A artista afro-americana Nailah Elon viralizou recentemente ao reconstruir imagens históricas racistas em suas redes sociais, provocando ampla repercussão e debates. Muitos se perguntaram: por que a melancia aparece com tanta frequência nessas representações?
Em resposta ao Mundo Negro, Nailah explica: “Nos Estados Unidos, as melancias se tornaram um símbolo racista depois do fim da escravidão. Pessoas negras libertas passaram a cultivar e vender melancias como um sinal de independência e sucesso. Mas os brancos do sul, irritados com o progresso delas, começaram a usar essa imagem para zombar e desumanizá-las, transformando o que era um símbolo de liberdade em um símbolo de racismo.”
O que era originalmente símbolo de liberdade e autonomia foi transformado em estereótipo através de caricaturas, propagandas e cartões postais, reforçando a ideia de que negros tinham uma relação “excessiva” com a fruta. Este processo de desumanização cultural perdura até os dias de hoje e é um exemplo claro de como símbolos positivos podem ser deturpados por preconceito.
Mas a melancia não é o único alimento carregado de conotações racistas. O frango frito, tradicional do sul americano, também se tornou um estereótipo racial. Filmes como O Nascimento de uma Nação (1915) e estabelecimentos como o restaurante “Coon Chicken Inn” reforçaram imagens caricatas da população negra, consolidando o preconceito em torno do alimento.
Ainda assim, tanto a melancia quanto o frango frito têm histórias de resistência. Pessoas negras transformaram esses alimentos em formas de sustento e identidade cultural, e hoje o frango frito é parte da culinária afro-americana tradicional, conhecida como soul food.
A obra de Nailah Elon mostra que é possível ressignificar símbolos de opressão. Ao reconstruir imagens racistas, ela oferece reflexão sobre racismo, memória histórica e identidade, demonstrando como a arte pode ser uma ferramenta de resistência, educação e empoderamento cultural.
O Condé Nast Traveller Readers’ Choice Awards 2025 elegeu o Quênia como o país mais amigável do planeta, com uma impressionante pontuação de 98,46/100. Não é difícil entender o porquê: é o povo queniano, com seus sorrisos largos, hospitalidade genuína e aquela energia contagiante de acolhimento, que transforma qualquer visita em uma experiência inesquecível. A lista também destaca outras joias do continente africano, Maurício (7º lugar, 96.67) e Seychelles (8º lugar, 96.36). A presença destes países desfaz o estereótipo de uma África monocromática e nos apresenta um continente diverso, acolhedor e pronto para receber o mundo.
Porém, o Quênia é muito mais que um país simpático; é um lugar onde história, cultura e inovação caminham juntas, desafiando estereótipos e apontando para um futuro brilhante.
1. Um retrato geográfico do berço da humanidade
Localizado na África Oriental, o Quênia faz fronteira com Tanzânia, Uganda, Sudão do Sul, Etiópia e Somália, tendo o Oceano Índico a leste. Sua capital, Nairóbi, é um centro pulsante de modernidade e diversidade, onde arranha-céus coexistem com o icônico Parque Nacional de Nairóbi, um raro santuário urbano da vida selvagem. O país abriga o Monte Quênia, segunda montanha mais alta do continente, e o emblemático Grande Vale do Rift, reconhecido como o berço da humanidade, símbolo da ancestralidade e da ciência unidas à beleza natural.
Grande Vale do Rift (Foto: Reprodução/Akagera National Park)
2. Cultura, ancestralidade e sabor
O Quênia é uma tapeçaria cultural formada por mais de 60 grupos étnicos, incluindo os kikuyu, luhya, luo, kalenjin, kamba e maasai. As línguas oficiais são o inglês e o swahili, mas dezenas de outras línguas locais mantêm viva a tradição oral e o modo comunitário. Na mesa, sabores únicos expressam essa diversidade: o ugali — uma massa simples e nutritiva de farinha de milho — é símbolo de união familiar; o nyama choma, carne assada lentamente, celebra a convivência em torno da brasa; e o sukuma wiki, refogado de couve, acompanha quase todas as refeições, tornando o ato de comer uma verdadeira comunhão social.
Nyama choma (Foto: BBQ Recipe)
3. Praias que parecem sonho
O litoral queniano é um tesouro pouco conhecido, com praias exuberantes como Diani, Watamu e Malindi. Diani Beach, frequentemente listada entre as mais belas do mundo, une areia branca, águas turquesa e recifes de coral em um cenário de sofisticação e tranquilidade. Definitivamente, suas praias são onde o mergulho, kitesurfe, pôr do sol e até mesmo o futebol criam um refúgio paradisíaco para moradores e visitantes.
Diani Beach (Foto: Mike Jones/Canva)
4. Um epicentro africano de inovação
Apelidado de Silicon Savannah, Nairóbi é o coração tecnológico da África Oriental, um polo vibrante de startups e centros de inovação que desenvolvem soluções para desafios locais e globais. O M-Pesa, um sistema de pagamento móvel lançado em 2007, se tornou uma revolução global ao promover inclusão financeira para milhões sem acesso a bancos tradicionais, exemplificando como a inovação é ferramenta de autonomia e transformação social no Quênia. Projetos de energia solar, agricultura sustentável e tecnologia digital demonstram que a criatividade queniana é movida pelo espírito comunitário e pela busca por um futuro melhor.
Com cerca de 75% da população abaixo dos 35 anos, o Quênia está na vanguarda de uma revolução social e tecnológica. Essa juventude energeticamente transformadora impulsiona o desenvolvimento sustentável, via investimentos em educação digital, agricultura regenerativa e energias renováveis. O espírito de harambee, que significa “vamos puxar juntos”, reflete a solidariedade que move o país e alimenta a inovação que nasce do senso de comunidade.
Foto: Reprodução/Further Africa
O Quênia é um poderoso lembrete de que a África é plural, criativa e protagonista de sua própria narrativa. É onde o encontro humano, marcado por hospitalidade e sorrisos, se mescla à evolução tecnológica que cria o amanhã.
No Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra, celebrado em 27 de outubro, especialistas e organizações reforçam a urgência de ampliar o acesso da população negra a um cuidado integral, humanizado e representativo. Apesar de representarem mais de 56% da população brasileira, pessoas negras enfrentam maior risco de adoecimento, mortalidade materna, doenças crônicas e desigualdade no acesso a serviços de saúde.
A data foi criada para fortalecer políticas públicas e movimentos sociais em defesa da equidade racial. Um dos principais instrumentos para esse objetivo é a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), criada em 2009, que orienta a promoção da equidade racial no SUS e reconhece o racismo como determinante social de saúde.
Dentro desse cenário de desafios estruturais, a clínica Baobá Saúde, fundada pela psicóloga Laíse Brito, se apresenta como um refúgio terapêutico que une ciência, acolhimento e identidade. A iniciativa surgiu em janeiro de 2025 com o objetivo de oferecer atenção integral à população negra, incluindo cuidados psicológicos e terapêuticos que consideram os impactos do racismo nas dimensões física, emocional e espiritual.
Segundo Laíse Brito, “cuidar da saúde da população negra é reconhecer histórias, corpos e subjetividades. É combater o racismo institucional, preparar equipes para um atendimento antidiscriminatório e garantir representatividade nos espaços de decisão. É compreender que a dor da população negra é real, que sua escuta é urgente e que seu tratamento deve respeitar suas especificidades biológicas, sociais e simbólicas”.
O espaço se consolidou como um exemplo de como iniciativas de saúde integral podem acolher e promover o bem-estar emocional e físico, integrando ciência e atenção às especificidades culturais e históricas da população negra. Para Laíse,“o racismo adoece, e se queremos falar de prevenção e de promoção de saúde, precisamos olhar para o impacto do racismo nas dimensões física, emocional e espiritual das pessoas negras. É isso que a Baobá se propõe a transformar”.
O 27 de outubro é um chamado à reflexão e à ação para gestores, profissionais e sociedade. Garantir saúde de forma equitativa exige atenção às diferenças raciais, étnicas e culturais, enfrentamento do racismo estrutural e compreensão de que cuidado integral vai além da ausência de doença, envolvendo qualidade de vida, pertencimento e reconhecimento das histórias da população negra.
São Paulo, a maior cidade do Brasil e com a maior população negra fora da África em números absolutos, ganha registro histórico em São Paulo Negra, novo livro da plataforma de afroturismo Guia Negro. Dos 11,4 milhões de habitantes da capital paulista, 43% se consideram pretos ou pardos — cerca de 4,9 milhões de pessoas —, mas a história dessa população, seus personagens e sua relação histórica, política e cultural com a cidade não é amplamente contada nas escolas ou na mídia convencional.
O livro reúne 25 referências negras da cidade, documentando lugares, personagens, cultura e movimentos que muitas vezes ficam fora da narrativa oficial. Entre os territórios percorridos, estão o quilombo Saracura, no Bixiga; a região da República, marcada pela influência de países africanos; e os sons dos blocos afro e festas negras, do samba ao funk. A obra foi escrita por 25 autores — pesquisadores, jornalistas, empreendedores e ativistas — que são referências em suas áreas, incluindo Philip Arthur, Ermi Panzo, Luciana Araujo, Lucas Velloso, Semayt Oliveira, Juca Guimarães, Tadeu Kaçula, Assis Tavares, Pai Rodney, Cinthia Gomes, Vera Eunice, Abilio Ferreira, Nabor Jr, Camila Cardoso, Adriana Barbosa, Elizandra Souza, Neon Cunha, Jairo Malta, Claudia Alexandre, Sidney Santiago, Oswaldo Faustino, Simone Nascimento, Juliana Gonçalves, Flávio Carrança e Lenny Blue.
As fotografias são de Felipe Benício e Heitor Salatiel, que também fizeram a pesquisa histórica de imagens, e o design ficou por conta de Inara Negrão e Deborah Souza, da Grida, com ilustrações de Thais da Silva Pereira.
Segundo Guilherme Soares Dias, fundador do Guia Negro e idealizador da obra, o livro é “uma contribuição para enegrecer as narrativas de uma cidade que vai se embranquecendo e negando seu passado e presente negro-indígena” e tem como objetivo que “esse conhecimento e vivência da negritude de São Paulo ganhe novas leituras e possibilidades”.
A publicação marca a estreia da editora Guia Negro e os oito anos da plataforma de afroturismo. Os primeiros 500 exemplares foram impressos com verba do edital Bora Cultura Negra, da Ambev e da Feira Preta, em 2023, e foram distribuídos para entidades culturais e educacionais ligadas ao antirracismo.
O livro já está disponível para compra neste link: São Paulo Negra.
A obra representa um movimento de resgate do protagonismo negro na cidade, destacando que ainda há muito a ser lembrado em nomes de ruas, praças, avenidas e monumentos, muitas vezes ocupados por bandeirantes e escravocratas, e projeta outras perspectivas históricas para o futuro.
Nesta semana, o ator Ygor Marçal, de 12 anos, conquistou o Prêmio PRODU 2025, considerado o “Emmy da América da Latina”, na categoria Melhor Ator Principal em Série Infantil/Juvenil por sua atuação como Tom em ‘Lab de Chef’, produção brasileira que une culinária e ciência de forma divertida e educativa.
Estreada no Canal Futura no ano passado e disponível atualmente no Globoplay, a série é uma parceria da produtora Panorâmica com o canal e traz a proposta de ensinar conceitos de ciência no ambiente acolhedor e estimulante da cozinha-laboratório. No comando da narrativa estão os pequenos cientistas-chefs Maya (Valentina Leão) e Tom (Ygor Marçal), acompanhados do carismático e temperamental robô Chicô (Ruben Gabira), que ajuda a responder perguntas curiosas sobre o dia a dia na cozinha.
Com uma linguagem acessível e visual colorido, ‘Lab de Chef’ transforma questões simples em grandes descobertas: “Por que a pipoca estoura?”, “Por que o bolo cresce?”, “Por que a beterraba solta tinta?”. A série aposta no conceito de edutainment (entretenimento educativo) para estimular a curiosidade científica e o aprendizado de forma prazerosa.
“Crianças são curiosas por princípio. Então achamos que poderia ser uma brincadeira gostosa experimentar receitas novas e aprender sobre tudo isso no processo, de uma maneira leve, que envolve cores, cheiros e texturas”, conta Mara Lobão, uma das criadoras do projeto e diretora da Panorâmica Produções, na época do lançamento ao canal Futura.
O empreendedorismo, olhado em uma afro perspectiva, e compreendido para além da lógica puramente mercadológica, revela-se como uma prática de afirmação identitária e continuidade histórica. Em contextos como o da formação Feira Preta Cria, essa perspectiva emerge de forma viva, colocando em evidência como negócios liderados por pessoas negras não são apenas unidades produtivas, mas também espaços de criação, preservação e reinvenção de saberes ancestrais.
Ao dialogar com a cozinha afro-brasileira, carrega em si o compromisso de navegar entre memórias e inovações, de maneira similar ao que ocorre no preparo de um prato que, ao mesmo tempo, resgata tradições e incorpora novas possibilidades.
Assim, cada empreendimento se torna também um ato político, que reverte o ciclo histórico de marginalização e se ancora em valores coletivos, culturais e comunitários.
As tecnologias negras, nesse contexto, não se limitam ao campo das inovações contemporâneas, mas englobam sistemas de conhecimento e prática desenvolvidos e refinados ao longo de séculos. Trata-se de um repertório que envolve desde métodos de cultivo e manejo agroecológico, até técnicas culinárias de aproveitamento integral e preservação dos alimentos, articulando sustentabilidade e sabor.
Esse caminho de empreender, lança mão de tecnologias que se atualizam em soluções criativas e unem tradição e inovação, permitindo que o negócio se torne um veículo de transmissão de saberes. Ao reconhecer que cada panela, cada receita e cada utensílio carregam marcas dessa engenharia social e cultural, compreende-se que o empreendedor negro opera, muitas vezes, como um guardião e propagador dessas tecnologias.
As estratégias negro-femininas são um eixo estruturante dessa trama, pois é majoritariamente através das mulheres negras que esses saberes e negócios se mantêm vivos. Nas feiras, mercados e cozinhas, elas tecem redes de apoio, constroem alianças e praticam a arte do mercar como uma forma de resistência econômica e cultural.
Essas estratégias combinam cuidado, perspicácia e visão de futuro, reinventando-se constantemente para driblar as desigualdades estruturais. Ao trazer para o afroempreendedorismo essa força organizadora e criativa, o trabalho das mulheres negras reafirma que não há dissociação entre gerar renda e manter vínculos comunitários, entre gerir um negócio e alimentar um território — no sentido literal e simbólico.
Gerir um negócio gastronômico dentro da lógica do afroempreendedorismo exige compreender que a dimensão cultural não exclui a necessidade de um planejamento sólido.
Uma das ferramentas mais eficazes para estruturar essa visão é o Business Model Canvas, que permite visualizar, de forma integrada, todos os elementos-chave do empreendimento: proposta de valor, segmentos de clientes, canais de distribuição, fontes de receita, recursos e parcerias essenciais, estrutura de custos e atividades principais.
Ao elaborar o Canvas, o empreendedor ou empreendedora negra consegue alinhar a identidade e os valores do negócio com estratégias objetivas de atuação, evitando decisões fragmentadas e facilitando o acesso a parceiros e investidores.
No campo da gestão financeira, a sustentabilidade do negócio depende de um controle rigoroso de receitas e despesas, de preferência utilizando ferramentas simples e acessíveis. Planilhas eletrônicas, aplicativos de fluxo de caixa e sistemas de controle de vendas podem ser aliados poderosos, muitos deles disponíveis gratuitamente.
Esse cuidado financeiro também se conecta ao princípio da autonomia: saber exatamente o custo de cada prato e a margem de lucro praticada é fundamental para não comprometer a viabilidade do empreendimento. É nessa prática que a economia afetiva encontra a economia de mercado, garantindo que o valor simbólico do trabalho seja acompanhado de um retorno financeiro justo.
A tão temida ficha técnica é outro instrumento essencial na gestão de um negócio de alimentação, pois permite padronizar receitas, controlar porções e calcular com precisão o custo de cada preparo. Além de garantir consistência e qualidade para o cliente, a ficha técnica possibilita um acompanhamento realista do impacto de variações de preço dos insumos e orienta tomadas de decisão sobre ajustes de cardápio.
Um caminho de desmistificação dessa ferramenta pode ser o de pensar nela, também, como documento de preservação cultural, registrando não apenas medidas e processos, mas também histórias, origens e significados de cada prato.
Navegar pela cozinha afro-brasileira é uma viagem que transcende o paladar e nos leva a um território de memórias, ancestralidade e resistência. Aproveitar essa travessia nos desafia a perceber como o preparo dos alimentos não é apenas uma expressão de técnicas, mas também uma forma de celebrar vidas, histórias e culturas que foram construídas a partir de cruzamentos complexos entre territórios e pessoas.
Lourence Alves (Foto: Divulgação)
O manejo estratégico das mídias sociais é hoje um pilar indispensável para qualquer negócio gastronômico, e no afroempreendedorismo ele assume ainda a função de ampliar vozes e narrativas historicamente silenciadas. Plataformas e mídias digitais oferecem recursos gratuitos para divulgação, interação e vendas, permitindo que micro e pequenos empreendedores alcancem públicos para além de seus territórios imediatos.
O conteúdo precisa ir além da promoção de produtos, contando histórias, mostrando bastidores, compartilhando saberes e evidenciando o diferencial cultural e afetivo que sustenta o negócio.
Um caminho de encantamento é o de olhar para as cozinhas brasileiras a partir dos ingredientes. É uma trilha que nos ajuda a descolonizar as referências gastronômicas hegemônicas, desfazendo mitos como o da feijoada sendo apenas um prato de restos.
Para isso, reconhecer as técnicas usadas, como o uso integral dos alimentos, que manifestam uma relação de respeito e saber profundo com a natureza, evidenciado no preparo cuidadoso dos feijões e suas variações, é fundamental.
Refletir sobre nossa alimentação e suas origens abre espaço para um entendimento mais profundo do que significa cozinhar em solo brasileiro com uma perspectiva afro-diaspórica. Ressignificar o quiabo, por exemplo, envolve valorizar seu espessamento natural, caracterizando-o como um ícone de inovação e não uma característica indesejável (baba), desvendando assim um mundo de sabores que foram amordaçados pela narrativa dominante.
Ao explorarmos a complexidade da cozinha afro-brasileira, é igualmente essencial reconhecer o papel das mulheres negras que, ao longo dos séculos, foram as protagonistas silenciosas que mantiveram vivas essas tradições. Seja nos tabuleiros ou nas feiras, suas habilidades mercantis e a arte do mercar são formas de resistência econômica e social.
A sabedoria que emanava dos quintais, aquela habilidade de cultivar e utilizar as plantas alimentícias, nos ensina que, muito antes de modismos e convenções, já existiam práticas voltadas para a sustentabilidade e o respeito ao ciclo natural das plantas. Esse é um legado de adaptação e sobrevivência que deve ser celebrado e protegido.
Portanto, o convite que esse conhecimento nos traz é ir além do prato. É um chamado para reviver memórias e reimaginar futuros através de uma conexão profunda com quem somos e de onde viemos.
Assim, fazemos da cozinha um espaço não apenas de nutrição, mas de identidade, lembrança e criação de novas narrativas que ressoam e respeitam nossas histórias coletivas e individuais. Essa jornada é, e sempre foi, sobre liberdade e identidade, consolidadas em cada refeição que partilhamos.
Ao integrar essas ferramentas — Canvas, gestão financeira, ficha técnica e mídias sociais — empreender é também construir uma base sólida que sustenta tanto a perenidade econômica quanto a coerência identitária do negócio.
Essa articulação entre técnica e cultura é o que permite que a cozinha afro-brasileira, com sua profundidade histórica e riqueza de significados, se estabeleça como força no mercado sem abrir mão de seus valores.
O resultado é um empreendimento que não apenas gera renda, mas também produz pertencimento, circulação de saberes e fortalecimento comunitário, alinhando gestão eficiente com a missão de transformar a realidade a partir da comida.
Portanto, pensar o afroempreendedorismo a partir da cozinha afro-brasileira e das experiências formativas como a Feira Preta Cria é reconhecer que se trata de uma prática de liberdade. É navegar por um oceano onde memória, identidade e inovação se encontram, criando novas rotas para a economia e para a cultura.
Cada prato preparado, cada produto vendido e cada história contada se tornam parte de uma narrativa maior, que afirma a potência das comunidades negras em construir futuros sustentáveis e autônomos.
Essa é uma travessia que nos convida a ir além do prato: a ver a cozinha, o mercado e o empreendimento como territórios de disputa e criação, onde se plantam sementes de dignidade e se colhem frutos de transformação social.
Texto: Lourence Alves [@lourencealves]. Professora na Universidade Federal da Bahia, pesquisadora, cozinheira e escritora. Filha de Iemanjá e mãe de Carolina Maria, navega entre panelas, livros e memórias, unindo a cozinha e a palavra como territórios de afeto e resistência. Doutora em Alimentação, Nutrição e Saúde, dedica-se a estudar e ensinar a gastronomia em diálogo com culturas afrocentradas, religiosidades e saberes que desafiam o colonial.
Esse conteúdo é fruto de uma parceria entre Mundo Negro e Feira Preta.
Na CASACOR Ceará 2025, a arquiteta e pesquisadora Stephanie Ribeiro apresenta a Casa Crioula, um projeto que propõe olhar para a arquitetura como um campo fértil de memória, cuidado e continuidade. Inspirada nas casas de sementes crioulas, espaços comunitários que preservam espécies tradicionais e fortalecem a agricultura familiar, a criação parte da ideia de que semear é também um gesto político e afetivo.
“A Casa Crioula nasce do desejo de celebrar a semente como origem de tudo, da vida, do saber e do sonho. Ela nos lembra que semear é também um gesto de cuidado, de continuidade e de resistência”, explica Stephanie.
O espaço, de traçado oval e estética marcada pelas curvas, traduz em arquitetura a organicidade das sementes e o movimento contínuo da vida. A estrutura é composta por tijolos sustentáveis que, ao se repetirem, criam uma paisagem viva — reforçando a lógica ancestral da multiplicação e da coletividade.
A proposta é também sensorial: cores intensas e tons terrosos homenageiam as sementes crioulas, guardiãs da biodiversidade e da memória cultural. Um mural assinado pela artista cearense Marta Brizeno representa o ato de semear como continuidade e esperança, enquanto o ambiente reúne peças de artistas e designers locais como Wilson Neto, Estúdio Sabá e Bekka Studio, em diálogo entre território, arte e ancestralidade.
Mais do que um projeto expositivo, Casa Crioula propõe uma reflexão sobre pertencimento e futuro. “Acredito que a arquitetura pode se inspirar na agricultura familiar, porque ela também é um bem cultural”, afirma a arquiteta.
O mercado corporativo brasileiro historicamente marginaliza mulheres negras. Estruturas organizacionais, racismo institucional e desigualdade de gênero criam barreiras que limitam oportunidades e invisibilizam trajetórias. Alcione Balbino é uma dessas mulheres que transformou essas limitações em ação concreta e impacto coletivo.
Formada e com carreira consolidada em empresas de grande porte, Alcione conheceu de perto a falta de representatividade e a pressão por resultados em ambientes que não a reconheciam. Experiências de burnout e mudanças pessoais significativas impulsionaram sua reinvenção profissional. Foi então que ela fundou a Preta Pardas Potentes (PPp), organização voltada a ampliar a presença de mulheres negras em cargos de liderança e promover diversidade racial em empresas brasileiras.
O trabalho da PPp vai além de capacitação: cria uma rede de apoio, visibilidade e potência para mulheres historicamente silenciadas. Alcione também atua com o Power Woman Mentory, programa que já impactou centenas de mulheres e levou suas palestras a empresas como Roche, Ford e Heineken, combinando experiência, conhecimento técnico e estratégia de inclusão.
Para Alcione, cada conquista individual reverbera coletivamente. Sua trajetória evidencia que o empreendedorismo negro feminino não é apenas sobre abrir negócios: é sobre transformar estruturas, gerar representatividade e construir legados.
Adenor Gondim. Detalhe de “Filha de Iemanjá, Filha de Nossa Senhora”, 2001
A Pinacoteca de São Paulo realiza neste sábado (25), às 11h, a visita com uma curadoria intitulada “Representação e representatividade da mulher negra no acervo”, uma imersão nas múltiplas formas como a figura da mulher negra tem sido retratada nas artes visuais ao longo do tempo.
A atividade gratuita faz parte da exposição “Pinacoteca: Acervo” e terá mediação de Lorraine Mendes, curadora da museu. Entre as obras que integram o percurso estão “Filha de Iemanjá, Filha de Nossa Senhora” (2001), de Adenor Gondim; “Baiana” (autoria não identificada); “Djamila Ribeiro” (2021), da série Vigílias, de Panmela Castro; e “Interior com a baiana” (1956), de Tereza D’Amico.
O percurso convida o público a refletir sobre os regimes de visibilidade, as projeções de si e do outro, e o papel da arte como instrumento de afirmação identitária e denúncia das desigualdades. Além de propor um olhar crítico, demonstrando tensões raciais e contextos sociais.
A visita não requer inscrição e tem duração aproximada de 40 minutos. A atividade acontece no Edifício Pina Luz.
O Globoplay divulgou nesta semana o trailer eletrizante da quarta temporada de ‘Arcanjo Renegado’, que estreia na plataforma no dia 6 de novembro. A prévia apresenta Marcello Novaes como Lincoln, novo inimigo de Mikael (Marcello Melo Jr.), e mostra que a série vai explorar cenas de ação e uma trama que cruza fronteiras entre Brasil, Paraguai e Bolívia.
No trailer, Mikael descobre uma rota internacional de tráfico de drogas e enfrenta uma escalada de violência no Rio de Janeiro, cenário que também impacta a pré-campanha para o Governo do Estado. A chegada de Lincoln promete complicar ainda mais a vida do protagonista.
Além de Novaes, a nova temporada conta com reforços no elenco como Larissa Nunes, Carol Nakamura, Gracyanne Barbosa, Thiago Hypolito, Renan Monteiro, entre outros. Eles se juntam a personagens já conhecidos pelo público, incluindo Sarah (Erika Januza), Maíra (Cris Vianna), Ronaldo (Álamo Facó) e Manuela (Rita Guedes).
A quarta temporada promete ampliar o universo da série, trazendo mais suspense, ação e confrontos que vão manter o público preso à tela.