Geração Z, Dismorfia Digital e o Enraizamento do Racismo Estrutural

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Escrito por Caíque Nucci*

Há pouco menos de um mês, a geração Z se tornou tema principal no palco do debate online pela criação de uma nova palavra: cringe – que na tradução literal significa vergonha alheia. Essa expressão subiu para os trend topics de todos os sites antenados e gerou mais alguns questionamentos: O que é essa tal Geração Z e existe alguma diferença entre eles, os Millennials e os famosos Nativos Digitais? 

Nascidos entre 1995 a 2010, apelidados de Nativos Digitais pelo escritor Americano Marc Prensky, os pertencentes desse grupo desenvolveram desde cedo um pensamento extremamente crítico e questionador para tudo que os rodeia – principalmente quando o assunto é descarte de produtos e seu impacto ambiental. Além disso, eles também estão imersos desde sua infância em um ambiente rodeado pela internet. Para eles, a vida fora dela simplesmente não funciona. A ponte para o online acontece a todo momento, através de smartphones, tablets, televisão ou jogos de videogames em realidades aumentadas. Seja onde for, o que importa é evoluir e lapidar o Avatar. 

Óculos de realidade aumentada. Foto: Divulgação

Como todos na era digital, esses nativos vivem uma vida dupla, coberta por um véu quase imperceptível, que separa o real do digital – e mesmo possuindo fortes qualidades para busca e transformação do ambiente que estão inseridos, ainda assim, são fisgados pelas tentações que uma vida de influência digital aparenta ter e acabam virando, reféns do algoritmo das redes. 

No momento em que a vida real deixa de ser atrativa e só o online passa a fazer com que seus olhos brilhem, a carga de atenção e resposta para acompanhar as métricas que as redes sociais cobram desses indivíduos é tamanha que resulta em uma comunidade enfraquecida, sem perspectivas em uma vida offline.

Insônia, depressão, falsa miopia, problemas de audição e crise de ansiedade – são inúmeros os problemas causados pelo excesso de utilização da internet. Dentre eles, o mais recente e terrivelmente assustador é a Síndrome da Dismorfia Digital, também conhecido como TDC(Transtorno Dismórfico Corporal). Resultado da constante aplicação de filtros, aplicativos de edição fotográfica e outros facilitadores digitais para alteração de fotos a fim de atingir a tão sonhada imagem perfeita, esse distúrbio se tornou cada vez mais comum em pessoas que não aceitam seu próprio retrato como ele realmente é. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica(SBPC), somente nos últimos dez anos houve um aumento de 141% na procura por procedimentos estéticos por jovens de 13 a 18 anos. Entre as cirurgias mais procuradas estão: implantes de silicone, rinoplastia e a harmonização facial – este último sendo um conjunto de procedimentos estéticos que tem como objetivo proporcionar, como o nome já diz, “a harmonia e o equilíbrio estético em todo rosto.” 

Quando pensamos historicamente na construção da indústria da beleza, nos deparamos em diversos momentos com a mensagem de que ser belo é estar dentro da padronização e ter as características faciais no mesmo modelo que uma pessoa Européia – cabelos lisos, maxilar marcado, nariz afilado e principalmente, pele clara. Na mesma medida em que a internet democratiza e dá palco para debates importantes como representatividade racial e empoderamento de corpos, ela também abre espaço para um movimento de margem que vai contra à quebra principal desse sistema eurocêntrico caucasiano já existente, e que tenta uniformizar todas as pessoas dentro de um perfil só. 

Cirurgia Plástica. Foto: Divulgação

Mas qual a relação entre Geração Z e Dismorfia Digital com o racismo estrutural? 

Segundo o filósofo e escritor Silvio Almeida, “todo racismo é estrutural porque o racismo não é um ato, o racismo é um processo em que as condições de organização da sociedade reproduzem a subalternidade de determinados grupos que são identificados racialmente” e completa, “é estrutural porque estrutura todas as instituições.” Para conseguir compreender melhor as raízes dessa questão, precisamos nos transportar para a época da escravidão no Brasil, no séc XVI ao XIX, onde negros eram trazidos do continente Africano, vendidos e explorados a força como mão de obra. Depois de três séculos de escravidão, no pós-abolição em 1888, os “ex-escravos” não receberam nenhum suporte, terras, indenização ou reparo pelo período de trabalho forçado – sendo assim marcados profundamente em todas as estruturas de poder que o Brasil possuía. Divida histórica essa que percorre as Terras de Santa Cruz até hoje. Debater sobre racismo estrutural é lembrar de todas as questões e momentos da história que mantém aceso esse periodo de desigualdade entre brancos e negros. E isso continua nos rodeando constantemente – seja pela falta de oportunidade para profissionais negros dentro do mercado de trabalho até a carência de representatividade da estética e beleza negra em veículos de mídia. 

Uma família brasileira do século XIX sendo servida por escravos, pintado por Jean-Baptiste Debret, c. 1830

Sendo o 3° país no ranking da lista de países que as pessoas mais gastam tempo em Apps(em média 3 horas e 45 minutos) e com uma geração de jovens que é marcada pela presença fixa no online, aprender a desenvolver filtros para os conteúdos daquilo que consumimos nas redes sociais, se tornou um exercício fundamental para conseguirmos manter a saúde mental menos abalada. Em aplicativos onde tudo funciona na base do algoritmo, quanto mais curtimos e consumimos alguma temática/estética específica, mais receberemos do mesmo tópico a cada atualização na timeline. Em uma sociedade tão rica em cultura, crenças e raças, é triste ver uma parcela da população perdida em meio à métricas, sem saber como dosar a carga diária que consome de conteúdos online, sofrendo assim pelas síndromes que esse excesso acarreta e por fim, recorrendo a procedimentos estéticos para se encaixar dentro de um mesmo estereótipo – perdendo toda a originalidade, traços e beleza ancestral que o povo brasileiro carrega. 

Como resultado do racismo estrutural, a população negra já nasce precisando aprender e entender o que é ser negro. Em uma sociedade fundada a partir da escravidão, compreender que um corpo negro é muito mais potente do que aquilo que a sociedade espera que ele seja é de extrema importância para combater a tentativa de aculturação e genocídio que nos circunda. A ideia de que o ódio, preconceito e a falta de amor próprio se reproduz através de construções sociais já foi levantada em um discurso de Malcolm X quando ele diz: “Quem te ensinou a odiar a cor da sua pele? A tal ponto que você branquear, para chegar como o homem branco. Quem te ensinou a odiar a forma do seu nariz e a forma de seus lábios? Quem te ensinou a odiar a si mesmo a partir do topo de sua cabeça até as solas dos seus pés? Quem te ensinou a odiar sua própria espécie? Quem te ensinou a odiar a raça a que pertence tanto que você não quer ser em torno de si?”. E podemos ir para além disso. A ideia de que precisamos buscar uma estética diferente da nossa original para podermos nos enquadrar dentro de uma sociedade segregacionista, só fortalece o retrocesso do resgate da cultura negra, fazendo assim com que o racismo estrutural se enraíze cada vez mais. 

Quem tem voz no Brasil – 2021 – Obra de Marcos Roberto.

Utilizar da internet e de todos os seus benefícios de aproximação de pessoas, busca de informação e lazer cultural não é nenhum crime hediondo. Mas no momento em que o excesso da mesma começa a afetar na própria descoberta, construção pessoal e estética do ser… nesse momento sim, precisamos começar a repensar sua função. 

Geração Z, Dismorfia Digital e o Enraizamento do Racismo Estrutural

  • Jovem atuante no mercado de comunicação, Caíque Nucci começou sua trajetória no mercado de moda como modelo, participando de casting de desfiles para marcas e estilistas como LAB Fantasma e Fernando Conzendey, em eventos como Casa de Criadores e SPFW. E foi no backstage que encontrou sua verdadeira paixão. Formado em Design de Moda pela Escola Panamericana de Arte e Design, Fashion Marketing pela Belas Artes e com especialização em Marketing Digital pela EBAC – Escola Britânica de Artes Criativas, começou a estruturar sua carreira profissional dentro de assessorias de imprensa e agências de comunicação, na parte de produção de moda e jornalismo. Até aqui, carrega em seu portfólio o trabalho prestado para marcas como Converse, Levi’s, New Era, Luxottica, PUMA, Farm, Antonio Bernardo e Animale. Fascinado por desenvolvimento de marcas, pesquisa de tendências e comportamento, sempre em busca de inovação, Caíque também integra o grupo de três apresentadores do A Hora Delas Podcast, onde debatem sobre temas como moda, beleza, cultura e sociedade.

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