“A proposta do livro é realmente mostrar o empreendedorismo que vai para além do que a gente conhece, a narrativa de empreendedorismo que é o homem branco do Sudeste que cria startup”. Oportunidades invisíveis (Matrix Editora) é uma obra diferente sobre empreendedorismo diverso escrito por Paulo Rogério Nunes. Publicitário, empreendedor e consultor em diversidade, Nunes tem uma vivência bem fora da curva, sobretudo para quem nasceu negro e na Bahia.

Com experiências acadêmicas internacionais em Harvard  (Alumni do Berkman Klein Center da Universidade) e Universidade de Maryland, Paulo Rogério foi escolhido como um dos afrodescedentes mais influentes do mundo, em 2018, pela organização Most Influential People of Africa Descent (MIPAD).Ele é professor do Universidade Católica do Salvador.

Um dos destaques da sua biografia é ter sido escolhido para um encontro privado com o ex-presidente Barack Obama no Brasil e foi o único brasileiro convidado para palestrar no primeiro evento internacional da Fundação Obama, em Chicago. Como empreendedor ele  é também cofundador da Vale do Dendê, que acelera e investe em startups da área criativa e digital em Salvador.

Para saber mais sobre o livro, conversamos com ele:

 Sobre o título, o que ” Oportunidades Invisíveis” realmente quer dizer? Você pensou na perspectiva do afro-empreendedor que ainda carece de conhecimento para aprimorar seu negócio, no Black Money, na falta de investimento, ou foi algo diferente? O que realmente é invisível nesse título?

Paulo Rogério Nunes: O título tem a ver com as oportunidades que a sociedade esquece, negligência e invisibiliza, em diversos pontos. O livro conta a história de dez empreendimentos que surgiram com o tema da diversidade, a partir de uma necessidade própria dos empreendedores, e que muitas empresas grandes nunca perceberam essa necessidade.   tema da diversidade, a partir de uma necessidade própria dos empreendedores, e que muitas empresas grandes nunca perceberam essa necessidade.   Então, recados como o de Diáspora Black que por conta de uma discriminação sofrida por um dos participantes, eles começaram a pensar e desenvolver uma plataforma para melhorar as experiências das pessoas negras em viagem e buscar ambientes seguros, sem discriminação. E a Lady Drive que não é um projeto exclusivamente para negros, mas que tem um foco nas questões das mulheres, que após um assédio que a fundadora sofreu em um táxi, ela criou um aplicativo para criar um ambiente seguro para as mulheres. Falo também da Ana Paula Xongani que visualizou na moda a possibilidade de uma maior representação estética negra. Enfim, eu vou contando a história desses empreendedores que não são visíveis para o mercado, não são visíveis para os investidores, não são visíveis nem mesmo na mídia. Mas que precisam ser divulgados, pois eles têm muito a falar para o Brasil.

Paulo Rogério com a companheira Keila Costa que revisou a obra     (Foto: Érique Batista)

 A ideia do livro veio antes ou depois do seu último encontro com o ex-presidente Americano Barack Obama. A maior parte dos projetos dele está ligada a potencializar talentos para melhorar o futuro do planeta, de que forma o estudo que você fez para o livro pode contribuir para o debate do futuro do país ou há outra pretensão por traz da obra?

A minha ideia de escrever um livro já é um pouco antiga, desde que eu tive a oportunidade de morar no Estados Unidos por conta de uma bolsa de estudos, e ver muita coisa interessante lá, voltei com essa vontade, mas com as atividades profissionais ainda não era o momento de parar para escrever. E aí depois do encontro com o ex-presidente Barack Obama eu tive um estímulo a mais para contar algumas histórias, mas não tem nenhuma relação direta.

Essa obra é um acúmulo das minhas experiências de viagens, das  pessoas que eu conheço que faz o empreendedorismo sem essa romantização e gourmetização, se dá por meio de empreendedorismo real. Aí eu vou contando histórias de outras pessoas, é um pouco de livro-reportagem mas ao mesmo tempo eu falo da minha própria vida e minhas experiências de viagem em países que encaram essa questão da diversidade do mundo dos negócios um pouco melhor.

Eu não posso confirmar 100%, mas eu tenho quase certeza que é o primeiro livro no Brasil que aborda a diversidade no mundo dos negócios na perspectiva direta, diversidade de maneira ampla. Falo de questões raciais, sim, tem a questão negra, mas também tem questões indígenas como tem um caso de um indígena que criou uma plataforma de notícias e música.

Então, eu falo da diversidade LGBT, questões de acessibilidade, enfim, diversidade de um modo geral. Não posso dizer que é o único, mas digo que é um dos poucos livros que abordam esse assunto, e que não estão na área de sociologia, antropologia que são super importantes, mas eu quis trazer esse livro para o campo dos negócios, para aproximar um pouco o mundo dos negócios do social e da discussão sobre diversidade.

Claro que me aprofundei um pouco mais na questão étnico-racial, tem um capítulo inteiro só dedicado a black money porque é um assunto que eu domino mais, os outros assuntos eu dei lugar de fala para as pessoas que entendem, que são de origem das diversidades que estão colocadas ali.

Paulo Rogério com o Diretor Spike Lee (Foto: Arquivo Pessoal)

É contraditório que no país mais negro depois da África haja tanta dificuldade em se praticar o Black Money. Como você tem sentido esse movimento nos últimos anos o que mais falta para avançarmos?

É bastante contraditório que um país como o nosso não tem ainda a rede de apoio e cooperação para o estímulo do empreendedorismo negro. É lamentável, mas é compreensível também, dado a natureza do racismo brasileiro, que sempre se escondeu em torno do mito da democracia racial, sempre de alguma forma colocou essa questão econômica em segundo plano.

Eu acho que é nossa geração agora tá pela primeira vez falando mais abertamente desse tema. Apesar da questão do empreendedorismo negro ser secular, já vem desde o final da escravidão, as mulheres negras lideraram esse processo já que não tinham formas de sobreviver senão empreender, vendendo frutas, acarajé, roupa entre outros. Mas essa geração agora, consegue entender esse elemento como elemento estratégico e político ao mesmo tempo, de criação de empresas negras e praticar o conceito de black money. Eu vejo que isso vem crescendo muito no Brasil todo, destaque nas cidades de São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro e outras cidades do Brasil, que de uma forma estão criando redes e negócios, seja na área da moda, entretenimento, tecnologia ou economia criativa de modo geral.

Isso é muito bom, algumas histórias que eu conto no livro como a de Xongani, Makeda, Diaspora Black e Laboratório fantasma, são empresas que representam um pouco dessa tendência de crescimento de negócios com perfil de fortalecimento da identidade negra. Um negócio que certamente trabalha com impacto social, todos eles trabalham com essa perspectiva.

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No dia 20 de janeiro de 2009 (uma década atrás), Barack Obama assumiria a presidência dos Estados Unidos inspirando pessoas negras de todo o mundo a sonharem mais alto. Na época, pedi a um amigo para guardar todos os jornais e revistas semanais pois queria guardar comigo essa memória e compartilhar com as próximas gerações esse legado. Porém, o destino me deu a oportunidade de conhecer pessoalmente esse grande líder há quase dois anos onde falei para ele sobre os desafios do Brasil (texto na bio) O mundo carece de lideranças políticas e empresariais que valorizem a diversidade e a cidadania como Obama. Não por coincidência hoje, feriado de Martin Luther King, nos EUA, uma mulher negra filha de imigrantes da Índia e Jamaica lança sua pré-candidatura a presidência de lá. Ou seja, @kamalaharris pode ser a primeira mulher a comandar os Estados Unidos. Quem sabe? #Lideranca #Diversidade #Cidadania #barackobama #kamalaharris

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 A pauta diversidade chegou nas grandes empresas para ficar ou você acha que é uma moda passageira? Poderia citar uns 3 cases que você acha exemplar?

Olha no livro eu falo muito pouco sobre a questão da diversidade nas empresas tradicionais, das grandes corporações brasileiras, mas eu chamo muita atenção de que essas empresas precisam fazer muito mais do que somente propaganda.

Eu percebo que cresceu muito nos últimos anos, essa preocupação de refletir a diversidade na propaganda, o que é excelente, é uma pauta que é mandada por ativistas e pesquisadores há bastante tempo, mas esse é apenas um passo. O passo mais importante do que a publicidade, é a diversidade dentro das empresas, a diversidade sobretudo na cadeia de valor, na cadeia de suprimentos dessas empresas.

No livro eu conto a história de uma articulação de empresas que investem um bilhão de dólares anualmente e compram produtos a mão de empresas minoritárias, esse tipo de coisa que a gente não tem no Brasil pelo menos não nessa escala.

Então acho que a gente está bastante longe ainda, de chegar nesse nível que alguns países como Estados Unidos, Canadá um pouco do Reino Unido tem, diversidade de cadeia produtiva. As empresas colocam padrões muito altos e só quem consegue entrar nesses padrões são as empresas tradicionais, mesmo na publicidade há uma falta de visão para apoiar projetos publicitários de ativação de marcas nas comunidades. A comunidade negra só é vista responsabilidade social, quando pode ser vista como parceiro de negócios para essas empresas também, ou como poderia ser vista como ativo. O livro é um pouco isso, apesar de não focar tanto no mercado corporativo, eu foquei no empreendedorismo que é outro lado demanda dos empreendedores de fornecer para suas empresas, e também de crescerem, porque se eles crescem o Brasil todo cresce.

Dentro dos cases que você escolheu para abordar no seu livro, quais foram os fatos que mais te surpreenderam?

Todos os cases foram muito interessantes eu darei destaques ao case da rádio Yandê que é a rádio indígena criada por Anápuáka Muniz, que é um case bem interessante porque ele nos mostra como nós somos ignorantes na questão indígena no Brasil.

Não entendemos nuances, as perspectivas.  Eles têm uma rádio há mais de uma década divulgando centenas de línguas indígenas, programas online, revelando artistas de Hip Hop e até de Heavy Metal, e esse é o tipo de informação que a gente não tem acesso.

Gostei também de contar a história do Hand Talk, que é um aplicativo de acessibilidade que permite a gente falar com as pessoas que não são ouvintes, a libra é uma língua brasileira oficial e quase ninguém fala disso. Então esses foram um dos cases interessantes, mas todos eles os leitores vão ver que são cases muito especiais, eu fiz essa curadoria pensando em trazer o melhor dessas áreas para que as pessoas pudessem conhecer. Obviamente não é um livro que feche o assunto, eu vou colocar mais conteúdo em breve no site do livro, porque tem muitas histórias que nunca foram contados e precisam ser contadas.

A proposta do livro é realmente mostrar o empreendedorismo que vai para além do que a gente conhece, a narrativa de empreendedorismo que é o homem branco do Sudeste que cria startup. Eu queria contar histórias diferentes e o foco do livro é exatamente mostrar que empreendedorismo é muito mais do que a gente vê na mídia comumente, é descolonizar um pouco essa visão do empreendedorismo. Mostrar que tem muita potência empreendedora, contar histórias de empreendedores que estão fora do radar das grandes empresas.

É preciso desgourmetizar o empreendedorismo, no sentido de mostrar pra eles o que vem da base, o que tem nas comunidades e nas necessidades das pessoas. Por que empreender é resolver problema, a essência de empreender é isso, muitas vezes as pessoas esquecem desse ponto, e a gente tem muitos problemas e consequentemente tem muitas possibilidades de resolver, criar soluções e inovar, essa é a perspectiva do livro.

Oportunidades invisíveis – Aprenda a inovar com empresas que apostam na diversidade e geram riqueza
Paulo Rogério Nunes – Editora Matrix
144 páginas
R$ 31,00

Fotos do lançamento do livro: Érique Batista 

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