Em entrevista ao podcast de Keke Palmer, atriz descreveu décadas vivendo com transtorno bipolar não diagnosticado, a resistência ao tratamento e o trabalho que transformou sua relação com a própria saúde
Jenifer Lewis, atriz com mais de 250 episódios de televisão e 60 filmes, falou abertamente sobre o transtorno bipolar que a acompanha desde a juventude e que, por anos, permaneceu sem diagnóstico e sem tratamento. Em entrevista ao podcast “Baby, This Is Keke Palmer”, Jenifer Lewis, atriz com mais de 250 episódios de televisão e 60 filmes, falou abertamente sobre o transtorno bipolar que a acompanha desde a juventude e que, por anos, permaneceu sem diagnóstico e sem tratamento. Em entrevista ao podcast “Baby, This Is Keke Palmer”, Lewis descreveu como o estado maníaco não gerenciado afetou diferentes áreas da sua vida e afirmou que, durante esse período, não reconhecia o que vivia como um problema. “Nunca soube que era um problema. Eu achava que todo mundo era assim”, disse.
O transtorno bipolar é uma condição de saúde mental caracterizada por oscilações intensas de humor entre fases de mania, marcadas por euforia, impulsividade e energia elevada, e fases de depressão, com tristeza profunda e dificuldade de funcionar no cotidiano. Quando não tratado, pode comprometer relacionamentos, carreira e colocar a vida em risco. Lewis foi diagnosticada em 1990, aos 32 anos, depois de um colapso nervoso desencadeado pela epidemia de AIDS, período em que perdeu aproximadamente 200 pessoas do seu círculo próximo, em sua maioria homens gays que integravam os elencos da Broadway. “Você chegava em casa e três tinham morrido. Você chegava em casa e cinco tinham morrido na secretária eletrônica. Foi uma época que não fazia sentido, porque éramos jovens demais para vivenciar aquele tipo de morte”, relatou no podcast.
Foi uma amiga que a convenceu a buscar ajuda, embora Lewis admita que resistiu. “Eu fui chutando e gritando, porque eu a admirava. E você ouve as pessoas que respeita. Mas quando você está naquele estado maníaco, você não ouve ninguém. Você só quer estar no alto. Você quer ser vista. Há um desespero ligado a essa necessidade”, disse. A atriz ressaltou que o estado maníaco cria uma ilusão de controle que dificulta o reconhecimento do problema, e que a disposição para se tratar precede qualquer avanço. “Você tem que querer estar bem. As pessoas não têm paciência. Ficam dizendo ‘não gosto de como isso me faz sentir’. Mas se você quer acelerar num carro e matar alguém na estrada, acho que vale a pena levar um tempo para gerenciar esses remédios.”
Lewis ressaltou que não defende a medicação como único caminho, mas é enfática sobre buscar acompanhamento profissional. “Eu promovo o tratamento. Vá conversar com alguém. Se alguém te tocou, se alguém te abusou, e você não está falando sobre isso, vá buscar ajuda”, disse. A atriz também falou sobre a necessidade de paciência com o processo de ajuste da medicação, explicando que cada organismo responde de forma diferente e que desistir cedo é um dos maiores obstáculos ao tratamento eficaz.
A decisão de tornar públicas essas experiências, incluindo o transtorno bipolar, os abusos sofridos na infância por um pastor e os comportamentos compulsivos da fase sem tratamento, foi descrita por Lewis como uma escolha deliberada de servir a quem ainda não consegue nomear o que vive. “Você acha que eu queria contar ao mundo que tinha transtorno bipolar? Você acha que eu queria contar ao mundo todas essas coisas? Você não sabe por quê? Porque eu queria que você aprendesse com isso. Eu consegui tudo o que queria porque disse a verdade”, afirmou. Lewis documentou essa trajetória no memoir “The Mother of Black Hollywood” e prepara um show solo no qual revisita cada uma dessas passagens, que segundo ela será entregue como legado para as gerações mais jovens.
A coletânea vencedora do Prêmio Jabuti foi escolhida como primeiro título da Manifesto Library, inaugurada na Livraria Lello, no Porto, em Portugal.
“Olhos d’Água”, coletânea de contos da escritora mineira Conceição Evaristo publicada em 2014, foi escolhida como a primeira obra a ocupar as prateleiras da Manifesto Library, biblioteca criada pela cantora britânica Dua Lipa e inaugurada no sábado (27) na Livraria Lello, na cidade do Porto, em Portugal. O espaço é a primeira versão física do Service95 Book Club, clube de leitura mensal comandado pela artista e integrado à sua plataforma de cultura e comportamento, a Service95.
A Manifesto Library nasceu com um acervo dedicado a obras censuradas ou silenciadas ao redor do mundo, reunindo mais de 100 títulos. Entre eles estão “O Conto da Aia” (1985), de Margaret Atwood, e “Felon” (2019), de Reginald Dwayne Betts. Em comunicado à imprensa, Dua Lipa descreveu o espaço como “um santuário para livros que desapareceram, para autores cuja coragem desmascara estruturas de poder e controle, e para leitores que se recusam a aceitar que alguém diga quais livros eles podem ou não ler”. A cantora citou ainda obras banidas por distritos escolares por abordarem raça ou sexualidade, títulos com circulação restrita voltados ao público LGBTQIA+ e casos em que autores pagaram com a própria vida por suas palavras.
Foto: divulgação
Conceição Evaristo esteve presente na inauguração e registrou o momento em suas redes sociais. “Junto à recepção calorosa que recebi na Livraria Lello, na cidade do Porto, em Portugal, tive a grata surpresa de saber que o livro ‘Olhos d’Água’, de minha autoria, foi escolhido como a primeira obra a ocupar as prateleiras da Manifesto Library”, escreveu a autora no Instagram, descrevendo o acervo como dedicado a “vozes silenciadas e histórias esquecidas”, capaz de “preencher lapsos e vazios da história e da literatura”.
Publicada pela Editora Pallas em parceria com a Fundação Biblioteca Nacional, “Olhos d’Água” reúne 15 contos que percorrem o cotidiano de mulheres e homens negros, abordando desigualdade racial, violência urbana e relações de gênero a partir de uma perspectiva enraizada na experiência afro-brasileira. A obra conquistou o Prêmio Jabuti na categoria Contos e Crônicas em 2015 e, em 2025, foi listada entre os 25 melhores livros brasileiros do século XXI pela Folha de S.Paulo. Cinco dos sete livros publicados por Evaristo foram traduzidos para inglês, francês, espanhol, árabe e eslovaco.
A presença do livro em uma biblioteca europeia dedicada a obras censuradas posiciona a produção de Evaristo no debate global sobre acesso à leitura e liberdade de expressão. Em Portugal, “Olhos d’Água” é publicado pela editora Orfeu Negro, que lançou o título em 2024 ao lado de “Canção para Ninar Menino Grande”, romance mais recente da autora. A Manifesto Library funciona em caráter permanente em um dos andares da Livraria Lello, disponibilizando os títulos para leitura presencial pelo público.
Após o clima caótico da Batalha da Goela na estreia da nova temporada de ‘A Casa do Dragão’, hoje (28) estreia o segundo episódio da série na HBO Max, às 22h. Agora, Rhaena Targaryen (Phoebe Campbell) retorna sabendo que só atrapalhou seus aliados do Team Black ao aparecer no confronto montada em Sheepstealer. Mas será que ela ainda pode conseguir domesticar o dragão?
Na obra ‘Fogo & Sangue’, escrita por George R. R. Martin, o dragão selvagem é reivindicado por Nettles, personagem de origem humilde que constrói sua relação com a criatura aos poucos, sem qualquer vínculo com a dinastia Targaryen.
Sheepstealer, conhecido por roubar ovelhas dos habitantes da região de Pedra do Dragão, sempre foi retratado como um dragão indomável e imprevisível. Na série, essa característica segue em destaque logo na aguardada Batalha da Goela, quando Rhaena leva a criatura ao combate e percebe que o vínculo entre os dois ainda precisa ser bem estabelecido.
No livro, Nettles se aproxima de Sheepstealer com paciência, oferecendo ovelhas diariamente até conquistar a confiança do dragão. O gesto, além de simbólico, rompe com a lógica tradicional de que apenas Targaryens seriam capazes de controlar essas criaturas.
Na prática, isso significa que a relação entre Rhaena e Sheepstealer ainda precisa de mais tempo para amadurecer. A série, até aqui, sugere que a conquista da criatura não garante domínio absoluto, o que abre espaço para novos conflitos e instabilidade entre os aliados de Rhaenyra Targaryen na reivindicação ao Trono de Ferro.
Isso torna a trajetória de Rhaena um dos pontos mais sensíveis da temporada.
Eu estava em cima de um trio elétrico na Parada LGBTQIAPN+ de São Paulo, deste ano, quando uma imagem me atravessou mais do que qualquer música, qualquer discurso ou qualquer celebração. No meio de uma multidão que cantava, reivindicava, dançava e comemorava direitos conquistados, havia um jovem negro parado. Sozinho. Com um cartaz simples de papelão nas mãos. Nada elaborado. Nenhum slogan de marketing. Nenhuma produção sofisticada. Apenas uma frase: “Nenhum direito a menos”.
Durante muito tempo, enquanto o trio permaneceu praticamente imóvel, ele continuou ali. E eu não conseguia parar de olhar. Porque, de repente, aquela imagem parecia fazer uma pergunta que atravessa toda a história do movimento LGBTQIAPN+. Onde estão as pessoas negras? Onde estão as travestis negras? Onde estão os homens negros, mulheres negras? Onde estão aqueles que carregam as maiores estatísticas de violência, exclusão e morte? E, principalmente, quem pode estar aqui celebrando?
Quando olhei para a multidão, vi majoritariamente pessoas brancas. Muitos homens brancos. E não se trata de negar a legitimidade de suas existências, de suas dores ou de suas lutas. A questão é outra. Quem ocupa o centro da narrativa? Quem tem visibilidade? Quem aparece nas campanhas? Quem recebe os convites? Quem é lembrado quando chega o mês do orgulho?
É impossível celebrar o orgulho LGBTQIAPN+ sem olhar para a questão racial. E é impossível falar da história desse movimento sem lembrar de Marsha P. Johnson. Durante décadas, a história hegemônica tenta embranquecer até mesmo as origens da revolta que se transformaria no maior símbolo da luta LGBTQIAPN+ mundial. Mas os levantes que ocorreram no entorno do Stonewall Inn não podem ser compreendidos sem reconhecer a presença decisiva de pessoas negras, latinas, travestis, transexuais e drag queens que viviam na margem da margem.
Pessoas que não estavam lutando apenas pelo direito de amar. Estavam lutando para sobreviver. A diferença é profunda. Enquanto parte da população LGBT reivindicava reconhecimento social, outras pessoas reivindicavam o direito de continuar vivas.
Não é coincidência que até hoje as travestis e mulheres trans negras estejam entre as maiores vítimas da violência. Não é coincidência que a pobreza tenha cor. Não é coincidência que a exclusão tenha endereço. Não é coincidência que a morte seja distribuída de forma tão desigual. Por isso, quando observo grandes eventos LGBTQIAPN+, às vezes me pergunto se estamos diante de uma celebração da diversidade ou da vitória de um segmento específico dentro dessa diversidade.
Porque a branquitude possui uma capacidade histórica de ocupar espaços, inclusive aqueles construídos por outras mãos. Aconteceu no samba. Aconteceu na cultura popular. Aconteceu em inúmeros movimentos sociais. E acontece também dentro da comunidade LGBTQIAPN+.
A luta nasceu profundamente marcada por pessoas negras, latinas, pobres e trans. Mas o protagonismo público, os microfones, os contratos publicitários, os espaços institucionais e a representação midiática acabaram sendo concentrados, muitas vezes, nas mãos de pessoas brancas. Mesmo quando pertencem a grupos historicamente discriminados.
Esse é um debate que costuma gerar desconforto porque desafia uma ideia muito difundida: a de que sofrer uma opressão elimina automaticamente a possibilidade de reproduzir outras. Mas não elimina. Um homem branco gay continua sendo branco. Uma mulher branca lésbica continua sendo branca. E a branquitude não desaparece quando alguém sofre discriminação por orientação sexual. Privilégios não são anulados. Eles coexistem. É justamente por isso que tantas vezes vemos pessoas utilizando sua condição de grupo minorizado como uma espécie de certificado automático de consciência social.
Como se sofrer preconceito em uma dimensão impedisse alguém de praticar silenciamentos em outra. A realidade mostra o contrário. Também existem hierarquias dentro da própria diversidade. Também existem exclusões dentro dos grupos excluídos. Também existe racismo dentro da comunidade LGBTQIAPN+. E a pergunta mais dura seja justamente aquela que me acompanhou enquanto observava aquele jovem negro segurando seu cartaz.
Quem está faltando nesta festa? Quem não conseguiu chegar? Quem está trabalhando enquanto outros celebram? Quem está na escala seis por um? Quem está limpando o chão da festa? Quem está servindo? Quem está cuidando das crianças? Quem está cuidando dos idosos? Quem está garantindo que a cidade continue funcionando enquanto a Avenida Paulista se transforma em palco?
Essas perguntas não são novas. Elas atravessam também uma crítica histórica ao feminismo liberal branco. Durante décadas, muitas conquistas femininas foram possíveis porque outras mulheres, quase sempre negras e pobres, permaneceram ocupando os espaços do cuidado. Enquanto algumas conquistavam o direito de ocupar escritórios, universidades e cargos de poder, outras continuavam responsáveis pela cozinha, pela limpeza e pela criação dos filhos que não eram seus.
A liberdade de umas frequentemente repousava sobre o trabalho invisível de outras. Já passou da hora de perguntar se algo semelhante acontece em parte dos espaços LGBTQIAPN+. Porque representatividade sem redistribuição de poder é apenas uma nova forma de desigualdade. E orgulho sem memória corre o risco de virar espetáculo.
A imagem daquele jovem negro continua comigo. No meio de uma multidão celebrando, ele parecia lembrar algo que não deveria ser esquecido.
Nenhum direito a menos. Mas para quem?
Se a resposta não incluir as pessoas negras, especialmente as travestis e mulheres trans negras, então não estamos falando de libertação coletiva. Estamos falando apenas da ampliação dos privilégios de quem já estava mais próximo deles.
A cerimônia acontece neste domingo (28), em Los Angeles, e também terá apresentações de Queen Latifah, Doechii, Tems, Kehlani e Nas.
O BET Awards 2026 confirmou as primeiras apresentações musicais da cerimônia, marcada para este domingo (28), no Peacock Theater, em Los Angeles, nos Estados Unidos. Entre os nomes anunciados, Cardi B é o principal destaque da edição.
A rapper lidera a lista de indicados deste ano com seis indicações pelo álbum Am I the Drama?, reforçando seu protagonismo em uma das principais celebrações da cultura negra no entretenimento.
O evento será apresentado pelo humorista Druski, com MC Lyte retornando como locutora oficial do evento. Queen Latifah, um dos maiores nomes da história do hip-hop, também está confirmada entre as atrações da noite.
A primeira lista de performances reúne ainda artistas como Doechii, Tems, Kehlani, Common, Nas, Ari Lennox, Rick Ross, T.I. e Rapsody. O palco BET Amplified, voltado para artistas em ascensão, receberá a cantora KWN.
A premiação criada em 2001 pela Black Entertainment Television (BET), reconhece artistas, atletas, atores e personalidades que contribuem para a cultura negra, contemplando categorias ligadas à música, cinema, televisão, esporte, moda e cultura digital.
A edição de 2026 acontece no domingo, 28 de junho, e pode receber novos anúncios de performances até o início da cerimônia.
Artista visual de Duque de Caxias apresenta 16 obras inspiradas na mobilidade urbana, no cotidiano e nas relações construídas na Baixada Fluminense
A produção artística da Baixada Fluminense ocupa o centro do Rio de Janeiro a partir de 2 de julho com a exposição “Observe o Espaço-Entre”, do artista visual Conativo. Em cartaz na CAIXA Cultural Rio de Janeiro até 16 de outubro, a mostra reúne 16 pinturas que partem das experiências do artista em Imbariê, bairro onde nasceu e foi criado, em Duque de Caxias.
Antes de chegar à CAIXA Cultural, a mostra foi apresentada em Duque de Caxias. Conativo também participou de exposições coletivas em instituições como o Paço Imperial, o Sesc Niterói e o Museu Ciência e Vida, além de integrar a programação da ArtRio em 2025.
Graduado em Artes Visuais pela UERJ, o artista constrói uma narrativa sobre deslocamentos cotidianos, trabalhadores informais, mobilidade urbana e as formas como a população transforma e ocupa a cidade. As obras apresentam cenas cotidianas para quem vive na Baixada Fluminense, registrando experiências frequentemente ausentes dos espaços tradicionais da arte.
O título da exposição dialoga com a reflexão do intelectual quilombola Nego Bispo em A Terra dá, a Terra quer. Ao abordar diferentes formas de compreender território e pertencimento, a mostra propõe um olhar construído por quem vive nesses espaços, rompendo com perspectivas que historicamente reduziram a periferia a estereótipos.
“As pinturas falam de um deslocamento que faz parte da vida de muita gente daqui. Então, acaba sendo simbólico também que as obras agora façam esse mesmo movimento, saindo de Duque de Caxias e chegando ao Centro do Rio”, afirma Conativo.
A exposição demonstra como esses territórios produzem conhecimento, memória e linguagem visual próprias a partir de pinturas que registram construções urbanas, fluxos de transporte, vendedores informais e cenas que fazem parte da rotina de milhares de pessoas da região metropolitana do Rio de Janeiro.
A mostra também investe em acessibilidade. Todas as obras contam com audiodescrição, e a pintura “Vitral #1 Surfistas de Trem” possui placa tátil para visitação.
Ao longo da programação, serão realizadas visitas mediadas com o artista e o curador João Paulo Ovidio, uma oficina de impressão artesanal baseada em técnicas de gravura e um bate-papo sobre os temas presentes na exposição, seguido do lançamento do catálogo físico.
A Coletiva Tempero de Oyá anunciou o lançamento da Cartilha Tempero de Oyá, uma publicação digital e inteiramente gratuita que coroa meses de encontros, trocas de saberes e fortalecimento comunitário na periferia de São Paulo. O material é o resultado do projeto “Sabores do Tempo – Conexões Entre o Saber e o Fazer”, realizado em Perus, na Zona Noroeste da capital paulista.
Além de receitas, o documento se consolida como um manifesto de resistência, identidade e valorização do patrimônio cultural negro e periférico. Nas páginas da cartilha, os leitores encontram pratos repletos de afeto e história, como Moqueca de Banana-da-Terra, Baião de Dois e Escondidinho de Mandioca com Carne-Seca, além de reflexões profundas sobre ancestralidade e território.
Ao longo do projeto, o coletivo colocou em pauta discussões urgentes e necessárias para o cenário gastronômico atual. Um dos grandes momentos do projeto foi a roda de conversa liderada pela chef e sommelière Dani Souza, que debateu o “Racismo Alimentar”. O encontro discutiu os impactos estruturais que limitam o acesso da população negra à alimentação saudável, a histórica invisibilização dos saberes culinários de matriz africana e a necessidade urgente de fomentar a representatividade negra nos espaços de alta gastronomia e comando de cozinhas.
O percurso de construção da cartilha contou ainda com debates ricos sobre “Nutrição e Saúde”, mediado pela educadora social Valéria Pássaro, e “Soberania Alimentar: Plantar e Colher”, comandado pela bióloga Bruna Macedo. Todos os encontros foram gratuitos e contaram com tradução em LIBRAS.
Criada em 2015, a Coletiva Tempero de Oyá nasceu em Perus para homenagear a horta de Dona Iracema e a força ancestral da orixá Iansã.
Realizada com o apoio do Programa VAI, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, a cartilha agora serve como um convite digital para que outras comunidades e territórios acessem e repliquem essa tecnologia social de cuidado e pertencimento através da comida.
Zezé Motta completa 82 anos em 27 de junho. Relembre 10 personagens que definiram sua trajetória no cinema e na TV, de Xica da Silva a A Nobreza do Amor.
Zezé Motta completa 82 anos nesta sexta-feira, 27 de junho de 2026, consolidada como uma das artistas mais importantes da história do audiovisual brasileiro. Com carreira iniciada nos palcos em 1967 e estreia na televisão em 1968, a atriz e cantora natural de Campos dos Goytacazes acumulou mais de 70 filmes, 50 produções para a TV e mais de dez discos, construindo uma trajetória que atravessou ditadura militar, redemocratização e transformações profundas na representação de pessoas negras nas telas brasileiras.
O marco central da carreira veio em 1976, quando Zezé protagonizou “Xica da Silva”, dirigido por Cacá Diegues. O filme levou mais de três milhões de espectadores aos cinemas, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema brasileiro e garantiu à atriz o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Brasília, além do Coruja de Ouro, o Prêmio Air France e o Prêmio Governador do Estado. A repercussão internacional do longa projetou o nome de Zezé para além das fronteiras do país e estabeleceu um ponto de referência incontornável para discussões sobre protagonismo negro e representação de mulheres negras no cinema nacional.
Ao longo de mais de cinco décadas, Zezé construiu um repertório de personagens que ora desafiaram os limites impostos ao audiovisual negro brasileiro, ora revelaram as contradições de uma indústria que tardou a oferecer papéis à altura de seu talento. Algumas de suas principais obras mostram como a atriz atravessou gêneros, emissoras e décadas sem abrir mão de personagens com profundidade narrativa.
Shirley em Vai Trabalhar, Vagabundo Cinema, 1973
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Doméstica da Zona Sul que cruza o caminho do malandro Dino no Jockey Club e movimenta o enredo da comédia dirigida por Hugo Carvana, com trilha de Chico Buarque. O filme venceu o Festival de Gramado na categoria Melhor Filme.
Xica da Silva em Xica da Silva Cinema, 1976
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Mulher escravizada que conquista a alforria ao seduzir o contratador de diamantes João Fernandes e ascende socialmente na Minas Gerais do século XVIII. O filme levou mais de três milhões de espectadores aos cinemas e rendeu a Zezé o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Brasília.
Dandara em Quilombo Cinema, 1984
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Companheira de Zumbi dos Palmares e figura central da resistência negra no Quilombo dos Palmares do século XVII. A produção, co-realizada com a França, foi selecionada para a disputa da Palma de Ouro no Festival de Cannes.
Sônia em Corpo a Corpo TV Globo, 1984
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Arquiteta de classe média bem-sucedida que se envolve romanticamente com um homem branco, filho de um milionário. A trama de Gilberto Braga foi a primeira no horário nobre da Globo a colocar um relacionamento inter-racial no centro da narrativa.
Fátima em A Próxima Vítima TV Globo, 1995
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Matriarca de uma família negra de classe média alta em Copacabana. A novela foi pioneira ao apresentar esse perfil familiar no horário nobre brasileiro, algo raro na dramaturgia nacional até então.
Conceição em Orfeu Cinema, 1999
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Personagem do filme que transpôs o mito grego para o Carnaval do Rio de Janeiro contemporâneo, com direção de Cacá Diegues e elenco que reuniu parte dos maiores nomes do cinema brasileiro dos anos 1990.
Carolina Maria de Jesus em Carolina Cinema, 2003
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Interpretação da escritora autora de “Quarto de Despejo” no curta de Jeferson De, premiado no Festival de Gramado e ponto de partida de uma parceria entre a atriz e o diretor que resultou nos longas “Bróder” (2010) e “M8: Quando a Morte Socorre a Vida” (2019).
Nair em 3% Netflix, 2016
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Personagem presente em todas as temporadas da primeira série brasileira produzida pela Netflix, distopia que alcançou audiência em mais de 190 países e tornou-se a série de língua não inglesa mais assistida nos Estados Unidos durante parte de sua exibição.
Ilza em M8: Quando a Morte Socorre a Vida Cinema, 2020
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Personagem do filme dirigido por Jeferson De que acompanha a trajetória de um jovem negro calouro de medicina em uma universidade federal. Zezé foi indicada ao Grande Prêmio Brasileiro de Cinema na categoria Melhor Atriz Coadjuvante pela atuação. O longa entrou para o catálogo da Netflix em 2021 e figurou entre os mais assistidos no Brasil na plataforma.
Dona Menina em A Nobreza do Amor TV Globo, 2026
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Benzedeira e parteira de Barro Preto, no Nordeste, figura de sabedoria e referência espiritual da comunidade na novela das seis ambientada entre o reino fictício africano de Batanga e o interior brasileiro, com elenco majoritariamente negro.
Com a proposta de oferecer acolhimento e cuidado especializado para a população negra no cenário da saúde mental, foi lançada nesta semana em São Luís (MA), a plataforma digital do projeto ‘Pense Minha Cor’. O hub de inovação negra idealizado pelos psicólogos maranhenses Rômulo Mafra Cruz e Luara Matos, nasce da urgência de estruturar uma abordagem terapêutica com consciência racial, capaz de acolher os impactos psicossociais do racismo sem invalidar o sofrimento clínico dos pacientes.
Além dos profissionais de saúde mental (psicólogas, psiquiatras e psicoterapia), a iniciativa ainda propõe integração com outros profissionais como advogadas, contabilidade, educação, eventos e afroturismo. Todos os atendimentos feitos por profissionais negros e indígenas, com valores acessíveis.
“O ponto de partida é admitir que a psicologia, enquanto ciência e profissão, tem uma dívida com a população negra”, afirmam os fundadores em entrevista ao Mundo Negro. “A falta de referências negras e indígenas durante a formação (não por falta delas) fez por muito tempo com que prática e teoria se afastasse do povo que mais precisa de assistência devido ao histórico de violências do país”, destacam.
Rompendo com esse distanciamento, os idealizadores ressaltam que a prática da plataforma é respaldada pelas diretrizes éticas do Conselho Federal de Psicologia (CFP), como as resoluções que estabelecem normas de atuação contra o preconceito racial e vedam práticas de racismo religioso. Para Rômulo Mafra Cruz, a importância de pautar essas normativas ganha um contorno ainda mais significativo por sua própria trajetória. “Estou conselheiro federal de psicologia — o primeiro homem negro Rasta e maranhense da história”, afirmou.
Embora seja uma das três cidades com maior proporção de pessoas negras no país, a capital maranhense ainda reflete profundas marcas de desigualdade social. Segundo os psicólogos, a realidade local é marcada por micro e macroagressões cotidianas que comprometem a saúde mental coletiva. A proposta, portanto, visa descentralizar o acesso à saúde mental de qualidade, oferecendo atendimento acessível para comunidades em situação de vulnerabilidade, ao mesmo tempo em que valoriza e remunera dignamente psicólogas afro-brasileiras e indígenas.
Um dos grandes diferenciais da Pense Minha Cor é a compreensão de que o enfrentamento a um problema estrutural como o racismo exige estratégias multidisciplinares. Diante da histórica dificuldade de acesso a direitos básicos por parte da população negra, a plataforma uniu o cuidado da mente à defesa legal. Os resultados dessa articulação já começam a se consolidar na prática. “Recentemente, tivemos uma vitória judicial de um caso de racismo, através de advogados que atuam no site”, celebraram os fundadores.
O fortalecimento da autoestima também ganham destaque por meio de roteiros afrocentrados. Em uma parceria com a empresa Cidade Griot, idealizada pelo professor Marcelo Cardoso — guia credenciado, mestrando em Estudos Africanos e Afro-Brasileiros pela UFMA e uma das principais referências do setor no país —, a plataforma aposta no afroturismo como ferramenta terapêutica.
“Nosso trabalho com o afroturismo tem como pilares a educação, a valorização da memória e a reparação histórica, promovendo experiências que evidenciam a riqueza da história, da cultura e dos patrimônios afro-brasileiros e indígenas, fortalecendo identidades e ampliando o reconhecimento das contribuições da população negra para a formação da sociedade brasileira”, concluem.
Entenda o que foi o levante de Stonewall em 1969, o papel central da comunidade negra e trans e por que essa história é a origem do Dia do Orgulho LGBTQIA+.
Antes da madrugada de 28 de junho de 1969, a vida de pessoas LGBT em Nova York era governada por um sistema de leis e práticas policiais que criminalizavam sua presença em praticamente todo espaço público. Em 49 dos 50 estados americanos, atos homossexuais eram ilegais. Em Nova York, a própria existência de um estabelecimento que servisse bebida a pessoas declaradamente homossexuais infringia as normas do State Liquor Authority. Com base nessa legislação, bares e boates frequentados por pessoas LGBT operavam de forma precária, geralmente controlados pela máfia, que pagava propinas a policiais corruptos e mantinha os frequentadores em uma espécie de chantagem silenciosa. O Stonewall Inn, localizado na Christopher Street, no bairro de Greenwich Village, era um desses lugares.
O bar aceitava qualquer pessoa que a sociedade rejeitava: jovens negros e latinos sem teto, drag queens, mulheres trans, homens gays pobres. Era um dos poucos bares da cidade que permitia dançar e que não exigia que os frequentadores provassem identidade ou demonstrassem ser heterossexuais. De acordo com registros da Biblioteca do Congresso americano, o Stonewall era invadido pela polícia em média uma vez por mês na época. As batidas seguiam um padrão: policiais entravam, revistavam as pessoas, prendiam aquelas que violavam leis que proibiam o uso de roupas do gênero oposto e levavam os funcionários. Os donos eram avisados com antecedência e praticamente não sofriam consequências financeiras. Os frequentadores, não.
A madrugada de 28 de junho
Na madrugada de sexta-feira para sábado, 28 de junho de 1969, oito policiais à paisana entraram no Stonewall pouco após a meia-noite. A operação havia sido planejada para fechar definitivamente o bar, cinco dias depois de uma batida anterior que confiscou estoque de bebidas e prendeu funcionários. Naquela noite, o bar estava lotado. Os policiais começaram a verificar identidades, a prender funcionários e a separar as pessoas travestidas para detenção. Enquanto isso, quem foi liberado não se dispersou. Ficou do lado de fora. A multidão foi crescendo.
O que aconteceu a seguir é documentado por relatos de testemunhas, reportagens publicadas ainda em julho de 1969 no Village Voice e no New York Daily News, e pelos registros policiais tornados públicos em 2009 pelo portal OutHistory a partir de documentos obtidos via Lei de Liberdade de Informação. As versões divergem em detalhes, mas convergem no essencial: a multidão resistiu. Garrafas foram atiradas. Uma viatura foi danificada. Os policiais recuaram para dentro do bar e foram sitiados por horas. A resistência durou seis dias, com confrontos noturnos que se espalharam pelas ruas ao redor de Christopher Street e Christopher Park.
Foto: stonewallcdc.org
O historiador David Carter, autor de Stonewall: The Riots That Sparked the Gay Revolution, identificou o que chamou de hierarquia da resistência naquela noite: quem tinha menos a perder reagiu primeiro. Eram os jovens de rua, os sem-teto, as drag queens negras e latinas que a política gay posterior tentaria apagar da narrativa.
Marsha P. Johnson nasceu em 24 de agosto de 1945, em Elizabeth, Nova Jersey, quinta de sete filhos de uma família negra e trabalhadora. Desde pequena usava roupas femininas, algo que a família reprimia. Aos 17 anos, chegou a Manhattan com 15 dólares e uma bolsa de roupas. Nas ruas de Greenwich Village, construiu uma identidade que ela própria descreveu como a de uma drag queen, uma transvestite e uma pessoa gay, usando os pronomes she/her. O termo transgender ainda não estava em uso comum naquela época. Nas décadas seguintes, historiadores e ativistas passaram a reconhecê-la como mulher trans. Era figura conhecida na comunidade LGBT de Nova York, frequentadora do Stonewall, reconhecível pelos penteados floridos e pelo estilo extravagante que ela mesma criava com achados de brechó.
Foto:Reprodução/Netflix)
Sobre sua participação na madrugada de 28 de junho, Johnson disse em uma entrevista de 1987 ao historiador Eric Marcus que havia chegado ao Stonewall por volta das 2 da manhã, quando a resistência já estava em curso. Relatos de outros presentes, coletados por Carter, descrevem Johnson atirando um copo de shot contra um espelho enquanto gritava que queria seus direitos civis. O próprio Carter observou inconsistências nos registros e especulou que parte da narrativa pode ter sido censurada por ativistas que temiam que creditar uma mulher trans negra como protagonista dos acontecimentos prejudicasse o movimento. Carter a identificou como quase indiscutivelmente entre os primeiros a reagir com violência naquela noite e possivelmente a primeira.
Foto: stonewallcdc.org
Nascida em 2 de julho de 1951 no Bronx, Sylvia Rivera era filha de pai porto-riquenho e mãe venezuelana. Ficou órfã de mãe aos três anos, foi criada pela avó e fugiu de casa aos 11, encontrando abrigo entre drag queens nas ruas do centro de Nova York. Com 17 anos, em junho de 1969, estava nas imediações do Stonewall quando a resistência começou. Rivera afirmou ter jogado o segundo coquetel molotov da noite. Seu papel exato, como o de Johnson, permanece disputado pelos historiadores, com alguns relatos indicando que ela talvez não estivesse presente no início dos confrontos. O que não é disputado é que ambas estiveram na linha de frente nos dias que se seguiram, nas assembleias, nos protestos e nas organizações que surgiram a partir de Stonewall.
Rivera foi vaiada ao tentar discursar no Christopher Street Liberation Day Rally de 1973, o quarto aniversário do levante. Ela tomou o microfone de qualquer forma e gritou à multidão: “Se não fossem as drag queens, não haveria movimento de libertação gay. Nós somos as primeiras da linha.” A Smithsonian Institution registrou o episódio como símbolo da contradição do movimento: as pessoas que mais arriscaram foram as primeiras a ser excluídas das suas conquistas. Rivera morreu de câncer em 19 de fevereiro de 2002, aos 50 anos. Em 2015, um retrato seu foi adicionado à National Portrait Gallery do Smithsonian, tornando-a a primeira ativista trans a integrar o acervo.
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Miss Major Griffin-Gracy, nascida em 25 de outubro de 1946 em Chicago, era outra presença regular no Stonewall. Mulher trans negra, estava dentro do bar na noite da batida e descreveu em entrevistas posteriores como aquela noite foi diferente das anteriores: pela primeira vez, as pessoas decidiram não ir embora. Em uma reportagem de 2014 ao Bay Area Reporter, ela disse que o Stonewall proporcionava às mulheres trans um dos poucos espaços de conexão social disponíveis, já que a maioria dos bares gays não as admitia. Durante a resistência, um policial quebrou sua mandíbula. Ela foi presa e, depois de Stonewall, cumpriu pena de cinco anos decorrente de outra prisão.
Ao longo de décadas, Griffin-Gracy trabalhou como diretora executiva do Transgender Gender Variant Intersex Justice Project, em San Francisco, com foco em mulheres trans negras e não binárias encarceradas. Ela recusou consistentemente a romantização de Stonewall: “As pessoas colocam tanto em ver o Stonewall como símbolo… Estávamos lutando por nossas vidas. Ainda nos estão matando; ainda não nos estão dando o respeito que merecemos por aguentar tudo isso esses anos todos”, disse em seu livro de memórias, publicado em 2023. Griffin-Gracy morreu em 13 de outubro de 2025, aos 78 anos, em Little Rock, Arkansas.
Em 1970, Johnson e Rivera fundaram o Street Transvestite Action Revolutionaries, o STAR, com sede no Greenwich Village. A primeira STAR House funcionou no interior de um caminhão abandonado. Era o primeiro abrigo LGBT para jovens nas ruas da América do Norte e a primeira organização do gênero liderada por mulheres trans de cor. Usando o dinheiro que ganhavam com performances drag e trabalho sexual, Johnson e Rivera alimentavam, vestiam e abrigavam os jovens que acolhiam. Rivera descreveu em uma entrevista ao National Portrait Gallery como as duas sustentavam o espaço enquanto eram elas mesmas vulneráveis: “Marsha e eu decidimos que era hora de nos ajudar mutuamente e ajudar nossos filhos. Alimentamos pessoas, vestimos pessoas. Mantivemos o prédio funcionando. Saímos e trabalhamos nas ruas. Pagamos o aluguel.” A STAR House fechou em 1971, mas o modelo inspirou iniciativas posteriores.
A primeira marcha e o nascimento do Orgulho
Em 28 de junho de 1970, um ano exato depois do início da resistência no Stonewall, Nova York realizou sua primeira marcha. Chamada de Christopher Street Liberation Day, ela percorreu as ruas de Greenwich Village até Central Park e foi organizada pelo Christopher Street Liberation Day Committee. Simultâneas a essa marcha, aconteceram manifestações em Los Angeles e Chicago. Era o nascimento do que se tornaria o Mês do Orgulho, celebrado hoje em junho em todo o mundo. No ano seguinte, marchas aconteceram em Boston, Dallas, Milwaukee, Londres, Paris, Berlim Ocidental e Estocolmo.
A narrativa dominante sobre Stonewall tendeu, ao longo das décadas seguintes, a apagar as pessoas que mais arriscaram naquela madrugada. Mulheres trans negras e latinas, jovens sem teto, trabalhadores sexuais: eram eles que não tinham identidade para esconder, que não tinham emprego ou reputação a proteger, que reagiram primeiro justamente porque já viviam sob o peso mais pesado da perseguição. A Biblioteca do Congresso americano observa, em seu guia de recursos históricos sobre o levante, que Stonewall representou uma ruptura principalmente para pessoas brancas e cisgênero, porque pessoas negras e de gênero não-conforme nunca tiveram o privilégio de esconder suas identidades marginalizadas.
Marsha P. Johnson foi encontrada morta no Rio Hudson em 6 de julho de 1992, aos 46 anos. A morte foi inicialmente registrada como suicídio por afogamento. Em 2012, após pressão de ativistas, a investigação foi reaberta como homicídio. Permanece sem solução. Em 2020, o estado de Nova York renomeou o East River State Park como Marsha P. Johnson State Park, o primeiro parque estadual do estado a receber o nome de uma pessoa abertamente LGBT. O Stonewall Inn foi declarado monumento nacional pelos Estados Unidos em 2016, durante o governo Barack Obama, tornando-se o primeiro monumento nacional americano dedicado à história e à luta LGBT.
Fontes: Biblioteca do Congresso americano (LGBTQIA+ Studies Resource Guide); National Women’s History Museum; Smithsonian Institution; Encyclopaedia Britannica; History.com; National Geographic; David Carter, Stonewall: The Riots That Sparked the Gay Revolution; Marc Stein, The Stonewall Riots: A Documentary History (NYU Press, 2019); OutHistory.org; National Portrait Gallery, Smithsonian Institution; The 19th News; Wikipedia (versões em inglês com referências acadêmicas verificadas).
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