Vencedor do Festival de Gramado, longa dirigido e roteirizado por Grace Passô acompanha uma família negra atravessada pelo luto e por um segredo guardado pelo filho caçula.
O cinema nacional ganha uma nova história sobre família, luto e os mistérios que atravessam aquilo que nem sempre pode ser dito. “Nosso Segredo”, primeiro longa-metragem dirigido e roteirizado por Grace Passô, chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (27), após ser consagrado na 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado.
O longa acompanha uma família negra que tenta se reorganizar depois de uma perda. Enquanto cada integrante encontra sua própria maneira de lidar com o luto, o filho caçula guarda um segredo que pode transformar a trajetória da família.
A diretora utiliza elementos de mistério e fantasia durante a obra, para construir uma narrativa sobre silêncios, sentimentos e dimensões da experiência que escapam ao que é racionalmente explicado.
Em entrevista concedida ao AdoroCinema, Grace Passô explicou que o mistério funciona como uma maneira de revelar aquilo que permanece não dito dentro daquela família.
“Esse mistério de alguma forma me ajudou a dar uma dimensão do que não é dito. Mais do que está ali”, afirmou Grace.
Para a diretora, a dimensão enigmática de “Nosso Segredo” também se relaciona à presença das artes e culturas negras na construção de uma percepção ampliada da vida.
Grace explica que buscou trabalhar com uma dimensão espiritual que não está necessariamente ligada à religiosidade, mas à própria consciência e à percepção de que existem aspectos da vida que permanecem misteriosos.
No filme, essa perspectiva aparece na sensação de que a família está sendo observada e, de alguma maneira, protegida por uma dimensão que ultrapassa aquilo que os personagens conseguem compreender.
A escolha também contribui para que o luto seja apresentado como uma experiência subjetiva, marcada por silêncios, estranhamentos e diferentes formas de sentir.
Quando o assunto vira sentimento
A diretora também destaca uma escolha importante em sua trajetória artística: evitar que temas sociais sejam tratados apenas pela racionalização ou pelo didatismo.
“Nosso trabalho é tornar o assunto um sentimento”, explicou Grace Passô durante a conversa com o AdoroCinema.
Essa perspectiva ajuda a entender a construção do longa. Em vez de apresentar o luto apenas como tema, o filme procura criar uma experiência sensorial e subjetiva para quem acompanha aquela família.
A presença de uma família negra no centro da narrativa também desloca o olhar para suas relações, afetos e formas de elaborar uma experiência íntima, sem reduzir seus personagens às questões sociais que consequentemente atravessam suas vidas.
Efraim Santos se destaca no elenco
Um dos personagens centrais da trama é interpretado por Efraim Santos, que tinha apenas seis anos durante as filmagens.
Para Grace, trabalhar com a criança trouxe uma contribuição particular para o processo de criação. A diretora conta que a espontaneidade de Efraim fazia com que a equipe percebesse rapidamente quando alguma situação no set não funcionava.
“Quando algo é chato, ele diz, quando cansa, ele diz”, contou.
A presença do ator mirim, segundo ela, também ajudou a estabelecer uma relação mais sincera com a realização do filme.
“Nosso Segredo” chega aos cinemas depois de sua vitória no Festival de Gramado, garantindos os Kikitos de Melhor Fotografia e Direção de Arte. A produção também integra a lista de filmes brasileiros habilitados a concorrer a uma vaga na disputa pelo Oscar 2027.
No Brasil, cotas não criam nenhum privilégio. Elas procuram reduzir os efeitos de um sistema que, durante séculos, distribuiu privilégios de maneira racialmente desigual.
Se pessoas negras foram impedidas de acumular patrimônio, acessar educação de qualidade e ocupar espaços de poder, reservar vagas é uma forma de corrigir (ainda que parcialmente), as condições de uma competição que nunca foi justa.
Igualdade formal não basta
A Constituição afirma que todos são iguais perante a lei. Mas essa igualdade formal não significa que todas as pessoas partam do mesmo lugar. O artigo 3º da Constituição também estabelece como objetivos da República a redução das desigualdades sociais e regionais e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação. E é justamente essa diferença entre igualdade formal e igualdade material que sustenta juridicamente as ações afirmativas. A primeira diz: “a lei deve ser igual para todos”. A segunda pergunta: “o que é necessário para que pessoas submetidas a desigualdades concretas possam, de fato, acessar os mesmos direitos?”.
Em 2012, ao julgar a ADPF 186, o Supremo Tribunal Federal reconheceu por unanimidade a constitucionalidade das cotas raciais da Universidade de Brasília. O entendimento foi que as cotas não violam a isonomia; ao contrário, podem concretizá-la ao enfrentar desigualdades históricas e estruturais. Ou seja, as cotas são uma das ferramentas possíveis para transformar uma igualdade apenas declarada em uma igualdade efetiva.
O ponto de partida nunca foi o mesmo
A população negra não é simplesmente “menos bem-sucedida” devido ao acaso ou uma competição neutra. Ela foi escravizada, desumanizada e, depois da abolição, abandonada sem política ampla de integração econômica, educacional ou habitacional. A abolição não distribuiu terra, renda, moradia, escolarização ou indenização às pessoas libertas. Enquanto isso, diferentes políticas estatais e projetos eugenistas favoreceram a imigração europeia e a incorporação de trabalhadores brancos ao projeto de “modernização” nacional. O racismo brasileiro não terminou quando a escravidão foi formalmente abolida; ele continuou organizando o acesso ao trabalho, à educação, à propriedade e à representação.
É nesse sentido que se pode afirmar que no Brasil, ser branco funciona como patrimônio social. Não significa que toda pessoa branca seja rica ou que toda pessoa negra seja pobre. Significa que a branquitude foi historicamente associada à humanidade plena, à respeitabilidade, à competência e ao direito de ocupar determinados lugares. Todo branco brasileiro tem o privilégio da cor. Esse patrimônio não é apenas financeiro, ele também envolve redes de contato, sobrenomes, segurança em espaços institucionais, acesso a escolas, heranças materiais e simbólicas e menor exposição à discriminação racial. Da mesma maneira, a população negra herdou não somente menos dinheiro, mas também as consequências de uma exclusão transmitida entre gerações.
Educação é reparação
A educação é uma das principais formas de interromper a reprodução da desigualdade. Mas não se pode tratar o acesso à universidade como a maior solução dos problemas, porque até chegar à universidade exige diferentes obstáculos para a pessoa negra enfrentar. Antes de disputar uma vaga no ensino superior, estudantes enfrentam escolas com estruturas diferentes, desigualdade territorial, necessidade de trabalhar e sustentar toda uma família, insegurança alimentar, menor acesso a cursos de idiomas, preparação para vestibular e capital cultural. Além disso, famílias negras foram sistematicamente impedidas de acumular recursos que pudessem financiar a trajetória educacional de seus descendentes.
A Lei nº 14.723/2023, que reformulou a Lei de Cotas, reconhece parte dessa realidade ao articular critérios de escola pública, renda, raça, deficiência, pertencimento indígena e quilombola. A legislação também passou a considerar a proporção desses grupos em cada unidade da federação. Assim, a cota racial não afirma que toda pessoa negra é pobre ou que nenhuma pessoa branca enfrenta dificuldades. Ela reconhece que raça continua sendo um fator estruturante das oportunidades no Brasil, inclusive quando se controla o nível de escolaridade. Existiu uma norma do período colonial brasileiro em que a ascendência negra era tratada oficialmente como um impedimento social, um “defeito de cor” que impedia que negros ocupassem posições de destaque
Os dados do IBGE são reveladores: em 2022, trabalhadores brancos recebiam, em média, R$ 20,00 por hora, enquanto pretos e pardos recebiam R$ 12,40. A desigualdade permanecia entre pessoas com ensino superior completo: R$ 35,30 por hora para brancos e R$ 25,70 para pretos e pardos. Ou seja, a educação é fundamental, mas não elimina sozinha o racismo. Mesmo depois de alcançar a universidade, pessoas negras continuam enfrentando barreiras no mercado de trabalho e diferenças de remuneração. Isso demonstra que o problema não está apenas na ““falta de qualificação”” da população negra.
O dispositivo de racialidade, um conceito criado pela filósofa e ativista Sueli Carneiro não atua somente sobre a renda ou sobre o acesso ao trabalho. Ele também produz interdições intelectuais, morais e políticas, dificultando que pessoas negras sejam reconhecidas como sujeitos legítimos de conhecimento, autoridade e direitos.
Representatividade também transforma instituições
O artigo questiona por que as cotas deveriam alcançar a pós-graduação, a docência, o serviço público e outros espaços profissionais. A resposta é simples: porque a desigualdade racial também está presente nesses espaços. Não basta viabilizar o acesso de pessoas aos estudos e qualificação de ensino superior, é preciso que elas estejam nas salas de aula como professoras, nos hospitais como médicas, nos tribunais como magistradas, nas universidades como pesquisadoras, nas redações como editoras e nos cargos de decisão como gestoras.
A presença negra nesses lugares produz efeitos concretos:
– amplia os repertórios e os olhares das instituições;
– reduz a naturalização de perspectivas exclusivamente brancas;
– cria referências para crianças e jovens negros;
– ajuda a contribuir com um ambiente com viéses antirracista
– abre caminhos para as próximas gerações.
Isso não significa afirmar que toda pessoa negra terá automaticamente uma atuação antirracista nesses espaços, Uma vez que pessoas negras não são um grupo homogêneo, e representatividade não substitui formação política, fiscalização ou compromisso institucional. Mas, influencia na diversidade de vivências, repertórios e histórias em ambientes embranquecidos e elitizados.
Vale pensar também que a ausência sistemática de pessoas negras em posições de autoridade também nunca foi neutra. Seguindo o questionamento do artigo que afirma que hospitais, universidades ou empresas encontram dificuldades em encontrar profissionais negros, a pergunta precisa ser: onde estão procurando? Quais redes de recrutamento utilizam? Quem teve acesso às oportunidades de formação? Quais critérios são considerados “excelência” e quem historicamente teve condições de se adequar a tais excelências?
Se há uma residência médica que pretende contratar profissionais negros e a instituição afirma que eles não existem, a resposta não deve ser desistir da política. Deve ser construir mecanismos de busca, divulgação e ampliação do acesso. Profissionais negros existem, e uma lista pública de médicas, médicos, pesquisadoras e especialistas negros pode justamente enfrentar a invisibilidade produzida pelas redes profissionais historicamente brancas. E qual rede está disposta a mudar o formato de busca e políticas de contratação?
O problema não é a cota, mas a fraude
O artigo também pontua a fraude de cotas como um dos motivos da “contaminação da sociedade”. Casos de fraude, erros em bancas de heteroidentificação e disputas sobre pertencimento racial precisam ser discutidos com a devida seriedade. Porém, o fato de existir problemas de implementação não prova que a política seja ineficaz. Toda política pública pode ser fraudada, mal administrada ou aperfeiçoada. Isso ocorre com benefícios previdenciários, concursos, licitações e programas sociais. Ninguém conclui, por causa disso, que o Estado deve abandonar esses direitos. O caminho é aperfeiçoar os procedimentos que qualificam a boa implementação das políticas.
A heteroidentificação deve seguir critérios transparentes, direito de recurso, formação das bancas, diversidade entre seus integrantes e respeito às especificidades regionais e históricas da classificação racial brasileira. Também é necessário compreender que raça, no Brasil, é principalmente uma experiência social. A maneira como uma pessoa é percebida e tratada racialmente interfere em suas oportunidades. O caso de Fabiana Cozza, citado no artigo, mostra uma disputa importante sobre colorismo, negritude e representação. Mas um episódio de conflito dentro do movimento negro não autoriza concluir que a luta por ações afirmativas seja racista “entre iguais”. O debate deve reconhecer as diferenças entre pessoas pretas, pardas e negras, sem transformar essas tensões em argumento para preservar e retirar responsabilidades deinstituições brancas.
Cotas são temporárias, mas o racismo é estrutural
A crítica de que as cotas poderiam durar indefinidamente ignora que as próprias políticas afirmativas costumam prever revisão, avaliação e aperfeiçoamento. A Lei nº 15.142/2025, por exemplo, ampliou para 30% a reserva de vagas em concursos públicos federais para pessoas negras, indígenas e quilombolas. A proposta não é criar uma sociedade organizada permanentemente por reservas de vagas para negros e pardos, e sim gradualmente modificar as condições que tornaram essas reservas necessárias. Quem sabe um dia, em um Brasil realmente igualitário, talvez as cotas deixem de ser necessárias. Mas esse dia não chegará pela simples suspensão das políticas porque pessoas que não se aplicam à elas estão se sentindo “injustiçadas”. A não necessidade da política de cotas dependerá de mudanças profundas: distribuição de renda, educação pública de qualidade, combate à discriminação, acesso à saúde e à moradia, democratização das instituições e transformação da cultura organizacional do país.
As cotas não são o ponto final da reparação histórica e sim uma medida dentro de um processo muito mais amplo.
Reparação não é privilégio
A ideia de que as cotas criam “novos núcleos de privilégio” tenta inverter a história a partir de justificativas incabíveis à realidade brasileira. Privilégio mesmo seria ter pertencido, por gerações, ao grupo racial mais protegido pelas instituições e ainda poder interpretar essa vantagem como resultado exclusivamente individual. O famoso “mérito” o que seria uma grande coincidência somente corpos brancos serem esforçados e merecedores de tantos impactos positivos em suas vidas. As leis de cotas não entregam diploma, não elimina as avaliações, não facilitam a formação profissional e não transformam uma pessoa em médica, professora ou pesquisadora sem que ela cumpra as exigências e se qualifique em sua área. As cotas somente reduzem as barreiras de acesso em um país no qual a excelência foi estruturalmente e institucionalmente definida a partir de trajetórias brancas, redes brancas e instituições brancas.
Para Abdias do Nascimento, intelectual negro responsável por grande parte do protagonismo negro nas esferas culturais e de debates políticos na década de 40, i discurso de democracia racial funciona como uma narrativa que encobre a continuidade do racismo e dificulta que a sociedade reconheça a marginalização da população negra.
A pergunta, portanto, não deveria ser por que pessoas negras estão ocupando esses espaços e sim questionar por que essas pessoas demoraram tanto para chegar e por que ainda são tão poucas? A sociedade brasileira não está “contaminada” pelas cotas, ela está ofendida por ser obrigada a enxergar uma contaminação muito mais antiga: a desigualdade racial que durante décadas foi tratada como natural, meritocrática e invisível. Reconhecer que pessoas negras foram marginalizadas não é dividir o país. É admitir que o país já foi dividido, pela escravidão, pelo racismo e pela distribuição desigual de oportunidades. As ações afirmativas não inventam essa realidade da sociedade partida, elas tentam repará-la.
Referenciais teóricos para aprofundar
– **Abdias do Nascimento** — *O genocídio do negro brasileiro*: denúncia da marginalização negra após a abolição e crítica ao mito da democracia racial.
– **Lélia Gonzalez** — textos sobre racismo, sexismo, amefricanidade e formação social brasileira.
– **Sueli Carneiro** — *Dispositivo de racialidade*: análise de como instituições produzem hierarquias raciais e definem quem é reconhecido como sujeito de direitos.
– **Florestan Fernandes** — *A integração do negro na sociedade de classes*: estudo sobre a inserção desigual da população negra no pós-abolição.
– **Silvio Almeida** — *Racismo estrutural*: compreensão do racismo como componente das instituições e das relações econômicas, políticas e jurídicas.
– **Nancy Fraser** — debates sobre redistribuição, reconhecimento e representação como dimensões da justiça.
– **Kabengele Munanga** — estudos sobre mestiçagem, identidade negra, racismo e políticas de ação afirmativa no Brasil.
– **Conceição Evaristo** — especialmente o conceito de escrevivência, útil para pensar memória, experiência e produção de conhecimento a partir de vidas negras.
– **STF, ADPF 186** — referência jurídica central para a defesa da constitucionalidade das cotas raciais e da igualdade material.
– **IBGE e Ipea** — fontes estatísticas para demonstrar as desigualdades raciais em educação, renda, trabalho e acesso a posições de poder.
Jamie Foxx será pai pela terceira vez. O ator e músico, de 58 anos, espera um filho com Alyce Huckstepp, com quem mantém um relacionamento desde 2022. A informação foi confirmada pelo portal Extra.
O bebê será o terceiro filho de Jamie Foxx e o primeiro de Alyce. Foxx já é pai de Corinne Foxx, 32 anos, e Anelise Foxx, 17.
A novidade foi comentada pelo artista durante uma entrevista exclusiva ao portal Extra ao lado de Corinne para divulgar a oitava temporada de Beat Shazam, programa que os dois apresentam. A atração também celebra seu 100º episódio.
Jamie Foxx e Alyce Huckstepp
Foxx e Alyce foram vistos juntos pela primeira vez em 2022. O casal teria se separado em janeiro de 2025 e retomado o relacionamento posteriormente.
A gravidez foi confirmada meses depois de surgirem informações sobre a gestação de Alyce. Segundo o Extra, a gravidez já estava em andamento há alguns meses quando a notícia foi divulgada.
Durante a entrevista sobre Beat Shazam, Jamie também conversou sobre a nova fase da família. A possível revelação do sexo do bebê chegou a chamar atenção, mas a informação não foi apresentada de forma suficientemente clara para ser tratada como uma confirmação oficial.
O casal ainda não divulgou publicamente detalhes sobre o nome ou a data prevista para o nascimento.
Surto causado pela cepa Bundibugyo já matou mais de 2,6 mil pessoas; país recebe 70 mil doses da Ervebo para testes e proteção de profissionais, mas imunizante não é aprovado contra a variante responsável pela epidemia.
A epidemia de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) já soma 5.515 casos confirmados e 2.642 mortes, segundo dados divulgados pelas autoridades de saúde nesta segunda-feira (24). Declarado em 15 de maio, o surto é causado pela cepa Bundibugyo e já se tornou o maior e mais letal registrado no país.
A transmissão, inicialmente concentrada na zona de saúde de Mongbwalu, na província de Ituri, avançou para seis províncias: Ituri, Kivu do Norte, Kivu do Sul, Haut-Uélé, Tshopo e Bas-Uélé. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o cenário como uma fase de transmissão intensa e informou que a epidemia está se expandindo mais rapidamente do que os surtos anteriores registrados no país.
O número de casos já supera o registrado no surto de 2018 a 2020, que teve 3.317 casos confirmados. A rápida expansão também elevou a epidemia atual ao segundo maior surto de Ebola em número de casos e mortes, atrás da epidemia que atingiu a África Ocidental entre 2014 e 2016.
Vacina disponível não é específica para a cepa do surto
A resposta internacional ganhou um novo componente com a liberação de 70 mil doses da Ervebo, vacina licenciada contra a cepa Zaire do vírus Ebola. O imunizante, porém, não é aprovado para a cepa Bundibugyo, responsável pelo surto atual.
A distribuição das doses tem dois objetivos: 20 mil serão utilizadas em um ensaio clínico de fase 3, que pretende avaliar se a Ervebo pode oferecer proteção contra a Bundibugyo, enquanto 50 mil serão destinadas a profissionais de saúde e trabalhadores da linha de frente, conforme recomendações do grupo consultivo de especialistas em imunização da OMS (SAGE).
Até o momento, não se sabe se a Ervebo oferece proteção contra a Bundibugyo em seres humanos. Estudos preliminares, incluindo pesquisas em animais, levantaram a possibilidade de alguma proteção cruzada, mas a eficácia ainda precisa ser investigada clinicamente.
A RDC já recebeu mais de 16 mil doses desse lote inicial, enquanto as demais doses previstas seguem no processo de envio. A estratégia representa uma alternativa dentro da resposta ao surto, mas não deve ser confundida com a existência de uma vacina específica e aprovada contra a cepa que circula atualmente.
Resposta enfrenta desafios no território
A expansão da epidemia ocorre em regiões afetadas por conflitos e deslocamentos populacionais, e que apresentam dificuldades de acesso aos serviços de saúde. A OMS também relata ataques a instalações de saúde e obstáculos ao trabalho das equipes responsáveis pela vigilância, identificação de casos e acompanhamento de contatos.
Nesse cenário, autoridades de saúde e organizações internacionais têm reforçado a importância da vigilância, do diagnóstico rápido, do atendimento adequado e de estratégias de resposta construídas com autoridades locais e lideranças comunitárias. Segundo a OMS, o reconhecimento rápido dos casos, a testagem e o cuidado de suporte podem contribuir para reduzir a mortalidade e ampliar a confiança nos serviços de saúde.
O Ebola é uma doença viral transmitida principalmente pelo contato com sangue e outros fluidos corporais de pessoas infectadas. A cepa Bundibugyo é menos estudada do que a Zaire, o que torna os estudos sobre vacinas e tratamentos uma frente importante da resposta científica à atual epidemia.
O abandono promove um dos sentimentos mais ameaçadores da existência humana, a solidão. Princípios básicos na condição de sermos bichos humanos nos insere no arranjo social, enquanto mamíferos precisamos de um bando, outros alguéns que nos cuide e nos ampare no desenvolvimento de uma vida inteira, não haverá fase existencial que seremos inteiramente autônomos, a ponto de dispensarmos o contato com outro Ser da mesma espécie, se assim acontecer, a sentença de aniquilação está posta, nem que seja da consciência de si.
Na tradição Iorubá narra-se a história de Omolu ou Obaluaê, que ao nascer com o corpo coberto de chagas, foi abandonado junto ao mar por sua mãe Nanã, Orixá mais velha que rege os manguezais, encontrado por Iemanjá, que ao vê-lo desprotegido e bastante machucado pelos caranguejos, o lavou com suas águas salgadas e folhas. O menino foi crescendo e escondia-se por ter o corpo cheio de marcas e cicatrizes, até que uma festividade estava para acontecer e então Ogun teve a brilhante ideia de cobrir o corpo de Omolu com palhas, pois isso o ajudaria com a vergonha que sentia de se expor e garantiria a sua ida a festa, chegando lá, um tão constrangido com tantas pessoas ficou reservado, vendo aquela cena, Iansã soprou seu vento sobre ele, e ao dançar, pipocas foram saindo das palhas e todos celebraram, pois muitos alcançaram curas.
A cosmo visão africana nos convida a entender diversos aspectos da importância da comunidade a sobrevivência, pois mesmo que o abandono nos atravesse, e nesse caso, podemos pontuar que a mãe Nanã possivelmente não tinha condições emocionais de cuidar do filho com aquela aparência, se atualizarmos para contemporaneidade, seria sugestivo dizer que ela pode ter vivido o que chamamos de depressão pós parto, assim como temos margem para falarmos do desamparo que bebês com má formação costumam viver, assim como se constrói a masculinidade hegemônica, que aos homens não é dado o cuidado e a permissão de viver plenamente suas emoções e desenvolver uma relação saudável com seus corpos.
Enfim, temos múltiplos caminhos e neles também nos encontramos com a organização coletiva que as tecnologias ancestrais indígenas traz sobre ser necessário uma Aldeia para cuidar de uma criança, Iemanjá que é conhecida por ser mãe de todas as cabeças, Orí, na tradição africana, ela assume o papel que uma outra mãe não pôde desempenhar e aqui podemos simbolizar a função do maternar, que pode ser exercida por qualquer adulto disponível ao cuidado e garantias de sobrevivência de uma criança.
É sensato dizer que arranjos sociais desarticulados do cumprimento genuíno desse cuidado, deixam marcas profundas na personalidade de uma pessoa, e o Itan é honesto em trazer como é a postura de Obaluaê na vida, mais retraído, fechado, sem interações espalhafatosas, o que me faz lembrar da descrição que aparece em Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon, que descreve assim:
”Ah! Essas lágrimas de criança que não tem ninguém para a consolar… Ele não esquecerá jamais que o colocaram desde cedo no aprendizado da solidão… Existência enclausurada, existência voltada para si mesmo e reclusa, em que aprendi cedo demais a meditar e a refletir. Vida solitária que, ao longo do tempo, se emociona demais por qualquer coisinha…Sensível interiormente por causa de vocês, incapaz de exteriorizar minha alegria ou minha dor, rejeito tudo que amo e me desvio, apesar de mim, de o tudo que me atrai.”
Fanon cunha a Neurose de Abandono como uma condição existência que gera sofrimento psíquico e produz um impacto relacional importante, pois o abandônico, como ele chama, é aquele que precisa de provas reinteradas de afeto e sempre desconfia que será deixado novamente. Apesar disso, o autor nos faz esperançar ao dizer que há outras formas possíveis e nelas implicam uma recriação de mundo e penso que nele precisaremos de coragem para quebrar o cárcere de uma vida solitária, a qual a solidão nos enjaulou na tentativa de roubar a nossa humanidade, se tornou a vivência que a nossa neurofisiologia ficou acostumada a reconhecer como forma de estar na vida.
Pensando nisso, desenvolvi um trabalho para falar sobre Abandono fundamentado no Itan africano e na Neurose de Abandono de Frantz Fanon, com base no cuidado clínico que desenvolvo nesses 7 anos como psicóloga, acredito que o bom cumprir do cuidado, independente de quem tenha sido a figura social a desempenhar, restabelece a pele que faltou no desamparo.
Laíse Brito é psicóloga (CRP 03/19361) e publica em @psilaisebrito. O trabalho descrito neste texto é conduzido por ela em encontro online no dia 29 de agosto, das 9h às 12h. As inscrições são feitas pelo telefone (71) 98866-7887, e a participação custa R$ 113.
Luiz Gama faleceu em 24 de agosto de 1882, aos 52 anos, em São Paulo, devido a complicações causadas por diabetes. O advogado, jornalista, escritor, poeta e um dos principais nomes da luta contra a escravidão no Brasil, usou o seu conhecimento para conquistar a liberdade de centenas de pessoas escravizadas. Nesta data, o Mundo Negro reúne obras e produções que ajudam a conhecer melhor a sua trajetória, seu pensamento e a atualidade de seu legado.
“Primeiras trovas burlescas de Getulino”, de Luiz Gama
Publicado originalmente em 1859, o livro reúne a produção poética de Gama, assinada pelo pseudônimo Getulino. Seus versos satirizam a elite, denunciam o racismo e expõem as contradições políticas e sociais do Brasil escravista. Entre os textos mais conhecidos está “Quem sou eu?”, também chamado de “Bodarrada”. No poema, Gama utiliza ironia e provocação para questionar a sociedade que classificava pessoas negras de forma racista, enquanto dependia de seu trabalho e de sua presença.
A leitura é essencial porque mostra que a luta de Luiz Gama não aconteceu apenas nos tribunais, ela também foi travada por meio da literatura, do humor e da linguagem pública.
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“Liberdade (1880–1882)”, de Luiz Gama
O oitavo volume das “Obras Completas de Luiz Gama” reúne textos escritos pelo advogado nos dois últimos anos de sua vida. Organizada por Bruno Rodrigues de Lima, a obra apresenta artigos, cartas e textos políticos em que Gama defende a abolição imediata, denuncia a violência da escravidão e critica as autoridades que sustentavam o sistema escravista.
O livro também inclui a carta autobiográfica enviada a Lúcio de Mendonça, na qual Luiz Gama narra sua infância, a venda ilegal para a escravidão, a conquista da própria liberdade e sua transformação em advogado e militante abolicionista. Ao reunir sua produção jornalística, jurídica e autobiográfica, “Liberdade (1880–1882)” revela um intelectual negro que utilizou a imprensa, o Direito e a literatura como instrumentos de luta por liberdade, cidadania e igualdade.
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“Doutor Gama”, dirigido por Jeferson De
Lançado em 2021, o filme acompanha a vida de Luiz Gama desde a infância até sua consagração como advogado e abolicionista. A produção é protagonizada por Angelo Fernandes, na fase jovem, e César Mello, na vida adulta. A narrativa destaca a trajetória de um homem negro nascido livre, vendido ilegalmente como escravizado ainda criança e que, depois de conquistar a própria liberdade, passou a atuar para libertar outras pessoas.
Além do interesse histórico, “Doutor Gama” ajuda a visualizar os obstáculos enfrentados por um homem negro que atuou em um sistema jurídico e político estruturado para proteger a escravidão. Disponível no YouTube.
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História Preta — temporada Luiz Gama
O podcast História Preta, apresentado por Thiago André, dedicou uma temporada à trajetória do abolicionista. A série revisita momentos marcantes de sua trajetória: a venda ilegal pelo próprio pai, a luta para conquistar a liberdade, a busca pela mãe, Luiza Mahin, e a transformação do jovem escravizado em advogado, jornalista e abolicionista. Ao longo de sete episódios, a série também aborda sua atuação nos tribunais, o uso dos documentos e das leis como ferramentas de resistência e a defesa da liberdade para outras pessoas negras escravizadas. Os episódios estão disponíveis em plataformas de áudio.
Entre os diversos perrengues e as aventuras da maternidade solo, Niny Magalhãestransformou as próprias vivências em gargalhadas em grandes palcos de stand-up. Mãe de três filhos, a comediante nascida em Ceilândia (DF) encontrou na própria trajetória uma comédia que produz identificação e reivindica espaço.
Em apenas três anos de carreira, Niny reuniu dezenas de milhares de espectadores, passou por grandes palcos, como o Teatro Municipal de São Paulo, o Museu Nacional e o Teatro Goldoni, em Brasília, e conquistou mais de 750 mil seguidores, que acompanham conteúdos criativos relacionados à experiência de ser mãe solo e mulher negra. Ela também participou de produções do Comedy Central Brasil e da TNT, além do programa “Humor Negro”, do Multishow.
A artista lançou, em 2025, o aclamado especial “Uma Mãe Vida Loka”, disponível no YouTube, que já conta com mais de 200 mil visualizações. “Queria conseguir pôr em palavras a sensação de orgulho e, ao mesmo tempo, a inquietação de saber que sou a primeira comediante negra a ter um especial gravado no Brasil e, pela primeira vez na história, para uma plateia só de mulheres”, conta, em entrevista ao Mundo Negro.
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Antes da gravação, Niny realizou 11 apresentações pelo país. Ao fim de cada show, era procurada por mães que compartilhavam relatos sobre partos, dores, alegrias, conquistas, relacionamentos e a criação dos filhos. “O ‘Mãe Vida Loka’ é a história da minha maternidade solo, que começou aos 18 anos. Tantas camadas, né?”, diz.
Para a artista, o especial é também uma homenagem às mulheres que criam seus filhos sozinhas e enfrentam a expectativa social de que sejam sempre fortes. “É um registro da homenagem que fiz às mais de 11 milhões de mulheres que criam seus filhos sozinhas no Brasil e que todo mundo acha que dão conta, afinal, somos guerreiras.”
Ao abordar assuntos que costumam ser silenciados, Niny percebeu que o espetáculo produzia um efeito coletivo. “Tocar no assunto que ninguém toca foi importante, pois as mulheres ao meu redor se sentiram representadas.” A partir daí, o show deixou de ser apenas uma apresentação de humor e passou a ser compreendido por ela como “um movimento social de mulheres que não desistem — todas, sem exceção — e, por que não, dos homens aliados também, que hoje são bem-vindos ao meu show”.
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Maternidade como posicionamento
A maternidade, para a comediante, não aparece apenas como tema de seus textos. Ela organiza sua maneira de enxergar a vida e a própria carreira. “Como em todos os trabalhos que fiz na vida, sempre deixo muito claro que tudo o que faço é pelos meus filhos”, afirma.
Niny conta que seu texto mais viralizado também aborda a maternidade e as prioridades que orientam suas escolhas. “Minha postura diante do mundo é uma só: antes de ser comediante, eu sou mãe; antes de ser o amor de alguém, antes de tudo, está a minha maternidade.”
Essa perspectiva se soma à sua identidade como mulher negra, mãe solo e artista independente. “Eu sou um posicionamento político somente por existir”, declara.
Entre suas referências mencionadas na entrevista estão as comediantes norte-americanas Wanda Sykes e Tiffany Haddish. Ao construir o próprio caminho, Niny transforma a experiência cotidiana de uma mãe em narrativa e riso.
Para ela, ocupar o palco e falar das próprias experiências é uma forma de enfrentar a invisibilidade atribuída a mulheres como ela. “Para o mundo, a minha figura é invisível. Tenho conquistado meu espaço, pois o que tenho para oferecer é uma comédia verdadeira sobre vivências reais. Essa é a essência do stand-up, e foi isso que me abriu muitas portas.”
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Ocupação e pertencimento
Cada palco também representa uma ruptura com a ideia de que determinados espaços não seriam destinados a mulheres negras. O Teatro Goldoni, em Brasília, foi o primeiro teatro em que Niny se apresentou. “Até choro quando lembro”, revela.
Entre as conquistas, ela destaca a participação no primeiro elenco de comédia negro a subir ao palco do Theatro Municipal de São Paulo. “Olha o peso disso! É uma honra para mim ser pioneira em lugares em que antes diziam que não eram para nós.”
A passagem pelo Museu Nacional, em sua cidade natal, também adquiriu um significado especial. “Nem nos meus mais lindos sonhos eu imaginava viver o que vivi”, afirma.
“Ser uma mãe solo preta em um palco me permitiu sonhar e fez com que as minhas também se vissem lá comigo”, resume.
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“Não vamos parar”
Para Niny, o aumento do número de comediantes negras no país ainda não significou uma transformação profunda nas estruturas da cena. “As barreiras são as mesmas”, afirma.
A comediante destaca que ser mulher e negra já impõe dificuldades adicionais em uma cultura que continua majoritariamente masculina e branca. Por isso, defende a presença do público negro em seus shows e a criação de uma cena que reconheça artistas negras sem exigir que elas provem constantemente seu valor.
“Não quero fazer parte de uma cena em que uma artista mulher, negra e mãe solo tenha que provar que é o que já é”, declara. “Tenho trabalhado duro, dia após dia, para acender um holofote sobre nós e dizer que tem mulher preta fazendo comédia, sim, e que não vamos parar”, conclui.
Atualmente com o espetáculo “Anjos”, Niny Magalhães segue com uma série de apresentações pelo país. Um show de humor autobiográfico onde Niny divide o palco com suas memórias mais profundas. Entre risos e lágrimas, ela aborda a maternidade solo, a vida na periferia e a resiliência de quem nunca desistiu dos sonhos. No dia 24 de setembro, a comediante realizará um show de stand-up em Barueri (SP). Para mais informações sobre a agenda de shows, o público pode acompanhar o perfil @ninymagalhaes.
Por Hédio Silva – Advogado e presidente do Idafro e JusRacial
O vodu, religião de matriz africana, foi o estopim da revolta de escravizados que, a partir de 23 de agosto de 1791, enfrentou o domínio colonial francês em São Domingos e deu início ao processo revolucionário que culminaria na fundação da República do Haiti, primeiro país independente da América Latina e do Caribe a abolir definitivamente a escravidão.
O vodu foi essencial para cimentar uma identidade comum e agregar diferentes grupos étnicos, lideranças e revoltosos. Foi durante uma cerimônia conhecida como Bwa Kayiman (ou Bois Caïman), liderada pelo sacerdote Dutty Boukman, que milhares de revoltosos se mobilizaram para iniciar ataques, incendiar plantações, libertar escravizados e enfrentar os senhores de engenho.
Morto em combate, Dutty Boukman, o Feiticeiro Negro, tornou-se um dos primeiros grandes líderes da Revolução Haitiana. Depois dele, ganharam protagonismo nomes como Toussaint Louverture, um dos maiores revolucionários das Américas, e, posteriormente, o lendário Jean-Jacques Dessalines.
Juntos, os chamados jacobinos negros enfrentaram e derrotaram o poderio militar francês. Em 1º de janeiro de 1804, consolidava-se a independência do Haiti, resultado da primeira revolução vitoriosa da história moderna conduzida por pessoas escravizadas contra o sistema colonial e escravista.
A independência haitiana, que completa 222 anos em 2026, não pode ser compreendida sem reconhecer o poder agregador, a resistência e a capacidade transformadora das religiões de matriz africana.
Na década de 1990, o dia 23 de agosto foi instituído pela Unesco como Dia Internacional em Memória do Tráfico de Escravos e sua Abolição, em referência ao início da insurreição de 1791 e em memória das milhões de pessoas vitimadas pelo tráfico transatlântico de africanos escravizados.
A história da Revolução Haitiana ajuda a compreender por que racistas e genocidas temem tanto nossas religiões: elas carregam autonomia de pensamento, altivez, insubmissão, resistência e libertação.
E, parafraseando Gilberto Gil e Caetano Veloso: “E todos sabem como se tratam os pretos (…) “O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui.”
A 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado chegou ao fim no último sábado (22), consagrando uma noite histórica de celebração, exaltação e visibilidade para o cinema brasileiro. Com grande destaque nas principais categorias, profissionais e artistas negros dominaram a entrega do cobiçado Kikito dourado.
O prêmio máximo da noite, na categoria de Melhor Longa-Metragem Brasileiro, foi conquistado pelo potente “Nosso Segredo”, obra dirigida e roteirizada pela cineasta e atriz Grace Passô. O longa ainda se destacou nas categorias técnicas, garantindo os Kikitos de Melhor Fotografia para Wilssa Esser e Melhor Direção de Arte para Lucas Osório.
Outro grande destaque da edição foi o filme “Feito Pipa”, que conquistou cinco prêmios no total. A obra consagrou Teca Pereira como Melhor Atriz e Lázaro Ramos como Melhor Ator Coadjuvante, além de levar os Kikitos de Melhor Direção para Allan Deberton e de Melhor Filme pelo Júri Popular, recebendo também uma Menção Honrosa para o ator mirim Yuri Gomes.
Em outro ponto alto da premiação, Christian Malheiros foi consagrado como Melhor Ator por seu papel em “Justino – Nos Bastidores do Reino”, dividindo o prêmio com José Loreto, premiado por “Chorão – Só Os Loucos Sabem”. A produção sobre Justino também garantiu uma Menção Honrosa para a atriz Onna Silva. Já na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, Naruna Costa foi a grande vitoriosa por sua atuação em “Pele de Rinoceronte”.
Na categoria de Melhor Longa-Metragem Documentário, o vencedor foi “Gonzaguinha, Da Maior Liberdade”, produção que celebra o legado e a memória de uma das vozes mais marcantes da cultura nacional.
Encontro acontece em 17 de setembro, na Casa de Maria, na Região Portuária, e amplia a rede de conexões profissionais e oportunidades entre mulheres negras.
A Ciranda Preta – Protagonismo Feminino chega ao Rio de Janeiro em 17 de setembro para sua primeira edição na cidade. Criado em Salvador por Danielle Pires e Najara Black, o movimento realiza o encontro na Casa de Maria, na Região Portuária carioca, dando continuidade à expansão nacional iniciada neste ano.
A iniciativa promove encontros voltados à construção de conexões profissionais, negócios e novas oportunidades entre mulheres negras de diferentes áreas. A proposta é criar um ambiente em que conversas possam se transformar em parcerias, indicações profissionais, clientes, oportunidades de carreira e novos negócios.
A expansão para outras capitais começou em maio, quando a Ciranda realizou sua primeira edição em São Paulo, com vagas esgotadas. Antes disso, o movimento já havia construído uma comunidade em Salvador por meio de encontros mensais. Em abril, a iniciativa reunia profissionais de áreas como comunicação, direito, saúde, bem-estar, economia e eventos, com cerca de 100 participantes por edição.
Para Danielle Pires, cofundadora da Ciranda Preta, a intenção é que os encontros produzam conexões que continuem depois do jantar.
“Queremos que as mulheres saiam da Ciranda não apenas com novos contatos, mas com possibilidades reais de conexão.”
A ideia de transformar relacionamento em oportunidade está no centro da proposta desde a criação do movimento. Em Salvador, a Ciranda já realizou encontros em diferentes espaços e consolidou uma comunidade formada por profissionais, empreendedoras, executivas e lideranças negras. Em julho, o projeto completou um ano de atuação na capital baiana.
Do networking à construção de oportunidades
O projeto aposta na convivência como ponto de partida para relações profissionais mais duradouras. A programação do encontro no Rio será organizada para estimular a troca de experiências e a identificação de possíveis afinidades entre as participantes.
Para Najara Black, também cofundadora da iniciativa, levar a Ciranda para outras cidades significa ampliar as possibilidades de encontro entre mulheres que atuam em diferentes setores.
“Ampliar essa roda significa conectar mulheres que talvez não se encontrassem em outros ambientes.”
A chegada a São Paulo, em maio, foi apresentada pelas fundadoras como o primeiro passo de uma expansão para outras regiões do país. A edição aconteceu no Altar Cozinha Ancestral, restaurante da chef Carmem Virgínia.
Agora, o Rio de Janeiro passa a integrar esse circuito.
Uma roda na Região Portuária do Rio
A escolha da Casa de Maria coloca a primeira edição carioca em uma região marcada pela presença negra na formação histórica e cultural da cidade. O espaço fica na Rua Sacadura Cabral, próximo a referências da Pequena África e do Largo da Prainha.
Recém-inaugurada, a Casa de Maria reúne gastronomia, música, cultura e memória afetiva. Entre as referências que inspiram a identidade do espaço estão Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Maria Quitéria e Maria da Penha.
O restaurante tem entre seus sócios o ator e empresário Douglas Silva e o chef e empresário Pitágoras Leite. A realização da Ciranda no local aproxima duas propostas que encontram na mesa um espaço para convivência: a construção de conexões profissionais e a valorização de histórias, referências e manifestações da cultura brasileira.
O que esperar da primeira Ciranda Preta no RJ
A edição carioca acontece no dia 17 de setembro de 2026, das 19h às 23h, na Casa de Maria. A participação é mediante inscrição, pagamento e envio do comprovante.
Serviço
Ciranda Preta – Protagonismo Feminino | Rio de Janeiro Data: 17 de setembro de 2026 Horário: 19h às 23h Local: Casa de Maria — Rua Sacadura Cabral, 55, Região Portuária, Rio de Janeiro/RJ
Investimento: R$ 210 Participação mediante inscrição, pagamento e envio do comprovante pelo perfil @cirandapreta.
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