Um edifício em Copacabana: uma crônica sobre não ser visto como morador por conta da cor da pele

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Um edifício em Copacabana: uma crônica sobre não ser visto como morador por conta da cor da pele
Foto: iStock

 Camila de Araujo*

Há trinta anos moro no mesmo prédio, na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde minha mãe é trabalhadora doméstica. Apadrinhada pelos patrões dela, para quem sou como se fosse da família, por volta dos dez anos de idade, migrei do quartinho de empregada para o quarto que a filha do casal havia deixado ao sair de casa. O edifício é composto por dez apartamentos, um por andar.

Os quartos não são pequenos, mas também não são grandes. Há funcionários – porteiros, vigias, zeladores, manobristas que se desdobram nas funções anteriores -, vinte e quatro horas por dia. Também há câmeras de vigilância e garagens aberta e subterrânea. Ao contrário dos condomínios modernos que oferecem sauna, piscina, churrasqueira e área de lazer para os pequenos brincarem atrás das grades, a majestosa sala-de-estar, com vista para a praia de Copacabana e arejada pela brisa do mar que percorre a Avenida Atlântica, compensa os defeitos. Como os dois elevadores que enguiçam com frequência e embalam os moradores numa balada ruidosa até que o porteiro apareça – alguns moradores permanecem dentro do cubículo suspenso até que o homem de uniforme realize o simplório gesto de estender e recolher o bíceps e o antebraço.

Há três décadas estou acostumada com a sinfonia de correntes da caixa de metal. Ontem ao sair para encontrar minha namorada apertei o botão diversas vezes até que as portas pantográficas decidissem se fechar. Ali, pertinho, admirei a mulher negra de cabelos cacheados e devolvi seu olhar porque gostei do que vi ao me reconhecer através do espelho, sozinha.

Quando cheguei à portaria e sai do elevador, o tímido Wallace, como um soldado, estava atrás da porta. Antes que ela se fechasse o homem a segurou. Então, recebi na cara como um soco aquele olhar que gente como eu repara ao entrar em lojas antes de ser seguido ou em bancos quando a porta giratória trava, misteriosamente. No trajeto entre o elevador e a porta de vidro que levava a grade do prédio e à rua, me senti sob a mira da velha de cabelos tão brancos que a brancura era uma extensão da pele.

 – Pode entrar, dona – disse o porteiro.

– Vou depois que ela sair – disse a velha.

Wallace murmurou um ruído indecifrável, porém, constrangedor.

É racismo, minha senhora. Eu moro aqui também, eu poderia dizer, mas apenas atravessei a mesma porta que atravesso há trinta anos, ao contrário de gerações de trabalhadoras domésticas que saem pela porta de serviço ao final do dia. Na rua, ainda olhei para trás. A velha continuava parada ao me encarar. Havia um abismo entre nós; metros de distância, grades de segurança, uma escadaria. Contudo, seu olhar alertava que o melhor que eu podia fazer era não retornar, não invadir mais ainda um dos trechos mais caros da cidade. Só falta isso me render uma confusão, disse a mim mesma.

Olhei para frente. Pensei em minha mãe, andares acima, com vista para a máquina de lavar e o cheiro de sabão em pó na porta.

*Camila de Araujo está entre os vencedores do concurso literário Prêmio Rio de Contos e é uma das selecionadas para compor o próximo livro da Flup Cartas para Esperança. 

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