso é insano.” E encerrou com um anúncio que deve movimentar sua base de fãs: músicas novas estão a caminho. “Tem música nova chegando. Ainda não vou entrar em detalhes, mas estou animado para fazer isso e para percorrer essa próxima fase com vocês.”

Lil Nas X, que tem 26 anos e nome completo Montero Lamar Hill, estourou em 2019 com “Old Town Road”, faixa que ficou 19 semanas consecutivas no topo da Billboard Hot 100, recorde à época. Desde então construiu uma carreira marcada por provocações estéticas e posicionamentos públicos sobre identidade, sendo um dos artistas mais jovens a assumir abertamente a homossexualidade no mainstream do hip-hop americano. O período de afastamento foi o mais longo e silencioso de sua trajetória pública.

O lendário torcedor do rd Congo que permanece imóvel até o apito final

0
Foto: Chris Milosi/Anadolu via Getty Images

Congolês de 49 anos permanece imóvel 90 minutos nos jogos da RD Congo em homenagem a Patrice Lumumba. Conheça o símbolo da Copa do Mundo 2026.

Michel Kuka Mboladinga, congolês de 49 anos conhecido pelo apelido “Lumumba Vea”, tornou-se o rosto mais reconhecido da torcida da República Democrática do Congo ao adotar um ritual que pratica desde 2013 e que ganhou o mundo durante a Copa Africana de Nações realizada no Marrocos entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026: permanecer completamente imóvel durante os 90 minutos de cada partida dos Leopardos, de pé sobre uma pequena plataforma, com o braço direito erguido em direção ao céu, reproduzindo a postura da estátua de Patrice Lumumba erguida em Kinshasa, capital congolesa.

O gesto tem origem deliberada e carrega peso político preciso. Patrice Lumumba foi o principal líder da independência da República Democrática do Congo, assassinado em 1961, e Mboladinga reproduz a postura da estátua erguida em sua homenagem na capital Kinshasa. O apelido “Lumumba Vea”, atribuído pelos próprios torcedores congoleses, significa “Lumumba vive” na língua local, e sintetiza a intenção declarada do torcedor de manter a memória do líder presente nos estádios. Em entrevista ao Wall Street Journal, Mboladinga afirmou que treina entre 40 e 50 minutos antes de cada partida para suportar o esforço físico de permanecer imóvel durante todo o jogo, e explicou que fica parado porque acredita que isso dá resistência emocional ao time.

Foto:  Arsene Mpiana/AFP/Getty Images

Da Copa Africana à delegação oficial

Durante a Copa Africana de Nações de 2025, disputada no Marrocos, Mboladinga se tornou um fenômeno que extrapolou o futebol e passou a ser discutido como um acontecimento cultural. Sua imagem circulou por jornais europeus, africanos e sul-americanos, e seu nome passou a ser pesquisado por torcedores que nunca tinham acompanhado uma partida da RD Congo. Vestido com ternos nas cores azul, vermelho e amarelo da bandeira congolesa, ele repetiu o ritual em cada partida da fase de grupos, contra Senegal e Botswana, tornando-se presença constante nas transmissões televisivas do torneio.

A trajetória na competição africana encerrou com a eliminação para a Argélia por um gol de Adil Boulbina aos 119 minutos, e a reação de Mboladinga repercutiu tanto quanto sua imobilidade durante os jogos. Com o apelido Lumumba Vea consolidado, o torcedor retirou os óculos, enxugou as lágrimas e caiu de volta à multidão ao redor no momento em que o árbitro encerrou a partida. O jogador argelino Mohamed Amoura correu até a arquibancada congolesa e imitou a pose de Mboladinga antes de cair no chão em comemoração, gesto que gerou críticas generalizadas nas redes sociais. Amoura publicou posteriormente um pedido de desculpas afirmando que não tinha conhecimento do significado e da história por trás do gesto, e declarou que pretendia apenas provocar de forma brincalhona, sem má intenção.

A repercussão da Copa Africana converteu Mboladinga em figura reconhecida pela própria federação nacional. Jogadores e comissionados da RD Congo defenderam sua inclusão na delegação oficial para a Copa do Mundo, e a presidente da federação, Véron Mosengo-Omba, afirmou que os jogadores da seleção o consideram um símbolo nacional de resiliência e orgulho. A decisão de incluí-lo na comitiva foi aprovada com respaldo do próprio presidente da República, Felix Tshisekedi, transformando o que seria uma presença informal nas arquibancadas em participação oficial no maior torneio de futebol do planeta.

O obstáculo burocrático e os próximos jogos

A chegada de Mboladinga aos Estados Unidos esbarrou em um obstáculo que mobilizou autoridades congolesas e gerou cobertura internacional. A ausência do torcedor ganhou particular relevância no Congo, ao ponto de o caso ter mobilizado várias entidades e merecido atenção especial das autoridades do país, mas os atrasos relacionados com a autorização de entrada impediram sua integração imediata à comitiva. O resultado é a ausência nas arquibancadas do NRG Stadium, em Houston, onde a RD Congo enfrenta Portugal nesta quarta-feira (17), às 14h, pelo Grupo K da Copa do Mundo.

Mboladinga deve se juntar à delegação nos próximos dias e acompanhar os dois jogos restantes da fase de grupos: contra a Colômbia, no dia 24, no Estádio Akron, em Guadalajara, e depois contra o Uzbequistão. A RD Congo disputa o Mundial pela primeira vez desde 1974, quando o país ainda se chamava Zaire, e a presença de um torcedor na delegação oficial, com custos cobertos pela federação, é uma raridade no futebol internacional que evidencia o quanto Mboladinga deixou de ser apenas um torcedor para se tornar parte reconhecida da identidade do time.

“Homem de verdade não faz terapia”: O ciclo que Kendrick Lamar decidiu encerrar

0
Foto: divulgação

Em Father Time, Kendrick Lamar expõe a crença que afasta homens negros da terapia e o que essa resistência cobra ao longo de uma vida inteira

A abertura de “Father Time”, terceira faixa de “Mr. Morale & The Big Steppers”, lançado em maio de 2022, é uma cena construída com material real. Whitney Alford, noiva de Kendrick Lamar e mãe de seus dois filhos, gravou a narração do álbum, e foi ela quem emprestou a voz para a mulher que, nos primeiros segundos da música, diz ao companheiro que ele precisa ir à terapia. A resposta de Kendrick está ali como ele a descreveu ao Spotify no mesmo ano, palavra por palavra, como a única resposta que conhecia para aquela pergunta: “Um cara de verdade não precisa de terapia, que porra cê tá falando?”

Os versos da faixa descrevem como a resistência à terapia se constrói antes que a criança entenda que está sendo formada. “Uma criança que cresceu acostumada, levantando rápido quando arranhava meu joelho / Porque se eu chorasse por causa disso, ele diria que era pra eu parar de ser fraco.” O pai que aparece na música aprendeu que dor não interrompe nada, que quando a própria mãe morreu voltou ao trabalho no dia seguinte porque, como disse ao filho: “Essa é a vida, as contas não vão parar de chegar.” Essa frase chegou a Kendrick como instrução, e ele a carregou como quem carrega algo que não sabe que pesa até tentar colocar no chão.

O psicanalista Cleubecyr Brito, que atende predominantemente homens negros e periféricos, descreveu em entrevista ao portal Desenrola e Não Me Enrola em 2024 o que acontece quando esse homem chega ao consultório, quando chega. “Quando nós estamos falando de masculinidade, nós estamos falando dessa ideia de precisar ser forte, viril, potente, desse cara que não sente, e em análise é completamente o oposto. Você vai ser o tempo todo estimulado a interagir com as suas fragilidades.” Brito acrescenta que a maioria dos homens que inicia um processo terapêutico é levada pelas parceiras, exatamente como aconteceu com Kendrick, e que essa resistência começa antes da vida adulta, nos meninos que desde cedo aprendem que pertencimento e força são a mesma coisa.

A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, realizada pelo IBGE, mostrou que homens negros representavam apenas 14,8% dos pacientes em atendimento psicológico no Brasil, o menor percentual entre todos os grupos pesquisados, número que coexiste com uma taxa de homicídios de 37,8 por 100 mil habitantes entre brasileiros negros, contra 13,9 entre não negros, e com o dado de que a cada dez jovens que se suicidam no país, seis são negros, segundo levantamento do Ministério da Saúde em parceria com a Universidade de Brasília. São corpos que adoecem e morrem sem ter tido acesso ao que Kendrick descreve na música como um passo completamente novo numa geração completamente nova.

Kendrick é pai de dois filhos, e “Father Time” carrega esse peso em cada verso, especialmente quando ele rapa: “Minha galera cresceu sem pai, cresceram compensando de outros jeitos / Aprenderam porra nenhuma sobre ser um homem e fantasiaram isso sendo gângsteres”, descrevendo o que acontece quando a formação emocional não acontece dentro de casa e o menino busca referência onde encontra. O verso final da faixa fecha sem culpa e sem solução: “É crucial, eles não podem nos parar se acharmos os erros”, uma frase que aponta para os filhos que ainda estão aprendendo o que é ser homem e para o que será repassado a eles.

Para homens negros que não chegam ao consultório por falta de dinheiro, de tempo ou de um profissional preparado para uma escuta que considere raça e contexto, a arte tem funcionado como uma primeira abertura, e os dados sustentam essa observação. A plataforma Pra Preto Psi, fundada pelas psicólogas Bárbara Borges e Francinai Gomes, surgiu para conectar pacientes negros a terapeutas treinados para o que pesquisadores chamam de clínica racializada, um atendimento que entende o racismo não como pano de fundo, mas como parte constitutiva do adoecimento. Com o crescimento das consultas online, a distância entre se reconhecer numa música numa madrugada e marcar uma sessão no dia seguinte ficou menor do que em qualquer momento anterior.

Numa declaração publicada no Instagram em 2022, Kendrick resumiu o que a música representou na sua própria construção: “O rap ajudou de verdade na expansão do meu eu, para além da percepção de quem eu acreditava ser. Música é ar para um jovem preto naquele ponto da vida.” “Father Time” é onde essa afirmação se torna visível dentro de sua própria obra, numa faixa que existe porque alguém decidiu que nomear em público valia mais do que continuar guardando tudo dentro, e que a música podia ser o lugar onde isso acontecesse.

Evandro Fióti, irmão do rapper Emicida e figura conhecida no cenário cultural negro brasileiro, tomou um caminho parecido ao decidir compartilhar publicamente sua experiência com a terapia e os dilemas racializados que enfrentou ao longo dela. Em entrevista ao Correio Braziliense em 2024, ele disse que homens negros precisam enxergar a própria vulnerabilidade e ser ouvidos, e que falar sobre isso abertamente se tornou, para ele, uma forma de referência para outros homens que acompanham sua trajetória.

O que Fióti descreve e o que Kendrick grava em “Father Time” apontam para o mesmo movimento, o de homens negros que voltam à criança que aprendeu de um jeito e entendem que esse aprendizado não precisa ser a última palavra sobre quem são. Conversar, nomear, procurar um consultório ou uma tela de computador numa sessão online, são gestos que a comunidade negra começa a tratar com menos silêncio e mais seriedade, ainda que em ritmo lento diante do tamanho do problema. Os dados do IBGE de 2019 mostram que homens negros seguem sendo o grupo que menos acessa atendimento psicológico no Brasil, mas iniciativas como a plataforma Pra Preto Psi e a clínica racializada indicam que a estrutura para receber quem decide chegar está sendo construída. O que falta, muitas vezes, é a primeira decisão de ir.

Michelle Obama homenageia a mãe com saia estampada na abertura do Obama Presidential Center

0
Foto: PABLO MARTINEZ MONSIVAIS / Getty Images

Peça exclusiva, criada pela Acne Studios em parceria com a stylist Meredith Koop, estampou a imagem de Marian Robinson no evento para apoiadores e parceiros do centro, realizado em Chicago na terça-feira (16)

Peça exclusiva, criada pela Acne Studios em parceria com a stylist Meredith Koop, estampou a imagem de Marian Robinson no evento para apoiadores e parceiros do centro, realizado em Chicago na terça-feira (16)

Michelle Obama subiu ao palco do Obama Presidential Center em Chicago na terça-feira (17) com uma saia lápis em tom sépia, personalizada pela Acne Studios, estampada com o retrato de sua mãe, Marian Robinson, falecida em 2024, aos 86 anos. A aparição aconteceu durante uma recepção para apoiadores e parceiros do centro, equipamento cultural de 850 milhões de dólares construído no South Side, bairro onde Marian criou os filhos, na véspera da cerimônia oficial de abertura, marcada para esta quinta-feira (19) de junho, data de Juneteenth.

A saia foi encomendada com a participação da estilista Meredith Koop, parceira de longa data de Michelle, e traz uma das fotos favoritas da ex-primeira-dama de sua mãe. O design se baseou em um look da coleção outono-inverno 2026 da Acne Studios, apresentado em Paris, que trazia uma saia similar com a imagem de um jovem fotografado pelo artista holandês Paul Kooiker. A composição seguiu de perto a referência da passarela: saia combinada com um fino cinto, camiseta em marrom chocolate e scarpin com tira.

Barack Obama, visivelmente emocionado ao ver a homenagem, disse que amava muito a sogra. “Ela construiu um lar para Michelle e Craig, não com muito, mas com muito amor, esperança e perspectiva. Para mim, eles representam o melhor deste país”, afirmou o ex-presidente.

A matriarca do South Side

Marian Robinson cresceu no South Side de Chicago em meio a uma cidade ainda marcada pela segregação racial, filha de Purnell Shields e Rebecca Jumper. Ela estudou para ser professora antes de se casar com Fraser Robinson, com quem criou Michelle e Craig. A escolha do local onde o centro foi construído carrega dimensão pessoal direta: é o mesmo bairro onde Marian criou os filhos e onde Michelle passou a infância.

Quando Barack Obama foi eleito o primeiro presidente negro dos Estados Unidos em 2008, Marian segurou sua mão na noite da eleição. Ao longo dos oito anos de mandato, ela se mudou para a Casa Branca para ajudar a cuidar das netas, Malia e Sasha.

A exposição permanente “Opening the White House” receberá o nome de Marian Robinson, reunindo maquetes de ambientes da Casa Branca como o East Room, o State Dining Room e o South Lawn, além de registros das apresentações artísticas, esportivas e culturais realizadas durante a presidência Obama.

No domingo, Michelle conversou com 100 jovens mulheres no centro ao lado do irmão Craig Robinson e da criadora de “Abbott Elementary”, Quinta Brunson. Na ocasião, ela disse: “Vivi uma vida incrível, mas a verdade é que quem importa para mim, quem me formou, é Marian Robinson, do South Side de Chicago.”

Samuel Gomes receberá Prêmio Baobá em Angola e produz documentário sobre identidade negra 

0
Samuel Gomes
Foto: @josedeholanda_

Reconhecido pelo projeto Guardei no Armário, comunicador será homenageado na primeira edição internacional do Prêmio Baobá e aproveitará a viagem para registrar cenas de um documentário sobre identidade, ancestralidade e apagamentos históricos. 

O comunicador, escritor e criador de conteúdo Samuel Gomes será homenageado em Angola durante a 10ª edição do Prêmio Baobá, reconhecimento voltado a iniciativas ligadas à oralidade, literatura e storytelling. A premiação acontece entre os dias 7 e 14 de julho e marca a primeira edição internacional do evento, realizada no continente africano.

Criado em 2016 pela contadora de histórias Antonia Andréa Sousa, o Prêmio Baobá se consolidou como uma das principais iniciativas voltadas à valorização da narrativa oral, da leitura e da memória cultural. Ao realizar sua edição comemorativa de dez anos em Angola, a premiação reforça conexões históricas e culturais entre diferentes territórios da diáspora africana.

Conhecido pelo trabalho à frente do projeto Guardei no Armário, Samuel receberá o prêmio por sua trajetória como storyteller e pela contribuição da iniciativa na preservação e circulação de narrativas LGBTQIA+.

A viagem também marcará um novo capítulo de sua pesquisa sobre memória e ancestralidade. Durante a passagem por Angola, o comunicador irá gravar cenas do documentário “Isidro – Quem Roubou Minha Identidade?”, dirigido por Emanuel Araquan.

A obra investiga a trajetória de Isidro Gomes, bisavô de Samuel, cuja história foi preservada principalmente por meio da oralidade familiar. A partir dessa busca, o documentário propõe reflexões sobre identidade negra, ancestralidade, espiritualidade afro-brasileira e o direito à memória.

Parte das gravações acontecerá em locais historicamente relacionados à diáspora africana e aos processos de escravização que conectam Brasil e Angola. A proposta é aproximar experiências familiares de debates mais amplos sobre apagamentos históricos e reconstrução de narrativas negras.

Com direção de Emanuel Araquan, profissional que acumula trabalhos para plataformas e produtoras nacionais e internacionais, “Isidro – Quem Roubou Minha Identidade?” aposta em uma linguagem que explora temas como investigação, memória familiar e experiência sensorial.

Ao comentar a importância da viagem, Samuel destacou o significado simbólico da experiência para sua trajetória pessoal e para a construção do documentário.

“Vou a Angola por conta do Guardei no Armário, para receber um reconhecimento como storyteller. Mas estar nesse território também representa um reencontro com uma memória que foi interrompida”, afirmou.

Gui Ventura protagoniza primeira biografia musical de Gilberto Gil

0
Gui Ventura ao lado de Gilberto Gil durante encontro no Rio de Janeiro
Foto: Gabriel Wickbold/ Divulgação

Ator e cantor mineiro interpretará Gilberto Gil em “Gil — Andar com Fé” e revelou ter chorado ao encontrar o artista pela primeira vez.

Escolhido entre mais de 800 candidatos para interpretar Gilberto Gil no primeiro musical dedicado à vida e a obra de Gilberto Gil, o ator e cantor Gui Ventura afirmou que não conseguiu conter a emoção ao encontrar o músico que irá representar nos palcos.

As declarações foram dadas à Folha de S.Paulo após um encontro entre os dois, realizado no Teatro Fernanda Montenegro, no Rio de Janeiro. A reunião marcou uma espécie de apresentação oficial do artista escolhido para protagonizar a primeira biografia musical dedicada à vida e à obra de Gilberto Gil.

Natural de Santa Luzia, em Minas Gerais, Ventura foi apresentado ao cantor pelo diretor Miguel Falabella e descreveu o momento como um dos mais marcantes de sua trajetória.

“Eu estava encontrando uma entidade, um Deus, Deus da música. A sensação era essa. Quando vi Gil entrando pela porta do teatro, desabei a chorar”, afirmou o ator à Folha.

Segundo Ventura, a emoção superou qualquer tentativa de preparação para o encontro. Durante a conversa, ele preferiu ouvir o artista e compreender melhor momentos marcantes de sua trajetória, sua relação com a música e a forma como enxerga a própria história.

O ator também apresentou a Gil uma composição autoral intitulada “Orixá da Palavra” e cantou ao lado do músico a canção “A Paz”.

A responsabilidade de interpretar um dos maiores nomes da música brasileira tem guiado a preparação de Ventura para o espetáculo. Para construir o personagem, ele vem pesquisando entrevistas, documentários e registros de diferentes períodos da carreira de Gilberto Gil.

Entre os desafios do processo estão a reprodução do sotaque baiano, a musicalidade característica do cantor e o aprendizado da sanfona, primeiro instrumento tocado por Gil.

Com texto de Newton Moreno e direção de Miguel Falabella, o musical estreia em 20 de agosto no Teatro Santander, em São Paulo. O espetáculo percorrerá diferentes momentos da trajetória do artista, reunindo canções que marcaram sua carreira e sua contribuição para a cultura brasileira.

Cáren Cruz lança livro sobre imagem, raça e padrões de elegância

0
Cáren Cruz lança livro sobre imagem, raça e padrões de elegância
Foto: Divulgação

Na obra, a consultora de imagem identitária Cáren Cruz propõe uma reflexão sobre os códigos sociais que definem o que é considerado elegante, sofisticado ou adequado, especialmente para pessoas negras e outros grupos racializados. 

A pergunta, que dá nome ao novo livro da consultora de imagem identitária Cáren Cruz, também orienta uma reflexão sobre raça, poder e os significados atribuídos à aparência na sociedade brasileira. Em “Quem Decide o Que é Elegante? Imagem, raça e poder na construção da aparência”, a autora investiga os mecanismos que historicamente moldaram percepções sobre sofisticação, adequação e legitimidade estética.

CEO da Pittaco Consultoria e participante da 9ª temporada do Shark Tank Brasil, Cáren parte da compreensão de que a imagem não se trata somente da escolha de roupas ou acessórios. Para ela, a aparência é pautada por códigos sociais, culturais e raciais que influenciam a forma como indivíduos são percebidos e interpretados.

O olhar social e a construção da aparência

O debate ganha relevância em um contexto em que, segundo levantamento da The Panel Station, 76% dos consumidores globais consideram suas roupas muito importantes para expressar sua identidade. Ao mesmo tempo, a crescente valorização de tendências como quiet luxury e minimalismo corporativo reacende discussões sobre quais referências são reconhecidas como elegantes e quem estabelece esses critérios.

Na obra, Cáren argumenta que a consultoria identitária não começa no guarda-roupa, mas na leitura social. Isso significa compreender que a imagem é construída na relação entre a identidade de uma pessoa e os significados atribuídos a ela pelo ambiente em que está inserida.

“O corpo funciona como contexto. E o olhar social atua como ponto de partida. A identidade se forma justamente nesse espaço de tensão entre aquilo que uma pessoa é e aquilo que o ambiente insiste em interpretar sobre ela”, afirma a autora.

Quem define os padrões da elegância?

Ao longo do livro, a especialista propõe uma série de questionamentos acerca dos indivíduos que interpretam a imagem e os seus respectivos repertórios culturais, e aborda a diversidade fenotípica brasileira, chamando atenção para os limites de padrões estéticos tratados como universais.

Segundo ela, diferentes características físicas e tonalidades de pele interagem de formas distintas com elementos visuais, tornando insuficientes modelos únicos de análise da aparência.

Sob essa perspectiva, Cáren argumenta que conceitos como elegância e sofisticação não são neutros. Muitas vezes, refletem repertórios culturais dominantes que acabam sendo apresentados como critérios universais de avaliação estética.

“A consultoria identitária não busca produzir imagens perfeitas ou universalmente aprovadas. O objetivo é construir presenças visuais coerentes, conscientes e contextualizadas. Presenças que reconheçam tanto a individualidade quanto o campo social em que essa individualidade se manifesta”, conclui.

error: Content is protected !!