Salvador precisa ser conduzida por uma mulher negra

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No que tange à ocupação de cargos políticos e a representatividade negra nesses espaços, Salvador é uma cidade extremamente estagnada e vergonhosa. É um reflexo de um país também inerte, que mantém as mesmas pessoas em ocupações políticas de poder, uma vez que é governado, majoritariamente, por homens brancos cuja riqueza está concentrada em suas mãos desde a primeira divisão territorial do Brasil (as capitanias hereditárias). Os períodos colonial e imperial, ancorados na escravização dos negros, que perduraram durante séculos e foram os grandes responsáveis pela consolidação do racismo estrutural, reforçaram ainda mais esses privilégios. Essas regalias continuam sendo passadas de pais para filhos, assim como as capitanias hereditárias, e são sustentadas por um sistema opressor que mantém os negros à margem da sociedade, desumanizando-os e descartando as suas vidas como se fossem pessoas desprezíveis, sem sonhos, com um destino único — a subalternidade. O que mais assusta, no entanto, é saber que ao contrário de uma análise estatística mais abrangente do Brasil, cuja população negra corresponde a cerca de 56%, a comunidade negra de Salvador é um pouco mais de 80%, constituindo-se como a cidade mais negra fora da África. Nós, negros soteropolitanos cujos antepassados levantaram não só essa cidade mas também esse país nos braços, somos significativamente a maioria esmagadora – a base e o corpo desse território. Todavia, infelizmente, ainda não estamos no topo, porque embora sejamos a grande parcela da população, existe um racismo que atua com veemência, alienando a comunidade negra soteropolitana. A imagem que se passa de Salvador nos meios de comunicação de massa controlados por pessoas brancas (formadores de opinião) é que somos todos iguais. Como há muitos pretos na cidade, acredita-se, erroneamente, que vivemos numa democracia racial onde negros e brancos compartilham o mesmo espaço em harmonia e possuem os mesmos direitos. Isso é um pensamento extremamente utópico, pois embora estejamos em maior número, os espaços de poder são privilegiadamente ocupados por pessoas brancas. A prova disso é que nunca houve sequer um prefeito (a) negro (a) eleito (a) por voto direto. Edvaldo Brito, advogado, professor e único prefeito negro, governou por menos de 1 ano e chegou ao cargo da prefeitura por eleições indiretas feitas pela Assembleia Legislativa do Estado da Bahia durante o período da Ditadura Militar. Esse discurso de que “somos todos iguais”, evidentemente, parte de uma estratégia da branquitude que visa mascarar o racismo perverso que estrutura toda a sociedade brasileira e alienar os negros a não enxergarem as desigualdades raciais que permeiam Salvador. Os pretos marginalizados, os quais não têm acesso à informação, infelizmente são manipulados por candidatos brancos que fazem promessas milagrosas, impondo-se como os messias, os salvadores da pátria, os grandes heróis que assim como a Princesa Isabel foram enviados pelos anjos do céu para libertarem e tirarem os negros do sufoco. Em verdade, de heróis não têm nada, poucas dessas promessas são cumpridas na prática e a gestão deles continua perpetuando privilégios e nada diminui significativamente as disparidades sociais, econômicas e políticas. Investem em carnaval, na famosa política do pão e circo, mas se esquecem de dar à população negra um tratamento digno no transporte, na infraestrutura de suas casas, em educação, saúde e emprego. Lamentavelmente, a desinformação camufla o racismo e coloca uma venda nos olhos de muitos cidadãos pretos soteropolitanos que não têm a possibilidade de refletir sobre essas questões raciais. Assim, são conduzidos por uma massa ideológica racista – que está à serviço de uma classe dominante branca – a votarem em pessoas brancas ao invés de contribuírem para que seus semelhantes pretos se elejam. Acredito que as redes sociais têm desempenhado um papel mais democrático e escrevo, portanto, acreditando que essa informação chegue a essas pessoas alienadas para que elas entendam que o seu voto é um exercício de cidadania, político e democrático, de extrema importância para que o poder executivo de Salvador seja exercido por pessoas que, de fato, representem politicamente a maioria da população.

A cidade mais negra fora da África precisa ser conduzida por uma mulher negra.

Como um homem negro, acredito que no debate político raça precisa vir antes de gênero. Mulheres brancas são mais bem remuneradas que negros e conquistaram espaços que homens negros sequer podem sonhar em galgar, tampouco as mulheres negras. Se entre as brancas e os homens brancos existe um pacto colonial em que eles se apoiam mutuamente para manter seus privilégios, eu preciso apoiar as mulheres negras e me unir a elas, considerando que a história delas também é a minha história. Esse pensamento possibilita mais união entre nós para que enxerguemos as mulheres pretas como elas são (nossas aliadas) e não como nossas rivais. Assim, não nos permitimos cair na besteira de reproduzir a cultura patriarcal criada pelo homem branco para oprimir as mulheres e tratá-las como pessoas inferiores a eles. Essa ideologia que carrego comigo embasa-se na filosofia africana. Katiuscia Ribeiro, filósofa, professora e poetisa, inteligentemente nos convida com o Mulherismo Africana, um pensamento afrocêntrico cujo nome foi cunhado por Clenora Hudson-Weems, a nos enxergarmos enquanto povo preto em diáspora que nasceu de um ventre africano regido por matriarcas, mas que foi violentamente retirado do seu território pelo Ocidente. Enquanto a ideologia ocidental, a partir de um sequestro da nossa cultura, é estruturada no patriarcalismo, colocando os homens brancos como o centro do mundo, o mulherismo africana nos impulsiona, sob uma perspectiva emancipatória, a resgatar a nossa cultura centrada no matriarcado africano, que dá às mulheres negras a centralidade do poder. Por todos esses significados, eu acho justo que uma mulher negra torne-se prefeita de Salvador.


Quando eu saio no meu bairro, são as MULHERES NEGRAS que estão nas feiras, nas barracas de acarajé, nas suas vendinhas…
São ELAS que se dividem em mil para serem uma mãe presente na vida acadêmica de seus filhos, para trabalharem dentro e fora de casa, tendo que lidar ainda com o racismo estrutural, o machismo e as demais desigualdades produzidas pelo capitalismo.
Quando eu falo sobre os meus sonhos, são as MULHERES NEGRAS da minha família (mãe, tias, avós) que me apoiam e são o meu alicerce.
São ELAS que, de mãos dadas aos homens negros, levantaram esse país nos braços e carregam consigo o nosso saber ancestral. Conhecimento este que é passado, de geração em geração, para que nunca nos esqueçamos do nosso poder, da nossa herança histórica e cultural, de que somos descendentes de reis e rainhas.
Quando eu leio a história do Brasil, eu vejo uma potência de MULHERES NEGRAS que protagonizaram grandes revoltas que culminaram no fim da abolição da escravatura.


Foram ELAS também as mulheres estupradas, as que foram submetidas ao trabalho escravo, as amas de leite, aquelas que cometiam suicídio porque não suportavam ver seus filhos sendo roubados e assassinados pelo sistema. Hoje, são essas mulheres que ainda sofrem quando perdem seus filhos para a brutalidade policial.
Apesar de toda tentativa de exterminação e apagamento dos negros, ELAS mantiveram-se firmes, resistentes e, mesmo sabendo que historicamente a política é um âmbito destinado a homens brancos, os seus instintos ancestrais as impulsionam a irem em busca de mudanças. Assim, elas lutam, de punhos cerrados, brigando sutilmente por respeito, brigando bravamente por respeito, brigando por justiça e por respeito como Elza Soares na sua música “A carne”. Brigando para conquistarem os seus espaços que, indubitavelmente, não poderiam ser mais bem ocupados senão por ELAS. Por ELAS que entendem o que é ser atravessada por opressões de gênero, de raça e de classe. Por ELAS que sabem que o homem branco nunca conseguirá representar mais de 80% da população negra de Salvador. Por ELAS, que quando se movimentam, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ELAS (parafraseando Angela Davis).
Acreditando em tudo isso e carregando comigo essa filosofia, estou com Olívia Santana e a Major Denice, por toda a história delas (que também é a nossa história), por tudo o que elas são, por tudo o que elas podem ser, por tudo o que representam para a comunidade negra soteropolitana.

CONHEÇA ALGUMAS DAS PROPOSTAS DAS CANDIDATAS:

OLÍVIA SANTANA: Maria Olívia Santana é uma política, pedagoga, militante do movimento de mulheres negras e fundadora da União de Negros Pela Igualdade. Filiada ao PCdoB, foi eleita a primeira mulher negra deputada estadual na Bahia, com 57.755 mil votos.
Propostas: Ampliação das vagas em creches; urbanização das favelas; criação do Centro de Referência de Atenção à Mulher nas regiões de Cajazeiras e no Subúrbio e a Secretaria de Políticas para as Mulheres; viabilização da implantação da casa da mulher brasileira com gestão compartilhada (Município e Estado); transformar Centro Histórico em ‘Vale do Silício” e criar rádio e TV da prefeitura; renovação das frotas de ônibus; criação do Plano Emergencial de Retomada Econômica, que inclui o fomento das cadeiras produtivas locais e articulação entre os municípios integrantes da Região Metropolitana de Salvador; projetos voltados para o combate à LGBTQIA+fobia, o racismo, o machismo etc…

MAJOR DENICE: Denice Santiago Santos do Rosário, mais conhecida como Major Denice Santiago, é uma policial militar e psicóloga brasileira.
Propostas: Reduzir impostos, destravar investimentos privados e acelerar alvarás de obras estruturantes, modernizando a cidade e gerando mais emprego e renda para a população; Criação de uma plataforma em parceria com gigantes do ramo de aplicativos para divulgar a oferta de serviços e produtos; tornar Salvador um polo da cultura audiovisual; programa de microcrédito (cursos e oferta de equipamentos para comerciantes e pequenos empresários informais); criar o circuito da cultura negra; fazer a maternidade municipal; criar centros de inovação e tecnologia etc…

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