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Do prato ao plano: Afroempreendedorismo gastronômico entre identidade e gestão

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Lourence Alves (Foto: Divulgação)

Por: Lourence Alves

O empreendedorismo, olhado em uma afro perspectiva, e compreendido para além da lógica puramente mercadológica, revela-se como uma prática de afirmação identitária e continuidade histórica. Em contextos como o da formação Feira Preta Cria, essa perspectiva emerge de forma viva, colocando em evidência como negócios liderados por pessoas negras não são apenas unidades produtivas, mas também espaços de criação, preservação e reinvenção de saberes ancestrais.

Ao dialogar com a cozinha afro-brasileira, carrega em si o compromisso de navegar entre memórias e inovações, de maneira similar ao que ocorre no preparo de um prato que, ao mesmo tempo, resgata tradições e incorpora novas possibilidades.

Assim, cada empreendimento se torna também um ato político, que reverte o ciclo histórico de marginalização e se ancora em valores coletivos, culturais e comunitários.

As tecnologias negras, nesse contexto, não se limitam ao campo das inovações contemporâneas, mas englobam sistemas de conhecimento e prática desenvolvidos e refinados ao longo de séculos. Trata-se de um repertório que envolve desde métodos de cultivo e manejo agroecológico, até técnicas culinárias de aproveitamento integral e preservação dos alimentos, articulando sustentabilidade e sabor.

Esse caminho de empreender, lança mão de tecnologias que se atualizam em soluções criativas e unem tradição e inovação, permitindo que o negócio se torne um veículo de transmissão de saberes. Ao reconhecer que cada panela, cada receita e cada utensílio carregam marcas dessa engenharia social e cultural, compreende-se que o empreendedor negro opera, muitas vezes, como um guardião e propagador dessas tecnologias.

As estratégias negro-femininas são um eixo estruturante dessa trama, pois é majoritariamente através das mulheres negras que esses saberes e negócios se mantêm vivos. Nas feiras, mercados e cozinhas, elas tecem redes de apoio, constroem alianças e praticam a arte do mercar como uma forma de resistência econômica e cultural.

Essas estratégias combinam cuidado, perspicácia e visão de futuro, reinventando-se constantemente para driblar as desigualdades estruturais. Ao trazer para o afroempreendedorismo essa força organizadora e criativa, o trabalho das mulheres negras reafirma que não há dissociação entre gerar renda e manter vínculos comunitários, entre gerir um negócio e alimentar um território — no sentido literal e simbólico.

Gerir um negócio gastronômico dentro da lógica do afroempreendedorismo exige compreender que a dimensão cultural não exclui a necessidade de um planejamento sólido.

Uma das ferramentas mais eficazes para estruturar essa visão é o Business Model Canvas, que permite visualizar, de forma integrada, todos os elementos-chave do empreendimento: proposta de valor, segmentos de clientes, canais de distribuição, fontes de receita, recursos e parcerias essenciais, estrutura de custos e atividades principais.

Ao elaborar o Canvas, o empreendedor ou empreendedora negra consegue alinhar a identidade e os valores do negócio com estratégias objetivas de atuação, evitando decisões fragmentadas e facilitando o acesso a parceiros e investidores.

No campo da gestão financeira, a sustentabilidade do negócio depende de um controle rigoroso de receitas e despesas, de preferência utilizando ferramentas simples e acessíveis. Planilhas eletrônicas, aplicativos de fluxo de caixa e sistemas de controle de vendas podem ser aliados poderosos, muitos deles disponíveis gratuitamente.

Esse cuidado financeiro também se conecta ao princípio da autonomia: saber exatamente o custo de cada prato e a margem de lucro praticada é fundamental para não comprometer a viabilidade do empreendimento. É nessa prática que a economia afetiva encontra a economia de mercado, garantindo que o valor simbólico do trabalho seja acompanhado de um retorno financeiro justo.

A tão temida ficha técnica é outro instrumento essencial na gestão de um negócio de alimentação, pois permite padronizar receitas, controlar porções e calcular com precisão o custo de cada preparo. Além de garantir consistência e qualidade para o cliente, a ficha técnica possibilita um acompanhamento realista do impacto de variações de preço dos insumos e orienta tomadas de decisão sobre ajustes de cardápio.

Um caminho de desmistificação dessa ferramenta pode ser o de pensar nela, também, como documento de preservação cultural, registrando não apenas medidas e processos, mas também histórias, origens e significados de cada prato.

Navegar pela cozinha afro-brasileira é uma viagem que transcende o paladar e nos leva a um território de memórias, ancestralidade e resistência. Aproveitar essa travessia nos desafia a perceber como o preparo dos alimentos não é apenas uma expressão de técnicas, mas também uma forma de celebrar vidas, histórias e culturas que foram construídas a partir de cruzamentos complexos entre territórios e pessoas.

Lourence Alves (Foto: Divulgação)

O manejo estratégico das mídias sociais é hoje um pilar indispensável para qualquer negócio gastronômico, e no afroempreendedorismo ele assume ainda a função de ampliar vozes e narrativas historicamente silenciadas. Plataformas e mídias digitais oferecem recursos gratuitos para divulgação, interação e vendas, permitindo que micro e pequenos empreendedores alcancem públicos para além de seus territórios imediatos.

O conteúdo precisa ir além da promoção de produtos, contando histórias, mostrando bastidores, compartilhando saberes e evidenciando o diferencial cultural e afetivo que sustenta o negócio.

Um caminho de encantamento é o de olhar para as cozinhas brasileiras a partir dos ingredientes. É uma trilha que nos ajuda a descolonizar as referências gastronômicas hegemônicas, desfazendo mitos como o da feijoada sendo apenas um prato de restos.

Para isso, reconhecer as técnicas usadas, como o uso integral dos alimentos, que manifestam uma relação de respeito e saber profundo com a natureza, evidenciado no preparo cuidadoso dos feijões e suas variações, é fundamental.

Refletir sobre nossa alimentação e suas origens abre espaço para um entendimento mais profundo do que significa cozinhar em solo brasileiro com uma perspectiva afro-diaspórica. Ressignificar o quiabo, por exemplo, envolve valorizar seu espessamento natural, caracterizando-o como um ícone de inovação e não uma característica indesejável (baba), desvendando assim um mundo de sabores que foram amordaçados pela narrativa dominante.

Ao explorarmos a complexidade da cozinha afro-brasileira, é igualmente essencial reconhecer o papel das mulheres negras que, ao longo dos séculos, foram as protagonistas silenciosas que mantiveram vivas essas tradições. Seja nos tabuleiros ou nas feiras, suas habilidades mercantis e a arte do mercar são formas de resistência econômica e social.

A sabedoria que emanava dos quintais, aquela habilidade de cultivar e utilizar as plantas alimentícias, nos ensina que, muito antes de modismos e convenções, já existiam práticas voltadas para a sustentabilidade e o respeito ao ciclo natural das plantas. Esse é um legado de adaptação e sobrevivência que deve ser celebrado e protegido.

Portanto, o convite que esse conhecimento nos traz é ir além do prato. É um chamado para reviver memórias e reimaginar futuros através de uma conexão profunda com quem somos e de onde viemos.

Assim, fazemos da cozinha um espaço não apenas de nutrição, mas de identidade, lembrança e criação de novas narrativas que ressoam e respeitam nossas histórias coletivas e individuais. Essa jornada é, e sempre foi, sobre liberdade e identidade, consolidadas em cada refeição que partilhamos.

Ao integrar essas ferramentas — Canvas, gestão financeira, ficha técnica e mídias sociais — empreender é também construir uma base sólida que sustenta tanto a perenidade econômica quanto a coerência identitária do negócio.

Essa articulação entre técnica e cultura é o que permite que a cozinha afro-brasileira, com sua profundidade histórica e riqueza de significados, se estabeleça como força no mercado sem abrir mão de seus valores.

O resultado é um empreendimento que não apenas gera renda, mas também produz pertencimento, circulação de saberes e fortalecimento comunitário, alinhando gestão eficiente com a missão de transformar a realidade a partir da comida.

Portanto, pensar o afroempreendedorismo a partir da cozinha afro-brasileira e das experiências formativas como a Feira Preta Cria é reconhecer que se trata de uma prática de liberdade. É navegar por um oceano onde memória, identidade e inovação se encontram, criando novas rotas para a economia e para a cultura.

Cada prato preparado, cada produto vendido e cada história contada se tornam parte de uma narrativa maior, que afirma a potência das comunidades negras em construir futuros sustentáveis e autônomos.

Essa é uma travessia que nos convida a ir além do prato: a ver a cozinha, o mercado e o empreendimento como territórios de disputa e criação, onde se plantam sementes de dignidade e se colhem frutos de transformação social.


Texto: Lourence Alves [@lourencealves]. Professora na Universidade Federal da Bahia, pesquisadora, cozinheira e escritora. Filha de Iemanjá e mãe de Carolina Maria, navega entre panelas, livros e memórias, unindo a cozinha e a palavra como territórios de afeto e resistência. Doutora em Alimentação, Nutrição e Saúde, dedica-se a estudar e ensinar a gastronomia em diálogo com culturas afrocentradas, religiosidades e saberes que desafiam o colonial.

Esse conteúdo é fruto de uma parceria entre Mundo Negro e Feira Preta.

Casa Crioula: Stephanie Ribeiro conecta tradição, saberes locais e ancestralidade em projeto na CASACOR Ceará 2025

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Foto: CASACOR

Na CASACOR Ceará 2025, a arquiteta e pesquisadora Stephanie Ribeiro apresenta a Casa Crioula, um projeto que propõe olhar para a arquitetura como um campo fértil de memória, cuidado e continuidade. Inspirada nas casas de sementes crioulas, espaços comunitários que preservam espécies tradicionais e fortalecem a agricultura familiar, a criação parte da ideia de que semear é também um gesto político e afetivo.

“A Casa Crioula nasce do desejo de celebrar a semente como origem de tudo, da vida, do saber e do sonho. Ela nos lembra que semear é também um gesto de cuidado, de continuidade e de resistência”, explica Stephanie.

O espaço, de traçado oval e estética marcada pelas curvas, traduz em arquitetura a organicidade das sementes e o movimento contínuo da vida. A estrutura é composta por tijolos sustentáveis que, ao se repetirem, criam uma paisagem viva — reforçando a lógica ancestral da multiplicação e da coletividade.

A proposta é também sensorial: cores intensas e tons terrosos homenageiam as sementes crioulas, guardiãs da biodiversidade e da memória cultural. Um mural assinado pela artista cearense Marta Brizeno representa o ato de semear como continuidade e esperança, enquanto o ambiente reúne peças de artistas e designers locais como Wilson Neto, Estúdio Sabá e Bekka Studio, em diálogo entre território, arte e ancestralidade.

Mais do que um projeto expositivo, Casa Crioula propõe uma reflexão sobre pertencimento e futuro. “Acredito que a arquitetura pode se inspirar na agricultura familiar, porque ela também é um bem cultural”, afirma a arquiteta.

‘Pretas Pardas Potentes’, de Alcione Balbino, amplia a presença de mulheres negras no mercado corporativo

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Foto: divulgação

O mercado corporativo brasileiro historicamente marginaliza mulheres negras. Estruturas organizacionais, racismo institucional e desigualdade de gênero criam barreiras que limitam oportunidades e invisibilizam trajetórias. Alcione Balbino é uma dessas mulheres que transformou essas limitações em ação concreta e impacto coletivo.

Formada e com carreira consolidada em empresas de grande porte, Alcione conheceu de perto a falta de representatividade e a pressão por resultados em ambientes que não a reconheciam. Experiências de burnout e mudanças pessoais significativas impulsionaram sua reinvenção profissional. Foi então que ela fundou a Preta Pardas Potentes (PPp), organização voltada a ampliar a presença de mulheres negras em cargos de liderança e promover diversidade racial em empresas brasileiras.

O trabalho da PPp vai além de capacitação: cria uma rede de apoio, visibilidade e potência para mulheres historicamente silenciadas. Alcione também atua com o Power Woman Mentory, programa que já impactou centenas de mulheres e levou suas palestras a empresas como Roche, Ford e Heineken, combinando experiência, conhecimento técnico e estratégia de inclusão.

Para Alcione, cada conquista individual reverbera coletivamente. Sua trajetória evidencia que o empreendedorismo negro feminino não é apenas sobre abrir negócios: é sobre transformar estruturas, gerar representatividade e construir legados.

Pinacoteca de São Paulo promove visita com curadoria para exposição com representatividade da mulher negra

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Adenor Gondim. Detalhe de “Filha de Iemanjá, Filha de Nossa Senhora”, 2001

A Pinacoteca de São Paulo realiza neste sábado (25), às 11h, a visita com uma curadoria intitulada “Representação e representatividade da mulher negra no acervo”, uma imersão nas múltiplas formas como a figura da mulher negra tem sido retratada nas artes visuais ao longo do tempo.

A atividade gratuita faz parte da exposição “Pinacoteca: Acervo” e terá mediação de Lorraine Mendes, curadora da museu. Entre as obras que integram o percurso estão “Filha de Iemanjá, Filha de Nossa Senhora” (2001), de Adenor Gondim; “Baiana” (autoria não identificada); “Djamila Ribeiro” (2021), da série Vigílias, de Panmela Castro; e “Interior com a baiana” (1956), de Tereza D’Amico.

O percurso convida o público a refletir sobre os regimes de visibilidade, as projeções de si e do outro, e o papel da arte como instrumento de afirmação identitária e denúncia das desigualdades. Além de propor um olhar crítico, demonstrando tensões raciais e contextos sociais.

A visita não requer inscrição e tem duração aproximada de 40 minutos. A atividade acontece no Edifício Pina Luz.

‘Arcanjo Renegado’: trailer eletrizante revela novos perigos na quarta temporada

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Foto: Divulgação/Globoplay

O Globoplay divulgou nesta semana o trailer eletrizante da quarta temporada de ‘Arcanjo Renegado’, que estreia na plataforma no dia 6 de novembro. A prévia apresenta Marcello Novaes como Lincoln, novo inimigo de Mikael (Marcello Melo Jr.), e mostra que a série vai explorar cenas de ação e uma trama que cruza fronteiras entre Brasil, Paraguai e Bolívia.

No trailer, Mikael descobre uma rota internacional de tráfico de drogas e enfrenta uma escalada de violência no Rio de Janeiro, cenário que também impacta a pré-campanha para o Governo do Estado. A chegada de Lincoln promete complicar ainda mais a vida do protagonista.

Além de Novaes, a nova temporada conta com reforços no elenco como Larissa Nunes, Carol Nakamura, Gracyanne Barbosa, Thiago Hypolito, Renan Monteiro, entre outros. Eles se juntam a personagens já conhecidos pelo público, incluindo Sarah (Erika Januza), Maíra (Cris Vianna), Ronaldo (Álamo Facó) e Manuela (Rita Guedes).

A quarta temporada promete ampliar o universo da série, trazendo mais suspense, ação e confrontos que vão manter o público preso à tela.

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Misty Copeland se despede dos palcos após 25 anos de carreira e deixa legado de representatividade no balé

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Foto: Rosalie O’Connor/AP

A lendária Misty Copeland, primeira mulher negra a se tornar dançarina principal do American Ballet Theatre (ABT), fez sua última apresentação com a companhia na quarta-feira (22), encerrando uma trajetória de 25 anos marcada por talento, resistência e transformação no mundo da dança.

A apresentação marcou não apenas sua despedida do ABT, mas também seu retorno aos palcos após um hiato de cinco anos. Misty emocionou o público ao dançar um pas de deux de “Romeu e Julieta” ao lado do parceiro Calvin Royal III, além de coreografias inspiradas em clássicos de Frank Sinatra, como “That’s Life” e “My Way”.

Em junho, Copeland já havia anunciado sua aposentadoria do ABT. Há 10 anos, a bailarina se tornar a primeira dançarina negra da companhia, com 75 anos de história. Desde então, ela tem usado sua visibilidade para ampliar o diálogo sobre diversidade no balé.

“Toda a minha carreira é a prova de que, quando temos diversidade, as pessoas se unem e querem entender umas às outras, querem ser uma comunidade”, afirmou ao The New York Times.

O evento, transmitido simultaneamente para o público do Alice Tully Hall, contou com a presença de celebridades como Oprah Winfrey, Debbie Allen, Phylicia Rashad e Jim Parsons. Durante os aplausos finais, Misty foi homenageada com flores e recebeu no palco o carinho do marido e do filho, em uma despedida marcada pela emoção e pelo reconhecimento de sua trajetória transformadora.

‘Quarto de Despejo’: longa inspirado na obra de Carolina Maria de Jesus inicia gravações em novembro

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Fotos: Mariana Vianna e Correio da Manhã/Arquivo Nacional

As gravações do longa ‘Carolina – Quarto de Despejo’, título provisório da adaptação cinematográfica da clássica obra de Carolina Maria de Jesus, começam no dia 1º de novembro sob a direção de Jeferson De. O filme, que promete celebrar a força e o legado da escritora, terá Maria Gal no papel de Carolina, além de Raphael Logam, Clayton Nascimento, Alan Rocha, Thawan Lucas, Liza Del Dala, Carla Cristina, Ju Colombo, Fabio Assunção e outros talentos.

Nesta semana, elenco e equipe se reuniram para a leitura do roteiro, marcando o início dos preparativos para as filmagens. O roteiro é assinado por Maíra Oliveira e a produção é da Move Maria, Raccord Produções e Buda Filmes, com coprodução da Globo Filmes.

Leitura de roteiro com o elenco (Foto: Mariana Vianna)

Maria Gal, que também atua como produtora, dará vida à mulher negra e favelada que transformou sua vivência como catadora de lixo na favela do Canindé em literatura universal. Com apenas dois anos de educação formal, Carolina Maria de Jesus escreveu o livro ‘Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada’, publicado em 1960, no qual narra com autenticidade e força poética o cotidiano da favela do Canindé, em São Paulo. A obra vendeu mais de um milhão de exemplares, foi traduzida para 14 idiomas e tornou Carolina a primeira escritora negra brasileira a alcançar reconhecimento internacional.

O longa vai recriar a São Paulo dos anos 1950 nos estúdios Quanta Rio, que se transformará em uma grande Favela do Canindé. Além de retratar as dificuldades enfrentadas por Carolina e seus filhos, o filme busca evidenciar sua genialidade, coragem e paixão pela escrita, elementos que fizeram de sua obra um símbolo de resistência e representatividade negra na literatura brasileira.

Elísio Lopes Jr. sobre a criação da série de terror ‘Reencarne’: “Colocamos nossa imaginação pós-vida”

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Elísio Lopes Jr. (Foto: Caio Lirio)

A série de terror ‘Reencarne’, protagonizada por Taís Araujo, estreou hoje, 23 de outubro, no Globoplay e está com o primeiro episódio disponível para não assinantes. A produção escrita durante a pandemia propõe um olhar sobre a vida, a morte e a reencarnação. “Colocamos todas as nossas dúvidas, questionamentos, imaginação pós-vida”, revela Elisio Lopes Jr., em entrevista ao Mundo Negro, co-criador e co-escritor ao lado de Juan Jullian, Amanda Jordão, Igor Verde e Flávia Lacerda.

O elenco de ‘Reencarne’ também conta com outros nomes de peso como Grace Passô, Aretha Sadick, Pedro Caetano, o guineense Welket Bungué e a portuguesa Isabél Zuaa. Ao longo de nove episódios, a série que se passa no cerrado brasileiro, inicia quando um ex-policial civil, depois de passar 18 anos preso acusado de matar seu parceiro na corporação, é solto e decide tirar a própria vida. Antes que a tragédia aconteça, ele recebe a visita de uma moça que afirma ser a reencarnação de seu parceiro. Ela diz que os dois têm uma última missão: descobrir quem o assassinou em sua outra vida.

Para Elísio Lopes Jr., o processo de criação foi intenso e marcado pelas incertezas da pandemia. “Foi muito louco escrever sem saber se essa série iria mesmo ser feita, se estaríamos vivos, se alguém leria aqueles roteiros. Acho que o público pode esperar uma série que instiga, que vai além do terror, mas que não abandona o melodrama, tudo isso com protagonismo preto”, compartilha o autor.

Delegada Bárbara Lopes (Taís Araujo) em Reencarne (Foto: Estevam Avellar/Globo)

Além de ‘Reencarne’, o criador também está envolvido em outras grandes produções, como a próxima novela das seis da TV Globo, ‘A Nobreza do Amor’, a peça ‘Torto Arado – O Musical’ e o longa ‘Quando Casa Maria Helena?’. Para ele, essa multiplicidade reflete amadurecimento e propósito. “Eu sou um contador de histórias. Entender isso libertou meu olhar para todos os palcos. A tela também é um palco”, explica.

Leia a entrevista completa abaixo:

  1. MN: ‘Reencarne’ é uma das séries brasileiras mais aguardadas do ano, um suspense que explora os dilemas entre a vida e a morte. Como foi, para você, a experiência de colaborar na escrita dessa história e o que o público pode esperar dessa trama?

R: Nós, autores de ‘Reencarne’, temos uma forma linear de criar. Nos encontramos, todos dão ideias, dividimos as cenas pelos desejos de cada um, depois juntamos, lemos e ajustamos cada capítulo. Esse modelo transforma a criação num processo ativo todo o tempo. Essa série foi escrita durante a pandemia, a vida e a morte estavam em pauta, e a gente pensando em reencarnação. Foi muito louco escrever sem saber se essa série iria mesmo ser feita, se estaríamos vivos, se alguém leria aqueles roteiros. Colocamos todas as nossas dúvidas, questionamentos, imaginação pós-vida. Acho que o público pode esperar uma série que instiga, que vai além do terror, mas que não abandona o melodrama, tudo isso com protagonismo preto. 

Ex-policial Túlio (Welket Bungué) em Reencarne (Foto: Ariela Bueno)
  1. MN: Você está à frente de quatro grandes produções neste momento — ‘A Nobreza do Amor’, ‘Reencarne’, ‘Torto Arado – O Musical e ‘Quando Casa Maria Helena?’. O que esse momento múltiplo diz sobre o seu amadurecimento como criador?

Eu sou um contador de histórias. Entender isso libertou meu olhar para todos os palcos. A tela também é um palco, e o desafio foi aprender a criar para cada espaço. No meu aprendizado, o segredo foi entender quem está do outro lado. Me comunicar sempre foi uma prioridade na arte. O público de teatro te escolhe, no público de TV aberta você esbarra nele sem querer, a tv está ligada e de repente começa a novela, a gente entra na casa das pessoas sem pedir, o cinema te conquista pelas paixões, e cada formato tem as suas divindades.

O teatro é a minha origem. O desafio de adaptar e dirigir o musical ‘Torto Arado’ me inquietou. Como levar ao palco um livro consagrado, que fala de tantos assuntos dolorosos e duros? Mas a fé do povo negro e do povo indígena é uma fé que dança e canta. Cultuamos através do movimento e da música, então essa era a chave para esse espetáculo. Desde que estreamos em Salvador, depois nas temporadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, o público está lotando as plateias e dizendo que deseja conhecer mais a sua própria história.

E isso vem acontecendo também na TV e no cinema. Queremos nos ver, para além do olhar do outro. Queremos que os personagens desejados, invejados, admirados, paquerados, pareçam com a gente, com quem a gente ama e odeia. Queremos o direito a sermos vilões e mocinhos dos nossos próprios dramas. Tanto a novela ‘Nobreza do Amor’, quanto o longa ‘Quando casa Maria Helena?” são produções com protagonismo preto e que falam da nossa humanidade. 

Bárbara Sut, Lilian Valeska e Larissa Luz em Torto Arado – O Musical. (Foto: Caio Lírio)
  1. MN: Após estrear como o primeiro autor negro a assinar uma novela da Globo em ‘Amor Perfeito’, agora você assume o cargo novamente em ‘A Nobreza do Amor’. O que esse feito significa para a comunidade negra noveleira? E qual a importância de autores negros em outras produções audiovisuais e no teatro?

R: Ser o primeiro não pode bastar. Estou num movimento como criador de expandir o olhar do público. Foram muitos anos da  TV, o cinema, a literatura clássica brasileira criando arquétipos e lugares onde não cabiam personagens como os que eu desejo colocar no mundo. Eu acredito que precisamos nos acostumar com a possibilidade de colocarmos nossos desejos e fragilidades no centro das histórias, sem temer que a cor da nossa pele seja mais importante do que o que sentimos. Vai ter preto falando de amor, de reencarnação, fazendo comédia, montando a cavalo e salvando o mundo. 

Elísio Lopes Jr. (Foto: Caio Lirio)
  1. MN: Entre o teatro, o cinema, o streaming e a TV aberta, qual dessas linguagens mais o desafia como roteirista e por quê?

A TV aberta por ser uma arena livre, o público é imponderável. A gente não tem como agradar a todos. Os demais formatos você tem o público que escolhe te assistir, consumir a sua história. Já na TV aberta não. Você está dentro da casa das pessoas, uma novela chega todos os dias no mesmo horário e você passa a conhecê-la, a gostar dela ou não. Essa responsabilidade de conseguir falar com tanta gente diferente é um desafio para qualquer contador de histórias. Eu acredito nas novelas. Nós gostamos de acompanhar a vida dos personagens, de ter companhia, de poder opinar e saber se errou ou acertou. Acho que é o nosso papel como criadores: termos afeto pelo público que senta todo dia na frente da TV querendo ser entretido. Desejar atingir nosso público dá sentido ao que criamos.

Dívida tem cor: como o crédito reproduz o racismo e a desigualdade no Brasil

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Foto: Freepik

Por Alan Soares

No Brasil de 2025, a palavra “crédito” designa duas realidades radicalmente opostas. Para uns, é alavanca de enriquecimento, ferramenta de multiplicação patrimonial, estratégia sofisticada de construção de império. Para outros, especialmente para a população negra, é uma armadilha de sobrevivência, mecanismo de endividamento estrutural, caminho sem volta para a inadimplência e a exclusão.

Esta não é apenas uma diferença de grau, mas de natureza. O sistema de crédito brasileiro não é neutro. Ele foi desenhado, historicamente, para transferir riqueza de baixo para cima, dos pobres para os ricos, dos negros para os brancos. E compreender essa dinâmica é fundamental para entender como o racismo estrutural se perpetua através das finanças.

O Abismo em Números: Quando os Dados Revelam o Racismo

Os dados de 2024 e 2025 revelam uma crise de endividamento sem precedentes, mas que atinge as classes sociais e as raças de maneiras brutalmente desiguais.

81% das famílias com renda de até três salários mínimos estão endividadas, com 37% inadimplentes e 18% sem condições de quitar seus débitos. Em contraste, 66% dos ricos (acima de 10 salários mínimos) estão endividados, mas apenas 14% inadimplentes e só 5% sem condições de quitar.

A aparente contradição, os pobres terem mais dívidas que os ricos, apesar de terem menos acesso a crédito revela algo fundamental: os pobres se endividam para sobreviver; os ricos se endividam para enriquecer.

E quando adicionamos a dimensão racial a essa equação, o quadro se torna ainda mais brutal. A população negra representa 56% dos brasileiros, mas 72,9% dos desempregados. Mesmo quando conseguem trabalho, ganham em média 66% do salário de pessoas brancas. Mulheres negras enfrentam taxas de desemprego mais que o dobro das de homens não negros.

No mercado de crédito especificamente, empreendedores negros têm crédito negado três vezes mais que empreendedores brancos, mesmo representando 53% dos micros e pequenos empreendedores do país. Quando conseguem crédito, frequentemente recebem condições piores: maiores taxas de juros, menores limites e prazos mais curtos.

Esta é a face do racismo financeiro: não apenas negar oportunidades, mas cobrar mais caro por elas quando finalmente são concedidas.


Rodar da minutagem 2:26 até 3:28 https://www.youtube.com/watch?v=e3_TniHlH0Q&list=RDe3_TniHlH0Q&start_radio=1

Como os Ricos Usam o Crédito: A Alavancagem como Acumulação

“Rico sempre financia”, afirmou Caio Mesquita, CEO do Grupo Empiricus, explicando como utilizou alavancagem financeira para adquirir uma propriedade de R$ 8 milhões, que quatro anos depois estava valendo R$ 20 milhões, com um ganho de R$ 15 milhões “sem nem mesmo precisar usar o próprio dinheiro”.

Esta lógica, pegar emprestado para enriquecer, é o oposto absoluto da experiência da população negra e pobre com o crédito. Para os ricos, o crédito permite:

Preservar liquidez: O dinheiro que seria usado na compra à vista permanece disponível para outras oportunidades de investimento.

Alavancar patrimônio: Com o mesmo capital, é possível adquirir múltiplos ativos, multiplicando exponencialmente os ganhos quando esses ativos se valorizam.

Acessar dinheiro barato: Brasileiros ricos costumam contrair empréstimos, muitos denominados em dólares, usando garantias como ações, com juros muito inferiores aos praticados para a população em geral.

Fazer o dinheiro trabalhar: Comprar um imóvel financiado e alugá-lo, usando a renda do aluguel para pagar as parcelas, permite aquisição de patrimônio com custo líquido próximo de zero.

A XP, a maior corretora independente do Brasil, abriu um banco oferecendo empréstimos onde indivíduos podem tomar crédito usando como garantia o dinheiro em fundos de investimento. Ou seja: você pega emprestado dinheiro do banco usando seu próprio dinheiro investido como garantia, mas mantendo esse dinheiro rendendo.

Esta é a mágica da alavancagem para os ricos: eles podem, simultaneamente, usar o dinheiro (via crédito) e mantê-lo (via investimentos que servem de garantia). O crédito não os empobrece, ele os enriquece.

Como os Pobres e Negros Usam o Crédito: Sobrevivência como Endividamento

Para a população negra e pobre, o crédito opera em uma lógica completamente oposta. Quando 81% das famílias com renda de até três salários mínimos estão endividadas, não estamos falando de estratégias de alavancagem patrimonial. Estamos falando de pessoas que usaram o cartão de crédito para comprar comida, que pegaram empréstimo para pagar remédio, que entraram no carnê da loja porque o salário não chegou até o fim do mês.

O endividamento da população negra tem características estruturalmente distintas:

1. Crédito de Alto Custo: A média de juros do rotativo do cartão era de 455% ao ano em 2023. Mesmo com as novas regras limitando a 100% ao ano em 2024, a situação permanece brutal. 75% dos brasileiros parcelam suas compras, e o cartão virou saída para necessidades básicas.

2. Ausência de Garantias: Sem patrimônio acumulado, resultado de séculos de escravização e exclusão , a população negra não consegue acessar linhas de crédito mais baratas. Paradoxalmente, quem menos precisa de crédito consegue crédito mais barato. Quem mais precisa, paga mais caro. Trata-se de uma verdadeira corrida dos ratos.

3. Uso para Consumo, não Investimento: O crédito não financia ativos que se valorizam ou geram renda. Financia despesas de consumo que não deixam nenhum resíduo patrimonial. A dívida permanece, mas o bem consumido já se foi.

4. Ciclo de Re-endividamento: 20,8% dos brasileiros destinaram mais da metade dos rendimentos às dívidas em janeiro de 2025. Quando um terço da renda vai para pagar dívidas, é impossível acumular poupança ou investir. Qualquer imprevisto gera novo endividamento.

5. Discriminação Algorítmica: Os sistemas automatizados de credit score reproduzem vieses raciais históricos. Morar em determinados bairros, ter determinados nomes, frequentar determinadas escolas… tudo isso é capturado por algoritmos que penalizam pessoas negras, mesmo quando têm perfil de risco similar ao de pessoas brancas.

A Herança Escravocrata do Sistema de Crédito

Para compreender por que o sistema de crédito opera como máquina de reprodução do racismo, precisamos retornar à nossa formação histórica.

Em torno da escravidão construiu-se uma ética do trabalho degradado, uma imagem depreciativa do povo, uma indiferença moral das elites em relação às carências da maioria, e uma hierarquia social de grande rigidez vazada por enormes desigualdades.

A escravidão não terminou em 1888. Ela se metamorfoseou, adaptou-se, encontrou novas formas de perpetuação. E uma das mais eficazes é justamente o sistema financeiro que nega sistematicamente crédito à população negra ou o concede em condições predatórias.

Durante a escravidão, a justificativa ideológica era que pessoas negras eram naturalmente inferiores. Após a abolição formal, essa justificativa se tornou insustentável legalmente. Mas o sistema precisava de uma nova narrativa para legitimar a continuidade das exclusões.

Entra o sistema de crédito baseado em “risco”. Agora, a narrativa não é mais que pessoas negras são naturalmente inferiores. É que elas são “mais arriscadas”, que “não têm histórico de crédito”, que “não têm garantias suficientes”. A conclusão prática é a mesma: elas não merecem crédito ou devem pagar mais caro por ele. Ou seja, a justificativa mudou da biologia para as finanças.

Este é o golpe de mestre da ideologia: transformar uma injustiça histórica e estrutural em “avaliação técnica de risco”. Os descendentes de escravizados, sistematicamente impedidos de acumular riqueza, capital e patrimônio por séculos, são agora informados que se não conseguem crédito, é porque são de “alto risco”.

O Lucro sobre o Endividamento Negro

A dívida da população negra não é apenas um problema social. É um negócio altamente lucrativo.

O sistema financeiro brasileiro lucra espetacularmente com o endividamento da população pobre e negra através de juros estratosféricos, multas, tarifas e renovação perpétua de dívidas que nunca são quitadas completamente.

Enquanto isso, o número de brasileiros bilionários chegou a 60 em 2024, acumulando R$ 943 bilhões, um crescimento de quase 38% de suas fortunas em um ano. De janeiro a setembro de 2024, as isenções fiscais para grandes empresas chegaram a quase R$ 111 bilhões.

A equação é clara: os pobres e negros pagam juros absurdos que enriquecem bancos, enquanto os ricos recebem isenções fiscais que empobrecem o Estado. E então o Estado, sem recursos, corta gastos sociais, forçando mais pessoas ao endividamento privado para acessar serviços que deveriam ser públicos.

A Taxa Selic: Arma de Classe e Raça

O Comitê de Política Monetária do Banco Central aumentou a Taxa Selic para 15% em 2025.

Como observa Maria Lúcia Fattorelli, coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida, “o que adianta aprovar um pacote de cortes na casa de R$ 30 bilhões se, a cada 1% de aumento da Taxa Selic, cresce em R$ 55 bilhões os gastos com a chamada dívida pública?”

A Selic opera como mecanismo de transferência de renda dos pobres e negros para os ricos e brancos através de múltiplos canais:

Encarece o crédito popular: Quando a Selic sobe, o trabalhador negro que precisa parcelar uma geladeira paga ainda mais.

Valoriza aplicações dos ricos: Quando ela sobe, quem tem dinheiro aplicado ganha mais (sem trabalhar, sem produzir, apenas por ter capita)l.

Drena recursos públicos: O pagamento de juros consome parcela gigantesca do orçamento que poderia ir para saúde, educação, políticas de igualdade racial.

Mantém o desemprego: Juros altos desestimulam investimento produtivo. Resultado: mais desemprego, que afeta desproporcionalmente a população negra.

“A Selic é apresentada como instrumento técnico neutro. Na prática, é uma arma que transfere renda sistematicamente dos trabalhadores negros para os rentistas brancos.”

O Movimento Black Money: Construindo Autonomia Financeira Negra

Diante desse cenário devastador, em 2017, Nina Silva e Alan Soares fundaram o Movimento Black Money (MBM) com uma missão clara: desenvolver inserção e autonomia da comunidade negra na era digital, rompendo com a dependência de um sistema financeiro estruturalmente racista.

Inspirado no pan-africanismo e nas experiências de comunidades negras norte-americanas, o MBM parte de uma constatação simples mas poderosa: se a população negra representa 56% dos brasileiros e movimenta R$ 1,9 trilhão por ano, por que esse dinheiro não circula dentro da própria comunidade, gerando empregos, oportunidades e autonomia para pessoas negras?

Estudos mostram que, nas comunidades asiáticas dos EUA, um dólar circula por até 28 dias antes de sair da comunidade. Entre judeus, 19 dias. Em áreas predominantemente brancas, 17 dias. Mas na comunidade negra, o dólar vive apenas 6 horas.

O Movimento Black Money atua em múltiplas frentes para mudar essa realidade:

1. Educação e Capacitação: Afreektech

O Afreektech é o braço educacional do MBM, oferecendo bolsas de estudo gratuitas em cursos de Transformação Digital, Carreiras Tech, Marketing Digital, Inteligência Artificial, Ciência de Dados e Programação, Empreendedorismo, entre outros.

A lógica é clara: se o sistema financeiro tradicional nega crédito a empreendedores negros porque “não têm planejamento”, “não têm estrutura”, “não sabem gestão de caixa”, o MBM oferece a capacitação necessária. Mas não qualquer capacitação, mas uma que reconhece as barreiras estruturais específicas que a população negra enfrenta.

Como explica Nina Silva: “O afroempreendedor está numa questão de sobrevivência. Não tem estrutura, não tem planejamento, não tem plano de caixa, não sabe quanto vai rodar. A gente tenta tratar [este déficit] e impulsionar”.

2. Serviços Financeiros: D’Black Bank

O D’Black Bank é uma fintech 100% digital, desenvolvida por pessoas negras que vivenciam as mesmas dores do público-alvo, oferecendo serviços financeiros com taxas justas e incentivos sociais a projetos educacionais.

Enquanto empreendedores negros têm crédito negado três vezes mais em bancos tradicionais, o D’Black Bank trabalha para oferecer:

  • Maquininha de cartão “Pretinha”: Com taxas menores que as praticadas pelo mercado, já funcionando em afronegócios de diversas cidades brasileiras.
  • Cartão de crédito e conta digital: Com menores burocracias e condições mais justas, funcionando com bandeiras tradicionais.
  • Microcrédito: Projeto em desenvolvimento para oferecer crédito comumente negado a afroempreendedores, de cartões com limites mais altos a empréstimos com juros acessíveis.
  • Educação financeira: Conteúdos e formação para que a população negra desenvolva consciência e autonomia sobre suas finanças.

A proposta não é apenas criar “mais um banco”, mas um negócio social onde o lucro retorna para a própria comunidade através de investimentos em capacitações e projetos educacionais. É fazer o dinheiro trabalhar para a emancipação da população negra, não para sua exploração.



3. Networking e Conexões: Happy Hours

O MBM promove encontros regulares entre empreendedores e profissionais negros para formar networking, conectar talentos, encontrar investidores e criar uma rede de apoio mútuo.

No mercado de tecnologia, onde a ausência de diversidade é o terceiro maior desafio para o ingresso de pessoas negras, criar comunidades de aprendizagem e apoio é fundamental. Essas redes não apenas facilitam o acesso a oportunidades, mas também criam modelos de referência, algo essencial quando apenas 29,5% dos cargos gerenciais no Brasil são ocupados por pretos e pardos.

4. Marketplace e Circulação: Mercado Black Money

O Mercado Black Money é uma plataforma online que conecta empreendedores negros e consumidores antirracistas, permitindo que o capital financeiro circule por mais tempo dentro da comunidade negra.

A premissa é simples: “Se não me vejo, não compro”. Mas também o inverso: “Se me vejo, escolho intencionalmente comprar de quem me representa”.

Atualmente, o marketplace reúne cerca de 2,5 mil empreendedores

5. Inovação e Tecnologia: MBM Inovahack

O MBM Inovahack reúne empreendedores, programadores, designers, cientistas de dados e outros profissionais de tecnologia para criação de soluções colaborativas para problemas específicos da comunidade negra.

Nas últimas edições, o evento já mobilizou mais de 700 participantes, com 84% de participantes negros e 70% de mulheres. Os melhores projetos são premiados com mais de R$ 20 mil, bolsas de estudos e possíveis vagas em programas de capacitação.

É um espaço de protagonismo negro e periférico dentro do universo da inovação e tecnologia, que visa impulsionar o empreendedorismo e empregabilidade tecnológica.

6. Suporte Emergencial: Fundo de Apoio a Famílias Negras

Durante a pandemia, o MBM lançou campanha de crowdfunding para ajudar famílias que não conseguiriam manter as vendas ou o sustento. A iniciativa tem caráter emergencial e visa atender, preferencialmente, famílias negras lideradas por mães solo e afroempreendedores.

A lógica é de solidariedade prática: reconhecer que, em momentos de crise, a comunidade precisa se apoiar mutuamente, porque o Estado e o mercado tradicionalmente nos abandonam.

Por Que o Movimento Black Money Importa: Autonomia como Resistência

O Movimento Black Money não é apenas uma iniciativa de capacitação ou uma plataforma de negócios. É uma estratégia política de construção de autonomia econômica para a população negra em um país onde o sistema financeiro foi historicamente usado como ferramenta de dominação racial.

Quando Nina Silva diz que “não basta incluir trainees negros na empresa, é preciso enegrecer a lista de fornecedores”, ela está articulando uma visão profunda: a verdadeira transformação não vem de algumas pessoas negras sendo incluídas em estruturas brancas, mas de pessoas negras construindo suas próprias estruturas de poder econômico.

O MBM reconhece que a população negra não será salva por bancos tradicionais que historicamente a excluíram. Não será salva por políticas públicas que sistematicamente nos ignoram. Não será salva esperando que o sistema se torne menos racista.

A autonomia precisa ser construída, através de educação que nos qualifica para a economia digital, de serviços financeiros que servem nossas necessidades reais, de redes que nos conectam e fortalecem, de circulação intencional de dinheiro dentro da comunidade.

Como afirma Alan Soares, também fundador do MBM: “Retomar a nossa africanidade e a manifestação da nossa afro-brasilidade é trazer o nosso pensamento ao Sul e, realmente, trazer a essência das nossas raízes. Nós nascemos e somos oriundos de uma sociedade matriarcal e de uma sociedade comunitária”.

É essa ancestralidade comunitária que o Movimento Black Money resgata e atualiza para o século XXI: a compreensão de que nossa força está na união, de que prosperamos coletivamente, de que o dinheiro que circula entre nós nos fortalece a todos.

O Que Falta: Desafios e Caminhos

Apesar de seu potencial transformador, o Movimento Black Money e iniciativas similares enfrentam desafios estruturais imensos:

1. Escala: Seu impacto na área educacional é significativo, mas há mais de 9 milhões de pessoas negras desempregadas no Brasil. Como expandir o alcance sem diluir a qualidade?

2. Acesso a Capital: Até hoje, Nina e Alan são os únicos investidores do MBM. De forma proposital, querem manter controle e visão, mas é algo que limita a velocidade de crescimento.

3. Regulação Financeira: Operar serviços financeiros exige navegação complexa de regulamentações pensadas para grandes instituições, não para fintechs de impacto social.

4. Mudança Cultural: Fazer o dinheiro circular por mais tempo na comunidade negra exige transformação de hábitos de consumo arraigados por séculos de colonização.

5. Racismo Institucional: Mesmo empreendedores negros de sucesso enfrentam barreiras sistemáticas.

Mas esses desafios não diminuem a importância do trabalho. Ao contrário, a reforçam. Porque o Movimento Black Money está construindo algo que ninguém nos dará: autonomia. E autonomia não se pede — se conquista.

Alternativas Estruturais: O Que Mais Precisa Mudar

O Movimento Black Money é parte essencial da solução, mas transformação completa exige também mudanças estruturais de políticas públicas:

1. Teto para Taxas de Juros: Juros de 100% a 455% ao ano são agiotagem legalizada. Precisamos de limites máximos drasticamente mais baixos.

2. Crédito Produtivo Público com Recorte Racial: Bancos públicos oferecendo crédito para empreendedores negros com juros subsidiados e foco em geração de renda.

3. Cotas para Fornecedores Negros: Empresas públicas e privadas obrigadas a reservar percentual de suas compras para fornecedores negros.

4. Reforma Tributária Progressiva: Taxar fortunas, heranças, grandes rendas  e usar recursos para financiar renda básica e serviços universais que reduzam a necessidade de crédito privado.

5. Auditoria da Dívida Pública: Questiona a legitimidade de uma dívida que cresce via Selic e drena recursos que poderiam financiar igualdade racial.

6. Regulação contra Discriminação Algorítmica: Algoritmos de credit score que reproduzem vieses raciais precisam ser auditados e regulados.

7. Reparações Históricas: Reconhecer que a escravidão gerou dívida histórica do Estado brasileiro com a população negra  e que essa dívida precisa ser paga através de políticas robustas de reparação.

Conclusão: Dívida Tem Cor, Mas a Autonomia Também

No Brasil contemporâneo, o sistema de crédito/dívida funciona como um dos principais mecanismos de reprodução do racismo estrutural. Não apesar de como foi desenhado, mas exatamente porque foi desenhado para isso.

Para os ricos e brancos, o crédito é alavanca de acumulação. Para os pobres e negros, o crédito é armadilha de sobrevivência.

Quando 81% das famílias pobres estão endividadas, com 37% inadimplentes, quando empreendedores negros têm crédito negado três vezes mais, quando mulheres negras enfrentam desemprego duas vezes maior, não estamos diante de fracassos individuais. Estamos diante de um sistema que foi construído para produzir exatamente esses resultados.

Mas em meio a esse cenário devastador, o Movimento Black Money nos oferece algo precioso: uma visão de autonomia possível. A compreensão de que, enquanto lutamos por transformações estruturais, podemos também construir nossas próprias estruturas: de educação, de finanças, de circulação de riqueza, de apoio mútuo.

Como afirma Nina Silva, fundadora do MBM e reconhecida como a mulher mais disruptiva do Mundo: “Qual é a riqueza, o que você tem dentro de você e o que você pode fazer no seu dia a dia para enriquecer e investir na sua própria comunidade?” É isso o que o movimento coloca.

A dívida tem cor. O racismo financeiro é real. Mas a resistência também tem cor. E a autonomia que estamos construindo, passo a passo, bolsa por bolsa, empreendimento por empreendimento, negócio por negócio, é a prova de que outro futuro é possível.

Um futuro onde o crédito não seja armadilha, mas ferramenta. Onde o dinheiro circule dentro da comunidade, fortalecendo a todos. Onde pessoas negras não precisam implorar por migalhas de um sistema que nos odeia, mas construam suas próprias instituições que nos amam.

Esse futuro não virá de bancos tradicionais. Não virá de políticos que nos ignoram. Virá de nós mesmos – organizados, capacitados, conectados, fazendo nosso dinheiro trabalhar para nossa própria libertação.

O Movimento Black Money já está construindo esse futuro. E convida cada pessoa negra, cada aliado antirracista, a fazer parte dessa jornada.

Porque se a dívida tem cor, a autonomia também tem. E essa cor é preta.


Saiba mais e participe:

A autonomia financeira da população negra não é um sonho. É um projeto. E você pode fazer parte dele.


Kelvin Harrison Jr. como Basquiat no filme biográfico ‘Samo Lives’ tem primeira imagem revelada

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Foto: Jon Pack

A produtora MACRO divulgou a primeira imagem do ator Kelvin Harrison Jr. no papel do lendário artista Jean-Michel Basquiat no filme biográfico ‘Samo Lives’. O longa promete revisitar a trajetória do ícone neoexpressionista, cuja arte e visão continuam a influenciar gerações em todo o mundo.

“Tanta coisa para dizer sobre como chegamos até aqui, mas vou guardar para quando o filme estrear. Mas o que eu vou dizer é que os clichês são verdadeiros: nunca desista dos seus sonhos. Do fundo do meu coração, obrigado a todos que tornaram isso possível nos últimos cinco anos. Eu amo vocês. Amo você, Jean-Michel Basquiat”, escreveu o ator Kelvin Harrison Jr. nas redes sociais.

Dirigido e coescrito por Julius Onah, o filme é descrito pelos produtores como “um raro vislumbre do universo singular” de Basquiat. O artista transformou o cenário da arte contemporânea com sua linguagem visual potente, marcada por símbolos, críticas sociais e referências à cultura negra.

Filmado em Nova York e Nova Jersey, ‘Samo Lives’ marca a primeira vez que a história de Jean-Michel Basquiat será contada por um cineasta negro.

Além de Harrison, o elenco conta com Jeffrey Wright, que interpretou Basquiat no filme de 1996, Antony Starr, Priah Ferguson, entre outros talentos. A data de estreia ainda não foi revelada.

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