O Globo publica reportagem sobre cientista Nina da Hora com foto de outra mulher negra

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O Globo publica reportagem sobre cientista Nina da Hora com foto de outra mulher negra
Fotos: Arquivo pessoal/reprodução

Pesquisadora revela que O Globo usou foto de outra mulher negra em seu nome desde 2022 e explica por que corrigir o site não resolve o problema no acervo.

O jornal O Globo publicou a fotografia de outra mulher negra associada ao nome de Nina da Hora na lista dos 101 brasileiros que constroem o futuro, divulgada no fim de semana. Cientista da computação e fundadora do Instituto da Hora, Nina denunciou o equívoco em publicação no LinkedIn nesta segunda-feira (27), na qual explicou que a imagem incorreta está catalogada em seu nome no acervo do jornal desde 2022.

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A redação trocou a fotografia no site em poucas horas depois de contatada, mas sem nota de correção. A edição impressa, que já havia circulado, permanece com o erro. O crédito publicado sob a imagem trazia a data de arquivo de 17 de novembro de 2022, o que evidencia que o vínculo incorreto entre nome e fotografia existe há quatro anos dentro do próprio banco de dados do jornal.

“O que aconteceu no domingo não foi o erro”, disse Nina, em publicação no LinkedIn, ao descrever a descoberta do equívoco durante o fim de semana. O problema real está registrado no acervo do jornal desde 2022 e respondeu de forma incorreta a buscas pelo nome da cientista ao longo de todo esse período, inclusive depois da correção feita no site.

A troca da imagem publicada não resolve a origem do problema, porque o par errado entre nome e rosto permanece no índice de arquivo do jornal, disponível para qualquer novo uso da fotografia. Nina escreveu um relatório técnico sobre esse comportamento antes mesmo do episódio, demonstrando que corrigir a cópia publicada não repara o sistema que a gerou. O relatório completo, em português e inglês, está disponível nos comentários da publicação, junto com a explicação sobre por que a troca no site não neutraliza a circulação da edição impressa.

O erro não envolveu inteligência artificial, mas um banco de imagens, um campo de metadado preenchido de forma equivocada e uma redação que não conferiu a informação. Esse tipo de banco não registra quem está de fato na fotografia, mas sim quem alguém escreveu que está, e qualquer sistema automatizado que consome esse dado herda a mesma falha, acrescentando a ela uma camada adicional de difícil reversão.

Cientista da computação, Nina da Hora pesquisa sistemas de identificação facial e espaços de embeddings, tecnologias em que a distinção entre pessoas de um mesmo grupo racial costuma falhar com mais frequência. O episódio reproduziu, fora de qualquer modelo de inteligência artificial, o mesmo mecanismo que ela estuda em laboratório, o que reforça o argumento de que falhas atribuídas a algoritmos com frequência têm origem em processos humanos anteriores à automação.

A mulher que aparece na fotografia publicada em nome de Nina não foi identificada nem procurada pelo jornal. A reportagem de Mundo Negro tentou localizar essa mulher e, até o fechamento desta matéria, não obteve êxito.

O caso se soma a um debate mais amplo sobre racismo algorítmico, termo cunhado por pesquisadores como Tarcízio Silva, autor do livro Racismo Algorítmico: Inteligência Artificial e Redes Digitais, para descrever como tecnologias de dados intensificam práticas discriminatórias em áreas como segurança pública, saúde e mercado de trabalho. Levantamentos independentes já mostraram, por exemplo, que sistemas de reconhecimento facial usados por forças de segurança apresentam taxas de erro mais altas para rostos negros, e que algoritmos de redes sociais tendem a priorizar imagens de pessoas brancas em testes comparativos. O episódio com Nina da Hora acrescenta a esse debate um exemplo de falha registrada antes de qualquer automação, na etapa de catalogação manual de um acervo jornalístico.

Nina da Hora integra a lista de homenageados da PowerList Mundo Negro 2026 na categoria Ciência, Tecnologia e Inovação, reconhecimento concedido a profissionais negros que se destacam na produção de conhecimento e na fiscalização pública de sistemas automatizados no país. Até a publicação desta matéria, O Globo não havia se manifestado publicamente sobre o episódio além da troca da fotografia no site.

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