“Um restaurante não depende só de saber cozinhar”, diz a Chef Michele Crispim

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“Um restaurante não depende só de saber cozinhar”, diz a Chef Michele Crispim
Michele Crispim é fundadora do Florella Bistrô & Café/Foto: Divulgação

Vencedora da quarta temporada do MasterChef Brasil e dona do Florella Bistrô & Café, em São Paulo, a chef falou sobre delegar funções, planilha desde 2015 e o preço de tentar dar conta de tudo sozinha

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“Pensem num chef de cozinha: qual é a imagem que vem na cabeça de vocês? Um homem branco.” A pergunta foi feita por Michele Crispim (@crispimichele) a uma plateia do Universa Talks 2026, evento do UOL dedicado ao empreendedorismo feminino, e serviu para explicar por que ela decidiu construir a própria imagem antes mesmo de ter um endereço físico. “Eu falei: gente, eu quero ocupar esse espaço.”

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Antes de entrar na cozinha profissionalmente, Michele trabalhava com Gestão de Pessoas e acompanhava o MasterChef querendo mudar de carreira. Em 2017 se inscreveu na quarta temporada, chegou à final e venceu. Morava na Grande Florianópolis, onde abriu o primeiro restaurante. Hoje comanda o Florella Bistrô & Café (@florellabistro), na Vila Nova Conceição, em São Paulo, aberto em 2025.

A casa própria mudou o jogo de um jeito que ela descreve sem romantismo. Uma marca pessoal pode ser sustentada por talento e presença, mas um restaurante precisa funcionar todos os dias, com ou sem a chef no salão. Foi aí que apareceram os erros que ela faz questão de contar em voz alta.

O primeiro é o mais comum entre quem entra na gastronomia pela paixão. “Eu sei cozinhar, mas um restaurante não depende só de saber cozinhar; ele depende de administração, de financeiro, de marketing. Se eu ficar fazendo só o que eu sei, eu não vou nem saber o que está acontecendo no meu negócio”, disse.

No primeiro restaurante, ela tentou ocupar todos os postos ao mesmo tempo. “Eu ia às três horas da manhã no Ceasa comprar as coisas, depois queria estar na cozinha porque não confiava, e ainda queria atender as pessoas. O que aconteceu? Me sobrecarregou.” A virada veio quando aceitou dividir, entendendo que “cada um tem que cuidar daquilo que sabe fazer e aprender a delegar funções”. O efeito, segundo ela, apareceu no caixa: “depois que eu deleguei funções, o meu faturamento aumentou muito”.

Vale um contraponto que a fala dela não cobre. Delegar pressupõe caixa para pagar alguém, e boa parte de quem empreende na gastronomia brasileira toca o negócio sozinha ou com a família, entre a cozinha de casa, o delivery e a barraca de feira. Para quem está nesse ponto, o conselho mais aplicável da Michele não é o de contratar, é o que veio antes dele: separar as contas pessoais das contas da empresa e saber, todo mês, quanto entra e quanto sai. A planilha que ela mantém desde 2015 existiu antes de qualquer sócio.

Sobre clientes, Michele separa duas coisas que costumam ser tratadas como uma só. Atrair é uma tarefa, fazer voltar é outra. “Sinceramente, para ele retornar é a comida. Eu posso ter uma série de estratégias para fazer ele ir até lá, mas para ele voltar a comida tem que ser boa.” A crítica é dirigida a quem aposta todas as fichas em ações virais que não se sustentam quando o prato chega à mesa. “Nenhum restaurante sobrevive de experiências únicas.”

A disciplina com números aparece na fala dela como método, não como dom. “Ser organizada financeiramente é indispensável. Eu tenho planilhado a minha vida financeira desde 2015, com todos os meus gastos pessoais e da empresa separadamente.” Daí ela puxa um recado sobre ambição, geralmente mais difícil de engolir do que planilha: “a gente tem medo de ser grande muitas vezes, não pode ter medo de investir no que você faz”. Metas financeiras audaciosas, nas palavras dela.

A chef também recusa a ideia de esperar o momento em que tudo estará resolvido. “Você tem que aprender no caminho. Ninguém vai estar se sentindo 100% pronta.” E trata o erro como ativo, não como derrota: “quanto mais eu erro, mais caro eu vou cobrar. Ao invés de fazer um curso, eu quebrei minha cara. Aí eu já sei o que eu errei”.

A formação em Gestão de Pessoas, que ficou para trás no currículo mas não na prática, fecha o raciocínio no ponto que atravessa todos os outros. “No final das contas, é sempre sobre lidar com pessoas. O que as pessoas têm mais dificuldade é no lidar com pessoas.” Nenhuma tecnologia, diz ela, substitui escuta e olhar atento para a equipe.

“Eu sou o meu produto principal, eu sou a minha empresa”, definiu. A frase explica o cuidado que ela teve em construir a imagem antes da casa e explica também o limite desse modelo: um negócio que depende inteiramente de uma pessoa só cresce quando essa pessoa aprende a sair do centro.

SERVIÇO

Florella Bistrô & Café (@florellabistro)
Rua Dina, 76, Vila Nova Conceição, São Paulo (SP)
Chef Michele Crispim (@crispimichele)

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