Usaram Morgan Freeman para deslegitimar a luta contra o racismo no Brasil

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Morgan Freeman falou, naquela entrevista editada (de 2009) que a questão do racismo era simplesmente pararmos de nos tratar por bancos ou negros e sim por quem somos, pessoas, cada uma com sua identidade. O vídeo – editado tendenciosamente – é amplamente usado para desqualificar a mobilização pela consciência negra… NO BRASIL! Sim, eles se valem de um bem sucedido ator da indústria cinematográfica de Hollywood pra deslegitimar nossa luta por aqui em Terra Brasilis.

Por Fernando Sagatiba*

Como funciona?
Bem, primeiro, há essa visão decorada de que o negro é paranóico e vê racismo em tudo. Não, não é. É que quem usa essa desculpa não vive o racismo pelo ponto de vista do negro. Muito fácil é pra quem não convive com tentativas de inferiorização por causa da cor da pele, cabelos, narizes, lábios, religião, música, enfim, tudo relacionado à identidade e herança negra no Brasil. Assim, tenta dar crédito a esse racismo velado usando a “sensatez” de um ator famoso e negro. O que seria mais valioso pra desmerecer a luta por respeito igualitário ao negro do que um negro dizer que isso tudo seria uma tremenda besteira, não é verdade?

Então, de onde veio essa história?

A entrevista fala sobre o Mês da História Negra, dos EUA. Vou te explicar a diferença rapidamente. O tal mês, que é fevereiro por lá, é designado para homenagear figuras importantes na luta contra a escravidão e o racismo, o que justifica, e muito, a aversão de Freeman à institucionalização do referido mês. Como ele mesmo fala, a história do negro nos EUA é a própria história do país. História é algo que se constrói de forma coletiva, realidades sobrepostas, logo, mais do que certo não querer um mês só pra se falar em negros e o resto do ano da cultura ‘geral’. Isso é segregar. Mas, veja bem, no Brasil, a coisa muda um pouco.

Aqui, onde técnico de futebol é chamado de professor e professor é chamado de vândalo, existe o dia da Consciência Negra (20 de novembro, como sabem), ou seja, não é um momento de recostar a participação do negro na história numa determinada data, é um passo ainda anterior. Pelo menos, eu vejo assim. Quem me dera ter pelo menos um, UM mês pra que se reconhecesse a participação – enorme e abrangente – do negro na construção desse país (um mês só pra começar). Mas não, o negro no Brasil não é reconhecido como um participante, mas como um hóspede. Veja nos livros, onde estão as inúmeras revoltas quilombolas, os abolicionistas do alto escalão da sociedade… O negro – entre outros grupos – foi empurrado para o canto e a história contada de forma meramente pontual e cronológica. Sem explicar a maldade do europeu escravizador nem a resistência do oprimido africano/brasileiro.

Então, aqui, nós temos um dia de meditação, ação e reação sobre como inserir cada vez mais o negro na sociedade, como trazer para uma situação de igualdade contra esse sistema reacionário e as classes que o defendem como a uma norma da divina natureza, que teria determinado o lugar do negro. Lá, é um mês que simboliza a história, aqui é uma data que simboliza uma luta. Quem sabe, através da consciência negra, consigamos o reconhecimento de nossa contribuição histórica. Mas, notem, antes de se lembrar da história, é preciso ter consciência dela, percebe?

Assumir a identidade negra é apenas uma questão de conscientização, como simboliza o dia 20 de novembro, mas que precisa ser feita ao ano todo e em todas as camadas da sociedade (veja meus textos internetEs afora), não é uma tentativa de tomar o poder da classe dominante, mas de condições igualitárias de êxito social. É como o feminismo, por causa do nome, acaba sofrendo o preconceito, já que o regime dominante – machismo – se sente ameaçado, mas é apenas por respeito. No fim das contas, uma das maiores dificuldades é justamente esses difamadores que se alimentam da confusão da maioria que não se preocupa em se informar, ou não quer, por imaginar o que vai encontrar.

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Enfim, o racismo é como uma fratura exposta, não adianta só encobrir e esperar que suma e seja esquecido, também não adianta reagir às colocações de Morgan Freeman, pois, ele não falou do Brasil, como muitos compartilham no Facebook, por exemplo, não é sobre a situação do negro brasileiro que ele comentou na entrevista. Lá, a abordagem é histórica, já há esse reconhecimento, o que ele não gosta é que se separe isso da história geral, e está certíssimo. Já aqui, o racismo é silencioso, cínico, naturalizado, então precisamos sim de um dia da Consciência Negra, assim como é válido o dia internacional da mulher, paradas de orgulho LGBT e outras datas afirmativas.

Não podemos é deixar que tudo se torne apenas uma festa, uma comemoração, pois não temos muito o que comemorar. Seria como dar uma festa pelo fim da escravidão… mas onde? Na senzala? Na favela? Precisamos é repensar esses conceitos de levar tudo na farra, pois, isso não é ser feliz, é ser conformado. Como diria Frejat ‘rir de tudo é desespero’. Veja o que se tornou o 1º de Maio, um feriado aguardado, mas que já se tornou festividade. Vamos combater essa visão reacionária de que o 20 de novembro é uma tentativa negra de tomar o poder do branco, pois, nunca estivemos perto de ser a classe opressora. Apenas exigimos a tal igualdade que a Constituição Federal nos garante e que nunca nos foi concedida, então lutamos por isso. Zumbi nos representa e não Isabel (a heroína, que assinou a lei divina).

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Aliás, Isabel assinou um papel (rima involuntária) que oficializou algo que já vinha sendo pressionado a acontecer por abolicionistas em altas classes da sociedade, negros revoltos e quilombolas com apoio de parte da população e, claro, a Inglaterra. Assim, o 13 de maio só foi uma troca de regime econômico e sistema governamental, não deu ao negro nada. Precisamos pensar de forma ativa, mais Valeu, Zumbi do que Liberdade, Liberdade, pois a luta tem maior representatividade pela exigência por respeito e nossos direitos sociais do que por uma comemoração ‘pra Inglês ver’ que só agrada à elite, mas nos deixa ‘no nosso lugar’ até… Até quando? Vamos chegando, minha gente, a casa é nossa também.

* Fernando Sagatiba é jornalista,  músico, colunista do site Mundo Negro e ainda comanda o blog Divagar é preciso

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