Usaram Morgan Freeman para deslegitimar a luta contra o racismo no Brasil

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Morgan Freeman falou, naquela entrevista editada (de 2009) que a questão do racismo era simplesmente pararmos de nos tratar por bancos ou negros e sim por quem somos, pessoas, cada uma com sua identidade. O vídeo – editado tendenciosamente – é amplamente usado para desqualificar a mobilização pela consciência negra… NO BRASIL! Sim, eles se valem de um bem sucedido ator da indústria cinematográfica de Hollywood pra deslegitimar nossa luta por aqui em Terra Brasilis.

https://www.youtube.com/watch?v=Cp4WVtdUrH8

Por Fernando Sagatiba*

Como funciona?
Bem, primeiro, há essa visão decorada de que o negro é paranóico e vê racismo em tudo. Não, não é. É que quem usa essa desculpa não vive o racismo pelo ponto de vista do negro. Muito fácil é pra quem não convive com tentativas de inferiorização por causa da cor da pele, cabelos, narizes, lábios, religião, música, enfim, tudo relacionado à identidade e herança negra no Brasil. Assim, tenta dar crédito a esse racismo velado usando a “sensatez” de um ator famoso e negro. O que seria mais valioso pra desmerecer a luta por respeito igualitário ao negro do que um negro dizer que isso tudo seria uma tremenda besteira, não é verdade?

Então, de onde veio essa história?

A entrevista fala sobre o Mês da História Negra, dos EUA. Vou te explicar a diferença rapidamente. O tal mês, que é fevereiro por lá, é designado para homenagear figuras importantes na luta contra a escravidão e o racismo, o que justifica, e muito, a aversão de Freeman à institucionalização do referido mês. Como ele mesmo fala, a história do negro nos EUA é a própria história do país. História é algo que se constrói de forma coletiva, realidades sobrepostas, logo, mais do que certo não querer um mês só pra se falar em negros e o resto do ano da cultura ‘geral’. Isso é segregar. Mas, veja bem, no Brasil, a coisa muda um pouco.

Aqui, onde técnico de futebol é chamado de professor e professor é chamado de vândalo, existe o dia da Consciência Negra (20 de novembro, como sabem), ou seja, não é um momento de recostar a participação do negro na história numa determinada data, é um passo ainda anterior. Pelo menos, eu vejo assim. Quem me dera ter pelo menos um, UM mês pra que se reconhecesse a participação – enorme e abrangente – do negro na construção desse país (um mês só pra começar). Mas não, o negro no Brasil não é reconhecido como um participante, mas como um hóspede. Veja nos livros, onde estão as inúmeras revoltas quilombolas, os abolicionistas do alto escalão da sociedade… O negro – entre outros grupos – foi empurrado para o canto e a história contada de forma meramente pontual e cronológica. Sem explicar a maldade do europeu escravizador nem a resistência do oprimido africano/brasileiro.

Então, aqui, nós temos um dia de meditação, ação e reação sobre como inserir cada vez mais o negro na sociedade, como trazer para uma situação de igualdade contra esse sistema reacionário e as classes que o defendem como a uma norma da divina natureza, que teria determinado o lugar do negro. Lá, é um mês que simboliza a história, aqui é uma data que simboliza uma luta. Quem sabe, através da consciência negra, consigamos o reconhecimento de nossa contribuição histórica. Mas, notem, antes de se lembrar da história, é preciso ter consciência dela, percebe?

Assumir a identidade negra é apenas uma questão de conscientização, como simboliza o dia 20 de novembro, mas que precisa ser feita ao ano todo e em todas as camadas da sociedade (veja meus textos internetEs afora), não é uma tentativa de tomar o poder da classe dominante, mas de condições igualitárias de êxito social. É como o feminismo, por causa do nome, acaba sofrendo o preconceito, já que o regime dominante – machismo – se sente ameaçado, mas é apenas por respeito. No fim das contas, uma das maiores dificuldades é justamente esses difamadores que se alimentam da confusão da maioria que não se preocupa em se informar, ou não quer, por imaginar o que vai encontrar.

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Enfim, o racismo é como uma fratura exposta, não adianta só encobrir e esperar que suma e seja esquecido, também não adianta reagir às colocações de Morgan Freeman, pois, ele não falou do Brasil, como muitos compartilham no Facebook, por exemplo, não é sobre a situação do negro brasileiro que ele comentou na entrevista. Lá, a abordagem é histórica, já há esse reconhecimento, o que ele não gosta é que se separe isso da história geral, e está certíssimo. Já aqui, o racismo é silencioso, cínico, naturalizado, então precisamos sim de um dia da Consciência Negra, assim como é válido o dia internacional da mulher, paradas de orgulho LGBT e outras datas afirmativas.

Não podemos é deixar que tudo se torne apenas uma festa, uma comemoração, pois não temos muito o que comemorar. Seria como dar uma festa pelo fim da escravidão… mas onde? Na senzala? Na favela? Precisamos é repensar esses conceitos de levar tudo na farra, pois, isso não é ser feliz, é ser conformado. Como diria Frejat ‘rir de tudo é desespero’. Veja o que se tornou o 1º de Maio, um feriado aguardado, mas que já se tornou festividade. Vamos combater essa visão reacionária de que o 20 de novembro é uma tentativa negra de tomar o poder do branco, pois, nunca estivemos perto de ser a classe opressora. Apenas exigimos a tal igualdade que a Constituição Federal nos garante e que nunca nos foi concedida, então lutamos por isso. Zumbi nos representa e não Isabel (a heroína, que assinou a lei divina).

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Aliás, Isabel assinou um papel (rima involuntária) que oficializou algo que já vinha sendo pressionado a acontecer por abolicionistas em altas classes da sociedade, negros revoltos e quilombolas com apoio de parte da população e, claro, a Inglaterra. Assim, o 13 de maio só foi uma troca de regime econômico e sistema governamental, não deu ao negro nada. Precisamos pensar de forma ativa, mais Valeu, Zumbi do que Liberdade, Liberdade, pois a luta tem maior representatividade pela exigência por respeito e nossos direitos sociais do que por uma comemoração ‘pra Inglês ver’ que só agrada à elite, mas nos deixa ‘no nosso lugar’ até… Até quando? Vamos chegando, minha gente, a casa é nossa também.

* Fernando Sagatiba é jornalista,  músico, colunista do site Mundo Negro e ainda comanda o blog Divagar é preciso

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