Artista visual Íldima Lima lança coleção com a Tok&Stok e resgata o azul como herança africana

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Artista visual Íldima Lima lança coleção com a Tok&Stok e resgata o azul como herança africana
Foto: divulgação

Artista visual carioca apresenta sacola reutilizável inspirada em Mami Wata e na azulejaria afro-atlântica, desfazendo no objeto de decoração um equívoco histórico sobre a origem da cor e da cerâmica

A artista visual @ildima_lima assina a nova sacola reutilizável da Tok&Stok dentro de uma iniciativa anual da marca que convida artistas selecionados por curadoria a desenvolver peças exclusivas para a linha. A coleção de Íldima parte de uma pesquisa que ela vem conduzindo sobre dois eixos: a origem africana da cor azul como pigmento sagrado e a ancestralidade da cerâmica como tecnologia visual que antecede, em milênios, o que o imaginário popular associa à azulejaria portuguesa. O projeto ancora sua estética na mitologia de Mami Wata, entidade das águas presente em diversas tradições africanas e da diáspora, e incorpora símbolos Adinkra para estruturar um vocabulário visual decolonial dentro de um produto de grande circulação comercial.

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A curadoria que levou Íldima à parceria foi conduzida por Edson Coutinho, que a conheceu justamente desenvolvendo esse trabalho. A proposta que ela apresentou à Tok&Stok foi recebida e aprovada sem alterações conceituais, o que permitiu que o projeto mantivesse intacta sua camada de pesquisa e posicionamento. A sacola integra a coleção atual da marca e já está disponível nas lojas.

O trabalho de Íldima Lima transita entre pintura, cerâmica e estamparia, e a parceria com a Tok&Stok não é um projeto isolado: a artista segue desenvolvendo uma nova série dentro do mesmo universo temático, ainda em andamento. Conversamos com ela sobre o conceito por trás da coleção, sobre o equívoco histórico que seu trabalho questiona e sobre o que Mami Wata representa dentro dessa pesquisa.

O azul que não nasceu em Portugal

A pesquisa que sustenta a coleção parte de um dado histórico que o processo de colonização tratou de obscurecer: o primeiro pigmento sintético azul da história foi produzido no Egito Antigo, e o uso do azul como representação do sagrado, da realeza e da força vital das águas já estava presente em territórios africanos muito antes de se tornar símbolo da azulejaria portuguesa. Íldima trabalha diretamente sobre esse equívoco, e a reação do público diante de suas peças ilustra com precisão o que ela quer questionar. “As pessoas se aproximam e falam: ‘Ah, os azulejos portugueses’. E eu falo: ‘Não, amor, a cerâmica africana’, que é milenar”, contou durante a entrevista.

O formato modular do azulejo aparece no trabalho não como referência à tradição ibérica, mas como campo simbólico de memória afro-atlântica, uma linguagem reapropriada que devolve ao continente africano a autoria de uma tecnologia visual que lhe pertence. Povos africanos produziram painéis cerâmicos, utensílios e arte com pigmento azul e simbologia própria muito antes da colonização, e é sobre essa linha do tempo que Íldima constrói sua estética. “O trabalho vem muito nesse lugar de reposicionar, de conversar e dialogar com essas informações que foram deturpadas durante muito tempo”, afirmou.

Mami Wata e o universo das águas

O segundo eixo da pesquisa é a mitologia de Mami Wata, entidade que Íldima descreve como síntese de tudo que se relaciona às águas: elementos religiosos, folclóricos e naturais de diversas tradições africanas e da diáspora. Representada como uma mulher que carrega uma serpente e habita a fronteira entre o mar e a terra, Mami Wata condensa em sua figura a dualidade entre mundos e a força do que não se deixa fixar em uma única forma. “Ela sintetiza essa energia, e ela é representada por uma sereia, uma mulher que carrega uma serpente, e ela tem essa dualidade de ser peixe, serpente, mar e terra”, explicou a artista.

Esse universo se traduz no vocabulário visual da coleção por meio de imagens que carregam sentidos de proteção, travessia e poder ancestral: sereia, peixe, concha, búzio, sol, lua, estrela, serpente, vela e espelho compõem o repertório simbólico que organiza a estética da sacola. Nas bordas, símbolos Adinkra ancoram os valores que estruturam o trabalho: Aya, que representa força; Sankofa, que trata da memória; Duafe, do autocuidado; Eban, da proteção; e Nkyinkyim, da transformação.

Um produto de massa com pesquisa dentro

A iniciativa da Tok&Stok que originou a parceria funciona como uma vitrine anual para novos artistas, com a sacola reutilizável como suporte. Para Íldima, o formato representa uma oportunidade de colocar uma pesquisa densa e politicamente posicionada dentro de um objeto de grande circulação, acessível a um público que talvez nunca tivesse contato com as questões que o trabalho levanta. A estética decolonial que ela propõe não se fecha em si mesma: ela está disponível nas prateleiras de uma das maiores redes de decoração do Brasil, carregando dentro de cada sacola a pergunta sobre quem, afinal, inventou o azul.

A nova série que Íldima Lima desenvolve dentro do mesmo universo temático ainda não tem data de lançamento confirmada. Atualizações sobre o trabalho e a coleção em parceria com a Tok&Stok podem ser acompanhadas pelo perfil @ildima_lima no Instagram.

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