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‘Circuito Gourmet da Gastronomia Afro’ celebra a culinária africana e quilombola com aulas e rodas de conversa

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Foto: arquivo pessoal/Chef Pedro Alex

O Hotel Escola da UFRRJ, em Seropédica (RJ), será o ponto de encontro de chefs, pesquisadores, empreendedores e estudantes para o Festival Sabores da Resistência, marcado para os dias 10 e 11 de dezembro. Com entrada gratuita, o evento propõe uma imersão na cozinha africana, afrodiaspórica e quilombola, reunindo tradição, memória e técnica culinária em uma programação extensa que combina aulas show, rodas de conversa, concursos gastronômicos e atividades culturais. A iniciativa tem parceria técnica da Associação Brasileira de Chefs de Cozinha e Bartenders do Brasil (ABRACHEFS) e curadoria do Circuito Gourmet da Gastronomia Afro.

Idealizado pelo chef Pedro Alex, presidente da ABRACHEFS, o festival nasce com o propósito de reafirmar a potência da culinária afro-brasileira e sua influência na formação cultural do país. Para o chef, a cozinha afrodiaspórica e quilombola ultrapassa o ato de cozinhar: ela articula saberes ancestrais, práticas de terreiro e processos que alimentam corpo e espírito, conectando gerações e fortalecendo a identidade negra na contemporaneidade.

A programação contará com a participação de chefs reconhecidos e pesquisadores dedicados aos estudos da gastronomia afro-brasileira. Entre os convidados está a chef Ana Elisa Brennand, embaixadora da ABRACHEFS nos Estados Unidos, que atuará como jurada nos concursos gastronômicos. As rodas de conversa, mediadas pelo professor Dr. Otair Fernandes, da Universidade Federal Rural de Nova Iguaçu, aprofundarão temas como comida de terreiro, ancestralidade e os saberes culinários que atravessam comunidades tradicionais. As atividades começam diariamente às 12h, com recepção no Hotel Escola.

A seguir, a programação completa oferecida pelo festival:

PROGRAMAÇÃO – 10/12

9h20 – Recepção com café da manhã no Hotel Escola da UFRRJ
10h–12h – Roda de conversa: Saberes e Sabores da Ancestralidade
11h – Aula show com Iya Glauciele T’osun – Sabor das Águas
12h – Aula show com a chef Márcia Baiana – Quiabada
13h – Aula show com o chef Gerson Fernandes – Raízes da Resistência: Mousseline de inhame com carne seca desfiada e cebola caramelizada
14h – Aula show com o chef Kimberly – Bolinho mágico do Congo
15h – Aula show com a chef Marisa Leonardo – Peixe Atlântico Negro
16h – Aula show com a chef Natália Nacif – Cuscuz com brigadeiro de dendê
17h – Aula show com Mama Kaiahundê e Andreza Ramalho – Omoloco

PROGRAMAÇÃO – 11/12

9h20 – Recepção com café da manhã no Hotel Escola da UFRRJ
10h–12h – Roda de conversa: Comida de terreiro
12h – Aula show com a chef Andréa Lacoca – Angu com barriga glaceada
13h – Aula show com o chef Cadu Freitas – Munguzá salgado
14h – Aula show com a chef Elaine Feliciano – Texturas do Brasil: cocada cremosa com geleia dourada

SERVIÇO

Festival Sabores da Resistência
Datas: 10 e 11 de dezembro
Horário: a partir das 12h
Local: Campus Seropédica – UFRRJ, R. UW, s/n, BR-465, KM 07, Rio de Janeiro (RJ)
Instagram: @circuitogourmet.int.dechefs

Após 15 anos, Guinness reconhece o novo maior cabelo afro feminino do mundo

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Foto: Brien Adams

O Guinness World Record reconheceu Jessica L. Martinez como a nova detentora do recorde de maior cabelo afro feminino do mundo, após registrar a impressionante circunferência de 1,90 metro. Para chegar à medida oficial, três pessoas foram necessárias no processo de avaliação.

“Estou extremamente grata por receber este reconhecimento pelo meu cabelo lindo e volumoso. É um símbolo da minha dedicação e compromisso em ser autêntica, não importa o que aconteça! Espero inspirar outras pessoas a se sentirem confortáveis ​​usando seus cabelos naturais em ambientes profissionais, a quebrar estereótipos e a acabar com a discriminação capilar no mundo todo”, celebrou Jessica nas redes sociais.

A coroa simbólica foi colocada em seus cabelos pela antiga recordista, Aevin Dugas, que manteve o título por 15 anos. Dugas destacou que o momento representa união e autoestima. “No fim das contas, eu me amo, [Jess] se ama e nós duas estamos tentando fazer com que as pessoas se amem. Não é uma competição, é literalmente só amor.”, disse.

https://www.instagram.com/p/DRR8apajhrC/?img_index=9

O sabor que cura o mundo: gastronomia amazônica, saberes ancestrais e o futuro que cozinha no presente

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Denis Lima (Foto: Divulgação)

Por: Denis Lima, Professor de Gastronomia e Engenheiro de Alimentos

A Amazônia cozinha antes de falar: identidade, território e ancestralidade

Aqui o tempo tem cheiro: de tucupi fresco, de castanha estalando no fogo, de peixe curado na brasa e de terra molhada depois da chuva. É nessa alquimia de natureza e afeto que se revela a nossa gastronomia um saber que não nasceu em livro, mas em fogueiras, panelas de barro e mãos que aprenderam com a floresta. A comida na Amazônia é mais que sustento, cosmologia, resistência e memória. Representa a ciência dos povos que cultivam o equilíbrio com a terra muito antes de existir a palavra “sustentabilidade”.

A gastronomia amazônica constitui um campo de conhecimento que transcende o ato de alimentar-se. Ela é a síntese da história, da biodiversidade e das relações humanas com o território. Como instrutor e pesquisador da área gastronômica, percebo que cada ingrediente
da Amazônia carrega uma narrativa própria, marcada por ancestralidade e resistência cultural. O uso do tucupi, do jambu, da mandioca e do açaí, por exemplo, expressa um modo de vida e uma identidade coletiva. Esses ingredientes, quando trabalhados nas práticas pedagógicas, permitem que os alunos compreendam a cozinha como um espaço de pertencimento, memória e valorização territorial.

Ensinar gastronomia amazônica é, portanto, ensinar pertencimento. É compreender que cada preparo conta uma história e que o ato de cozinhar pode ser uma forma de preservar saberes, valorizar comunidades e promover respeito à floresta e aos povos que dela vivem.

Saberes ancestrais e a dimensão educativa da gastronomia

Os saberes ancestrais da Amazônia são transmitidos pela oralidade, pela convivência e pela prática. São conhecimentos que integram ciência e espiritualidade, técnica e sensibilidade. Como educador, percebo que cada aula é uma oportunidade de aproximar os alunos dessas heranças culturais e de reconhecer a sabedoria dos povos originários, ribeirinhos e quilombolas. As práticas culinárias tradicionais como o uso medicinal do jambu, o preparo do tucupi fermentado e o manejo sustentável da mandioca revelam um conhecimento profundo sobre o equilíbrio entre o homem e a natureza.

Integrar esses saberes aos processos educativos significa transformar o ensino culinário em instrumento de consciência e emancipação. Quando o aluno compreende o valor simbólico e curativo do alimento, ele passa a cozinhar com consciência, reconhecendo que cada prato é também um gesto de cura, de memória e de respeito à ancestralidade.

Essa prática educativa reforça o papel da gastronomia como ferramenta de empoderamento cultural. Ao trazer para a sala de aula ingredientes, histórias e técnicas tradicionais, formam-se profissionais multiplicadores desses saberes, capazes de inovar sem romper com as raízes que sustentam a cultura alimentar amazônica.

O futuro que se cozinha no presente: educação, sustentabilidade e inovação

Quando falamos em mudanças climáticas e COP30, não falamos de um futuro distante, falamos daquilo que já está na panela agora. Cada colher de farinha de mandioca, cada tucumã descascado, cada azeite de dendê preparado por mãos negras e indígenas é uma tecnologia de sobrevivência climática. A gastronomia da floresta ensina o tempo do cuidado: plantar respeitando o ciclo da lua, colher sem esgotar o solo, compartilhar o excedente com a comunidade. É agricultura familiar, circular e espiritual, onde nada se perde e tudo se transforma.

Pensar no futuro da gastronomia amazônica é pensar também no papel da educação como instrumento de mudança. A formação gastronômica contemporânea precisa integrar teoria, prática e consciência ambiental. O futuro da cozinha amazônica nasce no presente,
nas aulas que estimulam o uso sustentável dos recursos, o respeito à biodiversidade e o protagonismo das comunidades locais.

Com esse espírito, o Instituto Feira Preta, em parceria com o Assaí Atacadista e a Academia Assaí, realizou a turma “Feira Preta Cria Gastronomia na Amazônia”. A iniciativa reforça a importância de formar cozinheiros comprometidos com o território, com a economia
local e com a valorização dos saberes tradicionais. Ao unir ensino, afeto e sustentabilidade, a gastronomia torna-se uma prática de transformação capaz de curar não apenas o corpo, mas também a memória e o planeta.

    Desse modo, o “sabor que cura o mundo” nasce da consciência que se constrói em sala de aula e nas cozinhas comunitárias. É o sabor do respeito à floresta, à cultura e às pessoas. O futuro que cozinha no presente é aquele em que cada profissional formado compreende
    que alimentar é também educar, cuidar e transformar.


    Texto: Denis Lima. Engenheiro de alimentos formado pela Universidade Federal do Pará, especialista em Vigilância Sanitária e Qualidade dos Alimentos e técnico em Alimentação Escolar pela SECTEC. Atualmente é mestrando em Desenvolvimento Rural e Empreendimentos Agroalimentares pelo IFPA – Campus Castanhal e graduando em Tecnologia de Alimentos pela UEPA. Com nove anos de experiência na indústria de alimentos e bebidas, atua em funções de liderança de equipe, aliando conhecimento técnico e visão estratégica. Além disso, é instrutor e articulador em projetos de formação e fortalecimento de empreendedores do setor alimentício, com foco em qualidade, segurança alimentar e valorização da produção local.

    Esse conteúdo é fruto de uma parceria entre Mundo Negro e Feira Preta.

    Pras Michel, rapper do Fugees, é condenado a 14 anos de prisão por atuar como agente ilegal da China nos EUA

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    Foto: Andrew Harnik/AP

    O rapper Pras Michel, 53, do grupo Fugees, foi condenado a 14 anos de prisão por envolvimento em um esquema de influência política durante a gestão de Barack Obama e Donald Trump. A sentença foi proferida nesta quinta-feira (20) pela juíza Colleen Kollar-Kotelly, em Washington, D.C., segundo informações da BBC.

    Os promotores haviam pedido prisão perpétua, acusando Michel de atuar como agente estrangeiro sem registro, obstruir investigações e participar de operações ilegais de financiamento de campanhas políticas. O caso chamou atenção por envolver depoimentos de figuras públicas, como o ator Leonardo DiCaprio e o ex-procurador-geral dos Estados Unidos Jeff Sessions.

    Michel foi considerado culpado por violações das leis de financiamento eleitoral, por mentir a instituições financeiras, fazer lobby em nome do governo chinês e exercer “influência estrangeira secreta e ilegal” entre 2012 e 2017. De acordo com os procuradores, ele teria recebido mais de US$ 100 milhões do bilionário malaio Jho Low para tentar interferir na política norte-americana.

    A defesa do rapper, representada pelo advogado Peter Zeidenberg, contestou o veredito e classificou a pena como “desproporcional”, afirmando que não há provas que sustentem a condenação.

    Ícone musical dos anos 1990, Pras Michel integrou os Fugees ao lado de Lauryn Hill e Wyclef Jean. O grupo venceu o Grammy em 1997 com o hit “Killing Me Softly With His Song” e com o álbum “The Score”. Ele também foi indicado ao prêmio em 1999 pela canção “Ghetto Superstar”.

    Indicado por Lula ao STF no Dia da Consciência Negra, Jorge Messias se diz pardo

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    Jorge Messias (Foto: Victor Piemonte/STF)

    No Dia da Consciência Negra, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a indicação de Jorge Rodrigo Araújo Messias, atual advogado-geral da União, para ocupar a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) após a aposentadoria antecipada do ministro Luís Roberto Barroso. A escolha, formalizada em 20 de novembro, insere-se em um contexto de intensa cobrança por maior diversidade na mais alta corte do país.

    Pernambucano, 45 anos, e doutor em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), Messias integra o governo desde o início da terceira gestão Lula e é amplamente considerado um nome de confiança do presidente. Para assumir o cargo, o indicado ainda precisará passar pela sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e ter seu nome aprovado pelo plenário do Senado Federal.

    Ao longo de sua trajetória profissional, Messias atuou em diferentes áreas do Executivo, incluindo o Banco Central, o BNDES e o Ministério da Educação, além de ter integrado a equipe de transição do governo Lula em 2022. Em nota, o advogado-geral afirmou sentir-se honrado com a escolha e manifestou-se disposto a demonstrar ao Senado que reúne os requisitos exigidos para o cargo. O presidente Lula, por sua vez, declarou ter plena confiança no trabalho do atual chefe da AGU e destacou seu compromisso com a defesa da Constituição.

    O anúncio, contudo, trouxe novos e complexos elementos ao debate sobre a composição do Judiciário. Embora Messias se declare pardo, informação confirmada por sua assessoria à AGU em apuração do portal Noticia Preta, a indicação de mais um homem para a Corte, justamente em uma data de forte simbolismo para a luta antirracista, frustrou organizações e ativistas que pressionavam o governo pela nomeação de uma mulher negra para o STF.

    O STF, em seus 134 anos de história, jamais contou com uma ministra negra. Desde 1891, apenas três mulheres ascenderam à Corte — Ellen Gracie, Cármen Lúcia e Rosa Weber, todas brancas. A ausência de mulheres negras no Supremo tem sido apontada por pesquisadores, juristas e organizações do movimento negro como uma evidência da profunda distância entre a estrutura do Judiciário e a composição racial e de gênero da população brasileira.

    A crítica à escolha de Messias ganhou contornos ainda mais agudos pela data do anúncio. O movimento Mulheres Negras Decidem, em nota de repúdio, afirmou que a decisão “repete um padrão histórico de exclusão” e que, “pela 12ª vez desde a redemocratização, o Brasil se recusa a reconhecer a excelência, a legitimidade e o legado das mulheres negras que sustentam este país”.

    Em entrevista, o advogado José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, expressou a decepção dos grupos que esperavam uma atitude diferente do governo. “Nós imaginávamos que as forças progressistas iriam corrigir ou iriam ter uma atitude diferente diante dessa situação [de falta de representatividade]”, disse. Para ele, a indicação representa uma perda para a República e para a sociedade, que “vai deixar de ter uma Suprema Corte representativa, uma Suprema Corte que tenha o compromisso com essa luta da sociedade por mais igualdade, por mais justiça, por mais participação, por mais inclusão e por mais representatividade”.

    Mesmo com avanços pontuais em outras instâncias, o tribunal mais alto do país segue sem incluir um grupo historicamente central na formação social brasileira e igualmente ausente dos espaços de maior poder institucional, reforçando a percepção de que o Judiciário mantém um caráter excludente em sua mais alta instância.

    Império Serrano apresenta a fantasia “Conceição Yalodê”, parte do enredo que homenageia Conceição Evaristo

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    Fotos: Fabiano Vieira

    O Império Serrano divulgou a fantasia das baianas batizada “Conceição Yalodê”, primeiro figurino divulgado do enredo Ponciá Evaristo Flor do Mulungu, que a escola apresentará no Carnaval de 2026. A revelação ocorreu durante as ações do Dia da Consciência Negra e integra a sequência de imagens e matérias que a escola tem liberado sobre a construção visual do desfile.

    A fantasia teve a própria Conceição Evaristo como porta-voz simbólica: a escritora vestiu o figurino em material fotográfico divulgado pela escola, ressaltando a ligação entre literatura, ancestralidade e simbologias religiosas presentes no projeto. A imagem é pensada para dialogar com a presença das baianas no samba e com a memória afetiva que essas figuras carregam.

    O desenho do figurino dialoga explicitamente com referências históricas, incluindo a icônica imagem de Dona Ivone Lara em 1983, e propõe uma leitura afro-católica que sincretiza Nossa Senhora da Conceição com Oxum, reforçando a intenção narrativa do enredo de conectar religiosidade, memória e identidade negra. O carnavalesco responsável pela proposta visual é Renato Esteves, que assina a direção de arte do enredo.

    Mais do que estética, a revelação da “Conceição Yalodê” sinaliza o lugar que a obra e a biografia de Conceição Evaristo ocupam no debate público: transformar a literatura e as histórias negras em presença material na avenida, com figurinos que falam de pertencimento, potência feminina e ancestralidade. A expectativa agora é ver como o restante das alas e fantasias ampliará essa narrativa até o desfile.

    Chadwick Boseman recebe estrela póstuma na Calçada da Fama de Hollywood

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    Foto: reprodução/variety

    Chadwick Boseman recebeu ontem (20) uma estrela póstuma na Calçada da Fama de Hollywood, em uma cerimônia que reuniu familiares, amigos e colegas que acompanharam sua trajetória. A presença de nomes como Michael B. Jordan, Viola Davis, Letitia Wright e Ryan Coogler reforçou que essa não foi apenas mais uma homenagem de Hollywood, foi um gesto simbólico que reconhece a importância de um artista que redefiniu o alcance da representatividade negra no cinema global.

    Antes de se tornar T’Challa, Boseman já demonstrava o peso de sua escolha artística. Ele interpretou figuras fundamentais da história afro-americana: Jackie Robinson, que rompeu a segregação no beisebol; James Brown, cuja musicalidade moldou gerações; e Thurgood Marshall, primeiro juiz negro da Suprema Corte dos EUA. Cada papel era tratado como missão, não como oportunidade. Essa postura se tornaria marca de sua carreira, rigor histórico, profundidade emocional e uma leitura política de cada personagem.

    Em Pantera Negra, essa visão atingiu escala mundial. Boseman ajudou a construir um marco cultural, ampliando o imaginário negro para o campo do épico e do heroico. Wakanda não foi apenas um cenário de ficção: tornou-se referência estética, tecnológica e espiritual para milhões de pessoas negras ao redor do planeta. A performance de Boseman deu forma a um líder que combinava ancestralidade, modernidade e dignidade, algo raro em narrativas mainstream. Seu impacto ultrapassou o cinema: atravessou a moda, a educação, debates sobre identidade e abriu portas para novos caminhos criativos.

    Mesmo em meio ao tratamento contra um câncer agressivo, Boseman seguiu atuando, gravando e construindo um legado com uma disciplina comovente. Seu último trabalho, A Voz Suprema do Blues, mostrou um artista ainda mais maduro, consciente e afiado. Agora, sua estrela na Calçada da Fama funciona como um marco físico de algo que já era evidente: Boseman não foi apenas um nome da indústria. Ele se tornou referência, memória viva e ponto de virada na maneira como Hollywood enxerga, e representa, corpos e narrativas negras.

    Da Bahia ao Sudão: Festival ‘Ocupa MAB’ reúne as cozinhas da diáspora no Museu Afro Brasil

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    Foto: Sebastian Januário

    São Paulo, novembro de 2025 — O Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo, realiza no dia 20 de novembro a quarta edição do Ocupa MAB – Festival de Música e Gastronomia, uma das ações centrais da programação do Mês da Consciência Negra.

    Com entrada gratuita, o evento ocupa a marquise do museu, no Parque Ibirapuera, propondo um encontro entre arte, gastronomia e ancestralidade. A iniciativa reafirma o museu como território de memória, criação e resistência, reunindo públicos diversos em uma experiência que mobiliza práticas culturais da diáspora africana.

    Criado em 2022, o Ocupa MAB se consolidou como espaço de partilha e celebração coletiva. A edição de 2025 amplia esse escopo ao integrar música, culinária e práticas educativas. A proposta é que o público experimente o museu como território vivo, onde memória e criação se articulam.

    Em nota, os produtores culturais Aline Santos e Maurício Monteiro destacam a importância do festival:
    O IV Festival Ocupa MAB é resistência, mas, acima de tudo, celebração. Ser mais um espaço em que o museu amplia sua forma de expressão artística e une música e gastronomia negra para celebrar nossa herança cultural é reafirmar nosso compromisso com a arte como instrumento de liberdade. Que neste dia 20, Oxóssi nos inspire a seguir na busca por sabedoria e fartura.”

    A programação começa às 10h30, com a Oficina de RAP: Retomando a Memória e Construindo Imaginários, conduzida por Gabrelú e Killa Bi, do Núcleo de Educação do Museu. A atividade propõe reflexões sobre memória, identidade e imaginário a partir do rap e da poesia falada.

    Ao meio-dia, os artistas realizam uma intervenção coletiva aberta ao público, transformando o espaço em um encontro de expressão e criação compartilhada.

    Feira gastronômica e sabores da diáspora

    A partir das 11h, a feira gastronômica toma a marquise, reunindo cozinheiros afro-brasileiros e africanos cujas trajetórias atravessam refúgio, ancestralidade, técnica e memória afetiva.

    Participam:

    • Sebastian Januário — especialista em culinária angolana e afrodiaspórica; integrante do Altar – Cozinha Ancestral.
    • Tabuleiro do Alcides — tradição baiana do acarajé ancestral.
    • Cozinha Ocupação 9 de Julho — projeto do MSTC que reúne moradores e artistas desde 2017 para fortalecer soberania alimentar e economia solidária.
    • Salsabil Matouk (Cozinha de Salsabil – Sudão) — chef sudanesa que atua com buffets, feiras e receitas árabes tradicionais.
    • Elga de Assunção (Bwala Catering – Angola) — empreendedora que preserva técnicas da culinária angolana.
    • Sylvie Mutiene (La Culture Congolaise – República Democrática do Congo) — cozinheira que difunde elementos da cultura congolesa por meio da gastronomia.
    • Jessica Ebaku (JK Ventura – Camarões) — cozinheira e ativista que compartilha práticas culinárias de Camarões.
    • Mohammed Taha (Safa Comeda Sudanasa – Sudão) — refugiado sudanês que encontrou na gastronomia uma forma de reconstrução cultural no Brasil.

    As participações evidenciam a amplitude das culinárias afro-brasileiras e africanas, marcadas por técnicas, memórias e afetos que atravessam diferentes territórios da diáspora.

    Programação musical

    Durante a tarde, a trilha sonora destaca produções afro-brasileiras contemporâneas, com apresentações de:

    • Sista Mari + DJ Pepe
    • DJ Nicolas Bahia
    • Nega Duda e seus tambores
    • DJ Carol Selecta + Sista Chilli
    • Preta Batuque — que encerra a programação em uma grande roda de samba.

    SERVIÇO

    IV Ocupa MAB – Festival de Música e Gastronomia
    Museu Afro Brasil Emanoel Araujo – Marquise do Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega, Parque Ibirapuera – Av. Pedro Álvares Cabral, s/n, Portão 10, São Paulo/SP
    20 de novembro de 2025 (quinta-feira)
    Das 11h às 19h
    Entrada gratuita e acessível

    A força que nunca calou: o que não nos ensinaram sobre o 20 de Novembro

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    Estátua de Zumbi dos Palmares em Salvador (Foto: Adobe Stock)

    Se você, como eu, cresceu nos anos 1990, deve lembrar das comemorações do 13 de Maio na escola. A Princesa Isabel brilhava sozinha nessa história: nos livros didáticos, nas redações, nos cartazes coloridos. Tudo reforçava a ideia de que ela era a responsável direta — e praticamente única — pela libertação dos negros escravizados. Eu não aprendi, quando criança, sobre Luiz Gama, advogado e intelectual negro, que atuou decisivamente para libertar centenas de pessoas; nem sobre José do Patrocínio, jornalista e liderança negra do movimento abolicionista; nem sobre os irmãos André e Antônio Rebouças, engenheiros e pensadores negros cuja atuação política foi central naquele período. Muito menos sobre a resistência negra nos quilombos e nas revoltas que enfrentaram o sistema escravista.

    No pós-Abolição, essa narrativa centrada na futura imperatriz não surgiu por acaso. A princesa foi transformada em símbolo de bondade e redenção nacional. Recebeu do Papa Leão XIII a condecoração Rosa de Ouro, gesto que a aproximava de uma imagem quase santa; teve seu rosto estampado na moeda comemorativa no primeiro aniversário da Abolição; e foi celebrada como a mulher branca que “deu” a liberdade. Essa construção ajudou a reforçar a ideia de um Brasil cordial e harmonioso, ao mesmo tempo em que deixava de lado as lutas negras — dos abolicionistas aos quilombos — e apagava o fato de que a liberdade foi resultado de um processo coletivo de resistência, organização e enfrentamento ao sistema escravista.

    A partir da década de 1970, em plena ditadura militar, diferentes entidades do movimento negro se articularam e rearticularam politicamente para enfrentar o silenciamento das histórias de resistência negra que o Estado insistia em ignorar. E é importante dizer: esse silenciamento não foi um acidente — foi um projeto político muito bem-sucedido ao longo do século XX. Esses grupos denunciaram o mito da democracia racial e chamaram atenção para a situação da população negra no pós-Abolição — e para como seus efeitos seguiam (e seguem) presentes no cotidiano brasileiro. Ao fazer isso, trouxeram para o debate público algo que sempre esteve vivo nas comunidades negras, mas que raramente aparecia nos livros ou nas versões oficiais da história: o apagamento das lutas e das resistências negras ao longo dos séculos.

    É dentro desse movimento maior que o 20 de Novembro começa a ganhar força. Em 1971, o Grupo Palmares, em Porto Alegre, propôs a data como um marco simbólico da resistência negra, conectando-a à memória de Zumbi, como lembra Lélia Gonzalez no livro Lugar de Negro. Em 1978, o Movimento Negro Unificado dá um passo fundamental nesse processo ao lançar o manifesto “A Zumbi. 20 de novembro — Dia Nacional da Consciência Negra”, documento que afirmava explicitamente a importância da data como marco político e histórico. A partir dali, o que antes era uma iniciativa localizada ganha projeção nacional e se transforma em símbolo coletivo de enfrentamento ao racismo e de afirmação da consciência negra no Brasil.

    O 20 de Novembro carrega a força de muitas nações africanas e de histórias que nunca aceitaram o silêncio. Ele expõe o que esconderam de nós quando éramos crianças: a liberdade foi luta, não concessão. E lembra, como na canção de Jorge Ben Jor, que há momentos em que a memória chega com a força de Zumbi — senhor das demandas, capaz de desafiar a ordem. É isso que a data afirma hoje: a história é campo de disputa. E quando a memória negra se movimenta, ela não apenas revisa o passado — ela redefine o futuro.

    Preta Brasileira: o salão que nasceu com R$ 800 e virou referência de beleza afro e formação de trancistas

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    Foto: Divulgação

    No Mês da Consciência Negra, histórias de mulheres negras que transformam seus territórios por meio da economia criativa ganham ainda mais força. Entre essas lideranças está Leia Abadia, fundadora do salão Preta Brasileira, um dos empreendimentos de beleza afro mais influentes da zona leste de São Paulo. Leia iniciou o salão em 2010 com apenas um espelho e R$ 800. Quinze anos depois, o que começou como um sonho individual se consolidou como referência na estética afro, especializado em cabelos crespos e cacheados, com múltiplas unidades em bairros de maioria negra. Hoje, o Preta Brasileira atua também como um hub cultural voltado para autoestima, formação profissional e impacto social.

    Leia divide a gestão com as irmãs Suelen Lima, Glaucileia Fátima e Roselaine Silva. Cada uma ocupa um papel estratégico: Suelen Lima, artista plástica e trancista, conduz o Marketing e as Mídias Sociais; Glaucileia Fátima atua no setor de Recursos Humanos; Roselaine Silva, matemática e engenheira financeira, é responsável pelo Administrativo, Financeiro e Projetos; e Leia Abadia lidera a visão e o propósito do salão. Juntas, elas formaram uma estrutura sólida que impulsionou o nascimento do Preta Cultural, braço dedicado à formação de trancistas, rodas de conversa e ações de valorização da estética negra. “Trabalhar com as minhas irmãs é um ato de amor e resistência. O Preta Brasileira é mais do que um salão: é um espaço de transformação”, afirma Leia.

    A história de Leia ecoa a realidade de milhares de mulheres negras que encontram no empreendedorismo não apenas uma oportunidade de renda, mas um caminho de autonomia e reconstrução de identidade. O recente estudo Empreendedoras Negras 2024, do Instituto Rede Mulher Empreendedora (RME), reforça esse cenário: 86,2% das mulheres negras entrevistadas empreendem ou trabalham por conta própria. Muitas entram no setor após viverem discriminação racial no mercado de trabalho — uma motivação citada por 9,1% das entrevistadas.

    O mercado de beleza aparece como um dos principais espaços de atuação, reunindo 19% dessas empreendedoras. O dado revela como saberes ancestrais, como o trançado, se reinventam como negócios contemporâneos. A recente oficialização da profissão de trancista pelo Ministério do Trabalho também fortalece essa cadeia. Para Leia, o reconhecimento valida o que ela sempre defendeu: “as trancistas entregam identidade, autoestima e futuro e, por isso, devem se posicionar como empresárias”.

    Mas, apesar dos avanços, o estudo do RME também escancara que mais de 70% das empreendedoras negras relatam ter vivido discriminação racial no ambiente de trabalho, e metade afirma que o racismo ainda dificulta a expansão dos negócios — seja no acesso a crédito, na relação com clientes ou no alcance a redes profissionais.

    Esse cenário mostra que o empreendedorismo feminino negro ultrapassa a ideia de iniciativa individual. Ele se consolida como prática política. A filósofa Djamila Ribeiro já afirmou que fortalecer negócios negros “não é caridade, mas uma questão de economia e política”. Para ela, apoiar mulheres negras que empreendem é questionar estruturas historicamente excludentes e redistribuir oportunidades em um país marcado por desigualdades profundas.

    Redes de apoio: mulheres investindo em mulheres

    Em meio a esses desafios, um elemento se destaca como fator de sucesso: a solidariedade e o investimento mútuo entre mulheres negras. O caso de Leia Abadia e do Preta Brasileira ilustra bem esse princípio. Além de criar um negócio sustentável para si, buscam agora alavancar outras profissionais negras por meio da tecnologia. Ela está à frente do desenvolvimento da Ibraid, uma beauty tech concebida para conectar trancistas, consumidoras e lojistas em uma plataforma digital. A proposta da Ibraid é ambiciosa e inovadora: usar tecnologia contemporânea para ampliar o alcance de um saber ancestral, criando uma rede que facilite a contratação de trancistas, ofereça capacitação e gere inclusão financeira para essas profissionais. Essa startup nascente, gestada a partir de uma ideia vencedora em hackathon, já nasce com apoio de outras mulheres e organizações alinhadas à causa. O hub de impacto social CIVI-CO, por exemplo, acolheu a Ibraid em seu espaço, dando suporte estrutural para o projeto decolar.

    Outra parceria essencial vem da tecnologia. A Baruk, uma das poucas empresas brasileiras de inteligência artificial fundadas por uma mulher negra, tornou-se aliada estratégica da Ibraid. À frente da empresa está Ana Cabral, CEO da Baruk, que acredita que investir em mulheres negras é um caminho direto para a transformação estrutural.

    “Investir em mulheres pretas e periféricas não é apenas uma questão de justiça social, é uma estratégia para o desenvolvimento socioeconômico do Brasil”, afirma Ana. Segundo ela, ao direcionar capital, conhecimento e oportunidades a esse grupo, estamos corrigindo uma falha estrutural que limita o próprio potencial do país. 

    “O retorno desse investimento é multifacetado. Economicamente, estamos desbloqueando um potencial de consumo, inovação e geração de empregos imenso. Mulheres, especialmente as negras, tendem a reinvestir cerca de 90% de sua renda em suas famílias e comunidades, o que significa que cada real investido nelas gera um efeito multiplicador, fortalecendo a economia local de forma sustentável. Socialmente, ao apoiá-las, quebramos ciclos de pobreza e promovemos a diversidade no ecossistema de inovação. Novas perspectivas geram novas soluções para problemas antigos, criando um mercado mais resiliente, criativo e conectado com a realidade da maior parte da população brasileira. É um investimento que gera dividendos em capital humano, social e financeiro”, explica Ana Cabral.

    A atuação da Baruk vai além do aporte financeiro. Ana estrutura seus investimentos com três pilares: capital inteligente com mentoria estratégica, acesso a redes qualificadas e fortalecimento da liderança empreendedora. Isso inclui treinamentos, apoio emocional e abertura de portas em um mercado que historicamente invisibilizou mulheres negras.

    Ela destaca que, com apoio certo, as empreendedoras negras deixam de atuar na sobrevivência para alcançar a expansão. “O resultado mais transformador, no entanto, é ver essas mulheres, que sempre estiveram acostumadas ao trabalho duro e solitário, agora contarem com recursos financeiros confortáveis e, principalmente, com tempo para se dedicarem ao crescimento estratégico de seus negócios. Isso prova que, com o aporte certo, o talento que sempre existiu floresce e gera um impacto exponencial”, enfatiza.

    Essa aliança entre empreendedoras cria um ciclo positivo de oportunidades. A Ibraid, prevista para ser lançada em breve, já envolve dezenas de trancistas e parceiras que participarão de sua construção coletiva. Não se trata apenas de um novo aplicativo, mas do que Leia chama de “tecnologia ancestral” caminhando de mãos dadas com a tecnologia digital. “Religar a tradição ao futuro é o que estamos fazendo. Trança e tecnologia podem andar juntas para gerar riqueza na periferia”, diz Leia, ao comentar a sinergia do projeto. Iniciativas assim mostram que, quando mulheres pretas investem em mulheres pretas, os ganhos são compartilhados, há geração de renda, mas também fortalecimento identitário e comunitário.

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