A Copa do Mundo 2026 estreia oficialmente na próxima quinta-feira, 11 de junho, e os brasileiros poderão acompanhar Jordana Araújo, uma jornalista negra, comentando os jogos na ge tv, com transmissão no Globoplay e no YouTube. Criada na Zona Norte de Osasco, na Grande São Paulo, Jordana superou as barreiras de um ambiente historicamente masculino e branco para alcançar a cabine de transmissão do maior evento de futebol do planeta. “Quando a gente vê uma figura que vai incentivar a gente a quebrar esses paradigmas, é fundamental“, disse em entrevista ao Mundo Negro, ao relembrar que na infância sentia falta de referências negras na TV cobrindo esportes.
Para a jornalista, ocupar esse espaço vai muito além de uma realização profissional. “Eu sei o quanto isso pode mudar vidas. Eu sei o quanto isso pode inspirar trajetórias, não só para jornalistas esportivos, mas para outras áreas de atuação, principalmente pra gente que vem de regiões mais periféricas, com menos acessos”, destaca.
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Questionada sobre as expectativas em relação à Seleção Brasileira, Jordana afirma que, pelo lado analítico, mantém os pés no chão devido aos desafios que a equipe enfrentará no torneio. “Mas o lado do coração quer muito que a seleção chegue numa final que conquiste esse Hexa tão sonhado e esperado.“
A comentarista também projeta um Mundial de forte protagonismo negro, destacando nomes como Vini Júnior e Mbappé, e chama a atenção para a evolução tática e a intensidade de seleções africanas como Marrocos, Senegal, Gana e África do Sul.
Leia a entrevista completa abaixo:

O jornalismo esportivo ainda é um espaço majoritariamente masculino e branco. Nessa época, você chegou a ter referências negras na cobertura esportiva? E o que a sua chegada à cabine de transmissão da Globo na Copa do Mundo representa hoje para as adolescentes negras e periféricas?
Eu decidi que queria ser jornalista esportiva com 11 para 12 anos, meados de 2004, 2005. Nessa época, as referências negras dentro da comunicação eram poucas, contando o dedo de uma mão. Isso impactou muito de uma forma negativa, infelizmente, porque quando as pessoas refutavam o meu sonho, eu não tinha ali muito no que me agarrar. A Glória Maria era referência negra na época, mas ela era sempre colocada como uma exceção da exceção, o Abel Neto, e isso em alguns momentos me atingiu de uma forma muito negativa, porque eu também pensava “pô, será que é pra mim esse lugar?” Justamente pela falta de referências negras. Hoje eu sei o quanto é importante ocupar esses espaços. O espaço da cabine, o espaço dentro da comunicação de um modo geral. Mas esse espaço de estar na cabine como comentarista também é muito importante porque eu sei o quanto isso pode mudar vidas. Eu sei o quanto isso pode mudar e inspirar trajetórias, não só para jornalistas esportivos, mas para outras áreas de atuação, principalmente pra gente que vem de regiões mais periféricas, com menos acessos. Às vezes a gente é limitado a acreditar em filosofias que foram ensinadas para nossos avós, para as nossas mães, e quando a gente vê uma figura que vai incentivar a gente a quebrar esses paradigmas, é fundamental. Eu sei do tamanho que é ser vista por meninas e meninos negros, eu sei o quanto isso pode fazer a diferença, porque ao longo da minha trajetória eu fui encontrando algumas referências negras, como Luiz Teixeira, o Marcos Luca Valentim, a Rafaelle Seraphim, o Rafael Alves, foram pessoas que foram me ancorando ao longo dessa caminhada. Então, é muito importante.

Como você enxerga o atual momento da Seleção Brasileira e quais são os principais desafios que a equipe precisa superar para buscar o sonhado Hexa este ano?
O grande desafio da seleção para 2026 é o ciclo encurtado, o trabalho recente do Carlo Ancelotti, que é um técnico capacitadíssimo para estar neste cargo da seleção brasileira, pelo histórico, pelo currículo. É o técnico que conquistou, nos últimos anos, duas Champions League, apaixonado pelo futebol, tem metodologias muito interessantes, principalmente para um país que é acostumado com futebol bonito, bem jogado. Eu acho que ele atende muito esses requisitos, porém, eu acredito que tudo na vida, incluindo futebol, é tempo, e eu acho que esse período de um ano talvez não seja o suficiente. Ele já demonstrou um caminho muito interessante, mas eu acho que vai precisar de um pouco mais de tempo pra gente encaixar algumas filosofias para conseguir fazer com que o coletivo funcione, e mais do que isso, fazer com que a seleção passe por alguns processos de renovações em algumas posições que é importante. Saber que ele vai iniciar esse processo de renovação vai ser muito legal. Eu acho que o lado comentarista um pouco mais frio está com o pé no chão. Principalmente quando a gente faz uma comparação com seleções como a França e Espanha que, no meu entendimento, estão melhor preparadas para esse Mundial. Mas o lado do coração quer muito que a seleção chegue numa final que conquiste esse Hexa tão sonhado e esperado.

Senegal e Marrocos tiveram um excelente desempenho na Copa Africana de Nações deste ano. Quais são as suas expectativas para o desempenho dessas seleções, além de outras do continente?
São seleções africanas que chegam muito fortes. O Marrocos, a gente não pode deixar de citar o desempenho na última Copa do Mundo. Chegou naquela época como uma das surpresas, mas foi um ciclo que a equipe foi buscando essa consolidação. Fez um ciclo bem interessante, porém hoje vive um momento de transição técnica que não sei até que ponto isso pode atrapalhar. Em 2022, era uma seleção que se defendia muito bem e atacava em transição rápida. Esse ano, com a troca de técnico, agora o Mohamed Ouahbi, que já estava dentro das categorias de base da seleção. Recentemente ele foi chamado para assumir a seleção principal. Ele é um técnico que aposta mais em um jogo ofensivo. Então a gente vai ver um Marrocos mais agudo e esse encaixe de proposta de jogo leva um pouco mais de tempo. Eu acho que vai ser um adversário duríssimo para o Brasil, por exemplo. A gente fala muito da questão física, não de uma forma pejorativa, mas vai ser um jogo muito intenso para a equipe do Brasil.
O Senegal também vem muito forte. Tem uma base muito forte liderada por estrelas internacionais que jogam nos principais clubes europeus, tem um sistema defensivo bem consolidado. É muito difícil ser vazado, transição ofensiva e uma experiência bem interessante em relação aos torneios internacionais. Então Senegal também chega com essa tutela de ir bem na Copa do Mundo e aí eu acho que dá para incitar também a seleção de Gana e África do Sul.
A África do Sul também, no meu entendimento, é uma seleção que pode chegar forte porque tem uma base também muito interessante, entrosamento de atletas que jogam no mesmo clube, o modelo tático deles é bem focado na posse de bola rápida e em alguns anos, vai ser bem interessante ver. E Gana vem com uma nova geração de atletas, são atletas jovens, habilidosos, que também atuam no futebol de elite, tem uma tradição histórica de se agigantar. Na Copa conseguiu complicar a vida historicamente de algumas seleções europeias, tem um meio de campo muito combativo e é uma equipe que cuida muito da marcação e da recuperação de bola, pode ser uma equipe que tem a capacidade de resolver o jogo numa bola, tá num grupo que é um tanto quanto complexo, mas acho que essas seleções são as que dá pra gente ficar de olho.

Hoje, quais jogadores negros você acha que podem se destacar mais durante a Copa do Mundo e contribuir para elevar o nível de suas respectivas seleções?
Da seleção brasileira, não tem como não destacar o Vini Júnior, que nas últimas temporadas desequilibrou positivamente para o Real Madrid na seleção. A gente entende que neste ciclo ele teve alguns altos e baixos, mas isso não diminui a enormidade que ele tem para essa geração, para esse ciclo também. Acho que ao lado dele a gente tem Luiz Henrique, que também é um jogador que eleva o nível do ataque da seleção, contribui muito, que joga na ponta e tem muita qualidade, tem explosão, tem também uma coisa que eu gosto muito dele, que é o equilíbrio emocional, principalmente em partidas grandes. O Danilo Santos, meio campista, que atualmente está no Botafogo. O Rayan, jovem, promessa, nova geração. E aí, olhando para outras seleções, olhando pra França, você tem o Mbappé, o Ousmane Dembélé, são jogadores que tem um futebol coletivo muito forte, mas individualmente esses três desequilibram, o Saka, o Bellingham da Inglaterra, o Davis do Canadá. É uma lista muito extensa de atletas negros que são importantes para suas respectivas seleções. É uma Copa para a gente ficar de olho nos talentos negros.
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