FOTO 3X4: Hiran e o rap que insiste em ampliar as próprias fronteiras

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FOTO 3X4: Hiran e o rap que insiste em ampliar as próprias fronteiras
Foto: Divulgação/Rapbox

Por: Rodrigo França

Toda geração produz artistas que obrigam uma linguagem artística a rever as próprias certezas. Hiran pertence a esse grupo. Sua presença desafia uma narrativa construída durante décadas, a de que determinados espaços culturais pertencem apenas a determinados perfis e de que determinadas identidades não encontrariam lugar dentro deles.

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O rap nasceu como uma das mais importantes expressões da população negra periférica. Transformou dor em poesia, revolta em consciência política e sobrevivência em arte. Denunciou o racismo, a violência policial, a desigualdade social e a ausência do Estado. Mas, como qualquer manifestação humana, também carregou contradições. Entre elas, a dificuldade histórica de acolher plenamente a diversidade sexual.

É justamente nessa fissura que Hiran construiu sua trajetória.

Aos 31 anos, o artista vive um dos momentos mais importantes da carreira. Pouco mais de dois meses após lançar IMUNDO, disco que marca seu retorno ao rap de maneira direta e madura, ele passou a integrar dois dos projetos mais importantes do RapBox, plataforma que há quase quinze anos ajuda a revelar e consolidar nomes da cena nacional. Entre eles estão o single Escombros e a terceira edição da série LEGADO, uma cypher formada exclusivamente por artistas LGBTQIA+.

O reconhecimento confirma uma caminhada construída com consistência. Mas também escancara o quanto ainda há de resistência quando pessoas LGBTQIA+ ocupam espaços historicamente considerados masculinos e heteronormativos.

Desde o lançamento de IMUNDO, Hiran passou a receber uma avalanche de comentários homofóbicos nas redes sociais. “Rap nunca vai fechar com LGBT”, escreveu um internauta. Outro afirmou que o cantor “merecia receber todo o nosso ódio”. São frases que revelam menos sobre o artista do que sobre uma parte da sociedade que ainda acredita que identidade e talento precisam obedecer às mesmas regras.

Hiran escolheu responder com permanência. “Quanto mais tentam me excluir, mais eu entendo a importância de estar aqui. Minha existência dentro do rap já é uma resposta para quem acha que pessoas LGBTQIA+ não têm espaço na cultura”, afirma.

Sua fala revela uma compreensão profunda do próprio papel. Em vez de transformar o preconceito no centro da narrativa, ele faz da música o principal instrumento de transformação. Essa postura tem raízes muito anteriores ao sucesso.

Nascido em Salvador e criado em Alagoinhas, no agreste baiano, Hiran costuma dizer que viveu uma infância típica do interior. Caminhava pelas ruas sem medo, sonhava olhando para um mundo que parecia distante e encontrava na televisão uma janela para outras possibilidades.

Foi diante da MTV que aconteceu seu primeiro encantamento. Enquanto outras crianças passavam horas assistindo a desenhos, ele ficou hipnotizado pelos videoclipes. Ali descobriu o Hip Hop, o Soul, o Pop e o R&B. Não demorou para entender que queria dedicar a vida à música.

“Nunca tive outro objetivo desde então”, recorda.

A influência da família foi decisiva. Foram seus pais que despertaram esse interesse e permitiram que a música ocupasse um espaço central dentro de casa. Esse ambiente ajudou a formar um artista que jamais enxergou fronteiras rígidas entre os gêneros musicais.

Racionais MC’s, MV Bill e Thaíde dividem espaço, em sua formação, com Jay Z, Beyoncé, Alicia Keys e Mariah Carey. Mais tarde, vieram a música popular brasileira e as sonoridades da Bahia. Essa mistura explica por que Hiran nunca pareceu interessado em seguir fórmulas prontas.

Seu trabalho sempre esteve mais próximo da liberdade do que da obediência estética.

Essa característica aparece de maneira ainda mais evidente em IMUNDO.

O título do disco, por si só, provoca reflexão. Durante séculos, pessoas negras e LGBTQIA+ foram tratadas como indignas, desviantes ou “imundas”. Ao escolher essa palavra como nome de seu álbum, Hiran parece realizar um gesto de ressignificação. O que antes era usado como insulto transforma se em linguagem artística. O estigma vira manifesto.

Não por acaso, o projeto reúne participações de artistas como Luedji Luna, Tássia Reis, Tom Veloso, Iara Rennó, Amabbi, Preta Chave, Del Jay, Ícaro Santiago e Thay Piazzi, ampliando o diálogo entre diferentes sonoridades da música brasileira.

O impacto do álbum ultrapassou a crítica especializada.

Quando os ataques aumentaram, importantes nomes da cultura brasileira decidiram responder coletivamente. Zélia Duncan convidou Hiran para dividir o palco da Concha Acústica, em Salvador. Djonga fez questão de leva-lo para seu show em Aracaju e, diante do público, criticou abertamente o preconceito dentro do próprio rap. Nas redes sociais, vieram manifestações de apoio de artistas como Luedji Luna, Teresa Cristina, Larissa Luz, Johnny Hooker, Ebony e Letrux.

Mais do que solidariedade, esses gestos revelam uma transformação em curso.

A presença de Hiran já não representa apenas uma experiência individual. Ela simboliza um movimento de ampliação do próprio Hip Hop brasileiro, que passa a reconhecer que defender liberdade também significa defender diferentes formas de existir.

Há outro aspecto pouco conhecido que ajuda a compreender sua personalidade.

Enquanto muitos imaginam um artista dedicado exclusivamente à música, Hiran cultiva uma paixão intensa pela Física. Estuda diariamente temas ligados ao universo e às grandes questões da ciência. É um detalhe aparentemente simples, mas revelador. Sua curiosidade ultrapassa a arte. Ele demonstra a mesma vontade de compreender o cosmos que dedica às relações humanas.

Essa inquietação aparece em suas respostas. Quando perguntado sobre o legado que deseja deixar, evita qualquer grandiosidade. Prefere reconhecer a potência do próprio caminho.

Sair de Alagoinhas, construir uma carreira independente, lançar cinco discos em menos de uma década, preparar a estreia de uma turnê nacional, atuar pela primeira vez na televisão e finalizar seu segundo livro já representam, para ele, uma revolução suficiente.

Existe uma beleza rara nessa escolha.

Em tempos em que a indústria costuma medir sucesso apenas por números, Hiran parece interessado em algo mais profundo. Sua carreira não busca apenas ocupar espaço. Busca ampliar o espaço para quem virá depois.

No fim das contas, sua maior contribuição para a música brasileira talvez não esteja apenas nas canções. Está na coragem de lembrar que o rap nasceu para confrontar exclusões, jamais para produzi las.

Cada palco ocupado por Hiran reafirma essa ideia.

Sua existência artística continua sendo uma pergunta dirigida ao próprio Hip Hop brasileiro. E a resposta, felizmente, parece estar sendo escrita a cada novo verso.

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