Por: Rachel Maia
O fluxo histórico e cultural entre África e Brasil tem sido uma fonte rica de trocas, saberes, práticas culturais, tecnologias e redes comerciais. Num momento em que cadeias de valor se reconfiguram, as mulheres negras surgem como protagonistas imprescindíveis da integração econômica entre os dois territórios.
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Mais um mês de novembro chega ao fim, e pensar no quanto os nossos negócios impactam positivamente o mercado é motivo para um fortalecimento estratégico e de investimentos condizentes com o valor agregador entre países que crescem mutuamente, por sua cultura, resistência e, principalmente, soluções.
Russa de nascimento, angolana de origem e naturalizada brasileira, Marília Simão é founder e CEO da MAD IN. Ela, que tem uma extensa formação nas áreas da comunicação, marketing e finanças, divide aqui suas percepções e colaboração nessa conexão crescente entre o Brasil e o continente africano.
“Tenho observado, a partir da minha trajetória à frente da MAD IN, uma necessidade sem precedentes de diálogo econômico entre África e Brasil. Esse movimento vai além do comércio; é uma reconstrução de identidade e de propósito entre povos que compartilham raízes e visão de futuro. Nos últimos anos, o comércio entre Brasil e países africanos ultrapassou US$13 bilhões em 2024, segundo o Itamaraty, marcando uma nova fase da cooperação Sul–Sul e abrindo espaço para lideranças femininas e negras”, enfatiza a CEO.
Laços históricos e contemporâneos com territórios africanos mantêm vivas trocas comerciais, e a luta das mulheres negras que desde o período colonial, transformam conhecimentos tradicionais em formas de subsistência, resistência e empreendedorismo. Setores como moda e design afrocentrado, cosméticos e cuidados capilares com base em insumos naturais, agroindústria de produtos típicos, artesanato, gastronomia e economia criativa (música, audiovisual) são exemplos de negócios que convertem autenticidade em diferencial competitivo.
“A juventude africana vive um momento de autodomínio econômico notável. Startups e projetos de impacto social florescem em todo o continente, impulsionando setores como agro, mineração e energias renováveis. Essa força produtiva mostra uma geração disposta a transformar potencial em protagonismo, e o Brasil tem muito a contribuir com tecnologia, experiência e afinidade cultural”, afirma Marília.
Mesmo com potencial evidente, mulheres negras empreendedoras enfrentam obstáculos estruturais que atravessam ambos os lados do Atlântico: acesso restrito a capital, informalidade e falta de capacitação para exportação são alguns exemplos dos desafios. Apesar disso, há oportunidades concretas para ampliar e consolidar a integração econômica de negócios afrocentrados.
“Como mulher negra e líder, acredito que nossa presença em espaços de decisão não é simbólica, é estratégica. Minha virada empreendedora aconteceu em 2020, após encerrar uma sólida trajetória no mercado financeiro em Angola. Da experiência que acumulei nasceu o desejo de criar soluções que unissem estratégia e propósito — foi assim que fundei a H.up Assessoria, empresa que rapidamente se destacou pela excelência em gestão e estruturação financeira”, comenta a empresária.
Carregar um legado de resistência e criatividade empreendedora faz parte dos nossos modos operandi de sobrevivência. Mulheres que enfrentam obstáculos contínuos e triplas jornadas, criam soluções para si e para suas comunidades, muitas vezes sem entenderem, tão somente, a extensão comercial em que se aplica seu modelo de negócio.
“No mês de novembro, celebramos tanto o Dia da Consciência Negra quanto o Dia Mundial do Empreendedorismo Feminino, datas que simbolizam a resistência e o poder transformador da mulher negra. Na MAD IN, vejo diariamente esse poder se materializar em ação com mulheres como Fatima Martinazzo, Ruth Silva, Barbara Lins e prof. dra Regla Massahud que me auxiliam com suas expertises e, nas mulheres em geral que lideram, criam soluções e constroem pontes entre continentes. Elas representam não apenas o futuro do empreendedorismo, mas o presente da inovação inclusiva”, enfatiza Simão.
Estamos diante de dados que refletem não apenas a dimensão comercial, mas o amadurecimento do mercado global e de finanças entre o Brasil e continente africano — um terreno fértil para parcerias estratégicas e de impacto, que possibilitaram crescimento exponencial tanto para os países quanto para aqueles que vislumbram negócios sustentáveis e lucrativos.
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